PERSPECTIVA

Personalismo marinista

O personalismo é chaga política tipicamente ibérica. Nós, ibéricos – sim, nós: dos Pirineus até a Patagônia, somos todos ibéricos – fomos varguistas, peronistas, sandinistas, fujimoristas, salazaristas, franquistas e castristas. Hoje, somos lulistas, chavistas, kirchneristas e……castristas. A explicação para o fenômeno parece estar na psicologia dos povos. Borges dizia que o argentino só concebia relações pessoais, e que uma relação com o Estado, sendo impessoal, lhe era inimaginável. Por essa razão, conclui ele, para um argentino não é crime roubar dinheiro público. Não é preciso deixar aqui claro que, se trocarmos argentino por mexicano, peruano, uruguaio ou brasileiro, o resultado é rigorosamente o mesmo. Atesta-o trecho do depoimento de um viajante holandês, colhido por Sérgio Buarque em  ”Raízes do Brasil”, que estranhava o fato de, entre portugueses e espanhóis,  era preciso fazer-se amigo de alguém antes de fechar um negócio.

Na política não é diferente. Temos dificuldade em entender a política sem personalismo. Gostamos do candidato que nos dá tapinhas nas costas, beija nossas criancinhas, usa as metáforas futebolísticas que todos usamos e, ao mesmo tempo, parece-nos líder, condutor, chefe, alguém a quem podemos chamar de “comandante” com prazer e orgulho. Gostamos daquele que nos lidera, mas não nos olha tão de cima que nos sintamos diminuídos.Gostamos do comandante que, em troca de nossa submissão, até consente em dar-nos um sorrisinho e dirigir-nos alguma palavra. E gostamos, por isso tudo, de segui-lo, e de dizer ao mundo que o seguimos.

A história do personalismo político em nossas terras tem, parafraseando Roberto Campos, passado glorioso e futuro promissor. A cada eleição que passa lhe acrescentamos um novo capítulo, prolongando indefinidamente esta triste saga em nossas terras com novas roupagens de um mesmo mal.

O mais recente capítulo atende pelo nome de Marina Silva.

Para quem vê as manifestações de seus seguidores nas redes sociais torna-se impossível não relacionar suas atitudes com a dos seguidores dos velhos caudilhos. Levantando a bandeira do “novo”, os adeptos marinistas seguem toda e qualquer atitude da líder com a despreocupação ideológica e de coerência típica dos destituídos de qualquer compromisso. De “novo” o discurso e a bandeira marinistas não têm nada: são apenas surrados chavões ditos, às vezes, com alguma roupagem nova. Às vezes.

O desligamento dos adeptos “marineiros” do Partido Verde deve-se, segundo a nota da líder, a certos descontentamentos com a atual forma de fazer política, a “desvios” do sistema representativo. E no final deixa claro: “ Não é hora de ser pragmático, é hora de ser sonhático e de agir pelos nossos sonhos”. Que sonhos são esses, tão maravilhosos que façam as pessoas os preferirem à ação concreta, a senhora Marina Silva não nos diz. Mas a impressão que passa é que trata-se de uma mera diversão para aplacar o tédio existencial de uma camada privilegiada da sociedade. Um tédio que,  para ser preenchido, talvez não goste de encarar os fatos reais da vida e da política e prefira refugiar-se nos “sonhos” comandados pela sra. Marina. O resultado está aí:  dê-lhe “marineiros” para lá e “marineiros” para cá.

Saiamos, contudo, um pouco do sonho marinista e observemos a realidade nua e crua.

A tática política do discurso marinista passa bem longe de chamamentos oníricos. Ao contrário, está bem assente no chão. Trata-se da velha prática de utilizar pequenas siglas para conquistar cadeiras legislativas e, depois disso, seguir a trajetória de Marina abandonar o partido de aluguel para fundar uma nova agremiação. Simples e claro.

Quem não consegue conviver com as democráticas diferenças existentes nos partidos políticos , abandona-os sempre que sua vontade não for integralmente seguinda, sob alegação de  que  os partidos perderam seus ideais, de que  os filiados não decidem nada, não presta serviço algum à democracia. Acenam para uma  nova forma de fazer política – quantas mil vezes já ouvimos populistas seguidores de lideranças autoritárias alardearem isso- onde a sociedade participa efetivamente. Não explicitam qual forma seria essa e na prática estão invadindo pequenos partidos para utilizá-los como sigla de aluguel e abandoná-los após as eleições. Essa é a nova forma de fazer política?Ora, ora.  Todo o Brasil já viu essa prática antes. O mundo já viu essa prática antes.

E pretendem os seguidores de uma líder que não admite divergência  governar cidades . Governar cidades é aceitar as diferenças e os fatos mostram a imensa dificuldade que os “marineiros” tem em relação a isso. Pretendem governar  impondo sua vontade ou ao menor sinal de contrariedade vão abandonar o cargo, como crianças mimadas? Aliás, foi o que Marina fez quando teve a grande oportunidade de colaborar efetivamente para a melhora do meio ambiente: abandonou o cargo de ministra. Foi, aliás, em seu período à frente do Ministério do Meio Ambiente que o Brasil teve o maior índice de desmatamento de sua história. Uma realidade um tanto dura para os sonhos que o personalismo marinista quer propiciar a seus  militantes.

julho 12, 2011 - Publicado por | Política

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