PERSPECTIVA

Eficiência estatal

A Livraria do Senado Federal é um dos melhores exemplos de eficiência estatal em um país onde o Estado é notoriamente ineficiente. Ali encontramos, por exemplo, os clássicos da nacionalidade a preços baixos (a maioria entre 10 e 30 reais), em boas edições e sem cobrança de taxa de envio para qualquer canto do país. Ali encontramos, também, um Capistrano de Abreu, um Vamireh Chacon, um Sílvio Romero, um Meira Penna, um Afonso Arinos de Mello Franco, um Francisco Adolfo Varnhagen e muitos outros que, não fosse pela Livraria, seriam encontrados apenas nos cantos das prateleiras dos sebos, em edições antiquíssimas, raríssimas e caríssimas. Ali encontramos, ainda, ensaios de Euclides da Cunha sobre a Amazônia, textos de Padre Vieira, a Consolidação das Leis Civis de Teixeira de Freitas, obras do filósofo Farias Brito e muitas, muitas outras. A lista é enorme. Apontar tudo o que ali encontramos de bom ocuparia todo o espaço deste artigo.

Nada do que há ali é, contudo, marca tão significativa de bom serviço prestado quanto a  História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. Finalmente disponível após décadas sem reedições, em quatro volumes muito bem encadernados e custando razoáveis 200 reais, a obra dispensa maiores apresentações: há críticos, como Mauro Gama, que a consideram a melhor história da literatura já escrita, em qualquer país e em qualquer tempo. Austríaco de nascimento, formado entre o melhor da intelectualidade européia de seu tempo, Carpeaux bebeu na tradição historicista alemã – Dilthey, Simmel, Weber e muitos outros -, que ajudou a introduzir no Brasil, e deixou sua obra magna a nós, brasileiros, como recompensa pelo acolhimento que lhe demos durante a Segunda Guerra Mundial. Tão belo e valioso foi o presente dado por Carpeaux que dificilmente o Brasil poderá agradecer-lhe à altura. Um bom começo é levá-lo a todos os brasileiros. E este primeiro passo a Livraria do Senado está dando.

Se levarmos em conta a natureza e os propósitos que pretende atingir, talvez a Livraria do Senado seja o órgão do Estado que melhor funcione. Claro que não se precisa de muito para merecer tal título – alguém dirá que basta o tal órgão simplesmente funcionar – mas o destaque da Livraria não se explica apenas pela fraca concorrência. Ela funciona realmente bem. E “bem”  não a partir desta ou daquela preferência ideológica, desta ou daquela ótica, mas daquela que deve prevalecer quando falamos das funções do Estado: a de todos nós, cidadãos.

novembro 22, 2010 - Publicado por | Literatura, Livros

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