PERSPECTIVA

O grande salto para trás

Antes de mais nada, convido o leitor a assistir este pequeno vídeo de 1:21.

Se não ficou claro, eu explico: este é o jogo Plymouth Argyle x Santos, um amistoso disputado na casa dos primeiros, o estádio Home Park,  em 1973. O jogo terminou com a vitória dos ingleses por 3 x 2.  Talvez chame a atenção de muitos – principalmente os mais jovens – o estado do gramado, a localização da torcida e a falta de qualidade técnica dos jogadores do Argyle, compensada com muita garra e vontade de vencer. A muitos – e provavelmente também serão os mais jovens – deve chamar a atenção o simples fato de que o jogo tenha acontecido. Novamente, explico: são estes, os mais jovens, que cresceram a assistir jogos da Premier League onde os estádios são impecáveis,  onde os gramados são verdadeiros tapetes, onde os jogadores são craques ou pseudo-craques ególatras e onde a assistência não levanta das cadeiras nem para perguntar as horas a quem senta atrás. São estes jovens também que nunca vêem amistosos de pré-temporada, ou de meio de temporada, entre os nossos times e os deles.

Para quem cresceu com a idéia de que os campeonatos e os times europeus são o exemplo máximo do bom futebol estas imagens serão, sem dúvida, impressionantes. Mas nada impressiona tanto quanto o final do vídeo. Após o juiz apitar o fim do jogo, a torcida do Plymouth Argyle invade o campo, carrega seus jogadores em triunfo e o narrador, emocionado, diz o seguinte:

“É incrível que um time da 3a. divisão tenha vencido um dos maiores e melhores clubes do mundo, o Santos, por 3 x 2!!!”

Uma vitória histórica, sem dúvida. Ninguém fora da Inglaterra sabia quem era o Plymouth Argyle na ordem do dia e 99% dos brasileiros nem saberiam pronunciar sequer nome do time. Mas os ingleses sabiam quem era o Santos. Sabiam quem era a equipe que, em 1973, contava com Clodoaldo, Carlos Alberto, Edu, Cejas e, naturalmente, Pelé – chamado durante a narração de “El Maestro” na hora em que foi cobrar um pênalti. Sabiam que o Santos, quando fazia tours pela Europa, vencia a Inter de Milão por 7 x 1, a Roma por 5 x 0, o Benfica por 5 x 2, o Barcelona por 5 x 1, o Hamburgo por 6 x 0, o Sporting por 5 x 0, o Newcastle por 4 x 2, o Lyon por 6 x 2 e a Lazio por 3 x0 , dentre outros vários e altissonantes resultados -  e tudo isso, é bom lembrar, na casa do adversário. Sabiam que “era um dos maiores e melhores clubes do mundo”: one of the biggest and best clubs in the world. Vencê-los, sendo um clube pequeno, era motivo suficiente para invadir o campo como se de uma final de campeonato se tratasse – e os ingleses, nos anos 60 e 70, até os 80, sempre invadiam o campo quando ganhavam alguma coisa.

A emoção que viveu o Plymouth Argyle deve ter sido semelhante à sentida  pela Portuguesa da Ilha do Governador, do Rio de Janeiro (que consegue a proeza de ser mais inexpressiva do que a sua homônima paulista),quando venceu o Real Madrid, em 1969. Ou à vivida pelo Cruzeiro de Porto Alegre, que empatou com o mesmo Real Madrid em 1953, com Di Stéfano anulado pelo grande canoense Walter Spiess, o Waltão. É a emoção, óbvia e facilmente compreensível para todos, que vive o pequeno quando bate o grande. Os grandes, à epoca, eram o Santos e o Real Madrid. Os pequenos, a Portuguesa, o Cruzeiro e o Plymouth Argyle.

Passadas quatro décadas, as coisas aparentemente não mudaram tanto assim. A Portuguesa  carioca continua como o primo pobre da já paupérrima Portuguesa paulista. O Cruzeiro de Porto Alegre tem em comum com o Cruzeiro de Minas apenas o nome, as cores e nada mais. O Plymouth Argyle continua na Terceira Divisão inglesa e o Real Madrid continua no seleto grupo dos melhores, o grupo de clubes que o Argyle, a Lusa do Rio de Janeiro e o nosso Cruzeirinho vencem apenas nos seus mais loucos e acalentados sonhos. A diferença está no Santos. Hoje, se o Peixe enfrentar o Argyle novamente no estádio Home Park não mais encontrará um gramado maltratado pelas inclemências do clima, nem uma torcida mal acomodada porém (e talvez por isso) vibrante e muito menos uma invasão de campo ao final. Neste século XXI, o Home Park é um pequeno e confortável estádio de 20 mil lugares devidamente numerados, sem grades, perfeitamente pronto para receber o Santos à hora e ao dia que eles bem entenderem. Se por acaso acontecer de o Argyle vencer novamente, não haverá locutor para saudar a vitória dos ingleses sobre  one of the biggest and best clubs in the world. Não haverá comemorações efusivas e muito menos invasões de campo. Se o Argyle vencer, não terá vencido nada além de uma equipezinha lá do terceiro mundo que, por acaso, até tem uns bons jogadores como o Neymar e o Ganso, os quais, se tiverem sorte e mostrarem competência, estarão jogando na Europa em pouco tempo. Talvez no próprio Argyle, se o time algum dia subir para a primeira divisão e for comprado por algum bilionário da Rússia ou dos países árabes.

O exemplo talvez pareça exagerado. Sem problema. Tomemos outro então, envolvendo o mesmo Santos e outro time inglês, desta vez um bem mais conhecido: o Aston Villa. Não serão poucos os garotos brasileiros que saberão recitar boa parte da escalação desta importante equipe da Premier League: ali jogam Emile Heskey, Ashley Young, Stilian Petrov, Stephen Ireland e muitos outros bons jogadores do campeão europeu de 1982. Em 1972, porém, quando o Santos foi enfrentá-los, o Villa era um clube famoso somente dentro de suas fronteiras, participante de um campeonato de segunda linha em termos europeus: o Campeonato Inglês.  Assistam:

Os jornais da cidade estampavam um enorme Hail to the King (Salve o Rei) para saudar a presença do poderoso Santos e do santo-mor, Pelé. O estádio Villa Park esperava 50 mil pessoas, e acabou acomodando (muito mal) mais de  70 mil, quase todos em pé. Para garantir o fornecimento de luz durante o jogo (a Inglaterra vivia um período de séria crise econômica e era sacudida por greves, inclusive no setor energético) o Aston Villa alugou um gerador apenas para aquele jogo. A medida era justificada: tratava-se, afinal de contas, de um jogo contra o Santos, que era – não custa nada lembrar – one of the biggest and best clubs in the world. Hoje, se o Santos resolver interromper as jornadas do Aston Villa na Premier League, onde é um dos postulantes às primeiras posições, e propor um amistoso no mesmo Villa Park – hoje um belíssimo campo com todos os lugares confortavelmente marcados, de acordo com as exigências atuais do futebol inglês – dificilmente receberá chamadas de capa, estádios cheios ou recepção digna de reis. Aliás, a própria partida dificilmente acontecerá.

Há uma série de motivos que podem ser elencados para justificar a mudança da atitude dos europeus em relação ao futebol sul-americano, motivos estes que estão dentro e fora da seara esportiva. Nenhum deles, porém, é tão forte quanto o dado fático, e reconhecido por qualquer um que não esteja cego por nacionalismo demencial, de que há uma clara diferença de ordem técnica entre os melhores clubes da América do Sul e os melhores da Europa. Ainda se pode discutir sobre o nível dos clubes europeus médios e pequenos e os nossos dos mesmos estratos. Mas não se discute, a sério, que não há clube neste canto do mundo do nível do Real Madrid, do Manchester United ou da Inter de Milão.

Em nenhum outro lugar se percebe tão bem esta disparidade quanto nas disputas do Mundial de Clubes da FIFA e da sua antecessora imediata, a Taça Intercontinental.

Tomemos a disputa de 1999, entre Palmeiras e Manchester United. Enquanto os jogadores palmeirenses caíam no gramado, cansados e deprimidos pela derrota, os vencedores do Manchester United mal celebraram a vitória: Roy Keane comemorou seu gol de maneira burocrática e David Beckham nem esboçou sorriso ao fim dos 90 minutos. Invocar aqui a conhecida insularidade britânica para explicar o desdém do United conseguirá, no máximo, provar que os súditos da Rainha apenas potencializam um sentimento que é latente a todo clube europeu quando vai disputar estes jogos: o sentimento de que estão disputando algo que vale muito pouco ou que, muito simplesmente, nada vale. O apelido que os mesmos ingleses criaram para o torneio diz tudo sobre a importância que se lhe dão:  ”Mickey Mouse Cup”. Um torneiozinho interessante e divertido (porém cansativo, porque fica longe de casa), com timezinhos interessantes lá de cantos esquecidos do planeta, cujos melhores jogadores , se preparados estiverem em termos técnicos, emocionais e civilizacionais, talvez possam até jogar na Europa.

Isto é o hoje, e quem negá-lo, repetimos, está cego de nacionalismo demencial. Mas o hoje não é o sempre, e o presente não é o passado. O estudo da História serve para, entre outras coisas, descobrirmos que a grande maioria de nossas certezas inquebrantáveis e verdades eternas são apenas as certezas inquebrantáveis e verdades eternas de nossa época, a ocupar, hoje, o espaço que já foi de velhas certezas do passado. Não é diferente com a História do futebol. A Taça Intercontinental, o Mundial de Clubes ou como quer que se chame o jogo que reúne o campeão da Europa e o campeão da América nem sempre foi uma “Mickey Mouse cup”. Era, aliás, conhecida pelo nome de Copa do Mundo de Clubes, World Cup of Clubs, sendo composta por dois jogos, um na América e outro na Europa A idéia de criá-la foi de um europeu, o francês Henri Delaunay, secretário-geral da FIFA (dizem que sob influência de Santiago Bernabeu, presidente do Real Madrid) e nasceu neste contexto de igualdade de forças entre os clubes dos dois continentes. A Libertadores da América era, basicamente, composta por jogadores sul-americanos. A Liga dos Campeões era, com raríssimas exceções, composta por equipes de jogadores europeus. Mais do que uma disputa entre dois clubes, o Mundial Interclubes era uma disputa entre as duas grandes escolas de futebol, a européia e a sul-americana, cujas características já estabelecidas após várias copas do Mundo, olimpíadas e torneios entre os dois lados.

O mundo de então era muito diferente. Não havia internet, a televisão engatinhava e o rádio, com alcance limitado, era praticamente a única maneira de acompanhar os jogos. O time sul-americano que jogava contra o europeu trazia uma dose de elemento surpresa simplesmente inimaginável para os (aparentemente) globalizados dias de hoje, elemento este que estava presente até mais ou menos o início dos anos 80, quando um atônito Phil Thompson, do Liverpool, disse nunca ter visto nada tão “diabólico” quanto aquele Flamengo que acabara de destrui-los com um 3 x 0 ainda no primeiro tempo. “Diabólico” por vários motivos que a(s) distância(s) entre o sul-americano do Rio de Janeiro e o norte-europeu de Liverpool fazem supor, mas, essencialmente, por serem substancialmente diferentes. O europeu, por outro lado, também trazia novidades, como foi o caso notório do Honved de Budapeste e suas famosas excursões pelo Brasil nos anos 50, presentes na memória de todos quantos o assistiram.

No jogo da Intercontinental, enfrentava-se um adversário onde todos, ou quase todos os seus titulares eram compatriotas, jogavam juntos por anos, tinham seu próprio estilo, sua própria maneira de jogar e assim por diante. Para ser considerado, de fato, o melhor time do mundo era preciso passar por este teste. Para sair do seu quintal e ganhar o planeta era preciso vencer o outro lado – porque, efetivamente, havia um outro lado digno de ser vencido. E atesta-o a resposta de Jimmy Johnstone, sensacional ponta-direita do Glasgow Celtic campeão europeu de 1967, quando lhe perguntaram qual o sabor de vencer a poderosíssima Inter de Milão na final: “Foi inacreditável. Você deve lembrar que, na época, eles eram nada menos do que bicampeões mundiais de clubes”. Um argumento que, hoje, dificilmente seria invocado para atestar a qualidade de uma equipe européia.

Quanto as coisas começaram a mudar? Difícil precisar. O êxodo de jogadores sul-americanos para a Europa começou para valer nos anos 80 (no caso de argentinos e uruguaios, um pouco antes), com a crise econômica que atingiu a região e a crescente valorização da Liga dos Campeões da Europa, que passou a dar prêmios milionários para seus vencedores. Como explicar, porém, a falta de preparação do Liverpool para a final de 1981 (não tanto quanto alguns ingleses gostam de pensar e não tão pouco quanto alguns flamenguistas gostariam de achar) e a sua ausência em duas finais, em 1978 e 1979, por desistência? Seria simplesmente a já citada insularidade inglesa? Nem tanto. Uma rápida olhada para trás talvez nos aponte uma resposta. No meio da década de 60, o Santos, farto da violência nos estádios de países vizinhos, da baixa premiação e do calendário atribulado, decidiu não mais dar importância à Libertadores e participar – quando participava – somente com o time reserva , no que foi seguido por outros grandes clubes brasileiros de então. Isto abriu espaço para o surgimento de um determinado estilo de futebol, originário do Prata, cujas origens , por si só , mereceriam um post à parte e cujas características dispensam maiores apresentações. Pois bem: em 1967, o Glasgow Celtic, vencedor da Liga dos Campeões (primeiro clube britânico e norte-europeu a vencê-la), vai enfrentar o Racing argentino, campeão da Libertadores. No jogo de ida, vence por 1 a 0. No jogo de volta, perde por 2 a 1 e enfrenta uma batalha campal raramente registrada, que se repete no jogo-desempate disputado em Montevidéu. Os escoceses voltaram para casa contando toda sorte de barbaridades e a saga do Celtic na América do Sul chegou a inspirar uma música. No ano seguinte, o Manchester United de George Best, Bobby Charlton e Denis Law enfrenta o Estudiantes de la Plata. No jogo de ida, 1 a 0 para o Estudiantes, com muita catimba e violência. George Best é caçado em campo e após receber repetidos chutes nas canelas de seu marcador, pega a bola na mão e entrega-lhe, dizendo “Quer tanto essa bola? Tome-a, mas pare de dar pontapés!”. E isto tudo, lembremos, na sequência da Copa de 1966, da expulsão de Rattin contra a Inglaterra e da polêmica  declaração do treinador inglês, AlF Ramsey, de que os argentinos eram um bando de animais.  O jogo de volta ocorreria em Manchester, com recordes de público e renda, e o resultado foi um empate por um gol, dando o título ao Estudiantes. Um título que marcou a última partida de um clube inglês no antigo formato do Mundial Interclubes, devido – esta foi a explicação oficial – à violência dos clubes sul-americanos quando jogavam em casa. Isto é o que se conta. O que não se conta foi a violência dos jogadores do Manchester United no jogo de volta: o volante Paddy Crerand, legítimo exemplar de hardman do futebol britânico dos anos 60, distribuiu bordoadas durante o jogo todo e George Best foi expulso após dar um soco num jogador argentino. A torcida inglesa não ficou atrás: jogava objetos no banco de reservas dos argentinos e gritava “Animals! Animals!” como se comandada pelo treinador de sua seleção nacional. Os jogadores do Estudiantes ensaiaram uma volta olímpica, mas foram imediatamente interrompidos: a qualquer momento os ingleses poderiam invadir o gramado e trucidá-los.

Nos anos 70,  o argumento da violência afastou os europeus e a competição chegou a não se realizar em 1975 e 1978.  O torneio voltou em 1980, num jogo só, em Tóquio, longe das crises políticas, da violência e da selvageria dos latino-americanos. Resolveu-se um problema e na sequência veio outro: a retomada da Copa coincidiu com o início o êxodo sul-americano para a Europa, o consequente fortalecimento em massa dos clubes europeus e paulatino desequilíbrio de forças entre os dois campeões continentais, retirando o clima de disputa ferrenha (com vantagem para os sul-americanos) que caracterizaram as primeiras edições do torneio nos anos 60. O problema só cresceu com o tempo até chegarmos à situação que temos hoje.

Não resta dúvida de que a única maneira de a competição voltar a ganhar interesse é o fortalecimento dos clubes sul-americanos. Foi isso que transformou um campeonato de baixo nível técnico, sem nenhuma divulgação no exterior e exportador de seus melhores craques, o inglês, na liga mais rica do mundo, suplantando os tradicionalíssimos campeonatos italiano e espanhol e atraindo alguns dos melhores jogadores de todas as partes. E é isso que fará os clubes sul-americanos – e brasileiros, principalmente – voltarem a ser respeitados na cena internacional, não só pelos europeus como pelo resto do mundo. Todas as outras medidas- mudanças na fórmula de disputa, de sede, de clubes participantes – são paliativos de curto alcance.

O caminho a percorrer é longo: é  um caminho, basicamente, de retorno a um patamar onde estávamos meio século atrás. E não há caminho mais duro de se trilhar do que o de retorno ao topo. Tentar voltar a ser grande após tê-lo sido é uma tarefa tão difícil que o simples fato de tentar realizá-la já é sinal de grande coragem. E é isso o que os clubes brasileiros vêm buscando fazer  nos últimos tempos, mais propriamente há uns 3 anos. Driblando as dificuldades inerentes à nossa condição periférica e aproveitando como podem a recente e, espera-se, sólida ascensão econômica do Brasil no cenário econômico internacional (acompanhada da decadência econômica do Velho Continente), os clubes brasileiros vêm tentando de todas as formas – com patrocínios especiais, contratos especiais, acordos especiais – atrair alguns jogadores brasileiros que estavam na Europa e segurar algumas das nossas melhores revelações. O retorno de um Elano ou um Fred, o empréstimo recente de um Robinho, a manutenção de um Neymar ou de um Giuliano entre nós, a chegada de bons vizinhos hispanos como D’Alessandro, Dario Conca, Loco Abreu e outros poderiam ser o sinal de um bom e alvissareiro recomeço para o futebol sul-americano. Se tentar voltar aos píncaros de uma glória é uma tarefa complicadíssima, tão complicado quanto isso é recomeçar de fato a trajetória que nos leva até lá. O futebol brasileiro e, em menor medida, o sul-americano estava retomando o caminho. E o mundo já dava mostras, tímidas ainda, de que reconhecia esta retomada, através de uma citação de pé de página aqui, uma menção ali, uma pequena reportagem acolá.

Eu disse estava. Já não está mais.

Desde o dia 14 de dezembro de 2010, todo o trabalho realizado por dirigentes, torcedores, jogadores e todos os envolvidos com o futebol da América do Sul foi por água abaixo. Quando a bola do segundo gol do Mazembe morreu no fundo do gol do Internacional, morria também, no nascedouro, todo osesforço concentrado desde pelo menos 2008 para dar renome internacional ao futebol deste lado do mundo.  O Internacional não era, neste ano, apenas o favorito contra o Mazembe. Não era o time sul-americano que passaria à final com os italianos para servir de saco de pancadas ou para, se armasse uma retranca, talvez vencer com um golzinho salvador. O Internacional era, neste momento histórico, a equipe brasileira e sul-americana que poderia, pela primeira vez em muitos anos, fazer um jogo franco e aberto com o campeão europeu e vencê-lo jogando apropriadamente e não como clube pequeno. Talvez até perdesse. Mas perderia jogando de maneira frontal e franca e não como um rato acuado por um leão, como o São Paulo contra o Liverpool ou o próprio Internacional contra o Barcelona, em 2006, que acabaram vencendo por lances casuais. Quem duvida da percepção européia do que era o Inter e de como poderia se comportar deveria ler esta matéria do prestigiado jornal Gazzeta Dello Sport sobre os colorados. O Internacional é aqui descrito como um clube com excelente estrutura, uma equipe organizada, “a mais européia das equipes brasileiras”, com vários jogadores de experiência internacional e convocações para seleções, organizado taticamente e sem nenhum dos estereótipos normalmente associados ao futebol do Brasil e da América do Sul e ao próprio Brasil e à América do Sul como um todo. Era, em suma, um adversário de verdade para a Internazionale , capaz de fazer da final do Mundial um jogo que valeria a pena ver. Sem condescendência européia para não ofender seu potencial mercado consumidor do Hemisfério Sul, sem esgoelar-se tresloucado sul-americano para garantir uma vitória por meio a zero: um jogo de verdade. Pela primeira vez em muito tempo. O primeiro de muitos nos anos que viriam. O primeiro verdadeiro passo do turning point do futebol sul-americano.

Pois bem. Quem lê em inglês pode acessar os textos do britânico Tim Vickery ,jornalista da BBC inglesa e da Sports Illustrated . Mister Vickery vive no Rio de Janeiro desde 1994 e abastece seus conterrâneos com informações sobre o futebol sul-americano. No mundo de língua inglesa, ele é tido como uma grande autoridade no assunto, recebendo, por isso, o apelido de “Legendinho” (“Legend”, lenda em inglês, mais o “inho” que o mundo associa aos brasileiros) e é ele, basicamente ele, quem orienta os europeus pretensamente mais informados sobre o nosso futebol. Se você, leitor, encontrar por este mundo afora algum europeu e, especialmente, algum inglês que fale do futebol sul-americano como se soubesse alguma coisa, pode ter certeza de que ele acompanha o blog de Mr. Vickery. O trabalho do jornalista inglês pode ser considerado relativamente bem feito: traz muita informação sobre os clubes e os jogadores daqui e neste aspecto, o da informação pura, ele é bastante satisfatório;  o mesmo nem sempre se pode dizer de suas opiniões e avaliações, que são, e com alguma frequência, baseadas em erros mais ou menos graves, histórias contadas pela metade ou sem qualquer comprovação, omissões (deliberadas ou não) de certas informações e uma tendência, embora não muito forte mas presente, de dizer aquilo que sua platéia – no caso o leitor europeu e, sobretudo, o britânico – deseja ouvir. Mas é ele, e não outro, quem os inforna e saber sua opinião é, portanto, importante para quem quer avaliar o impacto de uma derrota como a do Inter. E sua opinião está aqui. É esta opinião que correrá o mundo. Está correta sua na maior parte – equivocada num ou noutro ponto, quando avalia alguns jogadores (um dos mais sensíveis calcanhares de Aquiles do trabalho de Mr. Vickery) – e, embora ressalte, no final, o princípio de fortalecimento econômico de nossos clubes (e países), ressalta ainda mais a situação de inferioridade dos mesmos em relação aos europeus. A derrota do Internacional apenas reforçou esta idéia. Se era possível falar de algo como o começo do renascer do futebol sul americano – e nada além disso, um começo de um renascer – ele morreu antes de chegar a acontecer. Todo o caminho até agora trilhado de nada valeu. Todo o esforço foi inútil. Voltamos à estaca zero. Se há uma palavra certa para caracterizar o impacto desta derrota, esta palavra é tragédia.

Está tudo perdido? Creio que não. Ainda podemos, sim, trilhar a mesma estrada de novo, the long way to the top. Mas agora, diante de um mal já feito, diante de um estrondoso fracasso, a nossa resposta à altura precisa ser nada menos do que um estrondoso sucesso. E este estrondoso sucesso precisa ser nada mais, nada menos, do que uma vitória incontestável, ressoante e firme de um clube sul-americano sobre um europeu no próximo Mundial de Clubes. Isto, e somente isto, poderá retomar o caminho que, a duríssimas penas, tentamos iniciar nos últimos anos. Isto, e somente isto, poderá anular o grande salto para trás que o Sport Club Internacional deu neste último Mundial de Clubes e levou a todos nós, sul-americanos, junto com ele. Isto, somente isto, poderá colocar um clube brasileiro, de novo, entre “the biggest and the best clubs in the world”.

dezembro 20, 2010 - Publicado por | Esportes

7 Comentários »

  1. Celso , calma lá , o mesmo Internacional foi o último sul-americano a desbancar um europeu.

    Contra a Inter , sim , poderíamos fazer um jogo aberto e franco como dizes, o estilo nerazzurri de jogo favoreceria. Já contra o Barça seria suicídio.

    Situações e situações , abraços

    Comentário por overlod | dezembro 20, 2010 | Responder

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Guilherme Gasparetto. Guilherme Gasparetto said: RT @BlogPerspectiva: http://wp.me/p6yds-2Uv O grande salto para trás [...]

    Pingback por Tweets that mention O grande salto para trás « PERSPECTIVA -- Topsy.com | dezembro 20, 2010 | Responder

  3. cara, achei fenomenal e quase CHOREI lendo o teu texto e lembrando que, um dia, tocamos o terror nos europeus. Realmente foi um desastre em todos os sentidos essa derrota do Inter, não só pro clube e sua torcida, mas para todos que gostam e torcem pelo futebol sul-americano.

    mas o que fazer quando o campeão “europeu” não tem um, dois ou três, mas OITO sul-americanos entre seus titulares? Tem que mudar muita coisa ainda.

    abraço e parabéns pelo texto.

    Comentário por Felipe | dezembro 21, 2010 | Responder

  4. Bom texto, bom blog.

    Comentário por asdf | dezembro 21, 2010 | Responder

  5. Joia!

    Comentário por Vitor Hugo | dezembro 21, 2010 | Responder

  6. Cara, mas que esforço que fizeste para uma terra-arrasada hein? Já era, é passado.
    Por falar nisso, me dei ao tempo de ler o texto e discordei.

    Comentário por Mauricio | janeiro 1, 2011 | Responder

  7. Tchê! Não compartilho dessa visão apocalíptica de que retrocedmos tanto. Eu, como colorado, assumo que o Inter retrocedeu com a derrota vexatória sofrida para o Mazembe. Mas derrotas acontecem e se os melhores ou maiores sempre vencessem, não teríamos zebras no futebol. E o futebol não seria futebol. Neste ano de 2011 a coisa até pode se repetir, pois o Santos está muito mal. Creio que o determinante para essas zebras acontecerem são as péssimas avaliações que os clubes fazem nesse período entre Libertadores e Mundial. E não como uma regra por serem sulamericanos. Mas defendo essa tese apenas com relação aos times brasileiros e, talvez, alguns argentinos. Pois os demais não possuem a mínima chance contra os grandes europeus. Ainda, concordo com o autor sobre o embate Inter X Inter! Seria o mais parelho confronto das disputas nos últimos anos. Uma pena que não aconteceu…

    Sobre o início do post: conhecia algumas delas, outras não. Mas é muito legal saber dessas histórias e das formas como aconteciam as disputas Europa X América do Sul.

    Outro ponto: tocas no assunto de que não temos mais os jogos de brasileiros X europeus em confrontos preparatórios. Isso realmente é verdade e é também uma grande perda. Nosso calendário bloqueia esta ótima alternativa de lucro e divulgação das marcas dos clubes na europa. O Inter na Audi Cup foi uma exceção que confirma essa regra.

    Parabéns pelo texto.

    Abraço!

    Comentário por danielsmello | outubro 20, 2011 | Responder


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