PERSPECTIVA

As oportunidades de Lula

Podemos criticar o governo FHC em muitos pontos, mas ninguém pode negar que o ex-presidente tucano vem dando verdadeiras lições de como um verdadeiro homem público deve se comportar. Depois que deixou a Presidência, Fernando Henrique não seguiu o rito comum a muitos ex-presidentes que recolhem-se à vida privada, aos chinelos, à novela das oito e os netinhos. Fundou um Instituto com seu nome, dá palestras e cursos, escreve livros e publica artigos periodicamente na grande imprensa brasileira. E volta e meia tem momentos luminosos que servem - ou deveriam servir - de lição para o seu sucessor.

Um deles é este artigo, publicado no jornal Zero Hora na última semana:

Fernando Henrique Cardoso Oportunidade perdida

Seu título é “Oportunidade perdida” e sua leitura nos mostra que a distância entre Fernando Henrique e Lula não é apenas de origem social. Tampouco podemos medi-la pelas dezenas de anos de estudo que um tem a mais do que o outro. O que os separa é a maneira de encarar o país em que vivem e o mundo que os cerca.

Após saudar a iniciativa de Barack Obama em criticar abertamente as palavras racistas do seu suposto mentor espiritual, o pastor Jeremiah Wright, Fernando Henrique a compara com as atitudes recentes de Lula:

“Que diferença! Seria demais esperar que Lula, que também é símbolo de uma sociedade dinâmica em que as forças da mobilidade social contam mais do que a origem, percebesse que o País, para avançar, precisa realizar o muito imperfeitamente realizado ideal da igualdade perante a lei e que a moralidade pública é condição da igualdade republicana, e não preocupação de privilegiados? Não é isso que se deveria esperar do chefe da Nação? O que se vê, porém, é um presidente que não hesita em reviver a velha cantilena dos “dois Brasis”, da elite branca e dos oprimidos, dos maus e dos bons, e não raro justificar as práticas políticas mais atrasadas. Isso num país que o colocou no topo da vida pública e que se caracteriza por ter uma elite composta pelos “brancos da terra”, tisnados com orgulho pelos mais variados sangues, do indígena ao europeu, do negro ao asiático.”

A seguir, lembra do episódio lamentável - e francamente ridículo - do nosso presidente em Pernambuco, ao fazer uso interesseiro do ressentimento da platéia contra os sulistas que supostamente os desprezam:

“Para afagar Severino Cavalcanti, chamou-o de vítima do preconceito das elites de São Paulo e do Paraná, que teriam urdido uma trama para seu afastamento da vida pública. Teoria conspiratória risível, se dita por uma pessoa comum. Inaceitável, porém, vindo do presidente da República.”

Inaceitável e preocupante. Lula mostra assim, sem retoques, a sua faceta amiga de Chávez e Morales, que também brincam com a questão racial para angariar apoio popular e dividir nações ao meio através da cor e da origem. Lembra aquela criança pobre que, enraivecida pela popularidade de um menino mais bonito e rico, aponta-lhe o dedo na frente de todo o mundo e grita aos quatro ventos: “Ele despreza a gente, sabiam?”. Engraçadinho e previsível no caso da criança. Inaceitável, para alguém que, em princípio, deveria colocar-se acima de tudo isso. Só que Lula, o mesmo que assume ar bonachão de dono de padaria, que admite gostar de samba, futebol e novela, que chama o presidente dos EUA de “cumpanhêro Búshi” e que se veste de caipira em Festa Junina, recusa-se a assumir, nem por alguns minutinhos, uma postura um pouco mais altiva, mais sóbria, mais, digamos, compatível com o cargo de comandante máximo da oitava economia do mundo.

São bem conhecidos os frutos dessa política nojenta. Nos países africanos, fazendeiros brancos são brutalmente assassinados pelo simples fato de serem brancos. Na Espanha, bascos explodem bombas como vingança pela barbárie cometida por Franco. Até mesmo nos EUA, velhos políticos sulistas saudosos da segregação dão força para grupos racistas por que não querem ver descendentes dos seus escravos mandando em grandes empresas. Lula está querendo fazer a mesma coisa. Irresponsabilidade? Provável. Ignorância? Também. Mas também pode ser plano bem arquitetado de conquista de espaços dentro do eleitorado, trazendo para si uma faixa de público que adora um bode expiatório para acalmar seu ressentimento.

E é com preocupação que o ex-presidente pergunta:

“Será a prévia do que virá pela frente na campanha eleitoral de 2010?”

Infelizmente, há bons motivos para pensar que sim. Esse discurso mesquinho e tosco já demonstrou ter vida longa num país onde as cotas para negros foram aprovadas e os seus opositores foram tachados de racistas, inimigos da igualdade e neo-escravagistas, mesmo que entre eles se encontrassem muitos negros. E aí podemos diferenciar essencialmente os governos Fernando Henrique e Lula, bem como as suas personalidades. No governo FHC, a questão de quebra de patentes dos remédios foi tomada pelos estrangeiros como uma afronta aos princípios básicos do livre comércio. O Brasil foi muito elogiado, mas também muito criticado pelos grandes grupos econômicos. FHC - ou melhor, o ministro José Serra- manteve-se firme e, hoje, o Brasil é referência no combate à AIDS em todo o mundo. FHC ainda desapropriou centenas de milhares de hectares - alguns deles indevidamente -, deu polpudas indenizações para quem foi prejudicado pelo Regime Militar e destruiu ACM e sua descendência política. Ousou bastante, portanto. Mas sempre soube, como sociólogo de formação que é, o perigo de mexer em estruturas básicas da formação cultural brasileira. E uma destas - talvez a principal - é a miscigenação. FHC sempre deixou claro que o discurso racialista era, em se tratando de Brasil, é não só mentiroso e redutor como perigosíssimo. Importado de centros onde ele, por uma série de variáveis de ordem cultural, se fez necessário - nomeadamente, os Estados Unidos da América -, ele corria o sério risco de adaptar-se mal a um ambiente onde as condições que o engendraram não existem ou, se existem, estão configuradas de maneira muito diferente e gerando resultados muitos diferentes também. Por isso sempre se pôs contra as cotas universitárias, apesar de, com isso, ter a grande chance de ganhar a simpatia de certa parcela engajada da comunidade negra. Por isso nunca usou de baixos expedientes retóricos ao falar em áreas mais pobres do país. Por isso nunca falou do Brasil como uma gigantesca - e grotesca - antítese entre proletariado e elite, tão cara aos ouvidos dos admiradores de Stalin e Mao, respeitando a complexidade do país e reconhecendo que não seria pelo confronto direto entre “civilizações” diferentes que resolveríamos os nossos problemas. Lula não tem essa preocupação. Lula não entende nada disso. Provavelmente sequer entende este texto. Provavelmente sequer sabe o que Fernando Henrique quer dizer quando lamenta, no fim de seu artigo, que a “oportunidade se está perdendo pela falta de visão de quem lidera”. Porque Lula, com todas as suas apologias aos laços “de sangue” (palavras suas) que o unem à população brasileira, com todos os anúncios de coisas que “nunca antes nesse país” foram feitas, com seu sorriso e sua camaradagem tão brasileiras, não entende nada do país que ele próprio governa. Se tivesse a mínima noção do que está fazendo e do que deveria fazer ele aproveitaria as inúmeras oportunidades que lhe passam à frente, não de construir um novo País, como FHC lhe pede, mas sim apenas as de ficar quieto.

Abril 8, 2008 - Escrito por Celso Augusto Uequed Pitol | Política | | 1 Comentário

1 Comentário »

  1. Ao ler “As Oportunidades de Lula” tenho a impressão de que estão cobrando do nordestino operário que virou presidentea visão correta dos grandes problemas nacionais, e a competência e vontade de resolvê-los, virtudes que as elites de todos os timbres não tiveram em 500 anos de História do Brasil. Assim não pode! Assim não dá!

    Comentário de Eloi Kirsten | Abril 14, 2008

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