Vendetta ou Os imperdoáveis
Eugenio Brauner*
Dez anos atrás. Eu estava presente no “dia das camisetas queimadas”. Inter zero, Juventude quatro. Tomei um banho de bola, com direito ao Maurílio me mandar calar a boca, um banho de chuva, perdi-me do meu irmão que ficou com o dinheiro e as passagens do ônibus no bolso das calças. Resultado: uma caminhada do Beira-Rio até em casa – ali ao lado do Shopping Total – remoendo o resultado sob uma garoa fina e gelada.
Mas ontem foi tudo diferente. Não me perdi, nem tomei banho de bola. Chovia? Só lembro de uma chuva de gols. Um ciclone no Rio Grande do Sul? Era Fernandão, só podia ser.
Porque, nos meus 26 anos, eu nunca vi um time querer humilhar tanto um adversário. Nunca. E foi isso que aconteceu na tarde de ontem. Qualquer time que faz quatro ou cinco, reduz a marcha e começa a tocar a bola de lado, fazer firulas e praga e tal. Mas o Colorado não – ainda mais quando se trata de um jogo contra o Juventude! E qualquer torcedor sabe que o mais humilhante do futebol são as goleadas e não as embaixadinhas ou os chapeuzinhos, não são mulisquetas ou patuscadas. Futebol é gol. E quanto mais, melhor.
O Inter foi implacável como um William Munny, de Os Imperdoáveis.
Ontem foi a vendetta dos colorados. Demorou dez anos para tanto. Ficamos com aquilo guardado, crescendo a cada jogo e a cada comentário do Wianey ou do Hiltor falando da touca e das leis de Murphy. E a sabedoria é mesmo popular quando diz que a vingança é um prato que se come frio, porque até mesmo Clemer, ou melhor, o Chicão dos rachões pré-jogo, fez gol. De pênalti. Com direito a cavadinha e tudo. Como um tiro de misericórdia, como se tudo estivesse planejado entre Abel e seus comandados, à Godfather.
Arrisco dizer que melhor do que ter ganho o “Entreveiro Pampeano”, como diz o Cláudio Cabral, foi a forma como o Inter sobrepujou o adversário esmeraldino: sem dó, nem piedade, como um sádico. Não houve nem ajudinha do juiz – para os tricolores não envaretarem, como o ocorrido contra o Paraná.
Foi na bola, na vontade, na sede de vingança de todos nós colorados.
Ah, a alma lavada!
* Eugenio Brauner é campeão gaúcho e não usa touca.