Rumo à Estação Finlândia
Um trem vindo da Alemanha chegou à estação Finlândia, na cidade russa de São Petersburgo, no dia 3 de abril de 1917. Entre os seus passageiros encontrava-se Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido pelo nome de Lênin. Naquela altura, o líder bolchevique já não se via como o indivíduo Vladimir Ilitch Ulianov, com desejos, fraquezas e problemas particulares, mas sim como um verdadeiro agente da história, disposto a tudo para construir um mundo melhor para a humanidade do futuro. A chegada à dita estação marcaria o culminar de uma corrente de pensamento, à época já contando quase dois séculos, caracterizada pelo culto ao progresso e pela crença nas forças históricas, no aperfeiçoamento do homem e na busca por um mundo melhor: a esquerda.
Está, assim, explicado o título de “Rumo à Estação Finlândia”, uma das mais celebradas obras do crítico e escritor americano Edmund Wilson (Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Brito). É um livro difícil de definir. Publicado em 1940, até hoje resiste às tentativas de catalogação. É História? Filosofia? Jornalismo? É provável que cada leitor de “Rumo à Estação Finlândia” tenha a sua própria definição do que é a obra. Quanto a mim, entendo que é um grande e abrangente ensaio – o gênero por excelência das obras “indefinidas”, que arriscam conexões de saberes e novas interpretações sem seguirem um método rígido. Nele, Wilson mapeia o trajeto intelectual que levou Lênin a tomar o trem para a Estação Finlândia, partindo de Michelet, passando por Saint Simon, Marx, Bakunin, Trotski e chegando ao próprio líder soviético. A obra agradou, e segue agradando, tanto ao leitor comum quanto ao especializado, que, mesmo podendo fazer um ou outro apontamento às leituras de Wilson sobre certos personagens – em especial Marx, Lênin e Trotski, sobre os quais não se sabia muito quando ela foi escrita – não lhe pode deixar de admirar a erudição, a capacidade de síntese, a elegância do estilo e a capacidade de perceber e conectar as múltiplas vozes do pensamento progressista.
Coisas que não entendo
Há uma série de coisas que não entendo. Vamos a elas.
Primeiro, aos fatos: suspeita-se que os dois jovens acusados de terem plantado as bombas em Boston tenham tido ligação com o grupo terrorista islâmico Al Qaeda.
No entanto – eis uma das coisas que não entendo -, a mesma Al Qaeda está, neste exato momento, recebendo auxílio norte-americano. Sim, isso mesmo: o grupo terrorista que tem como objetivo explícito destruir os EUA recebe auxílio financeiro de Washington. E, ao que tudo indica, em breve receberá auxílio também bélico.
Onde isto acontece? No conflito sírio. A oposição ao regime ditatorial daquele país, apoiada pelos EUA, é dominada pelos rebeldes do grupo Frente Al-Nusra, um braço da Al Qaeda.
A Síria é governada por Bashar Al-Asad, ditador cuja família está no poder há cinco décadas. É um regime duro, bastante violento, ao melhor estilo das piores ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, com tudo o que há de detestável numa ditadura. Contudo é um regime secular, onde o Estado não interfere nas crenças religiosas dos cidadãos – justamente ao contrário do país onde a Al-Qaeda surgiu, a Arábia Saudita, que serve de modelo para os terroristas que posam, para grande parte da mídia ocidental, de guerreiros da liberdade.
O resultado deste conflito é brutal para todos os sírios, mas especialmente para os cristãos dos país. Um dos centros mais tradicionais do cristianismo, a Síria está vendo um êxodo maciço de comunidades que datam praticamente do tempo de Jesus, assustadas com a possibilidade de rebeldes salafistas tomarem o país e trucidá-los (leia-se aqui e aqui).
Que ninguém se engane: isto não é política exclusiva do governo Obama, nem prova de suposta islamofilia, que seus opositores muito gostam de jogar-lhe à cara. Os EUA ajudam extremistas há muito tempo. Nos anos 80, só para darmos um exemplo, islamistas afegãos contrários à ocupação soviética eram chamados de “freedom fighters” pelo governo Reagan e respeitados como defensores de valores atemporais contra o materialismo marxista. Receberam ajuda financeira e bélica, para, anos depois, virarem-se contra seus antigos financiadores. O resultado é bem conhecido.
Atualmente, quem apoia a ajuda aos sírios são gente como John McCain e Joe Lieberman – não exatamente uma dupla de admiradores de Obama. São-no tanto quanto a turma da Front Page Magazine, que também apóia.
Detestamos concordar com Patrick Buchanan, líder da direita populista norte-americana. Infelizmente, somos obrigados a fazê-lo: ele está correto em sua avaliação da situação:
“Christians to Beirut and Alawites to the wall,” was an early slogan of the resistance.
And after seeing the atrocities visited upon the Christians in Iraq when Saddam went down, and on Copts when Mubarak went down, do we want to depose another secular dictator – only to empower another regime of Islamic fundamentalists?”
No mesmo tom vem a impressão de um bispo francês que visitou o país, aqui. E o pedido do bispo católico Gregorio III, implorando para que não se enviem armas à Síria.
Talvez seja engraçado ver os “conservadores” do mundo todo apoiarem um plano de genocídio de cristãos de um dos, repetimos, centros tradicionais do cristianismo. Assim como deve ser engraçado ver o governo americano apoiar uma organização que promove o terrorismo dentro de seu próprio território. Deve ser muito engraçado, naturalmente, para quem está entendendo o que está se passando. Quem não entende, como eu, acha apenas deprimente.
De Siegfried a São Jorge
“São Jorge matando o Dragão”, relevo em mármore de Donatello, Museu del Bargello, Florença-Itália
O guerreiro Siegfried é um dos heróis mais importantes da mitologia nórdica. Personagem principal da Canção dos Nibelungos, tradicional história germânica que baseou a ópera de Wagner, aparece em várias outras narrativas do Norte da Europa, como a saga Volsunga dos islandeses. Seu inimigo mortal é o dragão Fafnir. Outrora filho de Hreidmar, rei dos anões, Fafnir transforma-se numa besta fera após matar o próprio pai e tomar posse do seu tesouro, guardando-o num buraco embaixo da terra. Fafnir é uma espécie de Caim germânico, mistura de traidor, parricida e ganancioso, desumanizado pelo dinheiro e pela cobiça. Típica lenda nórdica. Na verdade, a mais conhecida delas, que serviu de base para outra história conhecidíssima: O Senhor dos Anéis.
Quando os primeiros padres deixaram o sol acalentador do Mediterrâneo e aventuraram-se pelas brumas do Norte Europeu, aquela terra habitada por gnomos, orcs, goblins e toda sorte de criaturas imaginárias – dentre as quais Siegfried e Fafnir -, tiveram de convencer aqueles homens amigos da guerra que o cristianismo não era uma religião de fracos e pusilânimes. Para completar, a época em que os primeiros missionários chegaram – o século V – era a de decadência do Império Romano, então cristianizado e cada dia mais desprestigiado.Para a mente germânica, era difícil imaginar uma razão especial para um homem morrer pelo amor à humanidade, ainda mais se fosse filho de Deus. Para quê converter-se a algo que pregava o amor entre os homens, pois, como sabiam os germanos, os homens eram de dois tipos: ou como Fafnir, ou como Sigurd. Ou mesquinhos e avarentos, ou impulsivos e autoconfiantes.
Os primeiros padres da Igreja notaram logo que, para convencer guerreiros, era preciso trazer um guerreiro. E o melhor guerreiro que a Igreja do século V tinha era São Jorge da Capadócia. Era nada menos do que capitão do exército romano quando, numa reunião com o Imperador Diocleciano, proclamou em alto e bom som que a Verdade estava com Jesus Cristo e que os demais deuses eram todos falsos. A Jorge foi destinada a pena que, à epoca, se destinava aos cristãos: a tortura. Caso renegasse a fé, os martírios parariam. Jorge nunca renegou, mesmo diante das mais terríveis dores. Lutou contra o Império da única maneira que era possível a um cristão devoto. Acabou degolado no ano 303.
Ao contar a história para os germanos, os padres mudaram um pouco os detalhes do personagem. São Jorge foi transportado para um cenário um pouco diferente. Deram-lhe uma espada, semelhante à de Sigurd, e colocaram-no diante de um dragão, semelhante a Fafnir. O dragão exigia dos habitantes de uma vila na Líbia o sacrifiício de ovelhas para manter-se longe dela. Aos poucos, porém, passou a exigir crianças. Foi raptada uma menina chamada Sabra. Jorge toma sua espada, Ascalon, e seu cavalo branco e vai atrás do monstro para salvar a criança e, assim, converter a vila ao cristianismo. Não é difícil ver, aí, o dragão como simbolo da falsa idolatria, do falso Deus, que acaba por tirar tudo o que de mais valor existe num povo. E Jorge o vence pela espada, assim como Siegfried venceu Fafnir. Estava morta a falsa idolatria e trilhado o caminho para a vida eterna dos povos louros do Norte. Mesmo que, para isso, fosse preciso vestir um santo com as roupas de outro.
Aos católicos fãs de Thatcher….
….talvez interesse saber que a Dama de Ferro quis expulsar os católicos da Irlanda do Norte, inspirando-se abertamente em Oliver Cromwell, líder político e religioso inglês responsável pela perseguição e morte de dezenas de milhares de católicos, inclusive padres e bispos. Mais: deu apoio explícito às brigadas unionistas protestantes, que até hoje aterrorizam a população católica no país.
Quem não acredita em nós, do Blog Perspectiva, pode acessar aqui.
O ódio a Margareth Thatcher
Decerto não fui o único a ficar surpreso com a atitude de muitos britânicos diante da morte de Margareth Thatcher, ocorrida em 8 de abril último. Quem acompanha a política britânica sabe que naquele país a manifestação extremada de opiniões políticas é, para dizer o mínimo, pouco frequente. Durante o período de mandato do primeiro ministro, as críticas da imprensa e do público são duras e afiadíssimas como poucas vezes se vê em outros países. Muito raramente, entretanto, há manifestações explícitas de ódio ou amor a um político. Nem mesmo ícones como Churchill ou a Rainha Vitória são alvo disso. Margareth Thatcher foi. O canhão do ódio popular dos ingleses foi aceso e carregado com força nesta semana.
A título de comparação, tomemos o exemplo do parceiro internacional de Thatcher, Ronald Reagan. Sua morte, em 2004, deu margem para várias declarações críticas de seus opositores democratas e para o discurso laudatório de seus camaradas republicanos, mas não se teve notícia de manifestações em Washington, Nova York, Los Angeles ou Miami sugerindo que o ex-ator estava saindo deste mundo diretamente para o colo de Satã. O mesmo se deu quando da morte recente de Chávez: à exceção de algumas manifestações mal pensadas de alguns so-called conservadores na Internet – prontamente corrigidas por verdadeiros conservadores, aqui e aqui - ninguém disse abertamente que Chávez estava indo chatear o capeta com seus discursos de mais de dez horas.
No caso de Margaret Thatcher, seus opositores não se contentam em mandá-la para o inferno ou em atacá-la no Facebook. Eles se reúnem nas ruas, celebram, fazem festa – ao vivo ou na Internet. O jogador de críquete irlandês John Mooney, por exemplo, disse em seu twitter esperar que ela tenha tido uma morte “lenta e dolorosa”. Em Belfast, capital da Irlanda do Norte, as manifestações viraram a noite. Os irlandeses têm uma especial antipatia pela recém-falecida por várias razões. Em primeiro lugar, ela é inglesa – o que é relevante, em se tratando de irlandeses. Em segundo lugar, promoveu uma política duríssima na Irlanda do Norte, temperada com vários comentários anti-irlandeses típicos dos conservadores ingleses old school como ela. O partido de esquerda nacionalista irlandês Eirigi aproveitou o momento para pôr em seu twitter uma frase do mítico integrante do IRA Bobby Sands: “Our revenge will be the laughter of our children”. Sands , vale lembrar, foi um dos rebeldes irlandeses mortos por inanição numa prisão britânica após greve de fome durante o governo Thatcher. Já o líder do partido Sinn Feinn, Gerry Adams, da mesma corrente, foi um pouco mais comedido: limitou-se a dizer que a “Dama de Ferro” causou grande tristeza e dor para os irlandeses – que responderam empregando a conhecida criatividade celta para “homenageá-la”.
Boa parte da esquerda britânica não agiu de maneira muio diferente. Do expansivo parlamentar George Galloway citando música dos Smiths anti-Thatcher até o ex-prefeito socialista de Londres e amigão de Chávez, Ken Livingstone, qualificá-la como uma “desgraça” para o país, praticamente todo líder e figura importante dos trabalhistas - à exceção do mr. Terceira Via, Tony Blair - , socialistas e comunistas manifestou-se no mesmo sentido. Mas o que chamou mesmo a atenção foram as manifestações de rua, de Londres a Glasgow, de York a Cardiff. Manifestações grandes, com centenas de pessoas, cantando a conhecida canção do Mágico de Oz, “Ding, dong, the witch is dead, agora para sempre relacionada a este momento.



Qual a razão para tanto ódio? Seria algo orquestrado? Ou seria oriundo da legítima vontade e opinião do povo? O conservador pró-Thatcher apontará a primeira resposta, argumentando que não há razão para descontentamento: quando Thatcher assumiu, diz ele, a Inglaterra estava presa numa camisa de força estatista dos trabalhistas e foi libertada pelo discurso de que “não existia sociedade, e sim apenas indivíduos e suas famílias”, e que se hoje o país é alguma coisa, deve tudo às medidas profiláticas da Dama. Será verdade?
Estes gráficos abaixo podem ajudar a formular uma resposta. Antes de lê-los, entretanto, é importante dizer que o anti-thatchterismo britânico sempre foi localizado. Vicejou na Irlanda do Norte, nas velhas cidades industriais do Norte da Inglaterra e no Oeste da Escócia, em especial da cidade de Glasgow. Estas foram as regiões mais atingidas pelas reformas econômicas, os planos de enfraquecimento dos sindicatos e a desestatização da economia (somadas, no caso norte-irlandês, ao componente político e religioso). No resto do país, e em especial no Sul, seu governo foi mais bem avaliado. Dito isto, passemos aos gráficos e aos números implacáveis contidos neles.

Neste, vemos que o governo Thatcher inicia-se com uma recessão imediata. A tímida recuperação – que é mais tímida ainda quando se tem em conta a base baixíssima de comparação – a partir de 1982 alternará anos de recessão e crescimento que nunca superará o patamar de 2%, absolutamente medíocre sob qualquer ponto de vista. Sem crescimento econômico, não há emprego nem renda. E o gráfico seguinte comprovará isso.

Aqui, a baixíssima taxa de aproximadamente 5% registrada quanto Thatcher assume eleva-se rapidamente a altíssimos 12% em 1984, passando, entretanto, a cair e a chegar a ainda altos 7%, voltando a subir no final de seu governo. É lugar-comum no discurso dos defensores de Thatcher a ideia de que os jovens ingleses não tinham perspectiva quando ela assumiu e o desemprego era recorde. Como se vê, não é o caso.

Este gráfico ajuda a ter uma visão de longo prazo do desemprego pré, durante e pós thatcherismo. Com exceção de seu sucessor e discípulo John Major, não foi igualado por mais ninguém antes ou depois nos últimos quarenta anos – nem mesmo pelo governo de 2008-2009, no auge da crise econômica.

A inflação, por sua vez, oscilou entre patamares absurdamente altos no começo do governo (que coincidiram com o aumento do desemprego, a recessão e a perda de direitos sociais, gerando uma atmosfera de verdadeiro terror na população) e uma queda no decorrer da década, que acompanharam a queda de gastos governamentais – gastos que, ao contrário do que a maioria pensa, atingiram com Thatcher patamares sem comparação até mesmo com os anos do trabalhismo.

Em suma, um governo de mais de dez anos marcado pela mediocridade, alternando períodos francamente ruins com alguns, na melhor das avaliações, razoáveis. Muito pouco para quem ficou tanto tempo no poder. É suficiente para que um povo como o britânico, que normalmente não gosta destas coisas, faça procissões pela rua comemorando a morte de Thatcher? Talvez não. É preciso procurar em outro lado estas razões, e será tema de outro artigo.
Por enquanto, deixamos ao leitor um breve post-scriptum: quem quiser rir um pouco acesse a homenagem feita pelo “Femen Brasil” à senhora que disse: “Não devo nada ao movimento de libertação das mulheres. As feministas odeiam-me, não é? Não as posso culpar uma vez que odeio o feminismo. É puro veneno.”
Quando a Páscoa chega ao Sul
O monge anglo-saxão Beda, o Venerável (672-735) , talvez tenha sido o primeiro representante daquela figura, hoje clássica, do jesuíta perdido entre antropófagos. Homem cultíssimo, versado em latim, grego e hebraico, intérprete aprofundado das Escrituras e interessado em temas tão díspares quanto astronomia, retórica e história, vivia numa terra que muito pouco tinha a ver com seu espírito refinado. Guardava nisso semelhanças com outros homens de letras da Igreja que, por circunstâncias da vocação que escolheram, tiveram de abandonar os altos círculos intelectuais e embrenhar-se em matas e montanhas a fim de levar a Palavra aos que não A conheciam. A diferença era que, quando via aqueles seres primitivos, adoradores de divindades da natureza, vivendo nas matas em quase comunhão com os bichos e as árvores, Beda via não homens nus do outro lado do oceano que ele tinha vindo civilizar e que com ele nada tinham a ver. Via o seu próprio povo, os anglo-saxões, habitantes de um país atrasado e esquecido do Norte da Europa chamadoAnglelande – um país que, hoje, atende pelo nome de Inglaterra.
Para qualquer outro na mesma condição seria fácil lamentar da sorte. Beda nunca saiu da sua ilha fria cercada de brumas, mas é inegável seu mundo pessoal era outro. Ainda que tivesse os mesmos cabelos louros, olhos azuis e força física de seus compatriotas, seu coração estava nas margens do Mediterrâneo, o mesmo mar que banhou as areias da Grécia de Aristóteles e Platão, da Itália de Virgílio e Cícero e da Palestina de Jesus Cristo. Mas aos homens do cristianismo antigo não eram dados os confortos da lamúria e da queixa. Imbuído do melhor espírito beneditino do ora et labora, dedicou-se ao estudo dos costumes e das religiões daquele povo que era, a um tempo, o seu povo e o povo que deveria converter.
Um dos interesses centrais de Beda era a Páscoa. Esta foi uma das obsessões da Igreja durante a Idade Média, dando vazão a debates duríssimos onde ele próprio tomou parte com o tratado De temporum ratione, “A contagem do tempo”. Ali Beda descreve a Eosturmonath , o mês dedicado Eóster, deusa anglo-saxônica ligada à fertilidade e ao nascer do sol, que iniciava durante os começos da primavera do Hemisfério do Norte. Ela inicia em 21 de março e é particularmente importante no Norte da Europa, onde as durezas do clima condicionam fortemente a vida dos homens. Durante o inverno, a comida é escassa, as noites são longas, o sol pouco aparece e a neve cobre os campos, matando o gado, as plantas e tudo o mais que vive, inclusive os homens. A primavera chega e a vida recomeça: o sol aparece por mais tempo, a água já não é gelo e já não é preciso estocar alimentos: basta colher. Tudo o que estava morto revive: ressuscita.
A imagem de Eóster – também conhecida em outros povos germânicos, chamada por uns de Ostara, por outros de Auster – é representada por uma mulher com um ovo em sua mão e um coelho, símbolo da fertilidade, em sua volta. E os anglo-saxões logo perceberam que aquele Jesus Cristo que lhes era apresentado ressuscitou na mesma época. Perceberam também que ele, assim como Eóster, trazia alegria onde chegava, os mortos retornavam à vida, da água fazia o vinho e multiplicava pães: era a “luz do mundo”. A identificação foi imediata. Observador atento, Beda anotou: “Agora, os ingleses designam a época de Páscoa pelo seu nome, chamando às alegrias do novo rito com o nome consagrado pelas velhas crenças”. As velhas crenças seriam substituídas pela Boa Nova – o “Evangelion”, em grego – e a velha Eóster, pelo filho de Deus. Mas seu nome, como disse Beda, permaneceu, como os ovos que carregava consigo e o coelho que corria à sua volta, devidamente abençoados pelo cajado dos antigos padres da Igreja. Assim, a ressurreição do Senhor passou a ser, para os primeiros ingleses, o mesmo que a ressurreição de toda a vida.
Deusa Eastra
Para quem vive no lado Sul do mundo talvez isso não faça tanto sentido. Para começar, em nossos idiomas latinos o nome desta época do ano tem outra origem: é o hebraico “Pessach”, que significa “passagem”, e está ligada originalmente à libertação dos israelitas no Egito. Durante a Páscoa ocorreu a ressurreição de Jesus e as correlações simbólicas entre os dois eventos são bastante óbvias. Além disso, no lado Sul do mundo, a Páscoa não coincide com a chegada da primavera. Comemora, isso sim, o começo do outono, que é o começo das noites, do frio, do fim da vida. Isto, em tese, é correto. Mas, neste canto específico do Sul que carrega o Sul no próprio nome, o tempo de provação não é o outono e nem o inverno: é praticamente todo o ano. Quem vive no Rio Grande do Sul trava batalhas contra a natureza que ofuscam todas as batalhas que já se travaram nestes campos. Quem vive no Sul sabe, como nenhum outro, o que é o verão abrasador, a umidade maldosamente unida ao calor, a falta de chuvas ou o excesso delas, as plantações destruídas, as casas destelhadas. Aqui, a própria primavera não é tempo de florir e de viver, e sim de moléstias, doenças, dias que começam congelantes e terminam quentes, de inconstância, de dificuldades. É isto o que antecede o tempo da Páscoa. Quando Março chega, já suspiramos de alívio por termos passado – sobrevivido! – mais um verão. Em breve, a fúria do tempo cessará. As chuvas aumentam a frequência e diminuem a intensidade, tornando-se agradáveis presentes do céu e não tormentosas causas de desgraças. Ao mesmo tempo, ainda não começaram as rajadas de vento que atravessam a Patagônia e nos atingem, sem dó nem piedade, cobrindo os campos de geada, os picos de neve e a vida dos pobres e desvalidos de durezas. Se, para T.S. Eliot – em todos os sentidos, um homem do Norte – abril era o mais cruel dos meses, para o homem deste Sul este é único mês que não é cruel. A Páscoa no Sul é o tempo em que, talvez pela única vez no ano, podemos realmente experimentar a alegria de viver. É o que aprendemos desde pequenos. Nossas memórias infantis da Páscoa são as das primeiras manhãs de ar fresco, quando, em crianças, corremos para o quintal e encontramos os ovos com que passamos o dia, ao ar livre, aproveitando a amenidade do tempo, a beleza do dia, a grama mais verde do ano, o fruir de tudo. E, pela primeira vez, compreendemos, da mesma forma que os anglo-saxões de Beda, que o mundo regenera, que nem tudo é dor e dificuldade, que é possível reviver e que, desde Aquele que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia, a vida vale a pena ser vivida.
Porto Alegre, 241 anos.

Em 1976.
Cidade de clima suave, esta a maior mentira dos viajantes estrangeiros. Verões tórridos e abafados, suor escorrendo mesmo que se esteja sem mover um músculo, verões em que nem as moscas se animam a bater asas, preferindo caminhar dolentemente sobre os restos de comida do almoço domingueiro, pouco movendo as patas para não se escaldarem ainda mais. Sonolência e preguiça, o comércio funcionando com as portas encostadas na meia sombra, cachorros com as línguas de fora buscando alguma laje ou tampo de cisterna, gatos dormindo ao comprido, ignorando o mundo.
Invernos de gretar os lábios e azular as mãos, frio envolvente e duro, que atinge o rosto como uma bofetada, não havendo coberta que chegue, nem fogo que aqueça o preciso: as casas são desprovidas do menor conforto, como se os habitantes da Província fossem imunes às circunstâncias do tempo. Mas o inverno existe, longo e penoso, começando em meados de maio e acabando em fins de novembro, e ninguém se acostuma com ele, por mais centenário que seja.
Vive-se bem em abril. quando os ardores amainam e ainda não começaram as ondas gélidas: o céu ganha uma bela cor de chá, e os entardeceres são luminosos e todo o povo se anima, os negócios reiniciam. É o melhor período, as pessoas até nem brigam. Cessam as disputas, todos se deixam tomar pelo encantamento da natureza que assim compensa os habitantes por terem suportado tantas inclemências. Recomeçam as caçadas às lebres nos matos adjacentes e aos animais de pio nas paragens mais longínquas.
A cidade viceja sua afortunada vida.
(Trecho de Cães da Província, de Luis Antônio de Assis Brasil)
Fonte da foto: Almanaque Gaúcho.
Saint Patrick was a gentleman
Versão da excelente banda sérvia The Orthodox Celts para a canção popular irlandesa.
Feliz dia de São Patrício a todos.
O verdadeiro Ratzinger
Lançado em 1968, Introdução ao cristianismo é um dos títulos mais lidos e influentes da teologia da segunda metade do século XX. Não depende, portanto, de uma circunstância favorável – um “gancho” – para ser lembrado e indicado por este blog.
No entanto, devemos admitir que esta indicação é, sim, animada pelo momento – e o momento, como se sabe, é o da retirada de Bento XVI e o da escolha Francisco I como papa. Fazemo-la por vários motivos, mas, sobretudo, para que Joseph Ratzinger, o dito “Rottweiler de Deus”, o “Panzercardinal”, o reacionário que olha feio para o mundo de hoje e o de amanhã, receba do público os qualificativos que lhe são devidos. E estes qualificativos, como a leitura de Introdução ao Cristianismo mostrará, não incluem nem aqueles insultos baratos que comumente se lhe atiram à cara e nem aquele adjetivo que, não sendo insulto barato, é, entretanto, usado com frequência de modo pejorativo: o de “conservador”. Os primeiros – os insultos baratos – são obra de quem não tem a mínima noção do que Ratzinger pensa e disse; já o segundo – o adjetivo “conservador” – é obra de quem não tem a mínima noção do que é ser um conservador no sentido católico, como se a oposição ao aborto e ao casamento homossexual não fossem comuns a todas as vertentes do catolicismo romano, das mais liberais às mais tradicionais.
Assim, o Ratzinger que destas páginas emerge não é apenas o teólogo refinado e aberto, mas também o homem profundamente conectado com os problemas do mundo contemporâneo, sensível às questões sociais e políticas e, mesmo apontando os excessos da Teologia da Libertação, nelas reconhecendo “um grande número de percepções dignas de consideração”. Situado para além dos clichês e da propaganda, este Ratzinger pode não agradar a todos, nem aos inimigos de primeira hora e nem a muitos de seus admiradores. Talvez por ser o verdadeiro Ratzinger.
Hugo Chávez (1954-2013)
Nestes seis anos de existência, o Blog Perspectiva acompanhou de perto a trajetória do presidente Hugo Chávez. Foi, durante certo tempo, um de nossos temas preferidos. Era fácil direcionar nossa ironia para sua figura folclórica, desinibida e sempre bem humorada, autora de frases marcantes e divertidíssimas que não poupavam reis, não respeitavam mitos e não conheciam protocolo ou boas maneiras. Normalíssimo: é sempre fácil rir-se de tipos assim, ainda mais quando governam países, e ainda mais os países da América do Sul, que sempre vivem à beira da gozação internacional.
Logo que assumiu a presidência de seu país, em 1999, Chávez despontou como o maior exemplo mundial de líder fanfarrão e caricato. A concorrência era grande: o tempo de Chávez – o começo do século XXI – foi o de Berlusconi e G.W.Bush, Evo Morales e Sarkozy, Vladimir Putin e Netanyahu, Ahmadinejad e Kim Jong Il, Nestor Kirchner e Cristina Kirchner, de políticos reduzidos a pop stars e do pop elevado à condição de política séria. Nós, deste blog, também direcionamos aquela ironia de que falamos acima para os Berlusconis, Putins e Bushs da vida, personificações dos mais surrados estereótipos de seus respectivos povos. Chávez também foi personificação de um estereótipo, não propriamente o de venezuelano, mas de latinoamericano – ao menos o de latinoamericano que o resto do mundo conhece. Muito mais do que Lula, Bachelet ou outro esquerdista tido como moderado e mais próximo da tradição social-democrata européia, foi ele o representante máximo do que política deste lado do mundo tinha a oferecer de novo. Assim o entendeu certa esquerda européia, que gosta muito dessas coisas – principalmente quando acontecem bem longe dela.
Já o outro lado, que também gosta de generalizações simplificadoras, viu em Chávez um inimigo do Ocidente. É o mesmo grupo de pessoas que exclui a América Latina do mundo ocidental por não ser suficientemente rica, suficientemente branca ou suficientemente liberal, creditando a exclusão à infiltração de elementos extra-europeus na formação étnica, cultural e política do país. Há latinoamericanos que também acreditam nisso. São, muito provavelmente, pertencentes à maioria da população de seus países (embora não creiam nisso), que pouco ou nada sabe da história, da formação étnica e da cultura da Península Ibérica. Se soubesse, saberiam que muito do que consideram exotismo e primitivismo político e cultural é, na verdade, a permanência de elementos tradicionais ibéricos, tradicionais a ponto de, em alguns casos – só em alguns – já terem desaparecido em seus países de origem, mais sujeitos às influências dos “grandes centros” de cultura e civilização.
Eis a verdade: por mais que os admiradores de “El Comandante” não gostem que se diga isso – quem ouviu um “cale-se” do rei de Espanha não pode gostar – a verdade é que o “cholo” Chavez, o anti-imperialista Chávez, o revolucionário Chávez, o general (generalíssimo?) Chávez, está mais próximo de seus predecessores ibéricos e ibero-americanos do que de Lênin, Erich Hoenecker, o Baader Meinhoff ou a OLP. Por mais que eles não gostem que se diga, o mundo físico de Chávez pode ser o Caribe e os Andes, mas seu mundo espiritual é, como o de todos os que nasceram entre o Rio Grande e a Patagônia, o de Calderon de la Barca e San Juan de la Cruz, Bartolomé de las Casas e Francisco de Vitória, Baroja e Unamuno, Ortega e Cervantes. Principalmente o mundo de Cervantes. Como bem disse Unamuno, o quixotismo é a religião de Espanha. E nós acrescentamos: não só da Espanha europeia, mas das outras Espanhas, como esta nossa imensa Espanha americana da qual o Brasil (sim, o Brasil) também faz parte, repleta de curas, barbeiros, vagabundos, pícaros, magos, guerreiros, pseudomagos e pseudoguerreiros que muito bem poderiam habitar a Mancha cervantina. Os melhores dentre nós, brasileiros – um João Cabral, um Ariano Suassuna, um Manoelito de Ornelas, um Gerardo Mello Mourão – sabiam disso.
Mas, em quê consiste o quixotismo? Responde, e muito bem, o intelectual e diplomata equatoriano Leopoldo Benitez: “en la contradicción entre el mundo y el hombre. Don Quijote es la expresión de ese contraste y de esa disonancia: el mundo y el hombre en desacuerdo fundamental”. Don Quijote vive, ve, palpa, un mundo que no es el mundo real. Entre el mundo y su mundo hay discrepancia. Y sus actitudes y pensamientos no se pueden medir de acuerdo con otro mundo que con el propio que él vive. Sus gestos, sus reacciones, su posición misma, está en relación con un mundo que no es el de Sancho, ni el del cura, el barbero, los duques o los pastores. Los molinos de viento de la llanura manchega no son molinos, ni rebaños, ni ventas los chatos paraderos que se levantan en la desolada soledad de la Mancha. Su mundo transfigurado es tan real como el otro que ven los demás, de tan intensa realidad que cree en él y es el único que existe como relación de su pensamiento. Hay un desacuerdo profundo entre él —realidad sustantiva— y la realidad externa del mundo”. E acrescenta, igualmente bem: “En la discrepancia entre el mundo y el hombre está la raíz de lo cómico pero también de lo trágico”. Por isso, dizem que os leitores superficiais do Quixote riem dele, enquanto os bons – como Unamuno, o melhor deles – derramam uma lágrima.
Foi o caso de Chávez, o homem que quis refugiar-se nas selvas ou nos Andes e foi apenas mais um habitante patético da Mancha cervantina, como Martin Fierro, Riobaldo, Pedro Páramo, eu e o leitor latinoamericano deste blog.
Mais do que isso: todo o discurso anti-americano e todos os gestos espalhafatosos não alteraram o fato incontroverso de que os EUA, vilificados no discurso, permaneceram como o maior parceiro comercial da Venezuela. O país experimentou, sim, algum crescimento econômico, ainda que claudicante e nada espetacular; por outro lado, a inflação e a violência cresceram bem mais, o parque industrial sucumbiu, a economia concentrou-se nas benesses do ouro negro e o país, que Chávez quis unir, está mais desunido do que nunca, rasgado ao meio por facções a favor e contra ele. Houve, em Chávez, no quixotesco Chávez, um “desacuerdo profundo” entre o que ele dizia e o mundo em que vivia.
Como fica claro para quem procurar o nome de Chávez neste blog, nunca pudemos concordar com o chavismo. Deploramos quase tudo nele, a começar por ter não ter obtido sucesso naquilo que ele tão avidamente buscou: a independência e a emancipação do país. Contudo – e isto precisa ser dito – nunca pudemos concordar com quem viu no seu formulador e líder um Pol Pot dos Andes ou um Hitler caboclo. A tentação autoritária a que ele sucumbiu algumas vezes não é diferente da de outros líderes este continente, à direita ou à esquerda, e a crítica a Chávez, desconectada da crítica à nossa América, pouco explicará. Nós, que fomos seus críticos, também sucumbimos a uma tentação: a do riso e da gozação fácil, típica dos maus leitores do Quixote.
Descanse em paz, comandante.
Junger, guerreiro e artista
Ex-militar condecorado pela sua participação na 1ª. Guerra Mundial e escritor premiadíssimo, o alemão Ernst Junger (1896-1999) teve uma obra e uma existência marcadas pelo oscilar entre a atitude contemplativa de esteta e artista e o engajamento destemido de guerreiro. Demonstram-no suas duas maiores obras, “Tempestades de Aço”, relato de suas experiências na Primeira Guerra e elogio à vida militar e do confronto bélico, e este “Nos penhascos de mármore”, publicado pela Cosac e Naify.
A história se passa em terras imaginárias: do alto de um penhasco, onde vivem uma vida de meditação e estudo, dois irmãos contemplam a cidade de Marina e suas regiões circundantes, ameaçadas por uma horda de bárbaros. Inicialmente, crêem que o mero poder da palavra e da linguagem poderá converter os invasores à civilização. Acabam, no entanto, por unir-se à luta física contra os invasores, aliando-se a um príncipe e um militar. Embora “Nos penhascos de mármore” seja frequentemente considerada um exemplo de um dos lados – o esteta – de Junger, é exemplo acabado de síntese do guerreiro e do artista que havia na obra e na personalidade do grande escritor alemão.
Não sairemos daqui
Torcida do Liverpool no “Kop” (espaço sem cadeiras atrás dos gols), nos anos 70, cantando:
We shall not, we shall not be moved
We shall not, we shall not be moved
Just like a tree that’s standing by the water
We shall not be moved
Infelizmente, os anos passaram e os velhos “Kopites” (assim eram chamados os torcedores que ficavam naquele canto do estádio) saíram, sim, para dar lugar aos que ficam sentados durante todo o jogo e, embora seus cânticos emocionados continuem a ecoar por Anfield Road, a coisa, definitivamente, não é a mesma.
Que isso sirva de lição para outras torcidas, de outras latitudes e hemisférios.
Avalanche na Geral do Grêmio- um fato novo?
Desde o incidente ocorrido no jogo Grêmio x LDU, dia 30/01/2012, no qual a grade de proteção da Arena do Grêmio se esfacelou com a primeira avalanche promovida pela torcida em um jogo oficial, muito se tem falado acerca da colocação de cadeiras naquele setor do estádio.Li muitos comentários, seja na imprensa, seja nas redes sociais, imputando a culpa do ocorrido à Geral do Grêmio, defendendo a colocação de cadeiras no setor como única forma de garantir a proteção da torcida contra a avalanche.
Pus-me, então, a pensar sobre os fatos apresentados.
Primeiramente, não é demais relembrar que o setor da Geral do Grêmio na Arena foi erguido com a ciência da existência da avalanche. Desde o princípio se sabia que ali, justamente ali, ocorreria algo extraordinário. Apenas para estabelecer uma comparação, o velho Olímpico, que, mesmo sem ser especialmente preparado para essa finalidade, sobreviveu a inúmeras avalanches.
No jogo Grêmio x LDU a torcida localizada atrás do gol (composta de torcedores que, frise-se, optaram por migrar seu título de sócio justamente para aquele local) protagonizou, simplesmente, o esperado: fez avalanche tão logo saiu o gol do Grêmio. Eu, tu, o Papa Bento XVI, a OAS, enfim, todos nós sabíamos que, ocorrendo um gol do Grêmio, ato contínuo a torcida desceria os degraus da arquibancada. Não foi uma surpresa, não foi algo pelo qual o estádio (no caso, quem o projetou) não esperava. O país inteiro tinha ciência da forma de comemoração da torcida localizada atrás do gol.
Então como se explicar que a avalanche, algo previsto, esperado, enfim, algo para o qual o estádio foi especialmente planejado, fez com que as grades localizadas acima da mureta se esfacelassem logo na primeira ocorrência?
Justificativas como a inclinação dos degraus e outras tantas lidas internet afora não podem ser consideradas. O setor da Geral na Arena foi (ou deveria ter sido) minuciosamente planejado para atender a todas essas exigências específicas, a fim de garantir que a avalanche pudesse ocorrer sem que o muro a sua frente fosse abaixo logo no primeiro jogo oficial do Grêmio.
Ou, quem sabe, a Arena não foi projetada prevendo gols do Grêmio?
Ou, talvez, não foi feita para se torcer.
Penso em um exemplo esdrúxulo, no qual a torcida pula em comemoração e, em decorrência deste pulo, rachaduras começarem a aparecer no concreto. Qual seria a medida: impedir os torcedores de comemorar durante o gols? Colar os pés das pessoas no chão e impedi-las de celebrar uma vitória?
A questão é séria. O muro em frente à Geral não cedeu após alguns jogos. O muro, literalmente, se desmanchou logo no primeiro gol! O Olímpico tem 60 anos e sobreviveu a inúmeras avalanches, avalanches para as quais, frise-se, não foi especialmente construído e planejado. Por que a Arena, tão planejada, nova, minuciosamente estudada, não pôde suportar?
Por fim, vou me ater mais especificamente à proposta de colocação de cadeiras naquele setor. Pergunto: como ficariam os sócios que migraram para o setor da Geral? Não estou nem me referindo ao preço. Estou me referindo à totalidade de pessoas que migraram para aquele local. Sabe-se que a colocação de cadeiras fará com que a capacidade do setor diminua consideravelmente. Questiono: se a capacidade diminuir, digamos, pela metade, qual vai ser a solução para a metade que sobrar?
Quem está cuidando deste assunto deve entender que “conforto” não é sinônimo de ter uma cadeira no estádio. “Conforto” é quase sinônimo de se sentir em casa, confortável. Quem vai na Geral se sente confortável sem a presença de cadeiras. Medidas impositivas que desconsideram o espírito da torcida fazem com que um estádio seja, apenas, um estádio. Um monte de materiais e concreto formando uma construção.
Uma página de Fernando Sánchez Dragó
Um trecho do jornalista, escritor e ensaísta espanhol Fernando Sánchez Dragó, gentilmente enviado (e anotado) pelo nosso caro amigo e leitor Victor Garcez.
Ainda escreveremos sobre Dragó neste blogue.
A vida intelectual

Publicado pela primeira vez em 1921, “A Vida Intelectual”, de A. D. Sertillanges é uma das mais conhecidas obras de introdução aos estudos superiores já escritas. Sucesso nos EUA e na Europa, o livro (no original francês) teve boa circulação nos meios católicos brasileiros décadas atrás e ainda pode ser encontrado em antigas bibliotecas. Felizmente, graças à iniciativa da É Realizações, a obra ganhou uma edição brasileira em 2010 e, agora, uma reimpressão.
A base para o estudo de A.D. Sertillanges é a carta “Dezesseis preceitos para adquirir o Tesouro da Ciência”, de Santo Tomás de Aquino. Às lições do Aquinate o padre Sertillanges agrega a força estilística, formada na velha escola da retórica eclesiástica (a mesma que nos deu um Padre Vieira, para ficarmos num exemplo próximo) que nada perdeu na feliz tradução de Lilia Ledon da Silva para o nosso idioma. Em lições curtas, o sacerdote explica ao jovem iniciante as técnicas de leitura, estudo e organização da vida de um postulante a intelectual. Que ninguém, no entanto, se engane com o padre Sertillanges: “A Vida Intelectual” não conclama ninguém a abandonar a agitação do mundo e a refugiar-se no claustro. Trata-se de um livro para o homem de ação, para o estudante cheio de trabalhos e premido pelas provas, para o profissional atarefado, para, enfim, quem luta pela vida e enfrenta tempo e condições adversas. No mínimo, será uma leitura muitíssimo produtiva para qualquer estudante sério.
Onde encontrar:
“O Hobbit” em quadrinhos
Adaptações de obras para outras mídias têm o condão de, salvo em alguns poucos casos, desagradar aos fãs. O fenômeno é geral, e um exemplo particular temos em “O Hobbit”, de J.R.R Tolkien, transposto recentemente para o cinema, que provocou desagrado em grande parte dos aficcionados pela obra do escritor inglês. Os motivos elencados são vários, mas centram-se num excesso de liberdade artística por parte dos realizadores, oriunda das interpolações narrativas presentes no filme que constituem, na visão dos fãs, um pecado imperdoável.
Pois bem: se há algo de que o fã não poderá reclama nesta adaptação de “O Hobbit” para os quadrinhos é de falta de fidelidade à história original. A adaptação de Charles Dixon, ex-roteirista de Batman, segue pari passu o texto de Tolkien, moldando-o de acordo com as exigências de imagem e enredo das HQs. Cabe destacar, ainda, as ilustrações em aquarela da lavra de David Wenzel.
Onde encontrar:
Nova tradução de “Dom Quixote”
“Dom Quixote” é um dos livros mais traduzidos e adaptados do mundo. A primeira edição em português data de 1794: dentre as recentes, destaca-se a de Carlos Nougué e José Luiz Sanchez, que logrou reproduzir, muito competentemente, o sabor da prosa original. Este é, aliás, o desafio a ser enfrentado por todo tradutor do Quixote para a língua portuguesa: procurar ser fiel ao original ou adaptar o texto para uma linguagem mais moderna?
O tradutor gaúcho Ernani Ssó preferiu o segundo caminho. Nesta edição de bolso publicada recentemente pela Companhia das Letras, Ssó preferiu usar o vocabulário moderno até onde fosse possível, incluindo aí os muitos provérbios e ditados presentes nos livros. Embora o resultado possa não ser especialmente atrativo para os cervantinos mais fanáticos, que preferem o contato mais direto possível com a obra original, esta tradução sem dúvida aproxima o Quixote do leitor iniciante e, especialmente, do jovem. E é para este leitor que foi feita.
Onde encontrar:
www.companhiadasletras.com.br
1922

Uma das interpretações da profecia maia que marcou o corrente e quase findo ano era a de que o mundo não terminaria em 2012, mas sim passaria por uma radical transformação em todos os níveis e abriria espaço para uma nova era. Se esta interpretação está correta – e deve estar, tendo em vista que a apocalíptica mostrou-se, ao menos até o momento, equivocada – então podemos dizer que, ao menos no mundo da cultura, 2012 já passou. Aconteceu há exatos 90 anos: foi em 1922.
Não é exagero afirmar que o mundo como se o conhece hoje começa ali. Naquele ano, T.S. Eliot (na foto) publicou “The Wasteland” e o primeiro número da revista “Criterion”, que revolucionaria o mundo literário nos dois lados do Atlântico. Também em 1922, James Joyce publica “Ulysses” e Ezra Pound os “Cantos”. No cinema, Murnau lança “Nosferatu”, dando ao Expressionismo Alemão a sua primeira grande obra, e, no Brasil, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada” – aliás, para nós, brasileiros, é desnecessário lembrar da importância da Semana de 1922 para os destinos do país. Na política, é o ano da criação formal da URSS, com a ascensão de Stalin, e da chegada de Mussolini ao poder na Itália, além da Independência irlandesa, que consagrou o uso da guerrilha como tática de libertação nacional. Muito do que aconteceu em 1922 já não existe hoje – mas grande parte do que hoje existe não existiria sem o que aconteceu em 1922.
Quo vadis?

“Quo vadis, Domine”, de Annibale Carraci (1602)
O aproximar das festas de fim de ano nos dá a chance de, findos os compromissos habituais, dedicarmo-nos àquelas leituras mais longas que planejamos durante o ano. Leituras ou releituras: segundo Borges, reler é mais importante do que ler, e o momento também é propício para tomarmos aquele livro que nos marcou e dar a oportunidade da surpresa com nossas novas percepções. Foi o meu caso. Neste final de ano, dediquei-me à releitura de um livro muito longo e muito querido, que li pela primeira vez há muito tempo, quando minha época para as leituras de fôlego era o ano todo. Este livro é “Quo Vadis”, do polonês Henryk Sinkiewicz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1905.
A história se passa no Roma do imperador Nero, no auge da perseguição aos cristãos, e centra-se no amor de Marcus Vinicius, patrício romano, por Lígia, uma cristã, algo deveras incomum naqueles tempos. A reconstrução histórica de Sinkiewicz é notável, em especial o cuidado ao elaborar os personagens reais. Um deles é São Pedro, que aparece no livro como um homem cheio de dúvidas sobre o futuro do cristianismo diante de um mundo e uma época tão marcadamente anti-cristãos: é o São Pedro da lenda, presente na tradição cristã (mas não nos Evangelhos), segundo a qual o apóstolo, em fuga de Roma devido à perseguição, viu Cristo na Via Apia e perguntou-Lhe: “Quo vadis, Domine?” (“Para onde vai, Senhor?”). Ao que Ele teria respondido: “Para Roma, a fim de ser crucificado de novo, pois estás abandonando o Meu rebanho”. Envergonhado, São Pedro voltou e foi crucificado – de cabeça para baixo, pois não se julgava digno de morrer como Cristo.
Devo dizer que, nesta minha releitura, feita às vésperas do Natal, a figura de São Pedro foi a que mais me impressionou.
10 anos sem Joe Strummer
O grande Ariano Suassuna definiu-se certa vez como um integrante do que chamou de “patriciado de esquerda”. Segundo o grande escritor paraibano, autor do inigualável “Romance da Pedra do Reino”, trata-se daquele grupo de pessoas que, tendo nascido em seio aristocrático – patrícios, portanto – estão, por formação e opção pessoais, identificados com as coisas do povo. Patrícios de esquerda foram Getúlio Vargas e Friedrich Engels, Alfonso Reyes e De Gaulle, Dom Pedro II e Olof Palme. E patrício de esquerda foi também Joe Strummer, vocalista e guitarrista do The Clash, falecido a 22 de dezembro de 2002 – portanto, há exatos dez anos.
Um roqueiro patrício é coisa rara. Um roqueiro patrício de esquerda é coisa raríssima. Um roqueiro patrício, de esquerda e com o talento do inglês John Graham Mellor, filho do diplomata Ronald Mellor e de Ana Mackenzie Mellor, filha de landlords escoceses, nascido em Ancara, na Turquia onde o pai representava Sua Majestade, não houve outro. Em seu nível, que é o de Lennon/ McCartney, Bob Dylan, Johnny Cash e Paul Weller, a figura de Joe Strummer é única em todos os sentidos, artísticos e ideológicos. Foi o maior autor de canções políticas da música pop, o que melhor soube casar referências literárias e históricas com o rock (apresentava-se com um indefectível lenço keffieh palestino e, em entrevistas, mandava os fãs lerem Dostoievski e pararem de jogar videogame), pioneiro de grande parte do que existe hoje na música, experimentalista sem medo (os melhores discos do Clash, London Calling e Sandinista, apresentam de hard rock a salsa, passando por valsa, blues, jazz, rockabilly e punk rock) e testemunha mais autorizada de sua geração musical, com a qual teve diversos atritos e incompreensões mútuas, sendo tachado de “plastic cockney” pelos punks do subúrbio de Londres (Strummer falava um Queen’s English perfeito e imitava o sotaque cockney da classe trabalhadora no começo de sua carreira) e de “aristocratazinho” por Jello Biafra, dos Dead Kennedys. As duas coisas, até certo ponto, corretas. Nenhuma delas capaz de diminui-lo.
Em vida, Strummer conheceu tudo. A fama, o respeito artístico, o sucesso comercial, a decadência, o ostracismo e a retomada da carreira, interrompida subitamente pela sua morte, quando começava a retornar ao showbiz com sua banda de apoio, os Mescaleros, e ensaiou uma reunião com seus ex-companheiros de Clash ao chamar Mick Jones para o palco numa apresentação em Londres. Nada disso foi possível. Ficaram as suas letras de rara poesia (e difíceis de acompanhar para quem não tem razoável cultura literária e histórica), seu discurso político escrupulosamente coerente, sua curiosidade insaciável e a lembrança dos amigos, que o têm como um sujeito agradável, bem humorado, inteligente e humilde, melhor expresso do que nunca nas palavras de seu eterno parceiro, Mick Jones, quando de sua morte, emulando com muito acerto a antiga identificação de Strummer com o mundo hispânico – o nosso mundo – que ele tanto amava: “Our friend and compadre is gone. God Bless you Joe”.
A entrevista que não fiz
Um dos meus entrevistados em O Timoneiro falou-me, em off, das suas impressões dos Grenais no Olímpico dos anos 60, que acompanhava no lado colorado. Naquela época, o alto-falante do estádio anunciava a equipe da casa com um altissonante “Senhoras e senhores, boa tarde. Saudações ao Grêmio Portoalegrense”, seguido pelos retumbantes acordes iniciais do hino do clube, ao som do qual entrava a equipe. Disse-me então o entrevistado que, com este ambiente, quando os colorados viam o goleiro Alberto puxar a fila dos jogadores e entrar com seu uniforme escuro, cabelo impecavelmente arrumado e ar de general romano, o Grêmio começava ganhando por um a zero.
Talvez meu entrevistado não estivesse exagerando. A julgar pela quantidade de títulos que o Tricolor conquistou naquela década (12 campeonatos gaúchos em 13 disputados) é bem provável que o moral dos colorados fosse seriamente afetado pela figura imponente do goleiro natural de Canoas, onde iniciou sua carreira jogando pelo Oriente. E não apenas por ela: Alberto foi um dos melhores goleiros brasileiros de sua geração, chegou à seleção brasileira e foi cotado para ir à Copa de 1970. No Grêmio, fez parte de um dos maiores esquadrões da história do clube, formado por ele, Altemir, Aírton Pavilhão, Ari Hercílio (ou Áureo) e Everaldo (ou Ortunho); Cléo e Sergio Lopes; João Severiano, Paulo Lumumba, Alcindo e Volmir, comandado pelo lendário Carlos Froner. O Grêmio de Alberto tinha poucos adversários no Brasil e somente um verdadeiramente superior a ele, o Santos de Pelé , que não conta por estar acima dos demais.
Por três vezes tentei contatar Alberto para uma entrevista. Nas três vezes, conversamos. Nas três, o encontro não foi possível, apesar da excelente disposição e da boa vontade do ex-goleiro. Conversei
No último dia 16 de novembro, Alberto nos deixou. Lamentei como gremista, como apreciador do futebol, como admirador do grande ídolo Alberto, do nosso Alberto, nosso conterrâneo, que, como poucos, merecia um espaço nas páginas de O Timoneiro.
O humanista Edward Said
“Humanismo e crítica democrática” foi o último livro concluído pelo crítico e ensaísta palestino Edward Said antes de sua morte, em 2003. Não fosse o seu tamanho relativamente diminuto (apenas 183 páginas) e o fato de ser uma coletânea de ensaios e palestras, poderíamos dizer, sem receio, que é a obra mais representativa dos fundamentos filosóficos sobre os quais se assentam os demais trabalhos de Said, como “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”, livros freqüentemente mal entendidos tanto pelos seus críticos quanto pelos seus admiradores.
Lidos à luz deste, os demais livros de Said mostram-se não como aquelas denúncias raivosas contra a opressão e a exploração colonial travestidas de “scholarship” que os seus adversários mal intencionados tentaram (e tentam) fazer crer que são, mas sim como alertas contra o fechamento progressivo da mente dos países ocidentais. O antídoto, Said aponta, é recuperar a velha noção de humanismo, propondo que a aventura intelectual de cada um não seja limitada por preconceitos e barreiras inventadas. Emerge, assim, da leitura destes cinco ensaios – dos quais pelo menos dois, “O regresso à filologia” e “Introdução a ‘Mimesis’, de Erich Auerbach”, merecem o título de magistrais – um Said que mais parece um Julien Benda (que foi alvo de suas críticas) do que um Homi Babbha (que é um discípulo confesso seu), um “homme de lettres” apologista do universalismo, crente na dignidade e no valor essencial de todos os seres humanos, inimigo dos extremismos e exclusivismos e movido por uma quase comovente confiança no conhecimento, na cultura e no homem.
O rock na Alemanha Oriental
Somos acostumados a imaginar os países do antigo bloco comunista como totalmente fechados, ignorantes de tudo o que se passava deste lado de cá da Cortina de Ferro. Nada mais longe da verdade – ao menos no que dizia respeito à Alemanha Oriental. Se era praticamente impossível atravessar o Muro de Berlim a pé – embora, como já mostramos aqui, alguns tenham conseguido -, as ondas do rádio e da TV desconheciam fronteiras e acordos geopolíticos e se encarregavam de conectar os dois lados do mesmo povo . Através delas, os alemães orientais tinham acesso aos filmes, séries de TV, programas de auditório e noticiários de seus co-irmãos ocidentais. Tinham, principalmente, acesso aos programas de rádio, cujas ondas alcançavam praticamente todo o território a leste do Portão de Brandemburgo e levavam os Beatles, os Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin e Bob Dylan às cinzentas existências dos jovens de Dresden e Leipzig, Jena e Berlim Oriental, Magdeburg e Saale.
O resultado disto tudo está em bandas como Karat, Cilly, Pankow e, principalmente, no Puhdys, a maior delas, que ainda está na ativa. E um título: “Ostrock” (“rock do Oriente”, na sintética língua alemã).
“Os brasileiros não se sentem latinoamericanos”
Reinaldo Montero: Sabe o que acontece? Os brasileiros, a maioria deles ao menos, não se sentem latino-americanos. Isso é muito curioso porque a influência do Brasil na América Latina e, em especial, em Cuba, é extraordinária. O conhecimento que há do Brasil em Cuba é enorme: o tropicalismo, o Cinema Novo, o primeiro título da coleção Casa de las Americas foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Essa influência é mais antiga ainda e chega até a música que vocês chamam de erudita. As Bachianas de Villa Lobos, em especial uma interpretação memorável que se fez da Bachiana nº 5, influenciaram o nacionalismo musical cubano, a música “culta”, como se diz em espanhol, nos anos 30 e 40. Depois, com o tropicalismo e o Cinema Novo, nos anos 50 e 60, poderia se dizer que a música brasileira era tão cubana quanto a cubana.
Eu vim para o Brasil pela primeira vez, em 1986, convidado pela Câmara do Livro de São Paulo, para a Bienal do Livro. Eu lembro que cheguei à noite e me levaram para o hotel. Quando cheguei na recepção do hotel vi num mapa da cidade que estava perto da Ipiranga com a São João. Ipiranga com São João? Alguma coisa acontece no meu coração…Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim…
Rod Stewart chora após vitória do Celtic
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Rod Stewart chorando copiosamente após a vitória histórica do Celtic por 2 x 1 contra o Barcelona ontem, pela Liga dos Campeões, em pleno aniversário de 125 anos do clube.
Um grande presente para uma das mais apaixonadas torcidas da Europa.
Eric Hobsbawm (1917-2012)

Faleceu na última segunda-feira, vítima de pneumomia, o historiador britânico Eric Hobsbawm. As homenagens vieram de todas as partes: desde o político profissional, que provavelmente nunca leu uma linha sua, até o historiador profissional, que o conhece desde os primeiros semestres na graduação, passando pelo que ele definiu certa vez como “aquele cidadão culto e inteligente, que não tem simples curiosidade sobre o passado, mas que deseja compreender como e porque o mundo viria a ser o que é hoje, e para onde se dirige”, Hobsbawm foi lembrado e saudado por um público imenso, que é o seu público leitor, de tamanho justa e diretamente proporcional à importância de sua obra.
Um público que se formou apesar de Hobsbawm carregar o duplo obstáculo – para quem quer formar público – de ser um historiador marxista. Superou o primeiro – o de ser historiador – com a elegância do estilo e a clareza da exposição, infelizmente cada vez menos cultivados (e, às vezes, até malvistos) pelos seus colegas. Quanto ao segundo – o de ser marxista –, bastaram-lhe a inteligência e a erudição para escapar das limitações deste método de estudo (e para aproveitar-lhe os inegáveis pontos positivos) e dos preconceitos da militância contrária, que quer o fim dos dogmatismos alheios apenas para poder impor os seus próprios. Pode-se criticar os equívocos de Hobsbawm, como a avaliação talvez demasiado benigna do regime soviético; não se lhe pode negar o posto de um dos maiores intelectuais das últimas décadas.

Biblioteca de Hobsbawm
Leia também:
Entrevista de Hobsbawm com o italiano Antonio Polito.
Hobsbawm no Perspectiva.
Entrevista de Hobsbawm para a Folha, em 2007.
Entrevista de Hobsbawm para o G1.
“Estamos en el totalitarismo democrático, en el que los hombres creen ser libres”
Entrevista do jurista e cientista político espanhol Dalmacio Negro Pavón, autor de “El mito del hombre nuevo” e “Historia de las formas de Estado”.
O original da entrevista está aqui.
- Comienza su nuevo libro hablando del proyecto de construcción de una nueva religión secular. ¿Podría explicarnos qué clase de religión es esta?
- Sus principios radican en el artificialismo que discurre por toda la cultura europea desde el contractualismo político del siglo XVII. Se basa en la idea de que, ya que el hombre ha hecho muchas cosas con su voluntad, mediante la ciencia y la técnica se puede construir prácticamente todo, incluso a sí mismo.
- ¿Y dónde está lo sagrado en esta nueva religión?
- Se sacraliza el poder de la voluntad humana gracias al conocimiento. Del mismo modo que el ser humano tiene una dimensión política o una dimensión económica, también tiene una dimensión religiosa. El hombre cree siempre que tiene un fin que realizar o alcanzar, pero en la religión secular del hombre nuevo se suprime la idea de que pueda haber un más allá.
- Entonces, ¿en qué se diferencia la religión secular del ateísmo?
- El ateísmo niega a Dios, pero lo presupone. En la religión secular, la idea de Dios desaparece por completo. No obstante, funciona como una religión al dirigir las creencias, pues toda acción humana se apoya en creencias. Fuera de la religión secular, prácticamente toda acción humana descansa íntimamente en la contraposición entre vida eterna y vida temporal. En cambio, en la religión secular desaparece esta contraposición porque es una religión de y para este mundo.
- Dedica una parte de su libro al análisis de las bioideologías. Menciona al ecologismo, el feminismo, la obsesión por la salud… ¿Podría explicarnos qué son?
- Las ideologías prácticamente han muerto. Pertenecen a una época mecanicista, en la que predomina la física. Hoy en día, la física ha sido sustituida por la biología. Lo expresaba muy bien Michel Foucault cuando, hace ya tiempo, hablaba de que lo que ahora importa es la nuda vida.
- ¿Y cual es la aplicación digamos “práctica” de estas bioideologías?
- La destrucción de lo natural. En el caso del feminismo la desigualdad natural de sexos. En la ideología de la salud, la obsesión por la vida en contraposición a los hechos naturales de la enfermedad y la muerte… Si no hay más que esta vida, hay que cuidarla y prolongarla al máximo.
- ¿Se estaría sustituyendo la eternidad por la inmortalidad?
- Esto lo refleja muy bien, por cierto, Michel Houellebecq; sus novelas muestran la actual situación espiritual a este respecto, principalmente la de Europa. Sin embargo, la ideología europeísta progresista esta penetrando en otras culturas y civilizaciones, por ejemplo, en América.
- ¿Hasta qué punto las bioideologías están presentes en el programa de los partidos político?
- Lo que divide hoy a la derecha de la izquierda es la fascinación por la cultura de la muerte. La izquierda, para distinguirse de la derecha, se hace radicalmente abortista, cuando eso no tiene nada que ver con la izquierda clásica.
- ¿Karl Marx rechazaría el aborto?
- Seguramente. La izquierda también se muestra partidaria de la eugenesia, la eutanasia, el ecologismo… En realidad, el origen de las bioideologías es el nacionalsocialismo a través de la llamada Revolución de Mayo del 68. Es como la revancha del nacionalsocialismo frente al marxismo, cuya concepción mecanicista, que se preocupa más de las estructuras sociales, lo contenía, al menos relativamente.
- Sin embargo, este es el signo distintivo de la izquierda de hoy para parecer progresista…
- Efectivamente. Tras de la caída del Muro, la socialdemocracia no tenía nada que decir e hizo suyas las vaguedades del 68. La derecha es más restrictiva, pero porque tiene un electorado que aún no se ha acomodado a eso.
- ¿Podría explicarnos esta conexión que también apunta en su libro de las bioideologías con el nazismo?
- El nazismo, ideología racista, se interesó decididamente por la biología. El nacionalsocialismo empezó a experimentar con la vida humana en los campos de concentración y exterminio, si bien conservaba -a diferencia de lo que hoy sucede- el pudor de intentar ocultar todo lo que hacía. Hoy es como si se pensase en crear una raza nueva.
- ¿Y como se pasa del nazismo a mayo del 68?
- El nazismo quedó en el aire y, a partir del 68, rebrotó con las bioideologías. Es por entonces cuando Foucault afirma que la vida se ha convertido en el centro de la política. Por ejemplo, en Marcuse está muy clara la idea del hombre nuevo. Las novelas de Houellebecq, repito, creo que reflejan muy bien esta persecución de la inmortalidad, de una raza perfecta, de la existencia perfecta, sana, solidaria…
- ¿Y cual sería el fin último de esta vida perfecta?
- Las ideologías y las bioideologías son ateologías políticas, dependientes de la religión secular. Lo que persiguen es crear un tipo de hombre del que se ha excluido toda conflictividad, deseo y sentimiento, en posesión de una racionalidad puramente instrumental que se limite a vivir feliz en la monotonía de su existencia.
- ¿Anida en el proyecto socialista de Zapatero el deseo de crear un hombre nuevo?
- Creo que sí. Pero de una manera muy tosca y disparatada, sin saber qué fin se persigue en realidad, como no sea el de destruir la nación. Pensemos en el caso del aborto. Se denuncian genocidios por todas partes y, sin embargo, al mayor magnicidio al que estamos asistiendo, sin comparación ninguna, es al de aborto. Sin embargo, lo único que escandaliza son los genocidios soviéticos y, sobre todo, los Konzentrationlager.
- Con el agravante de que los otros genocidios al menos se perpetraban en tiempos de guerra…
- Ahora se justifica como medio para suprimir los conflictos y conseguir la “felicidad”. Los gobiernos ya no protegen la vida, que es la función principal de todo gobierno, sino que dejan libremente al albedrío del particular privado, mediante su legislación permisiva -cuando no incitadora- la vida de un ser humano. Se puede discutir interminablemente, pero la ciencia ha establecido que desde la concepción existe un nuevo ser humano.
- La eutanasia sería otra ‘aplicación’ de estas bioideologías.
- Si se acepta el aborto, con más razón la eutanasia. Tenía razón Julián Marias cuando decía que una de las cosas más graves que han ocurrido es la aceptación social del aborto. A ello han contribuido no solo los intelectuales, sino, quizá más, los políticos con la idea de ganarse, sobre todo, a la juventud. Forman parte de la estrategia del sexo como opio del pueblo.
- ¿Cree usted que marchamos hacia un tercer totalitarismo?
- Es una tendencia en las sociedades occidentales y ya está aquí. Estamos en el totalitarismo que advertía Tocqueville, que es el totalitarismo democrático en el que los hombres, explotados y dominados, sin embargo, creen ser libres.
- ¿Y que es lo que podría hacer caer este nuevo totalitarismo?
- Supongo que caerá por agotamiento de las ideas. Controlada la cultura por la socialdemocracia, dueña del Estado, me parece que el cristianismo no tiene fuerza para oponerse. Entre las otras religiones, el islam sí se opone. El ataque del islam proviene, en gran medida, de su oposición a esta religión secular, más que al cristianismo. Por otra parte, el cristianismo casi se ha reducido al catolicismo, si bien las iglesias particulares, desorientadas, están muy debilitadas. Parece que solamente el papado tiene ideas claras.
- ¿Qué cabría hacer para frenar esta religión secular?
- Tener las ideas claras y los cristianos, además, rezar.
Auferstanden aus Ruinen, por MIA
Isso, caro leitor, você SÓ VÊ no Blog Perspectiva: o hino da finada Alemanha Oriental em versão punk rock.
Créditos para a banda alemã MIA.
Quem quiser ouvir o original encontra-o aqui. E a tradução para o português, aqui.
Feira de Adoções de Animais Especiais dia 23 de Setembro de 2012 em Porto Alegre- Brique da Redenção.

Adotande deve ser maior de 18 anos e portar carteira de identidade.
Por que se deve comemorar o 20 de setembro
Caros conterrâneos
Nesta data maior da história do nosso Estado, seria fácil para nós, do Blog Perspectiva, chamar um patrão de CTG e ouvir sua fala firme, com palavras simples aprendidas em reuniões regadas a mate. Seria ainda mais fácil perguntar a um adolescente qualquer se ele sente orgulho do seu Estado e ouvir uma resposta afirmativa e entusiasmada, daquelas dadas só por aqueles que não sabem do que estão falando. Mais fácil ainda seria chamar um historiador e pedir que ele discorra sobre o significado simbólico da Revolução Farroupilha, da sua importância para a constituição da identidade dos gaúchos, dos ideais da oligarquia dominante no RS daquela época e dos interesses econômicos que motivaram a Revolução. Provavelmente ninguém leria o texto, mas já teríamos cumprido com a pauta do dia.
Pois a verdade é que não escolhemos nenhum dos caminhos acima, meus prezados conterrâneos. Em vez de optar pelo que fizeram todos – e eu friso este “todos” – os meios de comunicação do RS para comemorar a data que ora corre, decidimos fazer o inédito em casos como esse: decidimos dar voz a um morto. Sim, um morto – não qualquer morto, é claro, mas um morto mesmo assim. Penso que somente ele tem condições de dar uma explicação satisfatória, principalmente para os jovens de hoje, sobre o que foi de fato a Revolução Farroupilha e porque estamos nós, aqui, em clima de celebração. Este morto é ninguém menos do que o general Bento Gonçalves da Silva, o comandante da Revolução que hoje celebramos e da qual tão pouco sabemos.
É escusado dizer que não nos dirigimos a nenhum centro espírita. Fomos atrás do que o general deixou para a posteridade: suas palavras sobre a marca que ele e seus companheiros deixaram na história do Brasil. E não foi sem surpresa que encontramos o seguinte discurso,proferido em assembléia provincial no ano de 1842 – isto é, há 170 anos. Mantivemos a grafia original do texto.
“Srs. representantes da nação rio-grandense!
Depois da eroica revolução, que operámos contra os opressores da nossa pátria, depois de uma luta obstinada, que por espaço de 7 annos absorve os nossos cuidados, xegou finalmente a época, em que sem grande risco se verifica vossa reunião exigida altamente pelo voto publico.
Meu coração palpita de prazer, vendo oje assentados n’este venerando recinto os escolhidos pelo povo, em quem estão fundadas as mais belas esperanças do nosso paiz. Eu me congratulo comvosco.”
(…)
Si me não é dado anunciar-vos o soleno reconhecimento da nossa independência política, gozo ao menos a satisfação de poder afiançar-vos, que não só as republicas vizinhas, como grande parte dos Brasileiros simpatiza com a nossa causa.
Mui dolorozo m’é o ter de manifestar-vos, que o governo imperial, surdo á voz da umanidade, e com escandalozo desprezo dos mais sãos princípios da siencia do direito, nutre ainda a pertinaz pretenção de reduzir-nos pela força, e por em meu profundo pezar se diminue com a grata recordação, de que a tirania acintosa exercida poe elle nas provincias tem despertado o innato brio dos Brasileiros, que já fizerão retumbar o grito da rezistencia em alguns pontos do Imperio.
É assim, que seu poder se debilita, e se aproxima o dia, em que, banida a realeza da terra de Santa Cruz, nos avemos de reunir para estreitar laços federaes á magnanima nação brasileira, a cujo gremio nos xame a natureza e nossos mais caros interesses.
Todavia o que deve inspirar-vos mais confiança, o que deve convencer-vos de que alfim triunfarão nossos principios politicos, é o valor e constancia de nossos compatriotas; é alfim a rezolução, em que se axão de sustentar a todo custo a independencia do paiz. (…)”.
Eis aí, caros conterrâneos, o verdadeiro sentido desta data. Bento Gonçalves, general do exército brasileiro , queria uma república para todos os compatriotas, e para isso contou com a ajuda de voluntários de outras partes do país que partilhavam de seus anseios – que eram, aliás, os do resto da América. Acabaram por obtê-quatro décadas depois, com a Proclamação da República. República que teve mais presidentes do Rio Grande do Sul do que de qualquer outro Estado.
É esta a razão do “20 de setembro, precursor da Liberdade”. E é por isso que devemos comemorar a Revolução Farroupilha.
Entrevista – Regina Becker, Primeira Dama de Porto Alegre, e os direitos dos animais no governo Fortunati
Regina Becker e um sortudo gatinho preto aninhado em seu colo protetor.Os integrantes deste blog têm amor pelos animais. Não é por outra razão que mantém 14 gatos e 2 cachorros adotados das ruas. No entanto, sabemos que isso é muito pouco face a crueldade a que estão expostos milhares de animais abandonados. Justamente por isso, sentimos grande esperança quando nos deparamos com a postura adotada pelo prefeito Fortunati, de Porto Alegre, que demonstra ser realmente um administrador disposto a diminuir os efeitos de anos de descaso do poder público em relação aos direitos dos animais na capital do Rio Grande. Fortunati é um adepto do respeito aos direitos dos animais e, nos espaços públicos que ocupa, propaga esta idéia. Foi assim em 2001, na TV Bandeirantes, com o programa Amigo Bicho, no qual difundiu a responsabilidade em relação aos animais. Participou da fundação do Movimento Gaúcho de Defesa Animal (MGDA) e no, mesmo ano de 2003, conjugou esforços para a aprovação do Código Estadual de Proteção aos Animais. Em 2005, auxiliou na fundação da Associação Bichoterapia, buscando, dentre outras ações, a valorização dos animais, por meio da promoção da sua integração nos processos de terapia humana. Como Secretário Estadual da Educação, implantou o projeto Animais Nossos Parceiros, visando criar um respeito aos direitos dos animais desde a infância.
Militantes pela causa animal, via de regra, têm afinidade com pessoas que nutrem o mesmo sentimento de proteção aos seres desamparados. Por isso, não estranhamos a postura de Regina Becker, esposa de Fortunati, em relação aos animais.
Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte
Quarta parte
Edição de vídeos : Celso Augusto Uequed Pitol
Sabiamos que Regina Becker gostava e era militante da causa dos animais, mas não sabíamos de sua paixão, seu entusiasmo, sua garra para que os seus direitos fossem respeitados. Aliás, ” direito” é uma palavra que Regina faz questão de utilizar quando fala dos projetos que estão sendo desenvolvidos em prol dos animais na capital dos gaúchos. Trata esses projetos como uma obrigação do poder público. Essa paixão, esse entusiasmo pelo trabalho desenvolvido pela SEDA- Secretaria Especial dos Direitos dos Animais transparece no olhar de Regina, que em muitos momentos se mostra emocionada, alternando com um olhar obstinado, próprio daqueles que acreditam firmemente no que estão fazendo.
Acabamos a entrevista como admiradores do trabalho desenvolvido pela militante Regina Becker e confiantes de que Porto Alegre servirá de exemplo para que em muitos municípios sejam adotadas políticas públicas em prol dos animais.
Uma entusiasmada Regina expõe aos integrantes do Perspectiva as ações da SEDA.
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Crédito das fotos: Guerreiro/PMPA
The road to corporate fascism
Excelente palestra do grande Ralph Nader, advogado e político norte-americano.
Mário Both – Uma vida dedicada à comunidade
Recebi hoje a notícia do falecimento do insigne advogado canoense Mário Both, o qual tive o prazer de entrevistar para o jornal O Timoneiro, há dois anos. Como forma de homenagem a uma das mais destacadas figuras da cidade de Canoas com quem tive a fortuna de privar em uma agradabilíssima tarde, reproduzo aqui a entrevista.
Adentro a casa de Mário Both. Sou recebido por um senhor distinto, sobriamente vestido, que me receber-me em seu gabinete, rodeado por livros e agraciado com um café preparado pela sua esposa. Sento-me diante dele e, após os cumprimentos habituais, ouço: “Inicialmente, gostaria de lhe fazer uma pergunta: qual o maior romance que já leu?”. Após pensar um pouco, respondo o óbvio: Dom Quixote e qualquer coisa de Dostoievski. “Já leu Os Miseráveis?”. Sim e também gostei muito. Inicia-se então uma discussão sobre qual a cena preferida do romance de Victor Hugo seguida de comentários sobre a extensa biblioteca que nos cerca. Isto tudo levou uma hora. A entrevista toda levou quase quatro e poderia, muito facilmente, se estender até a noite. Ou talvez mais um dia. Talvez uma só entrevista seja pouco para o que Mário Albino Both tem a dizer. São nada menos do que sete décadas – sim, sete décadas – morando em Canoas, pelo menos seis delas com ativa participação social e comunitária, que inclui desde o seu vizinho, Grêmio Niterói, de onde já foi presidente, até o Rotary, a ABC e o Lyons, mais os trinta anos de exercício de advocacia num dos maiores escritórios da área trabalhista que Canoas já teve. A condição de testemunha ocular de vários acontecimentos relevantes desde a tenra idade, não somente como mera testemunha, mas como participante ativo da própria construção desta cidade, dá a Mário Both a condição de observador especialíssimo da realidade atual, que exige justamente a percepção acurada de quem sabe o que é Canoas e é capaz de imaginar o que a cidade pode se vir a tornar no futuro. A entrevista que segue mostrará algo disso. Mas mostrará, também – e, talvez, sobretudo – uma declaração, ainda que não-expressa, de amor a uma terra que viu nascer e crescer e cujos tipos humanos conheceu, a ponto de reconhecer num jovem jornalista muito do avô que foi seu amigo, dos pais que conheceu e estima, do tio, de todos quantos lhes são próximos. Para quem vive em Canoas há tempos, para quem tem raízes aqui fincadas, conversar com o senhor Mário Both é, acima de tudo, compreender um pouco de si mesmo. Espero que as linhas que seguem possam demonstrar tudo isso.
CAUP: O senhor é natural de Porto Alegre. Quando veio para cá?
Mário Both: Em 1935, aos 11 anos. Morava na rua São Pedro, em Porto Alegre. Estudei num colégio La Salle que havia na rua Minas Gerais, antes de construírem a Farrapos.. A São Pedro era de areia e tinha um caminhão-tanque da prefeitura que molhava as ruas no verão. Devo dizer que, no meu tempo,o ensino era ótimo. A nossa formação também era muito religiosa. O pai era muito religioso, a mãe também. Fui sacristão até a época de barbado (risos). Fui o primeiro sacristão da paróquia São Paulo. Depois, fui presidente da Ação Católica e da Juventude Católica.
CAUP: Como era Niterói quando aqui chegou?
MB: Não tinha nada, assim como Canoas. Não havia luz elétrica em Canoas. Só o velho Vargas tinha, lá no Centro. Aqui nós nos virávamos com lampião, carbureto e querosene. O que havia de casas? Meia dúzia. A Machadinho era a rua principal. Parece-me que foi a primeira rua calçada de Canoas. O centro de Canoas praticamente não tinha nada, também.
CAUP: Como começou a sua atividade social?
MB: Nesse meio tempo eu tinha uma atividade social bastante forte. Desde rapazote eu pertencia ao Grêmio Niterói e em 1938 eu já era o segundo secretário. Onde era um campo de futebol construíram a sede, em 1936. É um dos poucos prédios antigos de Canoas. Niterói não era nada. Os próprios sócios ajudaram a colocar tijolo para levantar a sede. Foi um negócio fantástico para a época. Quem veio fazer a saudação foi o Guido Mondin, que é hoje nome de rua. Nós tínhamos até um bolentizinho do Niterói, impresso num mimeógrafo. Naquele tempo a gente comemorava tudo. O sentido de civismo era muito maior. Tiradentes, 7 de setembro, tudo a gente fazia sessão solene, desfile. Convidamos pro Tiradentes o prefeito Sady Schmitz. Só que um dia foram fazer o Tiradentes e o cara que ia fazer, um militar, não pôde ir. Era no outro dia. E no outro dia, às oito da manhã,eu corri para a Biblioteca Pública de Porto Alegre para estudar a Inconfidência Mineira (risos). Eu falei uma hora e meia. E o meu irmão Melton Both também teve uma atividade social muito grande. Foi vereador, presidente da Câmara de Vereadores, foi um dos basilares do Hospital Nossa Senhora das Graças. O Melton tinha uma admiração pelo teu avô (Jorge Uequed, pai de Feres Jorge Uequed, diretor de O Timoneiro), os dois eram rotarianos. O Uequed era uma pessoa espetacular. Tinha um jeito de rir meio sonoro e um senso de humor muito apurado. Era um homem espetacular para fazer negócios. No Banco Agrícola, onde o Melton trabalhava, nenhum homem tinha mais reputação do que ele.
CAUP: Fale um pouco do período em que assumiu a presidência do Grêmio Niterói.
MB: Fui presidente um ano depois do cinqüentenário. Foi um período excelente, porque tivemos seis vice-presidentes, cada um com sua função clara e o interessante é que eu não escolhi nenhum deles. Escolhi apenas um deles, na verdade. Quando eu entrei, tinha 451 sócios em dia com 3200 de obrigação de pagar, em dois anos eu estava com mais de 90% em dia do quadro social e deixamos para os que nos seguiram
CAUP: E na ABC?
MB: Foi um período também muito importante, mas quero deixar claro um detalhe. Consta que pedi demissão por motivo de saúde. Não. É mentira. Meu problema é a revolta com a falta de planejamento e com certas decisões ali tomadas. Não aceito determinadas situações que fui obrigado a assistir. Na verdade, o grande mal é que uma dinastia peninsular se instalou e vem tomando certas atitudes com as quais não posso concordar.
CAUP: Como vê a cidade de Canoas neste novo milênio, após ter vivido aqui sete décadas?
MB: A RS 10 eu sou a favor, porque com o tempo só teremos megalópoles e é preciso facilitar a interligação. Em 1938, Loureiro da Silva fez a Farrapos e foi chamado de louco. Porque não fazem uma avenida com 3 faixas, incluindo ciclovia? Daqui a 100 anos vão dizer “que coisa fantástica!”.
Breve diálogo entre Tolkien e um americano
“Quando ouvi o ianque murmurar a respeito do “Feudalismo” e seus resultados nas distinções de classes e no comportamento social ingleses, eu abri a boca. O pobre tolo, é claro, não possuía de modo algum as mais mínimas noções sobre “Feudalismo” ou história – sendo ele um engenheiro químico. Porém, não se consegue tirar o “Feudalismo” de uma cabeça americana mais do que se consegue tirar o “Sotaque de Oxford”. Ele ficou impressionado, creio , quando eu disse que as relações de um inglês com porteiros, mordomos e comerciantes tinham tanta ligação com o “Feudalismo” quanto arranha-céus tinham com tendas de índios peles-vermelhas, ou o que o ato de tirar o chapéu para uma senhora tem com os métodos modernos de recolher o Imposto de Renda; mas tenho certeza de que ele não ficou convencido. No entanto, consegui colocar em sua cabeça uma leve noção de que o “Sotaque de Oxford” (ao qual ele, educadamente, disse que se referia ao meu) não era um sotaque “forçado” ou “fingido” mas um sotaque natural que se aprende de berço – e que, além disso, não era feudal ou aristocrático, mas uma invenção muito burguesa da classe média. Após eu lhe dizer que o seu “sotaque” soava para mim como inglês após ter sido limpo com uma esponja suja, e geralmente sugeria (falsamente) a um observador inglês que junto com a postura americana de ombros caídos, indicava um povo relaxado e mal-disciplinado – bem, ficamos muito amigáveis. Tomamos um pouco de café ruim na lanchonete em Snow Hill e nos separamos”
em Cartas de J.R.R Tolkien (Editora Arte e Letra, tradução de Gabriel Oliva Brum)
Entrevista com Gerardo Mello Mourão
Aproveitando a ocasião do Dia da Independência do Brasil, disponibilizamos aqui uma entrevista de um dos escritores brasileiros mais identificados com o nacionalismo: o poeta, romancista, líder político e jornalista Gerardo Mello Mourão (1917-2007). Natural de Ipueiras, no Ceará, autor do essencial “Invenção do Mar” – que o crítico Wilson Martins definiu como o equivalente brasileiro de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões – Gerardo foi também deputado federal pelo MDB (chegando a ser cassado pelo AI-5, em 1968) e correspondente da Folha de São Paulo em Pequim.
O texto que segue é a transcrição de uma entrevista concedida ao final de 2001, cujo original se encontra aqui.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Pode começar?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Pode.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Gerardo, vê se você agora relembra sua origem social, seu ambiente familiar, sua instrução, sua formação intelectual, os primeiros tempos.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Bom, eu nasci numa pequena cidade ao pé da Serra da Ibiapaba, chamada Ipueiras – do outro lado é Piauí – no noroeste do Ceará.
Venho de uma família como toda gente da minha terra: uma família antiga, tradicional, com alguns antepassados até poderosos etc. e tal. A minha mãe era pobre, a família já empobrecida através dos tempos, e era professora primária em Ipueiras. De todo modo, éramos aquilo que se chamava de as famílias importantes da região. Ela, os Noronhas, os Araújos, os Holandas, toda aquela gente é uma família só. O Ceará é uma tribo grande.
Ainda agora fui receber um título de Cidadão Honorário de Crateús, onde passei parte da minha infância, uma cidade já maior do que Ipueiras. E eu disse: “Bom, eu creio que todos nós aqui somos primos ”. E aí fez-se as chamadas dos Vereadores, começou pela Presidência: Mello Souza, Melo não sei de quê, Araújo, tudo parente. Então, éramos gente conceituada, mas pobres.
A minha mãe era professora em Ipueiras e formou quase todo mundo que aprendeu a ler, a escrever e a contar ali. Depois, em Crateús, e foi também professora em Nova Russas. E quando não tinha mais o que me ensinar, chegou lá um sujeito que veio de Fortaleza, que era de Crateús também, mais bem formado do que a minha mãe, o Prof. Solón Farias, que abriu uma pequena escola lá. Eu fui aluno dele e, para mim, foi assim um deslumbramento. Foi a primeira impressão que eu tive de um homem inteligente, culto, aberto, mas professor primário, ainda no grau primário. Mas primário naquele tempo era uma coisa muito séria: estudava-se realmente. A minha mãe, professora, sabia muita coisa, era diferente.
Chegou a época de querer formar o menino que levava… Não havia em todo o Ceará, nem em Sobral, que era a capital da região toda, não havia um colégio, um ginásio, o segundo grau. Em Sobral não havia ginásio. Havia um seminário menor, de Dom José Paz. Não havia um ginásio, só em Fortaleza. A minha mãe não tinha dinheiro para me colocar interno em Fortaleza. Eu tinha dois irmãos que moravam aqui no Rio. Então, fui morar com os irmãos e seguir os meus estudos.
Os meus tios quiseram me matricular no Colégio Militar. Arranjaram até um expediente lá. Como eu sou sobrinho-bisneto do General Sampaio, arranjaram uma porção de vantagens lá para eu entrar no Colégio Militar, mas eu refuguei. Apareceu o Bispo da cidade de Valença, que era o Dom André Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti – todos nós tínhamos na conta de parente e, realmente, em toda parentela nordestina, somos todos Albuquerque e Cavalcanti – e quiseram me levar para o seminário dele de Valença. Mas chegou uma missão de padres redendoristas holandeses e eu me entusiasmei. Eu disse que queria ser desses padres e fui ser redendorista, e aí fiz o meu estudo de humanidades. Os primeiros estudos superiores foram com os seminários, dos holandeses.
Quando eu aprendi humanidades… Hoje dificilmente você pode ter um centro de estudos tão sério. Passei quase 8 anos internos num mosteiro, não saía nem para as férias. Não era um seminário comum. Interno num mosteiro, tinha 5, 6 aulas por dia. Fiz 2 horas de latim durante 6 anos, 5 anos de grego, 4 anos de alemão. Enfim, estudando humanidades, como se estudava antigamente, quase como na Idade Média. Estudava o trilho e os quatrilhos. Aprendia-se de tudo, até música, o que não aprendi porque não tinha… Era uma… Aprendi aquelas coisas.
A minha formação básica foi essa. Tudo o que eu sei devo à minha mãe, pobre professora primária no interior do Ceará, e aos monges redentoristas holandeses que me formaram. Depois, saí por conta própria e ganhei o mundo – ou perdi o mundo.
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - E o senhor chegou a presenciar a atividade dos cangaceiros? O senhor assistiu à Coluna Prestes?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - A minha terra era uma terra ainda muito marcada por essa vida primitiva do Nordeste, inclusive por grupos de cangaço. Eu meu lembro, eu tinha 7 anos de idade, estávamos já em Crateús, quando a Coluna Prestes entrou em Crateús comandada por João Alberto – na semana passada, inauguramos lá uma casa com memorial da Coluna Prestes. Então, soltaram todos os presos da cadeia de Crateús.
A Coluna Prestes entrou tranqüilamente em todas aquelas cidades do interior sem resistência. Eu me lembro que estava em Ipueiras quando desembarcaram na estação da estrada de ferro os chamados “Os revoltosos”. Quando chegaram à estação, foi uma festa para os meninos, uma farra ver aqueles homens chegando comandados pelo João Alberto, com um chapéu de escoteiro grande na cabeça, um lenço vermelho, os oficiais todos com lenço vermelho, saltaram na estrada de ferro.
Antigamente, na estrada de ferro tinha um telégrafo que funcionava em todo o interior do Brasil. Só havia o telégrafo na estrada de ferro, com aquelas pilhas primitivas feitas de garrafas cortadas com ácido dentro. O João Alberto entrou, todos nós atrás, os meninos, todos os soldados, e chamou um sargento. Havia um telegrafista que era zarolho que passava telegramas, vendia passagens e despachava bagagens. Então, o João Alberto chegou e disse para o sargento: “Pega esse telégrafo aí e quebra”. O sargento pegou os vidros de ácido do telégrafo de morse, jogou nos trilhos e quebrou. E você assistindo aquilo assim, bem bestificado. E o João Alberto disse – eu guardei essa frase até hoje; eu tinha 7 anos, isso foi em 1924, eu sou de 1917 – “Isso é mais perigoso do que 500 inimigos”. Eu passei a ter um respeito profundo pelo Seu Mileto, que manipulava um aparato mais perigoso do que 500 inimigos!
João Alberto chegou e foi para a cidade. Hospedou-se com o estado maior na casa de meu avô, que era chefe político de Ipueiras; e a outra parte na casa do Major José Bento Fontenele, que era outro chefe político.
Ele e o meu avô mandaram matar os novilhos, churrasqueou para a soldadesca, hospedou a oficialidade dentro de casa. E me lembro que João Alberto disse para meu avô – que se chamava Capitão José Ribeiro Mello, Capitão da Guarda Nacional: “ Quanto é que tem nos cofres da Prefeitura? ” O meu avô disse: “ Tem 400 mil réis ”. Ele também chamava o João Alberto de Capitão. E ele disse: “ Passe para cá ”. O João Alberto deu um recibo e levou os 400 mil réis que eram o tesouro municipal de Ipueiras.
E por ali foram caindo aquelas cidades, até irem para Crateús, onde o Governo do Estado decidiu resistir. Juntou os destacamentos policiais de toda a região, todas as forças que pôde, armas, munições etc., e se concentrou em Crateús à espera do ataque dos revoltosos que iriam passar de Crateús para o Piauí. Soltaram, inclusive, todos os presos da cadeia para servirem de soldados.
Havia um preso que foi cangaceiro do bando do Lampião, que se chamava Zé Mourão, por quem eu tinha um encanto, um fascínio. Ele era meu primo. O meu pai e a minha mãe ficavam indignados: “Esse cangaceiro não é parente da gente!”. Devia ser. Ele era um caboclo branco, bonito. Eu ficava com meus primos todo dia, pelo menos conversando com ele na grade da cadeia. Foi só virar o herói da revolução que contava umas façanhas que deviam ser lenda que o Zé Mourão saiu rolando pela praça dando tiro e não sei mais o quê.
É certo que João Alberto atacou Crateús, um acontecimento histórico que se chamava o bombardeio de Crateús. Isso faz muito tempo.
Passei agora lá na minha casa antiga. Ela está toda reformada. Hoje é uma casa bonita, não é a nossa pobre casa, mas está lá. Um dos nossos vizinhos era o nosso primo Raimundo Resende; o outro era o tio da mãe, chamava Tobias Soares, o homem mais mentiroso de Crateús, famoso pelas histórias que contava.
Mas, enfim, a nossa casa era residência e escola. Havia uma sala grande que tinha um nível mais baixo do que a planta do resto da casa. Então, as vizinhas todas pediram para ir dormir lá para se defender de balas. Dormiu lá uma quantidade enorme de senhoras, umas 20 ou 30 senhoras. O único homem da casa era eu, que tinha 7 anos.
Veio um primo nosso, afilhado de minha mãe, chamado Milton Benjamin. Acho que hoje ele está em Brasília. É um velho médico que deve estar com uns 80 anos. Ele foi Coronel da Força Pública de Pernambuco e é tio desses meninos do PT, do Cid Benjamin e do César Benjamin, são meus parentes. Esse menino tinha uns 16, 17 anos, era afilhado da minha mãe e dizia: “Madrinha, eu vou dormir aqui, porque precisa ter um homem em casa”.
Eu sei que começou o bombardeio de Crateús. Estava tudo fechado e só ouvia aquele pá-pá-pá-pá, aquele tiroteio. E eu ouvia sempre um grito durante a noite, aquilo ficou no meu ouvido: “Poupa munição, cabra do Prestes! Poupa munição, cabra do Prestes!” Não sei o por quê. Eu sei que os revolucionários revoltosos, na calçada da nossa casa, foram repelidos, voltaram na noite seguinte. A Força Pública estava esperando, na noite seguinte voltaram e repetiu-se a mesma cena: tiroteio a noite inteira. E lá pelas tantas da madrugada cessou o tiroteio e bateram na nossa porta, bateram numa janela: “Abra!” Assombrado, Milton, disse: “Vamos abrir”. Abrindo a porta, eles pediram emprestadas 3 redes porque havia uns homens feridos na calçada. Então, abrimos, ajudamos lá, vimos aquela poça de sangue e tenho a impressão de ter ficado com a mão molhada de sangue. Não sei se foi impressão de infância. E o Milton, o meu primo e outros ajudantes levaram os 3 sujeitos feridos que foram enterrados na saída de Crateús. Então, o povo inventou que os homens tinham sido enterrados vivos, e eles viraram santos. Hoje as pessoas fazem promessas, levam flores, rezam, etc. Fui lá ver a sepultura deles.
O Prefeito Nazareno Mello, meu primo, encomendou ao Oscar Niemeyer um memorial para registrar essa passagem da História do Brasil. A Coluna Prestes foi uma coisa importantíssima na História do Brasil. A Coluna, como se dizia à época, foi como uma serpente percorrendo o território do País, dando uma consciência cívica ao povo. Aquela coisa do tenentismo era um pouco vago. Naquele tempo, não havia uma ideologia, não havia coisa alguma, justiça nem representação, mas um despertar da consciência nacional e um ato de heroísmo que ficou plantado na História.
Então, a cidade de Crateús foi protagonista desse momento histórico e heróico da vida política brasileira, que contaminou grande parte do povo.
Estive agora em Crateús e entrei no mercado. Visitei os lugares da minha infância. Um mercado velho que fica assim, uma lojinha de Norberto Ferreira. O Sr. Norberto era o padeiro de Crateús, o primeiro padeiro que vi. Em Ipueiras, não havia padaria. Quando fui para Crateús, eu conheci o pão; em Ipueiras, eu comia tapioca. Mas o pão do Sr. Norberto era delicioso. Nunca era suficiente o pão que eu comia de manhã. Achava pouco, queria mais e não tinha. Eu entrei no mercado e vi um velhinho trêmulo, com parkinson, evidente, e disse: “Aqui é do Sr. Norberto?” Ele disse: “Eu sou o filho dele.” “Você não é o filho da Éster?” “Sou.” Ah, era o Ferreirinha, filho do Sr. Norberto, meu companheiro de infância e o primeiro comunista de Crateús! Ficou satisfeitíssimo de termos ido lá homenagear a Coluna Prestes. Ferreirinha… O Sr. Ferreirinha disse: “Eu vou lhe mostrar aqui o primeiro arquivo de Crateús.” Tem um retrato da escola da minha mãe, os alunos todo ao redor. Tinha o meu avô, eu, menino desse tamanho, de cara redonda, o Expedito Machado, o Jânio Machado, com cara de caveirinha, colegas de escola mesmo.
Então, foi um negócio assim de… eu fiquei muito feliz de ter voltado a Crateús, porque eu tenho a minha terra como o meu patrimônio único. A herança que eu tenho é o negócio do Ceará. O Ceará é negócio, a minha vida, a minha formação, o meu sentimento de País, o meu sentimento de Brasil. O resto é bobagem. O resto é… Toda minha obra literária se funda ali.
Eu fiz outras coisas na vida, fiz política liberal, fiz política convencional no Brasil, fui Deputado, tudo isso. Eu ocupei muitas coisas. Mas tudo isso na minha vida foi adultério. O meu matrimônio é com a minha terra e com a minha poesia, que é fundada ali, começou ali. Então, é a minha vida, é a minha poesia, o resto é besteira. Tudo é adultério, o matrimônio foi aquele ali.
Eu me comovi de receber um título de Cidadão Honorário de Crateús. Eu devo dizer aqui – não é para esnobar não – que recebi um título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, cidadão carioca. Um Vereador me deu esse título, foi votado na Câmara, marcaram a solenidade e eu não fui receber. Não me ocorreu, no dia eu não pude, marcaram outra solenidade, também não fui não sei por quê. Acho que estava no hospital e não fui. Recebi um título de Cidadão Fluminense, dado pelo Chuay, grande companheiro de cadeia, que fez questão disso. Mas, o de Crateús, nem que eu tivesse que atravessar o oceano para receber esse título eu quereria, porque lá é minha terra, minha raiz, minha origem.
Eu me julgo um homem original no meio da cultura brasileira – original naquele sentido goetheano. Goethe disse que original é tudo que está plantado na origem. Só se é original quando se está plantado na origem. Tentei fazer uma obra original da literatura brasileira e na minha vida. Fiz muitas besteiras na vida, adultérios de todo o jeito, mas minha fidelidade à origem é grande.
Eu falo sempre com muita emoção de Ipueiras e Crateús.
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - O senhor saiu de Ipueiras…
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Nós ocupamos o litoral do Brasil. No princípio, como se dizia, o Brasil era Pernambuco; Pernambuco era o açúcar, e o açúcar era o ( ininteligível. ). Então, nós nos ocupamos com o litoral e não havia gente. Nem de português, nem o povoador tinha gente para navegar o sertão imenso. Estava ocupado em defender o litoral contra as invasões de piratas ingleses, franceses e mais tarde os holandeses, que depois vieram de maneira maciça, e assim por diante.
Só fizemos a navegação interior do País quando nós, na guerra holandesa, capítulo que fundou o Brasil, expulsamos os invasores. Esse foi um gesto brasileiro, e não do colonizador português. Portugal e Espanha entraram em negociação com a Holanda para entregar a parte já ocupada por eles.
O Padre Antônio Vieira acumpliciou-se com isso; o Embaixador Souza Andrade, de Portugal, acumpliciou-se com isso. Estava tudo pronto. Quando receberam a ordem aqui para entregar, um caboclo português, com alguns índios e negros, também disseram que não entregavam. E João Fernandes Vieira escreveu a famosa carta ao Rei de Portugal, dizendo: “ Vou desobedecer Vossa Majestade pela primeira vez. Vou primeiro expulsar os invasores de nossas terras. Depois irei a Portugal receber o castigo da minha desobediência, mas eu não cumpro a ordem.”
Resistiram às ordens do rei e expulsaram com a primeira guerrilha gloriosa que se travou no mundo. Hoje os oficiais tratam da guerrilha holandesa como um capítulo especial da estratégia e das táticas de guerra moderna, como uma coisa que precedeu o Vietnã. Nas guerrilhas, venceu o exército holandês, que era o mais poderoso do seu tempo.
Pelos estudos de hoje, sabe-se que a etapa do soldado holandês – etapa é aquilo que um soldado recebe, como roupa, comida, etc. -, em Pernambuco, na Bahia, no Nordeste, digamos, era superior à etapa de um soldado americano hoje em vitaminas e proteínas e roupas. E esses caboclos eram leigos.
Então, fundou-se o Brasil ali. Pela primeira vez na História do Brasil aparece a palavra “pátria” num documento da guerra holandesa, escrito pelo negro Henrique Dias. O holandês mandava sempre (i ninteligível. ) cartas para o Henrique Dias e Camarão tentando comprar coisas, e ele não respondia. Dali a uns dias, perguntou por que não respondia às cartas. Ele disse: “ Eu respondo como tenho respondido sempre no cano das bombardas. Sou homem de poucas letras e muita espada e não descansarei enquanto não expulsar o invasor da minha pátria. E respondo pelo Camarão, porque essa também é a pátria dele .”
É o primeiro documento da História do Brasil em que figura a palavra “pátria” feita pelo negro Henrique Dias, em nome dele e do Camarão. Então, ali se fundou realmente a pátria brasileira, expulsando os holandeses.
Os homens que guardavam as costas do Brasil tiveram tempo de começar a navegar as terras dos sertões. Aí surgiram as bandeiras.
Falamos muito nas bandeiras paulistas, que realmente foram as mais frondosas, de maior êxito e admiráveis, com heróis como o Raposo Tavares e Borba Gato. É uma coisa fabulosa. Mas é preciso ver que houve grandes bandeiras também, como as bandeiras baianas, da Casa da Torre, que percorreram distâncias imensas. Houve também as bandeiras pernambucanas, juntando todo o Nordeste, quando um sujeito do Ceará inventou a paçoca e ensinou aos bandeirantes do rio São Francisco que poderiam levar aquilo como comida.
Eu tenho uma grande admiração pelos filmes de faroeste americano. Vê-se aqueles homens admiráveis naqueles cavalos bonitos, mulheres bem vestidas naquelas diligências fabulosas, e fico um pouco humilhado porque eles viveram no século XVIII até XIX. O nosso foi no século XVII e XVIII.
Os bandeirantes brasileiros percorreram este País à pé, com os pés sangrando, inchados, lutando contra os índios, a onça, o bicho do mato, a fome, comendo raízes e tudo. Foi uma epopéia.
Então, eles marcaram um encontro nas margens do São Francisco, nas bandeiras paraenses de Pedro Teixeira, e foram. Pedro Teixeira saiu de Belém do Pará, passou pelo Equador, pela Colômbia, invadiu tudo, tomou posse até o Oceano Pacífico, em nome do rei de Portugal, andando à pé e de canoa.
Os bandeirantes da Casa da Torre, da Bahia, e os bandeirantes pernambucanos marcaram um encontro e fizeram a estratégia do avanço das bandeiras. As bandeiras paulistas foram as mais frondosas e poderosas e fundaram este País. Então, chegaram às Minas Gerais, mas depois que nós construímos a segurança do país, que fizemos um país defendido contra as invasões estrangeiras. É esse, então, o papel que o Nordeste cumpriu neste país.
Os mineiros são muito novos. Eu me lembro um amigo nosso, numa ocasião, fazendo um programa de televisão com João Cabral. Muito deslumbrado com ele, disse: “ João, imagine se você tivesse nascido em Minas! “ Ele respondeu: “ Espera aí, moço! Vocês são do século XVIII e XIX. Eu estou aqui desde o século XVII. Quem fundou a Vila Rica do Pilar do Albuquerque foi um parente nosso – meu, do Tarcísio, do Albuquerque, sobrinho da dona Brites, a Velha.”
O Capitão Antônio de Albuquerque, pernambucano, fundou a cidade de Ouro Preto. Nós fizemos o país. É claro que a contribuição deles também é enorme, grandiosa, e deram ouro, a nós não tocou o ouro. Nos tocou foi o açúcar, que era um ouro duro de roer.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Era o ouro daquele tempo.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O açúcar foi, no século, o maior negócio da história do mundo, porque não havia açúcar no mundo. Nas cortes européias, as condessas, as princesas, a classe alta faziam seus docinhos caseiros, em doses homeopáticas, com mel de abelha. De repente, o mundo é inundado pelo açúcar.
A cana-de-açúcar é uma coisa prodigiosa, um cano com água de açúcar já dentro e pronto. É só moer. Isso foi o maior negócio do mundo na época. Tão grande que despertou a cobiça internacional.
Aí veio a guerra de Holanda, que foi uma coisa muito séria. Não foi uma simples invasão de piratas. A Holanda era o país mais rico do planeta, naquela época, e foi sempre um país muito liberal. Foi o único país da Europa onde os judeus não foram perseguidos. Os judeus se refugiaram na Holanda.
Os judeus são um povo poderosamente inteligente, com seus físicos, seus médicos, seus banqueiros. Então, eles se concentraram na Holanda e foram gratos a ela. Armaram a Holanda para a conquista.
Veio um príncipe alemão, Maurício de Nassau, contratado pela Companhia das Índias, empresa da Holanda, que planejou fazer um império atlântico, dominando toda a ribeira do Atlântico Sul, no lado da América, e a ribeira do Atlântico no lado da África. Nassau mandou, de Pernambuco, ocupar Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau. Mandou as tropas descerem até a Patagônia planejando um império a ser construído. Mas os guerrilheiros de João Fernandes Vieira acabaram com a brincadeira deles.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Dr. Mourão, voltando um pouco à sua vida, já que o senhor foi para o seminário, por que não se tornou um padre?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu também me pergunto muitas vezes por que não fui padre. De certo modo, acho que me faltou heroísmo.
Um dos escritores que eu mais respeito, Léon Bloy, disse que a única tristeza que o homem tem no fundo da alma é não ser santo. O santo é aquele que participa da divindade. E a vocação para o sacerdócio e a vida monástica, que é a que escolhi, é o caminho da santidade. Chamava-se antigamente de a escada do paraíso, desde os primeiros mosteiros do Oriente.
Gaza, que é o lugar onde se matam os judeus e árabes, foi uma cidade por excelência das letras, das artes e do espírito, no seu tempo, com um maior número de doutores. Dali saíram os grandes primeiros monges, que chamavam os mosteiros da escada do paraíso ou a porta do paraíso.
Mas essa escada requer muito heroísmo, uma renúncia a todos os prazeres do mundo. E eu devo lhe dizer que sou um sujeito que não tive vocação para o heroísmo, mas também não sou um canalha. Levei 7 meses na maior angústia: saio ou não do mosteiro? A vida no mosteiro é muito boa. Tem-se diariamente uma hora de conversa com o padre mestre dos clérigos.
Uma vez, disse: “ Padre, eu não tenho condições. Estou tentado, quero sair, vou para o mundo. Não vou ser padre .” Ele respondeu: “ Está bem. Peça a Deus que o ilumine, reze, pense um pouco por 2 ou 3 dias. “ No dia seguinte, eu voltava: “ Padre, pelo amor de Deus, não quero sair, quero ficar .”
Fiquei nessa angústia existencial terrível quase antológica de saio ou não saio até que, depois de 7 meses de angústia, resolvi sair. E nessa hora, quando tirei o meu hábito, depositei-o sobre a cama juntamente com todos os meus vestes eclesiásticos, o meu solidéu, comecei a chorar e não saí. Fiquei numa situação muito delicada e disse que não queria mais sair. O padre disse “ Pode sair tranqüilo. Você já foi suficientemente provado. Isso é uma provação que Deus lhe deu durante 7 meses. Não fique se torturando, pode ir tranqüilo que você se salvará .“
A minha saída foi uma coisa tão terrível que eu saí do mosteiro num sábado de carnaval. Você não pode imaginar o que era o carnaval no Rio de Janeiro naquele tempo. Cantava-se pelas ruas: “ Eva querida, quero ser o seu Adão .” E aquela coisa fabulosa! (risos. ) Eu dizia: “ Está tudo perdido, está tudo louco, vai tudo para o inferno!”. Fui à missa no domingo de manhã e procurei o padre: “ Estou saindo do mosteiro, quero voltar. ” O padre pediu-me que tivesse calma. E eu não voltei.
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - E aí o senhor descobriu a poesia?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu saí faltando poucos dias para pronunciar os primeiros votos na vida monástica. Não são os chamados padres diocesanos, de paróquia. Os padres de ordens monásticas pronunciam votos de pobreza, castidade e obediência.
Eu perdi a castidade, a obediência e conservei o luxo da pobreza para o resto da vida. Mas, evidentemente, nunca deixei de ser cristão. Passei muito tempo afastado das práticas religiosas, mas sempre com a presença de Deus.
Lembro-me que, quando cheguei aqui, fui procurado por Tristão de Athayde, Alceu Amoroso Lima, que era o que naquela época se chamava de chefe do laicato católico, escritor. Fui com um amigo meu chamado Orlando Carneiro, que foi o primeiro sujeito que conheci no Rio. Chamava-se Orlando Carneiro, pai de Luiz Orlando.
Fui à missa em um domingo de carnaval e tinha um sujeito do meu lado que começou a me cutucar e a falar comigo. Tinha uma voz rouca e falava alto. Eu, um sujeito acostumado com aquela postura monástica dentro da missa, disse: “ Amigo, por favor, quando terminar a missa nós conversamos .“ “ Não me importa, eu sou amigo íntimo de Jesus Cristo ”. Era o Orlando Carneiro, pai do Luiz Orlando. Foi meu grande amigo. E levou-me ao Tristão de Athayde, ao Alceu Amoroso Lima, no dia seguinte.
O Alceu me disse: “ Meu filho, não estou aqui para dar conselho, é só uma advertência. Você esteja sempre com Deus. Estando com Deus, está bem. Esteja de bem com Deus; ou de mal com Deus. Mas esteja com Deus, com a presença dele. Mesmo estando de mal com Ele, mas esteja com Deus ”. Foi o primeiro passo que dei. Ele me meteu no Integralismo. “ O que você vai fazer? Não importa ser monge ou padre. Tenha uma vocação salvacionista. No fim, você deseja salvar as almas.” “Eu desejo fazer alguma coisa na ordem da política.” “Então você vai ali na Travessa do Ouvidor, 32. Tem um movimento político novo. É um movimento cristão católico integralista. Você se inscreve lá e vai ser integralista cristão. salvacionista ”.
No fundo, os políticos canalhas, mesmo os políticos que ignoram tudo, têm uma espécie de vocação para o charlatanismo e para o salvacionismo. Algumas legítimas e outras puramente charlatanescas. O Brizola, antes de ser político, era pregador. Pregava o Evangelho dentro das cadeias para salvar. Então, o salvacionismo leva muito à política também. Não todos. Então, daí foram os meus primeiros passos.
Hoje sou um homem muito mais amadurecido na minha fé. Vivo presente ainda a palavra do Alceu: O senhor está com Deus. De mal com Ele; de bem com Ele . Quer dizer, se eu fiz um negócio que estou sabendo que é mau é porque não está de acordo com as minhas relações com Deus. Porque Deus, como dizia o meu mestre Unamuno: “ O que é o problema religioso do homem? O homem está ligado a Deus porque Deus é mais eu do que eu mesmo ”. Ele é o Criador e nós somos jogados no mundo como pedaços da galáxia primitiva que Ele criou. Ele é mais eu do que eu mesmo.
Ter consciência moral e espiritual é muito importante. Isso não quer dizer que eu esteja sempre andando direitinho, não. Mesmo completamente destrambelhado, mas sempre tenho consciência daquilo que está certo e daquilo que está errado e me esforço para acertar.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Gostaria que o senhor nos falasse também como é que foi esse seu contato com a política. De que forma o senhor aderiu a esse movimento; que impressão isso lhe causou e a conseqüência disso.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu fui lá e o Tristão me disse: “ Vá lá na Travessa do Ouvidor nº 32 - lembro-me até hoje - em frente à Livraria Schmidt” . O Augusto Schmidt tinha uma livraria pequena bem em frente à sede do Integralismo. Aliás, o Plínio fundou o Integralismo no Rio na Livraria do Schmidt.
É uma história muito curiosa de ser contada ainda. O Plínio Salgado fundou, em São Paulo, a Sociedade de Estudos Políticos e a Ação Integralista Brasileira para fazer um aparelho político para a Sociedade de Estudos Políticos. O aparelho se chamava Ação Integralista Brasileira. Plínio, foi o fundador; Iaci Gayara, o Alfredo Silva Teles, o Roberto Simonsen, o velho – não o Ministro Simonsen; o Gustavo Barroso. Estava aqui no Rio. E o Plínio fez 14 viagens ao Rio de Janeiro. O Plínio então um dia fundou em São Paulo.
Depois de fundado o negócio, ele olhou e falou: “ Vou fazer um desfile na Avenida Paulista ”. O Menotti del Picchia, o Cassiano Ricardo, amigos dele, disseram: “ Não faça isso. Vai ser ridículo fazer um desfile com 40 sujeitos. Vai ser vaiado !”. “ Não me importo com vaia. ” “Amanhã, quando você for ao Automóvel Club, vão fazer uma gozação! ” “ Um dia eu fecharei o Automóvel Club ”. “ E no Jockey Club.. .” “ Um dia eu fecharei o Jockey Club .” E fez a marcha dele.
Veio 14 vezes ao Rio de Janeiro – ele contava isso – de trem de segunda classe, às vezes com a calça remendada nos fundilhos, o que era muito comum naquele tempo, para arranjar aqui. Mas ninguém estava com ele. Reuniam-se na livraria do Schmidt. Quando chegavam as 6 horas, o Schmidt baixava aquela porta de aço e o Plínio vendia o peixe dele. Era um homem muito fascinante no falar.
Freqüentavam ali Gustavo Barroso, Everaldo Leite, que era um engenheiro da Light; Antônio Galotti, San Tiago Dantas, Thiers Martins Moreira e alguns outros, Jaime da Silva Teles daqui do Rio de Janeiro. Até que um dia resolveram: vamos fundar. O Schmidt, entusiasmadíssimo, queria que ele fundasse um movimento católico, como a Action Française. Com as condições do Schmidt cumpridas, fecharam o católico também. Então o Schmidt disse: “ Agora vamos levar para fora do Rio de Janeiro ”.
Foi fundado o núcleo aqui com 10 ou 12 sujeitos. E os recursos para viajar? Vamos viajar como? O Schmidt falou: “ Faz um livro ”.
O Plínio foi o mais prodigioso datilógrafo que já vi na minha vida. Era um monstro. Escreveu esse livro. Ficou trancado na livraria à noite inteira. De manhã cedo, entregou o livro pronto. “ Está aqui. Vamos editar”. “Como é o nome do livro?” “ O Que é o Integralismo” .
O Schmidt era um editor que não tinha um tostão. Pulava de galho em galho como alguns editores que conhecemos. Foi ao conselheiro Mayrink Veiga, velho Mayrink Veiga, pai do Antenor. “ Conselheiro, isso aqui é um livro importante contra o comunismo e tal. Preciso só de 5 contos para editar esse livro ”. O Mayrink Veiga deu 5 contos. O Schmidt imprimiu o livro fiado e deu 5 contos ao Plínio para viajar.
O Plínio pegou um navio da Lloyd. Tinha que ir alguém junto com ele. Então o Thiers Martins Moreira, muito jovem, tinha acabado de se casar inclusive com uma mulher encantadora, a Rosita, muito bonita, disse: “Vou junto.” “E a Rosita?” O Thiers tinha um emprego de 400 mil réis por mês. Então, o Galotti, o San Tiago, o Lacombe, o Gustavo disseram: “ Vamos fazer uma vaquinha e damos uma mesada para a Rosita. Pode largar o emprego ”. A Rosita ficou morando numa pensão e o Thiers seguiu com o Plínio.
Primeiro, o navio parou em Vitória. Lá, fundaram o Movimento Integralista com um sujeito que tinha uma rede de farmácias chamado Roubach. O filho do Roubach posteriormente foi um dos donos do Pró-Cardíaco, Robson Roubach, estudante que conheci. Fundaram em Vitória. E um engenheiro da estrada de ferro, Edson Vieira, parece-me.
Depois foram para a Bahia. Lá o Plínio fez uma conferência nas faculdades de Medicina e aí ingressou um número grande de sujeitos. Os primeiros a entrar foram o Balbino, professores, estudantes. Alguns deles estão vivos ainda.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Esse grupo tinha alguma coisa a ver com a Câmara dos Quarenta?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não. A Câmara dos Quarenta foi uma organização criada muito mais tarde, quando o Integralismo já estava forte para instrumentar melhor a administração do partido. A Câmara dos Quarenta era um negócio mais decorativo. O Plínio reuniu a Câmara dos Quarenta para colocar sujeitos que podiam prestar serviços ao partido, especialmente financiadores. Eram Raul Leite, alguns industriais, enfim. Tinha certa importância, mas não era um organismo que comandava o partido. Quem comandava o partido era o secretariado nacional. Era o Integralismo organizado.
Quem fez toda a estrutura do integralismo, da organização política do Integralismo, foi o Secretário de Organização Pública. Era o Everaldo Leite, engenheiro da Light. Acho que morreu. O Everaldo foi quem estruturou, fez as secretarias. O Integralismo tinha um ministério. Tinha um ministro, secretário nacional, correspondente a cada ministério.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Sr. Mourão, me diga uma coisa. Está muito boa a sua exposição. O senhor deixou de falar o seguinte: como o senhor vivia e sobrevivia profissionalmente?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Comecei a trabalhar como professor. Era professor de latim e de francês em vários colégios aqui, inclusive no Ginásio de São Bento. Foi o meu primeiro emprego como professor. Depois, fui jornalista no jornal integralista Ofensiva , aquele jornal diário e em outro jornal diário integralista, O Povo, do qual fui diretor com 20 e poucos anos. Era eu e o Juca Loureiro, genro do Plínio. Como professor tirava o meu sustento, pois tive algumas pequenas heranças. Minha mãe era pobre, mas tínhamos sempre algumas pequenas heranças e tinha uma vida razoavelmente suportável. Minha vida se tornou muito difícil depois, quando tirei 6 anos de cadeia, já casado com a minha primeira mulher, porque fiquei viúvo. É difícil sobreviver.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O que houve para o senhor tirar esses 6 anos de cadeia? O que aconteceu?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Vou chegar lá.
Fui preso 18 vezes. Tinha uma atuação muito jovem, porém muito presente. Quando se fechou o Integralismo começou-se a conspirar. Portanto, 18 vezes.
Eu tinha no partido uma posição de diretor do jornal diário - diretor nominal, evidentemente. O Plínio me fez diretor. Aparecia o meu nome diariamente em artigos violentos etc. Quando começou a conspiração para o Estado Novo, nós fomos contra. Depois, fui preso durante a guerra, já acusado de relações com a Alemanha nazista etc. Nunca tive relação com a Alemanha nazista. Nunca houve uma lei brasileira que me condenasse. Fui condenado a 30 anos de prisão. Não fui condenado à morte até porque não havia pena de morte. Não havia pena alguma.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Qual foi a instituição que o condenou?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Tribunal de Segurança Nacional. Fomos presos primeiro na Conferência Pan-americana, que se realizou no Hotel Glória. Havia um capitão, Túlio Regis Nascimento.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Famoso.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Esse capitão tinha sido da Aliança Nacional Libertadora. Depois tornou-se um homem de direita. Primo legítimo do Alexandre Konder, do Valério Konder, dessa gente.
Tínhamos um grupo e começamos a fazer uma anarquia no Hotel Glória. Fizemos o diabo. Jogamos panfletos etc. Veio a polícia. O Túlio era capitão. Deu uma chave de galão e fomos presos na hora. Depois nos soltaram, nos tornaram a prender. Até que prenderam e foi quando houve o rompimento de relações do Brasil com os países do eixo – Alemanha, Itália, Japão. Fui preso e saí daqui tranqüilamente. O Túlio ficou recolhido ao Forte de Copacabana e agrediu um coronel do Forte, o Coronel Sadock. Pegou o coronel, através da grade, e quase o matou. A sua situação ficou grave. Daí veio o Konder e vários outros. Aí fiquei tranqüilo lá na cadeia. Não tinha crime nenhum para me condenar quando o Getúlio publica um decreto – o Decreto nº 4.766, de 29 de outubro de 1942 – definindo crimes contra a segurança nacional, cujo art. 21 dizia: “promover e manter no território nacional, ação em favor do inimigo. Pena mínima: 20 anos até máxima.” A máxima seria a morte. Daí então vinha o art. 69 lei. O art. 68 dizia: esta lei retroagirá até a data de 28 de janeiro de 1942 . Será a primeira vez na história do Direito Penal, desde a codificação do direito romano, que uma lei penal retroagirá. O primeiro artigo de todos os códigos penais do mundo diz que não haverá crime sem prévia cominação legal. Ninguém pode ser processado ou condenado se não em virtude e na forma de lei anterior. Isto é ditadura! Estado Novo, não é?
O art. 69 diz que, no caso de aplicação retroativa desse decreto, não haverá pena de morte, transformando-se a pena máxima em 30 anos. Por isso, escapei da retroativa.
Estávamos presos. Havia até uns advogados presos lá, partidários do eixo. Eram contra a entrada do Brasil na guerra, contra os Estados Unidos. Não há tribunal que aplique essa regra. Havia um advogado, o Dr. Camilo Pimentel, famoso, que dizia que o Tribunal de Segurança aplicava qualquer coisa e o Tribunal de Segurança aplicou a lei.
Nunca comparecemos diante de um juiz. Nunca houve autos nesse processo. Foi apenas a folha policial mandada pela Delegacia de Ordem Política e Social e, na base daquilo, fomos julgados e condenados.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Essa decisão foi tomada em que data?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Hein?
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – qual foi a data da decisão do Tribunal?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Já estávamos presos há quase 2 anos. A data da decisão, exatamente, não sei. Eu estava preso desde janeiro, e a lei foi promulgada em 29 de outubro de 1942.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - E retroagiu para que dia?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Retroagiu para 28 de janeiro.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Para atingi-los?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Para nos atingir. Fomos, então, condenados. Pensei que quando acabasse a guerra, iriam nos soltar. Realmente, quando acabou a guerra, caiu a ditadura do Estado Novo, e o primeiro ato do Governo José Linhares foi extinguir o Tribunal de Segurança Nacional. Houve o famoso discurso do Brigadeiro Eduardo Gomes, no Teatro Municipal, discurso este que parece ter sido redigido pelo próprio Keller, em que o Brigadeiro pedia justiça para as vítimas desse tribunal infame que se ergue no País como um coro de tragédia grega .
Então, o primeiro ato do Governo José Linhares foi extinguir o Tribunal de Segurança Nacional, e todos os processos foram encaminhados à apreciação da Justiça Militar. Então, entramos com um habeas-corpus no Supremo, no qual foi Relator o Ministro Ribeiro da Costa, e revisor o ministro Nelson Hungria, que tem uma frase lapidar que diz que a condenação do Mello Mourão é uma monstruosidade que precisa ser revogada para salvaguardar a dignidade da própria Justiça.
O habeas-corpus foi concedido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, que determinou a anulação do processo por não haver nenhum crime nas leis brasileiras que possam ser atribuídas a esses cidadãos. E não havia autos no processo. Nunca comparecemos a um juiz. Isso se desenrolou e eu paguei pelo fato o resto da vida. Era chamado de peão nazista, condenado à morte, não sei o quê. Nas memórias do Barros, ele conta uma história nossa. Houve um repórter que fez uma matéria tremenda contra nós, eu, Túlio, Konder na revista O Cruzeiro . Eu era mais notório porque escrevia em jornal todos os dias. Era uma coisa tremenda.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Quem foi esse repórter?
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Quem? Quem foi esse repórter?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Esse repórter, você logo adivinhará.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Davi Nasser? Era o Davi Nasser?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O Túlio disse: vamos matar esse sujeito! Matar não, disse o Konder. Vamos fazer ele comer um prato de merda! Nós o cercamos por 3 ou 4 dias e, por fim, pegamos o sujeito na zona norte, para os lados de Andaraí, Vila Isabel. Nós pegamos o sujeito e o colocamos no carro e o levamos para o botequim do Português, em São Cristóvão, onde estava tudo preparado. O Português já tinha preparado o prato. Baixamos as portas e todos nós dissemos: Come ou morre! Konder era um sujeito incisivo:Come ou morre agora! Ele disse: Eu como . Tem um guardanapo? Não , eu disse. É sem guardanapo! Comeu um prato inteiro. Quando acabou de comer, o Túlio disse: Agora vai morrer. Ele disse : Mas Já comi! Vai morrer, porque quem come merda morre! Não pode viver! Por fim, soltamos o sujeito. E o Túlio disse: Olhe, da próxima vez, morre! comendo ou não comendo. Pode ir embora!
Mas isso me diverte, às vezes, um pouco. O sujeito foi condenado à morte. Eu fui condenado à morte. Fomos os 2 únicos sujeitos condenados à morte na história da República, que eu conheça. Quem tirou da cadeia fui eu. Quer dizer, eu tirei, não. Eu fiz o pedido de indulto ao Presidente. Os meus companheiros de prisão eram dois pracinhas. Mas era um negócio interessante. Os jornais da época fizeram reportagens grandes sobre esses 2 rapazes. Eram 2 pracinhas do Rio Grande, que estavam na Itália. Um deles era um rapaz loirinho, muito bonito, chamado Luiz, e o Adão era um sujeito gaúchão, amulatado. Eles, me parece, que estavam embriagados, entraram na casa de um pobre camponês italiano e abusaram das meninas da casa, e, depois de estuprá-las, mataram-nas e também o velho camponês italiano. Foram condenados à morte. O grande General do Rio Grande do Sul, Cordeiro de Farias, condenou-os à morte pelo Conselho de Guerra. A Lei de Guerra tinha que moralizar o Exército. Parece que o próprio Mascarenhas recomendou ao General Dutra que comutasse a pena de morte em 30 anos de prisão, porque a pena de morte traumatizaria os soldados da FEB se matassem os dois rapazes. E a pena foi comutada a 30 anos. Tiraram o preso da penitenciária. E eu fiz o pedido de indulto deles ao General Dutra. Redigi o pedido e o enviamos. Os dois tinham a pena de morte. Luís e Adão. Não me lembro do sobrenome deles, mas, na República do Peru, há uma moça, que mora aqui, e que era assistente social da Marinha e prestava muitos serviços à instituição. É minha prima, até — Iradi Gadelha. Ela que me pediu para fazer o indulto. Eu o fiz, ela o encaminhou e os sujeitos foram indultados. Voltaram ao Rio Grande. Foi a única pena de morte. Os únicos condenados à morte. Quem me dera abolir essa pena.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Qual foi a sua experiência política, depois da cadeia?
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - Eu li em algum lugar que o senhor recebeu a visita do Camus na prisão.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu recebi. Creio que o Camus esteve comigo em 3 ocasiões, para me visitar.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Albert Camus.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Albert Camus. O Camus veio aqui e eu havia traduzido para o Teatro Experimental do Negro — era do amigo Abdias Nascimento, fiz na cadeia — uma peça do Camus chamada Calígula. Modéstia à parte, fiz uma tradução perfeita, uma beleza de tradução do Calígula, do Camus. E o Abdias ficou andando com o Camus pelo Teatro Experimental do Negro. O Camus era uma figura fisicamente impressionante. Só faltava chorar, olhando para mim. Fiquei comovido e ele, comovidíssimo, disse que não. Poeta. Conversei com ele; voltou. Na terceira vez, ele me disse: Não se meta em política. Somos artistas! Não temos que fazer a história. Nosso papel é sofrer a história! Uma frase que é uma beleza. Nosso papel é sofrer a história e não fazer a história. Deixa esses sujeitos fazerem a história. Não se meta em política!
E eu reincidi. Andei fazendo política de novo em 1964, 1967, mas foi adultério. ( Risos .) Mas tive muitos amigos. O Tristão me visitou várias vezes na cadeia.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Como você despertou para a poesia? Você escreveu um livro, um romance, que ficou conhecido como o romance precursor em matéria de realismo mágico, fantástico, que foi o Ás de Espadas . Depois, você…
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É o Valete de Espadas .
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Valete de Espadas !
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Valete de Espadas foi um livro que teve fortuna. Não tem nada com realismo mágico. O Valete de Espadas foi um romance do existencialismo cristão. Um romance que teve fortuna. O Valete de Espadas está traduzido em 12 línguas.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Mas muitos acham que foi o romance precursor.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Sim, mas antes disso eu escrevia poesia. Eu faço parte de um grupo que se chama Santa Hermandad de la Orquídea. Somos 6. Há um retrato muito bonito nosso por aqui. Somos 6 rapazes, que nos reunimos pela primeira vez em Buenos Aires, em 1939. Godofredo Siommi, maior poeta da língua espanhola; Efraim Thomas Bó, figura endemoniada, morreu aqui. Napoleão Lopes Filho; eu; Raul Young, que está vivo em uma pequena cidade balneária da Argentina –– eu tenho que ir lá ainda antes de morrer –– e o negro Abdias Nascimento.
Então, escrevíamos poesias. Estávamos envolvidos com política. Eu era um homem de direita, com integralismo, etc. O Godo era Presidente da FUBA, Federação Universitária de Buenos Aires, de esquerda, filho de um dos mais famosos anarquistas argentinos, o velho Nikolai Siommi, que tinha um recorde de 32 travessias de Buenos Aires para Montevidéu, para fugir da polícia. O pai era anarquista. O Godo era de esquerda. O Efraim era do Partido Comunista, candidato a Deputado por Entre Rios, partido comunista. Raul Young era colega da faculdade –– eu, o Abdias e o Napoleão.
Trabalhávamos a poesia com muita seriedade. É uma história longa. Até que um dia chegamos e decidimos a abandonar tudo! não ter mais nada com coisa alguma. O nosso único compromisso era com a obra poética. Iríamos fazer uma obra poética. O que havíamos feito até aquele momento não valia nada! Queimamos tudo, quilos de caderno de poesia ruim, como costumam fazer os adolescentes, na frente de um bar em Buenos Aires, chamado Victória. Por isso, chamou-se El Pacto de Victória. Queimamos tudo e daquele momento em diante escrevemos a consigna, o inventor da ordem Ou Dante ou Nada! uma consigna juvenil. Mantivemos uma fidelidade a isso. Queimamos toda a obra e começamos com a Santa Hermandad de la Orquídea.
Fizemos um pacto, então, de percorrer uma navegação do interior. Andamos no Brasil todo, América Latina e por aí afora. O Godo morreu este ano. Fui à Viña del Mar, onde ele vivia. Era diretor de uma escola de arquitetura fundada pelos poetas, a maior escola de arquitetura do mundo! Antes de morrer, escreveu uma carta:Se tivesse de aprender arquitetura, iria para uma pequena escola no penhasco . Foi uma escola em que fui professor 2 anos e meio. Nessa escola, ensina-se no primeiro ano de Arquitetura os 4 aristotélicos, os 5 diálogos de Platão, e assim por diante. Faz-se 1 mês de extrapauta, aulas de tailleur , fora as aulas curriculares, que são na própria oficina de Arquitetura.
Todo ano, um grupo da escola do último ano, com 80 a 100 alunos, faz o programa chamado Travessia. Este ano foram ao Cabo de Santo Agostinho, ponto extremo do oriente brasileiro. Sempre que vêm aqui, dou-lhes uma aula de 2 horas na praia. Fui aos funerais do Godo, numa cerimônia com 2 mil e tantos estudantes. Fundamos uma cidade em Viña del Mar, la ciudad abierta , onde qualquer artista pode morar. Eu posso ir para lá agora com toda a minha família e ficar morando lá de graça, temos casas, moram vários lá. O funeral foi muito comovente. Construímos um cemitério dentro da cidade e uma ágora grega na cidade, quando eu estava lá.
Conseguimos esse terreno com o Governo do Frei, que nos deu uma praia imensa ao lado de Viña del Mar. Foi uma luta, porque diziam que éramos comunistas, sujeitos esquisitos e estranhos. Depois veio o governo do Allende, que dizia que éramos facistas, etc. O Godo nunca fez outra coisa na vida a não ser poesia. Também se recusou a publicar. Há uns 40 livros, todos edições de 40 ou 50 exemplares tirados na Universidade e distribuídos. Assim também fazia o Kadaf, maior figura da poesia grega moderna. Kadaf nunca editou um livro. Fazia um poema com 50 exemplares, 40 exemplares e mandava para 40, 50 pessoas. Foi o mais importante da literatura grega moderna.
Godo era contra eu editar, mas passei a fazê-lo. O negro Abdias se dedicou exclusivamente ao problema da raça negra, da redenção dos negros brasileiros, dizia que era a missão dele e era realmente uma coisa tão importante. Se os negros do Brasil tivessem consciência da importância desse fato, teriam um retrato do negro Abdias em casa. Lembro-me dos nossos primeiros encontros com o Abdias, que era integralista também. Era do gabiente do Plínio. Ele ia conosco, todos os estudantes integralistas, importantes na época. Ele dizia: Ser negro neste País é duro . Eu dizia: O que é isso, Abdias? Quem está ligando para isso? Ele dizia: Onde você corta o cabelo? Eu dizia: No salão Belas Artes. Era um salão que ficava na Avenida Rio Branco, em frente ao Jóquei Clube. Ele dizia: Eu não corto o cabelo lá . Falei: Então, vamos embora . Fomos lá e o meu barbeiro era um italiano chamado Luigi. Sentei e o Abdias também sentou, esperando vaga. Vagou uma cadeira, chamaram um, chamaram outro. Eu disse: Luigi, este senhor aqui está esperando; ele estava antes deles . Ele me respondeu:Não atendemos pessoa de cor . O quê? Não atendemos pessoa de cor. Fale alto! Não atendemos pessoa de cor. Pessoa de cor, não; não atende negro. Abdias, ele não atende negro aqui. Levantamos e quebramos a barbearia do homem todinha, aqueles espelhos bonitos, aqueles vidros de loções. Paramos na polícia. Perguntei: o nde mais que você não entra, Abdias? Ele dizia que não entrava em lugar algum! Eu não entro no Cassino da Urca, Cassino de Copacabana. Falei que iríamos ao Cassino da Urca. Saí e arranjei vários amigos. Havia um amigo meu, oficial da Marinha, chamado tenente Carvalho, que era um atleta, e outro, que se chamava Jorge Paes Leme, filho do capitão dos portos do Rio, gostava de briga, etc e tal. O outro se chamava Nelson Americano Freire, irmão do General. Disse que iríamos levar o negro no Cassino da Urca. Chegando lá, entramos, os quatro. Era uma porta de vidro rotativa. Quando passamos, eu disse: Cadê o negro? Disse ao porteiro que estava faltando um companheiro nosso. Ele disse: Dr. n ão entram pessoas de cor aqui . Como é?Quebramos a porta de vidro do Cassino da Urca e fomos parar na polícia. E assim por diante.
No Copacabana Palace, veio o Balé da Kathlyn Dougham, um dos maiores balés negros folclóricos do mundo, com passagem paga de Nova Iorque, tudo reservado. Quando chegaram aqui, no Copacabana Palace, e viram aqueles negros, disseram: Desculpem, houve um engano e não há vaga . Foi o maior escândalo. Fomos lá e quebramos o Copacabana Palace. É essa a situação dos negros no Brasil, o Abdias foi um pioneiro. O Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro. Negro não entrava em teatro. Quem fazia papel de negro nos teatros era um sujeito pintado de piche. Era uma coisa horrível. Esse negro dedicou a sua vida a isso.
Tenho um grande respeito a ele, é um guru, um santo da cor. Sacrificou, inclusive, a vida. Foi professor na Universidade. Abdias é catedrático da Universidade do Estado de Nova Iorque. É aposentado. Vive disso, vive de uma aposentadoria que é boa, dá pra viver, porque é em dólar, não é?
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Como o senhor foi tocado pela poesia? Foi no tempo do seminário? Como descobriu a poesia? Como foi esse encontro?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu lhe disse que queimamos quilos de poesia ruim. No seminário, devo ter escrito uns 100 ou 200 cadernos de poesias ruins. Naquela época se estudava Poesis no quinto ano. Então, o sujeito aprendia a escrever poesia metrificada em português, a fazer poesia em metrolatino e em metrogrego. Diziam: fazer hoje uma poesia sobre um incêndio na floresta em metros, em dactil virgiliano. (tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam) e em grego (trecho falado em grego) . Um exercício poético. Então, escrevi quilos de poesia. Era uma vocação que está muito ligada à ingenuidade da juventude brasileira. Todo mundo quer começar sendo poeta.
Você já cometeu seus sonetinhos, não?
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – também…
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Todos nós. Diziam que aquilo não era poesia, mas prosa rimada, prosa metrificada. Poesia é um Dante, poesia é uma metáfora. Saímos lendo, lendo e discutindo 24 horas por dia. Lemos tudo o que se podia ler na época. Eram livros que abriam de Mallarmé, um mestre, Benedetto Croce, mestre da estética moderna, que também teve seus pecados políticos; foi Senador, Deputado, fundador do Partido Liberal, fundador do pensamento liberal da Europa, apesar de ter votado a favor da posse do Mussolini, quando ele fez a marcha sobre Roma.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Benedetto Croce.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Benedetto Croce, pai do liberalismo e da estética moderna. Croce disse que o homem conhece duas formas de conhecimento humano. O conhecimento lógico ou conceitual e o conhecimento mágico ou intuitivo. O conhecimento lógico é o objeto da filosofia, da história onde você adquire o conceito de uma coisa, mas não a coisa em si. A coisa é do conhecimento mágico e intuitivo, é o conhecimento poético. Há uma linguagem do conhecimento mágico e uma linguagem do conhecimento lógico.
Dessa forma, a linguagem da poesia é a metáfora; não é a imagem, não é a comparação. É a metáfora, é a coisa levada além do além, do além de si mesma para chegar ao núcleo, ao caroço da realidade. O conhecimento lógico de uma banana lhe dirá que se trata de uma fruta com forma cilíndrica geralmente, com uma casca mais grossa, com um miolo assim. Isso não é banana, isso é o conceito da banana. Todo conceito, no fundo, é um preconceito. O conceito é uma coisa pessoal. É o conceito que eu faço, que você faz, que ela faz, pode ser fato ou não. Agora, o conhecimento mágico e intuitivo, esse não se explica logicamente, esse lhe dá a coisa propriamente dita.
Então, chegamos à poesia. Há poucos poetas respeitados no mundo. A poesia não ensina nada. O sujeito começa a querer ensinar… Você faz uma poesia engajada, você está fazendo libelos políticos, bons ou maus, mas libelos. Qualquer um pode redigir aquela prosa. A poesia vem da musa, a coisa do Apolo. Aprendemos que é muito ligada à Grécia.
O próprio Goethe, um dia, foi fazer uma romaria ao Convento de São Francisco de Assis e, no caminho, encontrou um templo antigo de Minerva que tapava as Atenéias dos gregos, e ficou lá um mês inteiro. A Grécia nasceu ali, com o pai Homero, nasceu com Hexíodo, quando o homem tomou conhecimento de que existia sobre a terra. Começamos a buscar aquelas fontes todas. Passamos a ler diariamente, horas e horas e horas, Homero inteiro, Hexíodo inteiro, Virgílio inteiro, Dom Quixote inteiro. Goethe sabia de cor Dom Quixote inteiro. E várias outras coisas que são fundamentais ao conhecimento mágico e intuitivo das coisas. Essa é a poesia, porque a poesia não ensina; não queira ensinar nada a ninguém com poesia.
Apolo fundou a Grécia, fundou a Confederação Grega, chamada Anfictiônia , onde tudo era resolvido pelos oráculos da Sibila, na gruta de Apolo. Dormi lá uma noite, porque fui preso de manhã cedo por ter tomado banho nu na fonte de Castalha e havia um soldado grego que me prendeu ; escrevi tudo num dos meus livros. Um dia, um desses capitães gregos, Temístocles, fez uma consulta a Apolo. Antes da batalha, antes de uma eleição, antes de uma luta, antes de uma viagem, ele se consultava com os deuses, na Sibila; chamava-se Sibila porque siciava, através de sibilos. O capitão não entendeu bem e disse: “ O senhor pode me explicar melhor o que o senhor quer dizer com isso?” Então, Apolo disse: “Apolo não ensina, Apolo revela”; a poesia revela as coisas, não ensina; quem quiser que as veja.
Então, a nossa poesia é isso.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O que se destaca na sua obra poética? O que o senhor considera mais importante na sua obra poética?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - É muito difícil você se julgar e falar sobre sua própria obra.
Fiz algumas obras e, em certo momento, tomei a poesia como algo cosmogônica; a poesia funda as coisas, é uma cosmogonia. Uma das frases-mestras da nossa vida é a frase de Hölderlin: (trecho falado em alemão) – “Mas o que permanece é o que os poetas fundam”. A poesia é uma cosmogonia que funda.
Assim, tive a audácia de querer fazer a fundação do Brasil, que foi o primeiro livro de uma trilogia chamado Os peãs . Peãs é o nome dos Cantos de Apolo; eram cantos de amor, cantos eróticos, cantos de guerra, cânticos de dor , paianes , em grego. E comecei uma trilogia chamada País dos Mourões ; era uma história sobre aqueles homens rudes, brutais, ignorantes que fundaram uma terra, fundaram um país, fundaram uma vila, uma cidade, uma casa, matando, morrendo com sangue; tudo se funda penosamente, ninguém faz nada sem muito sangue, sem muito sacrifício. Então, era um livro fundador, País dos Mourões . Mourões eram um dos grupos parentais que foram mortos e mataram, também, os Meros, seus primos.
Depois o segundo volume, esses livros sucederam ao Valete de Espadas , que escrevi na prisão, onde escrevi, primeiro, 10 elegias de perdição, que se chama Cabo das Tormentas . E ainda reeditaria o livro. Depois, cheguei à conclusão de que, ainda ontem, estava nos braços de uma mulher (risos) e que hoje acordei miseravelmente em cima dessa cama de cadeia onde jogaram-me um bule de café sórdido. Que lógica há nisso? Então, comecei a escrever um conto e vi que não há lógica alguma. Por que ontem estava lá e hoje estava aqui? E o livro foi-se desdobrando em 10 ou 12 capítulos, cada dia acordando num lugar diferente sem lógica nenhuma. E não tem lógica nenhuma, porque ontem estava em São Paulo e acordei ouvindo um idiota falar, e daqui vou ouvir um político falar de coisas. Tem lógica isso? Não tem.
Então, Valete de Espadas é um drama da “irresidência” na terra, o homem não reside. Nesse livro, primeiro, a pessoa acorda numa cidade desconhecida, no dia seguinte, acorda num navio; depois, acorda num cassino, acorda num prostíbulo. E é o que acontece; não tem lógica alguma! Estava ontem num mosteiro e hoje estou num prostíbulo. Não há lógica! Não há lógica! É uma mágica. Nós somos manipulados por um poder que joga conosco, como jogamos carta de baralho. Sou um valete de espadas, acordo num cemitério, acordo numa conspiração… O valete é um moço bonito.
Mas, saí do Valete de Espadas para escrever o País dos Mourões, que já é a residência na terra; o homem também reside na terra, também toma posse dela e a cria e a funda.
O segundo livro da trilogia dos Peãs , que começa com País dos Mourões , chama-se Peripécia de Gerardo , que é um canto itinerante onde todos estão procurando o país onde morar, procurando a residência, procurando o chão com o qual se sonha e o qual se deseja. Peripécia, no sentido grego da palavra, vem de “peripípto”, “pípto” significa cair e “peri” é cair em redor de si mesmo. Ou seja, o sujeito cai e vemos uma peripécia.
O terceiro canto, o terceiro livro dos Peãs chama-se Rastro de Apolo , e descobri que era o país de Apolo; Lá é onde se pode estar no seu chão, debaixo do seu céu; é uma relação do homem com seu destino eterno, isto é, com a divindade. Acredito que Deus existe. Escrevi a vida desse santo, um pobre frade ignorante e rezador, uma coisa fabulosa. Comecei com uma história, ingênuo, para contar milagres e outras coisas, que Deus não existe, etc.
Lembro-me de um amigo meu, português, Antonio Valdemar, era membro da Academia de Ciências de Lisboa, que contou que, na juventude, era um sujeito inteiramente ateu militante. Ele foi a uma conferência do Cardeal Dom Nuno, Cardeal Patriarca das Índias. Ele era um rude português dos Açores, que havia sido pescador dos Açores e era um cardeal. Dizem que o Cardeal começou a falar e ele se levantou — tinha vinte e poucos anos —: V.Exa. está aí a ‘falaire’ de Deus, que foi Deus, por que Deus isso… Mas Deus não existe, eu sei que Deus não existe. Por que esse negócio de Deus? O senhor tem alguma prova de que Deus existe? Então, o Cardeal ficou, assim, perplexo e o Valdemar disse que o padrezinho novo que chegou começou a soprar no ouvido dele umas coisas; ele empurrou o padre e disse: Não, meu filho, não sou um homem de letras, fui um seminarista medíocre, nem sei como me ordenei padre, não me lembro mais dessas provas da existência de Deus, de Santo Tomás, das 5 ou 7 provas de Santo Tomás, e também não me interessa . Não ‘senhore, doutore. Eu não tenho nenhuma prova de que Deus existe, agora, o senhor tem alguma de que ele não existe? (Risos.) Então, entramos numa aposta de pascal, Pascal disse: “ existe ou não existe ”. Qual é o negócio para o homem? É um negócio um pouco sórdido, interesseiro. Se existe, o que vou sacrificar? Vou sacrificar 10, 20, 30, 50, 60 anos de vida desafiando essa coisa, jogando contra uma eternidade? E há tantas provas de que Ele existe como de que Ele não existe, e tenho sinais de que Ele existe. Provas, não, sinais. Então, fico com os sinais. A aposta que faço é nos sinais de Deus, presentes.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Recite parte de um poema que o senhor considera mais marcante de sua obra.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - É difícil. Depois dessa trilogia, dediquei-me a um trabalho mais pesado, um trabalho que me levou, inclusive, a um exame histórico de documentos. Na realidade, foi a descoberta do mundo, os portugueses inventaram o mundo, foi a invenção do mar.
Retirei uma frase de Capistrano de Abreu, que disse: O Brasil é uma invenção do mar . É essa costa imensa para onde veio um capitão de 24 anos, irmão do 1º Governador-Geral, Martin Afonso Lopes de Souza, que saiu com uma frota de navio, desde o Maranhão até a Patagônia, desenhando a costa do Brasil, nominando os acidentes da costa, os cabos, as enseadas etc. Então, foi o mar que inventou o Brasil, e os portugueses inventaram o mar. Antes, o mar era aquela bacia mediterrânea, e o português, um povo deste tamanho, passou por toda a costa da África, toda — não é força de expressão! Diga o nome de um país ou de um acidente; os portugueses chegaram lá primeiro. E um príncipe louco, naquele negócio de Sagres, onde temos medo até de andar e de o vento nos carregar, esse homem louco, com silícios, casto, rezando, fazendo penitências e fundando um centro de estudos náuticos, um dos maiores cartógrafos do mundo. Ele navegou o mundo inteiro sem nunca ter navegado uma milha. Mandou o sujeito passar o Cabo Bojador, e o sujeito foi e não passou. Ele disse: Volte até passar , e o sujeito voltou. E ele mandou, afinal, Bartolomeu Dias pegar o Cabo das Tormentas, onde não se podia passar, porque, de acordo com a geografia e a cosmografia da época, ali era o fim do mundo; depois dali, havia abismos infinitos, a pessoa caía. Ali não havia mar nem nada. O sujeito foi, não passou e ele disse: Não volte sem passar . Ele foi, passou e descobriu o caminho para as Índias, pegou o outro lado da África, o Oceano Índico e Moçambique, até as Índias.
Então, foram os portugueses que inventaram o mar, e o mar inventou o Brasil. E resolvi fazer uma epopéia, mas, no mundo moderno não cabe mais uma epopéia. Quem vai fazer uma epopéia? Os grandes críticos do mundo moderno dizem que a epopéia do homem moderno é o romance. E por que não? Parece que a epopéia foi a invenção do mar, é a metáfora do homem descobrindo o mundo e criando o mundo. Há documentos históricos. Mergulhei naquela Torre do Tombo, mergulhei em tudo, passei praticamente 2 anos em Portugal em serviço; não se trata de um livro de história, mas a metáfora da história.
Acho que o livro foi muito importante, foi considerado por certa crítica muito importante. Wilson Martins disse que o que restará da poesia brasileira deste século é a Invenção do Mar . Em Portugal, um sujeito disse o livro reescreveu de novo Os Lusíadas , porque Camões cantou a aventura do mar asiático. Então, a fundação do Brasil está toda ali. As poucas coisas que contei aqui sobre a história do Brasil estão lá. Terminei, evidentemente, na Guerra Holandesa. Não vou fazer história da Monarquia e da Proclamação da República, a coisa que se criou com este negócio de um país, de uma pátria.
Às vezes, as pessoas acham ridícula a palavra pátria, mas não é não. Ela é o nosso chão.
E assim vai. Agora, estou escrevendo a vida de um milagreiro, São Gerardo, as anedotas, os milagres. Gosto muito dos milagreiros. Os dois grandes milagreiros na América foram um frade mulato chamado Martin de Porres, que era irmão leigo, dominicano. Não pôde ser padre porque era mulato e não admitiam mulato nas ordens religiosas. Aqui, o primo do Abdias quis ser franciscano e não pôde, só como irmão leigo. Hoje, está tudo aberto.
Martin de Porres foi um grande milagreiro, no Peru. Certo dia, iam inaugurar um convento. Era um frade ignorante, rezador, fazia milagres a torto e a direito. Iam inaugurar uma sala nova, a sala do capítulo do convento, a sala de reuniões, e iam fazer a festa da cumeeira na casa. Antigamente, se fazia a festa da cumeeira. Hoje, na nossa terra, ainda se faz essa festa da cumeeira. Todo o mundo bebe cachaça, traz sanfona para tocar. O dono da casa parece um rei, um deus. A cumeeira é uma viga que se coloca para sustentar a casa. Então, foram inaugurar a cumeeira, os frades todos, o vice-rei do Peru, todo mundo assistindo. Quando foram colocar a viga, faltaram 3 palmos. O irmão Martin de Porres disse: Irmãzinha, cresça os 3 palmos . E a viga cresceu os 3 palmos. Os historiadores do Peru disseram que era uma lenda, uma coisa sem importância. O importante é que a lenda cria história. A história não existe sem a lenda.
O mais materialista dos pensadores, Marx, fundou sua teoria da luta de classes sobre a lenda de Caim e Abel. Caim era o poder industrial, o sujeito que transformava a criação; Abel, o inocente. Era a luta da indústria e da agricultura. A luta de classes começou com Caim e Abel. É a lenda de Caim e Abel.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O senhor não quer recitar uma poesia?
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - No final, ele poderia pegar o livro dele e ler. Talvez fosse melhor.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – tá bom, tá bom.
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – pega aí um livro meu qualquer!
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – O senhor quer tomar um copo d’água? Quer fazer um lanche?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Hein?
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - quer parar pra fazer um lanche, Dr. Gerardo?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Traz aí uns livros meus!
(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Mas diga, o senhor ia falar sobre a beleza.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Pois é. (ininteligível) perguntou a Paulo: O senhor trabalha em quê? O Paulo disse: Eu trabalho a beleza . Ele disse: Beauty is difficult — a beleza é difícil.
Há pouco tempo fiz um poema, traduzido em 3 ou 4 línguas, sobre o mito da beleza. No Antigo Testamento, o mito da beleza está no livro do profeta Daniel, no episódio de Susana, uma beleza, uma mulher irresistível. Os velhinhos se reuniram lá, para pegá-la no jardim, tomando banho. Era a beleza.
Os averroístas dos séculos XIV, XV, como Augustín Nifo, achavam que a beleza podia acontecer no cânone da forma feminina, da forma de uma mulher. Escolheram uma mulher chamada Joana de Aragão, uma princesa, como cânone da beleza. Beleza realmente, sabe? Eu fiz um livro sobre a beleza chamado Susana , traduzido, também, em 3 ou 4 línguas.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Susana quer dizer o quê, exatamente?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Beleza.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - É a beleza? É uma palavra grega?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não, “Susana” é uma palavra das línguas semíticas. Evidentemente era uma mulher da cidade de Susa, uma susana.
(Falha na gravação.)
“José herdou as terras
João os rios
com seus navios
no Amazonas no São Francisco no Parnaíba
Francisco herdou o engenho
a cana caiana
Manuel herdou os patacões de ouro
Antônio herdou as fazendas de bois
e Pedro a casa-grande
escada de mármore
jacarandás lavrados
outros herdaram os cavalos
arreios estribos de prata
e até Miguel herdou
a cartola a casaca
o relógio e a corrente
de ouro.
Naquele tempo havia amantes francesas e alguém
herdou Jacqueline
e alguém
as pistolas de coldre de madrepérola
e o punhal na bainha de vaqueta.
Eu não herdei nada
fugi para a Cidade de Susa
e raptei
à beira da fonte
uma
Susana.
As terras arderam os rios secaram os navios
afundaram
os patacões? — derreteram —
a escada caiu,
jacarandás se quebraram
os cavalos morreram
rasgou-se a casaca, puiu-se a cartola
parou o relógio sumiu a corrente
e a pistola e punhal morreu Jacqueline num
cabaret de Crateús.
O tempo comeu tudo
Restou a eternidade
teus olhos tua boca
herança minha
Susana.”
Então, a beleza é a única coisa que resta.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Bonito poema!
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Esse é o da beleza?
(Pausa.)
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O Invenção do Mar é a metáfora da nossa história portuguesa e brasileira. Começa com Dom Diniz, que foi realmente o fundador da língua portuguesa. Ele fundou a Universidade de Coimbra. Ele fundou a língua portuguesa política. Em toda a Europa, todas as leis, todos os alvarás, todos os decretos, todas as sentenças de todos os governos — na França, na Espanha, na Alemanha, na Inglaterra, na Itália — eram em latim. Um dia, Dom Diniz decidiu: “As leis de Portugal, os alvarás, os decretos serão feitos na língua do povo português”. Foi o primeiro povo que adotou oficialmente a sua língua. As aulas de todas as universidades da Europa — de Pavia, de Padova, de Heidelberg, de Oxford, de Paris — todas eram em latim. Ele disse: “As aulas da Universidade de Portugal serão dadas na língua do povo português”. Foi o fundador.
E fundou a esquadra portuguesa. Ele foi casado com a mulher mais bela da Europa, Santa Isabel – Rainha Isabel – mulher belíssima que tinha um ciúme mortal dele. Ele era cheio de mulheres, mas apaixonado por ela. Um dia, ele estava na cidade do Porto. O cais estava cheia de barcos. Ele olhou e perguntou: “De onde são esses barcos?” Disseram: “São barcos franceses, de Marselha, e barcos de Liverpool, da Inglaterra”. Ele perguntou: “E portugueses, por que não há?” “Porque não há madeira em Portugal para se fazerem barcos”. Ele saiu dali e, então, plantaram-se os famosos pinhais de Leiria, para se fazerem tábuas para barcos, para que Portugal tivesse uma esquadra. Em 10 anos, começou-se a serrar tábuas para fazer os primeiros barcos portugueses. Foi o sobrinho dele o infante que começou as navegações, com os barcos que ele mandou fazer.
E ele foi poeta por excelência da língua portuguesa, poeta cortesão, das cantigas cortesãs, dos madrigais. Começo com um canto dele:
“Ai flores do verde pinho
ai pinhos da verde rama
coroado das flores do verde pinho
eu não quero este mar — eu quero o outro:
quero o mar das parábolas e elipses
dos cones helicôneos dos abismos
o mar sem fim — o mar
com seus heliotrópios suas ninfas
seus cavalos-marinhos, seus tritões
e seus lobos do mar:
e tu, Pater Poseidon,
com teu tridente em teu palácio de águas.
E era uma vez Diônisos — poeta e rei
e um dia a flor do pinho será tábua
e um dia a tábua será sonho quando
o pinho de novo verde sobre as águas verdes
talhado a enxó
entre as espumas talhar as ondas: — então
o mar libidinoso irá lambendo
as ancas das caravelas redondas.
Ai flores
do verde pinho
ai ramos de Leiria
ai flor dos linhos do Alentejo.
E a flor das velas nesse baile
bailando ao vento cada vez mais longe
cada vez mais perto — Diônisos —
dos sonhos que sonhavam
os olhos de Isabel —
e um dia os pinhos serão galgos
e esses galgos do mar irão galgar
das pupilas do Infante
a latitude e a longitude das lonjuras
ao sal da lágrima — ao sal das águas.
E no chão das águas
ai flores do verde pinho
ai linhos do branco linho:
caminhos dançam sobre o chão de abismo
sobre o chão dançador da esmeralda revolta
a dança da saudade marinheira
cantada nas violas:
ai tábuas que foram verdes
tão tábuas para fragatas
tão tábuas para guitarras.
No mesmo pinho, Luís Vaz de Camões,
cantavam cantos do mar
das partidas não chegadas
dos amores desterrados
pelas váreas do Alentejo
de Teresas e Marias.
E as moças de seios redondos
de Traz-os-Montes, das Beiras de Portugal
gemiam canções de amor:
ai flores do verde pinho
ai pinhos da verde flor:
na flor, na frôa e na fulô de seus aromas:
saudades dos marinheiros.”
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Isso é bonito!
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) – lindo!
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – E vai por aí a fora! o Brasil, em cada cântico… O Padre Manuel da Nóbrega, “Esta terra é uma empresa nossa”. É outra coisa que quero dar aqui.
Hoje, há na literatura latino-americana um escritor poderoso, Gabriel García Márquez. O meu País não é um Macondo, o Brasil não é um Macondo! Custou sangue, suor e lágrimas para fundarmos o País. Isso não é uma brincadeira. Fazer disso uma anedota, um folclore? Não, senhor! Isto não é uma colônia, não é um Macondo!
Aliás, citamos muito sangue, suor e lágrimas. Winston Churchill, na guerra, quando suas ilhas estavam ameaçadas pelo terror do nazismo, fez um famoso discurso. Churchill foi um orador espantoso. Em certo ponto, disse “sangue, suor e lágrimas”. A frase é do Padre Antônio Vieira, no púlpito de uma igreja na Bahia, quando desafiou Deus: “Deixando os holandeses nos invadirem, não nos destes mais do que sangue, suor e lágrimas”.A frase é nossa. Este País foi feito sob sangue, suor e lágrimas. Cem mil portugueses foram comidos pelos índios, assados com mandioca. Quantos índios morreram, não sabemos. O próprio Antônio Vieira pergunta um dia: “Onde estão os milhões de índios?” Calcula-se que havia de 6 a 8 milhões de índios, pelos melhores cálculos. Quantos negros morreram, até antes de chegarem? Em geral, morria metade antes de chegar ao Brasil. Então, fundar o País custou muito a nós. Não se deve levar esses fatos por anedota, por brincadeira.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Não teria sido possível colonizar o Brasil sem os negros.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não, não teria sido possível. Como iam fazer açúcar? Não havia mão-de-obra. O português não tinha mão-de-obra para isso. A mão-de-obra índia era muito duvidosa. Os índios nunca foram dados a esse tipo de trabalho. Os índios brasileiros estavam na idade da pedra lascada. Não eram como os índios, por exemplo, da América. No Peru, havia os incas; no México e na América Central, havia os maias e os astecas, povos que chegaram a um alto ponto de civilização e cultura. No Brasil, os índios estavam na idade da pedra lascada. Os índios não sabiam sequer morar. O primeiro aprendizado do homem sobre a terra é fazer uma casa. Os índios não tinham aldeias, eram nômades: paravam aqui, depredavam a caça e a pesca do local e mudavam para outro local.
Daí a ignorância brasileira, ou essa cultura de “caderno dois”: dizem que os pataxós foram os primeiros índios a ver Cabral. Coisa nenhuma! Os pataxós estão na Bahia há 100 anos; eram índios do Mato Grosso, ou melhor, eram nômades, como todos os demais índios brasileiros. Evidentemente, deram uma contribuição, uma contribuição de sangue. Temos uma população cabocla muito grande, e boa. Foram os portugueses que fizeram dar uma ênfase muito grande a isso.
Meu amigo Darcy Ribeiro, que nunca leu um livro na vida, mas que era um dos sujeitos mais prodigiosamente inteligentes que conheci. Para ele, nossos índios nunca fizeram nada; sua contribuição foi passiva, de sangue.
Quanto à contribuição negra, hoje é vivamente enfatizada. Cito o meu amigo Abdias. Dou razão aos negros: tudo o que fizeram tinham direito de fazer, porque sofreram muito. Um poema famoso de um amigo meu, poeta negro do Haiti, diz que isso seria algo inventado por algum historiador demente. Não é verdade que cassavam sujeitos nas costas da África e os traziam para cá; não é verdade que aqui separavam mães de filhos, pais de filhos, não é verdade que aqui os levavam para leilão em praça pública, onde exibiam seus testículos para provar que eram machos, na hora da venda. São tantas humilhações que só podem ter sido inventados por algum historiador demente.
Mas houve uma grande contribuição. Este País é europóide, queiram ou não. Este país é europóide. Este País é lusóide. Foram os europeus, sobretudo os portugueses, que fizeram este País. Os índios nos deram isso, os negros nos deram aquilo e aquilo outro. Os portugueses nos deram a língua, que é a coisa mais importante, o cabedal mais importante, o potencial mais importante é a língua humana. Nossa pátria é nossa língua, nosso ser é nossa língua, é a nossa alma. Os portugueses nos deram a língua! Os portugueses nos deram, de um modo geral, a religião. Os portugueses nos deram a arte de vestir. Nos vestimos como europeus! nos ensinaram a arte de morar. Nos deram as instituições de direito público. Portanto, a grande contribuição é do europeu. Este País é europóide, queiram ou não. Somos europóides, e não somos africanos e não somos índios. Somos europóides!
E fomos construídos com um sacrifício inaudito: Eu lhe digo: 100 mil portugueses morreram aqui!
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Relativamente aos negros, não eram tanto os capitães de navios ou os traficantes de escravos que traziam os escravos; havia brigas tribais entre os próprios africanos, que leiloavam os derrotados, os vencidos, como escravos nas praças dos povoados africanos.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Na verdade, se houve caça aos negros, houve muito pouca. Realmente, os reguletes africanos vendiam os inimigos por objetos, como pedaços de fumo. Havia preços para os negros e as negras. Eles vendiam os inimigos, para fazer negócio. Os negros foram os primeiros!
Há outra coisa: não foram os portugueses os grandes negociantes. Os portugueses eram os testas-de-ferro dos navios. O negócio era inglês. Cromwell estabeleceu o monopólio do tráfico de negros, que pertencia, portanto, à Coroa Inglesa, ao Parlamento inglês. E os anglo-saxônicos eram muito mais terríveis contra os negros do que nós aqui. Houve crueldade e tudo o mais, não podemos negar nada. Os negros sofreram muito e têm direito a tudo. Não nego nada disso, mas é preciso verificar a situação dos negros aqui. Fez-se a abolição e depois a independência — antes não havia condições, mas nos Estados Unidos a abolição ocorreu mais de sessenta e tantos anos depois da independência. E isso custou uma guerra na qual morreram 800 mil pessoas, em nome dos escravocratas. Os escravocratas fizeram uma guerra para não emancipar os negros. Aqui, como tudo no Brasil, custou a assinatura de uma princesa, com uma pena de ouro.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Dr. Gerardo, vamos sair um pouco desse domínio da poesia e da magia, como o senhor disse, e vamos para um outro domínio por onde o senhor também andou, o da política, um domínio mais lógico, né? Vamos contar também um pouco da sua trajetória.
O senhor saiu da cadeia, depois de 6 anos desse processo penoso, dessa acusação tremenda. O Brasil estava sendo redemocratizado. Getúlio foi afastado do poder. O País voltou à democracia; as instituições eram livres. O que o senhor fez? O que aconteceu com a sua vida?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu saí da prisão quando o País foi democratizado. A primeira coisa era refazer a minha vida, depois de 6 anos de prisão.
A minha mulher morreu uma semana antes de eu sair da prisão e me deixou uma filha. Eu fui tratar de sustentar a família. Procurei emprego aqui e ali, essa coisa toda, mas eu estava, evidentemente, contagiado por um certo vento de liberdade que o País tinha respirado, depois da queda de uma ditadura. O Estado Novo foi uma ditadura terrível, silenciosamente terrível. Vão dizer que não houve aqui campos de concentração! Houve campos de concentração, e eu estive num campo de concentração na Ilha das Flores. Não houve fornos crematórios, como no nazismo, não houve stalinismo, mas houve coisas terríveis. Toda a justiça foi posta de lado. Houve uma euforia de liberdade depois. Eu me entusiasmei com a campanha do Brigadeiro, por exemplo.
Casei-me pouco tempo depois de sair da cadeia. Tinha mulher de família política. O pai era Deputado, depois foi Senador e Ministro. E eu entrei também na política. Fui até Deputado Federal por Alagoas, mas sempre fazendo uma coisa um pouco… um adultério. Não era o meu negócio, mas fiz. Achei que eu poderia dar uma certa contribuição, mas eu não tinha contribuição alguma a dar.
Depois, veio a ditadura militar, e fui para a cadeia de novo. Fugi para o exílio. Fui cassado. Passei dois anos e meio no exílio.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Qual a alegação que eles usaram?
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - O senhor foi cassado pelo AI-5?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não tinha nem acusação, não havia acusação alguma.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor foi cassado pelo AI-5?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Ninguém sabe por que fui cassado. Eu tenho um diploma de cassado, que preguei na parede.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Foi cassado em que ano?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui cassado no AI-5. Eu estava em casa jantando, quando a Lígia Doutel de Andrade ligou: “Acabamos de ser cassados eu, fulano e não sei quem…” Até hoje não se sabe por quê. Eu, por acaso, tenho uma certidão de que fui cassado, porque precisei tirar uma certidão de que não tinha título eleitoral porque estava cassado; então, deram-me a certidão.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor foi para onde?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui para o Chile. Os meus amigos della Santa Hermandad estavam todos lá me esperando. Foi uma farra!
Saí com dificuldade de Brasília. Eu tinha passaporte diplomático, de Deputado e tudo o mais. O General Kruel… Eles me prenderam no primeiro dia da revolução, levaram-me para a Fortaleza de Santa Cruz. Estávamos presos lá eu, o Nelson Werneck Sodré, o Schwein, o Coronel Cerveira, o Neiva Moreira, uma porção de gente. Ficamos lá. A Câmara se declarou em sessão permanente até me soltarem, porque eu tinha imunidades. Então, Castelo mandou soltarem-me.
Fui para Brasília. O riograndino General Kruel, irmão de Amaury Kruel, era o Chefe de Polícia do Governo de Castelo. Procurou meu sogro, que era compadre e sócio dele, e disse: “Barros, vão matar o menino, o senhor aqui, o Gerardo. Um bando de oficiais quer matá-lo”.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Por quê? Porque que eles queriam matá-lo?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu não sei. Havia uma campanha tremenda contra mim. Tinha feito um discurso muito violento no dia em que saí da prisão.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O que o senhor disse nesse discurso que o senhor fez no dia que saiu da prisão?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Denunciei. Cheguei sujo na Câmara, saindo da fortaleza direto para a Câmara.
Primeiro, marquei a minha passagem. Naquele tempo, havia avião para Brasília saindo do Santos Dumont. O Doutel de Andrade, que era líder do partido, disse: “Não vai, senão vão prendê-lo. Marca no Santos Dumont e vai pegar o avião com a gente no Galeão.” Então, fui para o Galeão. O Doutel e meu sogro estavam nesse avião, foram pegar-me.
Cheguei a Brasília e, usando a palavra no Grande Expediente, fiz um discursos de quase duas horas. O Humberto Lucena, até morrer, dizia que aquele tinha sido o maior discurso que ele ouvira na Câmara. Havia um silêncio, não havia zumbido.
Quiseram-me matar — mataram alguns sujeitos. Foi algo terrível. Denunciei a prisão e denunciei tudo. Foi a primeira voz que saiu do fundo das catacumbas para denunciar as prisões de Deputados. A minha foi a primeira voz. Fiquei 15 dias preso. Quando saí, fui para a Câmara e fiz um discurso contando o ocorrido.
Então, o sujeito disse: “ Não fica na casa do Barros” , meu sogro. Fiquei na casa do Paes de Andrade, um sujeito extraordinário. Ele me disse: “Vai para a minha casa. Se morrer, não morre só.” O Paes naquele tempo era bom atirador. Ele saía comigo da casa dele para a Câmara, ia da Câmara para a casa dele, e havia sempre um jipe com oficiais do Exército esperando do lado de fora. O Paes falava: “Não morre um só aqui, não. Se morrer, morrem dois” O Kruel disse que havia um grupo de oficiais que queria matar-me e que seria melhor mandar-me embora.
Comprei uma passagem numa agência que havia no Hotel Nacional. Naquele tempo, o único vôo internacional que partia de Brasília era um vôo que ia para Trinidad e Tobago e, na volta, para o Chile. Comprei a passagem para sair daqui do Rio. À noite, o Kruel foi à casa do Barros: “Barros, esse menino está louco! Se ele for para o Rio, vão prendê-lo lá. Mande-o embarcar aqui, que aqui eu posso botá-lo dentro do avião”. Então, comprei essa passagem.
O Miguel Marcondes, um grande amigo, um sujeito extraordinário, Deputado por Campo Grande, no Mato Grosso, também do PTB e estava metido no “grupo dos 11”, disse: “Você pega um avião com a minha carteira para Campo Grande e depois para Ponta Porã” — a terra dele era Ponta Porã. “De lá você atravessa a rua e está no Paraguai.” Foi o que eu fiz.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Pedro Juan Caballero?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Pedro Juan Caballero. Fui com a carteira de Deputado do Miguel Marcondes, viajei como Miguel. Atravessei para Pedro Juan Caballero direto do aeroporto. Não havia lugar no avião. Lá havia um avião das Linhas Aéreas Paraguaias, mas não havia lugar. Um tenente disse que não havia lugar, o avião era oficial do Paraguai. Eu disse: “Eu tenho um negócio urgente em Assunção, não posso deixar de ir.” Por fim, o tenente respondeu: “Posso deixar o senhor em Villa Concepción”. Pensei: “Sair daqui da fronteira já é um grande negócio”.
Entrei num avião cheio de índios, macacos, papagaios, o diabo! Quando chegamos a Villa Concepción, pedi ao tenente para me dar um lugar e perguntei: “Quanto o senhor quer?” . Puxei um quilo de dinheiro do bolso. O tenente paraguaio olhou e disse que eu poderia viajar na minha cabine. Dei 20 contos a ele, era uma fortuna. Dei 20 contos, viajei na cabine dele para Assunção e, de lá, fui para o Chile. Foi algo medonho.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Como foi esse exílio no Chile?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - De Assunção já liguei para lá. Os meus amigos foram esperar-me no aeroporto de Los Cerrilos, em Santiago, com um avião particular, para levar-me para Viña del Mar. Eu saí do avião da Pan American e fui para Viña del Mar em um aviãozinho particular dos meus amigos. Fiquei lá dois anos e meio.
Era o Governo do Frei, de quem fiquei muito amigo.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O senhor lecionou na universidade?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui professor na Universidade Católica e tinha um lugar também no Serviço Internacional da Promoção Popular. Havia muitos exilados brasileiros lá, e viviam todos muito bem. Todos os exilados brasileiros no Chile estavam trabalhando. Também foram para o Chile outros exilados. Havia 14 ex-Deputados Federais, alguns professores, alguns estudantes.
No Uruguai havia gente mais diversificada. Havia operários e camponeses. A vida dos exilados uruguaios foi um pouco infernizada com disputas. No Chile, éramos uma comunidade classificada e todos estávamos trabalhando. O Governo do Chile deu amparo a todos. Todos que estavam lá tinham emprego.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O Fernando Henrique estava lá nessa época?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Sim, claro. Havia um primo-irmão do Fernando Henrique. Era um médico comunista chamado Hugo Alexandre, meu grande amigo. Ele era solteiro, mais jovem. Ficou morando na minha casa. Eu tinha uma casa boa, grande. Lá conheci o Fernando Henrique, que freqüentou a minha casa.
Serra era estudante. Havia meia dúzia. O Serra era estudante. Fizemos uma caixinha. Quem tomava conta da caixinha era o Adão Pereira Nunes, uma espécie de patriarca dos exilados, um grande homem. Adão era um santo homem, um comunista histórico, um comunista romântico, firme, mas um sujeito de um coração e de uma alma gigantesca. O Adão organizou uma caixinha. Os que estavam trabalhando contribuíam. Eu dava todo mês 50 dólares. Alguns poucos que não tinham trabalho viviam da contribuição da caixinha. Eram poucos. Todos os demais trabalhavam.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Quando o senhor voltou ao Brasil?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu voltei para o Brasil em 1967. Alguns amigos meus, como o Miguel Marcondes, que foi muito importante para mim, disse; “ eu já conversei aqui com o Adauto” , que era Presidente da Câmara, “Você chega aqui e vem direto para a Câmara” . Eu vim.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - E reassumiu?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Reassumi.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Depois de 2 anos?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Depois de 2 anos, reassumi.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - E como foi explicado o afastamento, do ponto de vista institucional e legal?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Pedia-se licença. Voltei e até assisti ao fechamento da Câmara.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor se candidatou novamente? Porque em 67…..
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967 eu fui cassado.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Em 1967?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967, fui cassado.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Então, antes do AI-5?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967 eu era suplente, havia disputado a eleição e fui suplente. Então, cassaram… Cassaram nada, cassaram a suplência!
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor se exilou novamente ou ficou aqui?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu fiquei aqui, trabalhando penosamente. Eu ainda tinha pequenas economias ainda do Chile, eu ganhava mais ou menos bem lá. Então, foi possível viver.
Fui trabalhar no boletim cambial, o “ Peralva” , o João Alberto Leite Barbosa.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Chamavam “besteira cearense”.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O João Alberto, cearense, era um sujeito muito inventivo. Ele tinha um grupo de revistas econômicas, umas 4 ou 5 revistas. O BC era um revista diária. Tirava-se algum holerite. Havia uma revista semanal e outras 4 ou 5 revistas. Fiquei trabalhando lá durante algum tempo. Era possível sobreviver.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Dr. Gerardo, como o senhor vê essa sua experiência dentro da política prata, da política partidária, da política institucional? O que o senhor retira dessa experiência hoje?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Um dia perguntaram isso ao Joyce. Joyce tinha sido militante político na Irlanda. Meteu-se em política até na Itália. Assinou manifestos defendendo Mussolini. Depois de uns tempos, perguntaram a ele sobre política. Ele respondeu: “A política? Não sei se foi um súcubo ou um íncubo que dormiu comigo uma noite, do qual hoje tenho a maior repugnância”. O quadro político brasileiro — eu tenho muitos amigos ainda metidos na política, amigos nossos, que você conhece, mas é um negócio….a gente tem que pensar na tolerância até com eles — a política brasileira é muito pobre!
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Pobre sobretudo de idéias.
(Falha na gravação.)
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - … foi o líder do Goulart no Senado, um líder de poder pessoal junto ao Jango. Havia amizade, afeto, muita intimidade. Estava por dentro das coisas todas; passou pelas mãos dele quase tudo que se possa imaginar.
Já no Governo Juscelino, ele foi Ministro. Eu estive muito na intimidade do poder, e quanto mais a intimidade do poder chega perto de você, você acaba convencendo-se de que está dormindo com o súcubo ou com o íncubo.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - É o demônio, né?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - É terrível.
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - Durante o Governo do João Goulart, o senhor defendeu as reformas?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Defendi as reformas, a reforma agrária, sobretudo. Trabalhei, defendi e apresentei projetos nesse sentido. Fui muito marcado durante o Governo Goulart, muito marcado.
A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - O senhor falou que apresentou projeto de lei referente à reforma agrária.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Apresentei um projeto de lei. Eles não… Apresentei um projeto que acho que podia… A coisa em que o Jango mais esbarrou na reforma agrária, segundo algumas conversas… Diziam: “ O Jango não tem dinheiro para a reforma agrária. Nós precisamos de mais 3 bilhões para poder começar uma reforma agrária”. Eu disse: “Jango, eu tenho uma solução”. Quando eu era menino, lá no Ceará, não havia meio circulante no interior — ainda há pouco estávamos comentando isso com alguns amigos em Crateús. Os comerciantes não tinham dinheiro em Ipueiras, Crateús. Havia apenas mercadorias. Então, os comerciantes passaram a imprimir dinheiro, um dinheiro que se chamava boró: “Pagar-se-á ao portador deste a importância de 10 mil réis no armazém de Raimundo Mourão”. Raimundo Mourão emitia o dinheiro, e pagava-se.
Naturalmente, com o tempo, vários deles quebraram. Dizem que um parente meu quebrou com 600 mil contos de borós. Isso deve ser exagero. Devia haver 60 mil ou 6 mil. Enfim, emitia-se boró, e o boró se fazia circular como dinheiro.
Então, eu disse: “Jango, você emite boró?” Ele perguntou: “O que é boró? Que diabo é boró?” “Eu vou explicar: emite-se um dinheiro, uma moeda que sirva para se pagarem impostos, mas que não vai servir para a importação nem para subsídio de exportação. Então, ela não vai incidir no câmbio. Com esse dinheiro a gente compra terra e faz a reforma agrária”. Mas os doutores lá da Câmara acharam que “a moeda podre contamina a moeda forte” .
Foi uma coisa inventiva, viu? Emitir um dinheiro para…..mas, eu discuti muito.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Como foi essa transição ideológica da direita para a esquerda? Como o senhor mudou?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O que era direita e o que era esquerda? É preciso lembrar-se de que os problemas sociais, os problemas de justiça social… O primeiro sujeito que instituiu no mundo 8 horas de trabalho chamou-se Benito Mussolini. Foi Mussolini que inventou 8 horas de trabalho para o trabalhador, que inventou férias para o trabalhador, que inventou auxílio-família para o trabalhador. Assim, os que eram chamados de direita tinham uma preocupação social muito grande. O partido nazista, na Alemanha, era um partido com preocupações sociais. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era um partido contra o qual estava a alta burguesia, entendeu?. A preocupação social estava muito na mentalidade de toda a minha geração, à esquerda e à direita, e sobretudo na geração católica, que vinha da encíclica Rerum Novarum , de Leão XIII, que suscitou o problema social da Europa, e vinha da bula Quadragesimo Anno, de Pio XI, que se preocupava muito, vinha dos sindicatos católicos fundados na Bélgica.
Eu lia muito isso. No Brasil, a concentração de dinheiro, de poder e a construção de oligarquias se tornaram intoleráveis para qualquer um que contemplasse aquele panorama.
Portanto, a linha entre direita e esquerda era muito próxima. A direita brasileira do meu tempo era profundamente antiamericana, eram contra os americanos. Gustavo Barroso escreveu Brasil, Colônia de Banqueiros , livro ainda hoje é comentado. O Fernando Gasparian, um editor de esquerda, comentou o livro, que denuncia o capitalismo internacional. Era, portanto, uma linha muito tênue.
A diferença maior na época, em 1935, quando começou a agitar-se o problema do socialismo, com a Aliança Nacional Libertadora, era um problema de nacionalismo. Naquela época, a esquerda era internacionalista. Havia o internacionalismo do socialismo, etc., e a direita era profundamente nacionalista. No dia em que entrei para o integralismo, o Tristão me mandou ir ver o Plínio, que estava fazendo um discurso profundo. Ele estava denunciando, dizendo que o País estava vendido, etc. Lembro-me desta frase até hoje: “Porque até a luz que nos alumia é estrangeira”, e apontou para a lâmpada da Light . Fiquei tocado com aquilo!
E o Governo do Jango trouxe as causas nacionalistas. Os integralistas do Rio Grande do Sul elegeram Brizola, Governador naquela época. O integralismo, naquele tempo, no Rio Grande do Sul, tinha um eleitorado que era um fiel de balança, muito dividido entre o PSD, que era a UDN, e o PTB.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O senhor falou que o partido nazista era o partido socialista. Os ideólogos do socialismo e do partido nazista foram expurgados a partir do momento em que o Hitler fez um acordo com os barões do RU .
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Bom, o desenrolar da coisa é uma contingência natural. Tudo é íncubo e súcubo, por esse caminho.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Nós temos sobretudo na política brasileira — e também internacionalmente — alguns casos de artistas que chegam ao poder, como o caso de José Sarney, que é um acadêmico, um escritor, e foi Presidente da República. Há outros Presidentes da República com pendores literários, como Juscelino, que também foi da Academia. Como o senhor vê a convivência entre a arte e a política? É uma convivência possível? Os artistas têm uma contribuição política para dar?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eles que dêem, se quiserem; eu não dou mais! Eu sou muito amigo do Sarney, gosto muito dele. E acho até o Sarney um escritor importante. O romance Dono do Mar é importante, ele sabe disso. Eu me dou muito com ele. Contudo, enfim, eles não têm mais como mudar. Eles entraram nisso. É como um sujeito que convive com uma sogra megera o resto da vida. Ninguém o mandou contrair o casamento. Ele terá que agüentar a sogra; então, ele agüenta a política o resto da vida.
E muitos tiram dela vantagens, lícitas ou ilícitas, ou comodidades, né? Além da comodidade, há os compromissos. Conheço o drama de alguns políticos, coitados, que entram nesse negócio e assumem certos compromissos com as suas regiões, com a sua sociedade, com as suas comunidades, e que não podem mais se afastar dele. Conheço casos assim, que me dão pena. Estão perdendo tempo! Digo-lhes: “Larga essa porcaria aí!”
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Mas o senhor não acha que o empobrecimento da política, que o senhor próprio constatou, deve-se muito a isso? Se a política, além de ser esse tipo de atividade, incorporasse um pouco da arte, ela não estaria num patamar acima, ela não poderia desenvolver-se num outro patamar?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - É muito difícil fazer um julgamento sobre a política brasileira. A coisa mais grave que aconteceu com a política brasileira ao longo dos tempos foi o despreparo cultural do povo brasileiro. Tobias Barreto, no seu tempo, dizia que o Brasil não tem povo, tem público. Ainda hoje, até certo ponto, tem mais público do que povo. Não há consciência popular. O povo brasileiro é despreparado, as lideranças são despreparadas.
E, neste ponto, entra a única coisa que eu debito aos portugueses: eles são refinados colonizadores. Não é sem razão que Portugal foi a última metrópole a se retirar das colônias da África, a última, depois da França e da Inglaterra. Portugal não permitiu no Brasil, como bom colonizador, que se formasse uma geração de ensino superior. Não havia uma escola superior. Criaram apenas uma escola de Medicina, então não se formavam pessoas. Em escolas superiores, estariam formando-se lideranças possíveis e ameaçadoras, a tal ponto que no Brasil a primeira escola superior foi criada depois da Independência. Foi um projeto inepto do Martim Francisco. Tenho a história do projeto da Faculdade reconhecido por Clóvis Bevilácqua, que apresentou o projeto de Martim Francisco: “Haverá duas escolas superiores no Brasil, uma em Recife e Olinda e outra em São Paulo”. Foi fundado o ensino superior sob o pleonasmo do Martim Francisco de Andrada, que era um dos Andrada.
Sabe qual é a mais antiga universidade brasileira? A universidade daquele Estado que até há pouco tempo, antes dessas “Rondônias da vida”, era o mais novo da Federação, o Paraná, que se destacou de São Paulo. A universidade mais antiga do Brasil é a Universidade do Paraná, que é dos anos 30. Não havia universidade. Havia algumas escolas superiores, que se destacavam. O País não tinha uma tradição de formação de consciências culturais, consciências do saber. E a relação entre o saber e o poder é decisiva. O exercício do poder é uma conseqüência do exercício do saber.
Lembro-me de que, certo dia, eu estava nos Estados Unidos, na casa do negro Abdias, que reunia todos os negros americanos, no tempo da Angela Davis, famosa militante negra condenada à morte — não a mataram, mas ela chegou a ser condenada à morte por metralhadora. Estávamos jantando na casa do Abdias, à noite, e a Angela Davis, entusiasmada, disse: “Nós vamos tomar o poder!” Eu disse: “Oh, menina! Tomar o poder aqui nos Estados Unidos? Tomar o poder do Pentágono, do FBI?” Ela disse: “Eles têm o poder porque eles detêm o saber, e as elites americanas estão desertando do saber. Hoje, nas universidades americanas, os filhos dos Rothschild e dos Rockefeller não estudam mais, a não ser as matérias ancilares, como Gerência de Capitais, Administração de Empresas, Sociologia. Eles não chegam às matérias que são o núcleo do saber, como História, Filosofia, Direito, etc”.
Isso é verdade. Essa rebelião das massas, relatada na obra de José Ortega y Gasset, vai começar por aí. As massas estão tomando o saber e, um dia, chegarão ao poder. Estão entrando em colégios e faculdades. Contudo, a faculdade brasileira ainda é muito ruim, a universidade brasileira é a pior do continente, é pior do que a da Bolívia, pois não temos tradição. Eles têm universidades que vêm dos primeiros dias da colônia. As primeiras universidades da América espanhola datam de 1543. A Universidade de Santo Domingo, a Universidad Mayor de San Marcos, o Colégio San Felipe, na Colômbia, Colégio de San Agustín, na Bolívia, o San Carlos, no Chile: todas são grandes universidades.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - San Andrés.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eles têm tradição. Na Bolívia, há professores de Filosofia, conheci alguns. Estive, por exemplo, diante de um professor espanhol salamaqueño . Aqui, o negócio é penoso.
É claro que, no campo da ciência aplicada, temos áreas mais desenvolvidas do que no restante da América Latina. Medicina e Engenharia são exemplo disso. Há centros de excelência de Medicina em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ciência aplicada, pois na área do pensamento puro, não tem! e o que constrói a história é o pensamento puro, os homens que pensam.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor gostaria de falar mais alguma coisa?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não, já falei demais.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Foi bom, foi bom!
A SRA. ENTREVISTADORA ( Ana Maria Lopes de Almeida) - Foi maravilhoso!
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Uma grande aula, né!
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Foi muito bom. Qual é a editora do seu livro Invenção do Mar ?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Você não o tem?
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Não.
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Isso é uma vergonha! Vai levar um.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O Tarcísio, na viagem, veio recitando de cor um poema seu.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Um do País dos Mourões . É da Record?
O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É Record.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Coloca para a equipe de tevê. Não vou precisar não.
O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Não, esse é para você, Tarcísio.
O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Não, vou comprar o livro.
Fim de inverno em Canoas RS
Acabou o invernico/2012
Avenida em frente ao Hospital Veterinário da ULBRA
“Seu Carmo”: o Tradicionalismo busca espaço na política
Em homenagem à Semana Farroupilha publicamos em Setembro de 2011 uma postagem sobre um cidadão canoense que zela pela valorização dos fundamentos tradicionalistas gaúchos.
Carmo Francisco de Souza tem como característica esse apreço pela cultura gaúcha e demonstra isso em suas atitudes cotidianas.
Por isso ficamos satisfeitos em passando pela rua Caramuru, quase esquina 15 de Janeiro, em Canoas (RS) nos deparamos com o desenho que ornamenta a fachada de um prédio ali situado. Impossível confundir-se ante o vasto bigode que caracteriza nosso amigo. Era ele mesmo ali retratado e oferecendo à comunidade canoense sua capacidade, honestidade, sensibilidade social e todos atributos que o fazem ser alvo de grande apreciação por todos quantos o conhecem, como candidato a vereador pelo PPS.
Como se diz em um conhecido site de vendas na Internet quando se conhece o trabalho de alguém: “recomendo para todos”.
Emile Zola, por Getúlio Vargas
Em 1906, a revista estudantil Panthum, da faculdade de Direito de Porto Alegre, recebeu um artigo assinado por um jovem estudante sobre um dos escritores mais populares na província: Emile Zola. No Brasil das primeiras décadas do século XX, o escritor morto em 1902 ainda era famoso e influente nos nossos círculos literários, naturalmente afrancesados e um tanto atrasados em relação às novidades culturais do Velho Continente, que já ensaiava o modernismo enquanto ainda líamos os naturalistas e realistas. Tais círculos eram sobretudo compostos por estudantes e graduados em Direito. O curso então congregava todos os jovens com inclinações humanísticas, ainda que não necessariamente jurídicas. Muitos deles, se vivessem hoje, talvez não optassem pelo Direito: seriam estudantes de Filosofia, de Letras, de História, de Jornalismo ou de algum outro curso da área. Entre estes jovens encontrava-se o autor do ensaio: Getúlio Dorneles Vargas.
Quando digo “estes jovens”, refiro-me especificamente a estes que, sendo estudantes de Direito, não eram necessariamente juristas natos. Segundo o testemunho dos que foram colegas de Getúlio, como João Neves da Fontoura e outros, ele se destacava menos pelo desempenho acadêmico do que pela cultura geral, principalmente literária, e pela habilidade oratória, que faziam dele um estudante extremamente popular entre seus pares.
Transposto para o papel tamanho ofício, “Zola e a crítica” conta cinco páginas e impressiona pela desenvoltura. Getúlio não está lá como diletante, como jovem fã de literatura de 24 anos que resolve falar de seus poetas preferidos para outros jovens fãs de literatura de 24 anos. Está lá como quem quer escrever um artigo a sério. Dialoga com estudiosos como um De Sanctis, um Silvio Romero, um José Veríssimo e um Alcides Maya, demonstrando conhecer, e bem, a fortuna crítica sobre seu objeto de análise; compara a recepção à obra de Zola em sua França natal e no resto do mundo; analisa o clima social, cultural e político do país e relaciona-o à obra; tece comentários sobre o artista e defende-o de seus detratores, citados um a um; e tenta, enfim, reabilitar a escola Naturalista, que já era alvo de ataques no momento em que Getúlio escrevia. É um verdadeiro ensaio de crítica. Mas um ensaio diferente do que estamos acostumados a ler.
Em “Zola e a crítica”, Getúlio nada fala do estilista Zola ou do narrador Zola: nem sequer cita-lhe trechos para análise. Em vez disso, prefere exaltar a capacidade do escritor em perceber o momento histórico: “Ninguém melhor tinha o sentimento da conflagração das massas, e sabia objetivar no romance o movimento das multidões. O arrojo coletivo desses operários individualmente humildes, educados na passividade cega da obediencia,como desagregam de si parcelas de energia, formando essa resultante uniforme, assustadora e irresistível, que se despenha como uma avalanche levando em seu seio uma ameaça de explosão.” Elogia, e muito, o Zola reformador social e artístico - “A França já se não satisfazia mais com o canto dos rouxinóis. Era preciso um reformador, para quebrar a estagnação planimétrica em que se atufara a Arte, talhando novos moldes para a idealização da vida. Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época”.
O leitor mais atento notará que esta última frase - Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época - ficaria muito bem na boca de qualquer partidário de Getúlio. Era isso que Getúlio apresentava ao povo e é isso que seus defensores vêem nele até hoje: o reformador e o crente. Mas um tipo bem peculiar de crente, que não só convivia harmonicamente com o reformador como inclusive lhe dava suporte. A fé do crente Getúlio era a mesma de Zola e de muitos outros de seu tempo: o positivismo. Sob esta pedra Getúlio ergueu sua própria Igreja, adaptando-a às necessidades históricas.
O ensaio completo de Getúlio está aqui.
Entrevista: Thomaz Santos, professor de Direito Internacional do UniRitter
“O professor é um transmissor, um canal de comunicação entre o ´mundo lá fora´ e a cabeça do aluno”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Há algo de cruel na mente de quem faz os currículos dos cursos de Direito no Brasil. Na maioria deles, a disciplina de Direito Internacional é deixada para o final do curso, quando as preocupações com o trabalho de conclusão, a prova da OAB, a formatura e as angústias normais de quem está prestes a entrar no mercado de trabalho prejudicam fortemente o aproveitamento dos estudantes, mais interessados nas questões do aqui e do agora do que nos grandes debates dos assuntos mundiais que a cadeira suscita. Ademais, a disciplina não costuma figurar em muitas questões da prova da OAB ou de concursos em geral – o que não é propriamente um fator de atração a mais para o aluno. O professor da UniRitter, Thomaz Santos, sabe disso. É provável que todos os professores de Direito Internacional do país saibam disso. No entanto, ele faz questão de deixar clara a importância que a matéria tem para a instituição canoense (a UniRitter é uma das poucas instituições a participar de eventos mundiais da área, como o Jessup) e quando perguntado sobre a vida acadêmica, demonstra inequívoco entusiasmo e ressalta não só a importância da disciplina que leciona como a da própria atividade de professor, citando o poema “What Teachers Make”, cujo final resume bem o que ele, Thomaz, com a segurança e o vigor dos vocacionados, pensa ser a sua missão por aqui: “Eu faço a diferença, e vocês?”.
O Timoneiro: Onde nasceu e estudou?
Thomaz Santos: Nasci em Porto Alegre, em 9 de setembro de 1980. Em 1984 a minha mãe, médica e professora (hoje aposentada da UFRGS e atualmente professora na Ulbra/Canoas) foi fazer a pesquisa do doutorado dela no King’s College, em Londres, e como seria, no mínimo, 1 ano, acabou levando a família toda junto: eu, meus dois irmão, meu pai e uma empregada que já está com a ela há mais de 40 anos. Acabou que ficamos por 16 meses, salvo engano meu, morando na cidade de Sevenoaks, relativamente próxima a Londres, e, além de comemorar dois aniversários, acabei sendo alfabetizado em inglês antes mesmo que em português. De certa maneira, acho que foi a partir daí que eu comecei a cultivar um certo “internacionalismo”, ainda que involuntário. Cheguei a estudar numa escola tida como muito boa, Lady Boswell’s, anglicana: http://www.ladyboswells.kent.sch.uk. Não tenho lembranças muito claras, mas é curioso que, por um bom tempo, a primeira imagem que me vinha à cabeça quanto via a letra “A” era uma maçã, por que aprendíamos o alfabeto assim: “a” is for apple, “b” is for bee, “c” is for car, etc. Voltamos ao Brasil no final de 1985. No ano seguinte, fiz o jardim de infância. Em 1987, iniciei o Primeiro Grau no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, em Porto Alegre, e fiquei lá até a 8a Série. Enfim, o meu Primeiro Grau foi, então, em um colégio católico, depois de mais de um ano em uma escola anglicana. Na verdade, não foi tanto uma escolha religiosa: à época, meus pais achavam que o Bom Conselho seria uma boa escola, e um dos meus irmãos também estudava lá. No final de 1994, para minha surpresa, fui informado pelos meus pais de que eles queriam que eu fizesse meu Segundo Grau em uma nova escola, tida como de ótima qualidade, com uma formação boa em humana e exatas. Era o Colégio Leonardo da Vinci (Alfa), dos mesmos donos do Unificado, e que contava com alguns professores do cursinho em seu quadro.
OT:Porquê a escolha pelo Direito?
TS: Bom, no Leonardo tínhamos aulas de Filosofia e Latim, nos dois primeiros anos, e, de uma certa forma, eu me via orientado para as Humanas, sequer cogitando a Medicina, por exemplo, um desejo da minha mãe – que ela nunca impôs aos filhos, é bom frisar. Como eu gostava de ler e escrever (alguns intervalos de recreio no Bom Conselho eram passados na biblioteca, lendo Luis Fernando Veríssimo), tinha certa facilidade para o raciocínio abstrato (meu “paper” de filosofia do Segundo Ano no Leonardo da Vinci, sobre “O Príncipe, de Maquiavel, foi escolhido pelo professor de filosofia entre alguns para uma micro-premiação, em que ganhei um livro do Nietschze). Isso tudo, além do fato de um dos meus irmãos cursar à época Direito na UFRGS, acabou me orientando a estudar para o vestibular no Direito.
OT: E a escolha pelo Direito Internacional? Deveu-se a que?
TS: Depois que eu entrei para o grupo de pesquisa da Professora Cláudia Lima Marques, “Mercosul e Direito do Consumidor”, encontrei diversos colegas com vocação internacionalista, quando, à época, estava mais interessado em filosofia do direito. Acabamos montando uma equipe para, em 2001, participarmos do Phillip C. Jessup International Law Moot Court Competition, uma simulação de um caso perante a Corte Internacional de Justiça da ONU, entre equipes de diversas universidade brasileiras.Na nossa primeira tentativa, vencemos a etapa nacional e em abril de 2001 fomos representar o Brasil na etapa internacional, em Washington. Em julho do mesmo ano, formamos mais um grupo, dessa vez para participar de uma simulação da ONU organizada pela Universidade de Brasília, o AMUN, ou America’s Model United Nations, em que deveríamos representar diplomatas de determinadas nações. Nesse AMUN, representei o Canadá na Comissão de Direitos Humanos da ONU, e, aí, já estava fisgado: o tema dos Direitos Humanos me arrebatou de uma forma incrível, a ponto de, em 2002, e um colega participarmos de uma outra simulação, em Washington, dessa vez simulando um caso perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sim, em 2002, no meu terceiro ano de faculdade, em já havia me definido pelo Direito Internacional Público, participando dessas diversas competições e simulações, com uma ênfase grande nos Direitos Humanos, especialmente depois de descobrir a obra do Antônio Augusto Cançado Trindade, que, para minha sorte e honra, veio a ser meu orientador no mestrado na UnB.
OT: A idéia desde o começo foi seguir a vida acadêmica? Ou pensou em advogar?
TS: Cheguei a estagiar em dois escritórios, durante a faculdade, mas a vocação acadêmica era justamente isso: uma vocação, um chamado, até. Meus pais eram professores (minha mãe na Medicina, meu pai na Administração e depois no Direito da UFRGS), um dos meus irmãos, antes de tornar-se diplomata, foi professor de Relações Internacionais em Brasília. E, desde o colóegio, gostava de primeiro entender as coisas e, depois, tentar explicá-las, para mim e para os outros. Claro, nem sempre os outros gostavam, mas a vocação acadêmica sempre foi a grande tônica na minha formação jurídica.. Fiz o meu mestrado na UnB, em Relações Internacionais. Queria aquele programa por dois motivos: sempre me interessei por questões internacionais “meta-jurídicas”, por assim dizer, e, acima de tudo, queria que o Professor Cançado Trindade fosse o meu orientador. Foi um trabalho sobre o regime de reparações às vítimas de crimes internacionais criado com o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, especialmente o Fundo Fiduciário em Benfício das Vítimas e Seus Familiares. Publiquei a minha dissertação em 2011 pela Sérgio Antonio Fabris Editor, mas não consegui fazer um lançamento adequado por já estar envolvido com a minha tese de doutorado, além das diversas aulas que já estava lecionando. Quanto ao meu doutorado, que terminei agora, mais uma vez sobre um tema do chamado Direito Internacional Penal: a definição do crime de agressão e questão da complementaridade entre os regimes de responsabilidade internacional do Estado e do indivíduo por tal crime. O crime de agressão é o que foi chamado dem Nuremberg de “crime contra a paz”, ou seja, é do crime da guerra, o uso da força armada por um Estado contra outro.
OT: Baseou-se em algum caso concreto, ou em casos concretos de agressão internacional?
TS: Meu trabalho tratou mais da evolução histórica da regulamentação do uso da força armada, em um primeiro momento, e da definição adotada por uma conferência de revisão do Estatuto de Roma ocorrida em 2010, em Kampala, capital da Uganda. Ou seja, pode-se dizer que é uma tese histórico-jurídica. Claro que alguns casos foram mencionados, mas não houve uma análise especifica. Talvez o melhor estudo de caso dos últimos 10 anos seria a invasão do Iraque em 2003. O caso iraquiano contém diversos elementos, assim como outros casos históricos envolvendo os EUA, como as atividades militares e paramilitares contra (e na) Nicarágua, no auge da luta do governo Reagan para conter avanços da esquerda na América Latina
OT: O Direito Internacional é uma disciplina que dialoga com muitas outras áreas das ciências humanas ,não é? Acha necessário o conhecimento delas, ou uma boa formação nelas, para ser um bom internacionalista?
TS: Sem dúvida: História, Filosofia, Sociologia, Ciência Política Relações Internacionais (que, por sua vez, é uma “disciplina multidisciplinar”), enfim, quase todas as áreas e disciplinas das Ciências Humanas são importantes para um conhecimento adequado do Direito Internacional. Na verdade, do ponto de vista acadêmico, foi sempre isso que me atraiu na matéria, a sua multiplicidade e riqueza intelectuais. Hoje, o bom internacionalista que estuda “apenas” Direito (como se fosse pouco) pega apenas uma parte do fenômeno jurídico internacional. Da minha parte, gostaria de me aprofundar mais nas Ciências Econômicas, pois entendo que são a parte mais fraca da minha formação. E, hoje em dia, o Direito do Comércio Internacional é um dos ramos do Direito Internacional que mais tem crescido, tanto do ponto de vista acadêmico quanto prático.
OT:Acha que as faculdades de Direito fornecem isso para o estudante?
TS: No caso do Brasil, um Estado que tem se internacionalizado cada vez mais (“para dentro” e “para fora”), a formação jurídica tradicional poderia ser melhorada, disponibilizando aos estudantes maiores oportunidades de conhecer o Direito Internacional e a realidade a que ele se aplica.
OT: Acha que a carga horária da disciplina nas faculdades é satisfatória, tendo em vista as necessidades existentes?
TS: A UniRitter, por exemplo, estimula muito a participação de seus estudantes no Jessup, tendo já enviado duas equipes para a etapa internacional, por exemplo. Além disso, é uma das poucas instituições que possui uma disciplina de Direitos Humanos no curso de Direito, matéria essa que surge, na prática, do Direito Internacional, com a Declaração Universal de Direitos Humano de 1948, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948. Aliás, é por isso que 10 de dezembro é considarado o Dia Internacional dos Direitos Humanos.A carga horária nunca será suficiente para as necessidade cada matéria, mas creio que o Direito Internacional, por ser muitas vezes visto como um “não-direito”, sofre um pouco mais. Em alguns lugares, a disciplina é empurrada para o final do curso, quando os formandos têm que se preocupar com as duas siglas famigeradas: OAB e TCC.
OT: Falando um pouco da sua área, especificamente: qual é a região do mundo (e os países envolvidos) que representam maior, por assim dizer, “volatilidade” para o surgimento de um conflito internacional de grandes proporções? Falo mais de possibilidades do que de situações concretas já existentes. Mais de perigo de acontecer do que de qualquer outra coisa.
TS: Bom, não há como não pensar na região do Oriente Médio, com diversas possibilidade de conflito: uma intervenção humanitária na Síria, que, provavelmente, seria mais intensa que a ocorrida na Líbia, especialmente por parte da UE; e, como sempre, algo envolvendo a Israel, com qualquer um de seus vizinhos. Na América Latina, não creio haver possibilidade de conflito militar, apenas político, vide a situação recente envolvendo o Paraguai. Na Ásia, a Coreia do Norte é uma “aposta”, mas ela tem consciência que qualquer ação sua sofreria uma resposta imediata, mesmo contando com a “condescendênscia” chinesa.
OT: Uma pergunta sobre um tema do momento: a situação na Síria. Qual a tua avaliação?
TS: Há indícios claros de que o regime do Bashar al-Assad estava cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra civis e rebeldes na Síria. Isso, por si só, justificaria uma ação do Conselho de Segurança da ONU de acordo com o Capítulo VII da Carta da ONU. O problema, acima de tudo, é político: Rússia e China, dois grandes aliados do regime sírio desde os tempos da Guerra Fria, não tem interesse na saída do Assad por questões internacionais e internas. Ou seja, como fazer valer a norma jurídica (dever-ser) em uma realidade política pouco propícia (ser)? Esse é o desafio cotidiano do Direito Internacional, aliás, de todo o Direito. A diferença é que, no Direito Internacional, vê-se de forma mais clara a profunda relação do Direito e da Política, em que um nunca anula completamente o outro, mas sempre tenta conquistar seu espaço diminuindo o do outro. Enfim, no caso da Síria, a saída do Assad vai ocorrer, mas provavelmente mais de acordo com os interesses sino-russos: sem abertura imediata e, dificilmente, com um julgamento das atrocidade cometidas pelo seu regime.
OT: E por último, só pra terminar mesmo: a vida acadêmica vale a pena?
TS: A vida acadêmica vale muito a pena, porque poucas coisas recompensam tanto um professor quanto perceber os momentos em que os alunos têm sua atenção despertada e sua curiosidade atiçada por fatos, teorias, conceitos, enfim, por tudo aquilo que um professor pode e deve transmitir. Por que, no fim das contas, o professor é isso, um transmissor, um canal de comunicação entre o “mundo lá fora” e a cabeça do aluno, até mesmo um catalisador, pois no caso dos melhores alunos ele pode até mesmo acelerar o processo de aprendizado. Enfim, recomendo ler e ver o poema “What Teachers Make”, disponível no YouTube, por exemplo. O verso final, do poeta e professor Taylor Mali: “eu faço a diferença, e vocês?”
C.E. Brock
C.E.Brock é um dos dos maiores ilustradores das obras de Jane Austen. Reproduzimos abaixo algumas de suas ilustrações, incluindo capas de edições antigas das principais obras da autora.
Sugestão da leitora Ana Ramgrab.


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Um grande livro equivocado

O liberal Raymond Aron tinha uma opinião definitiva sobre o marxismo: “Creio não haver doutrina tão grandiosa no equívoco, e tão equívoca na grandeza. Foi por isso que a ela dediquei tantas horas”. Após termos dedicado algumas horas à leitura das 477 páginas de “Em defesa das causas perdidas”, de Slavoj Zizek (Boitempo Editorial, tradução de Maria Beatriz de Medina), podemos dizer dele algo parecido: trata-se de um livro grandioso no equívoco e equívoco na grandeza.
São vários os méritos de Zizek: suas opiniões sobre cinema, arte e literatura (sua crítica cultural, enfim) costumam ser argutas e profundas, seu texto é quase sempre bem humorado e muito bem servido no que respeita à pura informação – Zizek é um pesquisador infatigável e rara é a página sua que não tem citações. Além disso, o livro traz intuições poderosas e análises acertadíssimas sobre o capitalismo, a sociedade pós-moderna, Heidegger e Foucault que passam por cima das preferências políticas do autor ou do leitor.
Estes são os pontos positivos do livro. Embora notáveis, eles enfrentam um pequeno probleminha: o que Zizek ao fim e ao cabo defende é, muito simplesmente e sem grandes delongas (outro grande mérito do livro), o retorno da ditadura do proletariado como alternativa política válida. Várias idéias o impulsionam nesse sentido e o hegelianismo – mais do que o marxismo – combinado com a psicanálise de Jacques Lacan estão no centro de todas elas. Zizek é hegeliano e lacaniano to the core e, como tudo aquilo que é assim, acaba por ser, às vezes, um pouco cansativo. Cansam também as suas loas ao totalitarismo e ao lado “negro” de alguns pensadores, desde o começo proferidas com naturalidade que ignora o absurdo. Não podemos concordar com a proposta de Zizek. Ainda assim, vale a pena dedicar algumas horas a este grande livro equivocado.
Onde encontrar:
Fone: (11) 3875 7250
Os burocratas e a literatura
*

*Desenho por Madame Y
O farmacêutico mineiro Carlos Drummond de Andrade entrou para o serviço público em 1934. Estava cansado da carreira que escolhera na juventude (por imposição paterna) e sobrevivia de bicos como professor de História e redator de jornais, que também não lhe agradavam e roubavam-lhe tempo precioso de seus prazeres pessoais. Tinha 32 anos. Aposentou-se em 1962, aos 60 anos, com três décadas de diligente serviço prestado, condecorações e reconhecimeno. Foi um funcionário exemplar durante todo este tempo. Seria caso do sr. Drummond de Andrade recolher-se à vida privada e, calmamente, sentado em sua cadeira de balanço, acompanhado de um bom chá e da edição mais recente do Correio da Manhã, esperar a inefável chegada da morte. Em vez disso, este senhor nascido na pequena Itabira, típica cidadezinha mineira encravada no meio das montanhas, resolveu dedicar seus dias a um singelo prazer: escrever. Cometeu alguns poemas e chegou até a publicar livros, o senhor Drummond. E um destes poemas dizia respeito justamente à sua atividade profissional e ao que o sr. Drummond sentia por ela:
Escravo de Papelópolis
Oh burocratas, que ódio vos tenho
e se fosse apenas ódio
é ainda o sentimento da vida
que perdi sendo um dos vossos.
O ódio de Drummond aparenta ter sentido. Como um artista pode ser devedor da burocracia? Afinal, nada parece ser mais tolhedor de talentos individuais do que o ambiente de uma repartição pública, onde homens e mulheres enfadados e enfadonhos repetem mecanicamente gestos ensaiados à Chaplin em “Os Tempos Modernos”, trocando apenas a chave de fenda pelo carimbo e a peça de metal pelo documento autenticado. Ali não há espaço para a paixão, para a criação, para a mudança de rumos, de paradigmas, de vidas – para o gênio. Dito isto, fica claro um bom escritor não pode ser burocrata e um bom burocrata, definitivamente, não pode ser escritor. Eis a verdade, nada mais que a verdade. A raiva de Drummond para com o seu ganha-pão fica, assim, plenamente justificada.
Ganhar o pão é sempre um problema para um escritor. Seus livros normalmente vendem pouco e o lucro das vendas escoa por tantos canais intermediários que somente um percentual muito pequeno de tudo chega, de fato, ao seu bolso. A mesquinhez da vida cotidiana fere sua rica e fina sensibilidade: o choro do filho recém-nascido, os puxões de cabelo da filha mais velha no filho mais novo, os queixumes da esposa na hora do jantar, as contas que não páram de chegar, a caspa que teima em cair do cabelo, tudo isso são problemas que demandam aporte financeiro para ser solucionado. Nem todos os escritores são como o peregrino do absoluto León Bloy, para quem a pobreza não significava rigorosamente nada, ou para o flanêur Baudelaire, que transformou as imundas ruelas parisienses onde dormia em matéria de poesia. Alguns escolhem trabalhar e enfrentar o mundo da melhor maneira que podem. Drummond foi corajoso e enfrentou o mundo: escolheu ser burocrata. Assim como seu conterrâneo Murilo Mendes, auxiliar de guarda-livros. Ou do compatriota Machado de Assis. Ou o companheiro de língua Fernando Pessoa. Ou seus contemporâneos Franz Kafka e Georges Bernanos. Ou o velho George Bernard Shaw, de uma geração anterior. Ou Borges. Ou ainda Camilo José Cela, nada menos do que censurador oficial do regime franquista.
A lista de escritores-burocratas se prolongaria ad infinitum e, por isso, nos faz pensar que, talvez, a idéia de que um escritor não possa ser burocrata não seja tão verdadeira assim – ou, se é verdadeira, que o seja de uma maneira um tanto diferente da que inicialmente imaginamos. É uma lista feita quase que só de nomes do século XIX e XX, quase todos da Europa Ocidental e das partes mais evoluídas das Américas. Parece estranho, porque a burocracia, como sabemos, não é um fenômeno nada novo. Já os antigos romanos e egípcios tinham os seus escribas, os seus censores e os seus funcionários públicos de carreira, todos burocratas no melhor sentido do termo. Nenhum deles, contudo, tinha qualquer das garantias dadas Machado de Assis pela Secretaria de Agricultura, a Kafka pela companhia de seguros ou a Drummond, pelo Ministério da Educação. Não eram submetidos a estatutos, não entravam na carreira por concurso, não tinham horário fixo de trabalho, muitas vezes não eram sequer remunerados e eram demitidos, expulsos do país ou até mesmo mortos ao bel prazer do governante por qualquer simples demonstração de incompetência, como um erro gramatical. O burocrata que hoje conhecemos e imaginamos é produto da sociedade racionalizada do século XIX regida pela “dominação legal”, na tipologia de Max Weber, isto é, baseada em um estatuto sancionado e cumprido, onde pouco importa quem está lá mas sim o que faz. O verdadeiro burocrata não pode fazer uso de todos os seus dotes pessoais para fazer um serviço fora de série. O sistema é impessoal e exige o total e absoluto descomprometimento do funcionário para todas as matérias que não são da sua imediata obrigação. Cumprir a sua obrigação sine ira et studio - sem paixão nem entusiasmo – é o seu objetivo máximo.
Weber dizia que a escolha definitiva dos tempos modernos era entre a “burocratização” e o “diletantismo” na administração pública, sendo que a primeira era a claramente mais indicada para as necessidades das sociedades modernas. O diletante – de “dileto”, amado, querido, desejado – deveria ficar de fora, ou dedicar outro horário para as atividades às quais dedicaria todas as suas forças físicas e mentais. Ora, é exatamente aí que entram os escritores-burocratas. Todas as suas preocupações profissionais esgotam-se nas oito horas regulamentares e toda a sua mente está voltada para a execução de trabalhos que lhe exigem o mínimo de imaginação e interesse. Fora disso tudo, está tão livre quanto Pã nos campos da Arcádia. A atividade superior do espírito é equiparada, na sociedade moderna, a mera diversão das horas vagas, como assistir a uma corrida de automóveis, a um jogo de futebol ou à novela das oito, e é assim para a imensa maioria dos romancistas e poetas nascidos a partir do século XIX. O estereótipo do escritor alienado do mundo é, na verdade, muito falso: não se verifica a não ser em casos muito específicos. Figuras caricaturais (mas não autores de caricaturas) como um Rilke, incapaz de se encaixar em qualquer serviço por mais simples que fosse, são raridade absoluta e despertam até mesmo o desprezo dos demais escritores.
O crítico inglês Matthew Arnold (que era inspetor escolar – logo, também um burocrata) dizia que a grande arte cumpriria em nosso tempo o mesmo papel que as religiões cumpriram em outras épocas. O artista “antena da raça” de Pound tornar-se-ia espécie de sacerdote, guia espiritual leigo para um mundo abandonado por todos os deuses nesta época que – novamente segundo Weber – era a primeira desde o alvorecer da humanidade em que a religião havia deixado de ser um tema público para restringir-se somente ao mundo privado de cada um. Hoje já podemos dizer o mesmo da arte, transformada pela primeira vez em diversão de momentos fastidiosos. Talvez seja mais pensando em tudo isso, na condição que o mundo reservara para si, e não tanto no acabrunhante emprego que desempenhava, que Drummond disse que sentia haver perdido sua vida para a burocracia. Uma vida desperdiçada? Nem tanto. Drummond foi bem injusto com as oito horas diárias passadas entre papéis, clips, máquinas de escrever, grampeadores, furadores, livros-caixa, arquivos mortos e vivos e colegas de trabalho. Por mais enjoadas que fossem, foram estas oito horas diárias que lhe permitiram escrever seus poeminhas e deixar sair o artista excepcional que jazia por baixo do funcionário competente. Talvez, encalacrado em outra atividade, seu talento fosse empregado para ser um brilhante advogado, um grande jornalista, um professor de sucesso, um renomado médico ou engenheiro. Estas oito horas o inscreveram na história, dando inclusive sentido a brincadeiras como esta do primeiro parágrafo deste artigo. Drummond deve e muito à burocracia. É a maneira com que o estado escolheu para ser mecenas: dar um emprego público para o escritor comer e dormir e, nas horas vagas, cumprir a sua nobilíssima função de antena da raça, sob as frias garantias de que nem ele, nem o seu colega ao lado fanático por futebol, serão importunados. Até amanhã, na hora em que o expediente recomeça.
Um herdeiro indigno
Se quisermos falar hoje da Magna Carta inglesa de 1215 somos obrigados a qualificá-la para evitarmos confusões Não podemos, simplesmente, dizer “Magna Carta”: é preciso especificar que se trata do documento, assinado pelo rei João Sem Terra, limitando-lhe os poderes de monarca e dando, assim, início ao constitucionalismo tal como hoje o conhecemos. A explicação é necessária – afinal, para nós, em 2012, Magna Carta é o nome dado a toda e qualquer Carta que recebe o nome de Constituição. Passam-se os anos, novas constituições são promulgadas – o Brasil, por exemplo, já teve meia dúzia delas em menos de dois séculos – e, não interessando se são sintéticas ou analíticas, formais ou materiais, dogmáticas ou históricas, promulgadas, outorgadas ou pactuadas, rígidas, semi-rígidas ou flexíveis, elas sempre serão as “Magna Cartas”, ou “Cartas Magnas” da época e do lugar em que aparecem. Comprovam-no os estudantes de Direito, juristas do futuro, que referem-se à “Magna Carta de 1988″ ou “da nossa Carta Magna” quando querem fundamentar suas respostas em provas.
Isso não quer dizer, é claro, que todo o texto original da Magna Carta seja hoje aplicável. Dos seus 63 artigos, escritos em mau latim, a maioria só possui hoje interesse histórico: é o caso do artigo 51, que prescreve o banimento de “todos os arqueiros, seus subalternos, e os seus mercenários que, estrangeiros, contra ele [o reino] lutaram com cavalos e armas.” Há, contudo, aqueles que têm permanente atualidade. Se confiarmos no jurista inglês Lord Denning – que, com a certeza de um inglês quando fala das suas coisas, definiu a Magna Carta como “foundation of the freedom of the individual against the arbitrary authority of the despot”, - devemos então procurar o artigo que melhor exemplifica este espírito, de resto já presente no nome original do documento, “Magna Charta Libertatum”, ou “A Grande Carta das Liberdades”.
Este artigo é o 39. Dispõe ele, em linguagem que quase poderia figurar em qualquer constituição democrática de hoje, que “nenhum homem livre será detido nem preso, nem despojado de seus direitos nem de seus bens, nem declarado fora da lei, nem prejudicada sua posição de qualquer outra forma; tampouco procederemos com força contra ele, nem mandaremos que outrem o faça, a não ser por julgamento legal de seus pares e pela lei do país”. Nestas quatro linhas de pura defesa da liberdade individual contra arbitrariedades encontramos os começos de duas das maiores – e, talvez mesmo, as duas maiores – contribuições inglesas para o direito ocidental: o habeas corpus e o due process of law. Este último aparece em sua forma acabada em uma lei de Eduardo III, datada de 1354, que resume o trecho final do artigo 39. Quanto ao habeas corpus, falando estritamente, data-se sua existência de 1679, quando foi publicado o Habeas Corpus Act pelo parlamento inglês. Se quisermos, podemos ir ainda mais longe e traçar-lhe as origens até o antigo Interdictum de libero homine exhibendo dos romanos. Mero exercício de erudição: foi através da Magna Carta e tradição jurídica inglesa e depois americana que ele ingressou com força no Direito do Ocidente. E quem escreveu a Carta parecia saber que ela estava destinada a tal: Portanto – diz o artigo 63, que encerra o documento - é nossa vontade e firmemente a ordenamos, que a Igreja Inglesa seja livre, e que os homens de nosso reino tenham e conservem todas aquelas liberdades, direitos e concessões, bem e pacificamente, livres e tranqüilamente, em sua plenitude e integridade, para si e para seus herdeiros, de nós e de nossos herdeiros, a todos os respeitos e em todos os lugares, para sempre.
Os ingleses entenderam bem esta lição da Carta. Levaram-na consigo a cada légua marítima das muitas que conquistaram , legitimando inclusive (é forçoso reconhecer) colonialismos e invasões com o discurso de ensinar o que é a liberdade aos povos da Terra. Não escapará ao leitor atento que o legislador da Magna Carta, quando escreveu “de nós e de nossos herdeiros” parecia antever que os ingleses deixariam este legado para seus diletos filhos do outro lado do Atlântico. Estes herdeiros são os americanos. Não só se encarregaram de leva-lo “a todos os lugares” como também de mantê-lo mesmo desaparecido na terra onde nasceu: hoje, o due process of law, em seu sentido original, já não existe na Inglaterra, onde é mais frequente o uso de conceitos como natural justice ou rule of law, ambos com definições muito particulares e diferentes das que normalmente se empregam fora da ilha. Mas existe nos EUA. Neste sentido, e em muitos outros mais, os EUA são – parafraseando a tradicional frase sobre a assimilação cultural dos primeiros colonos ingleses à Irlanda – “more English than the English themselves”. Para sempre, poderiam dizê-lo, com a velha Carta.
Seja pela mão deles – dos herdeiros – seja pela dos pais ingleses, os conceitos de due process of law e o habeas corpus espalharam-se pelo mundo e, embora modificados aqui e ali, mantêm hoje a mesma essência: garantir o funcionamento da justiça e a liberdade de ir, vir e ficar. O caso do Brasil demonstra-o claramente. O “due process of law” é nosso conhecido do artigo 5º, inciso LIV, da Constituição de 1988, onde recebe o nome de “devido processo legal”, sem o qual nenhum ato de autoridade pode ser considerado válido. Já o habeas corpus é nosso conhecido há muito mais tempo: já aparecia no Código de Processo Criminal de 1832 e foi incorporado à lei fundamental brasileira em 1891, quando da promulgação de uma nova Constituição colorida por várias influências norte-americanas – visíveis já no novo nome do país, chamado a partir dali de “República dos Estados Unidos do Brasil”. O instituto do habeas corpus foi uma dessas influências. Hoje, aparece no artigo 5°, inciso LXVIII da nossa Carta Magna, descrito da maneira mais clara possível: ”conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. Tão claro quanto o artigo 648 do Código de Processo Penal, que elenca os casos passíveis de concessão.
Claro e simples: tudo no habeas corpus deve ser desta forma. É natural, tendo em vista que está aí para proteger o direito fundamental da liberdade do cidadão. Tanto é assim que, no Brasil, qualquer um – advogado ou não – pode impetrá-lo, e não é necessária sequer a observância de formalidades: pode ser feito até mesmo à mão. Não deve haver nenhum entrave para quem quiser fazer uso deste remédio, desde que fundado em justas razões. Afinal, é, repetimos, da liberdade que se fala – do valor maior que a Magna Carta deixou para o mundo.
Diante disto, impressiona (e, em igual medida, preocupa), a atitude do governo americano em sancionar o conteúdo do National Defense Authorization Act (NDAA) em 31 de dezembro último – e impressiona e preocupa mais pela atitude do que pelos resultados efetivos desta implantação.
Em si, o NDAA não é nada de novo. Trata-se simplesmente das diretrizes gerais do Departamento de Defesa do governo americano. Normalmente é aprovado nos últimos dias do ano fiscal anterior à sua vigência ou nos primeiros dias do ano vigente e já conta meio século de existência, sem nenhum escândalo público ou indignação nacional contra sua existência. Este, no entanto, traz alguns pontos que suscitaram um e outro na imprensa norte-americana (e que têm sido inexplicavelmente ignorados pela nossa, salvo raríssimas e pontuais exceções).
Primeiro, e antes de tudo, chama à atenção a data em que foi aprovado. Tendo sido escolhido o último dia do ano, onde dá-se mais importância midiática ao Reveillon da Times Square do que às notícias políticas do momento, ficou a impressão de ser um ato feito na calada da noite, às escuras, para não atrair a atenção do público. Dos últimos NDAAs sancionados, todos foram aprovados ou no começo ou no final do ano, mas nenhum justamente no dia 31 de dezembro. Esta informação, em si, não seria capaz de atrair maiores preocupações . O problema está na coordenação dela com o conteúdo da lei.
A íntegra do NDAA de 2012 está disponível aqui. O foco da discussão está no título X, subtítulo D – Counterterrorism, nas seções 1021 e 1022 (página 265 do documento).
A primeira delas dá poderes às Forças Armadas americanas, se autorizadas pela Presidência da República, para prender qualquer pessoa que tenha “planejado, cometido ou apoiado os ataques terroristas de 11 de setembro” ou que tenha “apoiado substancialmente a Al-Qaeda, o Talebã ou forças associadas a eles que estejam atacando os EUA ou seus parceiros de coalizão”, deixando a decisão de interpretar o que significa “dar apoio substancial” – o que pode ir desde conversa de botequim até organização de manifestações pró-Bin Laden – não a algum órgão do Judiciário, mas às Forças Armadas. Além disso, a lei se encarrega da esclarecer que esta prisão poderá ser “sem julgamento”. Até quando? Até o fim das hostilidades. Quais hostilidades? Não especifica, mas supõe-se que seja até o fim da ameaça dos ataques terroristas, momento incerto de um futuro desconhecido, contudo glorioso, em que o terrorismo, esta vil invenção humana, cessará de existir. Em outras palavras, o velho e bom “indefinidamente”.
A seguir, a lei estabelece que cidadãos americanos não estão sujeitos a este tipo de prisão. Apesar de pôr, na prática, qualquer estrangeiro que viva nos EUA em estado permanente de alerta, esta ressalva causará em muitos nativos um certo alívio – afinal, só americanos no estrangeiro e estrangeiros em qualquer lugar, mesmo nos EUA, estão sob o alcance da lei. Aquele fazendeiro lá do interior do Winsconsin, que só conhece o Winsconsin, só gosta do Winsconsin e não quer saber do que existe para além das fronteiras do Winsconsin, acredita que estará a salvo. Acredita, mas está enganado. A seção 1022 estabelece que as Forças Armadas americanas – também, repetimos, se autorizadas pela Presidência da República – podem deter aqueles que são acusados de serem membros ou parte da Al Qaeda ou que tenham participado no planejamento ou consecução de ataques contra os EUA ou seus parceiros de coalizão. E estabelece ainda o seguinte:
(1) UNITED STATES CITIZENS.—The requirement to detain a person in military custody under this section does not extend to citizens of the United States.
(2) LAWFUL RESIDENT ALIENS.—The requirement to detain a person in military custody under this section does not extend to a lawful resident alien of the United States on the basis of conduct taking place within the United States, except to the extent permitted by the Constitution of the United State”
Em outras palavras: a EXIGÊNCIA (“requirement”) para os militares deterem alguém não se estende para os cidadãos americanos (does not extend to citizens of the United States). Veja-se bem: a EXIGÊNCIA. Isto não impede definitivamente ninguém de ser detido de acordo com este artigo – apenas afasta a exigência, mas não a OPÇÃO de fazê-lo. Os militares continuam a ter a opção de realizá-la. E basta para isso a suspeita, consubstanciada na acusação. A única diferença entre o cidadão americano e o estrangeiro neste caso, é que, para este último, a prisão é uma exigência, e para aquele, uma opção das autoridades. A arbitrariedade é a mesma e a ofensa àqueles dois princípios que sempre estiveram no coração do ordenamento jurídico dos Estados Unidos – o due process of law e o habeas corpus -, herdados da Magna Carta e da tradição que ela inaugurou, é claríssima.
Caberia então perguntar em qual altar estes dois princípios basilares são sacrificados. Quem responde é o senador Lindsey Graham, republicano de velha cepa da Carolina do Sul. “We’re facing an enemy, not a common criminal organisation, who will do anything and everything possible to destroy our way of life”. Logo, segundo ele, “It is not unfair to make an American citizen account for the fact that they decided to help Al Qaeda to kill us all and hold them as long as it takes to find intelligence about what may be coming next“. O senador Graham parece ser um homem decidido, de idéias firmes e respostas prontas, como convém a um bom sulista. Gosta das coisas ditas à queima roupa, à moda do velho Sul. Assim ele explica o, por assim dizer, espírito desta lei: “And when they say, ‘I want my lawyer,’ you tell them, ‘Shut up. You don’t get a lawyer”. Não restam mesmo dúvidas, e quase podemos ouvir o seu eleitor médio gritar um entusiasmado “Damn right!” em inconfundível sotaque redneck.
Já o presidente do seu país, Barack Obama, que assinou a lei prefere moderar o tom de voz. Para o sorridente e carismático Obama – cujo perfil este blog já traçou no longínquo 2008, aqui e aqui - estão sendo injustos com o NDAA. Não é bem assim esta história de autoritarismo, de ataque às liberdades democráticas, de sacrifício da constituição, de desrespeito à história americana. O NDAA, segundo Obama, está aí para proteger os cidadãos e, se alguém pensa que ele, Obama, fará mau uso dele, está enganado: o presidente dos Estados Unidos da América garante que não passará por cima da Constituição e dos direitos por ela assegurados. Podem todos ficar sossegados e voltarem à vida normal.
O que causa impressão não é o fato de o senador Graham ter dito tudo isto: é o fato de que o tenha dito sem oposição. Com a notável exceção do congressista Ron Paul, que parece ser o último verdadeiro defensor das liberdades constitucionais na auto-proclamada Terra da Liberdade (e cuja campanha para a presidência chama a atenção, paradoxalmente, pela escandalosa falta de cobertura midiática que lhe dão), nenhum nome relevante do Congresso americano veio a público criticar a lei. Parte da imprensa americana, em especial a mais alternativa e menos lida, tem publicado algumas opiniões contrárias, e uma ou outra organização em defesa dos direitos civis publicou um ou outro manifesto. Também causa impressão o fato de ninguém ter se dado conta que o sr. Obama ao afirmar, mui calmamente, que usaria de forma sábia o disposto no NDAA, tenha agido não como um verdadeiro defensor da democracia, mas sim como um déspota esclarecido assegurando a seu povo, com condescendência gritantemente paternalista, não pretender fazer uso dos imensos poderes que tem em mãos.
Felizmente, recentes decisões da Suprema Corte limitaram consideravelmente o poder de alcance desta lei, percebendo a óbvia inconstitucionalidade ali presente e demonstrando que, ao menos por enquanto, ainda há um Judiciário atuante no país. Infelizmente, contudo, outras movimentações recentes da presidência, como a tentativa de controlar diretamente todas os meios de comunicação do país, apenas confirmam a intenção do governo Obama em rasgar tudo o que, desde a Magna Carta, ingleses, americanos e demais tributários desta tradição vêm recebendo e mantendo, contra vento e maré, intacto e indevassável. A simples existência desta intenção já é suficiente razão de preocupação. Ela deixa claro que bastará um motivo considerado razoável – qualquer um -, um piscar de olhos da oposição, uma guarda baixa, uma desatenção qualquer, para que a intenção se transforme em alguma ação governamental concreta.
Quando Obama, no começo de 2009, pôs a mão sobre a Bíblia e jurou proteger a Constituição norte-americana, inscreveu-se na tradição que criou esta Constituição e pôs-se , como todo presidente de sua nação, na condição de herdeiro desta mesma tradição. Ser herdeiro exige responsabilidades. Em nosso Direito Civil, o faltar a estas responsabilidades é motivo de exclusão da herança, recebendo o faltoso um altissonante e desonroso epíteto consagrado pela nossa doutrina há mais de um século: o de herdeiro indigno. Assim como o mau filho, o mau neto, o mau descendente, o sr. Obama, ao faltar com a tradição que o pôs na Casa Branca, revelou-se um herdeiro indigno no pleno sentido da palavra – e que não haja nos EUA forças políticas a lhe apontar a indignidade mostra que, para azar dos norte-americanos, ele não é o único em seu país qualificado para receber este triste título.
Programa “Diálogo” – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira – n.4
Programa Diálogo, com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembell Boeira. Tema: As cosmovisões políticas em Dostoievski e T.S.Eliot


























