A aliança que poderia ter sido (e que nada indica que será)
Em um país politicamente organizado, todos os integrantes do jogo político admitem, sem problema algum, a existência de partidos de esquerda e de direita. Não ocorre a um trabalhista britânico que o Partido Conservador deva desaparecer do mapa (salvo alguns radicais minoritários e quase sem voz), assim como não ocorre a um republicano (salvo alguns radicais minoritários e quase sem voz) que os democratas devam ser expulsos da vida política americana. A partir do momento que, nestes países, os partidos concordam com as regras do jogo democrático – lembremos de algumas: alternância de poder, respeito ao Estado de Direito, liberdade de opinião, dentre outras – um tem de respeitar o outro e todos estão legitimados a governar. O eleitorado pode, dependendo do momento, querer candidatos mais conservadores, ligados e defensores de valores perenes da civilização à qual o pais pertence; pode querer, por outro lado, alguém mais progressista, capaz de receber novas tendências, novas mentalidades, novidades, enfim, e adaptá-las ao quadro axiológico existente, sem, contudo, violentá-lo; pode escolher um candidato com propostas mais liberais no campo econômico; pode escolher alguém mais intervencionista. Pode escolher qualquer um destes – ou pode escolher algo completamente diferente. O importante é que todos eles estejam de acordo quanto – repito – às regras do jogo. A partir deste momento, todos são legítimos.
Isto, como eu disse, ocorre em países politicamente organizados. Nestes países, um presidente da República não pede que se destrua um partido adversário, pois ele constitui, assim como o seu, parte indissociável da vida democrática e deve, assim como o seu, ser defendido de todos os que são dela inimigos. E o partido, repetimos, pode ser de direita ou de esquerda, ou de qualquer outra coisa entre estes dois pontos. Ser um ou outro não é pecado em democracia, desde que o partido comungue dos princípios que a constituem e não parta para extremismos que são, por natureza, anti-democráticos.
Parece algo básico – e é. Mas não para o Brasil, e isso diz muito acerca do estágio em que nossa desmantelada República se encontra. Aceitar este pressuposto básico é o maior desafio da democracia brasileira. Trata-se do último obstáculo para que o Brasil possa ingressar de corpo e alma no grupo das nações do mundo onde a democracia não é um mero acidente histórico, mas sim um ente constitutivo, que resiste às inclemências do tempo e aos erros dos homens. É o último capítulo da saga que começamos em 1988.
Nesta eleição que passou vimos mais um capítulo desta saga, cujo principal ator foi a oposição derrotada . O bloco contrário ao governo chamou mais a atenção do que os vencedores, e isto devido a uma série de aspectos muito peculiares. Autodenominado “do Bem”, reuniu vários partidos e foi capitaneado por três: o DEM, o PPS e o PSDB. Um, de centro-direita; o outro, representante da esquerda democrática clássica, que a nova terminologia chama de “centro-esquerda” para diferencia-lo de quem ainda acha que o Muro de Berlim não caiu (e que constitui, a bem da verdade, apenas uma parte pequena da esquerda); o terceiro, oscilando entre o velho Centrão (em alguns estados), e a centro-esquerda (sobretudo em seu berço, São Paulo), liderou a chapa com um candidato que mesclou propostas tipicamente esquerdistas na economia e uma orientação em outros campos que poderia, algo remotamente, ser classificada como conservadora para os olhos e ouvidos do brasileiro de hoje. Filho dos movimentos políticos católicos dos anos 60 (Ação Popular e Juventude Universitária Católica, principalmente), da resistência ao regime militar e da influência teórica da CEPAL, José Serra era um candidato conhecido de todos, ex-postulante à própria Presidência, ex-deputado, senador, prefeito, governador e, apesar disso tudo, difícil de caracterizar à primeira vista pelos seus opositores, sendo ora rotulado como “privatizador” (que, em certos círculos é sinônimo de entreguista), ora como “desenvolvimentista” (o que, em certos círculos, é sinônimo de comunista), dentre tantos outros adjetivos correlacionados e igualmente redutores, simplistas e incorretos.
A dificuldade de situá-lo dentro dos conceitos estabelecidos e geralmente aceitos pelos atores e comentaristas políticos brasileiros e a tentativa de colar no bloco de oposição o rótulo de nova UDN (sem explicar em quê um Roberto Freire, um Ferreira Gullar, um César Maia ou o própro Serra pareciam com Lacerda), mostra quão desfocada era a presença da aliança e do candidato no status quo moldado ao longo de oito anos de lulismo. Serra, seu discurso e sua postura pareciam inteiramente estranhos aos esquemas mentais que Lula e seus asseclas tentaram – e , em boa medida, conseguiram – impôr aos brasileiros nesta última década. O antigo Ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, político experiente, corajoso, bom de briga, de pouco sorriso e muita ação, estava pisando num terreno que conhecia como poucos no país e mais do que qualquer um dos outros candidatos. Curiosamente, ao contrário de todos eles, parecia um verdadeiro estranho no ninho. No roteiro do teatro do Brasil lulista havia um papel para Plínio, um para Marina e um para Dilma. Não para Serra.
O que se seguiu todos sabemos. Exceto por um breve momento nos começos da campanha, Serra nunca foi o favorito nas pesquisas. O resultado, em parte já esperado – embora tenha sofrido a influência destas mesmas pesquisas, organizadas, em alguns casos, por institutos comandados por partidários da candidata eleita – jogou o bloco e o seu representante na oposição. Um bloco, como vimos, heterogêneo. Da centro-direita à esquerda clássica, o que unia as tendências, tão díspares, podia ser encontrado na frase do ex-petista Hélio Bicudo, em declaração polêmica e definitiva: eu voto em José Serra porque ele é o único capaz de salvar a democracia no Brasil.
O exagero retórico – que talvez não seja tão exagerado assim…. – do ilustre jurista indicava o ponto de união da tríade opositora: a defesa intransigente da democracia. Juntos, os três, diferentes entre si mas concordantes num ponto essencial, reuniam, em microcosmo, o que poderia vir a ser – não necessariamente com estes mesmos partidos ou nomes – um quadro partidário brasileiro novo : um representante da direita e da centro-Direita, um da esquerda clássica, um do centro e da centro-esquerda. Não era mero bloco de partidos de oposição ao governo. Era uma idéia nova – de política, de Estado, de nação, enfim, de Brasil – que estava ali em gestação. Do governo, a aliança recebeu franca e aberta hostilidade própria de todo organismo que tenta rechaçar elemento invasor. Explica-se, assim, a estranha agressividade anti-serrista presente na campanha (e mesmo após o fim desta), seja da parte da imprensa, seja dos adversários, seja da militância das ruas e não só, seja do próprio presidente, estranha até mesmo em se tratando de quem notabilizou-se por dela fazer uso.
Sem papel, recusados pelo diretor, barrados pelos seguranças, Serra e sua aliança entraram no palco lulista à força, na marra, sob (às vezes literalmente) paus e pedras. Falando a um grande grupo de descontentes despertos, PPS, DEM e PSDB surpreenderam e levaram para o Segundo Turno uma disputa considerada ganha por antecipação e, no final, seus 44 milhões de votos sinalizaram, apesar da derrota, uma surpreendente aprovação popular para um modelo, ambicioso e promissor, pronto para ser desenvolvido até 2014.
Isto, naturalmente, se a aliança em questão permanecesse unida. Há mostras concretas de que isso não vai acontecer, tanto no interior de cada um dos partidos da coligação (há perigos fortes de rupturas no PSDB, por motivos que todo brasileiro bem informado já sabe) quando na relação entre eles (o DEM, aparentemente cansado, já anuncia que deverá ter candidato próprio em 2014). A exposição das brigas, os pulos fora, a atitude claramente centrífuga de todos eles imediatamente após a eleição faz crer que a aliança “do Bem” não compreendeu o papel histórico que poderia desempenhar. Faz crer que tudo não passou de meras circunstancialidades. Que a união dos três se tenha dado, talvez, por uma feliz coincidência. E as coincidências, como sabemos, não costumam repetir-se. É pena. O bloco PPS-DEM-PSDB, passadas as eleições, é uma aliança que poderia ter sido, representante de idéias novas para um país que poderia um dia ser e nada indica que um dia será.
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