PERSPECTIVA

Che Guevara – A queda de um mito

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              A matéria de capa da revista Veja da última semana, intitulada “Che – A Farsa do Herói”, parece ter sido feita para pôr fogo no debate. Literalmente:  já na terça-feira, dia 2, a UJS programou uma manifestação em frente à sede da Abril, em São Paulo que envolveu, entre outras coisas, a queima de exemplares da revista em protesto contra o que o líder da entidade Rodrigo Moreira, qualificou como uma “uma matéria caluniosa e pejorativa contra um dos lutadores de que a juventude mais se orgulha no mundo”. Não será o único. Outras entidades ligadas à esquerda planejam algo semelhante, atacando, entre outras coisas, o modo supostamente tendencioso como a revista tratou a biografia de “El Che”.

            Eis aqui o vídeo da manifestação:

              http://br.youtube.com/watch?v=FII7n1qxigE

               “A Veja é um partido da direita”, dizem os manifestantes, entre outros termos um pouco menos educados. Dizem – ou melhor, gritam – essas palavras enquanto queimam as revistas, conforme o planejado. Talvez fizessem melhor em pedir um tempo antes do início do ritual programado e todos juntos, sentadinhos em círculo, darem uma olhada no que estão prestes a jogar na fogueira.

           Que é que diz, essencialmente, a matéria de Veja sobre El Che? Diz que o dito cidadão argentino, nascido em Rosário de família de classe média alta e morto na Bolívia após emboscada multinacional, foi uma farsa. Porquê o diz? Porque a imagem que passou para o mundo, segundo a revista, foi fruto de propaganda, que nada tem a ver com o Che Guevara real. O guerrilheiro que lutava pela liberdade, prestativo, amoroso, simpático, galã e boa praça não passava, segundo a matéria, de um assassino frio, arrogante, péssimo militar, péssimo administrador, péssimo revolucionário e,  como se tudo isso não bastasse, tão fedorento que recebeu o apelido de “Chancho” (porco, em espanhol) e tinha, segundo relatos, “cheiro de rim fervido”. Convenhamos que não há mito que resista a isso.

               

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              A resposta dos atingidos – isto é, os fãs de Guevara – vem rápida: a VEJA mentiu. Tudo o que ela diz sobre a personalidade, a inteligência, os fatos da vida e até o cheiro do argentino são invenções de cunho ideológico para desestabilizar os planos da esquerda. A verdade, para variar, está nas cartilhas, nos panfletos e nos discursos da própria esquerda, detentora do monopólio moral das informações sobre seus heróis. Natural, já que o marxismo se coloca como salvação para a multidão de ideologias inspiradas pelo grande capital. Não se pode negar que, neste caso, a esquerda pelo menos está sendo coerente consigo mesma.

              Acho que nem o mais ingênuo marxista poderia acreditar que a revista Veja faria uma matéria elogiosa ao argentino mais famoso do mundo, lado a lado com seu fã Maradona. Poderia esperar, no máximo, que a revista agisse de acordo com os princípios do jornalismo investigativo. E justamente por isso é que essas respostas e essas queimas são estranhas. Porque, salvo um ou outro deslize, que pode ser explicado pela natureza claramente opinativa da matéria, os repórteres encarregados, Diogo Schelp e Duda Teixeira, apóiam-se apenas no que um jornalista pode se apoiar: nos fatos. Ou melhor: nos fatos que chegam, e da maneira que chegam, até nós. Por isso as fontes e as entrevistas. “Che – A farsa do herói” tem tudo o que uma reportagem deve ter: fontes autorizadas, citações bibliográficas, uma entrevista inteira, informações e informações de gente que esteve frente a frente com Che Guevara, sejam aliados ou inimigos. Faz uso, sim, da retórica. Tem, sim, um direcionamento. Podemos discutir longamente se isso compromete a leitura da matéria. Mas o foco central, que são os fatos ali apresentados, são, queiram os partidários de Che ou não, muito mais críveis do que qualquer cartilha, discurso, palavra de ordem ou apedido em jornal. Para afirmar convictamente que a matéria serve aos interesses deste ou daquele grupo é preciso descrer das dezenas de fontes utilizadas pelos jornalistas, e tenho a impressão de que nenhum esquerdista sério sugere isso. Argumento semelhante foi usado pelos que condenaram o filme “Paixão de Cristo” como anti-semita. E Mel Gibson,o diretor, respondeu: “Então falem o mesmo dos evangelhos!”.

             Dissemos um pouco antes que, para os seguidores de Che, a verdade está nas cartilhas. Sim, pode até ser. Mas não a verdade sobre ele. Afinal de contas, quem é que leu Che Guevara? Quantos marxistas de carteirinha, daqueles que decoraram as fórmulas matemáticas de O Capital e sabem a letra da Internacional Socialista inteirinha, já se debruçaram sobre os escritos dele? Não conheço nenhum. Não creio que existam em quantidade apreciável. E o motivo é simples: porque, ao contrário de Lênin, Trotsky,  Mariategui, Kautsky, Lukács e todo o panteão marxista, Ernesto Guevara de La Serna não é para ser lido. Não interessa se foi um grande teórico – e não foi – ou um grande orador – e também não foi -, mas sim, única e exclusivamente, o poder simbólico que dele emana. A fotografia de Alberto Korda é a cruz de Cristo da religião materialista da qual Che foi profeta, e essa religião foi menos o comunismo do que o guevarismo, a adoração a uma figura e do seu mandamento único: “Hay que endurecer sin perder la ternura jamás”. Um paralelo com  Jesus torna-se inevitável. O centro da religião cristã é  Jesus Cristo, o Deus feito carne, e sua trajetória pela terra. Ao tornar-se cristão, batizado logo no nascimento com a água benta- Cristo, em grego, significa “ungido” – que o coloca em comunhão com os outros, o homem deseja viver como o seu mestre. O guevarismo faz algo parecido. Seus admiradores desejam viver exatamente como ele: usam a barba, a camisa surrada, deixam o cabelo crescer, tentam copiar o semblante altivo de Che – típico da elite argentina, e não das classes populares - e, em alguns casos, imitam-lhe até a aversão pelo banho. Andam em grupo e tentam conquistar fiéis para sua crença. Ao entrarem na camarilha, precisam comungar dos mesmos ideais, usar o mesmo vocabulário, entender e empregar os mesmos sinais. O guevarismo também unge seus fiéis com o óleo santo da esperança, uma esperança material, contingente, palpável e, por isso, muito mais atraente.

                  Por isso, quem quiser entender as respostas desesperadas, quase infantis, dos guevaristas, sobretudo os guevaristas adolescentes, não pode pensar que eles estão querendo o coletivismo assassino da URSS, por mais que o próprio Che o tenha defendido várias vezes. Não podemos pensar que os jovens que andam com a camiseta de Che querem de volta as Gulags. Não podemos pensar, ainda, que os adultos e até velhos que um dia usaram essas camisetas defenderam as Gulags conscientemente. A religião de Che Guevara não é violenta, não lembra o totalitarismo, não lembra as Gulags, não lembra Stalin, Lenin, Pol Pot. Lembra uma infância livre pelos pampas, uma viagem pela América Latina na adolescência, a luta política, uma revolução vitoriosa e, por fim, uma morte digna de um verdadeiro combatente, assassinado a sangue frio pelos opressores imperialistas. Tudo isso antes dos 40 anos. Tudo isso inspirado pelos elevados ideais de caridade, justiça, amor, liberdade, igualdade e fraternidade. Quem é que não quer seguir a este grande homem?

                 Nesse mundo que Max Weber chamou de “dessacralizado”, segundo uma tradução, ou ”desencantado”, segundo outra, o mito Che Guevara é um dos poucos antídotos para a racionalização e o desencantamento.  É por isso que aqueles jovens assumem o papel de inquisidores e queimam as revistas. Porque Veja cometeu um sacrilégio. Afrontou o guevarismo atacando a figura do próprio mestre. Lênin, Stalin, Mao, todos esses podem ser atacados: são governantes, políticos como quaisquer outros, no fim de tudo não são mais do que meros burocratas chatos e corruptos. Agora, Che Guevara, não. Parafraseando Dostoievski: se Che Guevara está morto, se o guevarismo está morto, então tudo é permitido. Podemos, sem culpa nenhuma, jogar nossos trapos fora, cortar a barba e o cabelo, tomar um bom banho - supremo sacrilégio! – e depois cuidar da carreira, ganhar dinheiro a qualquer custo, entrar no mundo para competir,  colocar grades altas na frente de casa, colocar fios elétricos em cima destas grades e, se nada disso funcionar, aprender inglês e fugir para os Estados Unidos com a família. Podemos, enfim, nos assumir capitalistas sem qualquer problema de consciência. Dentro de uma ideologia que um dia entorpeceu a mente de milhões, Che Guevara era o último bastião, a última alternativa, de charme, respeito e moralidade. Agora não resta mais nada. Seu semblante falsamente altivo, falsamente esperançoso, falsamente humanitário – falso, enfim - será lembrado no futuro como o marco de uma tempo decadente em que as pessoas, sem os amparos tradicionais para enfrentar o mundo, acabam buscando apoio em vigas de mentirinha.

Outubro 6, 2007 - Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Geral, Política | | 11 Comentários

11 Comentários »

  1. Até parece que a Veja tem as fontes mais confiáveis…
    e o melhor: até parece que ninguém sabe o porquê A VEJA faz esse tipo de reportagem…

    Ah e outra, teórico ele não era mesmo( ao menos não bom) mas baita lutador, e as vezes é o que vale mais!

    e outra coisa, eu tenho guevara como ícone, e tomo banho!!!

    ashuashuahsuas

    Comentário por camila | Outubro 7, 2007 | Responder

  2. Camila,não li na Veja e sim nos relatos de quem passou 20 anos sendo humilhado,mutilado e até cobaia de experiências biológicas nos campos de concentração cubanos(com a benção do teu ícone)por simplesmente acreditar em Deus e não no pseudo-deus fidel
    Armando Valladares, “Contra toda esperança”, Plaza & Janés, Barcelona, 1985
    Recomendo para todos

    Comentário por gustavo | Outubro 8, 2007 | Responder

  3. Tche loco, tu gosta de arruma briga né?? Parece alguém que eu conheço…

    eu li essa revista ai, a tal de VEJA, até acho que seja uma revista tendenciosa sim, mas tenho certeza que não inventariam nada pra arrumar confusão só pra curtir com uns comuna por ai.
    há um documentário sobre ché, que eu vi na tv a cabo a muuuto tempo, que fala mais ou menos o que tava na revista. depoimentos de quem viu e viveu com ele. não pintava um cara tão desumano, era carismático, falava bem, e desconfiava de todos. defeitos de um argentino comum criado pela mãe!

    Comentário por Thiago | Outubro 9, 2007 | Responder

  4. Ah que isso meu.

    Não pode falar isso…

    Comentário por Felipe | Outubro 9, 2007 | Responder

  5. Um querido professor que me ensinou na adolesccência dizia
    que “do seu ponto de vista,cada qual tem razão no que diz de boa-fé “. Entre o ponto de vista de Veja e o de Flávio Tavares, expresso em artigo na Zero Hora de domingo dia 7/10/7, fico com o Flávio.
    Att.

    Comentário por Eloi Kirsten | Outubro 10, 2007 | Responder

  6. como podem criticar assim
    um cara que queria a igualdade
    e lutava ate o fim pelo que queria???
    Che nao so É admirado como SERÁ sempre
    pois ele é um exemplo,
    Uma pessoa que corre atras de seus objetivos
    que leva adinate uma ideia mesmo sabendo que vai ser dificil vencer, esta é criticada
    mas se todo mundo (ou ate uma boa parte do povo) resolvesse ser como ele, talvez a honestidade iria prevalecer e viveriamos num mundo melhor

    a cada dia mais minha admiração por Ernesto Che Guevara cresce…

    Comentário por Noele | Outubro 10, 2007 | Responder

  7. Che Guevara for dummies:

    Filhinho de papai maconheiro e entediado com a sua própria nulidade que, um belo dia, resolveu sair por aí de fuzil em punho matando quem não pensava igual a ele. Apenas isso.

    Isto é Che Guevara. Não é um herói. Não é um mestre. Não é porra nenhuma. É só mais um merdinha no meio do infinito esgoto da insignificância.

    Comentário por Ricardo | Outubro 11, 2007 | Responder

  8. O nosso mundo já está cheio destas idéias que a essquerda é a melhor coisa do mundo. Se fosse, o mundo não estaria essa desgraça que está hoje. Ernesto Che Guevara foi apenas um idealista que não sabia o que estava fazendo, era um mero fantoche de idéias retrógradas de uma revoluçaõ comunista que tenta alienar o povo. Odeio Lenin, Trotski e principalmente Marx, o hipócrita-mor. Se voces tem direito de descer a lenha na direita, saibam que é a direita que faz voces terem suas idéias, coisa que a esquerda nem deixa. Ao invés de ficarem por aí com a bíblia de Lenin e a camiseta do Che Guevara vão trabalhar pra fazer um mundo melhor.

    Comentário por marcos | Outubro 13, 2007 | Responder

  9. É muito cômodo ficar de camarote criticando alguem que tinha uma ideologia, e foi morto por isso. Gostaria de saber o que faz a tendenciosa revista Veja e aqueles que concordam com ela, para transformar o Planeta num lugar melhor para se viver.

    Comentário por Edson Serrinha de Jacobina | Novembro 19, 2007 | Responder

  10. Che Guevara não foi um merdinha qualquer.
    sim a Veja tem razao(nao li inteira mas o pedaço que li deu pra entender um pouco) ele nao tomava banho:
    mas e dai?alguem precisa tomar banho pra ser uma boa pessoa? sim talvez seja bastante improtante a higiene mas o que vale numa pessoa sao as ideias.
    ele quis sair por ai matando todo mundo:
    nao foi bem assim,ele pode ser violento,mas nao queria matar todos e sim aqueles aproveitadores americanos,parem pra ao inves de descer o pau no Che com frases “queria mata todo mundo um merdinha sujo” pensei:
    vcs concordam com batista?e o governo que se aproveitava da america?queria ver se voces fossem os trabalhadores camponeses da epoca, se iriam falar mal de che guevara.
    concordo com o edson,os revolucionarios fizeram muita coisa na historia(talvez nao fossem bem-sucedidos porque revoluçoes nao sao faceis mas oq a direita fez?)

    Comentário por Henrique | Janeiro 23, 2008 | Responder

  11. Alguem sabe me responder pq ou qual finalidade os jovens de hj gostam de usar a figura do “Che” na camisa?
    Obrigadaa..abraço a tds!=)

    Comentário por keka | Outubro 1, 2008 | Responder


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