E se Obama fosse brasileiro?
Como todos sabemos, Obama é ídolo mundial. Em sua campanha, foi capa da Rolling Stones, da TIME e da Newsweek. Eleito, protagonizou uma série de trabalhos tido como impossíveis: aplaudido de pé no Oriente Médio, discursou para centenas de milhares na Alemanha e, para desviar os holofotes, apontou Lula como o maior político do mundo enquanto saía de fininho no canto. Aliás, no país de Lula, Obama é saudado por todas as correntes de esquerda e só estamos esperando a campanha eleitoral começar para ouvirmos falar num “Obama brasileiro”. Gostamos de Obama: é mestiço como nós, simpático como nós, sorridente como nós e boa praça como poucos de nós conseguem ser. A verdade é que Obama é um dos nossos – ou melhor: gostaríamos que ele fosse.
Na semana passada, dia 17, Obama fez um discurso exaltadíssimo na NAACP, a maior organização de direitos civis dos EUA, onde militou e formou-se como político. Dirigiu suas palavras ao público negro, que ele tão bem conhece e do qual ele é, a um tempo, o membro mais relevante e um estranho no ninho, mulato num país de brancos e negros sem meio-tons. Falou o que sempre se fala em situações como essa: da história trágica da escravidão, das suas visitas à África, da discriminação que continua a existir nos EUA e do seu trabalho para combatê-la. Mas, sobretudo, Obama falou o seguinte:
“Ninguém escreveu seu destino para vocês (….) Seu destino está nas suas mãos e vocês não devem esquecer isso. Isso é o que eu tenho a ensinar a todas as nossas crianças! Não há desculpas! Não há desculpas!”
Obama falou mais:
“Coloquem o Xbox de lado e ponham suas crianças para dormir em uma hora razoável”"
E, como se não bastasse:
“Eles podem pensar que têm um bom arremesso ou uma bela voz, mas nossos filhos não podem todos ser LeBron ou Lil Wayne. Eu quero que eles queiram ser cientistas e engenheiros, médicos e professores, não apenas jogadores e rappers. Eu quero que eles queiram chegar à Suprema Corte. Eu quero que eles sejam presidentes dos Estados Unidos da América”.
Para muitos de nós, esse último parágrafo talvez pareça algo chocante. Confesso que não consigo imaginar um político brasileiro – e ainda mais um presidente da República – proferindo um discurso desses ao grande público nos dias de hoje. No mesmo momento seria acusado de preconceito, de menorizar os afro-descendentes, os jogadores, os rappers e, mais do que isso, de fazer vista grossa à influência das condições sócio-econômicas na formação de uma pessoa. Quando Obama conclama os negros a acreditarem em si mesmos, a estudarem, a quererem vencer na vida, a deixarem o discurso vitimista e fácil, ele apela para um princípio fundador dos Estados Unidos da América: o da autonomia individual. Todo e qualquer indivíduo está livre para ser o que quiser, e não serão os preconceitos dos outros que lhe impedirão de alcançar seus objetivos e muito menos as amarras psicológicas que prendem alguém à sua condição social. Se Obama fosse brasileiro, seria acusado de dar argumentos para os opositores das cotas raciais e, portanto, conivente com um racismo institucionalizado, dito cordial. Se Obama fosse brasileiro, seria acusado a discriminar rappers e jogadores e, por tabela, discriminar os próprios negros. Se Obama fosse brasileiro, teria receios de ferir certas suscetibilidades, de parecer – ora vejam! – um racista.
Pensando bem, Obama não é um dos nossos.
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