Belchior, a imprensa e a coerência
O episódio envolvendo o “desaparecimento” de Belchior que ocupou as manchetes no Brasil inteiro e culminou com a ‘descoberta’ do cantor/compositor no Uruguai por parte de uma emissora de Tv é algo que me levou a refletir sobre algumas coisas.
Uma delas é o atual momento da imprensa brasileira. O fato de um programa de uma grande emissora fazer as vezes de oficial de justiça e sair à cata de um suposto devedor é, para dizer o mínimo, quase deprimente. Agrega-se a isto o fato de, ao encontrar o suposto desaparecido, achar-se no direito de questioná-lo sobre seus problemas financeiros. Qual o objetivo disso? O que nos interessa saber se Belchior tem dívidas com carros que comprou em S. Paulo ou se paga ou não pensão à ex-mulher?
A busca ainda tinha a sua razão de ser quando o objetivo era encontrar um artista desaparecido. Eventualmente poderia ter ocorrido algo trágico envolvendo Belchior. No momento em que constatou-se que ele simplesmente estava exercendo o direito de ir e vir, forçosamente deveria acabar a cobertura jornalística sobre o assunto.
Questionado sobre os motivos pelos quais teria “fugido” (dívidas, segundo a Imprensa), Belchior foi direto:
“Eu não vou responder. Eu não tenho menor interesse na vida privada de nenhuma pessoa, sabe? Nada, em nada”, disse.
Foi também coerente consigo mesmo. Há três décadas, Belchior cantava:
“Saia do meu caminho
Eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decida a minha vida
Han! Han!
Não preciso que me digam
De que lado nasce o sol
Porque bate lá meu coração”
Hoje diz a mesma coisa. Nos anos 70, Belchior era, ao lado de outros, perseguido pela ditadura. Hoje é cercado pela imprensa e vigiado de perto por policiais e advogados. Qual a saída? Refugiar-se no interior de um pequeno país latino-americano para fazer o que se espera dele: cantar. É isso que os fãs de Belchior querem ouvir e não explicações sobre a maneira de Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes conduzir a sua vida. Até porque todos sabemos que, do homem que cantou esta canção não podemos esperar que conduza a sua passagem por este mundo como grande parcela de nós – talvez obrigados – conduzimos.
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Tudo bem, mas como todo mundo ele tem responsabilidades das quais não pode fugir. E fugir das dívidas é crime, pelo qual ele tem que responder. Se ele tem dívidas ou não, isso realmente não importa a ninguém a não ser ele. Só deve pagá-las como eu, você, todo o resto de nós. Com relação ao papel da imprensa, esse já tá deturpado há muitooooooooooooooooooooooooo tempo…