Ainda as cotas ou Apontamentos a partir da leitura de um jornal
Quem passeia pelo Brique da Redenção nas manhãs de domingo volta para casa bem informado. Enquanto olha os discos de vinil ou procura edições pré-históricas da revista O Cruzeiro, o transeunte toma contato, e à sua revelia, com a fina flor da imprensa alternativa portoalegrense, de informativos de grupos GLS a folhetos de cartunistas.
Um desses jornais intitula-se, muito simplesmente, Jornal do Centro. Na sua edição de dezembro do ano passado, este jornal trouxe uma matéria sobre um tema então candente: a questão da aprovação das cotas raciais na UFRGS. Não se pode dizer que a matéria discutiu a questão, como seria natural em um texto que não é opinativo. Veremos a seguir porquê. Importa, por enquanto, comentar brevemente algumas passagens do texto.
A primeira frase do texto é a seguinte:
“O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo”
Este é um dos argumenos mais frequentemente utilizados pelos defensores das cotas raciais. Segundo eles, aproximadamente metade dos brasileiros pertenceriam a esta etnia, contabilizando assim 90 milhões de negros em todo o país. De acordo com esse número, apenas a Nigéria, com seus 125 milhões de habitantes - quase todos desta cor - teria mais negros do que o Brasil em números absolutos.
Uma olhada de perto nas estatísticas desmonta essa idéia. Os 90 milhões a que aludem os pró-cotas incluem aí os mestiços - 43% da população - junto aos negros - em torno de 6%. São pessoas que possuem tanto origem africana quanto européia. Aliás, muitos destes mestiços sequer têm origem africana: são mistura de índios e europeus, como é o mais frequente nos Estados das regiões Norte ,Centro-Oeste e em partes do Sul do país, sobretudo nas áreas próximas à fronteira com a Argentina e o Paraguai. Essa estatística de 90 milhões de negros é, portanto, totalmente fictícia e serve apenas à propaganda dos cotistas, que empregam aí o critério do censo norte-americano, segundo o qual é negro todo aquele tenha algum ancestral de origem africana. Esquecem eles, porém, que naquele país a miscigenação entre negros e brancos - excluídos aí os mestiços provenientes da América Latina e do Caribe - é raríssima, sendo assim o negro americano quase sempre um tipo puro, sem qualquer origem européia. O que, definitivamente, não é o caso do Brasil.
Logo depois, a mestranda em Letras Luanda Sito, participante do Grupo de Trabalho pelas Ações Afirmativas, diz o seguinte:
“Uma população não está ingressando aqui e o item racial é bastante importante para este não-acesso”
Outra afirmação muito discutível. O vestibular não discrimina ninguém pela cor. Na escola, as turmas não são divididas pela cor. Nos concursos, idem. O item racial só pode ser ímportante se considerarmos o racismo presente na sociedade como um obstáculo a ser ultrapassado pelo negro. Só que esse racismo não é oficial. Aliás, há garantias legais contra ele. Como é possível, portanto, afirmar que o item racial seja tão importante assim?
A mesma Luanda comenta as pichações racistas que apareceram nos prédios da UFRGS da seguinte maneira:
“Essas manifestações que ocorreram foram uma reação à promoção de direitos de igualdade. O que é normal, pois quando você quebra privilégios de um grupo ele tende a reagir negativamente”.
A qual grupo a sra. Sito se refere? Aos que picharam os muros? Aos alunos da UFRGS? Se a referência for a estes últimos, ela está enganada. Os alunos que estão na universidade, de qualquer cor de pele, não são “privilegiados”. Entraram por meio de um concurso público com chances iguais e ali estão por mérito próprio. Se o grupo aludido for o daqueles que picharam os muros, então a questão muda de foco. Racistas são contra negros em qualquer lugar, não apenas na universidade.
Por fim, a matéria traz uma declaração de um estudante sobre a questão. Diz ele: “A aprovação das cotas criará um apartheid social dentro da UFRGS. Ficarão os aprovados por mérito de um lado e os cotistas do outro”. Ao que respondeu a sra. Sito:
“Este apartheid já existe”
Difícil imaginar que a sra. Sito seja mesmo estudante do mestrado da UFRGS. Este que aqui escreve estuda na mesma universidade e no mesmo instituto que ela e nunca viu nada parecido com apartheid desde que lá ingressou. Ao contrário: a regra é ver alunos negros, brancos e mestiços no mesmo espaço, estudando juntos, fazendo trabalhos juntos e divertindo-se juntos. Assim é dentro da Universidade, e assim é também fora dela. As manifestações racistas, se ocorrerem - e este articulista nunca viu nenhuma - com absoluta certeza serão imediatamente reprimidas não pelos órgãos oficiais da universidade, mas sim pelos próprios alunos, sejam eles de qual etnia forem.
E agora, perguntamos: onde está o outro lado da questão? Onde estão os estudantes e professores que são contrários a esta medida? Onde estão os representantes da tendência oposta? A matéria trata a questão das cotas como o único remédio possível contra o racismo e os seus defensores como uma espécie de paladinos da igualdade contra o preconceito. Ao escolher apenas um lado da questão, essa matéria contribui para a divulgação de uma idéia baseada em falsos preceitos e que, ao contrário de diminuir o preconceito racial, só irá aumentá-lo.