Boa notícia e triste lembrança
Lembro quando li uma edição completa da Folha de São Paulo pela primeira vez. Foi num sábado de abril, em 1999. Tínhamos acabado de fazer a assinatura do melhor jornal do Brasil e estava ansioso para poder apreciá-la na íntegra. Abri então o imenso jornal e tentei manuseá-lo meio desajeitadamente, acostumado que estava com os tablóides do Rio Grande do Sul. Parei na página 3, a dos artigos assinados. Vejo então o nome de Tarso Genro, figurão do PT gaúcho, ex-prefeito de Porto Alegre, então um dos nomes mais respeitados da política brasileira, no cabeçalho de um dos artigos. Não lembro do título, mas lembro do que ele, Tarso Genro, tido e havido como cabeça pensante, respeitado pela sua moderação no falar e no reivindicar, pedia nada menos do que o impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso. E por quê? Porque ele havia traído o povo brasileiro com suas falsas promessas e com o seu falso Plano Real, que estava levando a Nação à bancarrota. Naquela época, é bom lembrar, o país tinha acabado de sofrer uma grave crise cambial que levaria à necessidade de deixar o câmbio flutuar, em vez do sistema de bandas até então adotado.
O artigo obviamente me chamou a atenção, mas não consegui dimensionar naquele momento o que ele significava de fato. Depois, quando outros grandes nomes do PT começaram a atacar em bloco o governo e líderes de movimentos sociais engrossavam o tom, comecei a perceber que a esquerda inteira estava, em bloco, atacando o governo FHC justamente naquele momento delicado em que o país vivia, um dos muitos momentos delicados que vivemos entre 1995 e 2002. FHC bambeou, mas continuou firme e forte. Ninguém pediu seu impeachment.
É verdade o tempo muda muita coisa e que o travesseiro é um ótimo conselheiro, e que todos temos o direito de errar. Mas, mesmo assim, eu gostaria de saber se, diante desta notícia aqui, o distinto senhor que introduziu as minhas leituras daquele grande jornal, em todos os sentidos, que é a Folha ainda mantém sua opinião. Será que agora, provado e reconhecido que a sua triste manifestação, naquele triste momento, talvez deixasse o país eternamente distante do nível que ora atingimos, ele manteria sua posição? Não, provavelmente, não manteria. E não digo isso porque acredito que mudaria sua postura, que seria capaz de rever seus próprios e rígidos conceitos. Digo que não manteria porque o governo a ganhar com essa boa notícia seria o dele, e não o outro, ainda que todos os louros das vitórias que Lula alcança se devam, diretamente ou indiretamente, à permanência dos principais pontos consagrados pelo governo FHC. Seu projeto é de poder, não de governo. E é lamentável que eu, num momento tão bom quanto esse para o país, tenha me recordado não do que temos a ganhar com isso, mas do que já perdemos até agora.