PERSPECTIVA

Entrevista: professor Eberhardt Frank, ex-diretor do Colégio Marechal Rondon-Canoas/RS “Dirigir o Rondon por vinte anos foi uma graça de Deus”



*Por Celso Augusto Uequed Pitol

O nome do professor Frank tem um ressoar muito especial para quem foi adolescente em Canoas entre os anos 60 e 80. Nesta época, quem estudava nos colégios particulares da cidade dizia, aos cochichos, que lá do outro lado da faixa, no colégio Marechal Rondon, encontrava-se um senhor sisudo, com forte sotaque alemão, que impunha aos seus comandados um senso de disciplina de fazer até o mais empedernido general prussiano engolir em seco. Dizia-se, então, que era bom estudar no La Salle, no Auxiliadora ou em qualquer outro lugar onde o professor Frank não estivesse. Isso era o que diziam os alunos, entre cochichos, às gargalhadas, nos intervalos das aulas. No final do Segundo Grau, porém, quando os egressos dos colégios de Canoas tentavam uma vaga no ensino universitário, os comandados do prof. Frank apareciam como os líderes de aprovação no vestibular da UFRGS. Era o resultado de um trabalho desenvolvido hora a hora, dia a dia, mês a mês, com extremo cuidado com os mínimos detalhes que apenas a visão mais superficial – isto é, a de jovens garotos de colégio, entre cochichos e gargalhadas no intervalo das aulas – entendia como espartana. Pois o Colégio Rondon, o espartano colégio Rondon, não teve um só aluno expulso nos vinte anos sob o comando do professor Frank. Nunca foi preciso, ele nos garante. Bastava ter cuidado, respeito ao aluno e ao professor e agir com sabedoria. O resultado foram duas décadas de grande sucesso que o nosso entrevistado desta semana resume da seguinte maneira: “Foi uma graça de Deus”.

 

*        *        *        *

 

 

Celso Augusto:O senhor é filho de alemães, não é?

 

Professor Frank: Sim. Em 1929, meu pai foi transferido de Recife para cá, porque ele era funcionário de um banco de Hamburgo, na Alemanha. Vou fazer uma comparação para facilitar a compreensão. Se você recebesse hoje um convite de O Timoneiro para ser correspondente na Austrália , você toparia?

 

CA: Bem, a Austrália é um bom lugar. Parece ser um país bonito, agradável (risos)….

 

PF: Foi o que o meu pai pensou. Era após o fim da Primeira Guerra, a época da hiperinflação na Alemanha e não havia nenhuma perspectiva para gente moça como meu pai, gente que tinha vontade de trabalhar. Ele tinha 23 anos. Então se candidatou a ir trabalhar no exterior. O banco tinha filiais no Chile, África do Sul e na Ásia. Veio a informação de que havia um lugar no Chile e meu pai foi em seguida. Mas não achou um ambiente de trabalho muito bom, não gostou. Escreveu para um tio que trabalhava nesse mesmo banco e perguntou se não haveria a possibilidade de se transferir. Recebeu a informação de que precisavam de um bom contador no Recife. Foi para lá. E ali conheceu a minha mãe, que tinha ido para lá, assim como meu pai e muitos outros alemães,  a fim de sair da situação em que se encontrava a Alemanha naquela época. O banco pediu-lhe então que viesse para Porto Alegre porque aqui faltava um contador. Veio para cá em 1929.

 

CA: O ano da grande crise.

PF: Foi. Mas aqui não tinha crise.

 

CA: E o senhor nasceu onde?

PF: Em Porto Alegre,  no hospital Moinhos de Vento. Morávamos a quatro quadras do Hospital. Na época, havia muito alemães em Porto Alegre, principalmente nos bairros  Floresta e o Navegantes, que tinham muitos operários alemães. A Gerdau , por exemplo, nasceu ali. Fazia pregos, cadeiras vergadas, começaram assim. Eu nasci em 1931 e em 1932 nos mudamos para cá. Canoas só tinha chácaras naquela época. Era uma estância de veraneio de Porto Alegre. E todas tinham o mesmo tamanho: 22 de largura e 300 de fundo.

 

CA: Era uma época de guerra. Havia muito preconceito contra alemães?

 

PF: Sim, havia algum preconceito. Meu pai foi preso naquela época, não por qualquer motivo especial, mas para averiguar se ele estava comprometido com os nazistas.. Isso aconteceu a todos que emigraram, alemães, italianos, japoneses, quando o governo não se posicionava na hora certa e deixava que o povo tomasse conta. Todos os povos que emigraram sofreram isso. Inclusive nunca se comprovou que os submarinos afundados fossem por alemães. O governo alemão disse que não tinha um só submarino no Atlântico Sul naquela época.

 

CA:  O senhor, sendo criança e adolescente naquela época, sofreu alguma coisa?

PF: Não. Para mim, só mudou a língua de instrução, pois era criança: do alemão para o português. Até então, as aulas eram dadas em alemão. O meu pai trabalhava naquele banco que foi fechado durante a guerra, quando o Brasil entrou na guerra. E o governo do estado do Rio Grande do Sul foi extremamente correto. Todos os funcionários dos bancos italianos, japoneses e alemães que tinham perdido o seu emprego depois de um ano foram redistribuídos entre os bancos estaduais. O meu pai foi para o Banrisul, onde organizou a primeira carteira de câmbio.

CA: Imagino que alguém com o currículo dele fosse muito valioso para os bancos daqui

 

PF: Nem tanto. O  Banco da Província, do Brasil funcionavam que era uma maravilha. O Banco Pelotense, que fechou por causa duma desavença com Getulio, também era ótimo. Eram super bancos. Pelotas era riquíssima naquela época!

 

CA: Basta ver pelos edifícios suntuosos que ainda tem…

PF: O Rheingantz. O filho dele foi o autor da imigração alemã em São Lourenço. Foi ele pessoalmente pra Alemanha recrutar colonos e se estabeleceram no interior e traziam os seus produtos para vender à beira da Lagoa dos Patos.

 

CA: Como era Canoas naquela época?

PF: Em comparação com agora, era um horror. A telefonia era horrível. Tinhas que esperar 1 hora ou 2 horas para conseguir uma das três linhas se querias falar com Porto Alegre. Onde hoje é o Golden Center era a Telefônica e você chegava lá, dizia o seu número e tinha de esperar, porque só os ricos tinham telefone. Não havia supermercado. Os únicos médicos eram o Dr. Santos Rocha e o dr. Ludwig. Só havia produtos coloniais que vinham uma vez por semana para um armazém onde hoje é a Tiradentes, vindos do interior: nata, hortaliças, etc, etc. A vida era absolutamente calma. Nós tínhamos cavalos, ovelhas, porquinhos, enfim, era uma vida rural. Para as crianças era um paraíso. Nós começávamos a andar a cavalo com dois anos. Foi uma infância muito livre, sem marginais, sem roubo, sem nada. Se meus pais queriam ir para as férias, fechavam a casa e iam embora, sem quaisquer preocupações.

 

 

CA: O seu pai, quando veio para cá para o RS, tinha noção do tamanho da comunidade alemã que havia aqui?

PF: Mas não havia. Começou com cinco ou seis pessoas. Tinha em Santa Cruz do Sul, mas, imagine as estradas para ir até lá? Se chovia, parava tudo. Só se viajava de trem, que era super demorado. Para ir a Santa Maria, embarcavas de noite e chegavas no outro dia de manhã. Mas, como eu disse, havia um grande contingente de tecelões e operários alemães, que fundaram inclusive a Sogipa, o Colégio Farroupilha.A Igreja São José em frente ao Plaza, foi construída e feita por alemães.

CA: Boa parte dos prédios da UFRGS foi feita por Theo Wiederspahn…….

 

PF: Exatamente. Aliás, a nossa igreja, a original, foi um projeto de Wiederspahn. Aqui mesmo, em Canoas, pois ele era amigo do pároco de Porto Alegre. Foi convidado por ele para construir.

 

CA: O senhor estudou onde?

PF: Estudei na nossa Igreja Evangélica Luterana que tinha uma pequena escola, na esquina da Dr. Selbach com Monte Castelo. Meus pais eram luteranos, do Norte da Alemanha, que é predominantemente protestante. Havia aquele acerto comandado pelo papa, chamado “Cuius Regio eius Religio” – “cada região com sua religião”, ou seja, se o duque de uma determinada zona era evangélico, toda a área seria evangélica. Se era católico, era católico. E isso permaneceu. Fiz a escolinha primária aqui, depois fui para o colégio Farroupilha e enfim para São Leopoldo no internato, o Instituto Pré-Teólogico da nossa igreja, ao lado do Colégio Sinodal. Dali consegui uma bolsa de estudos para ir estudar na Alemanha, em Tübingen.

 

CA: Uma das mais tradicionais universidades da Europa.

 

PF: Sem dúvida. E, teologicamente, era uma das melhores da Europa. Se quiseres ir para lá, eu te dou os endereços e as pessoas para freqüentares. Vais em maio , para não pegares o fluxo dos turistas, e, no forte do verão de lá, tu escapas de lá. Ficas Maio, junho, uns dois meses e já dá para conhecer muita coisa.

 

CA: Obrigado pelo convite (risos).

PF: Sem problema. Continuando: depois, formei-me em Letras Clássicas na UFRGS. Apenas seis formados. Tive aula com Guilhermino César, um grande professor. Um professor exigente , assim como os que eu tinha na Alemanha. Lá, como aqui, tinha que apresentar trabalhos, relatórios. Lembro que um dos meus colegas alemães tinha de falar sobre a situação do rei em Homero. Quem era rei e quem é que comandava. O rapaz que recebeu essa incumbência estudou, naturalmente, todo o texto em grego, original, e fez a sua preleção sem papel à mão por mais de meia hora. Impressionou o professor (risos).

 

CA: Quando o senhor começou a dar aula, o grego e o latim ainda estavam no currículo?

PF: Sim. Mas o que eu aprendi na faculdade me ajudou muitíssimo no ensino do português. O grego era essencial nesse ponto. Nas aulas, nunca a gente se apertava na explicação da etimologia da palavra.

 

CA: Quando começou a dar aula aqui em Canoas?

 

PF: Primeiro comecei em Novo Hamburgo, à noite. Acho que foi em 1959 que vim para cá. Porque abriu à época a oportunidade para pedir transferência e fiquei sabendo que havia começado um colégio noturno. Aí pedi transferência. Fui ver a diretora do colégio noturno e ela viu os diversos candidatos que se interessavam, as fichas, os currículos, e no meu coloquei que tinha carro próprio. Eu tinha um Prefect (antigo carro da Ford), que comprei de um professor que foi embora. Então foi o suficiente para eu entrar no estado. A diretora disse “pronto, está aqui a nossa carona para Porto Alegre” (risos). A primeira diretora que eu tive foi a Velia Calvet da Rosa, muito interessada, muito camarada, um convivência muito boa, exigente com os professores, com os alunos, ela era daquela madeira antiga, boa (risos). Depois que mudou o governo e veio uma professora que foi nomeada para o nosso corpo docente. Depois, mudou o governo de novo e depois dessa assumi eu, em 1965. Naquela época era diferente: o diretor só dava satisfação ao Secretário de Educação.

 

CA: E o senhor ficou 20 anos como diretor.

PF: É, eles partiram do seguinte ponto: em time que ganha não se mexe (risos). É importante dizer o seguinte: os primeiros dois anos não servem pra nada. O sujeito está primeiro se situando, tateando, sabendo onde pisar. Depois ele começa a fazer suas tentativas, erros e acertos. Só depois de 4 anos ele começa a dar resultado se ele efetivamente é bom. E isso eles sabiam naquele tempo..

 

CA: Meu tio Paulo Uequed foi seu aluno do colégio.

PF: Sim, eu o conheço. Lembro dele e do seu avô, Jorge Uequed, um homem muito gentil e agradável, muito cortês e educado. A primeira vez que o encontrei foi na sua loja, lá ao lado de um posto de gasolina. Uma pequena loja, em um canto. Fui até lá indicado por alguém só para fazer uma compra simples. Pois lembro que fiquei um bom tempo conversando com ele, de tão bem atendido que fui, como em poucas lojas que freqüentei.

 

CA: E sabe também da fama de rigoroso e disciplinador que o senhor teve…….

 

PF: Mas eu nunca tive necessidade disso. Quem não queria estudar saía por si. E se os pais achavam que o filho devia estudar, geralmente a gente convidava os pais e dizia que o filho estava dando problemas e mostrava: aqui o senhor tem por escrito a primeira e a segunda advertências. Na terceira, teremos de ser obrigados a transferir. Quem sabe vocês transferem o filho e recebem transferência sem observação e nós passamos o pano por cima? Dessa maneira resolvemos todos os casos. Não houve necessidade de expulsão nenhuma. Os alunos tinham orgulho do colégio. O corpo docente era homogêneo. Eram quase todos eles professores de Porto Alegre, mas preferiam trabalhar aqui a ir para um colégio de Porto Alegre onde sabiam que a diretora era ruim, que faltava material, essas coisas. E aqui não faltava. Exemplo: uma professora de português ia falar sobre Érico Veríssimo mas só havia uma obra na biblioteca e precisava de pelo menos umas doze. Eu ligava então para a editora e pedia 12 obras. Então eu avisava que elas tinham chegado. O material escolar nunca faltava. Se a professora de química precisava de determinados objetos, falava comigo e dizia, olha, preciso, isso, isso e isso. Nunca um professor ficou sem material. E isso dava uma coesão muito boa, porque viam que a direção estava por trás deles. Nunca peguei um aluno pelo braço que o professor tinha posto pra fora e botava dentro de novo. Nunca! Não se faz isso, de jeito nenhum. Não se desmoraliza o professor. Você pode ter uma conversa depois com ele, com o aluno, mas assim, oficialmente, não. Como titulo disso tudo, desses 20 anos no Rondon eu posso dizer: foi uma  graça de Deus. Não sei qual a sua religião.

 

CA: Sou católico.

PF: Você leu há poucos dias que a madre Bárbara Maix foi beatificada em Porto Alegre por causa de um milagre? Eu devia ser beatificado permanentemente, se eu fosse católico, porque essa minha permanência no Rondon foi uma única graça divina. (risos). Nunca tive problemas graves.

 

CA: Uma imagem que, a meu ver, define bem aquele período são as fotos do meu tio Paulo, seu ex-aluno no Rondon, um colégio público, todos muito bem vestidos. Isso que eu achei interessante: esse simples fato de todos estarem bem vestidos é sinal de alguma coisa, não?

 

PF: Sim, mas isso não acontece se você tira a autoridade do professor. Ele perde a vontade de se impor à turma, de exigir algo do aluno. A minha mãe sempre foi professora de Francês e de latim e ela me deu as indicações necessárias de procedimento, mas, como um todo, foi um presente divino que me foi dado. Depois apareceu o Colares com a mulher dele (Neuza Canabarro-Secretaria Estadual de Educação no período de 1991/1994) e ela dilapidou o ensino público.

 

CA: Como?

PF: Exigiu que se trabalhasse nas férias. O diretor só pode ficar dois anos  eleito pelos pais funcionários, alunos. Não havia mais a relação direta com o Secretário de Educação. Isso obrigava o diretor a ser político, a não tomar medidas que, embora impopulares, são necessárias.

 

CA: E o Rondon na época tinha a melhor aprovação na UFRGS de Canoas….

PF: Sim, porque os professores eram bons, exigiam bastante e não precisavam temer o aluno. “Ah, ele é filho desse e daquele, logo não pode rodar, ele tem que ser aprovado”. E isso não acontecia, não mesmo. O aluno rico e o pobre eram tratados da mesma forma. Foi uma graça imensa de Deus, ainda mais quando olho para trás e vejo o poderia ter acontecido. Nunca tive de me envolver com brigas. O colégio sempre funcionou de uma maneira muito boa.

 

CA: Durante o período em que foi diretor deu aulas?

PF: Não, não precisei. Mas, você imagina, um colégio inicialmente só de um prédio, o que ele exige de você como administrador. Toda hora aparecem problemas. Você precisa fazer a qualquer momento coisas para manter o funcionamento. Mas eu dei aula, conheço algumas técnicas. Eu preparava as aulas em casa e dava sem livro na mão. O professor não deve ler um livro durante a aula. E quando eu mandava o aluno escrever, eu sempre olhava o que eles escreviam no quadro. Nunca ficava de costas para ele. E o professor, especialmente o de literatura, tem de ter lido todos os livros que ele pede aos alunos, para poder fazer as perguntas.

 

CA: O senhor deixou de ser diretor em 1985, não. E depois não mais deu aula? Desligou-se completamente do Rondon?

PF: Não. Você nunca deve ficar dentro da escola onde trabalhou, onde se aposentou. Não faça isso. Caia fora e encerre essa fase, você só vai atrapalhar. Não se faz isso nunca.

 

CA: Como avalia o ensino publico agora? Em vários sentidos? O senhor acha que é muito diferente da sua época

É diferente por causa dessa questão da direção. É esse um dos motivos mais fortes. O diretor que sabe que só o secretário pode demitir “ad nutum”. Se ele tem um problema, o Secretário vai chamá-lo. Agora, se a permanência dele depende da boa impressão que passa aos  pais e alunos, se ele é bem quisto, se é camarada, isso não é bom. A escola é uma fábrica: você recebe o aluno para instruí-lo. É para isso que os pais entregam os filhos: para que você os instrua, da maneira correta. Claro que se deve primar também pela boa educação, asseio e outras coisas, mas isso são anexos. Em primeiro lugar é para instruir. Partindo desse ponto de vista, você automaticamente orienta todo o trabalho nesse sentido. O aluno entra e é instruído da melhor forma possível para prepara-lo para a vida. Esse é o objetivo. Se você usa outros objetivos, problema seu. Em primeiro lugar, é para instruir o aluno de modo eficiente. Quando tu tens filhos, vai procurar o colégio onde há energia, tem matéria, disciplina, etc, etc.

 

CA:O senhor acha que isso existe na escola publica de hoje?

PF: Vou me abster de comentar isso, porque não estou agora lá e isso seria injusto. Mas o principio é esse. Objetivamente, é esse. E os pais esperam sempre que o colégio faça isto: instrua bem o seu filho para o futuro. Dentro de determinadas regras, claro, de asseio, comportamento, mas isso são acessórios. O objetivo é instruir. É para que a matéria seja dada.

 

CA: Parece simples, mas é complicado (risos).

PF: Não é! Se você é diretor e só presta contas ao Secretário, é pessoa de confiança dele, você sabe se tem as costas quentes ou não e pode trabalhar à vontade. Nós nunca mandamos alunos para casa. A regra geral era que as aulas que ficavam vagas eram imediatamente ocupadas por alguma pessoa de fora. Depois de dois ou três meses, conforme a licença, voltava a outra. Essa que fazia a substituição recebia sempre conforme o combinado. Isso dá uma moral incrível.

 

CA: Acha que, quando o colégio funciona, o aluno e o professor sentem-se parte dele?

PF: Sim, sentem que ele tem responsabilidade com eles. Você, como diretor, manda um funcionário avisar- para não se expor – que o professor está doente. Imagina se numa fabrica isso acontece? O professor é um elo numa cadeia de trabalho. Você tem que olhar objetivamente como é que funciona um colégio. Mas, convenhamos, é uma questão de confiança, e os secretários da minha época tinham do colégio, sabiam qual colégio funcionava, qual não funcionava.

 

CA: Quão importante é, na sua opinião, o ensino de português, de gramática, para a formação do estudante?

PF: Imensa. O português é a base da literatura. Se você conhece bem a base, pode seguir em frente. Em geral, o aluno vem hirto de medo do português, porque acham que é extremamente difícil. Um ex-aluno veio me dizer que as minhas aulas de português eram muito severas, a gente tinha que trabalhar bastante, mas que, hoje, quando têm que apresentar um relatório, uma defesa, os seus colegas sempre pedem que ele olhe as virgulas, a acentuação, porque ele sabe tudo disso.

 

CA: A leitura dos clássicos ajuda?

 

PF: Imprescindível. Os clássicos latinos, por exemplo, são fundamentais. São como mãe e filho, o português e o latim. E o grego é o avô (risos)

 

CA: Perdeu-se muito com o fim do latim?

 

PF: Muito. Como eu disse, o latim é o pai da língua portuguesa. O latim caiu porque precisava-se de lugar para acomodar os alunos. Tiravam-se matérias e organizava-se o segundo turno. O aluno tinha aula de manhã e de tarde. Ele aprendia latim, inglês, francês, tinha bastantes aulas e isso era acomodado em dois turnos. Quando o governo do Estado se viu diante da massa de alunos que não tinha lugar, ele cortou disciplinas. Isso se deu em 1972. É uma pena, porque com educação e com saúde não se mexe. Não se faz propaganda eleitoral. A educação e a saúde devem ser uma coisa contínua, permanente, perfeita, sempre melhorando. Você pode deixar de fazer uma estrada, mexer nos presídios, com vistas a futura eleição, mas a educação e a saúde não podem ser manipuladas.

CA: Qual a importância da leitura dos clássicos do idioma?

 

PF: Também é muito grande.  Veja Joaquim Nabuco, um português perfeito. Veja Olavo Bilac! Os alunos, enquanto eu dava, os alunos na quarta série ginasial recebiam como matéria para o exame final saber escrever um ou dois sonetos de Bilac ou de qualquer poeta. Saber de cor. Eram obrigados a saber de cor aqueles sonetos.

CA: O ensino da gramática deve acompanhar o de literatura?

 

PF: Sim, mas sem o conhecimento básico da gramática não adianta. Primeiro, ele tem de saber expressar-se de maneira correta. Se você vai a uma repartição e diz “eu quero um quilo disso aí”, isso é uma maneira de você pedir. Agora, se você diz “boa tarde”, já cativa. Depois dize: “Me diz uma coisa, vocês tem esse produto?”. De repente, você já criou um outro ambiente falando um português perfeito, solicitando de uma maneira gentil, falando direito, sem erros de linguagem grosseiros, já é uma outra situação. Você é atendido de maneira diferente. E no ambiente profissional nem se fala. Depois disso, você pode ter aulas de literatura. Mas antes, deve saber expressar-se.

 

CA: Falando em literatura, o senhor é um homem que leu muito em sua vida. O senhor tem autores preferidos ou autores que o senhor ainda freqüente?

PF: Isso é muito subjetivo. Havia fases em que a gente trabalhava com os alunos com um determinado autor. Você chegando mais perto desse autor você começa a ver os pontos fracos e fortes e depois muda para outro autor. Dizer que um me marcou…….me marcou a Bíblia. Os outros são muito bonitos, muito atrativos, mas se você quer adotar uma linha de procedimento, não é a partir desses livros que você vai adotar. É interessante ouvir a opinião deles. Mas não adotá-las.

CA: E pensadores? Filósofos?

 

PF: Filósofos, não. Se você lê com cuidado o que a Bíblia traz e você ouve o que diz X ou Y filósofo, você diz……..coitados. É isso aí que acham que é o melhor? Opinião de você, temos que respeitar. Kafka antes de morrer pediu que o seu amigo lhe queimasse os papéis, porque era uma perturbação que eu tinha e sabia disso. Quando ele escrevia, ele sabia perfeitamente: o que eu escrevi, não era para ser lido.

 

 

 

novembro 21, 2010 - Publicado por | Geral

5 Comentários »

  1. Gostei muito desta entrevista do “temido” Frank que na realidade(quando passávamos a entender sua postura ética) era muito admirado.
    Sou estudiosa do “discurso” linguistíco e esse material é muito rico e proveitoso para uma análise. (Quem sabe?) Um abraço.

    Comentário por Nica | fevereiro 23, 2011 | Responder

  2. Professor Frank,sou eternamente grata ao senhor por sua tão brilhante administração,disciplina…enfim o Rondon fez parte da minha historia. Elizete kilpp

    Comentário por ELIzete kilpp | junho 16, 2011 | Responder

    • Elizete, acho que lembro de você!!! pelo menos seu nome me veio à mente agora, quando deixei um depoimento para o Prof. Frank… será que estudamos na mesma sala? eu acho que sim!!!

      Luiz Aurino Terroso Freitas.

      Comentário por Luiz Freitas | janeiro 20, 2012 | Responder

  3. Estudei no Rondon na década de 60, fiz o ginásio e realmente era um colégio muito exigente na disciplina e no aprendizado. Eu da época em fazia-se fila para entrar, não antes de tocar o hino nacional… bons tempos. O professor Frank sempre conseguiu impor respeito, com respeito mútuo aos seus professores e alunos.

    Um grande abraço ao Prof. Frank

    Luiz Aurino Terroso Freitas.

    Comentário por Luiz Freitas | janeiro 20, 2012 | Responder

  4. Saudades da epóca que fui aluno 70 a 76 e depois professor 78 a 88 no Rondon. O ambiente para aprender e depois lecionar era excelente e tinhamos todo o respaldo e condições de crescer como alunos e depois transmitir a nossa experiencia aos estudantes. Tudo graças a um grande professor, mas sobre tudo excelente administrador que foi o professor Frank nos aureos tempos do Rondon.
    Minha gratidão e admiração a este grande mestre.
    Alexandre Bernardes Barbosa

    Comentário por Alexandre Bernardes Barbosa | maio 3, 2012 | Responder


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