“Só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa”
Por ocasião da Colação de Grau da Turma CNA 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis (Canoas/RS) que realizou-se no dia 19 de janeiro de 2012 no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, o integrante deste blog, Celso Augusto Uequed Pitol, escolhido orador de sua turma, proferiu o seguinte discurso que aqui será reproduzido na íntegra a pedido dos novos bacharéis, perfeitamente cônscios do sentido do “presente precioso” referido pelo paraninfo, Prof.Andrio Portuguez Fonseca..
Ilustríssimos componentes da mesa, queridos colegas formandos, senhoras e senhores.
No último dia do ano letivo de 1905 um estudante de 17 anos foi chamado ao púlpito do auditório da Academia Smith, nos EUA ,para fazer o discurso de formatura. Seu nome era Thomas Stearn Eliot. Ele era então um jovem promissor, e decerto seus colegas e professores esperavam muito dele. O que talvez ninguém imaginasse era que o jovem Thomas viria a ser considerado como um dos maiores poetas do século XX, figurando na história da literatura sob o nome de T. S. Eliot. Naquele momento, entretanto, era apenas o jovem Eliot – um garoto que dava seus primeiros passos no caminho da vida.
E foi com a decisão de quem dá um passo largo porém firme e animado por uma profunda convicção em si que o então jovem Eliot disse as seguintes palavras:
“De pé junto à praia que todos conhecemos
Hesitamos em dúvida por um momento
Depois, com uma canção nos lábios, velejamos
Pelos baixios da enseada – sem mapa para indicar
Sem luz para iluminar as rochas do fundo
Mas concedei ainda que nos aventuremos.
Como colonos que embarcam no cais
Em busca de fortuna numa praia distante
Bem sabem que perdem aquele tempo
Que jamais haverão de resgatar,
E quando partem compreendem cabalmente
Que, ainda que revejam sua terra natal
Não mais ali serão como cidadãos
Embora a senda seja lenta e tortuosa
Embora se crispe diante de mil temores
Ao olho crédulo da juventude ela parece
Uma vereda onde florescem o pilriteiro e a rosa.
Esperamos que assim seja; pudéssemos sabe-lo!
Pudéssemos contemplar os anos vindouros.”
Temos aí uma convocação. Eliot compara seus colegas de academia a colonos prestes a embarcar rumo ao mar desconhecido que se lhes abre à frente. Pede que sejam corajosos, que agüentem a senda “lenta e tortuosa” sem mapa nem guia ou sequer luz para lhes iluminar o caminho.
Não há promessas de se chegar ao destino desejado: a falha é um elemento presente, e por isso diz: “hesitamos em dúvida por um momento”. Mas isso é passageiro. Embarcam “com uma canção nos lábios”, sem medo do que lhes aguarda. E mesmo sem promessas ou perspectivas definidas, o jovem Eliot projeta:
“Daqui a muitos anos, quando já formos
Velhos e grisalhos, qualquer que seja a nossa sorte,
Desejaremos contemplar ainda o sítio que,
Pouco importa o que sejamos ou o que houvermos feito,
Ou em que terras distantes possamos ter estado,
Nunca esquecemos depois de todos estes anos”.
Eliot está certo de que a viagem terá volta: está certo de que os “colonos que embarcam no cais” a ele retornarão. Está, em uma palavra, confiante.
O poema declamado não ficou esquecido numa gaveta, junto a fotos antigas, bilhetes que nunca encontraram destino e cadernos dos tempos de colégio. Considerou seu autor que mereciam a recompensa suprema da permanência: afinal, só importa aquilo que permanece, e permanece aquilo que importa. Juntou-o a outros escritos da mesma época num só volume e deu-lhe singelo e revelador titulo: “Poemas escritos na primeira juventude”.
Ali encontramos o frescor, a vontade de enfrentar o novo, a celebração da vida tudo o que se pode esperar da primeira juventude. Mais do que tudo isso, entretanto, encontramos confiança: confiança do jovem no futuro, no sucesso, em si mesmo, no que é e no que poderá ser. Ousamos dize-lo: se há uma palavra que transparece na leitura deste poema – e usar apenas uma palavra para resumir Eliot é, no mínimo , ousadia – , esta palavra é “confiança”.
O tempo passou. Eliot já não está entre nós. Suas palavras, no entanto, permanecem vivas: afinal, só importa o que permanece, e permanece o que importa. Tal como ele e seus colegas, portamo-nos de pé “junto à praia que todos conhecemos”, à espera da “senda lenta e tortuosa”. E se nos é permitido pensar, em mais um arroubo de extrema ousadia – pois é momento de sermos ousados – , que podemos ter algo em comum com o autor deste poema, que seja num só aspecto de sua genial personalidade: o da confiança. É assim que desejamos portar-nos agora: confiantes no caminho que vamos percorrer.
A confiança nos será uma companheira valiosa. Se caminho aberto diante de Eliot se avizinhava lento e tortuoso, não o será menos o nosso. Ousemos novamente – pois, como dissemos, é momento de sermos ousados – e digamos logo: nossa senda é ainda mais tortuosa e mais difícil do que a dele. Eliot e seus colegas vislumbravam o mundo pronto que diante deles se abria, o mundo com suas cores, sons, silêncios, fúrias, alegrias tristezas, vibrações – um mundo para ser visto, saboreado, conhecido, contemplado com olhos de menino admirado e assustado ante o novo. Diante de nós abre-se outro caminho: o mundo que encontramos não está aí apenas para ser contemplado com os olhos de meninos assustados. Já não estamos na primeira juventude. Não, o mundo que encontramos agora nos impõe uma tarefa – uma missão. Recebemo-la desde o momento em que entramos pela primeira vez no portão da faculdade como alunos de Direito. Ali, começamos a nos preparar para este momento de partida para o mundo – e foi um longo preparo.
Começamos investigando os fundamentos da ciência jurídica, do Estado e da Constituição, a fim de assentarmos a base sobre a qual erguer-se-ia o monumental edifício; depois, empreendemos o estudo da sociologia, do Direito Civil e dos Direitos Fundamentais, diretrizes-mestras para os homens viverem em harmonia: até este momento somos primeiranistas e o Direito se nos parece uma lindíssima discussão entre alguns dos maiores nomes do pensamento humano; a seguir, como que para coroar nossa entrada no mundo mais duro dos adultos, vemos os contratos e as obrigações – o que só é facultado aos adultos – e os primeiros passos de processo civil. Assim seguimos no estudo das relações familiares, que é coisa de adultos mas exige que entendamos um pouco aqueles que ainda não são adultos; entra o terceiro ano de faculdade e adentramos com força nos domínios da propriedade, do capital e do trabalho: estudamos a empresa, os títulos de crédito, o direito das coisas e o direito trabalhista. No quarto ano, já somos suficientemente grandes para confrontarmos o Direito Penal e descermos aos subterrâneos da espécie humana guiados por nossos professores, como Dante guiado por Virgílio pelos subterrâneos do mundo. No último e derradeiro ano somos levados para o alto, para longe destas profundezas – estudamos as impessoalidades do Direito Administrativo, do Direito Econômico, do Direito Tributário, Societário e Internacional. Nestas alturas terminamos nossos anos de formação – tudo mediado e facilitado pela amizade e pela convivência com os colegas que se tornaram nossos amigos nestes anos todos. Antes, falávamos por nós e agíamos por nós. Hoje, falamos por nós e por todos aqueles que desde a aurora dos tempos ajudaram a fazer do Direito não apenas uma ciência mas uma realidade concreta, e do estudante de Direito e do jurista promotores desta ciência e desta realidade. É esta régua pela qual seremos medidos daqui para frente. Nada mais, nada menos.
Ser medido por esta régua é difícil. É difícil também mantermo-nos dentro de seus limites. O mar que se nos abre à frente é cheio de perigos. Suas águas revoltas não perdoarão marinheiros mal preparados e navios mal construídos, e sua imensidão guarda terras ignotas, perigosas e viciadas. Camões parecia saber disto ao exortar seus compatriotas a dilatar a fé e o Império. Também nós, a cada metro que vencermos em alto mar, estaremos dilatando o Império do qual nos fizemos súditos e da fé em que fomos batizados durante nestes anos de formação: a fé na Justiça e o Império da lei.
É claro que esta empresa não se conseguirá por espasmos de grandiosidade, e não fincará solo pelas simples palavras. Serão os nossos atos cotidianos, pacientes, aparentemente simples que levarão a termo a tarefa que recebemos. As vicissitudes da vida nos levarão para trajetórias diversas. Se hoje, aqui sentados, estamos um ao lado do outro, sabemos no fundo que, no futuro, não será mais assim: sabemos, no fundo, que chegará o momento em que, perdidos em alto mar, cercados de perigos, olharemos para o lado e não mais veremos a face amiga de nossos companheiros de fé. Chegará, sim, o momento em que nos sentiremos solitários em alto mar. Pareceremos então sozinhos, desconectados um do outro. Apenas pareceremos. Estar junto nada mais é do crer nas mesmas coisas. E nós, daqui para diante, se agirmos conforme a fé que recebemos e dilatarmos o Império que habitamos, mesmo que não vejamos uns aos outros, estaremos juntos para sempre. Mas é preciso que, contra vento e maré, dilatemos a fé e o Império.
Eis a missão que nos é dada hoje, nesta noite.
É então chegada a hora da partida. Da praia que todos conhecemos avistamos o mar revolto que iremos enfrentar. Estamos munidos da graça concedida, da fé que professamos, do aprendizado que recebemos, do estandarte do Direito a ser carregado por onde estivermos e fincado onde ele não imperar. Já é ousadia suficiente. Mas o momento, repetimos, é dos ousados. E por isso, ousamos pela terceira vez. E ousamos agora fazer um pedido – um longo pedido Àquele que, acreditamos – ao menos aqueles que acreditam – , será capaz de atendê-lo. Pedimos que a travessia que fizermos, conquanto longa, seja repleta de todo o melhor que uma travessia pode trazer; que ela sirva para pôr em prática o que aprendemos, e para que aprendamos ainda mais; que o passar do tempo não nos transforme no futuro em simples ex-colegas de faculdade; que as tempestades que enfrentarmos não nos impeçam, e que as dificuldades não nos endureçam – que permaneça entre nós um pouco deste nosso olhar de meninos assustados e admirados diante da vida, um pouco do que nos resta da primeira juventude; e que, ao reunirmo-nos de novo nesta praia, restem apenas as melhores lembranças da longa travessia. E que nunca, nunca, deixemos de confiar – no que aprendemos nestes anos de formação, no que aprenderemos no caminho que escolhermos e, principalmente, e ao fim de tudo, no que somos. Pois só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa.
Muito obrigado.
Programa “Diálogo” – número 3 – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
Neste segundo programa “Diálogo”, eu e meu amigo Marcus Boeira abordamos a publicação do livro “”A Natureza da Democracia Constitucional”.
Desde já, agradecemos a audiência e aguardamos manifestações dos leitores.
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
“Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Astier Basilio é um homem dedicado à palavra. Poeta, filho de repentista, pode, como poucos, entoar o que escreveu José Hernandez em “Martin Fierro” sem soar falso: Cantando me he de morir/ cantando me han de enterrar / y cantando he de llegar / al pie del Eterno Padre / Dende el vientre de mi madre / vine a este mundo a cantar. Jornalista há quase duas décadas, contista há mais ou menos o mesmo tempo, nunca trabalhou até hoje em nada que não estivesse direta ou indiretamente ligado às letras. Com 9 livros publicados e preparando mais um, nada indica que as coisas irão mudar. Nesta entrevista – conduzida, numa curiosa coincidência, no dia 20 de outubro, o dia do poeta – o tema não pode ser outro que não a palavra, seja na forma da poesia, da música, do romance, seja a dos outros, seja a sua própria. A palavra que, como disse Georg Steiner, está em crise.
A poesia te acompanha desde quando?
Astier Basilio: Olha, sou filho de repentista. Meu pai e meu tio não só improvisavam ao som da viola, como escreviam folhetos de cordel. A poesia chegou pra mim pela vertente popular. Eu sabia que minha vida estaria ligada a isso. Então, comecei a escrever aos 14 anos. E como a poesia popular era, e é, muito ligada à métrica, à rima, comecei a escrever muito atrelado às escolas tradicionais como o simbolismo, o parnasianismo e o romantismo. Aos 14, publiquei meu primeiro poema; aos 18, meu primeiro livro.
Não posso deixar de lembrar do velho Gerardo Mello Mourão, que dizia ser o repentista o aedo do sertão, no sentido de captar aquele sopro ‘homérico’, que é o sopro da grande poesia popular de todos os lugares. Diante disso, pergunto: acredita na separação radical entre poesia e música?
AB: Eu só sou poeta porque eu não consegui ser cantador. Tive resistências em casa, da minha mãe. Ela queria que eu estudasse. Aos 23 anos, já formado, com alguns livros publicados, comecei a cantar, algo que faço até hoje, mas de maneira amadora e por diversão. De modo que há uma referência muito forte da tradição oral, desde algo mais direto, como o ritmo e a musicalidade, até num via mais complementar, como é o caso da investigação que venho fazendo da rima toante. Mas te respondendo e parafraseando Nietzsche: não acredito em um poema que não saiba cantar.
Qual a sua formação acadêmica?
AB: Cursei, ao mesmo tempo, jornalismo e letras. Estudei literatura o tempo todo na minha graduação, mas peguei o diploma de jornalismo. A base da minha formação veio de Letras, isso do ponto de vista teórico, mas foi o ambiente do curso, com o que há de pior, de politicagem, que me afastou de prosseguir na vida acadêmica… por outro lado, comecei no jornalismo pela opinião. Antes de ir para redação, onde ainda hoje atuo, comecei fazendo crítica literária, então, a minha base em Letras serviu de porta de entrada para o jornalismo
Onde trabalhou com crítica literária?
AB: Comecei escrevendo no suplemento Painel, do jornal da paraíba – isso em 2000 – depois, colaborei em quase todos os jornais da Paraíba – A União, no suplemento Idéias, no Correio das Artes, e no Diário da Borborema. Sempre fazendo crítica literária
Fala um pouco disso – fazer crítica literária num país como o Brasil. Onde, depois da morte de Wilson Martins, fica difícil encontrar – ao menos na chamada “grande imprensa” – um verdadeiro crítico.
AB: É algo que te coloca no mundo literário, sem dúvidas. Estabelece uma ligação com quem está produzindo no país todo e, o que é muito importante, cumpre um papel social, público, de apresentação da literatura contemporânea. Há uma espécie de fraternidade secreta, sobretudo, entre os poetas e os que escrevem sobre. Uma brigada de resistência. Poetas não ganham dinheiro com seus livros. Então, é algo maior que conecta todas estas vozes. Há muita beleza nisso. Creio que, o lugar da crítica fica quase como uma militância exercida pela própria poesia: a de continuar, a de resistir num mundo que tem banido cada vez mais a reflexão
Nesse sentido, tu acreditas na crise da palavra, de que nos fala o George Steiner?
AB: Não só a palavra, mas tudo está em crise, em crise permanente. Hoje, na redação, curiosamente, uma colega me leu, em um site, a notícia de um pastor que proclama o fim do mundo para esta próxima sexta. Conjecturei que, de alguma forma, desde o Éden se prenuncia esse fim. Como na verdade veio. O mundo do paraíso acabou. O mundo pós paraíso também, com o dilúvio. Enfim, a todo instante o mundo está começando e a acabando.
E a poesia ajuda nesse processo de refundação, por assim dizer? É um dos papéis dela?
AB: Acredito que sim. Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar. Ainda hoje, alguém se colocar no mundo como poeta – isso do ponto de vista sociológico, vou nem falar estético, por aí é outro discurso, é um milagre.
Entendo. Mas também á uma responsabilidade, não é? Para apresentar-se como poeta é preciso sê-lo de fato. Isso não ajuda a restringir o uso da palavra “poeta’ para definir a atividade pública de alguém?
AB: Eu vejo a coisa até do modo mais simples. Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda. Não sei se temos, já impregnado, a noção hierárquica de Pound, em sua classificação de ‘inventor’, ‘mestre’, ‘diluidor’… Temos uma certa aristocracia, uma postura elitista – que eu acho importante do ponto de vista estético. Sim, há poetas e poetas, uns melhores ue os outros. Mas o contexto a que me refiro é o contexto de inserção do ser poeta dentro uma sociedade, acredito que, aí, o parâmetro é outro
Só queria umas palavras a mais acerca disso – “Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda”
AB: Num mundo hoje em que jovens estão se acabando em drogas, sem perspectiva de vida, numa sociedade cada vez mais brutalizada e tal, alguém que diante do mundo se afirme como poeta, mesmo que escreva ruim, mesmo que seja alguém que esteticamente esteja bem aquém do que a linguagem poética conquista, esse alguém, no lugar em que ele estiver, na circunstância em que ele estiver agindo, vai ser um agente poderoso. Neste sentido, eu que acredito na aristocracia da estética, na hierarquização, mesmo subordinada e assentada em valores muito subjetivos, mesmo assim, eu não tenho a postura excludente e negativa em relação a quem se diz poeta no mundo de hoje. É sob este olhar que eu celebro a poesia, mesmo a ruim. Aliás, poetas ruins, poemas ruins, são regra, a poesia poesia é sempre exceção. Mas não só com a poesia funciona isso, com a arte de um modo geral. A boa peça, a boa música, o bom romance, são figuras de exceção numa horizonte de mediocridade. Os medíocres venceram. Eles são muito mais competentes do que quaisquer outros. Não só venceram como se adaptam bem em qualquer lugar. Mas o tempo é o mais cruel dos críticos. Por mais que os medíocres se deem bem, o esquecimento é algo que lhes espera.
Nesse sentido, a pergunta se impõe: o Brasil é um lugar onde o medíocre se adapta melhor? Ou a nossa mediocridade não é melhor nem pior do que a mediocridade alheia?
AB: Tenho pra mim que a mediocridade é universal. Salieri sempre vai ser o músico oficial da coorte. É difícil dar uma visada tão ampla, mas me lembro de uma entrevista que li há muito tempo, ainda havia guerra fria, em que um escritor, talvez o márcio souza, questionou a qualidade literária do presidente da associação dos escritores da União Soviética, então, o russo devolveu de modo cruel: “e aí no Brasil? CArlos Drummond dirige a UBE?” – então, por outro lado, os Carlos Drummond vão estar sempre compromissados com algo que vai além do temporal, as coisas do agora, ficam com os medíocres. Mas, por outro lado, e eu vejo isso mais em ficção do que em poesia, é possível se fazer muito barulho, muito festa em torno de autores com qualidade muito limitada, mas, de certa forma, tem de se ver a época em que estes autores estão escrevendo, não é? Veja, no cinema por exemplo, um cara como um Tarantino, que é considerado, e é, um grande cineasta, se tivesse nascido nos anos 60, morreria de fome… Já imaginou, no mesmo ano você ter obras-primas de caras como Godard, Bergman, Fellini… então, depende muito do contexto e do tempo histórico que a gente está falando
Quais poetas brasileiros vivos destacarias?
AB: Há autores que têm uma ligação com a tradição da lírica ocidental que eu destacaria: Ivan Junqueira, Alexei Bueno, Antonio Carlos Secchin, Marco Lucchesi, isso sem falar em Ferreira Gullar, Adélia Prado, apesar das repetições, Manoel de Barros. gosto também da poesia dos grandes autores nordestinos, de Alberto da Cunha Melo, único falecido que eu acrescentaria à lista, além de Nauro Machado, José Chagas, no Maranhão, Francisco Carvalho, Sânzio Azevedo, os irmãos Virgílio Maia e Luciano Maia
Vários destes nomes que tu citaste são relativamente mais jovens, como Alexei Bueno e Marco Lucchesi, e devotos da tradição. Não são os únicos. Dá para dizer que existe uma corrente de poetas brasileiros na casa dos 40 anos que defende esse retorno?
AB: Acredito que sim. Mas, veja só, mesmo Haroldo de Campos, atendo-se aos últimos trabalhos dele, como “crisantempo” e “a máquina do mundo repensada” esse retorno se efetiva e mesmo Augusto de Campos também experimenta o verso, as potencialidades dele. Agora, Deus criou o mundo, o diabo as cercas… então, há uma série de contingenciamentos, de demarcações e isso em poesia é muito evidente que criam facções, estabelecem dissensões, o que não me interessa por completo. Mas, respondendo objetivamente, há, sim, autores experimentando as potencialidades e todo o arsenal técnico da tradição. João Cabral é o melhor exemplo ocorre que ele, como Machado, foi sequestrado – Machado pela esquerda universitária João Cabral pelos concretos, mas, tanto um como o outro estão para além disso e dos grupos que os prenderam para si.
Acha que isso acontece com outros autores?
AB: Sim. Guimarães Rosa, Glauber rocha, conseguem ser o herói de tribos rivais, o que é prova de gênio. Nestes casos, há superfície e profundidade, e em geral, uns ficam em uma parte da obra. Faz tempo que sai da academia, mas era a impressão que eu tinha. Acredito que é mais visível com machado. Da mesma forma como o embranqueceram no começo do século, agora, puseram-lhe a camisa do ‘Che’ o punho erguido e o slogan: “a luta continua”. Se o velho Bruxo pudesse ver isso, estaria a mangar do periferia do seu cinismo.
Apesar desses nomes todos, Não temos vivos um Drummond, um Bandeira, um Cabral de Melo Neto, certo?
AB: Não, não temos
E já tivemos. Os três, vivos. Nos anos 50, 60.
AB: E nem no romance, não temos ninguém como Guimarães Rosa, José Lins, Jorge Amado
Sim, nem esses no romance. Eu não saberia dizer que é o grande romancista brasileiro hoje.
AB: Há duas grandes expressões da prosa: Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que há décadas escrevem o mesmo livro – o mesmo bom livro, mas o mesmo livro. E o Milton Hatoum é bom-moço demais para mim.
Entao, estamos autorizados a falar em queda de qualidade?
AB: Olha, eu não iria a tanto. Há, potencialmente, escritores muito bons que eu acredito ainda renderão o seu melhor. Penso em Michel Laub, Marçal Aquino, Ronaldo Correia de Brito, Diter Stein, Ricardo Lísias, há um potencial. Agora, acho que não sei se vamos reviver um fênomeno como o romance de 30, por exemplo. por que nós falamos do romance de 30 com os olhos de hoje, não com os daquela época. mas houve uma série de autores menores que disputavam espaço e que apostavam a permanência deles. gente que sumiu na poeria do tempo. eu sempre me recuso a olhar o passado com candura, e, de algum modo, por mais que eu reconheça as precariedades do nosso tempo, não me sinto à vontade com esse discurso não. é preciso tempo, formar-se uma espécie de caldo cultural.
E quanto à poesia popular? Acha que um poeta deve aproximar-se dela, pelo menos como forma de conhecimento das variantes da linguagem poética?
AB: É difícil para mim dar esse tipo de depoimento porque eu não consigo me ver como alguém de fora. eu sempre pertenci a este mundo. Mas acho que, na medida em que for verdadeiro para o poeta, para sua história, sim. Pra mim, como tu disseste, ela foi um grande ensinamento. Tive a sorte, a felicidade, de me encontrar com ela, de em muitos momentos da minha vida ter a poesia popular muito próximo, mas acho que, de uma maneira ou de outra, a poesia tem de se sujar de vida. De verdade. Eu vejo muitos poemas por aí que fedem a limpo, a laboratório. Parecem sem sangue, sem carne, sem história. Acredito na poesia que tenha, sim, uma expressão de experiência. A gente cita muito o verso de cecília “poesia é grito, mas grito transfigurado”.olhando muito pro “transfigurado”. Mas não dá pra esquecer q poesia é, sim, primeiramente, grito. E a expressão desse grito tem de ser muito peculiar, muito particular. Ah, nisso, acredito que sim, há um universo muito rico de possibilidades. E penso, sobretudo, em grandes expressões da literatura no mundo que se valeram do repositório popular como Shakespeare, Lorca, etc
Recife frio
Excelente curta dirigido por Kleber Mendonça Filho.
A Jornada dos Magos

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália
T.S. Eliot escreveu “A Jornada dos Magos” em 1927, para uma série de cartões ilustrados da editora Faber and Gwyer (atual Faber and Faber) intitulada “Poemas de Ariel”. Escreveu-o pouco depois de ter se convertido ao cristianismo, a portas fechadas e sem alarde, para, dizem, não ferir as suscetibilidades do meio literário. A conversão acabou com seu casamento e trouxe-lhe a pecha de poeta cristão, altamente negativa em certos círculos: deixou-nos, no entanto, esta página e muitas outras: escrito sob o ponto de vista de um dos três Reis Magos a testemunhar o nascimento de Jesus, “A Jornada dos Magos” é, até certo ponto, testemunha do momento vivido pelo próprio Eliot – momento que, creio, é o mesmo para todos os convertidos.
Aqui está uma leitura do poema feita por Eliot, precedida de uma breve explicação.
A tradução é de Ivan Junqueira.
* * * * * * * *
“Foi um frio que nos colheu
Na pior quadra do ano
Para uma viagem, e longa era a viagem:
Os caminhos enlameados e o tempo adverso
Em pleno coração de inverno.”
E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,
Jaziam em meio à neve derretida.
Foram momentos em que recordamos
Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,
As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.
E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam
E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.
E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,
As cidades hostis, as vilas inóspitas,
As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.
Foi uma rude quadra para nós.
Ao fim preferimos viajar à noite
Dormindo entre uma e outra vigília,
Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo
Que aquilo tudo era uma loucura.
E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,
Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,
Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,
E três árvores recortadas contra o céu baixo,
E um velho cavalo branco a galope pelo prado.
E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;
Seis mãos se viam pela porta entreaberta
A disputar peças de prata com seus dados,
E pés que golpeavam os odres já vazios
Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos
Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,
E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.
Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,
E outra vez o farei, mas considerai
Isto considerai
Isto: percorremos toda aquela estrada
Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,
Tinhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,
Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,
Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.
Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,
Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,
Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.
Uma outra morte me será bem vinda.
Читать не вредно. Вредно не читать ou Ler não é ruim. Ruim é não ler
A editora russa EKSMO realizou um concurso sob o título Ler não é ruim. Ruim é não ler. O vencedor foi o trabalho Читать не вредно de Anastasia Gorbunova.
O melhor jogador dos últimos 20 anos
Aproveitando o ensejo do momento, que confirma e sustenta a nossa escolha, o Blog Perspectiva gostaria de homenagear o maior jogador de futebol dos últimos 20 anos – ao lado de Zidane e Romário, mas merecedor de menção especial por ter brilhado em clubes muito pequenos e ter jogado numa seleção muito menos prestigiada.
Levou o pequeno Steaua Bucaresti, da paupérrima Romênia, a ser campeão europeu em 1986, semifinalista em 1987 e vice campeão em 1988, numa era dominada por clubes como Milan, Juventus e outros do mesmo calibre. Pelo Galatasaray, anos depois, foi campeão da Copa da UEFA, levando o clube turco ao seu primeiro grande título.
Dele disse Luis Fernandez, ex-jogador francês: “Hagi é como o vinho, fica melhor a cada ano que passa”.
Provavelmente por isso retirou-se em 2001, aos 36 anos: percebendo que ficaria demasiadamente acima de seus adversários, achou a comparação injusta e deixou o futebol moderno para aqueles que o merecem.
A Igrejinha de São Damiao
De cada riso e dor
De cada espinho e flor
Construo a casa do meu senhor
Com o que o mundo abandonou
De cada pedra do chão
Construo o templo do coração
A cada dia que vem
A cada dia que vai
Ergo em mim a casa de meu Pai
Programa “Diálogo” – número 2 – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
Neste segundo programa “Diálogo”, eu e meu amigo Marcus Boeira abordamos o tema do totalitarismo moderno.
Desde já, agradecemos a audiência e aguardamos manifestações dos leitores.
Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora
Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora
“Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se para o Ensino Superior.
Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.
O Timoneiro: Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?
Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.
OT: Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.
CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.
OT: A idéia é mapear toda a cidade?
CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.
OT: Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?
CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade. Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.
OT: Quais disciplinas ministrou?
CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.
OT: Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?
CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.
OT: Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?
CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido, foi condenada e foi para a prisão. Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.
OT: Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?
CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.
OT: Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?
CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.
OT: E não são vozes iguais.
CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.
OT: Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?
CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia, mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.
OT: A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…
CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.
OT: Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?
CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim, muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.
Oficina de Criação de Textos
Meu amigo Daniel Mello me informa que está ministrando uma Oficina de Criação de Textos. Destinada a estudantes, profissionais de qualquer ramo de atuação e apreciadores da escrita, a oficina contará com grupos de até seis pessoas, de modo a dar um atendimento individualizado e eficaz para todos os participantes.
Serão quatro encontros, todos às terças-feiras – entre 19h20min e 21h50min- a partir do dia 25/10, exceto dia 15/11 – feriado. Turma aos sábados com início no dia 29/10 – sempre entre 11h e 13h30min, também quatro encontros exceto no dia 12/11 – feriadão.
As aulas serão na sede da GoMarket – Rua General Câmara, 432 – Sala 302 – Porto Alegre/RS.
O valor do curso é de R$ 380,00 para as 10h de aula em grupo e mais 2h de aula individualizada.
Reserva de vagas pelo fone (51) 3224-0046 ou pelo e-mail gomarket@gomarket.com.br.
Mais informações pelo blog do Daniel.
Dica para Rafinha Bastos
Para quem quer aprender a fazer humor “politicamente incorreto” de verdade.
Entrevista: Deise Cristina Padilha “A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão”
A Jornada Mundial da Juventude foi realizada em Madrid, Espanha, entre 16 e 21 de agosto deste ano e reuniu em torno de 2 milhões de jovens de 182 paises diferentes. Uma delas foi a arquiteta canoense Deise Cristina Padilha. Participante de movimentos de jovens da Igreja Católica desde os 13 anos, tendo desempenhado a função de catequista na Paróquia São Luiz, em Canoas, Deise faz parte de uma nova geração de jovens católicos caracterizada pela tendência missionária, seguindo o conselho do papa Bento XVI de “ levar a fé a outras terras e países onde há multidões de jovens que aspiram a coisas maiores, vislumbrando nos seus corações a possibilidade de valores mais autênticos, e sem deixar-se seduzir pelas falsas promessas de um estilo de vida sem Deus”. Na entrevista a seguir, Deise falará da sua experiência na Jornada, da relevância deste evento para os católicos do mundo todo e do que a Igreja tem a dizer aos jovens cristãos.
Em primeiro lugar, Deise, queria que falasses um pouco da tua participação dentro da Igreja Católica. É algo que sempre te acompanhou?
Deise Padilha: Sim, sempre participei com meus pais e desde muito nova tomo parte de grupos de jovens. É algo que sempre fez parte da minha vida.
Como tu vês a inserção de um jovem que aceita e proclama os valores ligados à Igreja em uma sociedade que, muitas vezes, não está de acordo com eles?
DP: A inserção nem sempre é automática e nem sempre é fácil. Também por isso a Jornada Mundial da Juventude é importante. Tu vês pessoas com valores iguais aos teus e que afirmam esses valores em algo e bom som. Às vezes, as pessoas têm os valores, são cristãs, mas não afirmam, porque parece que estão sozinhas. A partir do momento em que tu vês pessoas que vivem os valores da Igreja e vibra pelas coisas da Igreja e pelo papa tu te sentes, de certa forma, revigorado.
Isso entra um pouco já na questão dos objetivos que a jornada tem. Fala um pouco deles.
DP: A jornada tinha por tema “Arraigados em Cristo e firmes na Fé , o que , de certa forma, já explica qual é o objetivo dela. Como disse o papa, é trazer um novo ar, uma nova confiança para o jovem cristão atuar no mundo.
A Jornada Mundial da Juventude não é uma iniciativa nova, não é?
DP: Não. Ela existe desde 1985. Foi iniciativa do papa João Paulo II, que sempre marcou o pontificado dele por uma ligação próxima aos jovens. Inclusive chegaram a pensar que o Bento XVI, quando assumiu, não fosse ter a mesma ligação com a juventude, mas não tem sido assim.
Quais as principais atividades realizadas na Jornada?
DP: Muitas coisas. Madrid ficou toda preparada para esperar os visitantes, foi uma mobilização muito grande da cidade. Museus, palácio, todas as igrejas, enfim, tudo ficou aberto para receber os jovens da jornada, para visitação e para os peregrinos. Visitei muitas igrejas. Um dos locais que mais me chamaram a atenção foi a festa do perdão, que tinha como objetivo principal chamar os jovens para um reencontro com Deus. Havia confessionários destinados a pessoas em várias línguas, com um sacerdote escolhido para falantes de cada idioma. Tomamos partem em várias atividades,mas era tudo cronometrado também por causa dos encontros com o papa, que eram muito freqüentados e exigiam que sempre chegássemos cedo. Tivemos vários encontros,vários eventos e palestras .
Qual era a reação dos jovens de outros paises quando tu falavas que eras do Brasil?
DP:Era uma reação muito positiva, inclusive porque a próxima Jornada, em 2013, será aqui,no Rio de Janeiro. Quando eu andava com a bandeira do Brasil sempre havia alguém pedindo para trocarmos as bandeiras. Eram muito simpáticos a nós e havia sempre uma palavra a dizer sobre a alegria dos brasileiros.
A convivência com eles era próxima?
DP: A convivência mais próxima era com brasileiros, mas também tivemos uma grande interação com gente de outros países, conversando, trocando idéias e materiais daqui com eles. Foi muito bom ver a cultura dos outros, a característica de cada um, como todos são diferentes entre si e, ao mesmo tempo, se parecem em tantos aspectos. Os italianos, por exemplo, são bem alegres, estão sempre cantando. Tivemos gente de Israel, Cuba, da China e de vários outros lugares – aliás, no caso de Cuba e China é importante ressaltar que são paises onde as religiões não são bem vistas pelos seus regimes políticos e que, mesmo assim, os representantes desses países fizeram questão de vir. Encontramos uma menina de Cuba e perguntamos se ela viria ao Brasil em 2013 e ela disse que gostaria, mas que precisaria esperar para saber, pois sair do país era muito difícil. Só por aí já dá para termos uma noção de como era grande o empenho de muitos para ir ao evento.
Mas o contato mais próximo foi com brasileiros?
DP: Sim, foi mais com eles.
Te parece que a realização no Brasil de um evento desses pode ajudar a revigorar a presença da Igreja nas Sociedade Brasileira?
DP: Acho que sim. Um evento como a Jornada é algo muito impactante. São literalmente milhões de jovens de todo o mundo que escolhem o teu pais para passar uma semana e isso inclui, naturalmente, jovens do próprio país. Essa jornada será também uma oportunidade para jovens brasileiros de todos os cantos do país. Acho que a Igreja terá uma grande oportunidade de expandir-se no Brasil. É impossível não chamar a atenção e não provocar mudanças em quem participa. A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão.
Como avalias a experiência?
DP: Maravilhosa. Acho que é uma experiência que vale muito para qualquer jovem.
A jornada fala de jovens cristãos – não apenas de católicos.
DP: Sim, porque os compromissos de que fala a jornada não dizem respeito apenas aos católicos. Não é algo exclusivista. Os valores que são defendidos ali são os de Cristo e eles servem para todos aqueles que O vêm como Salvador.
Tiveste algum choque cultural?
DP: Bom, sempre tem coisas que a gente não acha que são tão naturais e que, para eles, são. Eu posso dizer que fui muito bem tratada e a minha relação com o pessoal da organização e com os outros jovens foi sempre muito positiva. O único senão que poderia apontar foram algumas manifestações que vimos contra a jornada em Madrid.
Tens algum plano de levar a experiência da jornada ao conhecimento de outros jovens?
DP: Sim, pretendo. O nosso objetivo é mostrar um pouco para os jovens o que foi essa jornada para entusiasma-los para a próxima. Ao mesmo tempo, é importante levarmos para os jovens daqui aquilo que vimos por lá em termos de dedicação e espiritualidade. São experiências como a que vimos daquela jovem de Cuba que servem para nós, que não temos essa mesma dificuldade, tomarmos consciência daquilo que os outros fazem para poderem participar. A Jornada também serve para mostrar que o jovem católico não está, por assim dizer, sozinho naquilo que acredita. O convívio com semelhantes, com pessoas com uma maneira de ver as coisas semelhantes à tua, é sempre bom e revigorante. E a jornada mostra jovens alegres, que estudam ou já têm uma profissão, como é o meu caso, gostam de se divertir e aproveitam cada momento da vida. Jovens normais,mas que têm um direcionamento especial para suas vidas, fundado no cristianismo.
As dez regras para ser um bom escritor, segundo Jonathan Franzen*
1- The reader is a friend, not an adversary, not a spectator.
2- Fiction that isn’t an author’s personal adventure into the frightening or the unknown isn’t worth writing for anything but money.
3- Never use the word “then” as a conjunction – we have “and” for this purpose. Substituting “then” is the lazy or tone-deaf writer’s non-solution to the problem of too many “ands” on the page.
4- Write in the third person unless a really distinctive first-person voice offers itself irresistibly.
5- When information becomes free and universally accessible, voluminous research for a novel is devalued along with it.
6- The most purely autobiographical fiction requires pure invention. Nobody ever wrote a more autobiographical story than “The Metamorphosis”.
7- You see more sitting still than chasing after.
8- It’s doubtful that anyone with an internet connection at his workplace is writing good fiction (the TIME magazine cover story detailed how Franzen physically disables the Net portal on his writing laptop).
9- Interesting verbs are seldom very interesting.
10- You have to love before you can be relentless.
*Escritor americano, autor de, entre outros, As Correções e Liberdade, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
Minha querência (Leopoldo Rassier)
Nossa singela lembrança do 20 de setembro.
“Nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição.”
A entrevista foi publicada no jornal canoense O Timoneiro
A entrevista que segue talvez traga alguma surpresa até mesmo àqueles pertencem ao feliz círculo de amigos de Carmo Francisco de Souza. Dentre os vários assuntos nela abordados, está a informação de que um dos maiores nomes do meio tradicionalista desta cidade, presidente da Associação de Entidades Tradicionalistas de Canoas,(ETC) ativo colaborador do MTG, músico e vencedor de mais de 250 troféus, foi, até a entrada na idade adulta, qualquer coisa menos um tradicionalista. Se algum de nós vasculhar os LPs mais antigos de Carmo provavelmente encontrará não discos de música gauchesca, mas sim do melhor rock´n roll dos anos 60 – Beatles, Rolling Stones, Roberto & Erasmo; da mesma forma, se vasculhar as fotos antigas não encontrará um pequeno Carmo pilchado, ou um jovem se preparando para tocar acordeão numa festa típica: encontrará, muito provavelmente, um típico magro cabeludo, com calça boca-de-sino e uma guitarra – elétrica – na mão. Sim, senhores: o jovem Carmo Francisco de Souza estava muito mais para Mick Jagger do que para Teixeirinha. O que não lhe tira nada, apenas lhe acrescenta. E valoriza ainda mais o seu trabalho e a sua atuação, como são mais valorosos aqueles que fazem parte de algo não por atavismo, mas por opção consciente.
Nesta entrevista, este leopoldense nascido em 1950 – “dia 13 de maio, da abolição da escravatura”, faz questão de lembrar – e morador de Canoas há 38 anos, nos conta como se deu essa transformação curiosíssima e, é forçoso dizer, extremamente benéfica para o futuro do tradicionalismo gaúcho em Canoas. Não que o roqueiro Carmo fosse mau. A questão é que, para ser tão bom quanto o Carmo tradicionalista, teria de alcançar o patamar daqueles seus ídolos de juventude. Ttambém nos dá uma verdadeira aula sobre a formação do RS, a importância do tradicionalismo e as peculiaridades que fazem do gaúcho um tipo histórico e cultural único dentre os pertencentes ao Brasil e ao resto das Américas.
* * * *
OTimoneiro: O senhor é natural de São Leopoldo. Qual impressão teve de Canoas quando aqui chegou?
Carmo Francisco de Souza: Cheguei em 1972 e a cidade era bem diferente da de hoje. Era muito mais calma. Era vista como uma cidade-dormitório. Ainda havia muitas estâncias aqui, tamos de leite, tinha uma área rural e aos poucos essas áreas foram sendo urbanizadas, loteadas. Tudo isso culminou com o que temos hoje, praticamente uma extensão da metrópole, com quase 400 mil habitantes.
OT: Antes de vir para cá já era interessado pela cultura gaúcha?
CFS: Muito boa pergunta. Esse interesse pela tradição foi despertado em Canoas. Antes não tinha esse interesse. Fui musico profissional dos 17 aos 22 anos, primeiro de igreja e depois roqueiro. Tocava Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo, a Jovem Guarda, enfim. Ao chegar a Canoas, influenciado pela minha esposa, eu comecei a me interessar pela cultura gaúcha, pois ela tinha uma ligação com o tradicionalismo. Tanto é que casamos no CTG Brazão Do Rio Grande. Comecei a participar ali. Posteriormente fundei o CCN ( Centro de Cultura Nativista) Nova Raça. Nessa época fundamos também o CTG Cheiro da Terra. Só que aí nós tivemos uma divergência no CCN Nova Raça e fomos para a Sociedade Cultural Beneficente Estância Velha, a sociedade mais antiga de Canoas, fundada em 1953, se não me falha a memória. Ali fundamos o DTG Estância Gaúcha em 1994 (DTG é um Departamento de Tradições Gauchas, porque é dentro de uma sociedade). Naquela época saímos da Sociedade Estância Velha e fundamos o CTG Estância Gaucha, que é o CTG do meu coração. Como sou presidente da ETC, eu cuido de 43 entidades hoje, mas, nessa seqüência da fundação do Estância Gaucha, eu fui vice-coordenador regional dos municípios de São Leopoldo, Sapucaia Esteio Canoas e Nova Santa Rita. No ano seguinte, o então coordenador, João Carlos de Moura, me preparou para que eu assumisse em 1995, em Dom Pedrito, como coordenador regional. Nos dois anos seguintes eu fui presidente da junta fiscal do MTG. Quando eu saí da 12ª. região eu já virei conselheiro e essa função vigora sempre, os ex-coordenadores se tornam conselheiros.
OT: Qual é a função do conselheiro?
CFS: É quando o coordenador regional tem um problema que ele, sozinho, não pode resolver ele convoca o conselho. Nesse período eu continuei praticando a minha tradição. Eu toco violão , sou interprete vocal. Tenho músicas em casa. Nesse período nosso filho Solano dançava muita chula, e nós inclusive participávamos de muitos rodeios, tanto o rodeio artístico quanto campeiro, sempre representando uma entidade daqui de Canoas nos nossos rodeios. Essa atividade durou aproximadamente em torno de 8 anos. Nós, o e o Solano a Vanessa e eu, conquistamos 250 troféus. Esses troféus foram doados para o CTG estância gaucha.
OT: O nome Solano foi dado em homenagem a Solano Lopez (ditador paraguaio)?
CFS: Sim, eu pensei nele. Solano era um grande campeiro, comprei uma égua crioula para ele. E ele foi preparado pelo Toninho Campeiro, conhecido também como Toninho Cabeludo. É uma pessoa a quem eu devo muito e que nos, a nossa família, aprendemos muito na área campeira, a Dina, esposa dele. Depois disso, o que aconteceu? Eu tive um período complicado e de doença e sempre envolvido com a tradição, mas nunca abandonei. A gente às vezes dá um tempo, mas nunca perde o fio. Então eu fui convidado para concorrer a presidente da Associação Entidades Tradicionalistas de Canoas. Fui eleito por uma boa margem de votos. E estamos fazendo esse trabalho de 2009 a 2010. Tivemos um período complicado antes disso, o crédito estava complicado, estamos tratando dessas questões ainda hoje. Na Semana Farroupilha de 2008, por exemplo, foi feito um convenio da diretoria anterior com a prefeitura por 400 mil reais. E no ano passado foi feito um convenio de 42.240 reais, ou seja, menos de 10%. A entidade fez uma negociação com a prefeitura que assumiu uma parceria. Fizemos uma excelente Semana Farroupilha, pois para os tradicionalistas a maior data é o dia 20 de setembro.
OT: E para este ano?
CFS: Esse ano estamos com a seguinte programação: não pretendemos fazer convênio, pretendemos diminuir ainda mais os custos da prefeitura, já nos cadastramos na LIC, a ETC está apta como personalidade jurídica e nós pretendemos fazer, por intermédio da LIC, o Evento Campeiro e a 4ª. Canoa do Canto Nativo. Nesse ano fizemos, atendendo ao pedido do nosso prefeito, estamos tentando movimentar a área artística do parque Eduardo Gomes, não transformá-la num elefante branco. Fizemos uma extensa, vasta programação. Fundamos o restaurante crioulo do parque. A área campeira também está funcionando, toda noite tem alguma entidade fazendo alguma coisa. Estamos levando o pessoal para conhecer a tradição. Tivemos uma coisa fantástica que foi a primeira biblioteca tradicionalista do estado lá no parque municipal Eduardo Gomes, no galpão da ETC. Tem 1030 volumes, sendo 660 sobre tradicionalismo.
OT: A ETC é ligada ao MTG, não é? Qual a força do tradicionalismo em Canoas hoje?
CFS: O Estado é dividido em trinta regiões. Fora Porto Alegre, que é a primeira região, Canoas é, com muito respeito às demais regiões, a segunda colocada. A Semana Farroupilha de Canoas, por exemplo, fora Porto Alegre, é a maior da região. Ano passado circularam na semana farroupilha 120 mil pessoas. Tivemos baile com 8 mil pessoas, não houve condição de dançar.
OT: Isso não teria a ver com o fato de que Canoas tenha uma grande população oriunda da Fronteira Oeste, da Campanha e de outras regiões de cultura gaúcha mais tradicional?
CFS: Ajuda, com certeza. Eu tenho conhecidos de Dom Pedrito, Santana do Livraimento, Uruguaiana…..e tenho um que eu nunca vi sem pilcha. Ele anda pilchado em todos os lugares. Vai ao banco, à farmácia pratica o tradicionalismo e sempre pilchado. Ele é de Uruguaiana. E isso é comum naquela região. A pessoa entra em lojas e os vendedores usam a bombacha.
OT: O MTG tem um trabalho de pesquisa da história das tradições, definindo o que é tradição e o que não é. E existe o nativismo. Qual é a diferença entre tadicionalismo e nativismo?
CFS: O tradicionalismo como a palavra diz, está ligado à tradição. São as coisas que o homem do campo trouxe para a cidade. O nativismo é a coisa mais já aqui da cidade e tem outras influencias. Teixeirinha seria tradicionalista e C. Passarinho seria nativista. As letras são diferentes. Eles usam outro linguajar. Junto com o nativismo veio o Tche Music. Criaram um movimento e tentaram inserir a música do nordeste na nossa musica. Mas muitos grupos populares são tradicionalistas. Cito dois tipos: Monarcas e Serranos. São tradicionalistas. Edson Dutra é uma figura espetacular. Gildo de Freitas também. Gaucho da Fronteira também é tradicionalista.
OT: Então a diferença é a de o tradicionalismo tem regras mais estritas e o nativismo aceita outras influencias, não apenas do RS.
Sim, e não só isso. As músicas têm letras diferentes. Os nativistas usam mais expressões castelhanas, dentre outras coisas.
OT: Há alguns dias, tivemos uma notícia sobre a instalação de rodeios country no RS, que são copias de rodeios que existem no interior de SP. Qual a sua opinião acerca disso?
CFS: Eu não sou contra, mas eu acho que nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição. O rodeio country eu acho que poderá entrar, mas acho que não vai ficar. Será assistido por aqueles que desconhecem a tradição. É bonito de se ver, a abertura é espetacular, 30 mil pessoas, tu vais ao interior de SP e vês a beleza que é. Mas não acho que vá continuar.
OT: A música caipira do interior de SP e MG tem elementos semelhantes ao nosso, não é?
CFS: Sim, muitos. Usam muito a viola. É um instrumento de dez cordas. O caipira é muito respeitável. Tonico e Tinoco, por exemplo. São pessoas que tem a história comprovada, assim como nosso Texieirinha.
OT: O Teixeirinha é um caso interessante. Ele era nos anos 60 e 70 era visto de lado por algumas pessoas e hoje ele é objeto de tese de doutorado, inclusive de uma ex-professora minha, a Miriam Rossini.
CFS: O ser humano tem um grave defeito: homenageia personalidades depois que morrem. Nós, no nosso movimento, procuramos homenagear as pessoas em vida. Eu, por exemplo, furei lona de circo pra assistir Mary Terezinha e Teixeirinha (risos).
OT: Surge outra questão: a figura do gaúcho. O gaúcho é um fenômeno somente do RS ou é também do Uruguai, Argentina e Paraguai ? Há quem diga que é diferente. Carlos Reverbel, por exemplo. Alguns defendem a tese da pampa transnacional, um espaço geográfico e cultural que se estenderia por todo o pampa, com o mesmo elemento básico, que é o gaúcho ou gaucho. Qual a sua opinião acerca disto?
CFS: Aí vou defender a minha terra. O gaúcho é diferente dos gauchos. Estes existem até no Paraguai, mas o nosso gaúcho é diferente. Por exemplo: vou te citar um gaúcho que eu conheci. Conheci um peão com 24 anos que nunca tinha saído da porteira da fazenda. Um cara com extrema competência na lida do campo e montava em pêlo. Isso em Dom Pedrto. Quando o vi, ele me olhava à distancia, desconfiado, meio cabreiro, e depois ele se aproximou junto ao fogo de chão enquanto eu estava tocando. Era um cara meio tipo índio. Esse é o perfil do nosso gaúcho. É um cara da lida campeira. Nós aqui tentamos conservar esse cara lá de dentro da fazenda.
OT: Mas o gaúcho do RS se diferencia do gaucho platino?
CFS: Sim. Por exemplo. Em vez de usarem a guaiaca eles usam a faixa porque, em lugares mais frios, pros lados da Patagônia, no sul da argentina, precisam proteger o corpo. Quando enxergares uma faixa, pode ter certeza que tem ligação com a Argentina.
OT: O gaucho daqui então é um tipo específico do Brasil, como o caipira, o pantaneiro, o tropeiro e outros?
CFS: Sim, exato. O pantaneiro por exemplo, só existe no Pantanal. E o nosso gaúcho só existe aqui mesmo. Um típico pantaneiro tu reconheces logo que ele chega na rodoviária. Usando o berrante. Ele utiliza como instrumento de trabalho. Aqui nós usamos o sinuelo.
OT: Fala-se que o RS teria uma ligação histórica com os países do prata. É algo que já virou até lugar-comum. Por outro lado, Dante de Laytano fala que havia a influencia do espanhol deste lado e do português do outro. Há inclusive a tese de que o chamamé seria originário da chimarrita açoriana….
CFS: Há que se respeitar, porque o ritmo é parecido. Mas eu falaria também da imigração alemã e italiana. Na culinária, por exemplo, ela é forte, com a polenta, a massa campeira, salsichão, carne de porco. E isso é aceito pelo tradicionalismo.
OT: O tradicionalismo tem um lado político?
CFS: Bom, nos somos políticos por natureza, nos , como seres humanos. Mas nas entidades, nos eventos, não costumamos falar. Até porque o MTG veda falar de política dentro das reuniões. Por isso procuramos nos preservar um pouco dessa área.
OT: Nosso tradicionalismo é o mais forte do país?
CFS: É, sim. Temos no Brasil e fora dele, até em Nova York temos CTG, na Europa, Canadá. É o maior movimento cultural do país. Algumas pessoas não reconhecem isso porque querem defender a sua terra ou por desconhecimento. Mas nós estamos espalhados por todo o país.
OT: No exterior, a comida associada ao Brasil é o churrasco, não como comida especialmente gaúcha, mas sim brasileira. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo. É o país do carnaval, do futebol e do churrasco.
CFS: Exato. E eu tenho experiência de ver isso na Bahia, em Macaé, no interior do RJ, onde eu fiquei três meses e comi muito churrasco e ensinei muita gente. Aqueles que participaram saíram fazendo, de acordo com o que eu ensinei.
OT: Que livros o senhor indicaria para quem quer começar a estudar a cultura gaúcha?
CFS: Bom, nós temos uma farta literatura. Na nossa própria biblioteca do parque Eduardo Gomes temos 660 livros. Para começar, Barbosa Lessa e Paixão Cortes. O Paixão está lançando um novo agora, inclusive. Para os canoenses, eu diria, visite a BiblioParque onde vai encontrar muita coisa, inclusive a história de fios, tecidos, indumentária.
OT: Onde fica a sede da ETC?
CFS: Fica dentro da ASMC da prefeitura. Nosso endereço é rua Nerci Pereira Flores, número 179, Harmonia. CEP 92310-150.
Lembranças da Bizz
Em sua postagem do dia 2 de setembro, o jornalista André Forastieri resolveu prestar uma homenagem à revista da qual foi diretor por três anos: a BIZZ.
A homenagem veio por ocasião da descoberta, por ele – e agora, também por mim – da comunidade da revista no Facebook, que conta com vários ex-colaboradores e editores como Pedro Só, Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches, Camilo Rocha e, agora, o próprio Forastieri.

Para mim, a homenagem diz muito. Fiz parte daquela que, muito provavelmente, foi a última geração de jovens cuja formação musical dependeu da Bizz. À época (virada dos anos 90 para os 2000) não havia outra revista de música no país: a única alternativa do mesmo nível para ter acesso às novidades eram cadernos culturais, como a “Ilustrada” da Folha de São Paulo, ao qual eu tinha acesso por assinar o jornal. O download de canções pela Internet engatinhava (ou melhor, inexistia para a grande maioria, inclusive para mim), os discos eram difíceis de encontrar nas lojas de Porto Alegre e é desnecessário dizer que não havia youtube. A nossa orientação – minha e, estou certo, de muito mais gente – era a “Bizz”.
Lá estavam os álbuns raros, a seção Discografia Básica, as opiniões contundentes sobre o novo e o antigo, as entrevistas, as matérias, tudo o que, hoje, está ao alcance de um clique. Na época, não estava. Os lançamentos mais óbvios encontrávamos em qualquer boa loja. Os não tão óbvios, nas poucas lojas dedicadas ao que não era tão óbvio, muitas delas no Rio ou em São Paulo. Um telefonema resolvia o problema. Onde se conseguia o telefone? Na Bizz. Lojas como “Baratos Afins” e outras tornaram-se nomes conhecidos e quase dava para dizer, com indefectível sotaque e falsa familiaridade portoalegrenses, que tal disco a gente encontrava “lá na Baratos” – isto, claro, se eu tivesse o hábito de fazer uso deste detestável recurso comunicativo de meus conterrâneos.
A BIZZ terminou em meados de 2001. Logo depois, como que movidos por um sentimento de busca pelo que se perdera, eu e minhas duas irmãs percorremos os sebos da Rua Riachuelo, em Porto Alegre, em busca de edições antigas da Revista. Passamos tardes empoeirando dedos e compramos quase tudo o que encontramos: capas com Guns N´Roses (então uma paixão delas), Nirvana, U2, Faith No More, Maddonna, Red Hot Chilli Peppers e todos os outros que, entre 1985 e a virada do milênio, foram notícia no mundo pop.
Alguém poderá dizer que parte do papel que a Bizz desempenhava está, hoje, nas mãos da melhor revista do Brasil, a Rolling Stone. Isto só é em parte verdade. A Rolling Stone tem a Internet a seu lado, como um poderoso auxiliar. A Bizz só tinha a si própria. O papel que ela desempenhou não pode ser repetido, porque o mundo em que ela atuou já existe. Um mundo onde as coisas não estavam a apenas um clique.
Entrevista: Dante Ramon Ledesma, cantor e compositor
“Quando canto expresso exatamente o que sou”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Entrevista publicada no jornal O Timoneiro
“Cantando me he de morir / Cantando me han de enterrar, / Y cantando he de llegar / Al pie del eterno padre: / Dende el vientre de mi madre / Vine a este mundo a cantar.”Este trecho do “Martin Fierro”, que tão bem define a visão de mundo e o destino do homem do pampa, bem poderia servir como uma carta de intenções para Dante Ramón Ledesma, 59 anos, um dos maiores músicos latinoamericanos vivos e morador de Canoas há 33 anos. Em primeiro lugar, porque Dante – como é conhecido pelos fãs e amigos – é um autêntico homem do pampa: nascido na pequena Rio Cuarto, nas proximidades da fronteira entre as províncias de Córdoba e La Pampa. Em segundo lugar, porque,como poucos, fez realmente de seu canto maneira de viver e cantar a vida, não só a sua mas a de todos nós, gaúchos, argentinos, brasileiros, latinoamericanos, que cresceram ao som de “Orelhano”, “Negro da Gaita”, “O Grito dos Livres”, “A vitória do trigo” e tantas canções que ultrapassam os sotaques, os idiomas, os ritmos e as fronteiras. Afinal, como o próprio Dante diz nesta entrevista, a arte não tem fronteiras e – como o diz uma de suas canções – “não se pede passaporte pelos caminhos do pampa”.
* * * * *
O Timoneiro: O senhor é natural de Rio Cuarto, que é uma pequena cidade bem característica do universo histórico e cultural do pampa, não?
Dante Ramón Ledesma: Sim, exatamente. Inclusive é uma região que tem costumes muito semelhantes aos do Rio Grande do Sul. Acho que o centro-sul da Argentina tem muitas semelhanças com o Estado. Essa parte missioneira parece mais com a Bolívia e o Paraguai e o Rio Grande do Sul parece mais a planície da Patagônia e do Uruguai.
OT: A cultura tradicional do pampa sempre esteve presente na sua vida?
Dante Ramón Ledesma: Minha vida é muito simples. Eu estudei em colégios privados de linha franciscana e no seminário São Boaventura. Ali estudei arte e idiomas: latim, hebraico, francês, inglês e algo de italiano, isso no currículo até os 12, 14 anos. Aos cinco e seis anos já cantava. Todos os familiares da mãe cantavam e tocavam. Minha criação foi sempre com pessoas dedicadas a arte. Com 8 anos, eu andava em festivais e com 15 anos já escrevi uma musica vencedora do festival de Cosquin, de Córdoba, onde surgiram Violeta parra, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Leon Gieco, enfim, todas as revelações artísticas argentinas passaram pelo palco de Cosquin.
OT: Como aprendeu a tocar?
DRL: O Bombo Leguero aprendi sozinho. Fui estudar então numa escola de arte, onde aprendi a tocar violão. No colégio, os padres me ensinaram música sacra, canto gregoriano. Minhas técnicas vocais são gregorianas. Sigo católico ainda hoje. Fiz parte do grupo Carismáticos, e por isso a junta militar argentina, dirigida por Jorge Rafael Videla, perseguiu os movimentos religiosos, porque não estavam dentro do programa, consideravam-nos subversivos porque ajudávamos os carentes. Era um grupo de ação social, mas com muita participação religiosa. Participávamos muito das comunidades. Sigo religioso até hoje. Só vivemos tranqüilos quando nos preocupamos com nossa vida interior e não com a alheia. Ao mesmo tempo, há que se ter a preocupação com a sociedade e com o próximo. Assumo tudo o que me rodeia. Não me deixo guiar. Deus é sempre maior que todos nós e um dia a ele prestaremos conta. Quando canto expresso exatamente o que sou.
OT: Quando veio para o Brasil?
DRL: No dia 11 de abril de 1978
OT: Já conhecia o país?
DRL: Já conhecia havia tempo. Sempre passeei muito por aqui como estudante. Era pegar a mochila, o violão e ir para a estrada.
OT: Veio por perseguição política?
DRL: Não tanto. É que, quando você tem dezenas de amigos desaparecidos, pode dizer que vive com muita insegurança (risos). E eu trabalhava na Câmara Criminal de Investigações militares, e ali havia muita coisa que eu sabia que acontecia e que ia acontecer. Um dia que vi que começaram a me perseguir, resolvi vir ao Brasil a passear e disse a minha esposa que não voltaria mais. E não voltei. Vim para Niterói, em Canoas, onde morava a avó de minha esposa, meus sogros, e por 5 anos vendi livros. Foram anos maravilhosos. Eu levava meus livros, fazia uma palestra de sociologia, encontrávamos pais e mestres, e quando estourou “Orelhano” foram esses que prestigiaram o meu trabalho e me deram força para seguir acreditando que o canto era possível e é possível.
OT: Em determinado momento o senhor fala de “orelhano, brasileiro ou argentino”….
DRL: Sabemos que devemos como ser humano nascer numa geografia, mas você escolhe a liberdade de seus sonhos pacificamente, onde será a sua pátria. A minha pátria é onde eu amanheço. Onde há vida a ser defendida ou inocente a ser defendido, se meu canto ou minha luta serve, esta é minha pátria. Não me interessam bandeiras ou raças. Me interessam a dignidade humana que deve ser respeitada. Dizem que sou de esquerda, outros dizem que sou de direita, e eu não sou nenhum deles, e sim a favor da verdade e da dignidade humana. Onde um negro seja discriminado não me serve o governo. Onde um pobre seja esquecido ou omitido não me serve a administração. Onde há um político que não cumpre, ele para mim é um desvirtuado. Sou a favor de algo: não prometa, mas faça o necessário para podermos todos viver bem. Não sou dono da verdade, mas posso garantir que há muito para aprender. Mas nessa sociedade rápida e nesse mundo tão imediato que temos hoje, se a gente não é aprendiz permanente, se torna velho em seguida, com poucos anos. Quando você se acha dono da verdade quando é jovem, na verdade é um velho, e não se torna nunca um adulto. Adulto é aquele que ganha anos e diz “que maravilhoso meu neto me ensinou tal coisa que eu não sabia”. Aí nos damos que à vida viemos para aprender. Aquele com 25, 30 anos que se acha dono da verdade será um fracassado ou autoritário. Por isso meu canto retrata exatamente o que eu sou. Meu avô morreu com mais de 100 anos e ele dizia uma frase maravilhosa: “não me canso de escutar para poder falar a palavra certa”.
OT: Chegando ao Brasil em 1978, já conhecia o panorama musical brasileiro?
DRL: Sim, um pouco. Tinha muita admiração pelo samba. Gostava de Benito de Paula, Carmem silva, mas quando vim comecei a conhecer outro Brasil, um Brasil de gaita, violão, bota e bombacha. Na Argentina conhecíamos samba, Roberto Carlos, Tom Jobim, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Toquinho, mas a música gaucha não.Lembro de uma ocasião em que vínhamos caminhando, eu e minha esposa, e numa esquina vimos um bailão com um conjunto chamado “Os Araganos”, e ali conversei com um deles, o Ari – de quem fiquei amigo depois – e ele perguntou “tu sabe cantar alguma musica?”. Então cantei um chamamé com eles, eles em cima do palco e eu na janela. Foi impactante.
OT:A música brasileira tem muito espaço na Argentina, mas o Brasil nem sempre é um grande consumidor da música argentina.
DRL: Porque no Brasil tem muito regionalismo, música pantaneira, sertaneja, a música da Bahia. Falando esses dias com o Almir Sater , o filho dele disse que existem mais de 20 estilos de musica pantaneira. Acho que o Brasil não tem tempo para a música de outros países (risos). Por isso acho ruim o excesso de divulgação americana nas rádios. Eu ouço certos programas televisivos e eu tenho vontade de perguntar a eles: , porque as bandas brasileiras têm de cantar em inglês? É como se fosse preciso cantar em inglês para dizer que tem qualidade.
OT: Qual música sua, em sua opinião, é a mais relevante?
DRL: Acho que é “Orelhano”. Lembro que quando eu cheguei em 2008, na Espanha, eram seis da manhã e fomos fazer show lá, no aeroporto. Estavam tocando “Orelhano”. Esse é o momento onde tu paras e pensas: “meu Deus, até onde chegou a música”. Eu não a levei. A musica foi por si, porque a arte é assim, ultrapassa fronteiras, a arte não fala, mas acontece. Por exemplo, chilenos e argentinos se dão muito pouco, mas a musica dos dois ultrapassa fronteiras. As adversidades desaparecerem na arte. Ela apaga mágoas e diferenças.
OT: Já lhe pediram para cantar em inglês?
DRL:Sim, já . Não cantei, porque não é meu idioma. Admiro vários cantores e bandas de rock, como Freddy Mercury, the Who, led Zeppelin, Jimmy Hendrix, Carlos Santana. Mas em inglês, não canto.
OT: Já tocou nos EUA?
DRL: Não, já me convidaram para ir, mas não é do meu agrado. Nada que se fale em inglês, nem de Grã-Bretanha e nem EUA. Já me convidaram e não quis. Meus próximos projetos são ir a Cuba, Porto Rico e Venezuela no ano que vem, com Ernesto Fagundes. E vou a Salta, com convite da prefeitura de Salta, para ir lá tocar em todas as cidades ao redor de Salta. Vamos lá fazer um trabalho bem grande.
OT: Como a experiência de ter vivido num regime de forte repressão, como a Argentina do general Videla, influenciou o seu trabalho?
DRL: De várias maneiras. Na Argentina, muitos intelectuais e artistas saíram do país. Lembro, contudo, de um momento especial. Atahualpa Yupanqui, no Cosquin de 1977, foi chamado ao palco. E ele subiu. Ele entrou sem violão, parou no microfone, cumprimentou a todos e disse: “enquanto tenha irmão desaparecidos sob esta bandeira – a bandeira argentina – e estes responsáveis por estes inocências fardados e recebendo ordens da CIA prefiro morrer neste palco”. Exatamente 24 horas depois estava Yupanqui na frança. Só não o mataram porque não tiveram coragem de matar uma figura como ele. Aí tu vês o homem.
OT: A sua presença no Brasil é um produto indireto dessa repressão. Claro que é sempre ruim deixar a sua terra natal, mas nós, em compensação, ganhamos o senhor.
DRL:Eu vim com muita alegria ao Brasil e sou agradecido a tudo que acontece comigo no Brasil, o que acontece e poderá acontecer. Tenho filho aqui, amigos extraordinários, e a liberdade de cantar ou escrever em paz. Nunca fui censurado.
OT: Interessante o senhor ressaltar isso de não ser censurado, como um valor importante. A sua geração não teve isso. Para ela, não ser censurado tem um valor especial (risos)
DRL: Sim, pois vivi numa época em que isso não exista. Falei com Eduardo Galeano ano passado e ele me disse uma coisa enquanto tomávamos vinho: “Dante, há duas coisas que os braisleiros não se deram conta que tem. Além de terem um imenso continente como pátria, o Brasil tem um povo que apóia a intelectualidade”. Porque? Porque o brasileiro é ameno, ele te ouve e ao mesmo tempo te ensina. E tu podes equilibrar a vida. A Argentina tem o radicalismo do porteño, a contradição com a vida provinciana, no norte são folclóricos, no sul são fechados, os povos bascos e andaluzes que formam parte da Patagônia são impenetráveis, ele tem seu jeito de viver e não te ouvem, aqui no Brasil onde tu vai tu é ouvido. Isso se deve a idiosincrasia do povo, porque o Brasil tem uma etnia extraordinariamente multiplicável e essa etnia tem frutos, italiano com índio, alemão com polonês, argentino com brasileiro, isso não é mescla e sim um conteúdo social, e isso em alguns outros países não existe. No Brasil há uma raça, o brasileiro, com todas as diferenças regionais, mas uma raça só.
OT: Assim lhe pareceu quando veio para cá pela primeira vez?
DRL: Sim, fiquei impressionado com isso. No carnaval da Bahia, por exemplo tem gaucho e paulista. Num rodeio em São Paulo tem ginete de todas as partes do Brasil. No RS já vi cariocas pilchados e paulistas pilchados, miscigenando a sobrevivência. Isso dá harmonia antropológica. Isso para mim só o Brasil tem isso. Em Buenos Aires, por exemplo, existe a tendência de ver o interiorano como inferior.Aqui não existe fanatismo de raças, diferenças marcantes, letais. Isso me impressiona todos os dias no Brasil. Eu vejo o trato do brasileiro, vejo como ele se fraterniza e se harmoniza. De um jeito ou de outro o brasileiro se harmoniza
OT: O senhor sentiu-se harmonizado?
DRL:Sempre. Por isso agradeço tanto ao Brasil.
Conselho do He-Man para nossos amigos colorados
Em nome do espírito esportivo, o Blog Perspectiva dirige-se aos seus leitores colorados e oferece, magnânima e bondosamente, o ombro amigo em hora difícil.
Afinal, perder um jogo em que dois pênaltis óbvios não são marcados, com atuação constrangedora do so-called melhor centroavante brasileiro do momento e a melhor apesentação de um lateral-direito desde que Arce saiu do Olímpico deve ser mesmo motivo de imensa tristeza.
Nestes momentos, só apelando para o He Man.
Inverno colorido em Canoas
Carolina De Boni Horochovski , fotografada no bairro Igara em Canoas/RS pelas lentes de Maurício Mussi, no final do inverno gaúcho.
Entrevista: Cristian Verardi, cineasta
Entrevista: Cristian Verardi, ator e diretor de cinema
Publicada no jornal O timoneiro
“Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
A lembrança mais remota que Cristian Verardi tem de sua infância é a de estar no colo de sua mãe dentro de um cinema. A informação é elucidativa. E é elucidativa não pela simples ocorrência do fato (que é comum a muitas pessoas) mas sim por este fato ter permanecido intocado em sua memória entre tantas lembranças da mesma época que ficaram para trás. Não é de se estranhar, portanto, que ele tenha escolhido trabalhar com cinema. O resultado se pode ver, hoje, em sua carreira como diretor e ator de um gênero de cinema que, curiosamente, não pode ser assistido por crianças: o de terror. Diretor de “Águas raivosas”, “Soul Crusher”, “Colt Romero”, “Sessão das Oito”, “Meu nome é Alec” e ator de “Ninguém deve morrer”, do lendário Peter Baiestorf, e do recém-lançado “A noite do chupacabras”, de Rodrigo Aragão, Verardi participará como assistente de direção da equipe de “Nove e meia”, de Felipe Ferreira, a ser filmado a partir de outubro.
O Timoneiro: Sendo natural do interior , não posso deixar de perguntar: o que te motivou a vir para a Capital?
Cristian Verardi: Melhores oportunidades de estudo e trabalho. Nasci em Encantado, em 1975, e passei infância e adolescência entre Guaporé e Roca Sales. Eu queria me dedicar mais ao cinema, algo impossível no interior, ao menos naquela época. No entanto, acabei também me direcionando para outra de minhas paixões, a literatura. Então ingressei no curso de Letras da UFRGS. Mas sempre foi meu projeto trabalhar com cinema.
OT: Desde a época em que morava no interior?
CV: A lembrança mais remota que tenho de minha infância é a de estar no colo de minha mãe dentro de um cinema. Durante boa parte dos anos 80 frequentei o Cine Marabá, em Encantado, que pertencia a um amigo da família. O cinema tornou-se gradualmente um elemento passional. Acho que esse contato com o cinema, que para uma criança sempre é algo mágico e, em mim, deflagrou a vontade de estar na tela, e não apenas em frente dela.
OT: Esse foi o primeiro contato. Como foi o desenrolar dessa relação, digamos assim? Durante a adolescência, por exemplo?
CV: Durante a adolescência os cinemas de calçada do interior já estavam em extinção. Os cinemas estavam se transformando em bingos e igrejas evangélicas. Em Roca Sales não havia mais cinema, eu realizava verdadeiras epopéias para assistir um filme na tela grande, pegando ônibus para a capital ou alguma cidade mais próxima, como Lajeado. Mas a verdadeira formação cinéfila se deu através da TV, varando madrugadas nos “corujões da vida”, ou garimpando em locadoras. A adolescência foi uma época de amadurecimento desta paixão. Hoje, com a facilidade do download, acho que os jovens não conseguem depurar a quantidade de informação que recebem, tudo parece ter ficado mais descartável.
OT: Pegava ônibus para ir ao cinema em Porto Alegre? Só para ir ao cinema?
CV: Lembro que em 1994, vim para Porto Alegre e fui direto para os cinemas da Casa de Cultura só para ver “Rosas Selvagens” e após o filme entrei em outra sessão, onde vi “O Casamento de Muriel”. Aliás, “O Casamento de Muriel” foi uma das experiências mais inusitadas que já tive em um cinema, com as pessoas se erguendo das poltronas para dançar e cantar junto com a personagem, algo catártico. O tipo de efeito que revela o poder de uma sala de cinema, o valor da experiência coletiva.
OT: Como se deu a atração pelo cinema de horror?
CV: Meu primeiro contato com o gênero ocorreu ainda infância. Antes mesmo de saber ler eu folheava escondido as HQs de horror do meu pai. Em vez de Turma da Mônica eu gostava de Spektro, Kripta e Calafrio. Essas revistas fizeram parte da minha infância. Os filmes da produtora inglesa Hammer também foram essenciais na formação do meu gosto pelo fantástico. Na madrugada, quando meus pais dormiam, eu ligava a televisão para ver filmes como “O Vampiro da Noite” ou “Os Ritos Satânicos de Drácula”. Algum tempo atrás achei uma fita K7 que eu gravei quando tinha uns 6 anos de idade, onde narro histórias com monstros e coisas do gênero. Então este universo sempre me pareceu perfeitamente normal.
OT: Em que canal passavam estes filmes?
CV: No começo dos anos 80 a rede Globo exibia uma sessão chamada “A Casa do Terror”, onde exibiam basicamente filmes da Hammer. Sem se dar conta eles fomentaram uma futura geração de fãs de horror.
OT: E como diretor de cinema? O primeiro filme que fizeste – amadoristicamente ou não – foi nesse gênero?
CV: Sim, nos anos 90 minha irmã adquiriu uma filmadora, que eu raptei para minhas aventuras cinematográficas (risos). Após algumas desventuras, o primeiro que eu consegui finalizar ser chamava “Soul Crusher 2- O Retorno do Homem Coisa”. Já começei pela seqüência pois não queria dar muita explicação (risos). Já veio com uma mitologia pronta, só que ela está toda no primeiro, que eu não fiz (risos). Basicamente é sobre uma criatura enviada por um demônio para resgatar um livro roubado do inferno. Os bibliotecários do inferno são vingativos com livros não devolvidos (risos)
OT: Em que ano foi realizado e com qual filmadora?
CV: Esse foi realizado em 1998. Era uma filmadora Sony CCd, hoje obsoleta, não lembro o modelo. Eu editava utilizando 2 videocassetes. Lembro que fiz o filme em preto e branco porque a filmadora era importada e o sistema de cores não era compatível.
OT:Como é que o editava?
CV: Eu filmava o roteiro de forma cronológica, editava os cortes na própria câmera, depois passava tudo para uma fita VHS e, como não tinha ilha de edição, utilizava dois vídeos para montar as cenas. Uma trabalheira impensável para quem hoje utiliza as facilidades do Final Cut.
OT: Esse filme chegou a ser exibido?
CV: Por incrível que pareça e por pior que ele seja, sim. Uma amiga era dona de uma locadora, e colocou o filme para locação, em poucas semanas era uma das fitas mais locadas (risos).
OT: A aceitação inesperada foi um estímulo?
CV: Com certeza foi um estímulo, mas ao mesmo tempo gerou reflexões sobre minhas limitações.
OT: A partir daquele filme começaste a fazer em série ou levou algum tempo até recomeçar a filmar?
OT: Eu escrevia muito, mas não conseguia pôr os projetos em prática. Em seguida iniciei um filme de vampiros que jamais terminei, era mais pretensioso, a começar pelo nome, “Gottverlassen”. Comecei a me frustrar pela falta de estrutura e de orçamento. Sem falar que obviamente eu tinha a fama de louco na cidade (risos). Claro que ninguém faz um filme de 30 reais esperando ganhar um Oscar. Mas era a vontade de fazer algo menos precário. Só que eu continuo precário até hoje (risos)
OT: Precário em que sentido?
CV: Creio na possibilidade de se realizar excelentes filmes com baixo orçamento, e hoje com o advento do digital isso é ainda mais plausível. Naquela época era mais complicado, às vezes queria fazer um efeito mais elaborado, uma luz esteticamente mais interessante, e a falta de grana tornava isso tudo mais difícil. Então me dei conta que as vezes é melhor assumir a precariedade, isso é mais verdadeiro.
OT: No caso do cinema de horror, especificamente, não acha que a “precariedade” pode servir também como aparato estético?
CV: Creio nisso. Gosto por exemplo da estética suja dos filmes dos anos 70, como “O Massacre da Serra Elétrica”. A fotografia granulada do filme se deve ao fato de ter sido filmado em 16 mm, com poucos recursos de iluminação, e depois convertido para 35 mm. E isso gerou uma textura suja, que combina perfeitamente com a crueza da trama. É o tipo de situação em que a falta de recurso se transforma, mesmo que involuntariamente, em estética.
OT:Qual câmera tu usas, falando nisso?
CV: Nos dois últimos trabalhos que dirigi, usei uma Sony HVR, mas nos projetos recentes que participei, como ator ou na produção, pude perceber mais uma mudança no formato, hoje existe uma preferência pelas máquinas fotográficas, como a Canon 5D. Uma tecnologia bem distante das ultrapassadas mini dvs.
OT: Tua formação foi em Letras. Tens inspirações vindas da literatura pros teus filmes?
CV: A literatura fantástica me influenciou muito. “Soul Crusher” tinha muito de Lovecraft. Tenho a pretensão (pseudo-cineastas vivem de pretensões), de um dia filmar o livro de contos do Carlos Carvalho, “Calendário do Medo”. E meu próximo trabalho, como assistente de direção, é um baseado num conto do Rubem Fonseca, “Nove e Meia” . As filmagens começam em outubro, com direção do Filipe Ferreira e roteiro de Ednei Pedroso.
OT: Queria que tu falasses um pouco do fascínio que o cinema de horror desperta em seus adeptos. É uma busca de sentimentos primários, ancestrais, ou o quê?
CV: Algo que costumo dizer é que o cinema fantástico gera fascínio pela possibilidade do espectador lidar de uma forma saudável com o sentimento do medo, com o inexplicável. Através do gênero horror é possível vivenciar o efeito catártico do medo, experimentar sensações reprimidas e situações limites sabendo que está protegido, pois o perigo se encontra do outro lado da tela. Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo.
OT: Quais os cinco maiores filmes e os cinco maiores diretores de horror, na tua opinião.
Toda lista é subjetiva e injusta, sendo assim, acho complicado afirmar quais são os melhores pois cada obra nos toca de maneira diferente. Citarei cinco dos meus filmes prediletos.
Os Inocentes , de Jack Clayton ; Zombie, o Despertar dos Mortos , de George Romero; O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter; A Morte do Demônio , de Sam Raimi; Terror nas Trevas , de Lucio Fulci.
Quanto aos cinco diretores mais influentes de cinema de horror, para mim são: Dario Argento, George Romero, Mario Bava, Lucio Fulci e John Carpenter.
Foucault e o Irã
“Foucault e a revolução iraniana” (É Realizações, 480 páginas) é um livro que irá surpreender (e decepcionar) muita gente nos bancos acadêmicos do país. O propósito de seus autores - a historiadora iraniana Janet Afary e o cientista político americano Kevin B. Anderson – é analisar um evento muito pouco conhecido da biografia de Michel Foucault: a sua viagem ao Irã, no final dos anos 70, como correspondente do “Corriere della Sera” e do “Noveau Observateur”, para uma série de artigos sobre o processo revolucionário que levou Aiatolá Khomeini ao poder. Não seria fato para merecer maiores atenções não fosse por um detalhe: ao contrário do que se poderia imaginar, Foucault não foi propriamente um crítico do regime de Khomeini, havendo até mesmo fortes indicações de que tenha sido o oposto disto.
Como pôde Foucault – homossexual, ateu, estudioso (e denunciante) do discurso de poder na modernidade e das diversas modalidades de repressão – tratar assim a um regime que, na melhor das hipóteses, não lhe seria nem um pouco simpático? Em princípio, parece um erro circunstancial de avaliação por parte de Foucault, sem qualquer relação com o resto de sua obra e de seu pensamento. Não é, contudo, o que Afary e Anderson defendem – e de maneira muito convincente – em “Foucault e a revolução iraniana”. Dando especial destaque para questões referentes a relações de gênero e sexualidade, os autores demonstram que, longe de ser um acidente de percurso, a aproximação de Foucault com o regime de Khomeini encontra surpreendente – e inquietante – fundamento em seu pensamento.
Onde encontrar:
Programa “Diálogo” – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
O Blog Perspectiva tem o prazer de, a partir de hoje, disponibilizar o programa “Diálogo” aos seus leitores.
O próprio nome do programa já deixa claro em que ele consiste: do diálogo entre eu, Celso Augusto Uequed Pitol, integrante deste blog, e meu amigo Marcus Paulo Rycembel Boeira, professor universitário em São Paulo.
Um diálogo – deve-se dizer desde já – livre. Contudo, à formação e o quadro de interesses dos integrantes, ele deverá versar, em princípio, sobre assuntos ligados à política, à filosofia, à história, às artes e às ciências humanas de modo geral – tendo em vista, sempre que possível, alguma ligação com temas contemporâneos.
O tema de nosso primeiro programa será o filósofo espanhol Xabier Zubiri, cuja obra está sendo lançada no Brasil pela Editora É Realizações. Abordamos aqui o pensamento de Zubiri, a sua posição dentro da história da filosofia e o que nós, brasileiros, podemos esperar de sua presença em nosso meio intelectual.
Desde já agradecemos, eu e o Marcus, a todos os ouvintes do programa e colocamo-nos à disposição para críticas, sugestões e posicionamentos.
Um estranho chamado Joe Strummer
De todos os mitos que cercam o surgimento do punk rock na Inglaterra nenhum é mais disseminado que o da suposta “consciência social” da bandas que compunham o movimento. Para a posteridade ficou a imagem de que os punks eram politicamente engajados, anti-racistas, multiculturalistas, open-minded, jovens proletários desprovidos dos típicos preconceitos pequeno-burgueses da classe média inglesa. Iniciativas como o concerto “Rock Against Racism”, realizado em Londres, em 1978, com a presença das principais bandas da época, e as folclóricas reuniões de punks e imigrantes jamaicanos em festas reggae (que originaram, entre outras coisas, a canção “Punk Reggae Party”, de Bob Marley) ajudaram a cimentar e divulgar esta idéia, que inspirou as gerações subsequentes de simpatizantes do movimento dos dois lados do Atlântico e dos dois Hemisférios.
Isto, claro, quando vistos à distância. Vistos de perto, os punks eram bem menos “revolucionários” do que aparentavam ser. Quando perguntaram a Nick Knox, dos Vibrators, porquê a banda havia participado do Rock Against Racism e se ele acreditava na mensagem do evento, ele respondeu: “Não, na verdade o que a maioria das pessoas não sabe é que as bandas foram pagas para participar. Nós participamos porque era apenas mais um concerto para fazer…..“. Ian Curtis, do Joy Division, tinha pública e notória atração pela Alemanha nazista (o nome de sua banda era uma referência à ala das prostitutas dos campos de concentração) e dizia ao público para nunca esquecerem de Rudolf Hess. Já Paul Weller, do The Jam, era eleitor confesso do partido conservador inglês (e isso durante o governo Thatcher), enquanto The Banshees, na música “Love in a Void”, achava que havia “too many Jews for my licking”. Nos EUA, o quadro não era muito diferente e motivou até mesmo um artigo indignado (e genial) do grande Lester Bangs. Racistas, small minded, preconceituosos, xenófobos, conservadores: muitos punks eram, por trás da fachada, exatamente aquilo que diziam odiar. Em vez de carregarem os preconceitos da classe média inglesa, carregavam os da classe média-baixa ou baixa. Afinal, como bem observou Shaw, nada é tão reacionário quanto o proletariado.
De onde vem a fama do punk inglês, então? Primeiro e antes de tudo, de uma banda em especial: o Clash.
Para quem acompanha o estilo a associação é óbvia. Nenhuma banda da primeira geração do punk rock teve um discurso tão politicamente orientado quanto eles – isto, é claro, se tomarmos os berros pró-anarquia dos Sex Pistols como o que de fato eram, meros berros, desprovidos de qualquer conteúdo ou reflexão mais sérios. Os Ramones não falavam de política. O Damned, os Buzzcocks e todos os outros também não. Todos eles criticavam o governo, a sociedade, a aristocracia, a Inglaterra, os adultos, os pais, a namorada, as meninas que não davam bola para eles e os irmãos mais velhos, sem, entretanto, terem muita preocupação com coisas chatas como coerência e critério. Quem cuidou de observar essas coisas chatas entre 1976 e 1986 e transformar em canções de rock foi o grupo de Joe Strummer, Paul Simonon, Mick Jones e Topper Headon, cujo estrondoso sucesso comercial (único entre os primeiros punks) espalhou para o mundo o mito de que o punk rock era um movimento político. Uma sucessão de slogans muito bem feitos – Rebels with a cause, The only band that really matters, etc, etc. – ajudavam a criar uma aura de quase santidade que envolvia a banda e inspirava os fãs de todas as latitudes.
Envolviam ao mesmo tempo em que encobriam alguns detalhes importantes. Por mais surpreendente que possa parecer aos fãs da banda, acostumados ao rótulo de revolucionários que se lhes impôs, a verdade é que também os integrantes do Clash não eram propriamente um exemplo de politização. O guitarrista, Mick Jones nunca escondeu o desejo de ser um rockstar à maneira dos seus ídolos do Mott the Hoople – tanto que, logo depois de ter deixado o grupo, foi exatamente nisto que ele tentou se transformar com seu grupo pop Big Audio Dynamite. O baixista, Paul Simonon, gostava de reggae e ska, mais por ter convivido com jamaicanos durante a infância do que por algum interesse especial em “coisas do Terceiro Mundo”, culturas diferentes, multiculturalismo, etc, etc, etc. Os dois eram de classe média baixa, filhos de imigrantes e criados longe de grandes luxos. Eram iguais aos punks das outras bandas em tudo – às vezes, até no insuspeito reacionarismo. Neste sentido, foi explicativa a declaração de Vince White, guitarrista da banda após a demissão de Jones, pouco depois de o grupo acabar: And I’m not f *cking joking and let me just say I don’t like the Chinese. I don’t like their fat ugly faces. I wish they’d f*king f*k off. There are hundreds of these cunts in Portobello Road these days, where I live. That’s another thing the Clash promoted: multiculturalism. I don’t buy it. I’m English and I don’t like foreigners. Why are aliens allowed to flood in here?”. Um legítimo Little Englander, que não deixa de sê-lo por usar moicano, jaqueta puída e coturno.
A quem, então, o Clash deve a aura mítica? A um competente manager? À necessidade de a mídia encontrar um sentido maior numa brincadeira de garotos? A uma soma de mal entendidos, que, segundo Rilke, caracterizava a fama? Nada disso: primeiro e antes de tudo, a um corpo estranho não só na banda como em todo o movimento punk e, poder-se-ia dizer, ao rock’nroll como um todo. Este corpo estranho chamava-se Joe Strummer.
Um sujeito singular, eis o que John Graham Mellor (seu nome verdadeiro) foi em seus 50 anos de vida, postos a termo em 2002 após um ataque cardíaco. Nascido em Ankara, na Turquia, filho de um alto funcionário da diplomacia britânica e de uma filha de fazendeiros das Highlands escocesas, tinha tudo para seguir um caminho tão brilhante quanto o do pai. Preferiu walk on the wild side: fez o tipo de artista pobretão nas famosas art schools inglesas dos anos 70, que tinham à época mais ou menos a mesma fama que os cursos de Comunicação Social têm hoje em dia no Brasil. Deixou o cabelo crescer e adotou o apelido Woody Mellor, em homenagem a seu ídolo Woodie Guthrie, cantor folk americano. Após brincar de artista pobretão, brincou de hippie quando ser hippie estava na moda, brincou de pub rocker quando isto também entrou na moda (por um brevíssimo período, é verdade)e, quando o punk entrou em cena, resolveu brincar daquilo também. Já tinha então 25 anos de idade. A grande maioria dos punks tinha entre 17 e 21 anos e, para eles, o adulto Strummer já era quase um velho. Pior: um velho da classe alta no meio de garotos da classe trabalhadora. O que lhe restou? Tentar se enturmar. Compôs músicas simples, com letras simples e mensagem simples no primeiro disco, The Clash, onde gritava contra a violência policial, o desemprego e todas as outras coisas que ele nunca havia vivido e, se havia, foi por ter escolhido por sua conta e risco uma vida que seus pais não haviam planejado para ele – e para os quais tinha a segurança de voltar sempre que a corda apertasse.
O sucesso foi inesperado. The Clash, toscamente gravado em três finais de semana, vendeu muito bem no Reino Unido e o Clash ganhou um público fiel de universitários e intelectuais. Ao mesmo tempo, ganhou o desprezo dos verdadeiros membros da classe trabalhadora inglesa. Mick Geggus, do Cockney Rejects, dizia que o sotaque cockney falado pelas bandas punks da geração 77 era totalmente falso, numa clara referência às famosas tentativas (fracassadas, para quem conhece o verdadeiro sotaque cockney) de Strummer em imitar os east enders nos seus primeiros tempos no punk. Como ficou comprovado com o passar dos anos, o inglês de Strummer era tão standart quanto o da BBC e o da rainha: nos anos 80, já não cortava o final das palavras nem anasalava como seus compatriotas dos subúrbios londrinos.
Não está desconectada disto a evolução sonora da banda, uma das mais notáveis – senão a mais notável – que se tem notícia na música pop e superior talvez à dos Beatles na metade dos anos 60. Marca dela (e de muito mais) foi o lançamento de London Calling, em 1980. Pela primeira vez uma banda proveniente do punk se arriscava a experimentar estilos tão distintos quanto o blues, o rockabilly, o jazz, a salsa, o pop e muito mais. Anos depois, o próprio Strummer viria a dizer que London Calling era uma suma do que eram feitos os integrantes do Clash – do passado hard rocker de Mick Jones, do reggae e ska de Paul Simonon, das influências jazzy e r & b de Topper Headon, tudo envolvido pelas letras inspiradíssimas de Strummer, o pior músico dos quatro e o melhor letrista de rock dos últimos trinta anos. London Calling atingiu o cobiçadíssimo Top 30 da Billboard e o Clash passou de banda de pubs imundos das docas de Londres a integrantes do panteão do rock’n roll mundial, apreciados e admirados pelos fãs de todos os estilos em todo o mundo.
Mas este ainda não era “o” álbum de Strummer. Este viria na metade de 1980 na forma de um disco triplo (sim, triplo) de capa extremamente sugestiva e um nome que, para os ouvidos ingleses, deve ter soado curiosíssimo: Sandinista. Aqui as concessões de Strummer ao seu público acabam já no título: para compreender aquilo que une as dezenas de canções, pedaços de canções e takes experimentais é preciso, antes de tudo, saber o que é “Sandinista”, onde fica a Nicarágua e o que uma revolução leninista-cucaracha ocorrida seis meses antes pode ter a ver com música (meio ano em tempos pré-Internet, pré-twitter e na Inglaterra daquela época significa o mesmo que duas semanas hoje em dia). Depois, é preciso ter ouvido capaz de apreciar tudo, da valsa (!!) ao reggae, do jazz ao rockabilly, do gospel à salsa, do rap ao hard rock e assim por diante. Praticamente não há gênero musical popular do Ocidente (e não só) que não esteja, de uma forma ou de outra, contemplado em suas mais de 40 faixas. Por fim, é preciso compreender o que Strummer quer dizer. E não é qualquer um que consegue compreender canções que citam de Marx e Engels numa música, Victor Jara e Salvador Allende noutra, política internacional em várias, crítica social em quase todas. Não se trata de um banda punk querendo adaptar o reggae para os três acordes, como o próprio Clash em seus primeiros discos (o cover de “Police and Thieves”, de 1977, é um exemplo disso). Nem de uma banda de rock’ n roll com tendências ecléticas, como o Clash de London Calling. Sandinista é um disco de um grupo que quer tocar tudo – um grupo, ponto. É um disco gigante, ultra-pretensioso, inflado: não é um disco de rock e nem de um roqueiro. É um disco de um intelectual de esquerda – ou melhor, de um aspirante a intelectual de esquerda nascido e criado entre gente de Direita. Como, aliás, grande parte destes intelectuais, incluindo ninguém menos do que Karl Marx.
Os garotos punks que o cercavam achavam-no uma figura curiosa. O irlandês gozador John Lydon ria a valer dos pendores intelectualóides de Strummer: “Strummer lê muitos livros e acredita neles, coitado!”. Nos EUA, a turma do hardcore dizia que o Clash tinha se vendido a partir de London Calling e que Strummer era “um aristocratazinho”, no dizer de um Jello Biafra que falava em nome de muitos. Criticavam-lhe o sucesso comercial, as referências literárias e políticas, o ar professoral que Strummer com alguma frequencia assumia em cima do palco (coisa que nem o mais fanático clashmaníaco pode negar) e criticavam-lhe, em peso, pela sua origem. Mas foi a sua origem que deu ao Clash a substância que nenhum outro grupo de rock de sua época (e muito poucos em toda a história da música pop) puderam apresentar. Como filho de diplomata, viveu em vários países, indo além da insularidade inglesa. Como aristocrata, estudou nos melhores colégios privados ingleses, onde até o mais vagabundo dos alunos aprende, mesmo contra a vontade, algo sobre Plutarco, Descartes ou William Blake. Como jovem bem formado vagando pelo no submundo londrino, conheceu refugiados políticos de todo o mundo, músicos de todo o mundo, artistas de todo o mundo e escritores de todo o mundo – especialmente da Espanha franquista e da América do Sul das ditaduras militares, o nosso grande mundo hispânico que ele tanto amava. Repetindo o que disse Shaw: nada é mais reacionário e conservador do que um membro da classe trabalhadora. Strummer não era um deles – nunca foi. Como o próprio Shaw nunca foi. Da mesma forma que um dos escritores mais identificados com a esquerda em seu tempo era filho da classe média-alta irlandesa (de origem inglesa), o mais representativo grupo do punk politizado inglês foi conduzido pelo menos inglês de todos os rockers, com muito mais parecenças com um artista da Europa continental ou da América do Sul do que com qualquer um de seus companheiros de cena musical. Só Joe Strummer seria capaz de levar o white noise (expressão cunhada por Lester Bangs naquele artigo genial citado acima) para além das fronteiras estreitas desenhadas pelos anglo-saxões do Atlântico Norte. Só ele poderia citar Garcia Lorca, clássicos do cinema e das artes e gravar canções com a participação do poeta beat Allen Ginsberg. Só alguém assim poderia dizer, em uma de suas últimas entrevistas, sem parecer forçado, que ”This world’s full of kids playing with their bloody Playstations – and I mean grown-up executives. What is that shit? I know thousands of people my age, sitting around with those. What the fuck are you doing? We should be talking about Dostoeyevsky, innit?”. Só um estranho chamado Joe Strummer.
Entrevista: Aline Love and Club Band
Entrevista: Carlos Vinicius Sá e Aline Love, integrantes da Aline Love and Club Band
“Existe uma grande diferença entre amar a fama e amar a música”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Quem ouve falar da banda Aline Love and Club Band e vê o seu emblema muito possivelmente terá a sensação de já ter visto algo parecido antes. E não estará errado: o nome do grupo formado por Carlos Vinicius Sá, Thiago Seidl, Vitor Franke e a própria Aline Love é uma referência clara ao disco mais famoso dos Beatles, e o seu emblema, inspirado no equivalente do metrô de Londres. A filiação britânica do som da banda fica clara já aí, mas não serve para explicar tudo: há muito de Jovem Guarda ali, coisa que 9 entre 10 bandas modernas inspiradas neste movimento musical recusam-se terminantemente a admitir. E o resultado é admiravelmente bom.
Para quem acha que digo isso porque Carlos é meu amigo e ele, junto a sua colega de banda e namorada Aline, aceitou ficar até as dez da noite conversando num bar doLa Salleonde nós dois estudamos ganha aqui uma sugestão: que programe um passeio pela Redenção num domingo à tarde – mais precisamente, a partir das 15 horas. Terão a chance de conferir ao vivo se estou certo ou não.
O Timoneiro: Carlos, o fim dos Flutuantes (antiga banda de Carlos e uma das maiores promessas do rock gaúcho da década passada) coincide com o começo da Aline Love & Club Band?
Carlos: Não exatamente. Os Flutuantes chegaram ao fim no ano passado, depois de algumas divergências que tivemos em vários níveis. Por outro lado, o projeto Alice Love & Club Band já existia desde o final de 2009. A transição foi aos poucos. Começou num ritmo menor e em seguida fomos ganhando corpo.
OT: Um dado interessante é que vocês dois tocam em dupla e com a banda também, não?
Aline: Sim. A banda Aline Love and Club Band é composta por nós dois, mais o Vitor franke e o Tiago Seidl. Porém, nós também fazemos apresentações em dupla, tocando violão e voz. Aí nos chamamos, muito simplesmente, de Aline e Vinicius (risos).
OT: Onde a banda tem tocado com mais freqüência?
Carlos: Tocamos muito na rua. Quem quiser nos ver tem dois horários: no sábado, na Andradas, a partir das 3 horas, e no domingo, na Redenção, a partir do mesmo horário. Fora dali, tocamos em vários lugares: em casamentos, formaturas, aniversários….
Aline: Como eu e ele já andamos usando umas roupas meio anos 60 (risos) as pessoas nos convidam para fazer festas anos com essa temática.
OT: Aline, qual era a idéia que tu tinhas da cena rock de Porto Alegre antes de vires para cá?
Aline:A idéia lá do interior é a que de Porto Alegre é o grande cenário de rock’n roll e de que há muito mais chances para quem está começando. Essa idéia é um pouco mito, como eu pude comprovar pessoalmente.
OT: Há a idéia de que é uma cidade muito roqueira, onde todos são fãs de The Who, todos conhecem Small Faces….
Aline: (risos) Sim, exatamente!
Carlos: Eu notei isso quando estive em outros lugares do país com os Flutuantes. Sempre falavam isso de Porto Alegre.
OT: E que diferenças notas entre o mercado para shows daqui e do interior, de onde vens?
Aline: Eu noto uma diferença entre as casas noturnas da minha cidade, Passo Fundo, bem como do resto do interior, e daqui da Região Metropolitana. Aqui se paga menos e às vezes nem se paga. Às vezes eles dão apenas pra divulgação e não pagam nada.
Carlos: Isso nós não aceitamos. O que, é claro, restringe um pouco os nossos locais para tocar (risos)
Alina: Muitos bares pagam cachê, mas é por portaria. Metade do ingresso vai para nós, metade para eles. Isso dificulta a vida das bandas novas.
OT: Quais as influências mais presentes no som de vocês?
Aline. Principalmente Mod inglês e Jovem Guarda. São Os Incríveis, Golden Boys, Roberto e Erasmo e muitos outros. Dos estrangeiros Beatles, the Who, Herman´s Hermits. Tocamos muitos covers dessas bandas e, às vezes, alguma coisa menos conhecida. Às vezes tocamos algumas coisas antigas que ninguém conhece (risos)
Carlos: Nós mudamos nosso repertorio às vezes de acordo com o ouvinte. “Era um garoto”, por exemplo, nós não tínhamos, mas aí começaram a pedir e resolvemos incluir.
Aline: Sou acostumada a variar repertório. Tanto que já toquei de tudo, todos os estilos possíveis, porque eu precisava pagar o CD. Já toquei até em banda de baile, por exemplo (risos). Para mim, essa é a diferença entre musico e roqueiro. Um músico que se diga músico não pode ser bitolado e deve tocar de tudo. Hoje em dia, a gente pode se dar ao luxo de tocar só o que queremos. Existe essa diferença, assim como existe a diferença entre amar a fama e amar a música
OT: Fale um pouco dessa diferença, Aline.
Aline: Dou um exemplo que eu vivenciei. Quando os Flutuantes abriram para os Mutantes, fui falar com o Sérgio Baptista, que é simplesmente uma lenda do rock. Eu o abracei e disse: “Estou diante da história do rock”, e ele “estou diante do futuro”. Incrível! Um cara extremamente humilde, extremamente gentil e até fez um show com o meu bottom (risos). Às vezes vejo roqueiros daqui da região com o nariz empinado, extremamente arrogantes, enquanto lendas vivas como o Sérgio tu encontras tomando uma água sentado numa mesa de bar e conversam contigo na boa. Essa é a diferença entre ser um músico de verdade e alguém que só procura a fama. Nós, se continuarmos tocando na calçada da Andradas vamos continuar felizes. Estaremos nos mantendo como a gente gosta. E não se pode viver sem ter o pé no chão. Não se pode pensar só em coisas muito elevadas, tocar no Jô Soares ou algo assim. Aí tu não estás centrado na tua música, em oferecer algo que preste, e sim em ser celebridade. Se eu ganho dez reais de um CD, eu tenho de tratar bem aquele que comprou o CD, pois eu tenho aqueles dez reais graças a ele.
Fortunatti sanciona lei que cria Secretaria dos Direitos Animais em Porto Alegre
Leia Aqui
Foto: Ivo Gonçalves/PMPA
Parabéns Porto Alegre e que este belo exemplo de sensibilidade se espalhe.
Teoria da argumentação jurídica
O Brasil é um país carente de boas traduções. Muito da produção científica dos principais centros culturais do mundo demora muito tempo para cá chegar. Em muitos casos simplesmente não chega, obrigado o pesquisador e o estudante a importá-la. Por essa razão, a publicação de Teoria da argumentação jurídica, de Robert Alexy (Forense, 350 páginas, tradução de Zilda Hutchinson Schild Silva), uma das mais influentes obras de Filosofia do Direito das últimas décadas, é uma excelente notícia para estudantes, advogados, magistrados e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão envolvidos com o Direito no Brasil.
Nesta obra, Alexy parte da necessidade de se fundamentar racionalmente o discurso das decisões jurídicas. É da opinião de que esta fundamentação não só é possível como é desejável, desde que baseie em regras específicas. Após uma excelente introdução às teorias argumentativas que lhe antecedem, o autor apresente, na segunda e na terceira parte do livro (especialmente nesta última) quais são estas regras específicas como se as deve aplicar na prática.
Onde encontrar:
Telefone: (21) 3543 0770
Lamento por Amy Winehouse.
Conheci a Amy em 2006, logo depois do clipe de Rehab ter sido lançado. Me impressionei com o visual e o instrumental meio retrô, mas mais ainda com o timbre de voz, tão diferenciado das cantoras da atualidade.
Um jeito de cantar genuíno, com alma. Provavelmente o fato de suas músicas serem muito autorais, situações – boas e ruins- que ela vivenciou,e não apenas frases construídas por outros autores, falando de situações que nada tinham a ver com a vida que ela vivia, seja o motivo do encanto do grande público. Cada música tinha sua história, sua carga de emoção . O que fez com que Amy fosse amada por muitos ,foi também combustível para o seu fim trágico. Amy , no fim das contas, era a sua música. Triste, muito triste, para os fãs ,que acompanharam nesses últimos cinco anos, a lenta marcha para o esperado fim que se deu nesse dia 23 de julho. Fica, além da memória inesquecível de sua música e seu talento, o lamento do que poderia ter sido e não foi.
A Amy que queremos guardada na memória.
Amy Winehouse – in memoriam
A morte da cantora Amy Winehouse causou enorme tristeza a grande parte dos componentes deste blog. Miss Lou Lou, autora de dezenas de post brincalhões sobre Amy no Perspectiva é fã de primeira hora e certamente irá externar seus sentimentos por aqui. Quanto a mim, fã conquistada mais tarde, assinei postagem no dia 14 de setembro de 2008, por ocasião do aniversário da cantora, data em que me tornei sua fã. Repito aqui o que postei à época e agradeço à minha Miss Lou Lou por haver me mostrado o talento desta inesquecível Amy Winehouse. Pena, Miss Winehouse, que tenham lhe faltado amigos para impedir a destruição do corpo que era o templo que abrigava esta voz maravilhosa que hoje calou-se.
Esta postagem está neste link .
Amy Winehouse – só não é fã quem não conhece
Quando Miss Lou Lou sistematicamente, escrevia posts falando aobre Amy Winehouse, tenho de admitir que eu não conseguia entender o porquê de tanta admiração. Afinal, até então, as músicas e o estilo único de Amy eram desconhecidos para mim. Posso afirmar que nunca iria, por livre e espontânea vontade, buscar me informar sobre os motivos pelos quais a cantora é tão aclamada, tanto pela mídia quanto pelos seus fãs.
Além disso não satisfaz meus padrões estéticos o visual da cantora. Somente não tentava boicotar os posts pela filosofia imperante no blog, expressa na frase de Julián Márias acima da contagem de acessos.
Pois quis o destino que, nesta manhã de domingo, 14/09, aniversário de Amy, eu estivesse passando pela sala de casa justamente no momento que Miss Lou Lou assistia a um show da cantora, transmitido pelo canal Multishow. Primeiro, ouvi a voz – e QUE voz. Depois vi quem era: a tão falada Amy Winehouse, cantando no palco de um festival, em 2007.
E quase instantaneamente fui cativada pelo carisma de Winehouse. Não consegui sair da sala Logicamente fui objeto de chacotas por parte de minhas companheiras de blog ( os companheiros permanecem irredutíveis oposicionistas, talvez porque nunca pararam para ouvir) pelo fato de ser uma fã novata, alterando substancialmente opiniões anteriormente exposta e com aquele comportamento típico, ou seja, aquele olhar extasiado ante algo ” novo”.
E, nessa condição, no dia se seu aniversário, externo meus votos de vida longa a Miss Winehouse.
setembro 14, 2008 - Posted by Madame Li Li | Música | Editar
Rádio Gaúcha e o descompromisso
Estava eu ouvindo o programa “Esportes ao Meio-Dia”, na quarta-feira, quando duas pérolas proferidas em menos de cinco minutos me compeliram a desligar o rádio.
A primeira se refere ao provável time escalado por Julinho Camargo para o jogo entre Figueirense x Grêmio. O réporter (confesso que não recordo o nome), ao especular sobre o ataque mencionou os nomes de André Lima e Leandro. E, na sequência, dispôs que Miralles, desde a época do Renato, ainda não conseguiu uma atuação convincente que o credencie ao time titular.
Esquece o repórter que a primeira partida de Miralles pelo Grêmio foi contra o Avaí, última partida de Renato no comando da equipe. Miralles, naquele jogo, entrou quando o Grêmio perdia por 2×0. Atuou bem e foi um dos responsáveis pela reação do time e consequente empate.
Após a partida contra o Avaí, jogou mais dois ou três jogos e, se não me engano, sempre entrando no decorrer da partida. Pergunto-me: diante de tais fatos é possível afirmar que teve Miralles oportunidade de ser ou não convincente?
A segunda pérola foi proferida por um cidadão chamado Simões. Segundo ele, em 2007, no Campeonato Brasileiro, o Grêmio estava 11 pontos à frente do segundo colocado e ainda assim não conseguiu manter a vantagem. Esqueceram de avisá-lo que isso foi em 2008.
Descompromisso com os fatos, no mínimo.
Palestra: Introdução ao Trivium
A importância do estudo do Trivium
para o pensamento filosófico
com o prof. Marcus Boeira*
CONTEÚDO:
- A inserção de Aristóteles no ocidente medieval;
- O panorama político: o Império carolíngeo e a cosmovisão cristã;
- O pensamento grego e a tradição cristã;
- As artes liberais: o Trivium;
- Inteligência e realidade;
- O desenvolvimento posterior: a origem das universidades e a erupção do edifício cultural europeu.
QUANDO: dia 21 de JULHO/2011 (quinta-feira).
HORÁRIO: das 19h às 22h.
ONDE: Premananda: Centro de Terapia e Cultura. Rua Domingos José de Almeida, 161. Bairro Rio Branco/Porto Alegre – RS. [www.premananda.com.br]
INSCRIÇÕES (antecipadas): pelos fones
51 33988998 ou 51 81068456 .
INVESTIMENTO: R$ 50,00
OBS.: Havendo interesse dos participantes, a palestra poderá ter continuidade no formato de um Curso sobre o Trivium.
* Professor de Filosofia Política. Mestre e doutorando em Direito do Estado pela USP.
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Morte e imortalidade
O problema da morte parece ausente da filosofia contemporânea – ao menos da filosofia que enche as salas de aula das faculdades, as páginas dos manuais nos capítulos de “filosofia contemporânea” e os cadernos de cultura dos jornais mais prestigiados. Não é o único: estão também ausentes temas como Deus, a eternidade e, às vezes, o próprio homem – e não parece ser coincidência que estes temas ausentes estejam, de alguma forma, interligados.
Alheio a isto, o filósofo italiano Michele Federico Sciacca preferiu dedicar-se à questão em seu Morte e Imortalidade, de Michele Federico Sciacca (É Realizações, 287 páginas, tradução de Valdemar Munaro), publicado originalmente nos anos 60. E o fez justamente porque, diz ele, uma vida sem a reflexão da morte é inautêntica e falsa. Não podemos expulsa-la de nós, nem a morte e nem a reflexão sobre ela, embora possamos tentar fugir das duas. E Sciacca as encara de frente. Divide o estudo em três grandes partes – A Morte, A Imortalidade e O Suicídio -, dialogando com as posições presentes na tradição filosófica ocidental, em especial com Espinosa, Nietzsche, Hegel e a escolástica. Merece destaque a terceira e última parte, onde tipifica o suicídio e o analisa do ponto de vista moral e metafísico.
Onde encontrar:
(11) 5572 5363
Dia Mundial do Rock
Bo Diddley
PPS Canoas propõe a criação de Secretaria em defesa dos animais
A Executiva Municipal do PPS de Canoas apresentou no último dia 17 de junho ao prefeito de Canoas Jairo Jorge, a criação da Secretaria Especial de Defesa dos Direitos dos Animais.
Entregue ao prefeito pela executiva do partido, a proposta visa implementar medidas para resolver o problema dos animais abandonados em Canoas, bem como impedir os maus tratos aos mesmos. “O prefeito gostou da sugestão e disse que iria determinar a área competente e os estudos necessários para avaliar a proposta. Na nossa proposta, a secretaria terá autonomia orçamentária e poderá, assim, trabalhar em conjunto com entidades não-governamentais”, diz Celso Pitol, presidente municipal do partido.
Boa iniciativa. Atos concretos e não conversa fiada.
Personalismo marinista
O personalismo é chaga política tipicamente ibérica. Nós, ibéricos – sim, nós: dos Pirineus até a Patagônia, somos todos ibéricos – fomos varguistas, peronistas, sandinistas, fujimoristas, salazaristas, franquistas e castristas. Hoje, somos lulistas, chavistas, kirchneristas e……castristas. A explicação para o fenômeno parece estar na psicologia dos povos. Borges dizia que o argentino só concebia relações pessoais, e que uma relação com o Estado, sendo impessoal, lhe era inimaginável. Por essa razão, conclui ele, para um argentino não é crime roubar dinheiro público. Não é preciso deixar aqui claro que, se trocarmos argentino por mexicano, peruano, uruguaio ou brasileiro, o resultado é rigorosamente o mesmo. Atesta-o trecho do depoimento de um viajante holandês, colhido por Sérgio Buarque em ”Raízes do Brasil”, que estranhava o fato de, entre portugueses e espanhóis, era preciso fazer-se amigo de alguém antes de fechar um negócio.
Na política não é diferente. Temos dificuldade em entender a política sem personalismo. Gostamos do candidato que nos dá tapinhas nas costas, beija nossas criancinhas, usa as metáforas futebolísticas que todos usamos e, ao mesmo tempo, parece-nos líder, condutor, chefe, alguém a quem podemos chamar de “comandante” com prazer e orgulho. Gostamos daquele que nos lidera, mas não nos olha tão de cima que nos sintamos diminuídos.Gostamos do comandante que, em troca de nossa submissão, até consente em dar-nos um sorrisinho e dirigir-nos alguma palavra. E gostamos, por isso tudo, de segui-lo, e de dizer ao mundo que o seguimos.
A história do personalismo político em nossas terras tem, parafraseando Roberto Campos, passado glorioso e futuro promissor. A cada eleição que passa lhe acrescentamos um novo capítulo, prolongando indefinidamente esta triste saga em nossas terras com novas roupagens de um mesmo mal.
O mais recente capítulo atende pelo nome de Marina Silva.
Para quem vê as manifestações de seus seguidores nas redes sociais torna-se impossível não relacionar suas atitudes com a dos seguidores dos velhos caudilhos. Levantando a bandeira do “novo”, os adeptos marinistas seguem toda e qualquer atitude da líder com a despreocupação ideológica e de coerência típica dos destituídos de qualquer compromisso. De “novo” o discurso e a bandeira marinistas não têm nada: são apenas surrados chavões ditos, às vezes, com alguma roupagem nova. Às vezes.
O desligamento dos adeptos “marineiros” do Partido Verde deve-se, segundo a nota da líder, a certos descontentamentos com a atual forma de fazer política, a “desvios” do sistema representativo. E no final deixa claro: “ Não é hora de ser pragmático, é hora de ser sonhático e de agir pelos nossos sonhos”. Que sonhos são esses, tão maravilhosos que façam as pessoas os preferirem à ação concreta, a senhora Marina Silva não nos diz. Mas a impressão que passa é que trata-se de uma mera diversão para aplacar o tédio existencial de uma camada privilegiada da sociedade. Um tédio que, para ser preenchido, talvez não goste de encarar os fatos reais da vida e da política e prefira refugiar-se nos “sonhos” comandados pela sra. Marina. O resultado está aí: dê-lhe “marineiros” para lá e “marineiros” para cá.
Saiamos, contudo, um pouco do sonho marinista e observemos a realidade nua e crua.
A tática política do discurso marinista passa bem longe de chamamentos oníricos. Ao contrário, está bem assente no chão. Trata-se da velha prática de utilizar pequenas siglas para conquistar cadeiras legislativas e, depois disso, seguir a trajetória de Marina abandonar o partido de aluguel para fundar uma nova agremiação. Simples e claro.
Quem não consegue conviver com as democráticas diferenças existentes nos partidos políticos , abandona-os sempre que sua vontade não for integralmente seguinda, sob alegação de que os partidos perderam seus ideais, de que os filiados não decidem nada, não presta serviço algum à democracia. Acenam para uma nova forma de fazer política – quantas mil vezes já ouvimos populistas seguidores de lideranças autoritárias alardearem isso- onde a sociedade participa efetivamente. Não explicitam qual forma seria essa e na prática estão invadindo pequenos partidos para utilizá-los como sigla de aluguel e abandoná-los após as eleições. Essa é a nova forma de fazer política?Ora, ora. Todo o Brasil já viu essa prática antes. O mundo já viu essa prática antes.
E pretendem os seguidores de uma líder que não admite divergência governar cidades . Governar cidades é aceitar as diferenças e os fatos mostram a imensa dificuldade que os “marineiros” tem em relação a isso. Pretendem governar impondo sua vontade ou ao menor sinal de contrariedade vão abandonar o cargo, como crianças mimadas? Aliás, foi o que Marina fez quando teve a grande oportunidade de colaborar efetivamente para a melhora do meio ambiente: abandonou o cargo de ministra. Foi, aliás, em seu período à frente do Ministério do Meio Ambiente que o Brasil teve o maior índice de desmatamento de sua história. Uma realidade um tanto dura para os sonhos que o personalismo marinista quer propiciar a seus militantes.
Prefeitura de Porto Alegre disponibiliza telefones para socorrer pessoas expostas ao frio
A Prefeitura de Porto Alegre disponibilizou dois números para atender moradores de rua expostos ao frio nestes dias de inverno congelante.
Quem encontrar algum, não deve deixar de ligar para os números são 3289 4994 (para menores) e 3346 3238 (para adultos).
Torcida do Grêmio empolga Jim Carrey
Jim Carrey postou em seu twitter vídeo que fez sobre a empolgação da melhor torcida do Brasil.
Breve diálogo entre Tolkien e um americano
“Quando ouvi o ianque murmurar a respeito do “Feudalismo” e seus resultados nas distinções de classes e no comportamento social ingleses, eu abri a boca. O pobre tolo, é claro, não possuía de modo algum as mais mínimas noções sobre “Feudalismo” ou história – sendo ele um engenheiro químico. Porém, não se consegue tirar o “Feudalismo” de uma cabeça americana mais do que se consegue tirar o “Sotaque de Oxford”. Ele ficou impressionado, creio , quando eu disse que as relações de um inglês com porteiros, mordomos e comerciantes tinham tanta ligação com o “Feudalismo” quanto arranha-céus tinham com tendas de índios peles-vermelhas, ou o que o ato de tirar o chapéu para uma senhora tem com os métodos modernos de recolher o Imposto de Renda; mas tenho certeza de que ele não ficou convencido. No entanto, consegui colocar em sua cabeça uma leve noção de que o “Sotaque de Oxford” (ao qual ele, educadamente, disse que se referia ao meu) não era um sotaque “forçado” ou “fingido” mas um sotaque natural que se aprende de berço – e que, além disso, não era feudal ou aristocrático, mas uma invenção muito burguesa da classe média. Após eu lhe dizer que o seu “sotaque” soava para mim como inglês após ter sido limpo com uma esponja suja, e geralmente sugeria (falsamente) a um observador inglês que junto com a postura americana de ombros caídos, indicava um povo relaxado e mal-disciplinado – bem, ficamos muito amigáveis. Tomamos um pouco de café ruim na lanchonete em Snow Hill e nos separamos”
em Cartas de J.R.R Tolkien (Editora Arte e Letra, tradução de Gabriel Oliva Brum)
Entrevista: Roberto Tietz, professor e técnico de vôlei

“Sou e sempre serei um lassalista”
Há muitas maneiras de caracterizar o trabalho e a pessoa de Roberto Tietz. Podemos falar de sua carreira exitosa como técnico da Ulbra , do Pinheiros (SP) e, atualmente, do Pallavollo Lugano, da Suiça, de seus 25 anos como professor e treinador de equipes escolares, de seus novos projetos na área de educação infantil e de muitas outras coisas. Eu prefiro defini-lo com uma palavra: como um amador. E não como qualquer amador. Falamos aqui de um amador que, não contente com o lugar periférico destinado aos amadores, adentra o sagrado espaço ocupado pelos profissionais e ainda a tem a petulância de reclamar que este sagrado espaço está, vejam só, demasiadamente profissional. Uma conduta assim é um prato cheio para ser ridicularizada. É fácil escarnecer de um amador. O problema é quando o amador é querido e admirado pelos alunos, escrupulosamente cuidadoso e meticuloso em seu trabalho e, assim, muito bem sucedido no que faz. O problema torna-se pior quando o amador, sendo amador, ajudou a construir muito do ambiente que hoje os profissionais habitam. E o problema torna-se ainda mais difícil de resolver quando o amador prova factualmente que ser amador é melhor do que ser profissional. O que fazemos com um amador desses? Talvez o melhor seja, em vez de chamá-lo de amador – termo que a percepção menos treinada pode levar a interpretações equivocadas – qualifica-lo de outra forma. Façamos isso, então. E eu, na condição de amigo e ex-aluno de Tietz, vou defini-lo, mais uma vez, com uma palavra: como um verdadeiro e vocacionado educador.
OT: És natural de Canoas?
RT: Nasci em Porto Alegre, em 1966, mas desde que nasci moro em Canoas. Tive alguns hiatos sem morar aqui e isso foi bom para construir um sentimento de cidadania , uma noção do que temos de bom e do que não é tão bom. Eu, quando era pequeno, durante 4 anos morei em Caçapava do Sul. Anos depois morei em Santos e São Paulo. Aí, quando saí da Ulbra, que me proporcionou conhecer todo o país, fui morar em São Paulo para trabalhar no Pinheiros, o maior clube social do país. Mas a base continuou sempre aqui. Nunca deixei de ter minhas coisas aqui. Cheguei a ter um semestre em que eu voltava de São Paulo toda segunda para dar aula em Canoas, no Unilasalle.
OT: Quando começou a tua relação com o La Salle?
RT: Depois de me formar no La Salle, no segundo grau, fui ser professor ali. Estou há 25 anos no La Salle, completados neste ano. 25 anos sem interrupções. Entrei em 1987, ainda era estudante de educação física, e criei minha história como professor, cordenador de educação física, coordenador da escola, até quando o reitor me pediu que eu ajudasse na construção do curso de educação física. Fui o primeiro coordenador do curso. De lá sai do colégio e passei a ser somente professor da universidade. Trabalhei também no Maria Auxiliadora, dei cinco anos de aula lá. Entrei na Ulbra e me obriguei a sair do Auxiliadora, mas não quis, de maneira nenhuma, sair do La salle. Foi uma exigência que, inclusive, fiz ao pessoal da Ulbra na época.
OT: Fala um pouco dessa tua relação com o La Salle.
RT: Eu acho que o La salle faz parte da história de Canoas e do canoense. Mesmo quem não foi aluno. Porque o La Salle tinha uma relação muito estreita com a cidade, hoje, não tenha a certeza de que ela seja tão estreita, até porque a cidade cresceu. Mas se tu pegares a própria expansão do centro de Canoas, por exemplo, vais ver que muito disso passou pela relação com o La Salle. As ruas do centro, boa parte delas passava pelo terreno dos irmãos lassalistas, a XV de Janeiro passou por dentro do La salle, enfim, eu acho a nossa geração – a minha e depois a tua – ainda trouxe esse vinculo com o La salle. E eu sinto esse vínculo de maneira muito forte. Tanto que, hoje, eu vejo que o La salle é muito profissional e isso me incomoda como lassalista – e eu sou e sempre serei um lassalista– porque acho que certas coisas estão se perdendo.
OT: Como assim?
RT: Lembro da quadra que ajudei a pintar, das idéias que eu dei, de como as coisas eram e mudaram…..essa história não pode ser desprezada. Hoje, muito da educação superior está ligada às leis do MEC, que exige, entre outras coisas, que é preciso ter doutorado. O que vale é o numero de doutores. Quando começamos o curso de Educação Física, eu deixei claro que gostaria de indicar alguns professores que seguem os valores e estão ligados às raízes da instituição. Lembrei que aqui funciona um colégio, que está fundado sob as bases de São João Batista de La Salle, o padroeiro dos professores, e que isso deve estar sempre presente como filosofia da instituição. Por exemplo: para mim, era importante que um professor universitário fizesse a reflexão com os alunos no começo das aulas, como La Salle fazia. Isso para o MEC não tem valor, mas, para mim, é o que constrói um verdadeiro professor. Isso é o tipo de coisa que não se vê mais. Eu vejo às vezes professores universitários que nunca deram aula na vida! É normal vermos doutores que saem da graduação, que têm tese, livros publicados e viram assim professores. Para esses eu pergunto: como é que eu resolvo quando um aluno briga com o outro? E o que eu gostaria de fazer é que ele saísse como tu, um lassalista, uma pessoa que recebeu os ensinamentos de La Salle. Eu queria (e ainda quero) que um professor de Educação Física do La salle fosse um professor diferenciado, com essas raízes. Não sei se a gente consegue isso ou não, mas é o que eu procuro sempre passar para os alunos. Logo na minha primeira aula eu ponho um pensamento na lousa. E eu nunca falo do meu currículo, ainda que muitos dos meus alunos saibam que sou técnico profissional. O currículo que eu trago para a sala de aula é o de duas décadas como professor, não os cursos que eu tive aí fora ou porque fui campeão brasileiro. O que me faz ser , na minha avaliação, digno daquele momento, é a minha história dentro do La salle como professor.
OT: Às vezes, as exigências de doutorado e mestrado acabam alçando à condição de acadêmico pessoas que talvez não devessem ter optado por esse caminho e, ao mesmo tempo, barrando genuínas vocações de professores.
RT: Exato. E isso, infelizmente, acontece e muito nas licenciaturas. Mas na minha área eu posso dizer que é importante ter experiência. O aluno me diz “professor, estou no estágio, tenho essa dificuldade” e eu vejo que essas dificuldades eu já passei como professor , como aluno, como estagiário, então eu posso solucionar. Dentro da universidade sou muito mais ligado ao aluno, ao estagiário e ao professor do que à pesquisa. A pesquisa hoje eu faço com os profissionais. Na área da preparação física eu tenho um profissional da preparação física, e eu trabalho junto com ele.

Equipe de vôlei do La Salle de 1999 durante o torneio CECA, treinada por Roberto Tietz.
OT: Nunca me esqueço de uma frase do Larri Passos (treinador do Gustavo Kuerten) dizendo que o esporte de alto rendimento não é saúde, e sim desempenho. Concordas?
RT: Concordo. A dor e o desconforto são lei dentro do esporte profissional. Não é que não seja saúde, ele é contrário à saúde. O jogador convive com a dor, quando terminar a carreira terá dores e ele tem que ter noção disso e ser valorizado por isso. Mas, e alguém pode perguntar: porque se justifica o esporte profissional? Primeiro, porque o esporte é uma empresa. Há o patrocínio, há o COI, a FIFA, grande parte do patrocínio mundial está ligado ao esporte. Assim, o esporte gera emprego. Dizer “eu sou contra o esporte” é dizer “eu sou contra o Google, a Gerdau”. Vamos querer tirar essas coisas do planeta? Não, não é? Tomemos, então, o exemplo da Fórmula 1. Muito do que eu falei que é feito lá, como esporte de ponta, anos depois vai cair no teu automóvel. Nesse sentido, o esporte de alto nível se justifica também pela saúde. Muito da saúde está ligado à experiência no esporte. Os próprios planos de saúde estão muito ligados ao esporte por prevenção. A maratona, por exemplo, gera muitas informações para quem quer correr por lazer. Enfim, quando tu fazes um esporte de lazer ele está ligado indiretamente ao esporte de ponta. Mas o esporte de ponta, em essência, não é saúde.
OT: Técnicos como o Bernardinho, da seleção brasileira, com um estilo muito expansivo, costumam ser assim também fora da quadra?
RT: Só dentro da quadra. Fora dela o Bernardinho é uma criança. É um cara com palestra ótima e eu tenho muito do jeito dele. Na beira da quadra eu passo por um cara nervoso. Como exercício, eu te digo, muito é teatro. Na Suíça, eles são muito mais calmos. Lembro que nos primeiros jogos o meu assistente técnico, que é croata, disse assim “calma, Roberto, calma”, porque ele achava que eu estava nervoso (risos). Mas isso é importante para o time , para o jogador, pois assim eles sabem que alguém está ali junto com eles, brigando junto com eles. Isso são técnicas. Eu treinei a equipe do CSSGAPA máster por décadas, dava treino e uma das coisas que eu sempre me lembro é que diziam “tu briga, briga com a gente e termina o jogo a gente vai tomar uma cerveja”. Eu não brigo com a pessoa, brigo com o atleta naquele momento. O Bernardinho, por exemplo, tem o grupo na mão, como amigos. Ele tem o respeito dos atletas. Para mim, é o melhor treinador do mundo.
OT: Como se deu a tua ida para a Suiça?
RT: O Pallavolo Lugano me chamou porque eles queriam sair da condição de uma equipe intermediaria para equipe de ponta, então era interessante para eles que tivessem um técnico com formação gerencial, como é o meu caso. O trabalho vem sendo muito satisfatório. Terminamos o campeonato em quinto lugar empatados com outros três times, ou seja, terminamos, na verdade, na terceira colocação. Isso nunca havia acontecido na historia do Lugano. Foi tão satisfatório que abri portas lá. Fiquei sabendo essa semana que o técnico do time que tinha sido campeão suíço no ano retrasado será o Carlos Schwanke , que foi meu jogador, e isso me deixou muito contente, pois sabemos que técnicos fecham e abrem mercado. Assim como há países em que não entram técnicos brasileiros porque alguns profissionais nossos fecharam o mercado.
OT: Como foi a, digamos assim, “transição” para o mundo Suíço?
RT: Eu sempre digo que em dez anos vou ser prefeito de Canoas e aí vou aplicar algumas coisas simples que gente vê lá e que dão resultado e não sei por que não são feitas (risos). Eu queria que pagassem uma passagem para os políticos brasileiros fazerem um estágio lá e verem como são feitas as coisas. Primeiro, eu estou numa parte da Suíça que é o sonho de todo italiano e o sonho de final de carreira de todo suíço. A Suíça italiana é a Itália que deu certo. É muito mais rica que organizada que a Itália, tanto que a quantidade de italianos trabalhando lá é muito grande. E a Suíça do norte é muito mais rica e organizada do que a parte onde estou , mas quando alguém se aposenta quer ir pra lá, pois é mais tranqüilo e quente, é a chamada Suíça Tropical. Eles dizem que Lugano é o Rio de Janeiro da Suíça e tem até um morro que lembra o Pão de Açúcar. Agora está fazendo 30 graus, o que é difícil no norte da Suíça. Em Lugano, o verão é de 25 a 35 graus, como o nosso, e como tem a região de lagos há muitos esportes de verão. É uma praia sem mar. E com uma qualidade de vida excepcional.
OT: A receptividade das pessoas à tua presença foi boa? Houve algum choque cultural?
RT: O que houve de choque cultural foi essa coisa latina que eu tenho como técnico, porque esse meu estilo mais “passional” assustou um pouco os suíços (risos). Tem cidades em que a torcida somente bate palmas, ficam calmos o jogo todo. Certa vez, fui jogar no interior da Suíça com um time muito pequeno e, enquanto o técnico do time pequeno ficava sentado no banco e falava com o time nos pedidos de tempo, eu, com o meu time, berrava todos os palavrões em português (em italiano não podia dizer) durante o jogo e a torcida olhava um pouco para a bola e um pouco para mim. Quem fazia o maior barulho em quadra era eu. (risos).
OT: Como o vôlei brasileiro é visto no exterior?
RT: Como o melhor do mundo. Nós somos muito admirados e conhecem muito bem os nossos jogadores. Temos uma filosofia de trabalho muito respeitada. Aqui no Brasil se treina mais, se treina quase à exaustão , no limite do jogador físico e psicológico. A Itália treina um pouco menos, a Suíça muito menos em termos de horas-treino. Essa coisa de ir atrás de jogo, estatística, os grandes centros fazem como nós mas fazem diferente, usam a estatística mas fazem diferente. Acho que temos um pouco mais expertise para analisar essas informações.
OT: Qual o nível atual da nossa liga em comparação com a dos outros países?
RT: Olha, é das melhores. Está entre as mais competitivas, porque muitos jogadores brasileiros voltaram. Estão querendo trazer estrangeiros, inclusive, como aconteceu no inicio da superliga.
OT: Como avalias, como um balanço geral, a tua experiência na Suíça?
RT: Eu tive muito prazer em vivenciar algo que é muito bom e, no entanto, possível de se realizar. Acho que existem muitas coisas pequenas que podemos fazer, a gente fala muito da educação e faz muito pouco. E acho que também temos que aprender com o vôlei, coisas novas em termos de trabalho, de maneira de trabalhar. Mas a nossa casa é sempre a melhor , o melhor pais do mundo é o Brasil, mas tem lições simples de cidadania e respeito que poderíamos tirar deles.
Duas entrevistas de Otto Maria Carpeaux, o livre atirador
A página Tiro de Letra prestou um grande serviço ao leitor brasileiro ao disponibilizar online duas antigas entrevistas de Otto Maria Carpeaux. A primeira, de 1949, foi originalmente publicada na “Revista do Globo”, do Rio de Janeiro, e a segunda, de 1976, saiu na revista “José”, também do Rio de Janeiro. Nelas, Carpeaux fala de sua formação intelectual, da Viena de sua juventude, da crítica brasileira e estrangeira, de vários autores, de seus primeiros livros (publicados ainda na Europa), do fascismo e do nazismo e de muitos outros assuntos. Chega a fazer graça com algumas impertinências dos condutores da segunda entrevista, sem, entretanto, nunca perder a elegância e o bom humor característicos.
Fizemos abaixo uma pequena seleção de trechos das duas, que poderia ser muito maior e, mesmo assim, jamais dispensaria a leitura integral de ambas. São trechos que, datando de muitas décadas, revelam surpreendente interesse e atualidade para o Brasil de hoje. Há, entretanto, um momento que, mais do que qualquer outro, deve chamar a atenção daqueles que conhecem e admiram a obra de Carpeaux:
“Não sou crítico profissional, antes livre atirador, sem obrigação alguma de escrever sobre tudo.”
Se Carpeaux tiver razão – e, a nosso ver, não tem – cabe uma pergunta: o que sobra para o resto?
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Que diferença sentiu ao chegar (ao Brasil)? Digo, de consciência política?
Diferença? No Brasil quase não encontrei gente de direita. Na Europa havia, então uma grande maioria de intelectuais direitistas.
(…) Carpeaux, você já escreveu que sente uma diferença, não na criação, mas na crítica, entre a década de sessenta e o ambiente que encontrou ao chegar aqui em 1939.
Nisso, a diferença é enorme. Entre o Rio de 1945 e o de hoje, a diferença de compreensão crítica é quase incomensurável, no sentido de uma elevação de nível. Mas não quanto à manifestação literária. Nesse ponto, o Brasil de hoje é inferior ao de 45. Pense no Estado Novo: a literatura brasileira era a de Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Graciliano e outros. E hoje? A diferença é grande. Naquela época havia uma literatura brasileira. Hoje há talvez um número maior de poetas, ficcionistas e ensaístas de bastante talento. Mas não existe uma literatura, um corpus, neste momento.
(…)
Além desse aspecto que chamo de método poético…
Diga métodos, no plural. Quando escrevo sobre Zola, por exemplo, não falo de aspectos psicológicos, que inexistem nele.
Evidente. Quando você fala de Shakespeare…
Aí, é diferente. Há um método específico para cada obra de Shakespeare!
Há um antiprofissionalismo crítico na sua obra muito peculiar. É um aspecto documental que deve estar ligado à sua atividade de jornalista. Que diz disso?
Você falou de minha atividade de ensaísta, crítico, etc. E agora fala do jornalista. Para mim, minha atividade literária engloba-se na atividade de jornalista. O que sou, no fundo, é só isso. Não ignoro que a qualificação de jornalista não é das mais bem vistas. Quando se diz de alguém “Esse é jornalista”, a impressão é sempre de que isso é uma atividade inferior, etc. Mas me considero, globalmente, em primeira linha,um jornalista. Meus ensaios e artigos são parte da minha atividade jornalística.
No sentido de Leopoldo Alas,”Clarín”, por exemplo?
Clarín, não. Fora seus extraordinários romances, ele era uma espécie de palhaço. Divertir os leitores não me interessa
Você citaria que exemplos?
Citaria outros nomes. Mas receio que digam: “Vejam só com quem ele se compara!”. Só quero dizer que jornalistas no meu sentido foram também René Chateaubriand, Lutero, os profetas do Velho Testamento. Do novo Testamento há talvez o maior jornalista da história, o apóstolo São Paulo. Ninguém entre nós pode se comparar a eles. Mas isso é um exemplo do que é jornalismo no meu sentido.
Sendo assim, Carpeaux, quer dizer que, nesse sentido, o jornalismo acabou quando apareceu o jornal?
Não acabou. Porque jornalismo não é só o que se redige para o jornal. É qualquer atividade dirigida aos outros e tomando como ponto de partida a atualidade. Isso é o verdadeiro jornalismo.
Porto Alegre é demais no voo inaugural da Tap
https://www.youtube.com/watch?v=ItAtQCqfNuw&feature=player_embedded#at=45
Discurso de Borges agradecendo ao Prêmio Cervantes de 1980
http://www.youtube.com/watch?v=vo2Eo-G-1sE&feature=player_embedded#at=124
Majestades,
Senhoras e senhores,
O destino do escritor é estranho, mas todos os destinos o são; o destino do escritor é cursar o comum das virtudes humanas, as agonias, as luzes; sentir intensamente cada instante de sua vida e, como queria Wolser, ser não somente ator, mas também espectador de sua vida. Também tem que recordar o passado, tem que ler os clássicos, já que o que um homem pode fazer não é nada, podemos simplesmente modificar muito levemente a tradição; a linguagem é nossa tradição. O escritor tem uma desvantagem: o fato de ter que operar com palavras, e as palavras, como se sabe, são uma matéria efêmera.
As palavras, como Horacio não ignorava, mudam de conotação emocional, de sentido; porém o escritor tem que se resignar a este manejo, o escritor tem que sentir, e logo sonhar, logo deixar que lhe cheguem as fábulas; convêm que o escritor não intervenha demasiado em sua obra, deve ser passivo, deve ser hospitaleiro com o que lhe chega e deve trabalhar essa matéria dos sonhos, deve escrever e publicar, como dizia Alfonso Reyes, para não passar a vida corrigindo os rascunhos, e assim trabalha durante anos, e se sente sozinho, vivo numa sorte de sonho; porém se os astros são favoráveis, uso deliberadamente as metáforas astrológicas, ainda que deteste a astrologia, chega um momento no qual descobre que não está sozinho. Nesse momento que lhe chega, que lhe chega agora, descobre que está no centro de um vasto círculo de amigos, conhecidos e desconhecidos, de gente que leu sua obra e que a enriqueceu, e nesse momento ele sente que sua vida foi justificada.
Eu agora me sinto mais que justificado, me chega este prêmio, que leva o nome, o máximo nome de Miguel de Cervantes, e recordo a primeira vez que li o Quixote, ali pelos anos de 1908 ou 1907, e creio que senti, naquele momento, o fato de que, apesar do titulo enganoso, o herói não é dom Quixote, o herói é aquele fidalgo manchego, o senhor provinciano que diríamos agora, que à força de ler a matéria da Bretanha, a matéria da França, a matéria de Roma, a Grande, quer ser um paladino, quer ser um Amadís de Gaula, por exemplo, ou Palmerín ou quem fosse, esse fidalgo que se impõe essa tarefa que algumas vezes consegue: ser dom Quixote, e que ao final comprova que não o é; ao final volta a ser Alonso Quijano, ou seja, que há realmente esse protagonista que costuma se esquecer, este Alonso Quijano.
Quero dizer, também, que me sinto muito comovido. Tinha preparadas muitas frases que não posso recordar agora, porém há algo que não quero esquecer, e é isto: comove-me muito o fato de receber esta honraria das mãos de um Rei, já que um Rei, como um Poeta, recebe um destino, aceita um destino e cumpre um destino e não o busca, ou seja, se trata de algo fatal, lindamente fatal, não sei como dizer minha gratidão, somente posso dizer meu incalculável agradecimento a todos vocês…
Muito obrigado.


















