PERSPECTIVA

Uma noite de Libertadores

O estádio era pequeno. O campo, esburacado. A polícia local, inexistente. O adversário, catimbeiro, violento e apoiado por uma torcida enlouquecida. Era preciso vencer por dois gols de diferença e esperar por resultados paralelos para classificar. Diziam os matemáticos que as chances estavam em apenas 8%. Matemáticos lidam apenas com números. Lidassem com outros aspectos da realidade, levariam em conta as recentes insinuações sobre a presença de roedores na sede do clube, a evidente falta de experiência de um interino com cara de professor de Educação Física de colégio particular e inevitavelmente baixariam ainda mais as estimativas. Exceto por um milagre, era um jogo para cumprir tabela.

Assim entrou o Fluminense em campo contra o Argentinos Juniors nesta noite de quarta-feira. Contava com o comovente apoio de sua torcida, crente de que seus clamores papais haveriam de fazer efeito junto ao Altíssimo. Contava com algumas declarações dos jogadores sobre a importância de lutar até o fim. Declarações aparentemente protocolares, meramente respeitosas, frases vazias decoradas no vestiário antes da entrevista. Declarações que soam como doces melodias para os ouvidos de qualquer adversário.

O problema, meus caros, começa quando os jogadores que dizem estas frases feitas acreditam mesmo no que estão dizendo. O problema começa quando Fred acredita mesmo que nem tudo está perdido. O problema começa quando Rafael Moura diz que não vai aguentar ficar na reserva num jogo decisivo desses. O problema começa quando Conca diz que os matemáticos estão errados, que era bom aluno de Matemática no colégio, que fez seus próprios cálculos e que as chances são bem maiores do que supõem estes senhores pouco afeitos ao convívio con la pelota.  O problema é quando aquele que tem apenas 8% de chances, treina com os ratos e olha para o banco e vê um professor de handebol com o abrigo do clube, acredita que nada disso significa que sua tarefa é impossível.

É assim que o problema começa. E, quando se tem jogadores da fibra de Fred, Rafael Moura, Conca, Diguinho, Edinho, então está-se, sim, diante de um verdadeiro e acabado problema. E quando se tem um treinador como Enderson Moreira –  cujos óculos escondem um homem de invulgar fibra e personalidade dos imbecis acostumados a julgamentos rápidos - está-se diante de um problema grave. E quando se tem uma torcida que acorre ás centenas para um acanhado estádio de periferia , então, está-se diante de qualquer coisa neste mundo – menos de um time que joga para cumprir tabela antes da hora.

O Fluminense venceu o Argentinos Juniors por 4 a 2, com autoridade, com força, com dois centroavantes de área, com os dentes rangendo, com bola aérea, com o banco de reservas mandando os jogadores lesionados (do próprio Fluminense!) levantarem de uma vez, com pedras voando sob suas cabeças, com briga generalizada no campo, com conivência da polícia, com tudo, tudo, rigorosamente tudo o que se poderia esperar de um jogo da Libertadores da América.

Para nós, que ficamos alheios (por enquanto) ao que se passa com o clube das Laranjeiras, a noite desta quarta-feira ficou e ficará marcada como uma legítima noite de Libertadores da América.

abril 21, 2011 - Publicado por | Esportes

1 Comentário »

  1. Não costumo ler sobre futebol, e não sei por que li este post. Mas, achei-o muito bom. Interessante pela PERSPECTIVA incomum.

    Comentário por Nélsinês | abril 23, 2011 | Responder


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