PERSPECTIVA

A vitória do futebol-arte

Quem tem acompanhado os jogos do São Paulo na Libertadores e no Campeonato Paulista deve ter notado que o time de Muricy Ramalho pode parecer com qualquer coisa, menos com uma equipe do futebol brasileiro.

As razões são várias. Primeiro, porque joga no 3-5-2. Como todos sabem, a tradição do futebol brasileiro desde a copa de 70 é o uso do 4-4-2 com um volante de contenção, um segundo volante habilidoso, dois meias ofensivos e criativos - sendo um deles o camisa 10 - e dois atacantes. Depois, porque é um time que simplesmente abdicou da criatividade, povoando o meio campo com volantes e alas e o ataque com dois trombadores - Borges e Adriano - à espera de cruzamentos e escanteios.

Na verdade, esse é o esquema do São Paulo desde 2006. A final do Mundial contra o Liverpool deixou nos são-paulinos as doenças britânicas do bolacabecismo, do trombadorismo, do velocismo e do bolaparadismo, que vem custando ao time da terra da garoa várias derrotas em âmbito regional e internacional. Primeiro, contra o Internacional na final da Libertadores. Depois, contra o Santos no paulistão. Por fim, contra o Grêmio, na Libertadores de 2007. Assim como a seleção inglesa, o São Paulo costuma afinar quando confronta seu estilo britânico com a criatividade brasileira. A englishness são-paulina é estranha, mas plenamente comprovável pelos fatos concretos.

Pensando bem, não é nada de muito estranho em se tratando de São Paulo: é conhecida de todos a antiga admiração paulista pelos ingleses. No início do século XX, São Paulo era chamada de “Manchester brasileira” e o sonho de todo aristocrata paulistano era mandar seus filhos a Oxford para estudar. Para a construção das estradas de ferro que ligaram a capital ao interior cafeeiro foram contratados trabalhadores e engenheiros ingleses, deixando os nossos “jecas” a ver bois e vacas - aliás, a própria companhia se chamava “The São Paulo Railway”. Muitos de seus colégios são de origem inglesa. Seu cenário musical é composto por bandas que cantam em inglês e imitam o rock alternativo londrino. O próprio nome do Estado é uma homenagem à catedral de Saint Paul, em Londres.

Tão grande é a pagação de pau na terra dos bandeirantes que eles chegaram a copiar uma cidade inteira do interior da Inglaterra, com direito a casa de tijolos à vista, ruazinhas estreitas e linhas férreas. O lugar chama-se Vila Inglesa e fica nos arredores de Santo André - padroeiro da Escócia -, região serrana onde nevoeiros e dias frios são muito frequentes, mostrando que os paulistas cuidaram de imitar tudo nos mínimos detalhes. E, como se nada disso bastasse, o maior time da cidade, o Corinthians, copiou o nome de um clube inglês e o uniforme da seleção daquele país, exaltando o que chamou de “esporte bretão” em seu hino e elegendo São Jorge, padroeiro da Inglaterra, como seu santo protetor. Tanto é que os paulistas do rival do Corinthians, o Palmeiras, de origem italiana, são discriminados na cidade e chamados de “porcos” por não se adequarem à anglofilia reinante.

Nada mais precisamos dizer: paulistas são, e sempre foram, baba-ovos de ingleses. Até a eficiência e a industriosidade, características tipicamente britânicas, os paulistas fazem questão de proclamar como suas, assim como o ar superior e o pedantismo. Trata-se de um verdadeiro entrave de Sua Majestade em pleno território brasileiro. Não se de se esperar, portanto, que o seu futebol seguisse a mesma linha.

Pois bem. Esse time british-wannabe, proveniente de uma terra british-wannabe, repete o desempenho de sua pátria-mãe-wannabe quando se confronta com o autêntico futebol brasileiro. Foi o que aconteceu na noite de ontem, quando enfrentou o Grêmio Portoalegrense. O São Paulo veio determinado a fazer o que os ingleses sempre fazem, isto é, fechar o meio, anular a criação do time de adversário, jogar pelas pontas e cruzar para a área. Tentou até o desespero: os zagueiros do Grêmio chegaram a ficar com torcicolo de tanto assistir os lançamentos e cruzamentos dos são-paulinos pararem nas mãos do goleiro Vítor. Escalou também volantes de marcação, zagueirões trombadores e até o goleiro, Rogério Ceni, funciona como líbero, ajudando na marcação sempre que pode.Porém, assim como a Inglaterra em 1970 e 2002, o São Paulo, tão bom em imitar os outros, tremeu diante do que eles não são capazes de imitar: a criatividade. É o que os ingleses sempre temem quando jogam contra os sul-americanos. O São Paulo enfrentou o melhor jogador em atividade no Brasil e o maior canhoto do futebol brasileiro, Roger, o craque bossa-nova. Enfrentaram Léo, o Domingos da Guia mineiro, incapaz de dar chutão mesmo quando acossado por adversários dentro da pequena área. Enfrentaram Paulo Sérgio, o novo Cafu. Enfrentaram Soares e Perea, dupla endiabrada capaz de entortar qualquer zagueirão de muita altura e pouca qualidade técnica. Enfrentaram a jovem promessa Rafael - ora, vejam - Carioca, um volante habilidoso que poderá seguir os passos de Gerson ou Falcão. Enfrentaram ainda Rodrigo Mendes, craque experiente e habilidoso que jogou poucos minutos e deixou a zaga do São Paulo perdidinha da Silva com passes milimétricos. E isso que o Tricolor não tinha Anderson Pico e seus dribles desconcertantes. Ou Tcheco e seus passes milimétricos e chutes precisos que, inclusive, já devassaram a meta anglo-paulista. Já imagino o que os são-paulinos estão pensando sobre o jogo de volta em Porto Alegre, quando estes grandes craques brasileiros chegarem ao plantel do Grêmio.

O jogo Grêmio 1 x 0 São Paulo não foi apenas um jogo. O Grêmio, que historicamente cultua o verdadeiro futebol brasileiro, demonstrou ao São Paulo que imitar modas alheias não leva a nada. A sinceridade consigo mesmo, no futebol e na vida, é o que conduz às grandes vitórias, aos feitos grandiosos, às grandes façanhas que servem de modelo a toda a terra e que provocam nos estrangeiros a admiração pelo que é autêntico e próprio. O Grêmio, cujo hino foi composto por um dos maiores nomes da verdadeira MPB, deu aos paga-paus uma verdadeira lição de vida. E para quem quiser rever o golaço de Pereira em pleno Morumbi deixamos um exemplar desta verdadeira música que faz o São Paulo, e todos os paulistas, caírem da cadeira:

http://http://www.youtube.com/watch?v=MByVS9mhvzU&feature=related

http://http://www.youtube.com/watch?v=yLmu9FFgBQg

 

Maio 11, 2008 Escrito por Celso Augusto Uequed Pitol | Esportes | | 3 Comentários

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Maio 11, 2008 Escrito por blogperspectiva | Geral | | Nenhum Comentário