Entrevista: Antonio Prestes, professor do Uniritter “O advogado precisa encarar o Direito como uma religião”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
A carreira do professor Antônio Prestes dentro da Uniritter de Canoas traz um detalhe curioso. Advogado criminalista formado na PUC, assumiu a cadeira de Prática Penal, sem nunca ter dado uma só aula em sua vida. Imaginava ele que não iria durar mais do que um semestre. Pois bem: em junho, o professor Prestes – como é conhecido na faculdade – completará 20 anos de cátedra dentro da Uniritter, tornando-se um dos mais antigos integrantes da instituição canoense e um dos professores mais populares entre os alunos – segundo ele mesmo, desde que ingressou na Ritter, nunca deixou de ser escolhido como paraninfo de uma turma sua. Nesta entrevista que segue, professor Prestes fala de sua escolha pelas carreiras de advogado e professor, das particularidades da disciplina que ministra – o Direito Penal – e do prazer em dar aulas e advogar.
O Timoneiro: Onde nasceu? Quando veio para a Região Metropolitana?
Antônio Prestes: Nasci em Jaguari, no interior do Rio Grande do Sul. Perdi minha mãe quando eu tinha 9 meses e fui criado por um casal que residia no Capão do Cipó, na época segundo Distrito de Santiago e hoje município. Aos 18 anos, fui servir ao Exército, onde fui promovido a Cabo. Depois fiz o Curso de Sargento no Rio de Janeiro em 1970 e fui classificadoem Bento Gonçalves (RS), onde permaneci por 5 anos e, em 1975, vim para Porto Alegre, onde estou até hoje. Em 1976 iniciei o curso de Direito na PUC, formei-me em 1981 – havia-me reformado no Exército – abandonei a carreira e segui o Direito.
OT: Como e porque escolheu a carreira jurídica?
AP: Escolhi o Direito por ser uma ciência social, dinâmica, elástica, onde o operador do Direito pode expor suas ideias e lutar pelo maior bem do ser humano: a Liberdade. Dizem que é a vida o maior bem, mas pergunto: de que adianta a vida, sem liberdade? Além disso, alguns amigos meus me aconselharam a carreira jurídica, achavam que eu levava jeito e que eu, sendo advogado, poderia ser mais útil, uma vez que eu sempre estava questionando os porquês desta sociedade injusta e desigual.
OT: Como se deu a escolha pelo Direito Penal?
AP: A escolha pelo Direito Penal foi uma espécie de “amor à primeira vista”. Eu tinha um colega de aula que era Agente Penitenciário e disse que havia muita gente sem condições de pagar advogados. Vi, ali, uma maneira de auxiliar os menos favorecidos. Fiz mais de 400 júris gratuitamente, nomeado pelo Juiz para defender réus pobres, o que faço até hoje. Quanto mais atuava no Tribunal do Júri mais eu acreditava que era ali o lugar para expor minhas ideias, sustentar minhas teses e, por muitas e muitas vezes, sair vencedor. Aquilo se foi tornando uma paixão. A cada julgamento eu sentia o prazer do dever cumprido. Para mim, a defesa era – e continua sendo – algo ilimitado. Com a Constituição de 88, trazendo em seu artigo 5º, Inciso XXXVIII, letra ‘d’, o princípio da plenitude de defesa, aí sim, percebi que estava no caminho certo e pude gritar nos Tribunais da capital, interior e fora do Estado o que significa o termo “inocência”, “justiça” e “liberdade”.
OT: É grande o número de alunos que se apaixona pela disciplina de Direito Penal. Qual é, em sua opinião, a razão para isso?
AP: O aluno quando ingressa na Faculdade de Direito imediatamente apaixona-se pelo Direito Penal. Depois, com o passar do tempo, passa a gostar mais de Direito Civil e acaba ‘casando’ com Direito do Trabalho e outros ramos do Direito. Infelizmente as Faculdades não dedicam maiores espaços à área criminal. Em Canoas, onde leciono desde 1992, fui o primeiro professor a levar o Júri Popular para dentro de uma Faculdade (Ritter dos Reis). Era um sonho do Fundador da Instituição, o prof. Dr. Romeu Ritter dos Reis. Realizamos vários julgamentos enquanto eu era Orientador no SAJUIR (Serviço de Assistência Judiciária Gratuita do Uniritter). Isso incentivava os alunos. Hoje, orgulho-me de ver atuando na área criminal, vários pupilos meus e que dizem que eu fui o incentivador. Isso não tem preço. Tenho juízes, promotores, delegados, defensores públicos que foram meus alunos. Fico extremamente feliz com isso.
OT: Como tornou-se professor?
AP: Em 1992, um professor da Ritter pediu demissão. Precisavam de um substituto. O coordenador Paulo Simões pediu-me que desse umas aulas até arranjar outro. Respondi que não tinha a menor queda para lecionar. Ele insistiu e fui ter uma entrevista com o Dr. Romeu. Lá, uma colega que lecionava na Ritter, ao ver-me,começou a falar sobre meus júris e que adorava meu trabalho. Relatou três ou quatro casos e o Dr. Romeu, que pacientemente escutava, perguntou a soma de anos de prisão. A minha colega disse que todos haviam sido absolvidos. Ele levantou, apanhou a pasta no escaninho e disse que não precisava entrevista e que no outro dia eu assumisse a cadeira de prática processual penal. No próximo dia 6 de junho completarei 20 anos na Ritter.
OT: Já pensava em ser professor antes de ter sido contratado pela Ritter?
AP: Jamais imaginei que um dia fosse professor. Imaginava que fosse difícil convencer uma turma de alunos e, ademais, não possuía didática, nunca freqüentei uma aula de pedagogia, por isso nem pensava em ser professor. Mas hoje amo minha profissão. Hoje, dou palestras nas Faculdades do interior e, em março, fui convidado para a Aula Magna na Faculdade Anhanguera de Pelotas, onde fui aplaudido de pé, pela segunda vez, então isso me fortalece e faz-me ver que tudo é possível quando desenvolvemos uma profissão com denodo e muito amor.
OT: Nesses 20 anos de carreira, percebe algum tipo de mudança no perfil dos alunos?
AP: Claro que os alunos de hoje são mais atilados, apreendem com mais facilidades, têm a ajuda da Internet onde tudo fica fácil, a pesquisa, os conceitos, as transformações que o Direito sofre no dia-a-dia, etc. Mas por outro lado, em razão da violência, é bem mais difícil convencê-los da inocência de um acusado. E mais, temos apenas 3 semestres de Direito Penal, muito pouco para trazê-los à realidade. Mesmo assim, ao final do meu semestre eles vêem o Direito Penal com “melhores olhos”, como se diz.
OT: O senhor é muito frequentemente convidado para ser paraninfo de turmas. Poderia comentar um pouco este fato, por favor?
AP: Olha desde 1992, quando ingressei na Ritter, já no primeiro semestre fui homenageado e, graças a Deus, continuo sendo. Ontem (dia 30 de abril), fui chamado à Ritter para uma reunião, ao chegar lá, era um ‘apitaço’, para comunicar os professores homenageados e eu era um deles. E veja que leciono no oitavo semestre, o que quer dizer que no décimo poderiam nem lembrar mais de mim. Mas, felizmente, acho que deixo alguma marca, alguma recordação boa. Digo a eles que eu não ensino apenas o Direito, mas outras leis muito importantes: a lei da vida, a lei do retorno, a lei da causa e efeito e outras. Há alunos que no oitavo semestre não sabem o que é ser solidário. Daí, convoco-os a conhecerem e ajudarem as Instituições, para que, quando forem Juízes, Promotores, Delegados, saibam que muitos acusados saem de um meio onde o Estado fez-se ausento todo o tempo e que, agora, após um episódio, este mesmo Estado omisso, quer cobrar dele o que a ele não ofereceu.
OT: Para finalizar, que dicas daria para um recém-formado que deseja seguir a carreira de advogado?
AP: Eu diria que seguissem os Dez Mandamentos do Advogado, de Edward John Couture. E mais, que encarem a advocacia como uma religião. O advogado precisa encarar o Direito como uma religião. Agindo com responsabilidade, como se médicos fossem. Na Medicina, o paciente chega, recebe a anestesia e, dali para a frente, sua vida depende, exclusivamente, do trabalho do profissional. No Direito, o cliente chega, conta sua história, assina a procuração e, doravante, sua liberdade depende exclusivamente da astúcia, da responsabilidade, do trabalho sério do advogado. Aconselho ser leal (que é um dos Mandamentos do Advogado) e jamais mentir ao cliente ou dizer que a causa é fácil. Não existem causas fáceis. Acima de tudo, o advogado deve amar a profissão – o Décimo Mandamento do Advogado nos comanda a fazer isso, a ponto de, se um dia, seu filho pedir uma orientação a qual profissão seguir, considere uma honra aconselhá-lo que seja advogado.
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Stuart Pearce completa 50 anos
Quem acompanhava futebol nos anos 90 vai lembrar desse ótimo lateral-esquerdo inglês.
No seu auge, Stuart Pearce chegou a ser considerado um dos melhores laterais esquerdos do mundo, junto com o alemão Andreas Brehme (esse provavelmente era o melhor do mundo até a chegada do Roberto Carlos) e Paolo Maldini. Os outros dois tiveram carreiras muito mais exitosas por terem jogados em clubes mais fortes e em seleções mais competitivas: fora a ótima Inglaterra da copa de 90, Pearce nunca tomou parte em times com chance real de disputar titulos. Jogou por 13 anos seguidos no seu querido Nottingham Forest num momento em que o campeonato inglês era considerado um torneio de segunda linha na Europa e os principais jogadores do país acabavam por migrar para mercados mais atrativos. Apesar das numerosas ofertas (em especial após a Copa de 1990, onde foi escolhido um dos melhores do torneio em sua posição), Pearce nunca deixou seu país e seu clube. Aliás, não chegou a jogar na badalada Premier League que hoje conhecemos: a Liga Inglesa em sua época era disputada em campos esburacados, gramados mal cuidados e estádios acanhados e perigosíssimos, onde os grandes da Europa continental tinham medo de ir jogar.
Seu estilo de jogo era uma espécie de símbolo da época e do lugar de onde veio. À semelhança do nosso Branco (outro dos grandes laterais daquela época), era um excelente marcador, ia à frente em velocidade, tinha um cruzamento perfeito e um chute muito forte de perna esquerda. Outra característica sua era a dedicação em campo: jogava com tanta garra e empenho que ganhou o apelido de “Psycho” dos torcedores ingleses, que podem perdoar a falta de qualidade técnica de seus jogadores (na maior parte das vezes, não têm muita a saída a não ser perdoar…) mas nunca a falta de vontade de ganhar.
Hoje treinador da seleção de futebol inglesa, Stuart Pearce foi um dos últimos remanescentes, junto com uns poucos outros, do futebol pré-moderno. Sua lembrança neste blog é, também, a lembrança de um outro tempo dentro do futebol – e não só.
Duas entrevistas de Otto Maria Carpeaux, o livre atirador
A página Tiro de Letra prestou um grande serviço ao leitor brasileiro ao disponibilizar online duas antigas entrevistas de Otto Maria Carpeaux. A primeira, de 1949, foi originalmente publicada na “Revista do Globo”, do Rio de Janeiro, e a segunda, de 1976, saiu na revista “José”, também do Rio de Janeiro. Nelas, Carpeaux fala de sua formação intelectual, da Viena de sua juventude, da crítica brasileira e estrangeira, de vários autores, de seus primeiros livros (publicados ainda na Europa), do fascismo e do nazismo e de muitos outros assuntos. Chega a fazer graça com algumas impertinências dos condutores da segunda entrevista, sem, entretanto, nunca perder a elegância e o bom humor característicos.
Fizemos abaixo uma pequena seleção de trechos das duas, que poderia ser muito maior e, mesmo assim, jamais dispensaria a leitura integral de ambas. São trechos que, datando de muitas décadas, revelam surpreendente interesse e atualidade para o Brasil de hoje. Há, entretanto, um momento que, mais do que qualquer outro, deve chamar a atenção daqueles que conhecem e admiram a obra de Carpeaux:
“Não sou crítico profissional, antes livre atirador, sem obrigação alguma de escrever sobre tudo.”
Se Carpeaux tiver razão – e, a nosso ver, não tem – cabe uma pergunta: o que sobra para o resto?
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Que diferença sentiu ao chegar (ao Brasil)? Digo, de consciência política?
Diferença? No Brasil quase não encontrei gente de direita. Na Europa havia, então uma grande maioria de intelectuais direitistas.
(…) Carpeaux, você já escreveu que sente uma diferença, não na criação, mas na crítica, entre a década de sessenta e o ambiente que encontrou ao chegar aqui em 1939.
Nisso, a diferença é enorme. Entre o Rio de 1945 e o de hoje, a diferença de compreensão crítica é quase incomensurável, no sentido de uma elevação de nível. Mas não quanto à manifestação literária. Nesse ponto, o Brasil de hoje é inferior ao de 45. Pense no Estado Novo: a literatura brasileira era a de Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Graciliano e outros. E hoje? A diferença é grande. Naquela época havia uma literatura brasileira. Hoje há talvez um número maior de poetas, ficcionistas e ensaístas de bastante talento. Mas não existe uma literatura, um corpus, neste momento.
(…)
Além desse aspecto que chamo de método poético…
Diga métodos, no plural. Quando escrevo sobre Zola, por exemplo, não falo de aspectos psicológicos, que inexistem nele.
Evidente. Quando você fala de Shakespeare…
Aí, é diferente. Há um método específico para cada obra de Shakespeare!
Há um antiprofissionalismo crítico na sua obra muito peculiar. É um aspecto documental que deve estar ligado à sua atividade de jornalista. Que diz disso?
Você falou de minha atividade de ensaísta, crítico, etc. E agora fala do jornalista. Para mim, minha atividade literária engloba-se na atividade de jornalista. O que sou, no fundo, é só isso. Não ignoro que a qualificação de jornalista não é das mais bem vistas. Quando se diz de alguém “Esse é jornalista”, a impressão é sempre de que isso é uma atividade inferior, etc. Mas me considero, globalmente, em primeira linha,um jornalista. Meus ensaios e artigos são parte da minha atividade jornalística.
No sentido de Leopoldo Alas,”Clarín”, por exemplo?
Clarín, não. Fora seus extraordinários romances, ele era uma espécie de palhaço. Divertir os leitores não me interessa
Você citaria que exemplos?
Citaria outros nomes. Mas receio que digam: “Vejam só com quem ele se compara!”. Só quero dizer que jornalistas no meu sentido foram também René Chateaubriand, Lutero, os profetas do Velho Testamento. Do novo Testamento há talvez o maior jornalista da história, o apóstolo São Paulo. Ninguém entre nós pode se comparar a eles. Mas isso é um exemplo do que é jornalismo no meu sentido.
Sendo assim, Carpeaux, quer dizer que, nesse sentido, o jornalismo acabou quando apareceu o jornal?
Não acabou. Porque jornalismo não é só o que se redige para o jornal. É qualquer atividade dirigida aos outros e tomando como ponto de partida a atualidade. Isso é o verdadeiro jornalismo.
Lord C e Madame Y – Formatura em Direito
Nossos integrantes Lord C e Madame Y colaram grau em Direito no dia 19 de janeiro do corrente ano .
A cerimônia de Colação de Grau da Turma 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis foi realizada na Centro de Eventos da FIERGS.
A foto que agora publicamos registra um dos momentos daquela solenidade.
Madame Y, autora de algumas das mais populares ilustrações desse blog e responsável por posts sobre artes e o Grêmio, destinatário de seu amor incondicional, foi aprovada no 6º Exame de Ordem da OAB.
Madame Y acena para seus fãs, ao lado do circunspecto Lord C.
A gremista Madame Y ao lado de Tarciso um dos maiores ídolos dos tricolores
Os irmãos Lord C e Madame Y
Os irmãos Miss LouLou, Madame Y e FRules integrantes deste blog
Sala de Albert Einstein
Foto da sala de Albert Einstein na Universidade de Princeton tirada no dia de sua morte – 18 de abril de 1955
Assange na TV
Fonte: Terra.
O novo programa de entrevistas do fundador do WikiLeaks Julian Assange, The World Tomorrow, estreará na próxima terça-feira na rede de televisão russa pró-Kremlim RT e na internet, anunciou nesta sexta-feira o site especializado em vazamento de informações.
Assange, 40 anos, gravou durante os dois últimos meses 12 episódios de 26 minutos deste programa na Inglaterra, onde vive praticamente recluso há 500 dias à espera de uma decisão sobre sua extradição à Suécia, país que o requer para interrogá-lo por quatro supostos crimes sexuais.
O WikiLeaks não informou quais serão os convidados de “The World Tomorrow”, mas afirmou que o ex-hacker australiano entrevistou “algumas das pessoas mais interessantes e polêmicas da atualidade, entre elas “políticos, revolucionários, intelectuais, artistas e visionários”.
Assange afirmou que a força do programa reside em seu “tom franco e irreverente”. “Meu próprio trabalho com o WikiLeaks não se pode dizer que tenha facilitado minha vida”, disse no comunicado, “mas nos forneceu uma plataforma para divulgar ideias para mudar o mundo”.
O programa, que terá uma periodicidade semanal, será divulgado na RT, uma rede multilíngue lançada pela Rússia em 2005, em inglês, espanhol e árabe a partir de terça-feira às 10h GMT (07h de Brasília). As entrevistas também estarão disponíveis na internet.
Primeiro programa:
Quando a Páscoa chega ao Sul
O monge anglo-saxão Beda, o Venerável (672-735) , talvez tenha sido o primeiro representante daquela figura, hoje clássica, do jesuíta perdido entre antropófagos. Homem cultíssimo, versado em latim, grego e hebraico, intérprete aprofundado das Escrituras e interessado em temas tão díspares quanto astronomia, retórica e história, vivia numa terra que muito pouco tinha a ver com seu espírito refinado. Guardava nisso semelhanças com outros homens de letras da Igreja que, por circunstâncias da vocação que escolheram, tiveram de abandonar os altos círculos intelectuais e embrenhar-se em matas e montanhas a fim de levar a Palavra aos que não A conheciam. A diferença era que, quando via aqueles seres primitivos, adoradores de divindades da natureza, vivendo nas matas em quase comunhão com os bichos e as árvores, Beda via não homens nus do outro lado do oceano que ele tinha vindo civilizar e que com ele nada tinham a ver. Via o seu próprio povo, os anglo-saxões, habitantes de um país atrasado e esquecido do Norte da Europa chamado Anglelande – um país que, hoje, atende pelo nome de Inglaterra.
Para qualquer outro na mesma condição seria fácil lamentar da sorte. Beda nunca saiu da sua ilha fria cercada de brumas, mas é inegável seu mundo pessoal era outro. Ainda que tivesse os mesmos cabelos louros, olhos azuis e força física de seus compatriotas, seu coração estava nas margens do Mediterrâneo, o mesmo mar que banhou as areias da Grécia de Aristóteles e Platão, da Itália de Virgílio e Cícero e da Palestina de Jesus Cristo. Mas aos homens do cristianismo antigo não eram dados os confortos da lamúria e da queixa. Imbuído do melhor espírito beneditino do ora et labora, dedicou-se ao estudo dos costumes e das religiões daquele povo que era, a um tempo, o seu povo e o povo que deveria converter.
Um dos interesses centrais de Beda era a Páscoa. Esta foi uma das obsessões da Igreja durante a Idade Média, dando vazão a debates duríssimos onde ele próprio tomou parte com o tratado De temporum ratione, “A contagem do tempo”. Ali Beda descreve a Eosturmonath , o mês dedicado Eóster, deusa anglo-saxônica ligada à fertilidade e ao nascer do sol, que iniciava durante os começos da primavera do Hemisfério do Norte. Ela inicia em 21 de março e é particularmente importante no Norte da Europa, onde as durezas do clima condicionam fortemente a vida dos homens. Durante o inverno, a comida é escassa, as noites são longas, o sol pouco aparece e a neve cobre os campos, matando o gado, as plantas e tudo o mais que vive, inclusive os homens. A primavera chega e a vida recomeça: o sol aparece por mais tempo, a água já não é gelo e já não é preciso estocar alimentos: basta colher. Tudo o que estava morto revive: ressuscita.
A imagem de Eóster – também conhecida em outros povos germânicos, chamada por uns de Ostara, por outros de Auster – é representada por uma mulher com um ovo em sua mão e um coelho, símbolo da fertilidade, em sua volta. E os anglo-saxões logo perceberam que aquele Jesus Cristo que lhes era apresentado ressuscitou na mesma época. Perceberam também que ele, assim como Eóster, trazia alegria onde chegava, os mortos retornavam à vida, da água fazia o vinho e multiplicava pães: era a “luz do mundo”. A identificação foi imediata. Observador atento, Beda anotou: “Agora, os ingleses designam a época de Páscoa pelo seu nome, chamando às alegrias do novo rito com o nome consagrado pelas velhas crenças”. As velhas crenças seriam substituídas pela Boa Nova – o “Evangelion”, em grego – e a velha Eóster, pelo filho de Deus. Mas seu nome, como disse Beda, permaneceu, como os ovos que carregava consigo e o coelho que corria à sua volta, devidamente abençoados pelo cajado dos antigos padres da Igreja. Assim, a ressurreição do Senhor passou a ser, para os primeiros ingleses, o mesmo que a ressurreição de toda a vida.
Deusa Eastra
Para quem vive no lado Sul do mundo talvez isso não faça tanto sentido. Para começar, em nossos idiomas latinos o nome desta época do ano tem outra origem: é o hebraico “Pessach”, que significa “passagem”, e está ligada originalmente à libertação dos israelitas no Egito. Durante a Páscoa ocorreu a ressurreição de Jesus e as correlações simbólicas entre os dois eventos são bastante óbvias. Além disso, no lado Sul do mundo, a Páscoa não coincide com a chegada da primavera. Comemora, isso sim, o começo do outono, que é o começo das noites, do frio, do fim da vida. Isto, em tese, é correto. Mas, neste canto específico do Sul que carrega o Sul no próprio nome, o tempo de provação não é o outono e nem o inverno: é praticamente todo o ano. Quem vive no Rio Grande do Sul trava batalhas contra a natureza que ofuscam todas as batalhas que já se travaram nestes campos. Quem vive no Sul sabe, como nenhum outro, o que é o verão abrasador, a umidade maldosamente unida ao calor, a falta de chuvas ou o excesso delas, as plantações destruídas, as casas destelhadas. Aqui, a própria primavera não é tempo de florir e de viver, e sim de moléstias, doenças, dias que começam congelantes e terminam quentes, de inconstância, de dificuldades. É isto o que antecede o tempo da Páscoa. Quando Março chega, já suspiramos de alívio por termos passado – sobrevivido! – mais um verão. Em breve, a fúria do tempo cessará. As chuvas aumentam a frequência e diminuem a intensidade, tornando-se agradáveis presentes do céu e não tormentosas causas de desgraças. Ao mesmo tempo, ainda não começaram as rajadas de vento que atravessam a Patagônia e nos atingem, sem dó nem piedade, cobrindo os campos de geada, os picos de neve e a vida dos pobres e desvalidos de durezas. Se, para T.S. Eliot – em todos os sentidos, um homem do Norte – abril era o mais cruel dos meses, para o homem deste Sul este é único mês que não é cruel. A Páscoa no Sul é o tempo em que, talvez pela única vez no ano, podemos realmente experimentar a alegria de viver. É o que aprendemos desde pequenos. Nossas memórias infantis da Páscoa são as das primeiras manhãs de ar fresco, quando, em crianças, corremos para o quintal e encontramos os ovos com que passamos o dia, ao ar livre, aproveitando a amenidade do tempo, a beleza do dia, a grama mais verde do ano, o fruir de tudo. E, pela primeira vez, compreendemos, da mesma forma que os anglo-saxões de Beda, que o mundo regenera, que nem tudo é dor e dificuldade, que é possível reviver e que, desde Aquele que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia, a vida vale a pena ser vivida.
Aírton Pavilhão: “É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz”
Republicamos a entrevista que Aírton Ferreira da Silva, o Aírton Pavilhão, nos concedeu em abril de 2011 como uma homenagem ao maior zagueiro que o Rio Grande do Sul já viu, falecido a 3 de abril de 2012.
O ano é 1962. Os jogadores da Seleção Brasileira convocados para a Copa do Mundo do Chile estão treinando em Campos do Jordão, região serrana do Estado de São Paulo, escolhida a dedo para acostumar os jogadores do “escrete” ao clima e à altitude dos Andes. O zagueiro Aírton Pavilhão, do Grêmio (o único convocado de fora do eixo Rio-São Paulo) recebe uma bola na frente da área e dirige-se até a bandeirinha de escanteio, no que é acompanhado pelo adversário do treino. Chegando lá, Aírton parecia encurralado: atrás de si, o atacante; à frente, o final do campo. De repente, para surpresa de todos, ele gira o imenso corpo de 1m89cm e posicionando a bola do lado de fora do pé esquerdo, chuta-a com o peito do pé direito fazendo um lançamento para o goleiro Gilmar, a alguns metros dali. A isto antigamente chamava-se “dar de Charles” (hoje, chamaríamos “dar de letra”), e era uma jogada muito utilizada por atacantes habilidosos. Eu disse atacantes – nunca um zagueiro comum faria uma coisa dessas. Eu disse um zagueiro comum – não Aírton Ferreira da Silva. Todos ficaram boquiabertos com o lance, inclusive o treinador, Aymoré Moreira, que nunca vira nada parecido. E como nunca vira nada parecido, achou melhor dispensar Aírton do grupo que iria ao Mundial, com medo que ele repetisse e errasse a jogada durante o torneio. A verdade é que o único errado nesta história era o próprio Aimoré Moreira: Aírton nunca errou aquela jogada. Com isso, o Brasil perdeu a chance de ter tido o primeiro zagueiro, desde Domingos da Guia, a rivalizar em talento com os nossos melhores atacantes e a chamar a atenção do resto do mundo. A seleção de 1962 ficou mais pobre sem ele.
Mas Aírton era muito mais do que uma jogada de efeito. Era, para dizer tudo de maneira simples e direta, um zagueiro tecnicamente perfeito: excelente na saída de jogo, sem rival na bola aérea, habilidoso como um ponta-direita, forte como um halterofilista e, ao mesmo tempo, absolutamente leal em todas as disputas de bola, a ponto de receber elogios públicos de Pelé numa época em que os zagueiros de todo o mundo apelavam para os safanões quando enfrentavam o Rei do Futebol.
Ao procurar Aírton para esta entrevista, não lidamos com assessores de imprensa, não precisamos marcar horário na agenda e não esperamos horas ao telefone para falar com um intermediário. Dirigimo-nos ao estádio Olímpico numa tarde de sexta-feira e, a alguns poucos metros dele, batemos palmas em frente a uma casa (não por acaso) azul e, após passarmos três longas e inesquecíveis horas na companhia de Aírton, o nosso Aírton, o maior zagueiro da História do Rio Grande do Sul, ainda fomos convidados para, no dia do próximo jogo do Grêmio, passarmos ali para conversar um pouco mais. Enquanto isso, deixamos aos leitores o resultado da conversa daquela tarde.
O senhor começou no Força e Luz, um time que era conhecido por revelar jogadores para a dupla, e ali ficou de 1949 a 1954. Naqueles tempos, o clube chegava a complicar para a dupla Gre-Nal?
Não chegava a tanto. Quem complicava mesmo era o Cruzeiro, que tinha um excelente time. Mas o Força e Luz revelava, sim, muitos jogadores bons, que atraíam a atenção da Dupla. Foi o que aconteceu comigo. Em 1954 eu fui para o Grêmio, em troca de um pavilhão do antigo estádio da Baixada, mais 50 mil cruzeiros.
E daí veio o apelido…
Exatamente. O Grêmio estava tentando montar um time forte para enfrentar o Inter, que ganhava tudo naquela época e tinha jogadores como Larry, Bodinho, Chinesinho, Oreco e outros. O nosso treinador na época era o seu Osvaldo Rolla, o Foguinho, que me tirou da posição de centromédio, onde eu comecei, e me pôs na de zagueiro. Esse meu período como centromédio do Força e Luz foi muito bom, porque quem joga nessa posição precisa desenvolver o passe, o posicionamento e a visão de jogo, e foi o que aconteceu comigo. Estes fundamentos foram muito úteis quando eu comecei a jogar de zagueiro. Na época, o titular era o Ênio Rodrigues, e o seu Rolla, pra eu entrar, pôs ele para o lado do campo.
Na época, quem eram as principais forças do futebol gaúcho?
Além de Grêmio e Inter, tínhamos o Renner, Cruzeiro, Aimoré, Pelotas, o Brasil de Pelotas e vários outros. Naquela época, o Campeonato gaúcho era muito forte. Se perdesse um ponto, perdia o campeonato. Não podia perder a linha de jeito nenhum. Para mim, era mais difícil que o campeonato brasileiro de hoje. Hoje todos os craques vão embora e antes não era assim, todos ficavam por aqui.
O senhor cresceu numa época em que o Inter era mais poderoso do que o Grêmio, não?
Sim, o Inter não perdia para ninguém. Era o time do Tesourinha! Mas eu, felizmente, nunca joguei contra ele. Quando ele estava no Inter eu ainda era muito guri, e quando ele veio para o Grêmio eu estava começando e ele prestes a encerrar a carreira, então nunca nos enfrentamos.
Antigamente, a diferenciação entre as duas torcidas era maior do que hoje, não?
Sim, era mais clara. O Inter era mais povão e o Grêmio era mais elitista.
Quando começou a disputar jogos contra equipes de fora?
Quando o Grêmio começou a ganhar títulos estaduais, começamos a jogar contra o Santos, o Botafogo e outros clubes do centro do país pela antiga Taça Brasil, que reunia os campeões estaduais. O Grêmio começou a jogar fora, jogamos no Rio, São Paulo e em outros lugares. Depois, passamos a fazer excursões, que era uma coisa que os clubes brasileiros faziam muito na época. Fomos pra Europa e o time começou a plantar uma sementinha para ser famoso. Ganhamos de todo mundo na Grécia, jogamos na Rússia, Alemanha…..
Numa das excursões que o Grêmio fez pela Europa, jogou contra o Real Madrid. Como foi marcar Puskas?
Quando entrei em campo e eu vi aquele baixinho pegar com o pé esquerdo de um jeito diferente e eu disse, “bah, esse canhoto é bom”. Não deu outra: ele acabou com o jogo e perdemos para eles. O Real Madrid naquela época era quase imbatível. Perdemos também para a seleção da Rússia lá e eu não me conformei. Solicitei que o Grêmio trouxesse os russos para cá, para a revanche, e aí ganhamos deles.
Em 1959, o Grêmio foi o primeiro clube estrangeiro a vencer o Boca em La Bombonera. O senhor estava lá. Como foi aquele jogo?
Bom, primeiro é importante falar que o Boca era uma equipe excepcional. Eles tinham o Rattin, um centromédio espetacular, um dos melhores jogadores do mundo na época. Na entrada do estádio era uma festa , papel picado, eles cantando “Boca, Boca”……..era a primeira vez que eu via uma festa daquelas. Eu saí do jogo surdo, o ouvido ficava zumbindo! Era um terror. Não estava acostumado com aquilo, porque o jogo aqui no Brasil era calmo. Quem venceu o jogo para nós foi o Gessi, que tinha passado no vestibular para odontologia e chegou para o jogo meio “alto” (risos). Mas ele jogava muito, muito!
Como se sente sendo reconhecido nas ruas?
O que me emociona é ver alguém dizer que o pai falava muito de mim, ou um homem, já adulto, me agradecendo por ter feito o pai dele tão feliz. A minha auto-estima vai lá em cima. É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz. Esses dias, eu estava sentado e de repente passa um guri de 10 anos e grita “E aí, Pavilhão?” (risos). Um guri de dez anos! Apesar disso, eu acho que o Rio Grande do Sul é um estado que não tem memória. O único jogador que entrevistam sou eu. Eu fico louco com isso. Alcindo, Florindo, Alberto, onde estão? Não dão o devido valor pros jogadores antigos. Tu paras de jogar e pronto, morreu. O único que lembram sou eu e isso me faz sentir mal. O Alcindo jogou Copa do Mundo, o Alberto foi convocado para a seleção….foram tantos. Mas felizmente eu sempre sou reconhecido, o que gera também situações engraçadas.Às vezes o Grêmio perde e eles passam ali brabos, e eu estou ali quieto. Eles dizem “tu também és culpado” e eu digo “Eu? Eu parei há quarenta anos! (risos).
Como foi enfrentar o Pelé?
Olha, marcar o “negrão” no mano a mano era brabo. Mas ele nos respeitava muito. Agora, quando o Inter foi campeão da Libertadores, ele disse que eles conheciam mais o Grêmio, por causa dos jogos na Taça Brasil. Uma característica do Pelé é que ele era forte e objetivo, não era tipo o Ronaldinho que fica driblando para lá e para cá. Ele pega a bola e partia para cima, não ficava dando driblezinho à toa. O Ronaldinho….(risos) Eu queria marcar o Ronaldinho!
Porque?
Porque ele dribla muito. É muito mais fácil de marcar o Ronaldinho que o Pelé. Esses dribles para o lado que ele fica fazendo dão oportunidade do defensor tirar a bola dele. Só toma drible do Ronaldinho quem é bobo. Eu gostava de jogar com aquele jogador que driblava na minha frente, pois esse é mais fácil. O complicado é quem é forte e vai direto pro gol. Esses são os mais dificeis. Já o Garrincha era diferente, era driblador mas também era objetivo e, diga-se de passagem, muito gente fina, estive com ele na Seleção.Nunca joguei contra ele, mas era mais fácil que o Pelé, com certeza. É que nem a cobra e o sapo. A cobra não ataca. Quem tenta fugir é o sapo. Era isso que eu tentava fazer.
O senhor estudava seus adversários?
Sempre que podia, eu assistia a jogos para saber como é que os caras jogavam. Esse cara do Inter, D´Alessandro, por exemplo, ele é canhoto e entra pela direta. Se eu assistisse os jogos dele, saberia que o melhor era esperar ele tocar a bola. Assim, ele nunca passaria por mim.
Acha que os zagueiros cometem hoje erros que não cometiam na sua época?
Claro. Cometem erros bobos. Por exemplo, os gols de cabeça os zagueiros de hoje tomam a todo momento. E sabe porque? Porque ficam empurrando o cara. Quem entra pro gol? A bola. Eles não marcam a bola. Eu não quero saber do jogador, eu quero a bola. E eu fiz sempre isso. O Grêmio, na minha época, não tomava gol de cabeça. O segredo é olhar para a bola, é só seguir em direção a ela. Eu falo isso na TV e eles ficam loucos. Eu queria fazer uma entrevista assim: eu no meio e todos os ‘entendidos’ fazendo perguntas. Não precisa ser jogador para ser treinador, mas é como o pessoal fala, só manda quem sabe fazer. Se não teve a prática, não tem como. E eu tive. Sempre quis fazer o melhor e ser diferente dos outros. Uma vez joguei contra o Pelé e sem querer trombei nele - ou melhor, ele trombou no meu corpo - e aí quem ganhou fui eu, que era mais alto e forte. Ele caiu, e eu disse “tudo bem, negrão”?. E ele “tudo, Airton, não se preocupe porque eu sei que você não precisa disso”. Quase me arrepio quando lembro disso!
Que homenagem!
Uma senhora homenagem. Como eu disse, sempre fiz questão de ser um jogador diferente dos outros. Os treinadores às vezes me mandavam bater, mas eu sempre desobedecia. Tu, por exemplo, se fores ser advogado, não podes ser qualquer um, tens de ser o melhor advogado. Eu pensava: se eu tenho a chave da porta, porque vou arrombar? Se eu machucasse algum jogador eu ficava com vergonha, porque significava que eu não podia com ele. Eu sempre quis fazer o melhor de mim e ser o melhor de todos, e isso valia para o Grêmio também. Se na minha equipe um amigo meu errasse eu dizia “sinto muito, gosto de ti, mas tu vai sair do time” e eu dizia pro treinador, esse aí não dá. Para teres uma idéia, eu fiz 125 gols na minha carreira. E olha que a gente jogava quase sempre só no domingo e muito pouco na quarta. Senão ia fazer muito mais gols. Todo ano eu era o melhor jogador do campeonato. Aí parei de disputar, porque era sempre o melhor. Aí fui me convencendo que eu era realmente o melhor. E que era bom mesmo.
Depois de alguns confrontos com Pelé, chegou a ser pretendido pelo Santos, não é?
Sim. Joguei 3 meses emprestado para o Santos. Só que acabei querendo voltar, porque tinha medo de avião e o Santos viajava muito pelo mundo. A linha deles era Durval, Coutinho, Pelé e Pepe. Não tinha como perder com esses aí. E ainda tinha o resto do time, que também era excepcional.
Sem contar a famosa jogada que o senhor fazia, levando a bola para a linha de escanteio e, de “Charles”, atrasando-a para o goleiro…
Sim, e pior é que tinha centroavante que ficava brabo comigo por causa da jogada, queriam dar em mim! O centroavante Almir Pernambuquinho era um deles. Por isso, eu queria marcar o Edmundo, Ronaldinho e esses que são mais debochados. Esses aí, eu levava lá no cantinho e fazia a jogada! (risos)
Quem foi o maior treinador que o senhor teve ?
Osvaldo Rolla. Esse sabia de tudo. Ele foi fantástico. Conhecia muito de tática. O seu Rolla gostava muito do time da Hungria em 1954 e aplicava o mesmo no Grêmio. Colocou só zagueiro grandão lá atrás e fez todos participarem do jogo. Mas eu também jogava o meu jogo independente dos treinadores. Se o treinador me dissesse para fazer isso ou aquilo, eu ouvia e dizia “sim senhor” – e não fazia. Ia jogar o meu jogo. Se ele dizia “ Airton , não vai cabecear”, eu dizia “sim senhor”,e eu ia. E s e fizesse o gol, ele não tinha do que reclamar! (risos)
Como foi a sua passagem pela seleção?
A primeira foi no Panamericano de 1956, quando fomos campeões. Depois, cheguei a ser convocado para ir à Copa de 62.
Airton na Seleção Brasileira 1962- último à direita na fila de cima
Foi o único jogador de um clube de fora do eixo Rio-São Paulo a ser convocado.
Sim, isso mesmo. O problema é que, num treino, fiz a jogada de “Charles” e o Aimoré Moreira, treinador do Brasil naquele ano, ficou com medo, não gostou e eu fui cortado. Além disso, o jogador gaúcho nunca conseguia espaço. Muito raramente nos davam chance.
Acha que se tivesse jogado no centro do país teria tido mais visibilidade?
Sem duvida. Hoje eu penso que deveria ter ido para fora. Acho que comigo aconteceu como naquela história do barco, em que o cara está se afogando, pede ajuda para Deus, passam vários barcos, ele continua pedindo ajuda e, de repente, ele morre e Deus diz “rapaz, eu te ajudei, te mandei vários barcos e não aproveitaste nenhum!”. Foi o que aconteceu comigo. Ele me disse, vai lá para ser o melhor do mundo e eu fiquei no Rio Grande do Sul. Não por causa do dinheiro. O resto queria me ver e não me viu. Aí eu não posso culpar Deus, pois eu é que não aproveitei. Quando eu vejo um jovem me agradecer por eu ter feito o pai dele tão feliz, eu penso sempre que eu tinha mais coisa para dar. Eu podia ter dado mais de mim. Eu poderia ter feito mais gente feliz.
O senhor acha que os centroavantes hoje são muito supervalorizados?
Acho, pelo menos os que jogam aqui. Antes, todos os bons jogavam aqui. Hoje, os jogos me enjoam. Assisto meio tempo e me enjoa. Eles só jogam para o lado, e eu quero jogo para a frente. Viu o jogo do Gremio ontem? O único que põe o time para a frente é o Rochemback. Eu fazia como ele, era o homem surpresa. O Grêmio é interessante, joga bem um jogo, joga mal um mês. Aquele time anos 60 jogava bem quase todo jogo. A gente quando errava ficava louco. Joãozinho, Volmir, Alcindo, era incrível o que aquele time fazia. E nós éramos bem balanceados, tínhamos um ataque muito bom e uma defesa muito bem organizada. É como se diz: um ataque ganha jogo, mas uma boa defesa ganha campeonato.
As condições eram piores na sua época?
Muito piores. A bola era mais pesada, o campo era pior, e a torcida queria te matar. Quando a gente jogava no interior,os torcedores rivais queriam acabar com a gente! A gente comia pó para chegar em Bagé, porque não era asfaltado. Tudo era mais difícil.
Como avalia os zagueiros de hoje?
Olha, o Lucio é o melhor, mas, como eu disse, os zagueiros de hoje não têm o mesmo nível da minha época. Hoje todos jogam com líbero, com volantes, com jogadores fazendo cobertura. Na minha época não era assim. Zagueiro que é bom para mim, é o bom no mano a mano. É raro encontrar um assim. Nunca gostei de jogar com libero. Era vergonha para mim. É uma maneira de eu dizer que eu não tenho condições.
Dos zagueiros que jogaram em sua época, com quem o senhor gostaria de ter feito dupla?
Ah, tem vários. No Inter tinha o Florindo, que era um jogador fora de série. O pessoal da minha época era incrível. Nilton Santos era incrível, Djalma Santos era melhor ainda. O Bellini era diferente, era mais durão. Eram vários.
O senhor mora em frente ao Olímpico, jogou toda a vida no Grêmio, tornou-se um símbolo do clube……já pensou em como vai ser quando ele for destruído?
Olha, nem quero pensar (risos). Nem sei como vai ser. Vou ficar muito, mas muito triste. Todos os campos em que eu joguei acabaram. Aquele campinho do Força e Luz, onde eu comecei, foi desmanchado; o do Cruzeiro, a mesma coisa; o Eucaliptos, do Inter, onde joguei tantas vezes, também. O Olimpico era último estádio desses antigos que tinha sobrado. Todos foram embora. Todos terminaram. O seu Hélio Dourado não queria que o estádio fosse destruído. Aliás, eu mesmo, nos anos 70, ajudei o Sr. Dourado e fazer a campanha para buscar tijolo, para a torcida construir o estádio, porque a verdade é que o Olímpico foi construído pela torcida do Grêmio. E hoje querem construir um novo…..tanta coisa por um ou dois jogos da Copa……
Tinha boa relação com o pessoal do Inter?
Tinha. E eles tinham uma relação de amor e ódio comigo. Vou lhe contar uma emoção que eu senti. Era um Grenal , jogo duro, e eu estou lá atrás como zagueiro e nós estamos atacando lá na frente, na área deles. De repente, olho para a torcida e eles começam a me vaiar, e eu disse “o jogo está lá, olhem para o jogo!”. Naquele momento, eu pensei, “deixaram de ver o jogo para prestar atenção em mim. Eles realmente me amam”.
A diferença de salário era muito grande do Santos para o Grêmio?
Ah, pagavam muito mais. O Santos pagava muito melhor. Mas não era pelo salário que eu quis ir para lá, e sim para me tornar mais conhecido, para me apresentar para mais gente, para que mais pessoas me vissem. Era muito difícil se tornar conhecido jogando aqui, naquela época. E o nosso jogador, aqui do Rio Grande do Sul, para aparecer é brabo.O Gremio quando é campeão do mundo dizem que foi sem querer, e o Flamengo, quando ganha, fazem um carnaval. O Everaldo foi para a seleção para ser reserva. Era melhor que o Marco Antonio. Mas vou dizer: nenhum dos dois era melhor que o Ortunho.
A relação que os senhores tinham com o clube antigamente era diferente da que se vê hoje?
Eu acho que o jogador tem que ter dois amigos para entrar em campo, o juiz e torcida. Se ela gostar de ti, tudo bem. Hoje é tudo diferente, porque o salário é outro, os valores são outros……..e, como eu disse, eu pessoalmente nunca liguei tanto para dinheiro. Sabe do que eu tenho raiva? De homem velho, político, que quer cada vez mais dinheiro. O que dá depois? Briga de família. Tenho nojo de político ladrão. Se eu ganhar 5 mil, ganhar um bom carro, boa casa ,um bom emprego, já me chega. Se eu quiser mais, já me começa a incomodação. Nunca sabe se quem se aproxima, se aproxima por amizade ou por interesse. Então, eu vejo essa diferença, os jogadores de hoje ganham milhões e têm uma vida muito diferente da que a gente tinha, e isso reflete na relação com a torcida. Mas tem uma coisa que eu noto de diferente na torcida. Hoje as pessoas saem do jogo e não estão rindo, estão apreensivas, nervosas, irritadas. Antes, as pessoas saíam rindo do jogo.
Entrevista publicada no jornal O Timoneiro
“O homem de hoje não tem um centro ordenador.”
Entrevista: Vitor Hugo Couto Triska, psicanalista
Conheço Vitor Hugo Couto Triska há nada menos do que 23 anos. É muito tempo – e torna-se mais tempo ainda quando se tem em mente que eu e ele temos 28 anos. E é com a proximidade de quem tem a mesma idade, estudou no mesmo colégio (aliás, na mesma turma) e que partilha lembranças, sentimentos e visão de mundo forjada em laços de amizade familiar – nossas mães são amigas desde antes de pensarmos em nascer -, que posso dispor-me, a qualquer momento, a falar do meu amigo Vitor Hugo, do menino que ia para a aula com uma máscara remendada do herói japonês Jaspion – provavelmente destruída em batalhas imaginárias -, que destacava-se como ótimo aluno, que levantou esperanças e expectativas e que as vem cumprindo integralmente desde que, na virada do milênio, deixamos aquilo que T.S. Eliot chamou de “a praia que todos conhecemos” – o colégio, o nosso colégio, o La Salle, de onde partimos para o Mar Tenebroso camoniano que chamamos vida adulta. Não é, entretanto, o que fiz nesta entrevista. Aqui, falei apenas das tais expectativas que se vêm cumprindo: o Vitor é, para além de meu amigo, um bem-sucedido psicanalista, cuja tese de doutorado – muito bem intitulada “Cultura e estrutura em psicanálise” – aborda um tema que, se não posso chamar de próximo, ao menos não me é estranho por estar presente em nossas conversas: o das respostas que a psicanálise pode dar para entender a cultura contemporânea. Esta entrevista que segue é, assim, um convite ao leitor para que participe destas conversas, onde – já aviso, falando a partir de experiência própria – valerá mais escutar do que falar.
O Timoneiro: Começando pelo começo: porque a escolha pela Psicologia?
Vitor Hugo: Bem, primeiro é preciso dizer que eu não fiz teste vocacional. Quero dizer, fiz um meio forçado na época do colégio, mas não levei a sério. O resultado, claro, enfatizou as matérias em que eu ia melhor , que eram Matemática, Física e Química. Mas aí que fica mais curiosa a maneira como eu fui parar na Psicologia. Acredito que tenha a influência da família. Minha mãe já estudava Psicologia , havia estudado Filosofia e Direito e acho que foi também influência dela o interesse na área das Ciências Humanas, já que, como eu disse, eu tinha uma cabeça muito voltada para as exatas. Acho que é por aí. Além disso, no colégio eu era muito observador do comportamento das pessoas . Eu não tenho como dizer que foi uma escolha baseada em “tal e tal” critério. Na época foi o que me pareceu mais certo de acordo com os critério que eu poderia ter quando era adolescente. Mas para mim, desde cedo, ficou claro que eu iria trabalhar com clínica. Sempre o que me chamou mais a atenção foi a clínica.
OT: Isso desde o começo da faculdade ou antes mesmo de entrar na faculdade?
VH: Antes de começar a faculdade.
OT: O interesse era de clinicar mesmo, não apenas só estudar a Psicologia.
VH: Exatamente. Eu não tinha nenhuma leitura sobre Psicologia – aliás, nem mesmo uma leitura suficiente boa para vestibular de Literatura. Como eu disse, o meu interesse sempre foi mais das Ciências Exatas. Até que me apareceu , lá pelo terceiro ano de curso, a Psicanálise.
OT: Só no terceiro ano?
VH: Sim. Antes tinha Psicanálise, mas como uma parte das cadeiras de teoria da personalidade. A gente via a psicanálise como uma teoria desligada da prática, da história da filosofia e do momento da ciência moderna e tal. Ao mesmo tempo, eu comecei a me interessar mais por literatura e, por via disso, me interessar mais pela psicologia teórica. O curioso é que até meus conceitos que eram B e C passaram para A ao longo do curso, ao contrário do que acontece com muitos (risos). E também, através de Lacan, acabei encontrando influencia da matemática. Foi uma espécie de reencontro com o meu interesse antigo pelas ciências exatas.
OT: Um reencontro com as tuas antigas aptidões do colégio.
VH: É , digamos assim.
OT: Mas hoje a tua pesquisa vai por outro caminho, não é?
VH: Está indo por outro caminho. Meu doutorado é uma investigação acerca das leituras que a psicanálise pode fazer da cultura contemporânea. Isso é antigo na psicanálise, desde pelo menos o “Mal estar na civilização”, do Freud….
OT: ……..que, talvez, seja o livro do Freud mais lido por quem não é psicólogo…
VH: Sem dúvida. Esse livro é muito conhecido e objeto de estudo em todas as áreas das ciências humanas. É um livro básico para quem estuda a civilização ocidental dos últimos 100 anos.
OT: Um dos sentidos que se pode interpretar o trabalho do Freud é o de que estamos mal por estarmos civilizados, por termos deixado o estado de natureza e assim por diante . O teu trabalho é uma leitura cultural baseada na psicanálise. Tu subscreves essa análise do Freud?
VH: Acho que sim. E esse tipo de análise torna-se ainda mais importante numa época chamada de “individualista”. Temos de estudar e compreender que tipos de laços sociais se estabelecem nesta época onde aparentemente – é o que diz a crítica mais comum – é que não se estabelecem laços sociais, onde há individualismo e assim por diante. Meu trabalho é uma contra-crítica à crítica que a psicanálise mais comum faz da cultura.É quase o mesmo que ocorre quando tu escutas os pais dizerem “na minha época não era assim” , “Os filhos hoje não têm limites”- quase como estivessem ressentidos . Mas o que eles não se dão conta é que, no momento que eles exaltam os valores de tradição, eles também estão exaltando sistemas de opressão e modelos que hoje não funcionam mais da mesma maneira.
OT: Sempre me vem à mente, quando me falam da substituições dos modelos, uma leitura que era muito comum décadas atrás, que são as vidas de santos. Cada santo era um exemplo a ser seguido pelo leitor. Católico, evidentemente . Como tu entende a passagem desse processo de substituição de modelos , nos últimos 50, 60 anos?
VH: Eu me questiono se é uma passagem. Na época de Freud, era mais fácil e mais possível reconhecer um discurso mais hegemônico. Hoje, isto é difícil. O que eu questiono é se hoje há , como havia antigamente, um código social mais hegemônico ou se hoje é permitida uma maior pluralidade. Hoje é muito fácil dizer que se seguem os artistas e os jogadores de futebol, por exemplo, em vez dessas vidas de santos ou de outros modelos que tu citaste. Claro, por uma questão de mídia e de exposição muita gente pode ter essa impressão de que a massa é o que prevalece, que esses fenômenos são mais comuns, de consumo em larga escala. Mas não é necessariamente assim.
OT: Mas tu achas que esses fenômenos não chegam a modificar a noção de modelo que muitas pessoas têm?
VH: Eu acho que eles modificam, a questão é que eles não podem ser considerados como universais. A generalização nesse sentido não serve para nada.
OT: Disse Sartre que o homem está condenado a ser livre. Obviamente esse “condenados” implica que o homem livre tem um fardo a carregar, uma dificuldade de se orientar no mundo , porque ele não tem mais aquele tutelador tradicional, a tradição serve para tutelar também. O cidadão que está dentro da tradição é tutelado, ele se sente dentro de um caminho. O homem que é totalmente livre , que está fora disso, está sozinho na estrada.
VH: Claro e ultimamente temos visto muitos filmes que demonstram essa situação. Agora saiu o “Shame” , que mostra um cara completamente isolado, com dificuldades de se relacionar com a irmã, que é a única referência de família que ele tem , e se dedicada basicamente ao trabalho e a consumir sexo via internet ou em festas, enfim. O que é uma caricatura, uma imagem , dessa pessoa desligada totalmente das tradições e mais “à deriva”, digamos assim. Nesse sentido também podemos dizer que sim, as pessoas estão mais livres para escolherem caminhos e ao mesmo tempo muitos autores relacionam isso com a predominância da depressão. O homem de hoje não tem um centro ordenador.
OT: Que é, mais ou menos, uma das conclusões de Gilles Lipovetski em “A Era do Vazio”…..
VH: Exatamente. É a era da ansiedade, da depressão, que é justamente a sensação de “não pertença” . Quem escreveu sobre isso ,e que me chamou muito a atenção, que foi o Albert Camus no “O mito de sísifo”. Eu acho que atualmente predomina entre os psicanalistas uma leitura rasa da cultura , porque eles fazem essa leitura a partir de conceitos consagrados da psicanálise, mas esses conceitos dependem do contexto no qual eles foram criados que seria, digamos , a cultura freudiana , que é pré-segunda guerra mundial.
OT: Então tu acha que esses conceitos deveriam ser relativizados para a época atual ou eles têm de ser relidos?
VH: Eles têm de ser relidos. Precisamos estabelecer conceitos novos , porque isso é muito claro na antropologia . Tu tens uma certa linguagem pré estabelecida para entender tal cultura , tal cultura e tal cultura. É muito suspeito tu achares coisas comuns entre elas e ficar usando o mesmo mecanismo de compreensão. Então, é o teu mecanismo que está embutindo coisas porque tal e tal cultura não é um fenômeno naturalem si. A cultura é um conceito da antropologia para abordar certos fenômenos e tentar fazer uma compreensão. No momento que tu vais lá entender “Édipo” , “A função paterna” e etc, porquê tu ainda vais usar termos que fazem essa relação ao pai se hoje o lugar do pai na família não é necessariamente um lugar privilegiado? É e não é, depende da família. Não é mais uma questão universalizada. Não é mais “eu sou o pai, essa é a regra porque eu sou o pai”. A resposta do filho vai ser “Porque? O cara que eu vi na TV disse tal coisa diferente”.
OT: O que , obviamente, não era assim na época do Freud.
VH: Claro, então me parece um certa nostalgia de quando os conceitos clássicos da psicanálise serviam para interpretar uma certa cultura.
OT: Uma das críticas que fazem ao Freud diz respeito ao seu pouco conhecimento de filosofia ocidental, apesar de ele conhecer arte e literatura a fundo. Isso confere?
VH: Olha , eu não conheço muito os detalhes da vida do Freud , mas isso confere, sim. Freud era um médico, com um grande conhecimento de arte e literatura, sim, mas essencialmente um cientista. O foco do trabalho dele não era filosófico. O que, evidentemente, não impede que um filósofo, pensador, cientista social ou antropólogo possa usa-lo. É o que eu pretendo fazer, e o que defendo que se faça – sempre relendo de acordo com a situação que se vive hoje, para os problemas que temos hoje.
Georges Moustaki/ Rita Lee – Joseph
Voilà c’que c’est, mon vieux Joseph
Que d’avoir pris la plus jolie
Parmi les filles de Galilée,
Celle qu’on appelait Marie.
Tu aurais pu, mon vieux Joseph,
Prendre Sarah ou Déborah
Et rien ne serait arrivé,
Mais tu as préféré Marie.
Tu aurais pu, mon vieux Joseph,
Rester chez toi, tailler ton bois
Plutôt que d’aller t’exiler
Et te cacher avec Marie.
Tu aurais pu, mon vieux Joseph,
Faire des petits avec Marie
Et leur apprendre ton métier
Comme ton père te l’avait appris.
Pourquoi a-t-il fallu, Joseph,
Que ton enfant, cet innocent,
Ait eu ces étranges idées
Qui ont tant fait pleurer Marie ?
Parfois je pense à toi, Joseph,
Mon pauvre ami, lorsque l’on rit
De toi qui n’avais demandé
Qu’à vivre heureux avec Marie.
Olha o que foi meu bom José
Se apaixonar pela donzela
Dentre todas a mais bela
De toda sua Galiléia
Casar com Deborah ou com Sarah
Meu bom José você podia
E nada disso acontecia
Mas você foi amar Maria
Você podia simplesmente
Ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar
De se esconder com Maria
Meu bom José você podia
Ter muitos filhos com Maria
E teu ofício ensinar
Como teu pai sempre fazia
Porque será, meu bom José
Que esse teu pobre filho um dia
Andou com estranhas idéias
Que fizeram chorar Maria
Me lembro às vezes de você
meu bom José, meu pobre amigo
Que desta vida só queria
Ser feliz com sua Maria
Little Drummer Boy
Por ocasião do Dia de São Patrício, e com a participação insuspeita (porém nada fora de lugar) de Shane McGowan.
Happy St. Patrick’s Day!
“Aos melhores lhes falta toda a convicção….”: sobre crucifixos e vingança
Ana Naiara Malavolta, da Liga Brasileira de Lésbicas – grupo que ingressou com a petição que culminou com a retirada dos crucifixos das dependências do Tribunal de Justiça do RGS -, afirma que o pedido é uma resposta dos gays ao que consideram “perseguições sistemáticas movidas por fundamentalistas religiosos” em várias partes do Brasil.
Não pude disfarçar a estranheza quando tomei conhecimento do pedido formulado pela Liga.Afinal, qual a razão pela qual um grupo pretensamente criado para congregar pessoas com específica orientação sexual atentaria contra a presença da cruz nas dependencias dos tribunais.
No entanto, ao ler a declaração de Ana Naiara Malavolta compreendi que realmente o crucifixo deve lhe provocar horror. Afinal, digam o que disserem, a mensagem da cruz é a antítese da idéia de vingança e a declaração acima referida demonstra claramente que a motivação da liga é precisamente esta: vingança. Vingam-se de uma suposta vedação a entrada em templos (muito embora nunca tenha visto, em templos religiosos, fiscais perguntando sobre orientação sexual de quem quer que seja.) Mas, na hipótese de ter havido alguma forma de discriminação em algum templo, o caminho não seria reagir contra o símbolo religioso e sim contra quem praticou o ato atentatório. No entanto, o objeto de toda ira é a cruz de Cristo.
E lembrei então de William Butler Yeats, cujas palavras do poema “A segunda vinda” parecem descrever com perfeição o tempo em que vivemos:
Aos melhores lhes falta toda a convicção enquanto os piores estão plenos de intensidade apaixonada.
“Tempos apocalípticos” – Paulo Brossard sobre a retirada dos crucifixos nos tribunais
Minha filha Magda me advertiu de que estamos a viver tempos do Apocalipse sem nos darmos conta; semana passada, certifiquei-me do acerto da sua observação, ao ler a notícia de que o douto Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado, atendendo postulação de ONG representante de opção sexual minoritária, em decisão administrativa, unânime, resolvera determinar a retirada de crucifixos porventura existentes em prédios do Poder Judiciário estadual, decisão essa que seria homologada pelo Tribunal. Seria este “o caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de Estado laico” e da separação entre Igreja e Estado.
Tenho para mim tratar-se de um equívoco, pois desde a adoção da República o Estado é laico e a separação entre Igreja e Estado não é novidade da Constituição de 1988, data de 7 de janeiro de 1890, Decreto 119-A, da lavra do ministro Rui Barbosa, que, de longa data, se batia pela liberdade dos cultos. Desde então, sem solução de continuidade, todas as Constituições, inclusive as bastardas, têm reiterado o princípio hoje centenário, o que não impediu que o histórico defensor da liberdade dos cultos e da separação entre Igreja e Estado sustentasse que “a nossa lei constitucional não é antirreligiosa, nem irreligiosa”.
É hora de voltar ao assunto. Disse há pouco que estava a ocorrer um engano. A meu juízo, os crucifixos existentes nas salas de julgamento do Tribunal lá não se encontram em reverência a uma das pessoas da Santíssima Trindade, segundo a teologia cristã, mas a alguém que foi acusado, processado, julgado, condenado e executado, enfim justiçado até sua crucificação, com ofensa às regras legais históricas, e, por fim, ainda vítima de pusilanimidade de Pilatos, que tendo consciência da inocência do perseguido, preferiu lavar as mãos, e com isso passar à História.
Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes no templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou. No seu artigo “O justo e a justiça política”, publicado na Sexta-feira Santa de 1899, Rui Barbosa salienta que “por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz”… e, adiante, “não há tribunais, que bastem, para abrigar o direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados”. Em todas as fases do processo, ocorreu sempre a preterição das formalidades legais. Em outras palavras, o processo, do início ao fim, infringiu o que em linguagem atual se denomina o devido processo legal. O crucifixo está nos tribunais não porque Jesus fosse uma divindade, mas porque foi vítima da maior das falsidades de justiça pervertida.
Não é tudo. Pilatos ficou na história como o protótipo do juiz covarde. É deste modo que, há mais de cem anos, Rui concluiu seu artigo, “como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”.
Faz mais de 60 anos que frequento o Tribunal gaúcho, dele recebi a distinção de fazer-me uma vez seu advogado perante o STF, e em seu seio encontrei juízes notáveis. Um deles chamava-se Isaac Soibelman Melzer. Não era cristão e, ao que sei, o crucifixo não o impediu de ser o modelar juiz que foi e que me apraz lembrar em homenagem à sua memória. Outrossim, não sei se a retirada do crucifixo vai melhorar o quilate de algum dos menos bons.
Por derradeiro, confesso que me surpreende a circunstância de ter sido uma ONG de lésbicas que tenha obtido a escarninha medida em causa. A propósito, alguém lembrou se a mesma entidade não iria propor a retirada de “Deus” do preâmbulo da Constituição nem a demolição do Cristo que domina os céus do Rio de Janeiro durante os dias e todas as noites.
Fonte: Zero Hora
Antropofagia hoje
Em 2012 comemora-se os noventa anos da Semana da Arte Moderna. Pouco relevante na época, o evento ganharia proporções gigânticas com o passar do tempo, mobilizando algumas das maiores forças intelectuais do Brasil e deixando uma marca profunda em toda a cultura brasileira, em especial nas artes e na literatura. Entre os temas direta ou indiretamente a ela ligados que serão objeto de discussão estará, sem dúvida, um dos conceitos mais conhecidos e repetidos deste período: o de “antropofagia”, elaborado por Oswald de Andrade em seu “Manifesto Antropofágico”.
Nesse sentido, a publicação de “Antropofagia Hoje?” (É Realizações, 687 páginas, organizado por João Cezar de Castro Rocha e Jorge Ruffinelli) é uma maneira de dar início ao debate sobre o impacto e a relevância atual das idéias dos modernistas de 22. E o faz com qualidade: um volume onde figuram nomes como Sérgio Rouanert, Daniel Piza, Raul Antelo, Jorge Schwartz, Luiz Costa Lima, Benedito Nunes, Hans Ulrich Gumbrecht (este, em um texto particularmente inspirado), Eugenio Bucci e os próprios Castro Rocha e Ruffinelli põe a discussão sobre o valor, o impacto e a permanência da antropofagia (e do próprio Oswald de Andrade) num patamar e com uma abrangência difícil de serem encontrados no país.
Onde encontrar:
(11) 5572 5363
Documentário sobre o crítico literário Wilson Martins
Um dos maiores nomes da crítica literária brasileira, o paranaense Wilson Martins, autor da monumental História da Inteligência Brasileira e falecido no ano passado, ganha agora um documentário em sua homenagem. Justíssima, alias.
O Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), em Curitiba, promove nesta sexta-feira (10), às 20h, a estreia nacional do filme “Wilson Martins – a consciência da crítica”, dirigido por Douglas Machado. A exibição ocorre no auditório Poty Lazzarotto – espaço do Museu Oscar Niemeyer – e a entrada é franca.
O documentário tem como base uma longa entrevista, gravada em 2002, com o crítico literário Wilson Martins (1921-2010). Nos anos seguintes a esta entrevista, novos encontros e novas conversas em Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Nova Iorque completaram um tecido de memórias alinhavado por escritores como Miguel Sanches Neto, Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Affonso Romano de Sant’Anna e com um dos ex-alunos de Wilson Martins na New York University: Kenneth Krabbenhoft.
Autor de diversas obras, Wilson Martins destacou-se por “História da Inteligência Brasileira”, com inúmeros volumes. Igualmente fundamental é a “Crítica Literária no Brasil”, história da atividade crítica no País. Com suas obras, Martins ganhou alguns dos principais prêmios literários nacionais, como o Jabuti e o Prêmio Machado de Assis.
Após a sessão haverá debate sobre o filme com a presença do diretor, da produtora Gardênia Cury, do crítico de cinema Marden Machado e do escritor e crítico literário Miguel Sanches Neto.
Fonte: O Diário, de Londrina (PR).
“Só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa”
Por ocasião da Colação de Grau da Turma CNA 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis (Canoas/RS) que realizou-se no dia 19 de janeiro de 2012 no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, o integrante deste blog, Celso Augusto Uequed Pitol, escolhido orador de sua turma, proferiu o seguinte discurso que aqui será reproduzido na íntegra a pedido dos novos bacharéis, perfeitamente cônscios do sentido do “presente precioso” referido pelo paraninfo, Prof.Andrio Portuguez Fonseca..
Ilustríssimos componentes da mesa, queridos colegas formandos, senhoras e senhores.
No último dia do ano letivo de 1905 um estudante de 17 anos foi chamado ao púlpito do auditório da Academia Smith, nos EUA ,para fazer o discurso de formatura. Seu nome era Thomas Stearn Eliot. Ele era então um jovem promissor, e decerto seus colegas e professores esperavam muito dele. O que talvez ninguém imaginasse era que o jovem Thomas viria a ser considerado como um dos maiores poetas do século XX, figurando na história da literatura sob o nome de T. S. Eliot. Naquele momento, entretanto, era apenas o jovem Eliot – um garoto que dava seus primeiros passos no caminho da vida.
E foi com a decisão de quem dá um passo largo porém firme e animado por uma profunda convicção em si que o então jovem Eliot disse as seguintes palavras:
“De pé junto à praia que todos conhecemos
Hesitamos em dúvida por um momento
Depois, com uma canção nos lábios, velejamos
Pelos baixios da enseada – sem mapa para indicar
Sem luz para iluminar as rochas do fundo
Mas concedei ainda que nos aventuremos.
Como colonos que embarcam no cais
Em busca de fortuna numa praia distante
Bem sabem que perdem aquele tempo
Que jamais haverão de resgatar,
E quando partem compreendem cabalmente
Que, ainda que revejam sua terra natal
Não mais ali serão como cidadãos
Embora a senda seja lenta e tortuosa
Embora se crispe diante de mil temores
Ao olho crédulo da juventude ela parece
Uma vereda onde florescem o pilriteiro e a rosa.
Esperamos que assim seja; pudéssemos sabe-lo!
Pudéssemos contemplar os anos vindouros.”
Temos aí uma convocação. Eliot compara seus colegas de academia a colonos prestes a embarcar rumo ao mar desconhecido que se lhes abre à frente. Pede que sejam corajosos, que agüentem a senda “lenta e tortuosa” sem mapa nem guia ou sequer luz para lhes iluminar o caminho.
Não há promessas de se chegar ao destino desejado: a falha é um elemento presente, e por isso diz: “hesitamos em dúvida por um momento”. Mas isso é passageiro. Embarcam “com uma canção nos lábios”, sem medo do que lhes aguarda. E mesmo sem promessas ou perspectivas definidas, o jovem Eliot projeta:
“Daqui a muitos anos, quando já formos
Velhos e grisalhos, qualquer que seja a nossa sorte,
Desejaremos contemplar ainda o sítio que,
Pouco importa o que sejamos ou o que houvermos feito,
Ou em que terras distantes possamos ter estado,
Nunca esquecemos depois de todos estes anos”.
Eliot está certo de que a viagem terá volta: está certo de que os “colonos que embarcam no cais” a ele retornarão. Está, em uma palavra, confiante.
O poema declamado não ficou esquecido numa gaveta, junto a fotos antigas, bilhetes que nunca encontraram destino e cadernos dos tempos de colégio. Considerou seu autor que mereciam a recompensa suprema da permanência: afinal, só importa aquilo que permanece, e permanece aquilo que importa. Juntou-o a outros escritos da mesma época num só volume e deu-lhe singelo e revelador titulo: “Poemas escritos na primeira juventude”.
Ali encontramos o frescor, a vontade de enfrentar o novo, a celebração da vida tudo o que se pode esperar da primeira juventude. Mais do que tudo isso, entretanto, encontramos confiança: confiança do jovem no futuro, no sucesso, em si mesmo, no que é e no que poderá ser. Ousamos dize-lo: se há uma palavra que transparece na leitura deste poema – e usar apenas uma palavra para resumir Eliot é, no mínimo , ousadia – , esta palavra é “confiança”.
O tempo passou. Eliot já não está entre nós. Suas palavras, no entanto, permanecem vivas: afinal, só importa o que permanece, e permanece o que importa. Tal como ele e seus colegas, portamo-nos de pé “junto à praia que todos conhecemos”, à espera da “senda lenta e tortuosa”. E se nos é permitido pensar, em mais um arroubo de extrema ousadia – pois é momento de sermos ousados – , que podemos ter algo em comum com o autor deste poema, que seja num só aspecto de sua genial personalidade: o da confiança. É assim que desejamos portar-nos agora: confiantes no caminho que vamos percorrer.
A confiança nos será uma companheira valiosa. Se caminho aberto diante de Eliot se avizinhava lento e tortuoso, não o será menos o nosso. Ousemos novamente – pois, como dissemos, é momento de sermos ousados – e digamos logo: nossa senda é ainda mais tortuosa e mais difícil do que a dele. Eliot e seus colegas vislumbravam o mundo pronto que diante deles se abria, o mundo com suas cores, sons, silêncios, fúrias, alegrias tristezas, vibrações – um mundo para ser visto, saboreado, conhecido, contemplado com olhos de menino admirado e assustado ante o novo. Diante de nós abre-se outro caminho: o mundo que encontramos não está aí apenas para ser contemplado com os olhos de meninos assustados. Já não estamos na primeira juventude. Não, o mundo que encontramos agora nos impõe uma tarefa – uma missão. Recebemo-la desde o momento em que entramos pela primeira vez no portão da faculdade como alunos de Direito. Ali, começamos a nos preparar para este momento de partida para o mundo – e foi um longo preparo.
Começamos investigando os fundamentos da ciência jurídica, do Estado e da Constituição, a fim de assentarmos a base sobre a qual erguer-se-ia o monumental edifício; depois, empreendemos o estudo da sociologia, do Direito Civil e dos Direitos Fundamentais, diretrizes-mestras para os homens viverem em harmonia: até este momento somos primeiranistas e o Direito se nos parece uma lindíssima discussão entre alguns dos maiores nomes do pensamento humano; a seguir, como que para coroar nossa entrada no mundo mais duro dos adultos, vemos os contratos e as obrigações – o que só é facultado aos adultos – e os primeiros passos de processo civil. Assim seguimos no estudo das relações familiares, que é coisa de adultos mas exige que entendamos um pouco aqueles que ainda não são adultos; entra o terceiro ano de faculdade e adentramos com força nos domínios da propriedade, do capital e do trabalho: estudamos a empresa, os títulos de crédito, o direito das coisas e o direito trabalhista. No quarto ano, já somos suficientemente grandes para confrontarmos o Direito Penal e descermos aos subterrâneos da espécie humana guiados por nossos professores, como Dante guiado por Virgílio pelos subterrâneos do mundo. No último e derradeiro ano somos levados para o alto, para longe destas profundezas – estudamos as impessoalidades do Direito Administrativo, do Direito Econômico, do Direito Tributário, Societário e Internacional. Nestas alturas terminamos nossos anos de formação – tudo mediado e facilitado pela amizade e pela convivência com os colegas que se tornaram nossos amigos nestes anos todos. Antes, falávamos por nós e agíamos por nós. Hoje, falamos por nós e por todos aqueles que desde a aurora dos tempos ajudaram a fazer do Direito não apenas uma ciência mas uma realidade concreta, e do estudante de Direito e do jurista promotores desta ciência e desta realidade. É esta régua pela qual seremos medidos daqui para frente. Nada mais, nada menos.
Ser medido por esta régua é difícil. É difícil também mantermo-nos dentro de seus limites. O mar que se nos abre à frente é cheio de perigos. Suas águas revoltas não perdoarão marinheiros mal preparados e navios mal construídos, e sua imensidão guarda terras ignotas, perigosas e viciadas. Camões parecia saber disto ao exortar seus compatriotas a dilatar a fé e o Império. Também nós, a cada metro que vencermos em alto mar, estaremos dilatando o Império do qual nos fizemos súditos e da fé em que fomos batizados durante nestes anos de formação: a fé na Justiça e o Império da lei.
É claro que esta empresa não se conseguirá por espasmos de grandiosidade, e não fincará solo pelas simples palavras. Serão os nossos atos cotidianos, pacientes, aparentemente simples que levarão a termo a tarefa que recebemos. As vicissitudes da vida nos levarão para trajetórias diversas. Se hoje, aqui sentados, estamos um ao lado do outro, sabemos no fundo que, no futuro, não será mais assim: sabemos, no fundo, que chegará o momento em que, perdidos em alto mar, cercados de perigos, olharemos para o lado e não mais veremos a face amiga de nossos companheiros de fé. Chegará, sim, o momento em que nos sentiremos solitários em alto mar. Pareceremos então sozinhos, desconectados um do outro. Apenas pareceremos. Estar junto nada mais é do crer nas mesmas coisas. E nós, daqui para diante, se agirmos conforme a fé que recebemos e dilatarmos o Império que habitamos, mesmo que não vejamos uns aos outros, estaremos juntos para sempre. Mas é preciso que, contra vento e maré, dilatemos a fé e o Império.
Eis a missão que nos é dada hoje, nesta noite.
É então chegada a hora da partida. Da praia que todos conhecemos avistamos o mar revolto que iremos enfrentar. Estamos munidos da graça concedida, da fé que professamos, do aprendizado que recebemos, do estandarte do Direito a ser carregado por onde estivermos e fincado onde ele não imperar. Já é ousadia suficiente. Mas o momento, repetimos, é dos ousados. E por isso, ousamos pela terceira vez. E ousamos agora fazer um pedido – um longo pedido Àquele que, acreditamos – ao menos aqueles que acreditam – , será capaz de atendê-lo. Pedimos que a travessia que fizermos, conquanto longa, seja repleta de todo o melhor que uma travessia pode trazer; que ela sirva para pôr em prática o que aprendemos, e para que aprendamos ainda mais; que o passar do tempo não nos transforme no futuro em simples ex-colegas de faculdade; que as tempestades que enfrentarmos não nos impeçam, e que as dificuldades não nos endureçam – que permaneça entre nós um pouco deste nosso olhar de meninos assustados e admirados diante da vida, um pouco do que nos resta da primeira juventude; e que, ao reunirmo-nos de novo nesta praia, restem apenas as melhores lembranças da longa travessia. E que nunca, nunca, deixemos de confiar – no que aprendemos nestes anos de formação, no que aprenderemos no caminho que escolhermos e, principalmente, e ao fim de tudo, no que somos. Pois só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa.
Muito obrigado.
Programa “Diálogo” – número 3 – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
Neste segundo programa “Diálogo”, eu e meu amigo Marcus Boeira abordamos a publicação do livro “”A Natureza da Democracia Constitucional”.
Desde já, agradecemos a audiência e aguardamos manifestações dos leitores.
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
“Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Astier Basilio é um homem dedicado à palavra. Poeta, filho de repentista, pode, como poucos, entoar o que escreveu José Hernandez em “Martin Fierro” sem soar falso: Cantando me he de morir/ cantando me han de enterrar / y cantando he de llegar / al pie del Eterno Padre / Dende el vientre de mi madre / vine a este mundo a cantar. Jornalista há quase duas décadas, contista há mais ou menos o mesmo tempo, nunca trabalhou até hoje em nada que não estivesse direta ou indiretamente ligado às letras. Com 9 livros publicados e preparando mais um, nada indica que as coisas irão mudar. Nesta entrevista – conduzida, numa curiosa coincidência, no dia 20 de outubro, o dia do poeta – o tema não pode ser outro que não a palavra, seja na forma da poesia, da música, do romance, seja a dos outros, seja a sua própria. A palavra que, como disse Georg Steiner, está em crise.
A poesia te acompanha desde quando?
Astier Basilio: Olha, sou filho de repentista. Meu pai e meu tio não só improvisavam ao som da viola, como escreviam folhetos de cordel. A poesia chegou pra mim pela vertente popular. Eu sabia que minha vida estaria ligada a isso. Então, comecei a escrever aos 14 anos. E como a poesia popular era, e é, muito ligada à métrica, à rima, comecei a escrever muito atrelado às escolas tradicionais como o simbolismo, o parnasianismo e o romantismo. Aos 14, publiquei meu primeiro poema; aos 18, meu primeiro livro.
Não posso deixar de lembrar do velho Gerardo Mello Mourão, que dizia ser o repentista o aedo do sertão, no sentido de captar aquele sopro ‘homérico’, que é o sopro da grande poesia popular de todos os lugares. Diante disso, pergunto: acredita na separação radical entre poesia e música?
AB: Eu só sou poeta porque eu não consegui ser cantador. Tive resistências em casa, da minha mãe. Ela queria que eu estudasse. Aos 23 anos, já formado, com alguns livros publicados, comecei a cantar, algo que faço até hoje, mas de maneira amadora e por diversão. De modo que há uma referência muito forte da tradição oral, desde algo mais direto, como o ritmo e a musicalidade, até num via mais complementar, como é o caso da investigação que venho fazendo da rima toante. Mas te respondendo e parafraseando Nietzsche: não acredito em um poema que não saiba cantar.
Qual a sua formação acadêmica?
AB: Cursei, ao mesmo tempo, jornalismo e letras. Estudei literatura o tempo todo na minha graduação, mas peguei o diploma de jornalismo. A base da minha formação veio de Letras, isso do ponto de vista teórico, mas foi o ambiente do curso, com o que há de pior, de politicagem, que me afastou de prosseguir na vida acadêmica… por outro lado, comecei no jornalismo pela opinião. Antes de ir para redação, onde ainda hoje atuo, comecei fazendo crítica literária, então, a minha base em Letras serviu de porta de entrada para o jornalismo
Onde trabalhou com crítica literária?
AB: Comecei escrevendo no suplemento Painel, do jornal da paraíba – isso em 2000 – depois, colaborei em quase todos os jornais da Paraíba – A União, no suplemento Idéias, no Correio das Artes, e no Diário da Borborema. Sempre fazendo crítica literária
Fala um pouco disso – fazer crítica literária num país como o Brasil. Onde, depois da morte de Wilson Martins, fica difícil encontrar – ao menos na chamada “grande imprensa” – um verdadeiro crítico.
AB: É algo que te coloca no mundo literário, sem dúvidas. Estabelece uma ligação com quem está produzindo no país todo e, o que é muito importante, cumpre um papel social, público, de apresentação da literatura contemporânea. Há uma espécie de fraternidade secreta, sobretudo, entre os poetas e os que escrevem sobre. Uma brigada de resistência. Poetas não ganham dinheiro com seus livros. Então, é algo maior que conecta todas estas vozes. Há muita beleza nisso. Creio que, o lugar da crítica fica quase como uma militância exercida pela própria poesia: a de continuar, a de resistir num mundo que tem banido cada vez mais a reflexão
Nesse sentido, tu acreditas na crise da palavra, de que nos fala o George Steiner?
AB: Não só a palavra, mas tudo está em crise, em crise permanente. Hoje, na redação, curiosamente, uma colega me leu, em um site, a notícia de um pastor que proclama o fim do mundo para esta próxima sexta. Conjecturei que, de alguma forma, desde o Éden se prenuncia esse fim. Como na verdade veio. O mundo do paraíso acabou. O mundo pós paraíso também, com o dilúvio. Enfim, a todo instante o mundo está começando e a acabando.
E a poesia ajuda nesse processo de refundação, por assim dizer? É um dos papéis dela?
AB: Acredito que sim. Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar. Ainda hoje, alguém se colocar no mundo como poeta – isso do ponto de vista sociológico, vou nem falar estético, por aí é outro discurso, é um milagre.
Entendo. Mas também á uma responsabilidade, não é? Para apresentar-se como poeta é preciso sê-lo de fato. Isso não ajuda a restringir o uso da palavra “poeta’ para definir a atividade pública de alguém?
AB: Eu vejo a coisa até do modo mais simples. Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda. Não sei se temos, já impregnado, a noção hierárquica de Pound, em sua classificação de ‘inventor’, ‘mestre’, ‘diluidor’… Temos uma certa aristocracia, uma postura elitista – que eu acho importante do ponto de vista estético. Sim, há poetas e poetas, uns melhores ue os outros. Mas o contexto a que me refiro é o contexto de inserção do ser poeta dentro uma sociedade, acredito que, aí, o parâmetro é outro
Só queria umas palavras a mais acerca disso – “Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda”
AB: Num mundo hoje em que jovens estão se acabando em drogas, sem perspectiva de vida, numa sociedade cada vez mais brutalizada e tal, alguém que diante do mundo se afirme como poeta, mesmo que escreva ruim, mesmo que seja alguém que esteticamente esteja bem aquém do que a linguagem poética conquista, esse alguém, no lugar em que ele estiver, na circunstância em que ele estiver agindo, vai ser um agente poderoso. Neste sentido, eu que acredito na aristocracia da estética, na hierarquização, mesmo subordinada e assentada em valores muito subjetivos, mesmo assim, eu não tenho a postura excludente e negativa em relação a quem se diz poeta no mundo de hoje. É sob este olhar que eu celebro a poesia, mesmo a ruim. Aliás, poetas ruins, poemas ruins, são regra, a poesia poesia é sempre exceção. Mas não só com a poesia funciona isso, com a arte de um modo geral. A boa peça, a boa música, o bom romance, são figuras de exceção numa horizonte de mediocridade. Os medíocres venceram. Eles são muito mais competentes do que quaisquer outros. Não só venceram como se adaptam bem em qualquer lugar. Mas o tempo é o mais cruel dos críticos. Por mais que os medíocres se deem bem, o esquecimento é algo que lhes espera.
Nesse sentido, a pergunta se impõe: o Brasil é um lugar onde o medíocre se adapta melhor? Ou a nossa mediocridade não é melhor nem pior do que a mediocridade alheia?
AB: Tenho pra mim que a mediocridade é universal. Salieri sempre vai ser o músico oficial da coorte. É difícil dar uma visada tão ampla, mas me lembro de uma entrevista que li há muito tempo, ainda havia guerra fria, em que um escritor, talvez o márcio souza, questionou a qualidade literária do presidente da associação dos escritores da União Soviética, então, o russo devolveu de modo cruel: “e aí no Brasil? CArlos Drummond dirige a UBE?” – então, por outro lado, os Carlos Drummond vão estar sempre compromissados com algo que vai além do temporal, as coisas do agora, ficam com os medíocres. Mas, por outro lado, e eu vejo isso mais em ficção do que em poesia, é possível se fazer muito barulho, muito festa em torno de autores com qualidade muito limitada, mas, de certa forma, tem de se ver a época em que estes autores estão escrevendo, não é? Veja, no cinema por exemplo, um cara como um Tarantino, que é considerado, e é, um grande cineasta, se tivesse nascido nos anos 60, morreria de fome… Já imaginou, no mesmo ano você ter obras-primas de caras como Godard, Bergman, Fellini… então, depende muito do contexto e do tempo histórico que a gente está falando
Quais poetas brasileiros vivos destacarias?
AB: Há autores que têm uma ligação com a tradição da lírica ocidental que eu destacaria: Ivan Junqueira, Alexei Bueno, Antonio Carlos Secchin, Marco Lucchesi, isso sem falar em Ferreira Gullar, Adélia Prado, apesar das repetições, Manoel de Barros. gosto também da poesia dos grandes autores nordestinos, de Alberto da Cunha Melo, único falecido que eu acrescentaria à lista, além de Nauro Machado, José Chagas, no Maranhão, Francisco Carvalho, Sânzio Azevedo, os irmãos Virgílio Maia e Luciano Maia
Vários destes nomes que tu citaste são relativamente mais jovens, como Alexei Bueno e Marco Lucchesi, e devotos da tradição. Não são os únicos. Dá para dizer que existe uma corrente de poetas brasileiros na casa dos 40 anos que defende esse retorno?
AB: Acredito que sim. Mas, veja só, mesmo Haroldo de Campos, atendo-se aos últimos trabalhos dele, como “crisantempo” e “a máquina do mundo repensada” esse retorno se efetiva e mesmo Augusto de Campos também experimenta o verso, as potencialidades dele. Agora, Deus criou o mundo, o diabo as cercas… então, há uma série de contingenciamentos, de demarcações e isso em poesia é muito evidente que criam facções, estabelecem dissensões, o que não me interessa por completo. Mas, respondendo objetivamente, há, sim, autores experimentando as potencialidades e todo o arsenal técnico da tradição. João Cabral é o melhor exemplo ocorre que ele, como Machado, foi sequestrado – Machado pela esquerda universitária João Cabral pelos concretos, mas, tanto um como o outro estão para além disso e dos grupos que os prenderam para si.
Acha que isso acontece com outros autores?
AB: Sim. Guimarães Rosa, Glauber rocha, conseguem ser o herói de tribos rivais, o que é prova de gênio. Nestes casos, há superfície e profundidade, e em geral, uns ficam em uma parte da obra. Faz tempo que sai da academia, mas era a impressão que eu tinha. Acredito que é mais visível com machado. Da mesma forma como o embranqueceram no começo do século, agora, puseram-lhe a camisa do ‘Che’ o punho erguido e o slogan: “a luta continua”. Se o velho Bruxo pudesse ver isso, estaria a mangar do periferia do seu cinismo.
Apesar desses nomes todos, Não temos vivos um Drummond, um Bandeira, um Cabral de Melo Neto, certo?
AB: Não, não temos
E já tivemos. Os três, vivos. Nos anos 50, 60.
AB: E nem no romance, não temos ninguém como Guimarães Rosa, José Lins, Jorge Amado
Sim, nem esses no romance. Eu não saberia dizer que é o grande romancista brasileiro hoje.
AB: Há duas grandes expressões da prosa: Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que há décadas escrevem o mesmo livro – o mesmo bom livro, mas o mesmo livro. E o Milton Hatoum é bom-moço demais para mim.
Entao, estamos autorizados a falar em queda de qualidade?
AB: Olha, eu não iria a tanto. Há, potencialmente, escritores muito bons que eu acredito ainda renderão o seu melhor. Penso em Michel Laub, Marçal Aquino, Ronaldo Correia de Brito, Diter Stein, Ricardo Lísias, há um potencial. Agora, acho que não sei se vamos reviver um fênomeno como o romance de 30, por exemplo. por que nós falamos do romance de 30 com os olhos de hoje, não com os daquela época. mas houve uma série de autores menores que disputavam espaço e que apostavam a permanência deles. gente que sumiu na poeria do tempo. eu sempre me recuso a olhar o passado com candura, e, de algum modo, por mais que eu reconheça as precariedades do nosso tempo, não me sinto à vontade com esse discurso não. é preciso tempo, formar-se uma espécie de caldo cultural.
E quanto à poesia popular? Acha que um poeta deve aproximar-se dela, pelo menos como forma de conhecimento das variantes da linguagem poética?
AB: É difícil para mim dar esse tipo de depoimento porque eu não consigo me ver como alguém de fora. eu sempre pertenci a este mundo. Mas acho que, na medida em que for verdadeiro para o poeta, para sua história, sim. Pra mim, como tu disseste, ela foi um grande ensinamento. Tive a sorte, a felicidade, de me encontrar com ela, de em muitos momentos da minha vida ter a poesia popular muito próximo, mas acho que, de uma maneira ou de outra, a poesia tem de se sujar de vida. De verdade. Eu vejo muitos poemas por aí que fedem a limpo, a laboratório. Parecem sem sangue, sem carne, sem história. Acredito na poesia que tenha, sim, uma expressão de experiência. A gente cita muito o verso de cecília “poesia é grito, mas grito transfigurado”.olhando muito pro “transfigurado”. Mas não dá pra esquecer q poesia é, sim, primeiramente, grito. E a expressão desse grito tem de ser muito peculiar, muito particular. Ah, nisso, acredito que sim, há um universo muito rico de possibilidades. E penso, sobretudo, em grandes expressões da literatura no mundo que se valeram do repositório popular como Shakespeare, Lorca, etc
Recife frio
Excelente curta dirigido por Kleber Mendonça Filho.
A Jornada dos Magos

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália
T.S. Eliot escreveu “A Jornada dos Magos” em 1927, para uma série de cartões ilustrados da editora Faber and Gwyer (atual Faber and Faber) intitulada “Poemas de Ariel”. Escreveu-o pouco depois de ter se convertido ao cristianismo, a portas fechadas e sem alarde, para, dizem, não ferir as suscetibilidades do meio literário. A conversão acabou com seu casamento e trouxe-lhe a pecha de poeta cristão, altamente negativa em certos círculos: deixou-nos, no entanto, esta página e muitas outras: escrito sob o ponto de vista de um dos três Reis Magos a testemunhar o nascimento de Jesus, “A Jornada dos Magos” é, até certo ponto, testemunha do momento vivido pelo próprio Eliot – momento que, creio, é o mesmo para todos os convertidos.
Aqui está uma leitura do poema feita por Eliot, precedida de uma breve explicação.
A tradução é de Ivan Junqueira.
* * * * * * * *
“Foi um frio que nos colheu
Na pior quadra do ano
Para uma viagem, e longa era a viagem:
Os caminhos enlameados e o tempo adverso
Em pleno coração de inverno.”
E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,
Jaziam em meio à neve derretida.
Foram momentos em que recordamos
Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,
As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.
E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam
E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.
E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,
As cidades hostis, as vilas inóspitas,
As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.
Foi uma rude quadra para nós.
Ao fim preferimos viajar à noite
Dormindo entre uma e outra vigília,
Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo
Que aquilo tudo era uma loucura.
E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,
Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,
Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,
E três árvores recortadas contra o céu baixo,
E um velho cavalo branco a galope pelo prado.
E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;
Seis mãos se viam pela porta entreaberta
A disputar peças de prata com seus dados,
E pés que golpeavam os odres já vazios
Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos
Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,
E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.
Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,
E outra vez o farei, mas considerai
Isto considerai
Isto: percorremos toda aquela estrada
Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,
Tinhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,
Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,
Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.
Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,
Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,
Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.
Uma outra morte me será bem vinda.
Le Théâtre du Soleil em Canoas -Inesquecível
Não faz muito tempo, assistia distraída à programação da televisão quando uma espécie de documentário me chamou atenção, me fez parar de apertar os botões do controle remoto. Relatava as experiências de um grupo de teatro francês e mostrava o local onde estava se instalou, qual seja o Bosque de Vincennes, na Cartoucherie - antiga fábrica de munição perto de Paris. Fiquei assistindo encantada ao relato do grupo e, ao final, o programa mostrou os artistas embarcando em uma van rumo ao aeroporto para viajar para o Brasil. Lembro-me de ter ficado com uma pontinha de inveja, eis que imaginava que as apresentações seriam apenas no Rio ou São Paulo.
Quando ouvi a notícia de que o Théâtre du Soleil iria se apresentar em Canoas fiquei surpresa. Afinal, anos de baixa auto estima deixam sequelas. Imagina, Canoas receber um espetáculo desse nível. Com uma nova mentalidade, uma nova forma de encarar a cidade e seus habitantes, Canoas recebeu o Théâtre du Soleil e foi um sucesso.
Hoje à noite, Miss LouLou e eu, de posse dos dois preciosos ingressos conseguidos de última hora nos dirigimos ao Parque Eduardo Gomes para assistir ao que seria um inesquecível espetáculo teatral. E saímos dali quase quatro horas depois, com uma incrível vontade de assistir novamente aos Naúfragos do Louca Esperança. E ficaremos esperando ansiosamente pelo retorno do maravilhoso Théâtre du Soleil.
O espetáculo é diferente de tudo o que se pode imaginar. É impossível descrevê-lo em palavras. Engana-se quem pensa que os vídeos postados no youtube são capazes de refletir a magia vivenciada por quem o assiste ao vivo. Não traduzem sequer uma pálida parte do que significa a experiência. Todos sobre o palco são, ao mesmo tempo, atores, assistentes de palco, iluminadores, músicos, acrobatas, em suma: multifuncionais. A neve provém de uma imensa peneira, erguida por dos cabos de aço e balançada quando a cena do filme produzido por Jean, um dos personagens principais, exige efeitos de tempestade. O vento é proporcionado por um ventilador, manuseado por um dos atores da peça, e seu efeito é potencializado por fios presos às vestimentas dos personagens e puxados, em ritmo de vento, por outros atores. A música, a iluminação, a legenda (em português) projetada sobre o cenário, tudo tecnicamente perfeito. Inexiste improviso. Cada parte, cada cena, mostra-se meticulosamente ensaiada, com sincronia perfeita entre as frases proferidas em francês e as legendas, em português, projetadas sobre o cenário.
Todavia, a técnica não se sobrepõe à magia. Por mais absolutamente ensaiado e sem nenhum reparo, “Os Náufragos do Boa Esperança”, ainda assim, consegue se destacar, principalmente, por seu despojamento, pela sensação de liberdade e magia que proporciona ao espectador. Definitivamente inesquecível.
Atores se preparando à vista do público
Personagem parado na entrada do publico parecendo um recepcionista.Sensacional
Inesquecíveis personagens
Ariane Mnouchkine entre os atores recebendo o reconhecimento do público
Natal na praça
Chegamos para assistir as apresentações programadas para abertura do Natal da Transformação em Canoas/RS quando a primeira atração começava seu número nas escadarias do Paço Municipal. Os Trovadores do Natal, do Grupo teatral de Pernas pro Ar, proporcionaram momentos alegres e divertidos para os que estavam na praça em frente ao prédio da prefeitura.
Na Ipiranga foi montado o palco principal e foi ali que ocorreram as apresentações seguintes, iniciando com a Orquestra de Câmara Teatro São Pedro juntamente com o Coral de Canoas, Coro Porto Alegre e a soprano Gabriela Di Laccio. Belos momentos.
Assistir Kleiton e Kledir é sinônimo de diversão e alegria. Para mim, ouvir a dupla cantar Vento Negro me faz voltar no tempo nos idos de minha adolescência, passada no Colégio Maria Auxiliadora, quando era considerado perigoso cantá-la. Mas cantávamos e cantei ontem. Logicamente, “Deu pra Ti” foi pedida e cantada em uníssono, bem como Vento Negro e “Vira Virou”, esta com a participação especial do Coral das Artesãs.
O ambiente estava perfeito, o que se percebia nas expressões das pessoas em nossa volta. Aliás, maravilhoso reencontrar pessoas amigas e queridas que a vida atribulada da Canoas frenética não nos permite ver com frequência, mas são reafirmação de que quando os laços são verdadeiros tempo e distância não são capazes de os romper. Bom humor e gentileza que inclusive permitiram que quando um de nossos integrantes sentiu dificuldade em permanecer de pé,face problema no joelho, fosse prontamente acolhido dentro do prédio da prefeitura por uma solícita vigilante que, certamente, foi contagiada pelo espírito natalino. E lá ficou ele bem instalado em uma das poltronas do saguão, enquanto assistíamos ao restante do show.
O prefeito Jairo Jorge subiu ao palco confessando que sempre gostou do Natal e sempre quis ser prefeito de Canoas e, por isso, sentia especial prazer naquele momento. Homenageou os trabalhadores do Natal da Transformação, anunciou a chegada do Papai Noel e…acenderam-se as luzes ao som de Noite Feliz. Lindo ver a praça iluminada, bem como a XV de Janeiro e o prédio da prefeitura.
Voltei para casa feliz como é característico de quando se vivencia bons momentos . E pretendo, munida de minha câmera, sair hoje à noite para fotografar as luzes que enfeitam o Natal de Canoas.
Praça em frente ao Paço Municipal
Créditos: Ireno Jardim
PS: fotografamos e filmamos como se pode constatar abaixo.
Praça do Avião
Créditos: Blog Perspectiva
Praça da Emancipação
Читать не вредно. Вредно не читать ou Ler não é ruim. Ruim é não ler
A editora russa EKSMO realizou um concurso sob o título Ler não é ruim. Ruim é não ler. O vencedor foi o trabalho Читать не вредно de Anastasia Gorbunova.
O melhor jogador dos últimos 20 anos
Aproveitando o ensejo do momento, que confirma e sustenta a nossa escolha, o Blog Perspectiva gostaria de homenagear o maior jogador de futebol dos últimos 20 anos – ao lado de Zidane e Romário, mas merecedor de menção especial por ter brilhado em clubes muito pequenos e ter jogado numa seleção muito menos prestigiada.
Levou o pequeno Steaua Bucaresti, da paupérrima Romênia, a ser campeão europeu em 1986, semifinalista em 1987 e vice campeão em 1988, numa era dominada por clubes como Milan, Juventus e outros do mesmo calibre. Pelo Galatasaray, anos depois, foi campeão da Copa da UEFA, levando o clube turco ao seu primeiro grande título.
Dele disse Luis Fernandez, ex-jogador francês: “Hagi é como o vinho, fica melhor a cada ano que passa”.
Provavelmente por isso retirou-se em 2001, aos 36 anos: percebendo que ficaria demasiadamente acima de seus adversários, achou a comparação injusta e deixou o futebol moderno para aqueles que o merecem.
A Igrejinha de São Damiao
De cada riso e dor
De cada espinho e flor
Construo a casa do meu senhor
Com o que o mundo abandonou
De cada pedra do chão
Construo o templo do coração
A cada dia que vem
A cada dia que vai
Ergo em mim a casa de meu Pai
Programa “Diálogo” – número 2 – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
Neste segundo programa “Diálogo”, eu e meu amigo Marcus Boeira abordamos o tema do totalitarismo moderno.
Desde já, agradecemos a audiência e aguardamos manifestações dos leitores.
Zona Azul em Canoas
A escassez de vagas para estacionamento no centro de Canoas fazia com que um grande número de canoenses somente comparecessem ao local quando estritamente obrigados. Este era o meu caso: somente ia ao centro quando não era possível deixar de fazê-lo. Preferia fazer compras em Porto Alegre quando os estabelecimentos do Shopping não satisfaziam minhas necessidades. O centro de Canoas era uma alternativa utilizada apenas em casos específicos e nessas situações me sujeitava a pagar estacionamento em torno de R$ 4,00 por hora.
Os primeiros dias de funcionamento da Zona Azul já mostram um perfil diferente das vagas de estacionamento no centro da cidade. Os lugares vagos deixam claro que é muito melhor pagar R$2,50 por duas horas e encontrar vagas do que sujeitar-se aos R$4,00 por hora cobrados por locais destinados a estacionamento, nem sempre perto de onde pretendemos ir. Sempre lembrando que invariavelmente se circulava em torno das ruas centrais procurando vagas antes de sujeitar-se aos estacionamentos lotados e mal projetados. Gasto de tempo e gasolina.
Gostei do sistema implantado em Canoas.Democratizou o espaço e contribui para que o centro volte a ser para todos canoenses.
Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora
Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora
“Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se para o Ensino Superior.
Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.
O Timoneiro: Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?
Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.
OT: Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.
CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.
OT: A idéia é mapear toda a cidade?
CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.
OT: Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?
CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade. Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.
OT: Quais disciplinas ministrou?
CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.
OT: Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?
CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.
OT: Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?
CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido, foi condenada e foi para a prisão. Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.
OT: Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?
CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.
OT: Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?
CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.
OT: E não são vozes iguais.
CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.
OT: Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?
CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia, mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.
OT: A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…
CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.
OT: Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?
CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim, muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.
Oficina de Criação de Textos
Meu amigo Daniel Mello me informa que está ministrando uma Oficina de Criação de Textos. Destinada a estudantes, profissionais de qualquer ramo de atuação e apreciadores da escrita, a oficina contará com grupos de até seis pessoas, de modo a dar um atendimento individualizado e eficaz para todos os participantes.
Serão quatro encontros, todos às terças-feiras – entre 19h20min e 21h50min- a partir do dia 25/10, exceto dia 15/11 – feriado. Turma aos sábados com início no dia 29/10 – sempre entre 11h e 13h30min, também quatro encontros exceto no dia 12/11 – feriadão.
As aulas serão na sede da GoMarket – Rua General Câmara, 432 – Sala 302 – Porto Alegre/RS.
O valor do curso é de R$ 380,00 para as 10h de aula em grupo e mais 2h de aula individualizada.
Reserva de vagas pelo fone (51) 3224-0046 ou pelo e-mail gomarket@gomarket.com.br.
Mais informações pelo blog do Daniel.
Dica para Rafinha Bastos
Para quem quer aprender a fazer humor “politicamente incorreto” de verdade.
Entrevista: Deise Cristina Padilha “A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão”
A Jornada Mundial da Juventude foi realizada em Madrid, Espanha, entre 16 e 21 de agosto deste ano e reuniu em torno de 2 milhões de jovens de 182 paises diferentes. Uma delas foi a arquiteta canoense Deise Cristina Padilha. Participante de movimentos de jovens da Igreja Católica desde os 13 anos, tendo desempenhado a função de catequista na Paróquia São Luiz, em Canoas, Deise faz parte de uma nova geração de jovens católicos caracterizada pela tendência missionária, seguindo o conselho do papa Bento XVI de “ levar a fé a outras terras e países onde há multidões de jovens que aspiram a coisas maiores, vislumbrando nos seus corações a possibilidade de valores mais autênticos, e sem deixar-se seduzir pelas falsas promessas de um estilo de vida sem Deus”. Na entrevista a seguir, Deise falará da sua experiência na Jornada, da relevância deste evento para os católicos do mundo todo e do que a Igreja tem a dizer aos jovens cristãos.
Em primeiro lugar, Deise, queria que falasses um pouco da tua participação dentro da Igreja Católica. É algo que sempre te acompanhou?
Deise Padilha: Sim, sempre participei com meus pais e desde muito nova tomo parte de grupos de jovens. É algo que sempre fez parte da minha vida.
Como tu vês a inserção de um jovem que aceita e proclama os valores ligados à Igreja em uma sociedade que, muitas vezes, não está de acordo com eles?
DP: A inserção nem sempre é automática e nem sempre é fácil. Também por isso a Jornada Mundial da Juventude é importante. Tu vês pessoas com valores iguais aos teus e que afirmam esses valores em algo e bom som. Às vezes, as pessoas têm os valores, são cristãs, mas não afirmam, porque parece que estão sozinhas. A partir do momento em que tu vês pessoas que vivem os valores da Igreja e vibra pelas coisas da Igreja e pelo papa tu te sentes, de certa forma, revigorado.
Isso entra um pouco já na questão dos objetivos que a jornada tem. Fala um pouco deles.
DP: A jornada tinha por tema “Arraigados em Cristo e firmes na Fé , o que , de certa forma, já explica qual é o objetivo dela. Como disse o papa, é trazer um novo ar, uma nova confiança para o jovem cristão atuar no mundo.
A Jornada Mundial da Juventude não é uma iniciativa nova, não é?
DP: Não. Ela existe desde 1985. Foi iniciativa do papa João Paulo II, que sempre marcou o pontificado dele por uma ligação próxima aos jovens. Inclusive chegaram a pensar que o Bento XVI, quando assumiu, não fosse ter a mesma ligação com a juventude, mas não tem sido assim.
Quais as principais atividades realizadas na Jornada?
DP: Muitas coisas. Madrid ficou toda preparada para esperar os visitantes, foi uma mobilização muito grande da cidade. Museus, palácio, todas as igrejas, enfim, tudo ficou aberto para receber os jovens da jornada, para visitação e para os peregrinos. Visitei muitas igrejas. Um dos locais que mais me chamaram a atenção foi a festa do perdão, que tinha como objetivo principal chamar os jovens para um reencontro com Deus. Havia confessionários destinados a pessoas em várias línguas, com um sacerdote escolhido para falantes de cada idioma. Tomamos partem em várias atividades,mas era tudo cronometrado também por causa dos encontros com o papa, que eram muito freqüentados e exigiam que sempre chegássemos cedo. Tivemos vários encontros,vários eventos e palestras .
Qual era a reação dos jovens de outros paises quando tu falavas que eras do Brasil?
DP:Era uma reação muito positiva, inclusive porque a próxima Jornada, em 2013, será aqui,no Rio de Janeiro. Quando eu andava com a bandeira do Brasil sempre havia alguém pedindo para trocarmos as bandeiras. Eram muito simpáticos a nós e havia sempre uma palavra a dizer sobre a alegria dos brasileiros.
A convivência com eles era próxima?
DP: A convivência mais próxima era com brasileiros, mas também tivemos uma grande interação com gente de outros países, conversando, trocando idéias e materiais daqui com eles. Foi muito bom ver a cultura dos outros, a característica de cada um, como todos são diferentes entre si e, ao mesmo tempo, se parecem em tantos aspectos. Os italianos, por exemplo, são bem alegres, estão sempre cantando. Tivemos gente de Israel, Cuba, da China e de vários outros lugares – aliás, no caso de Cuba e China é importante ressaltar que são paises onde as religiões não são bem vistas pelos seus regimes políticos e que, mesmo assim, os representantes desses países fizeram questão de vir. Encontramos uma menina de Cuba e perguntamos se ela viria ao Brasil em 2013 e ela disse que gostaria, mas que precisaria esperar para saber, pois sair do país era muito difícil. Só por aí já dá para termos uma noção de como era grande o empenho de muitos para ir ao evento.
Mas o contato mais próximo foi com brasileiros?
DP: Sim, foi mais com eles.
Te parece que a realização no Brasil de um evento desses pode ajudar a revigorar a presença da Igreja nas Sociedade Brasileira?
DP: Acho que sim. Um evento como a Jornada é algo muito impactante. São literalmente milhões de jovens de todo o mundo que escolhem o teu pais para passar uma semana e isso inclui, naturalmente, jovens do próprio país. Essa jornada será também uma oportunidade para jovens brasileiros de todos os cantos do país. Acho que a Igreja terá uma grande oportunidade de expandir-se no Brasil. É impossível não chamar a atenção e não provocar mudanças em quem participa. A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão.
Como avalias a experiência?
DP: Maravilhosa. Acho que é uma experiência que vale muito para qualquer jovem.
A jornada fala de jovens cristãos – não apenas de católicos.
DP: Sim, porque os compromissos de que fala a jornada não dizem respeito apenas aos católicos. Não é algo exclusivista. Os valores que são defendidos ali são os de Cristo e eles servem para todos aqueles que O vêm como Salvador.
Tiveste algum choque cultural?
DP: Bom, sempre tem coisas que a gente não acha que são tão naturais e que, para eles, são. Eu posso dizer que fui muito bem tratada e a minha relação com o pessoal da organização e com os outros jovens foi sempre muito positiva. O único senão que poderia apontar foram algumas manifestações que vimos contra a jornada em Madrid.
Tens algum plano de levar a experiência da jornada ao conhecimento de outros jovens?
DP: Sim, pretendo. O nosso objetivo é mostrar um pouco para os jovens o que foi essa jornada para entusiasma-los para a próxima. Ao mesmo tempo, é importante levarmos para os jovens daqui aquilo que vimos por lá em termos de dedicação e espiritualidade. São experiências como a que vimos daquela jovem de Cuba que servem para nós, que não temos essa mesma dificuldade, tomarmos consciência daquilo que os outros fazem para poderem participar. A Jornada também serve para mostrar que o jovem católico não está, por assim dizer, sozinho naquilo que acredita. O convívio com semelhantes, com pessoas com uma maneira de ver as coisas semelhantes à tua, é sempre bom e revigorante. E a jornada mostra jovens alegres, que estudam ou já têm uma profissão, como é o meu caso, gostam de se divertir e aproveitam cada momento da vida. Jovens normais,mas que têm um direcionamento especial para suas vidas, fundado no cristianismo.
As dez regras para ser um bom escritor, segundo Jonathan Franzen*
1- The reader is a friend, not an adversary, not a spectator.
2- Fiction that isn’t an author’s personal adventure into the frightening or the unknown isn’t worth writing for anything but money.
3- Never use the word “then” as a conjunction – we have “and” for this purpose. Substituting “then” is the lazy or tone-deaf writer’s non-solution to the problem of too many “ands” on the page.
4- Write in the third person unless a really distinctive first-person voice offers itself irresistibly.
5- When information becomes free and universally accessible, voluminous research for a novel is devalued along with it.
6- The most purely autobiographical fiction requires pure invention. Nobody ever wrote a more autobiographical story than “The Metamorphosis”.
7- You see more sitting still than chasing after.
8- It’s doubtful that anyone with an internet connection at his workplace is writing good fiction (the TIME magazine cover story detailed how Franzen physically disables the Net portal on his writing laptop).
9- Interesting verbs are seldom very interesting.
10- You have to love before you can be relentless.
*Escritor americano, autor de, entre outros, As Correções e Liberdade, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
Minha querência (Leopoldo Rassier)
Nossa singela lembrança do 20 de setembro.
“Nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição.”
A entrevista foi publicada no jornal canoense O Timoneiro
A entrevista que segue talvez traga alguma surpresa até mesmo àqueles pertencem ao feliz círculo de amigos de Carmo Francisco de Souza. Dentre os vários assuntos nela abordados, está a informação de que um dos maiores nomes do meio tradicionalista desta cidade, presidente da Associação de Entidades Tradicionalistas de Canoas,(ETC) ativo colaborador do MTG, músico e vencedor de mais de 250 troféus, foi, até a entrada na idade adulta, qualquer coisa menos um tradicionalista. Se algum de nós vasculhar os LPs mais antigos de Carmo provavelmente encontrará não discos de música gauchesca, mas sim do melhor rock´n roll dos anos 60 – Beatles, Rolling Stones, Roberto & Erasmo; da mesma forma, se vasculhar as fotos antigas não encontrará um pequeno Carmo pilchado, ou um jovem se preparando para tocar acordeão numa festa típica: encontrará, muito provavelmente, um típico magro cabeludo, com calça boca-de-sino e uma guitarra – elétrica – na mão. Sim, senhores: o jovem Carmo Francisco de Souza estava muito mais para Mick Jagger do que para Teixeirinha. O que não lhe tira nada, apenas lhe acrescenta. E valoriza ainda mais o seu trabalho e a sua atuação, como são mais valorosos aqueles que fazem parte de algo não por atavismo, mas por opção consciente.
Nesta entrevista, este leopoldense nascido em 1950 – “dia 13 de maio, da abolição da escravatura”, faz questão de lembrar – e morador de Canoas há 38 anos, nos conta como se deu essa transformação curiosíssima e, é forçoso dizer, extremamente benéfica para o futuro do tradicionalismo gaúcho em Canoas. Não que o roqueiro Carmo fosse mau. A questão é que, para ser tão bom quanto o Carmo tradicionalista, teria de alcançar o patamar daqueles seus ídolos de juventude. Ttambém nos dá uma verdadeira aula sobre a formação do RS, a importância do tradicionalismo e as peculiaridades que fazem do gaúcho um tipo histórico e cultural único dentre os pertencentes ao Brasil e ao resto das Américas.
* * * *
OTimoneiro: O senhor é natural de São Leopoldo. Qual impressão teve de Canoas quando aqui chegou?
Carmo Francisco de Souza: Cheguei em 1972 e a cidade era bem diferente da de hoje. Era muito mais calma. Era vista como uma cidade-dormitório. Ainda havia muitas estâncias aqui, tamos de leite, tinha uma área rural e aos poucos essas áreas foram sendo urbanizadas, loteadas. Tudo isso culminou com o que temos hoje, praticamente uma extensão da metrópole, com quase 400 mil habitantes.
OT: Antes de vir para cá já era interessado pela cultura gaúcha?
CFS: Muito boa pergunta. Esse interesse pela tradição foi despertado em Canoas. Antes não tinha esse interesse. Fui musico profissional dos 17 aos 22 anos, primeiro de igreja e depois roqueiro. Tocava Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo, a Jovem Guarda, enfim. Ao chegar a Canoas, influenciado pela minha esposa, eu comecei a me interessar pela cultura gaúcha, pois ela tinha uma ligação com o tradicionalismo. Tanto é que casamos no CTG Brazão Do Rio Grande. Comecei a participar ali. Posteriormente fundei o CCN ( Centro de Cultura Nativista) Nova Raça. Nessa época fundamos também o CTG Cheiro da Terra. Só que aí nós tivemos uma divergência no CCN Nova Raça e fomos para a Sociedade Cultural Beneficente Estância Velha, a sociedade mais antiga de Canoas, fundada em 1953, se não me falha a memória. Ali fundamos o DTG Estância Gaúcha em 1994 (DTG é um Departamento de Tradições Gauchas, porque é dentro de uma sociedade). Naquela época saímos da Sociedade Estância Velha e fundamos o CTG Estância Gaucha, que é o CTG do meu coração. Como sou presidente da ETC, eu cuido de 43 entidades hoje, mas, nessa seqüência da fundação do Estância Gaucha, eu fui vice-coordenador regional dos municípios de São Leopoldo, Sapucaia Esteio Canoas e Nova Santa Rita. No ano seguinte, o então coordenador, João Carlos de Moura, me preparou para que eu assumisse em 1995, em Dom Pedrito, como coordenador regional. Nos dois anos seguintes eu fui presidente da junta fiscal do MTG. Quando eu saí da 12ª. região eu já virei conselheiro e essa função vigora sempre, os ex-coordenadores se tornam conselheiros.
OT: Qual é a função do conselheiro?
CFS: É quando o coordenador regional tem um problema que ele, sozinho, não pode resolver ele convoca o conselho. Nesse período eu continuei praticando a minha tradição. Eu toco violão , sou interprete vocal. Tenho músicas em casa. Nesse período nosso filho Solano dançava muita chula, e nós inclusive participávamos de muitos rodeios, tanto o rodeio artístico quanto campeiro, sempre representando uma entidade daqui de Canoas nos nossos rodeios. Essa atividade durou aproximadamente em torno de 8 anos. Nós, o e o Solano a Vanessa e eu, conquistamos 250 troféus. Esses troféus foram doados para o CTG estância gaucha.
OT: O nome Solano foi dado em homenagem a Solano Lopez (ditador paraguaio)?
CFS: Sim, eu pensei nele. Solano era um grande campeiro, comprei uma égua crioula para ele. E ele foi preparado pelo Toninho Campeiro, conhecido também como Toninho Cabeludo. É uma pessoa a quem eu devo muito e que nos, a nossa família, aprendemos muito na área campeira, a Dina, esposa dele. Depois disso, o que aconteceu? Eu tive um período complicado e de doença e sempre envolvido com a tradição, mas nunca abandonei. A gente às vezes dá um tempo, mas nunca perde o fio. Então eu fui convidado para concorrer a presidente da Associação Entidades Tradicionalistas de Canoas. Fui eleito por uma boa margem de votos. E estamos fazendo esse trabalho de 2009 a 2010. Tivemos um período complicado antes disso, o crédito estava complicado, estamos tratando dessas questões ainda hoje. Na Semana Farroupilha de 2008, por exemplo, foi feito um convenio da diretoria anterior com a prefeitura por 400 mil reais. E no ano passado foi feito um convenio de 42.240 reais, ou seja, menos de 10%. A entidade fez uma negociação com a prefeitura que assumiu uma parceria. Fizemos uma excelente Semana Farroupilha, pois para os tradicionalistas a maior data é o dia 20 de setembro.
OT: E para este ano?
CFS: Esse ano estamos com a seguinte programação: não pretendemos fazer convênio, pretendemos diminuir ainda mais os custos da prefeitura, já nos cadastramos na LIC, a ETC está apta como personalidade jurídica e nós pretendemos fazer, por intermédio da LIC, o Evento Campeiro e a 4ª. Canoa do Canto Nativo. Nesse ano fizemos, atendendo ao pedido do nosso prefeito, estamos tentando movimentar a área artística do parque Eduardo Gomes, não transformá-la num elefante branco. Fizemos uma extensa, vasta programação. Fundamos o restaurante crioulo do parque. A área campeira também está funcionando, toda noite tem alguma entidade fazendo alguma coisa. Estamos levando o pessoal para conhecer a tradição. Tivemos uma coisa fantástica que foi a primeira biblioteca tradicionalista do estado lá no parque municipal Eduardo Gomes, no galpão da ETC. Tem 1030 volumes, sendo 660 sobre tradicionalismo.
OT: A ETC é ligada ao MTG, não é? Qual a força do tradicionalismo em Canoas hoje?
CFS: O Estado é dividido em trinta regiões. Fora Porto Alegre, que é a primeira região, Canoas é, com muito respeito às demais regiões, a segunda colocada. A Semana Farroupilha de Canoas, por exemplo, fora Porto Alegre, é a maior da região. Ano passado circularam na semana farroupilha 120 mil pessoas. Tivemos baile com 8 mil pessoas, não houve condição de dançar.
OT: Isso não teria a ver com o fato de que Canoas tenha uma grande população oriunda da Fronteira Oeste, da Campanha e de outras regiões de cultura gaúcha mais tradicional?
CFS: Ajuda, com certeza. Eu tenho conhecidos de Dom Pedrito, Santana do Livraimento, Uruguaiana…..e tenho um que eu nunca vi sem pilcha. Ele anda pilchado em todos os lugares. Vai ao banco, à farmácia pratica o tradicionalismo e sempre pilchado. Ele é de Uruguaiana. E isso é comum naquela região. A pessoa entra em lojas e os vendedores usam a bombacha.
OT: O MTG tem um trabalho de pesquisa da história das tradições, definindo o que é tradição e o que não é. E existe o nativismo. Qual é a diferença entre tadicionalismo e nativismo?
CFS: O tradicionalismo como a palavra diz, está ligado à tradição. São as coisas que o homem do campo trouxe para a cidade. O nativismo é a coisa mais já aqui da cidade e tem outras influencias. Teixeirinha seria tradicionalista e C. Passarinho seria nativista. As letras são diferentes. Eles usam outro linguajar. Junto com o nativismo veio o Tche Music. Criaram um movimento e tentaram inserir a música do nordeste na nossa musica. Mas muitos grupos populares são tradicionalistas. Cito dois tipos: Monarcas e Serranos. São tradicionalistas. Edson Dutra é uma figura espetacular. Gildo de Freitas também. Gaucho da Fronteira também é tradicionalista.
OT: Então a diferença é a de o tradicionalismo tem regras mais estritas e o nativismo aceita outras influencias, não apenas do RS.
Sim, e não só isso. As músicas têm letras diferentes. Os nativistas usam mais expressões castelhanas, dentre outras coisas.
OT: Há alguns dias, tivemos uma notícia sobre a instalação de rodeios country no RS, que são copias de rodeios que existem no interior de SP. Qual a sua opinião acerca disso?
CFS: Eu não sou contra, mas eu acho que nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição. O rodeio country eu acho que poderá entrar, mas acho que não vai ficar. Será assistido por aqueles que desconhecem a tradição. É bonito de se ver, a abertura é espetacular, 30 mil pessoas, tu vais ao interior de SP e vês a beleza que é. Mas não acho que vá continuar.
OT: A música caipira do interior de SP e MG tem elementos semelhantes ao nosso, não é?
CFS: Sim, muitos. Usam muito a viola. É um instrumento de dez cordas. O caipira é muito respeitável. Tonico e Tinoco, por exemplo. São pessoas que tem a história comprovada, assim como nosso Texieirinha.
OT: O Teixeirinha é um caso interessante. Ele era nos anos 60 e 70 era visto de lado por algumas pessoas e hoje ele é objeto de tese de doutorado, inclusive de uma ex-professora minha, a Miriam Rossini.
CFS: O ser humano tem um grave defeito: homenageia personalidades depois que morrem. Nós, no nosso movimento, procuramos homenagear as pessoas em vida. Eu, por exemplo, furei lona de circo pra assistir Mary Terezinha e Teixeirinha (risos).
OT: Surge outra questão: a figura do gaúcho. O gaúcho é um fenômeno somente do RS ou é também do Uruguai, Argentina e Paraguai ? Há quem diga que é diferente. Carlos Reverbel, por exemplo. Alguns defendem a tese da pampa transnacional, um espaço geográfico e cultural que se estenderia por todo o pampa, com o mesmo elemento básico, que é o gaúcho ou gaucho. Qual a sua opinião acerca disto?
CFS: Aí vou defender a minha terra. O gaúcho é diferente dos gauchos. Estes existem até no Paraguai, mas o nosso gaúcho é diferente. Por exemplo: vou te citar um gaúcho que eu conheci. Conheci um peão com 24 anos que nunca tinha saído da porteira da fazenda. Um cara com extrema competência na lida do campo e montava em pêlo. Isso em Dom Pedrto. Quando o vi, ele me olhava à distancia, desconfiado, meio cabreiro, e depois ele se aproximou junto ao fogo de chão enquanto eu estava tocando. Era um cara meio tipo índio. Esse é o perfil do nosso gaúcho. É um cara da lida campeira. Nós aqui tentamos conservar esse cara lá de dentro da fazenda.
OT: Mas o gaúcho do RS se diferencia do gaucho platino?
CFS: Sim. Por exemplo. Em vez de usarem a guaiaca eles usam a faixa porque, em lugares mais frios, pros lados da Patagônia, no sul da argentina, precisam proteger o corpo. Quando enxergares uma faixa, pode ter certeza que tem ligação com a Argentina.
OT: O gaucho daqui então é um tipo específico do Brasil, como o caipira, o pantaneiro, o tropeiro e outros?
CFS: Sim, exato. O pantaneiro por exemplo, só existe no Pantanal. E o nosso gaúcho só existe aqui mesmo. Um típico pantaneiro tu reconheces logo que ele chega na rodoviária. Usando o berrante. Ele utiliza como instrumento de trabalho. Aqui nós usamos o sinuelo.
OT: Fala-se que o RS teria uma ligação histórica com os países do prata. É algo que já virou até lugar-comum. Por outro lado, Dante de Laytano fala que havia a influencia do espanhol deste lado e do português do outro. Há inclusive a tese de que o chamamé seria originário da chimarrita açoriana….
CFS: Há que se respeitar, porque o ritmo é parecido. Mas eu falaria também da imigração alemã e italiana. Na culinária, por exemplo, ela é forte, com a polenta, a massa campeira, salsichão, carne de porco. E isso é aceito pelo tradicionalismo.
OT: O tradicionalismo tem um lado político?
CFS: Bom, nos somos políticos por natureza, nos , como seres humanos. Mas nas entidades, nos eventos, não costumamos falar. Até porque o MTG veda falar de política dentro das reuniões. Por isso procuramos nos preservar um pouco dessa área.
OT: Nosso tradicionalismo é o mais forte do país?
CFS: É, sim. Temos no Brasil e fora dele, até em Nova York temos CTG, na Europa, Canadá. É o maior movimento cultural do país. Algumas pessoas não reconhecem isso porque querem defender a sua terra ou por desconhecimento. Mas nós estamos espalhados por todo o país.
OT: No exterior, a comida associada ao Brasil é o churrasco, não como comida especialmente gaúcha, mas sim brasileira. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo. É o país do carnaval, do futebol e do churrasco.
CFS: Exato. E eu tenho experiência de ver isso na Bahia, em Macaé, no interior do RJ, onde eu fiquei três meses e comi muito churrasco e ensinei muita gente. Aqueles que participaram saíram fazendo, de acordo com o que eu ensinei.
OT: Que livros o senhor indicaria para quem quer começar a estudar a cultura gaúcha?
CFS: Bom, nós temos uma farta literatura. Na nossa própria biblioteca do parque Eduardo Gomes temos 660 livros. Para começar, Barbosa Lessa e Paixão Cortes. O Paixão está lançando um novo agora, inclusive. Para os canoenses, eu diria, visite a BiblioParque onde vai encontrar muita coisa, inclusive a história de fios, tecidos, indumentária.
OT: Onde fica a sede da ETC?
CFS: Fica dentro da ASMC da prefeitura. Nosso endereço é rua Nerci Pereira Flores, número 179, Harmonia. CEP 92310-150.
Lembranças da Bizz
Em sua postagem do dia 2 de setembro, o jornalista André Forastieri resolveu prestar uma homenagem à revista da qual foi diretor por três anos: a BIZZ.
A homenagem veio por ocasião da descoberta, por ele – e agora, também por mim – da comunidade da revista no Facebook, que conta com vários ex-colaboradores e editores como Pedro Só, Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches, Camilo Rocha e, agora, o próprio Forastieri.

Para mim, a homenagem diz muito. Fiz parte daquela que, muito provavelmente, foi a última geração de jovens cuja formação musical dependeu da Bizz. À época (virada dos anos 90 para os 2000) não havia outra revista de música no país: a única alternativa do mesmo nível para ter acesso às novidades eram cadernos culturais, como a “Ilustrada” da Folha de São Paulo, ao qual eu tinha acesso por assinar o jornal. O download de canções pela Internet engatinhava (ou melhor, inexistia para a grande maioria, inclusive para mim), os discos eram difíceis de encontrar nas lojas de Porto Alegre e é desnecessário dizer que não havia youtube. A nossa orientação – minha e, estou certo, de muito mais gente – era a “Bizz”.
Lá estavam os álbuns raros, a seção Discografia Básica, as opiniões contundentes sobre o novo e o antigo, as entrevistas, as matérias, tudo o que, hoje, está ao alcance de um clique. Na época, não estava. Os lançamentos mais óbvios encontrávamos em qualquer boa loja. Os não tão óbvios, nas poucas lojas dedicadas ao que não era tão óbvio, muitas delas no Rio ou em São Paulo. Um telefonema resolvia o problema. Onde se conseguia o telefone? Na Bizz. Lojas como “Baratos Afins” e outras tornaram-se nomes conhecidos e quase dava para dizer, com indefectível sotaque e falsa familiaridade portoalegrenses, que tal disco a gente encontrava “lá na Baratos” – isto, claro, se eu tivesse o hábito de fazer uso deste detestável recurso comunicativo de meus conterrâneos.
A BIZZ terminou em meados de 2001. Logo depois, como que movidos por um sentimento de busca pelo que se perdera, eu e minhas duas irmãs percorremos os sebos da Rua Riachuelo, em Porto Alegre, em busca de edições antigas da Revista. Passamos tardes empoeirando dedos e compramos quase tudo o que encontramos: capas com Guns N´Roses (então uma paixão delas), Nirvana, U2, Faith No More, Maddonna, Red Hot Chilli Peppers e todos os outros que, entre 1985 e a virada do milênio, foram notícia no mundo pop.
Alguém poderá dizer que parte do papel que a Bizz desempenhava está, hoje, nas mãos da melhor revista do Brasil, a Rolling Stone. Isto só é em parte verdade. A Rolling Stone tem a Internet a seu lado, como um poderoso auxiliar. A Bizz só tinha a si própria. O papel que ela desempenhou não pode ser repetido, porque o mundo em que ela atuou já existe. Um mundo onde as coisas não estavam a apenas um clique.
Entrevista: Dante Ramon Ledesma, cantor e compositor
“Quando canto expresso exatamente o que sou”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Entrevista publicada no jornal O Timoneiro
“Cantando me he de morir / Cantando me han de enterrar, / Y cantando he de llegar / Al pie del eterno padre: / Dende el vientre de mi madre / Vine a este mundo a cantar.”Este trecho do “Martin Fierro”, que tão bem define a visão de mundo e o destino do homem do pampa, bem poderia servir como uma carta de intenções para Dante Ramón Ledesma, 59 anos, um dos maiores músicos latinoamericanos vivos e morador de Canoas há 33 anos. Em primeiro lugar, porque Dante – como é conhecido pelos fãs e amigos – é um autêntico homem do pampa: nascido na pequena Rio Cuarto, nas proximidades da fronteira entre as províncias de Córdoba e La Pampa. Em segundo lugar, porque,como poucos, fez realmente de seu canto maneira de viver e cantar a vida, não só a sua mas a de todos nós, gaúchos, argentinos, brasileiros, latinoamericanos, que cresceram ao som de “Orelhano”, “Negro da Gaita”, “O Grito dos Livres”, “A vitória do trigo” e tantas canções que ultrapassam os sotaques, os idiomas, os ritmos e as fronteiras. Afinal, como o próprio Dante diz nesta entrevista, a arte não tem fronteiras e – como o diz uma de suas canções – “não se pede passaporte pelos caminhos do pampa”.
* * * * *
O Timoneiro: O senhor é natural de Rio Cuarto, que é uma pequena cidade bem característica do universo histórico e cultural do pampa, não?
Dante Ramón Ledesma: Sim, exatamente. Inclusive é uma região que tem costumes muito semelhantes aos do Rio Grande do Sul. Acho que o centro-sul da Argentina tem muitas semelhanças com o Estado. Essa parte missioneira parece mais com a Bolívia e o Paraguai e o Rio Grande do Sul parece mais a planície da Patagônia e do Uruguai.
OT: A cultura tradicional do pampa sempre esteve presente na sua vida?
Dante Ramón Ledesma: Minha vida é muito simples. Eu estudei em colégios privados de linha franciscana e no seminário São Boaventura. Ali estudei arte e idiomas: latim, hebraico, francês, inglês e algo de italiano, isso no currículo até os 12, 14 anos. Aos cinco e seis anos já cantava. Todos os familiares da mãe cantavam e tocavam. Minha criação foi sempre com pessoas dedicadas a arte. Com 8 anos, eu andava em festivais e com 15 anos já escrevi uma musica vencedora do festival de Cosquin, de Córdoba, onde surgiram Violeta parra, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Leon Gieco, enfim, todas as revelações artísticas argentinas passaram pelo palco de Cosquin.
OT: Como aprendeu a tocar?
DRL: O Bombo Leguero aprendi sozinho. Fui estudar então numa escola de arte, onde aprendi a tocar violão. No colégio, os padres me ensinaram música sacra, canto gregoriano. Minhas técnicas vocais são gregorianas. Sigo católico ainda hoje. Fiz parte do grupo Carismáticos, e por isso a junta militar argentina, dirigida por Jorge Rafael Videla, perseguiu os movimentos religiosos, porque não estavam dentro do programa, consideravam-nos subversivos porque ajudávamos os carentes. Era um grupo de ação social, mas com muita participação religiosa. Participávamos muito das comunidades. Sigo religioso até hoje. Só vivemos tranqüilos quando nos preocupamos com nossa vida interior e não com a alheia. Ao mesmo tempo, há que se ter a preocupação com a sociedade e com o próximo. Assumo tudo o que me rodeia. Não me deixo guiar. Deus é sempre maior que todos nós e um dia a ele prestaremos conta. Quando canto expresso exatamente o que sou.
OT: Quando veio para o Brasil?
DRL: No dia 11 de abril de 1978
OT: Já conhecia o país?
DRL: Já conhecia havia tempo. Sempre passeei muito por aqui como estudante. Era pegar a mochila, o violão e ir para a estrada.
OT: Veio por perseguição política?
DRL: Não tanto. É que, quando você tem dezenas de amigos desaparecidos, pode dizer que vive com muita insegurança (risos). E eu trabalhava na Câmara Criminal de Investigações militares, e ali havia muita coisa que eu sabia que acontecia e que ia acontecer. Um dia que vi que começaram a me perseguir, resolvi vir ao Brasil a passear e disse a minha esposa que não voltaria mais. E não voltei. Vim para Niterói, em Canoas, onde morava a avó de minha esposa, meus sogros, e por 5 anos vendi livros. Foram anos maravilhosos. Eu levava meus livros, fazia uma palestra de sociologia, encontrávamos pais e mestres, e quando estourou “Orelhano” foram esses que prestigiaram o meu trabalho e me deram força para seguir acreditando que o canto era possível e é possível.
OT: Em determinado momento o senhor fala de “orelhano, brasileiro ou argentino”….
DRL: Sabemos que devemos como ser humano nascer numa geografia, mas você escolhe a liberdade de seus sonhos pacificamente, onde será a sua pátria. A minha pátria é onde eu amanheço. Onde há vida a ser defendida ou inocente a ser defendido, se meu canto ou minha luta serve, esta é minha pátria. Não me interessam bandeiras ou raças. Me interessam a dignidade humana que deve ser respeitada. Dizem que sou de esquerda, outros dizem que sou de direita, e eu não sou nenhum deles, e sim a favor da verdade e da dignidade humana. Onde um negro seja discriminado não me serve o governo. Onde um pobre seja esquecido ou omitido não me serve a administração. Onde há um político que não cumpre, ele para mim é um desvirtuado. Sou a favor de algo: não prometa, mas faça o necessário para podermos todos viver bem. Não sou dono da verdade, mas posso garantir que há muito para aprender. Mas nessa sociedade rápida e nesse mundo tão imediato que temos hoje, se a gente não é aprendiz permanente, se torna velho em seguida, com poucos anos. Quando você se acha dono da verdade quando é jovem, na verdade é um velho, e não se torna nunca um adulto. Adulto é aquele que ganha anos e diz “que maravilhoso meu neto me ensinou tal coisa que eu não sabia”. Aí nos damos que à vida viemos para aprender. Aquele com 25, 30 anos que se acha dono da verdade será um fracassado ou autoritário. Por isso meu canto retrata exatamente o que eu sou. Meu avô morreu com mais de 100 anos e ele dizia uma frase maravilhosa: “não me canso de escutar para poder falar a palavra certa”.
OT: Chegando ao Brasil em 1978, já conhecia o panorama musical brasileiro?
DRL: Sim, um pouco. Tinha muita admiração pelo samba. Gostava de Benito de Paula, Carmem silva, mas quando vim comecei a conhecer outro Brasil, um Brasil de gaita, violão, bota e bombacha. Na Argentina conhecíamos samba, Roberto Carlos, Tom Jobim, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Toquinho, mas a música gaucha não.Lembro de uma ocasião em que vínhamos caminhando, eu e minha esposa, e numa esquina vimos um bailão com um conjunto chamado “Os Araganos”, e ali conversei com um deles, o Ari – de quem fiquei amigo depois – e ele perguntou “tu sabe cantar alguma musica?”. Então cantei um chamamé com eles, eles em cima do palco e eu na janela. Foi impactante.
OT:A música brasileira tem muito espaço na Argentina, mas o Brasil nem sempre é um grande consumidor da música argentina.
DRL: Porque no Brasil tem muito regionalismo, música pantaneira, sertaneja, a música da Bahia. Falando esses dias com o Almir Sater , o filho dele disse que existem mais de 20 estilos de musica pantaneira. Acho que o Brasil não tem tempo para a música de outros países (risos). Por isso acho ruim o excesso de divulgação americana nas rádios. Eu ouço certos programas televisivos e eu tenho vontade de perguntar a eles: , porque as bandas brasileiras têm de cantar em inglês? É como se fosse preciso cantar em inglês para dizer que tem qualidade.
OT: Qual música sua, em sua opinião, é a mais relevante?
DRL: Acho que é “Orelhano”. Lembro que quando eu cheguei em 2008, na Espanha, eram seis da manhã e fomos fazer show lá, no aeroporto. Estavam tocando “Orelhano”. Esse é o momento onde tu paras e pensas: “meu Deus, até onde chegou a música”. Eu não a levei. A musica foi por si, porque a arte é assim, ultrapassa fronteiras, a arte não fala, mas acontece. Por exemplo, chilenos e argentinos se dão muito pouco, mas a musica dos dois ultrapassa fronteiras. As adversidades desaparecerem na arte. Ela apaga mágoas e diferenças.
OT: Já lhe pediram para cantar em inglês?
DRL:Sim, já . Não cantei, porque não é meu idioma. Admiro vários cantores e bandas de rock, como Freddy Mercury, the Who, led Zeppelin, Jimmy Hendrix, Carlos Santana. Mas em inglês, não canto.
OT: Já tocou nos EUA?
DRL: Não, já me convidaram para ir, mas não é do meu agrado. Nada que se fale em inglês, nem de Grã-Bretanha e nem EUA. Já me convidaram e não quis. Meus próximos projetos são ir a Cuba, Porto Rico e Venezuela no ano que vem, com Ernesto Fagundes. E vou a Salta, com convite da prefeitura de Salta, para ir lá tocar em todas as cidades ao redor de Salta. Vamos lá fazer um trabalho bem grande.
OT: Como a experiência de ter vivido num regime de forte repressão, como a Argentina do general Videla, influenciou o seu trabalho?
DRL: De várias maneiras. Na Argentina, muitos intelectuais e artistas saíram do país. Lembro, contudo, de um momento especial. Atahualpa Yupanqui, no Cosquin de 1977, foi chamado ao palco. E ele subiu. Ele entrou sem violão, parou no microfone, cumprimentou a todos e disse: “enquanto tenha irmão desaparecidos sob esta bandeira – a bandeira argentina – e estes responsáveis por estes inocências fardados e recebendo ordens da CIA prefiro morrer neste palco”. Exatamente 24 horas depois estava Yupanqui na frança. Só não o mataram porque não tiveram coragem de matar uma figura como ele. Aí tu vês o homem.
OT: A sua presença no Brasil é um produto indireto dessa repressão. Claro que é sempre ruim deixar a sua terra natal, mas nós, em compensação, ganhamos o senhor.
DRL:Eu vim com muita alegria ao Brasil e sou agradecido a tudo que acontece comigo no Brasil, o que acontece e poderá acontecer. Tenho filho aqui, amigos extraordinários, e a liberdade de cantar ou escrever em paz. Nunca fui censurado.
OT: Interessante o senhor ressaltar isso de não ser censurado, como um valor importante. A sua geração não teve isso. Para ela, não ser censurado tem um valor especial (risos)
DRL: Sim, pois vivi numa época em que isso não exista. Falei com Eduardo Galeano ano passado e ele me disse uma coisa enquanto tomávamos vinho: “Dante, há duas coisas que os braisleiros não se deram conta que tem. Além de terem um imenso continente como pátria, o Brasil tem um povo que apóia a intelectualidade”. Porque? Porque o brasileiro é ameno, ele te ouve e ao mesmo tempo te ensina. E tu podes equilibrar a vida. A Argentina tem o radicalismo do porteño, a contradição com a vida provinciana, no norte são folclóricos, no sul são fechados, os povos bascos e andaluzes que formam parte da Patagônia são impenetráveis, ele tem seu jeito de viver e não te ouvem, aqui no Brasil onde tu vai tu é ouvido. Isso se deve a idiosincrasia do povo, porque o Brasil tem uma etnia extraordinariamente multiplicável e essa etnia tem frutos, italiano com índio, alemão com polonês, argentino com brasileiro, isso não é mescla e sim um conteúdo social, e isso em alguns outros países não existe. No Brasil há uma raça, o brasileiro, com todas as diferenças regionais, mas uma raça só.
OT: Assim lhe pareceu quando veio para cá pela primeira vez?
DRL: Sim, fiquei impressionado com isso. No carnaval da Bahia, por exemplo tem gaucho e paulista. Num rodeio em São Paulo tem ginete de todas as partes do Brasil. No RS já vi cariocas pilchados e paulistas pilchados, miscigenando a sobrevivência. Isso dá harmonia antropológica. Isso para mim só o Brasil tem isso. Em Buenos Aires, por exemplo, existe a tendência de ver o interiorano como inferior.Aqui não existe fanatismo de raças, diferenças marcantes, letais. Isso me impressiona todos os dias no Brasil. Eu vejo o trato do brasileiro, vejo como ele se fraterniza e se harmoniza. De um jeito ou de outro o brasileiro se harmoniza
OT: O senhor sentiu-se harmonizado?
DRL:Sempre. Por isso agradeço tanto ao Brasil.
Conselho do He-Man para nossos amigos colorados
Em nome do espírito esportivo, o Blog Perspectiva dirige-se aos seus leitores colorados e oferece, magnânima e bondosamente, o ombro amigo em hora difícil.
Afinal, perder um jogo em que dois pênaltis óbvios não são marcados, com atuação constrangedora do so-called melhor centroavante brasileiro do momento e a melhor apesentação de um lateral-direito desde que Arce saiu do Olímpico deve ser mesmo motivo de imensa tristeza.
Nestes momentos, só apelando para o He Man.
Inverno colorido em Canoas
Carolina De Boni Horochovski , fotografada no bairro Igara em Canoas/RS pelas lentes de Maurício Mussi, no final do inverno gaúcho.
Entrevista: Cristian Verardi, cineasta
Entrevista: Cristian Verardi, ator e diretor de cinema
Publicada no jornal O timoneiro
“Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
A lembrança mais remota que Cristian Verardi tem de sua infância é a de estar no colo de sua mãe dentro de um cinema. A informação é elucidativa. E é elucidativa não pela simples ocorrência do fato (que é comum a muitas pessoas) mas sim por este fato ter permanecido intocado em sua memória entre tantas lembranças da mesma época que ficaram para trás. Não é de se estranhar, portanto, que ele tenha escolhido trabalhar com cinema. O resultado se pode ver, hoje, em sua carreira como diretor e ator de um gênero de cinema que, curiosamente, não pode ser assistido por crianças: o de terror. Diretor de “Águas raivosas”, “Soul Crusher”, “Colt Romero”, “Sessão das Oito”, “Meu nome é Alec” e ator de “Ninguém deve morrer”, do lendário Peter Baiestorf, e do recém-lançado “A noite do chupacabras”, de Rodrigo Aragão, Verardi participará como assistente de direção da equipe de “Nove e meia”, de Felipe Ferreira, a ser filmado a partir de outubro.
O Timoneiro: Sendo natural do interior , não posso deixar de perguntar: o que te motivou a vir para a Capital?
Cristian Verardi: Melhores oportunidades de estudo e trabalho. Nasci em Encantado, em 1975, e passei infância e adolescência entre Guaporé e Roca Sales. Eu queria me dedicar mais ao cinema, algo impossível no interior, ao menos naquela época. No entanto, acabei também me direcionando para outra de minhas paixões, a literatura. Então ingressei no curso de Letras da UFRGS. Mas sempre foi meu projeto trabalhar com cinema.
OT: Desde a época em que morava no interior?
CV: A lembrança mais remota que tenho de minha infância é a de estar no colo de minha mãe dentro de um cinema. Durante boa parte dos anos 80 frequentei o Cine Marabá, em Encantado, que pertencia a um amigo da família. O cinema tornou-se gradualmente um elemento passional. Acho que esse contato com o cinema, que para uma criança sempre é algo mágico e, em mim, deflagrou a vontade de estar na tela, e não apenas em frente dela.
OT: Esse foi o primeiro contato. Como foi o desenrolar dessa relação, digamos assim? Durante a adolescência, por exemplo?
CV: Durante a adolescência os cinemas de calçada do interior já estavam em extinção. Os cinemas estavam se transformando em bingos e igrejas evangélicas. Em Roca Sales não havia mais cinema, eu realizava verdadeiras epopéias para assistir um filme na tela grande, pegando ônibus para a capital ou alguma cidade mais próxima, como Lajeado. Mas a verdadeira formação cinéfila se deu através da TV, varando madrugadas nos “corujões da vida”, ou garimpando em locadoras. A adolescência foi uma época de amadurecimento desta paixão. Hoje, com a facilidade do download, acho que os jovens não conseguem depurar a quantidade de informação que recebem, tudo parece ter ficado mais descartável.
OT: Pegava ônibus para ir ao cinema em Porto Alegre? Só para ir ao cinema?
CV: Lembro que em 1994, vim para Porto Alegre e fui direto para os cinemas da Casa de Cultura só para ver “Rosas Selvagens” e após o filme entrei em outra sessão, onde vi “O Casamento de Muriel”. Aliás, “O Casamento de Muriel” foi uma das experiências mais inusitadas que já tive em um cinema, com as pessoas se erguendo das poltronas para dançar e cantar junto com a personagem, algo catártico. O tipo de efeito que revela o poder de uma sala de cinema, o valor da experiência coletiva.
OT: Como se deu a atração pelo cinema de horror?
CV: Meu primeiro contato com o gênero ocorreu ainda infância. Antes mesmo de saber ler eu folheava escondido as HQs de horror do meu pai. Em vez de Turma da Mônica eu gostava de Spektro, Kripta e Calafrio. Essas revistas fizeram parte da minha infância. Os filmes da produtora inglesa Hammer também foram essenciais na formação do meu gosto pelo fantástico. Na madrugada, quando meus pais dormiam, eu ligava a televisão para ver filmes como “O Vampiro da Noite” ou “Os Ritos Satânicos de Drácula”. Algum tempo atrás achei uma fita K7 que eu gravei quando tinha uns 6 anos de idade, onde narro histórias com monstros e coisas do gênero. Então este universo sempre me pareceu perfeitamente normal.
OT: Em que canal passavam estes filmes?
CV: No começo dos anos 80 a rede Globo exibia uma sessão chamada “A Casa do Terror”, onde exibiam basicamente filmes da Hammer. Sem se dar conta eles fomentaram uma futura geração de fãs de horror.
OT: E como diretor de cinema? O primeiro filme que fizeste – amadoristicamente ou não – foi nesse gênero?
CV: Sim, nos anos 90 minha irmã adquiriu uma filmadora, que eu raptei para minhas aventuras cinematográficas (risos). Após algumas desventuras, o primeiro que eu consegui finalizar ser chamava “Soul Crusher 2- O Retorno do Homem Coisa”. Já começei pela seqüência pois não queria dar muita explicação (risos). Já veio com uma mitologia pronta, só que ela está toda no primeiro, que eu não fiz (risos). Basicamente é sobre uma criatura enviada por um demônio para resgatar um livro roubado do inferno. Os bibliotecários do inferno são vingativos com livros não devolvidos (risos)
OT: Em que ano foi realizado e com qual filmadora?
CV: Esse foi realizado em 1998. Era uma filmadora Sony CCd, hoje obsoleta, não lembro o modelo. Eu editava utilizando 2 videocassetes. Lembro que fiz o filme em preto e branco porque a filmadora era importada e o sistema de cores não era compatível.
OT:Como é que o editava?
CV: Eu filmava o roteiro de forma cronológica, editava os cortes na própria câmera, depois passava tudo para uma fita VHS e, como não tinha ilha de edição, utilizava dois vídeos para montar as cenas. Uma trabalheira impensável para quem hoje utiliza as facilidades do Final Cut.
OT: Esse filme chegou a ser exibido?
CV: Por incrível que pareça e por pior que ele seja, sim. Uma amiga era dona de uma locadora, e colocou o filme para locação, em poucas semanas era uma das fitas mais locadas (risos).
OT: A aceitação inesperada foi um estímulo?
CV: Com certeza foi um estímulo, mas ao mesmo tempo gerou reflexões sobre minhas limitações.
OT: A partir daquele filme começaste a fazer em série ou levou algum tempo até recomeçar a filmar?
OT: Eu escrevia muito, mas não conseguia pôr os projetos em prática. Em seguida iniciei um filme de vampiros que jamais terminei, era mais pretensioso, a começar pelo nome, “Gottverlassen”. Comecei a me frustrar pela falta de estrutura e de orçamento. Sem falar que obviamente eu tinha a fama de louco na cidade (risos). Claro que ninguém faz um filme de 30 reais esperando ganhar um Oscar. Mas era a vontade de fazer algo menos precário. Só que eu continuo precário até hoje (risos)
OT: Precário em que sentido?
CV: Creio na possibilidade de se realizar excelentes filmes com baixo orçamento, e hoje com o advento do digital isso é ainda mais plausível. Naquela época era mais complicado, às vezes queria fazer um efeito mais elaborado, uma luz esteticamente mais interessante, e a falta de grana tornava isso tudo mais difícil. Então me dei conta que as vezes é melhor assumir a precariedade, isso é mais verdadeiro.
OT: No caso do cinema de horror, especificamente, não acha que a “precariedade” pode servir também como aparato estético?
CV: Creio nisso. Gosto por exemplo da estética suja dos filmes dos anos 70, como “O Massacre da Serra Elétrica”. A fotografia granulada do filme se deve ao fato de ter sido filmado em 16 mm, com poucos recursos de iluminação, e depois convertido para 35 mm. E isso gerou uma textura suja, que combina perfeitamente com a crueza da trama. É o tipo de situação em que a falta de recurso se transforma, mesmo que involuntariamente, em estética.
OT:Qual câmera tu usas, falando nisso?
CV: Nos dois últimos trabalhos que dirigi, usei uma Sony HVR, mas nos projetos recentes que participei, como ator ou na produção, pude perceber mais uma mudança no formato, hoje existe uma preferência pelas máquinas fotográficas, como a Canon 5D. Uma tecnologia bem distante das ultrapassadas mini dvs.
OT: Tua formação foi em Letras. Tens inspirações vindas da literatura pros teus filmes?
CV: A literatura fantástica me influenciou muito. “Soul Crusher” tinha muito de Lovecraft. Tenho a pretensão (pseudo-cineastas vivem de pretensões), de um dia filmar o livro de contos do Carlos Carvalho, “Calendário do Medo”. E meu próximo trabalho, como assistente de direção, é um baseado num conto do Rubem Fonseca, “Nove e Meia” . As filmagens começam em outubro, com direção do Filipe Ferreira e roteiro de Ednei Pedroso.
OT: Queria que tu falasses um pouco do fascínio que o cinema de horror desperta em seus adeptos. É uma busca de sentimentos primários, ancestrais, ou o quê?
CV: Algo que costumo dizer é que o cinema fantástico gera fascínio pela possibilidade do espectador lidar de uma forma saudável com o sentimento do medo, com o inexplicável. Através do gênero horror é possível vivenciar o efeito catártico do medo, experimentar sensações reprimidas e situações limites sabendo que está protegido, pois o perigo se encontra do outro lado da tela. Lidar com o medo é também uma forma de se sentir vivo.
OT: Quais os cinco maiores filmes e os cinco maiores diretores de horror, na tua opinião.
Toda lista é subjetiva e injusta, sendo assim, acho complicado afirmar quais são os melhores pois cada obra nos toca de maneira diferente. Citarei cinco dos meus filmes prediletos.
Os Inocentes , de Jack Clayton ; Zombie, o Despertar dos Mortos , de George Romero; O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter; A Morte do Demônio , de Sam Raimi; Terror nas Trevas , de Lucio Fulci.
Quanto aos cinco diretores mais influentes de cinema de horror, para mim são: Dario Argento, George Romero, Mario Bava, Lucio Fulci e John Carpenter.
Foucault e o Irã
“Foucault e a revolução iraniana” (É Realizações, 480 páginas) é um livro que irá surpreender (e decepcionar) muita gente nos bancos acadêmicos do país. O propósito de seus autores - a historiadora iraniana Janet Afary e o cientista político americano Kevin B. Anderson – é analisar um evento muito pouco conhecido da biografia de Michel Foucault: a sua viagem ao Irã, no final dos anos 70, como correspondente do “Corriere della Sera” e do “Noveau Observateur”, para uma série de artigos sobre o processo revolucionário que levou Aiatolá Khomeini ao poder. Não seria fato para merecer maiores atenções não fosse por um detalhe: ao contrário do que se poderia imaginar, Foucault não foi propriamente um crítico do regime de Khomeini, havendo até mesmo fortes indicações de que tenha sido o oposto disto.
Como pôde Foucault – homossexual, ateu, estudioso (e denunciante) do discurso de poder na modernidade e das diversas modalidades de repressão – tratar assim a um regime que, na melhor das hipóteses, não lhe seria nem um pouco simpático? Em princípio, parece um erro circunstancial de avaliação por parte de Foucault, sem qualquer relação com o resto de sua obra e de seu pensamento. Não é, contudo, o que Afary e Anderson defendem – e de maneira muito convincente – em “Foucault e a revolução iraniana”. Dando especial destaque para questões referentes a relações de gênero e sexualidade, os autores demonstram que, longe de ser um acidente de percurso, a aproximação de Foucault com o regime de Khomeini encontra surpreendente – e inquietante – fundamento em seu pensamento.
Onde encontrar:
Programa “Diálogo” – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
O Blog Perspectiva tem o prazer de, a partir de hoje, disponibilizar o programa “Diálogo” aos seus leitores.
O próprio nome do programa já deixa claro em que ele consiste: do diálogo entre eu, Celso Augusto Uequed Pitol, integrante deste blog, e meu amigo Marcus Paulo Rycembel Boeira, professor universitário em São Paulo.
Um diálogo – deve-se dizer desde já – livre. Contudo, à formação e o quadro de interesses dos integrantes, ele deverá versar, em princípio, sobre assuntos ligados à política, à filosofia, à história, às artes e às ciências humanas de modo geral – tendo em vista, sempre que possível, alguma ligação com temas contemporâneos.
O tema de nosso primeiro programa será o filósofo espanhol Xabier Zubiri, cuja obra está sendo lançada no Brasil pela Editora É Realizações. Abordamos aqui o pensamento de Zubiri, a sua posição dentro da história da filosofia e o que nós, brasileiros, podemos esperar de sua presença em nosso meio intelectual.
Desde já agradecemos, eu e o Marcus, a todos os ouvintes do programa e colocamo-nos à disposição para críticas, sugestões e posicionamentos.
Um estranho chamado Joe Strummer
De todos os mitos que cercam o surgimento do punk rock na Inglaterra nenhum é mais disseminado que o da suposta “consciência social” da bandas que compunham o movimento. Para a posteridade ficou a imagem de que os punks eram politicamente engajados, anti-racistas, multiculturalistas, open-minded, jovens proletários desprovidos dos típicos preconceitos pequeno-burgueses da classe média inglesa (e, em especial, a classe média inglesa dos anos 70, que não é a mesma de hoje). Iniciativas como o concerto “Rock Against Racism”, realizado em Londres, em 1978, com a presença das principais bandas da época, e as conhecidas reuniões de punks e imigrantes jamaicanos em festas reggae (que originaram, entre outras coisas, a canção “Punk Reggae Party”, de Bob Marley) ajudaram a cimentar e divulgar esta idéia, que inspirou as gerações subsequentes de simpatizantes do movimento dos dois lados do Atlântico e dos dois Hemisférios.
Isto, claro, quando vistos à distância. Vistos de perto, os punks eram bem menos “revolucionários” do que aparentavam ser. Quando perguntaram a Nick Knox, dos Vibrators, porquê a banda havia participado do Rock Against Racism e se ele acreditava na mensagem do evento, ele respondeu: “Não, na verdade o que a maioria das pessoas não sabe é que as bandas foram pagas para participar. Nós participamos porque era apenas mais um concerto para fazer…..“. Ian Curtis, do Joy Division, tinha pública e notória atração pela Alemanha nazista (o nome de sua banda era uma referência à ala das prostitutas dos campos de concentração) e dizia ao público para nunca esquecerem de Rudolf Hess. Já Paul Weller, do The Jam, era eleitor confesso do partido conservador inglês (e isso durante o governo Thatcher), enquanto The Banshees, na música “Love in a Void”, achava que havia “too many Jews for my licking”. Nos EUA, o quadro não era muito diferente e motivou até mesmo um artigo indignado (e genial) do grande Lester Bangs. Racistas, small minded, preconceituosos, xenófobos, conservadores: muitos punks eram, por trás da fachada, exatamente aquilo que diziam odiar. Em vez de carregarem os preconceitos da classe média inglesa, carregavam os da classe média-baixa ou baixa. Afinal, como bem observou Shaw, nada é tão reacionário quanto o proletariado.
De onde vem a fama do punk inglês, então? Primeiro e antes de tudo, de uma banda em especial: o Clash.
Para quem acompanha o estilo a associação é óbvia. Nenhuma banda da primeira geração do punk rock teve um discurso tão politicamente orientado quanto eles – isto, é claro, se tomarmos os berros pró-anarquia dos Sex Pistols como o que de fato eram, meros berros, desprovidos de qualquer conteúdo ou reflexão mais sérios. Os Ramones não falavam de política. O Damned, os Buzzcocks e todos os outros também não. Todos eles criticavam o governo, a sociedade, a aristocracia, a Inglaterra, os adultos, os pais, a namorada, as meninas que não davam bola para eles e os irmãos mais velhos, sem, entretanto, terem muita preocupação com coisas chatas como coerência e critério. Quem cuidou de observar essas coisas chatas entre 1976 e 1986 e transformar em canções de rock foi o grupo de Joe Strummer, Paul Simonon, Mick Jones e Topper Headon, cujo estrondoso sucesso comercial (único entre os primeiros punks) espalhou para o mundo o mito de que o punk rock era um movimento político. A reboque lado disto, uma sucessão de slogans muito bem feitos – Rebels with a cause, The only band that really matters, etc, etc. – ajudavam a criar uma aura de quase santidade que envolvia a banda e inspirava os fãs de todas as latitudes.
Envolviam ao mesmo tempo em que encobriam alguns detalhes importantes. Por mais surpreendente que possa parecer aos fãs da banda, acostumados ao rótulo de revolucionários que se lhes impôs, a verdade é que também os integrantes do Clash não eram propriamente um exemplo de politização. O guitarrista, Mick Jones nunca escondeu o desejo de ser um rockstar à maneira dos seus ídolos do Mott the Hoople – tanto que, logo depois de ter deixado o grupo, foi exatamente nisto que ele tentou se transformar com seu grupo pop Big Audio Dynamite. O baixista, Paul Simonon, gostava de reggae e ska, mais por ter convivido com jamaicanos durante a infância do que por algum interesse especial em “coisas do Terceiro Mundo”, culturas diferentes, multiculturalismo, etc, etc, etc. Os integrantes do Clash eram de classe média baixa, filhos de imigrantes, criados longe de grandes luxos e, portanto, iguais aos punks das outras bandas em tudo – às vezes, até no insuspeito reacionarismo. Neste sentido, é auto-explicativa a declaração de Vince White, guitarrista da banda após a demissão de Jones, dada pouco depois de o grupo acabar: And I’m not f *cking joking and let me just say I don’t like the Chinese. I don’t like their fat ugly faces. I wish they’d f*king f*k off. There are hundreds of these cunts in Portobello Road these days, where I live. That’s another thing the Clash promoted: multiculturalism. I don’t buy it. I’m English and I don’t like foreigners. Why are aliens allowed to flood in here?”. Um legítimo Little Englander, que não deixa de sê-lo por usar moicano, jaqueta puída e coturno.
A quem, então, o Clash deve a aura mítica? A um competente manager? À necessidade de a mídia encontrar um sentido maior numa brincadeira de garotos? A uma soma de mal entendidos, que, segundo Rilke, caracterizava a fama? Nada disso: primeiro e antes de tudo, a um corpo estranho não só na banda como em todo o movimento punk e, poder-se-ia dizer, ao rock’nroll como um todo. Este corpo estranho chamava-se Joe Strummer.
Um sujeito singular, eis o que John Graham Mellor (seu nome verdadeiro) foi em seus 50 anos de vida, postos a termo em 2002 após um ataque cardíaco. Nascido em Ankara, na Turquia, filho de um alto funcionário da diplomacia britânica e de uma filha de fazendeiros das Highlands escocesas, tinha tudo para seguir um caminho tão brilhante quanto o do pai. Preferiu walk on the wild side: fez o tipo de artista pobretão nas famosas art schools inglesas dos anos 70, que tinham à época mais ou menos a mesma fama que os cursos de Comunicação Social têm hoje em dia no Brasil. Deixou o cabelo crescer e adotou o apelido Woody Mellor, em homenagem a seu ídolo Woodie Guthrie, cantor folk americano. Após brincar de artista pobretão, brincou de hippie quando ser hippie estava na moda, brincou de pub rocker quando isto (por um brevíssimo período) também entrou na moda e, quando o punk entrou em cena, resolveu brincar daquilo também. Já tinha então 25 anos de idade. A grande maioria dos punks tinha entre 17 e 21 anos e, para eles, o adulto Strummer já era quase um velho. Pior: um velho da classe alta no meio de garotos da classe trabalhadora. O que lhe restou? Tentar se enturmar. Compôs músicas simples, com letras simples e mensagem simples no primeiro disco, The Clash, onde gritava contra a violência policial, o desemprego e todas as outras coisas que ele nunca havia vivido e, se havia, foi por ter escolhido por sua conta e risco uma vida que seus pais não haviam planejado para ele – e para os quais ele, mesmo aos 25, 30 ou 35 anos tinha a segurança de voltar sempre que a corda apertasse.
O sucesso foi inesperado. The Clash, toscamente gravado em três finais de semana, vendeu muito bem no Reino Unido e o Clash ganhou um público fiel de universitários e intelectuais. Ao mesmo tempo, ganhou o desprezo dos verdadeiros membros da classe trabalhadora inglesa. Mick Geggus, do Cockney Rejects, dizia que o sotaque cockney falado pelas bandas punks da geração 77 era totalmente falso, numa clara referência às famosas tentativas (fracassadas, para quem conhece o verdadeiro sotaque cockney) de Strummer em imitar os east enders nos seus primeiros tempos no punk. Como ficou comprovado com o passar dos anos, o inglês de Strummer era tão standart quanto o da rainha: nos anos 80, já não cortava o final das palavras nem anasalava como seus compatriotas dos subúrbios londrinos. Não ficaria mal como âncora da BBC.
Não está desconectada disto a evolução sonora da banda, uma das mais notáveis – senão a mais notável – que se tem notícia na música pop e superior talvez à dos Beatles na metade dos anos 60. Marca dela (e de muito mais) foi o lançamento de London Calling, em 1980. Pela primeira vez uma banda proveniente do punk se arriscava a experimentar estilos tão distintos quanto o blues, o rockabilly, o jazz, a salsa, o pop e muito mais. Anos depois, o próprio Strummer viria a dizer que London Calling era uma suma do que eram feitos os integrantes do Clash – do passado hard rocker de Mick Jones, do reggae e ska de Paul Simonon, das influências jazzy e r & b de Topper Headon, tudo envolvido pelas letras inspiradíssimas de Strummer, que ostentava dois títulos: o de pior músico dos quatro e o de melhor letrista de rock dos últimos trinta anos. London Calling atingiu o cobiçadíssimo Top 30 da Billboard e o Clash passou de banda de pubs imundos das docas de Londres a integrantes do panteão do rock’n roll mundial, apreciados e admirados pelos fãs de todos os estilos em todo o mundo.
Mas este ainda não era “o” álbum de Strummer. Este viria na metade de 1980 na forma de um disco triplo (sim, triplo) de capa extremamente sugestiva e um nome que, para os ouvidos ingleses, deve ter soado curiosíssimo: Sandinista. Aqui as concessões de Strummer ao seu público acabam já no título: para compreender aquilo que une as dezenas de canções, pedaços de canções e takes experimentais é preciso, antes de tudo, saber o que é “Sandinista”, onde fica a Nicarágua e o que uma revolução leninista-cucaracha ocorrida seis meses antes pode ter a ver com música (meio ano em tempos pré-Internet, pré-twitter e na Inglaterra daquela época significa o mesmo que duas semanas hoje em dia). Depois, é preciso ter ouvido capaz de apreciar tudo, da valsa (!!) ao reggae, do jazz ao rockabilly, do gospel à salsa, do rap ao hard rock e assim por diante. Praticamente não há gênero musical popular do Ocidente (e não só) que não esteja, de uma forma ou de outra, contemplado em suas mais de 40 faixas. Por fim, é preciso compreender o que Strummer quer dizer. E não é qualquer um que consegue compreender canções que citam de Marx e Engels numa música, Victor Jara e Salvador Allende noutra, política internacional em várias, crítica social em quase todas. Não se trata de um banda punk querendo adaptar o reggae para os três acordes, como o próprio Clash em seus primeiros discos (o cover de “Police and Thieves”, de 1977, é um exemplo disso). Nem de uma banda de rock’ n roll com tendências ecléticas, como o Clash de London Calling. Sandinista é um disco de um grupo que quer tocar tudo – um grupo, ponto. É um disco gigante, ultra-pretensioso, inflado: não é um disco de rock e nem de um roqueiro. É um disco de um intelectual de esquerda – ou melhor, de um aspirante a intelectual de esquerda nascido e criado entre gente de Direita. Como, aliás, grande parte destes intelectuais, incluindo ninguém menos do que Karl Marx.
Os garotos punks que o cercavam achavam-no uma figura curiosa. O irlandês gozador John Lydon, um proletário de quatro costados, filho de imigrantes famintos da Ilha Verde (então um dos países mais pobres e atrasados da Europa), morador dos imundos blocks londrinos dos anos 60 e 70 para receber ex-colonizados do império, como caribenhos e os próprios irlandeses, ria a valer dos pendores intelectualóides do inglês Strummer: “Strummer lê muitos livros e acredita neles, coitado!”. Nos EUA, a turma do hardcore dizia que o Clash tinha se vendido a partir de London Calling e que Strummer era “um aristocratazinho”, no dizer de um Jello Biafra que falava em nome de muitos. Criticavam-lhe o sucesso comercial, as referências literárias e políticas, o ar professoral que Strummer com alguma frequência assumia em cima do palco (coisa que nem o mais fanático clashmaníaco pode negar) e criticavam-lhe, em peso, pela sua origem. Mas foi a sua origem que deu ao Clash a substância que nenhum outro grupo de rock de sua época (e muito poucos em toda a história da música pop) puderam apresentar. Como filho de diplomata, viveu em vários países, indo além da insularidade inglesa, cárcere intelectual que aprisiona até mesmo refinados intelectuais da ilha. Como aristocrata, estudou nos melhores colégios privados ingleses, onde até o mais vagabundo dos alunos aprende, mesmo contra a vontade, algo sobre Plutarco, Descartes ou William Blake. Como jovem bem formado vagando pelo no submundo londrino, conheceu refugiados políticos de todo o mundo, músicos de todo o mundo, artistas de todo o mundo e escritores de todo o mundo – especialmente da Espanha franquista e da América do Sul das ditaduras militares, o nosso grande mundo hispânico que ele tanto amava. Repetindo o que disse Shaw: nada é mais reacionário e conservador do que um membro da classe trabalhadora. Strummer não era um deles – nunca foi. Como o próprio Shaw nunca foi. Da mesma forma que um dos escritores mais identificados com a esquerda em seu tempo era filho da classe média-alta irlandesa (de origem inglesa), o mais representativo grupo do punk politizado inglês foi conduzido pelo menos inglês de todos os rockers, com muito mais parecenças com um artista da Europa continental ou da América do Sul do que com qualquer um de seus companheiros de cena musical. Só Joe Strummer seria capaz de levar o white noise (expressão cunhada por Lester Bangs naquele artigo genial citado acima) para além das fronteiras estreitas desenhadas pelos anglo-saxões do Atlântico Norte. Só ele poderia citar Garcia Lorca, clássicos do cinema e das artes e gravar canções com a participação do poeta beat Allen Ginsberg. Só alguém assim poderia dizer, em uma de suas últimas entrevistas, sem parecer forçado, que ”This world’s full of kids playing with their bloody Playstations – and I mean grown-up executives. What is that shit? I know thousands of people my age, sitting around with those. What the fuck are you doing? We should be talking about Dostoeyevsky, innit?”. Só um estranho chamado Joe Strummer.









































