PERSPECTIVA

Brasileiros na Espanha - um outro ponto de vista

Leia aqui a matéria da BBC 

Ninguém pode deixar de sentir-se indignado com o tratamento recebido pelos físicos brasileiros Pedro Luiz Lima e Patrícia Rangel no aeroporto de Madrid. São duas pessoas qualificadíssimas, formadas pela melhor universidade da América Latina, alunos de mestrado, prontos para participar de um congresso sobre a matéria em Lisboa, sem nada que os qualificasse, portanto, como imigrantes ilegais ou criminosos. Pois foi exatamente este o tratamento. E a reação da mídia foi imediata: os envolvidos foram entrevistados, os analistas políticos discutiram a questão, houve muita indignação, enfim. Injustiça. Foi o termo mais usado: injustiça. Não merecemos essas coisas que eles fazem conosco.

Não mesmo? Num certo sentido, não mesmo. Nem todos aqueles que vão à Europa são virtuais infratores da lei.  Nem todos vão trabalhar ilegalmente. Nem todas as mulheres vão parar na prostituição. Há aquelas famílias que vão apenas visitar um lugar diferente, passar uns dias, comer em bons restaurantes, conhecer os monumentos, divertir-se um pouquinho. Só isso. Nada de muito incômodo. E decerto não foi por causa destas pessoas que as autoridades de imigração da Espanha barraram os brasileiros. Não foi também por aqueles que foram para este país legalmente em busca de emprego. Não foi também pelos estudantes universitários que para lá vão fazer mestrado ou doutorado. Nem pelos jogadores que alegram os domingos espanhóis depois da siesta. Não é este tipo de brasileiro que faz a nossa má fama no exterior, fama esta que já está suficientemente espalhada ao ponto de, em muitos lugares, a palavra “brasileira” trazer um sentido semelhante ao que “polaca” tinha em nosso país no passado. Assim como é sabido que por muito tempo brasileiros ingressaram na Espanha utilizando diversos estratagemas que funcionaram por algum tempo.  Em 2007,  diariamente cerca de 20 brasileiros foram barrados no aeroporto de Barrajas, local de entrada de 55% dos que pretendem entrar na Espanha. Não é preciso explicar mais.

A reação veio sem demora. Já somam dezenas os espanhóis barrados em nossos aeroportos, e pelos mais variados motivos: problemas no passaporte, falta de dinheiro, falta de comprovante de residência ou hospedagem, enfim, tudo o que se espera do turista bem-intencionado (veja aqui o vídeo com a matéria). Alguns analistas (brasileiros, é bom que se diga) vêem nisto um ressentimento pueril, reação típica de paisecos complexados diante da força de um grandalhão poderoso. Discordo. Não se trata de discriminar a quem quer que seja. Exigir do estrangeiro que adentre solo nacional algumas condições mínimas para sua permanência sem sobressaltos não é discriminação: é apenas a lei - a mesma lei que os europeus e americanos cumprem. E é justamente isto que preocupa nessa história toda. Na Espanha, o exagero dos funcionários levou a arbitrariedades, arrogância e violência; no Brasil, o exagero dos funcionários levou-os a cumprir a lei.  Antes da Espanha deportar brasileiros a entrada de estrangeiros no Brasil prescindia dessas exigências pelo que a repercussão dos que foram barrados agorademonstra. Pelo visto,entrava qualquer um, estivesse ou não com passagem de volta marcada, estivesse ou não com dinheiro no bolso, estivesse ou não com hospedagem garantida, estivesse ou não com boas intenções. Entrou muita gente de bem, sim. E entrou muita gente má - muitos traficantes, de drogas e de pessoas, muitos pedófilos, muitos turistas sexuais, muitos criminosos foragidos. E continuariam a entrar, não fosse o escândalo que a Imigração espanhola ajudou a provocar. Carregando um pouco na ironia, poderíamos dizer que os espanhóis prestaram um grande serviço ao povo brasileiro, já que fizeram os nossos governantes exigirem dos funcionários apenas o mínimo que deles se esperaria. Infelizmente, nem isso está garantido. Quando a poeira baixar, essa coisa de cumprir a lei já vai cair por terra. E prevalecerá, como sempre, o  velho adágio - de origem ibérica, aliás -, traduzido para todas as línguas e aplicado com fervor neste canto do mundo: para os amigos, tudo. Para os inimigos, os rigores da lei.

Março 16, 2008 - Escrito por Celso Augusto Uequed Pitol | Política | | Nenhum Comentário

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