PERSPECTIVA

Algumas palavras sobre Bill Shankly

Este ano de 2011  marcará os trinta anos da morte de Bill Shankly.

O torcedor brasileiro provavelmente nunca ouviu falar dele.  Para a torcida do Liverpool, porém, este escocês nascido em 1913 é o maior nome da história de um clube cheio de grandes nomes e dono de uma mitologia própria comparável à Imortalidade gremista.

William Shankly nasceu numa paupérrima família operária em Glenbuck, interior da Escócia. Durante a infância, passou por todas as dificuldades que um operário nascido nas ilhas Britânicas no início do século XX poderia passar. Shankly costumava brincar que nunca havia tomado banho até os quinze anos e que a única oportunidade de ganhar a vida naquele lugar era trabalhar nas minas ou jogar futebol.

O menino Shankly escolheu o futebol. Tornou-se um bom jogador do Preston North End, então um poderoso time de Londres, e chegou a disputar algumas partidas pela seleção escocesa. Mas destacou-se mesmo foi como treinador. Após experiências relativamente bem sucedidas em times ingleses menores, foi contratado em 1959 para assumir o Liverpool.

É importante contextualizarmos:  o  Liverpool que Shankly encontrou em 1959 estava mais próximo do tamanho do seu homônimo uruguaio do que do mega-clube que é hoje. Era um clube local, que vivia num vai e vem entre a primeira e a segunda divisão, jogando num Anfield Road precariamente construído e frequentado por um pequeno e desanimado público. Em 1974, quando saiu, deixou uma equipe consolidada entre os melhores do seu país e do futebol europeu,  vencedor de três campeonatos ingleses, duas copas da Inglaterra e uma copa da UEFA. Deixou, principalmente, um verdadeiro exército de torcedores, que se apinhavam em pé no Estádio de Anfield para ver sua equipe e seu treinador.

Como Shankly fez isso? Primeiro, moldou uma nova cara para o Liverpool. Substituiu os calções e meias brancos do kitoriginal por equivalentes vermelhos e criou o uniforme atual, totalmente vermelho. Depois, aproximou-se da massa trabalhadora daquela cidade definida pelo seu filho mais ilustre, John Lennon, como “gente dura vivendo vidas duras em uma cidade dura” e trouxe-a para dentro do clube através de convocatórias, discursos inflamados como este e uma dedicação integral aos fãs, a quem nunca negou um minuto de sua atenção: fazia questão de responder a todas as cartas que lhe enviavam e não foram poucos os scousers que privaram da companhia do mestre em sua casa, na sala de estar, onde discutiam – fãs e treinador – sobre os jogos do Liverpool e as melhores táticas e jogadores a serem utilizados em campo.

A partir desta interação entre clube e torcida intermediada por Shakly nasceu a “Red Army”, um verdadeiro exército da classe trabalhadora comandado por Shankly que sacudia Anfield Road e apavorava adversários numa época em que os estádios ingleses eram verdadeiros caldeirões sul-americanos em pleno Norte europeu.

Por fim, criou uma maneira de jogar. Os torcedores nunca exigiram do Liverpool que desse show técnico em campo: ao contrário dos seus quase vizinhos do Manchester United, que sempre gostaram mais do toque refinado de um George Best, um Denis Law ou um Bobby Charlton, o que importava para os scousers e para Shankly era a dedicação e a garra demonstrada em campo. Durante os 15 anos de Shankly no comando, o Liverpool teve apenas um craque de verdade: Kevin Keegan. Os demais eram, como Shankly e seus torcedores, nada mais do que operários no velho 4-4-2 britânico de duas linhas que Shankly adaptou e que seria a marca registrada do grande Liverpool dos anos 70 e 80, tetra-campeão europeu, e mesmo do Liverpool vencedor em 2005. A fórmula – 4-4-2, garra, espírito de luta, companheirismo, senso coletivo – foi toda criação de Shankly.

“Sou apenas uma dessas pessoas que ficam ali, no estádio. Eles pensam da mesma maneira que eu e eu penso da mesma maneira deles. É o tipo de casamento entre pessoas que gostam uma da outra”. Assim resumiu Shankly a sua relação com a torcida. Do futebol, disse (e esta é, creio, a sua frase mais conhecida): “Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Posso garantir que futebol é muito, muito mais importante.” Era ótimo com as palavras e ainda melhor ao lidar com as pessoas. Digo sem medo de errar: ninguém, na história do futebol, foi mais amado pelos torcedores do que ele.

Ou, como ele mesmo dizia:

Acredito que a única maneira de se viver e ter sucesso é através do esforço coletivo, com todos trabalhando por todos, todo mundo se ajudando e cada um colhendo a sua parte da recompensa no final. Pode ser pedir demais, mas é assim que eu vejo o futebol e é assim que eu vejo a vida.”

Nestes trinta anos de seu falecimento, assistimos neste início de ano a certos espetáculos tristes que provavelmente deixariam o velho Shankly um tanto decepcionado com o jogo que tanto amava. E justamente por isso é que torna-se tão importante lembrarmo-nos dele neste momento.

Torcida do Liverpool saudando o treinador.

 

Torcedores invadem o campo para prestar reverência a Shankly:

 

janeiro 9, 2011 - Publicado por | Esportes

1 Comentário »

  1. Interessante. Porém, teria ganho mais dinheiro se eu fosse empresário dele à época.

    Comentário por Roberto Assis | janeiro 9, 2011 | Responder


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