Entrevista: Marcus Paulo Rycembel Boeira – ““O ensino brasileiro idiotiza os estudantes”
Entrevista: Marcus Paulo Rycembell Boeira, professor universitário

Por Celso Augusto Uequed Pitol
A entrevista com Marcus Paulo Rycembell Boeira foi realizada sem a presença física do entrevistado. Para contatarmos nosso conterrâneo de 31 anos – “canoense desde o primeiro dia de vida”, segundo ele – foi preciso apelar para o Skype: Marcus mora em Curitiba, onde é professor universitário, e vive em trânsito entre a capital paranaense, São Paulo – onde termina a tese de doutorado sobre o Poder Moderador na Constituição do Império (a tese de mestrado, sobre a natureza da democracia constitucional brasileira, está em processo de publicação) – e a sua Canoas natal. Além disso, seu tempo é contado: dá aula em várias instituições e dedica pelo menos duas horas diárias para o estudo. O momento para conversas é, portanto, reduzido. Mesmo assim, quando se anima a discorrer sobre os seus assuntos preferidos – filosofia do Direito, ciência política, o estado da educação e do ensino no Brasil, a religião e muitos outros – o professor Marcus estende-se por horas e horas, sem economizar palavras e olhar para o relógio. Suas referências intelectuais o distanciam um pouco de seus colegas de profissão: em vez de Habermas, Ferraioli e Laclau, cita São Tomás, Francisco de Vitória, Suárez e Domingo de Soto. São essas referências, que denunciam uma sólida formação clássica, o fundamento de suas opiniões corajosas e contundentes que apresentamos ao leitor nesta entrevista.
O Timoneiro: Primeiramente, gostaria que falasses um pouco da tua formação intelectual.
Marcus Boeira:A minha formação eu devo primeiramente ao meu avô, Victor Rycembel. Na minha infância, ele me tomava lições de matemática e lógica, o que me permitiu ter uma certa base nessa área. No ensino formal, eu estudei no Rondon até a quarta série e depois me transferi para o La Salle, onde estudei até o terceiro ano do segundo grau. Mas a minha educação de verdade nunca dependeu das instituições formais e oficiais. A minha educação eu fiz em casa, sozinho, estudando e tendo aconselhamentos primeiro do meu avô e depois de pessoas que foram se incorporando à minha adolescência. Isso tudo me permitiu a poder articular discursos e linguagem de uma forma mais rebuscada. Quando meu avô faleceu, eu perdi muito nesse sentido, porque eu via nele uma autoridade nestes aspectos. Durante o segundo grau, eu dei um salto da literatura para outras áreas do conhecimento, a Sociologia, a Ciência Política e outras áreas.
OT: Isto foi quando?
MB: Em 1994, 1995. Também comecei a me interessar por política. Este contato deu-se, em primeiro lugar, quando observei meu avô na infância relacionar-se com pessoas da sociedade canoense. Na casa de meu avô, comentava-se muito acerca do prefeito Hugo Lagranha, do teu pai (Celso Pitol, ex-vereador canoense), o teu tio (Jorge Uequed) , Jurandir Bonacina, Carlos Giacomazzi e muitos outros. Lembro quando tinha 9, 10 anos de idade e visitei a Câmara de Vereadores de Canoas, que ficava ao lado do fórum onde meu pai trabalhava. Eu tinha a impressão de que a política era algo muito superior a ela mesma e isso permaneceu dentro de mim, como uma chama apagada, até os 16, 17 anos de idade. Já com 18 anos de idade eu ingresso na Faculdade de Direito da PUCRS.
OT: Porque escolheste o Direito?
MB: É uma questão complicada. Na adolescência eu sempre quis fazer filosofia ou história. Só que, como todo adolescente, eu fui suscetível às pressões do momento, à família e a outros personagens da minha vida. Havia uma verdadeira pressão social. Quando entrei, eu percebi que o que era tratado na universidade era muito complexo mas carecia de uma substância de realidade que desse às teorias ali ensinadas uma base moral sustentável.
OT: Falas especificamente da faculdade de Direito?
MB: Não só dela. Em contato com outros cursos, eu percebia isso também. Percebia que havia entre os professores uma falta de conhecimento da tradição, da base da civilização ocidental, que pudesse colocar suas próprias teses em cheque.
OT: Não te parece que a faculdade de Direito , da maneira como está hoje estruturada hoje, é um campo mais fértil que o do resto das ciências humanas para que isto que tu acabaste de descrever ocorra? Não te parece que o ensino jurídico negligencia, ao menos no Brasil, o estudo das humanidades clássicas e da tradição ocidental?
MB: Parece-me que tudo começa com a falta de formação básica dos próprios professores. Se os professores não foram educados de uma maneira capaz de articular as suas próprias disciplinas, eles tecnicizam e burocratizam o ensino de forma a estupidificar ou passam a ser massa de manobra para movimentos ideológicos de massa. Ou é uma coisa, ou é outra. Ou é tecnicização irresponsável frente ao universo do real, ou por outro lado passam a ser massa de manobra para ideologias de massa que se introjetam na cultura jurídica e passam a dominá-la a partir de idiotas úteis.
OT: Quando te deste conta que este é o processo em que as universidades estão inseridas?
MB: Em 1998. Eu tinha 19 anos e tive um professor universitário, o professor Diego Pérez – que hoje é meu padrinho de casamento – que me introduziu num universo absolutamente novo para mim. O Diego e a Sofia, sua esposa, eram liberais – hoje são liberais conservadores – e me convidaram para integrar um grupo de estudos que eles tinham e eu, que estava no segundo ano da faculdade, fiquei todo entusiasmado. Sendo que, à época, já tinha tido uma passagem pelo marxismo.
OT: Quando tiveste essa passagem?
MB: Com 16, 17 anos. Fui seduzido a partir do final do colégio e início do cursinho. Eu conheci algumas pessoas que pertenciam ao PT e essas pessoas me forneceram a “Ideologia Alemã”, do Marx. Eu li aquilo e achei coerente com as minhas aspirações revolucionárias de jovem que queria mudar o mundo. A partir daí, fui seduzido por todo o resto: pelo “Manifesto”, pelo “Capital” e por toda a economia política marxista. Fui seduzido pelo marxismo clássico, da luta de classes, etapas revolucionárias da História.
OT: Isso foi no colégio?
MB: Não. Eu, na minha vida intelectual, não recebi nada do colégio. Posso dizer que tudo o que eu aprendi na minha vida foi fora do colégio. Passei um tempo como marxista até que conheci esse professor universitário e ele abriu um flanco na minha formação, me apresentando as pessoas que mais contribuíram para a minha formação intelectual: Cezar Saldanha e Olavo de Carvalho. Após conhecer a obra desses dois, tomei um soco na cara e depois um impulso de conhecimento, pois estamos falando provavelmente dos dois maiores gênios brasileiros vivos, ao menos dos que eu conheci. Eu, conhecendo o prof. Cezar, comecei a integrar o grupo de estudos do prof. Cezar, que me deu uma formação muito boa em termos de ciência política e filosofia do Direito. Naquele ano, tive contato com a obra “Aristóteles em Nova Perspectiva” e “O Imbecil Coletivo”, de Olavo de Carvalho. Com essas obras, posso dizer que a minha casa caiu e o que eu tinha aprendido até ali, salvo a educação clássica que eu havia recebido do meu avô, tinha de ser revisto. E isso me fez abandonar o marxismo completamente. Passei boa parte da minha vida acadêmica estudando Aristóteles, São Tomás e a tradição clássica e escolástica. A partir daí, cheguei aos autores da segunda Escolástica espanhola, Domingo de Soto, Francisco de Vitória, Francisco Suárez e outros. Mas, antes de chegar a esses autores, ter tido essa formação básica foi decisivo. E hoje eu devo muito a essas pessoas e essas fontes intelectuais, que permitiram não apenas a formação que eu tive, mas também definir o curso intelectual da minha vida.
OT: Gostaria que falasses um pouco deste momento de mudança de eixos, deste momento axial, tão importante para a trajetória intelectual de muitos.
MB: Na verdade, a minha experiência “axial” já estava dada no momento em que eu estava imerso do marxismo. Houve, porém, um evento importante envolvendo o teu tio e vou contá-lo, ainda que ele provavelmente não lembre. Foi em abril de 1998. Eu estagiava com meu pai (Paulo Boeira, funcionário do fórum de Canoas) no fórum de Canoas e estava saindo para almoçar quando encontrei o seu Jorge na rua. E eu disse: “seu Jorge, o seu jornal não tem espaço para idéias marxistas”. Ele então respondeu que o jornal tinha espaço para todo tipo de idéias, que era um jornal democrático. Aí continuei a conversar, a falar das minhas preferências políticas e ele me disse assim: “tu tens certeza disso que tu estás fazendo?”. Aí eu fiquei sem saída. Naquele momento as palavras do dr. Jorge Uequed me atingiram como uma flecha. Era um momento em que eu estava deixando totalmente o marxismo para trás. Eu tinha, por um lado, a carga de perder os amigos, os colegas, as amizades na esquerda, de perder a possibilidade de crescer em certos organismos e instituições, e por outro lado eu tinha o trivium, o quatrivium e tinha o professor Cezar Saldanha, o Diego, o Olavo e as fontes intelectuais destes três. Então tudo isso pesava do outro lado. Hoje, vejo que fiz a escolha acertada. Fiz amigos como o Carlos Reverbel, Gustavo Sander, Ronaldo Laux e muitos outros que hoje são professores. Um autor que me influenciou decisivamente foi o Giovanni Sartori, a ponto de eu ter ido visita-lo na Itália. Mas estudei também o lado oposto: Habermas, Horkheimer, Adorno. Pouco depois, comecei a dar aula. Casei-me – o que foi um momento importantíssimo para que eu tivesse a aspiração de ser um homem de verdade, de tocar a própria vida. Acabei por ir morar em Curitiba e é onde estou até hoje. E veio também a religião. Comecei a partir de 2006 a ter uma experiência espiritual cada vez mais intensa. Eu posso dizer que em 2008 eu verdadeiramente me converti à fé cristã. O meu entendimento do cristianismo era até então mais filosófico, não o entendimento com os olhos da alma. Comecei a compreender o crisitanismo não de um ponto de vista externo, mas sim dentro de mim mesmo. O meu casamento na Igreja foi a porta de entrada para aquilo que se tornou pleno em 2008.
OT: Qual a tua opinião sobre o atual ensino universitário brasileiro, de modo geral?
MB: Péssima. A verdadeira educação é apenas a das 7 artes liberais: o trivium – o conhecimento da mente, a lógica, a gramática e a retórica; e o quatrivium – o conhecimento da matéria, aritmética, geometria, astronomia e a música. Nem as universidades nem os colégios ensinam isso. O ensino brasileiro idiotiza os estudantes. Só ensina-se aparências, questões sensitivas e teorias radicadas em movimentos ideológicos de massa que em nenhum, ou em quase nenhum momento correspondem ao que um estudante das artes liberais estuda. Temos hoje uma cultura de estereótipo, a baixa cultura. Um estudante que se formou na lógica do ensino médio brasileiro está estupidificado. É a pedagogia da estupidez. O sujeito entra no colégio sem o desenvolvimento das artes liberais e não tem faculdades congnitivas capazes de compreender as imbecilidades do que que lhe estão sendo ensinadas. E os professores também não tem o conhecimento necessário. Quem não é pedagogo de si mesmo não pode ser pedagogo dos outros. Lendo Ortega y Gasset, ao analisar a obra do toynbee, ele diz que o lado prático dos ingleses é baseado na educação à moda grega que eles tem nos colleges – Oxford, Cambridge e outros. Ortega y Gasset viu então uma dissonância profunda entre essa educação e a educação dada no continente. Posso dizer que não há remédio para a nossa educação a não ser retomar as sete artes liberais.
OT: Vê um componente ideológico nisso tudo?
MB: Claro. Há uma hegemonia esquerdista no meio universitário mundial. Não é só no Brasil. Esse discurso do politicamente correto, da crítica ao capitalismo, passou a tomar conta e conquistaram artificialmente o que se chama de senso comum. Eles conquistaram artificialmente aquilo que as pessoas chamavam de opinião pública. É o que o professor Giovanni Sartori diz: a “Vox populi” na atualidade não é formada no publico, e sim para o público. São certos atores assumem a condição dessa hegemonia cultural. É claro que esses agentes conhecem profundamente a obra do Gramsci, do marxismo cultural e de outros. Nunca na história humana tivemos isso: a opinião pública formada não a partir da cultura tradicional e sim por agentes culturais marxistas.
OT: Falas em escala global. Gostaria que falasses da ação desses movimentos na tua atividade profissional como professor. Como a percebes?
MB: Eu percebo com o próprio lombo, como se diz no interior (risos). Eu percebo na porrada. Eu posso dizer que tive muitas portas fechadas e sofri alguma perseguição por conta de não pertencer ao establishment marxista existente.
OT: Sendo tu professor Direito, não posso deixar de perguntar sobre um tema candente da atualidade, que é o da obrigatoriedade do exame de ordem, que está sendo posto em xeque. Que pensas dele?
MB: As faculdades formam robôs técnicos e quando alguém tem uma vocação propedêutica ele sai contaminado pelo marxismo cultural. Nesse sentido, se o exame de ordem é avaliação técnica, e a faculdade só forma técnicos, me parece justo. O problema é usar desse recurso técnico como maneira de impedir verdadeiras vocações jurídicas que, embora não tenham esse conhecimento técnico talhado, têm a amplitude da cosmovisão jurídica necessária para trabalhar os problemas técnicos diante de uma unidade de conhecimento. Nesse sentido, o exame de ordem facilita a entrada de pessoas altamente especializadas e impede que haja a entrada de pessoas mais abertas no campo da ciência.
OT: O que tu podes aconselhar para um jovem que está se iniciando no estudo do Direito?
MB: Antes de tudo, o trivium e o quatrivium. Depois, estude por si mesmo. Procure mestres e pessoas mais experientes que lhe possam fornecer bases de estudo não só de autores contemporâneos, mas de autores clássicos em primeiríssimo lugar. Não confie em tudo o que escutam dentro da universidade. Se o professor deu uma fonte, procurem também o contraponto. Numa cadeira de direito constitucional, se derem o Paulo Bonavides, procure também o Sampaio Dória, ou o Manoel Gonçalves Ferreira Filho.
Entrevista publicada no jornal O Timoneiro.


Boa entrevista.
Espetacular! Dois jovens com cabeça acima de muitos, muitíssimos. Cumprimentos aos dois, Marcus Paulo (entrevistado) e ao Celso (entrevistador). Essa é das leituras que enobrecem a gente.
Olá, Celso Augusto!
Navegando me deparei que o teu blog. Super interessante e com temas variados. Eclético.
Faço o convite para que visite o meu blog “ESPAÇO GÓTICO” (via Google) e a partir dele os demais que abordam qual cada um tema diferente.
Além disso, estou no jornalismo há 44 anos, e sou um acervista com uma coleção de cerca de 29 a 30 mil fotos exclusivas, além de coleções de jornais, revistas e originais de documentos. Já publiquei seis livros com excelente resultado em termos de aceitação, sendo que apenas o último, lançado em 11/10/2009, em Bento Gonçalves-RS, não versa sobre temas relacionados com Canoas.
Para contatos meus e-mails: la-stampa@ig.com.br e frapagot@ibest.com.br
Abraços e sucssso!
Xico Júnior
O melhor professor que ja tive! Quem dera pudesse ter mais tempo de aula com ele.
Parabén Boeira!