Programa “Diálogo” – número 3 – com Celso Augusto Uequed Pitol e Marcus Paulo Rycembel Boeira
Neste segundo programa “Diálogo”, eu e meu amigo Marcus Boeira abordamos a publicação do livro “”A Natureza da Democracia Constitucional”.
Desde já, agradecemos a audiência e aguardamos manifestações dos leitores.
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista
“Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar”
Por Celso Augusto Uequed Pitol
Astier Basilio é um homem dedicado à palavra. Poeta, filho de repentista, pode, como poucos, entoar o que escreveu José Hernandez em “Martin Fierro” sem soar falso: Cantando me he de morir/ cantando me han de enterrar / y cantando he de llegar / al pie del Eterno Padre / Dende el vientre de mi madre / vine a este mundo a cantar. Jornalista há quase duas décadas, contista há mais ou menos o mesmo tempo, nunca trabalhou até hoje em nada que não estivesse direta ou indiretamente ligado às letras. Com 9 livros publicados e preparando mais um, nada indica que as coisas irão mudar. Nesta entrevista – conduzida, numa curiosa coincidência, no dia 20 de outubro, o dia do poeta – o tema não pode ser outro que não a palavra, seja na forma da poesia, da música, do romance, seja a dos outros, seja a sua própria. A palavra que, como disse Georg Steiner, está em crise.
A poesia te acompanha desde quando?
Astier Basilio: Olha, sou filho de repentista. Meu pai e meu tio não só improvisavam ao som da viola, como escreviam folhetos de cordel. A poesia chegou pra mim pela vertente popular. Eu sabia que minha vida estaria ligada a isso. Então, comecei a escrever aos 14 anos. E como a poesia popular era, e é, muito ligada à métrica, à rima, comecei a escrever muito atrelado às escolas tradicionais como o simbolismo, o parnasianismo e o romantismo. Aos 14, publiquei meu primeiro poema; aos 18, meu primeiro livro.
Não posso deixar de lembrar do velho Gerardo Mello Mourão, que dizia ser o repentista o aedo do sertão, no sentido de captar aquele sopro ‘homérico’, que é o sopro da grande poesia popular de todos os lugares. Diante disso, pergunto: acredita na separação radical entre poesia e música?
AB: Eu só sou poeta porque eu não consegui ser cantador. Tive resistências em casa, da minha mãe. Ela queria que eu estudasse. Aos 23 anos, já formado, com alguns livros publicados, comecei a cantar, algo que faço até hoje, mas de maneira amadora e por diversão. De modo que há uma referência muito forte da tradição oral, desde algo mais direto, como o ritmo e a musicalidade, até num via mais complementar, como é o caso da investigação que venho fazendo da rima toante. Mas te respondendo e parafraseando Nietzsche: não acredito em um poema que não saiba cantar.
Qual a sua formação acadêmica?
AB: Cursei, ao mesmo tempo, jornalismo e letras. Estudei literatura o tempo todo na minha graduação, mas peguei o diploma de jornalismo. A base da minha formação veio de Letras, isso do ponto de vista teórico, mas foi o ambiente do curso, com o que há de pior, de politicagem, que me afastou de prosseguir na vida acadêmica… por outro lado, comecei no jornalismo pela opinião. Antes de ir para redação, onde ainda hoje atuo, comecei fazendo crítica literária, então, a minha base em Letras serviu de porta de entrada para o jornalismo
Onde trabalhou com crítica literária?
AB: Comecei escrevendo no suplemento Painel, do jornal da paraíba – isso em 2000 – depois, colaborei em quase todos os jornais da Paraíba – A União, no suplemento Idéias, no Correio das Artes, e no Diário da Borborema. Sempre fazendo crítica literária
Fala um pouco disso – fazer crítica literária num país como o Brasil. Onde, depois da morte de Wilson Martins, fica difícil encontrar – ao menos na chamada “grande imprensa” – um verdadeiro crítico.
AB: É algo que te coloca no mundo literário, sem dúvidas. Estabelece uma ligação com quem está produzindo no país todo e, o que é muito importante, cumpre um papel social, público, de apresentação da literatura contemporânea. Há uma espécie de fraternidade secreta, sobretudo, entre os poetas e os que escrevem sobre. Uma brigada de resistência. Poetas não ganham dinheiro com seus livros. Então, é algo maior que conecta todas estas vozes. Há muita beleza nisso. Creio que, o lugar da crítica fica quase como uma militância exercida pela própria poesia: a de continuar, a de resistir num mundo que tem banido cada vez mais a reflexão
Nesse sentido, tu acreditas na crise da palavra, de que nos fala o George Steiner?
AB: Não só a palavra, mas tudo está em crise, em crise permanente. Hoje, na redação, curiosamente, uma colega me leu, em um site, a notícia de um pastor que proclama o fim do mundo para esta próxima sexta. Conjecturei que, de alguma forma, desde o Éden se prenuncia esse fim. Como na verdade veio. O mundo do paraíso acabou. O mundo pós paraíso também, com o dilúvio. Enfim, a todo instante o mundo está começando e a acabando.
E a poesia ajuda nesse processo de refundação, por assim dizer? É um dos papéis dela?
AB: Acredito que sim. Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar. Ainda hoje, alguém se colocar no mundo como poeta – isso do ponto de vista sociológico, vou nem falar estético, por aí é outro discurso, é um milagre.
Entendo. Mas também á uma responsabilidade, não é? Para apresentar-se como poeta é preciso sê-lo de fato. Isso não ajuda a restringir o uso da palavra “poeta’ para definir a atividade pública de alguém?
AB: Eu vejo a coisa até do modo mais simples. Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda. Não sei se temos, já impregnado, a noção hierárquica de Pound, em sua classificação de ‘inventor’, ‘mestre’, ‘diluidor’… Temos uma certa aristocracia, uma postura elitista – que eu acho importante do ponto de vista estético. Sim, há poetas e poetas, uns melhores ue os outros. Mas o contexto a que me refiro é o contexto de inserção do ser poeta dentro uma sociedade, acredito que, aí, o parâmetro é outro
Só queria umas palavras a mais acerca disso – “Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda”
AB: Num mundo hoje em que jovens estão se acabando em drogas, sem perspectiva de vida, numa sociedade cada vez mais brutalizada e tal, alguém que diante do mundo se afirme como poeta, mesmo que escreva ruim, mesmo que seja alguém que esteticamente esteja bem aquém do que a linguagem poética conquista, esse alguém, no lugar em que ele estiver, na circunstância em que ele estiver agindo, vai ser um agente poderoso. Neste sentido, eu que acredito na aristocracia da estética, na hierarquização, mesmo subordinada e assentada em valores muito subjetivos, mesmo assim, eu não tenho a postura excludente e negativa em relação a quem se diz poeta no mundo de hoje. É sob este olhar que eu celebro a poesia, mesmo a ruim. Aliás, poetas ruins, poemas ruins, são regra, a poesia poesia é sempre exceção. Mas não só com a poesia funciona isso, com a arte de um modo geral. A boa peça, a boa música, o bom romance, são figuras de exceção numa horizonte de mediocridade. Os medíocres venceram. Eles são muito mais competentes do que quaisquer outros. Não só venceram como se adaptam bem em qualquer lugar. Mas o tempo é o mais cruel dos críticos. Por mais que os medíocres se deem bem, o esquecimento é algo que lhes espera.
Nesse sentido, a pergunta se impõe: o Brasil é um lugar onde o medíocre se adapta melhor? Ou a nossa mediocridade não é melhor nem pior do que a mediocridade alheia?
AB: Tenho pra mim que a mediocridade é universal. Salieri sempre vai ser o músico oficial da coorte. É difícil dar uma visada tão ampla, mas me lembro de uma entrevista que li há muito tempo, ainda havia guerra fria, em que um escritor, talvez o márcio souza, questionou a qualidade literária do presidente da associação dos escritores da União Soviética, então, o russo devolveu de modo cruel: “e aí no Brasil? CArlos Drummond dirige a UBE?” – então, por outro lado, os Carlos Drummond vão estar sempre compromissados com algo que vai além do temporal, as coisas do agora, ficam com os medíocres. Mas, por outro lado, e eu vejo isso mais em ficção do que em poesia, é possível se fazer muito barulho, muito festa em torno de autores com qualidade muito limitada, mas, de certa forma, tem de se ver a época em que estes autores estão escrevendo, não é? Veja, no cinema por exemplo, um cara como um Tarantino, que é considerado, e é, um grande cineasta, se tivesse nascido nos anos 60, morreria de fome… Já imaginou, no mesmo ano você ter obras-primas de caras como Godard, Bergman, Fellini… então, depende muito do contexto e do tempo histórico que a gente está falando
Quais poetas brasileiros vivos destacarias?
AB: Há autores que têm uma ligação com a tradição da lírica ocidental que eu destacaria: Ivan Junqueira, Alexei Bueno, Antonio Carlos Secchin, Marco Lucchesi, isso sem falar em Ferreira Gullar, Adélia Prado, apesar das repetições, Manoel de Barros. gosto também da poesia dos grandes autores nordestinos, de Alberto da Cunha Melo, único falecido que eu acrescentaria à lista, além de Nauro Machado, José Chagas, no Maranhão, Francisco Carvalho, Sânzio Azevedo, os irmãos Virgílio Maia e Luciano Maia
Vários destes nomes que tu citaste são relativamente mais jovens, como Alexei Bueno e Marco Lucchesi, e devotos da tradição. Não são os únicos. Dá para dizer que existe uma corrente de poetas brasileiros na casa dos 40 anos que defende esse retorno?
AB: Acredito que sim. Mas, veja só, mesmo Haroldo de Campos, atendo-se aos últimos trabalhos dele, como “crisantempo” e “a máquina do mundo repensada” esse retorno se efetiva e mesmo Augusto de Campos também experimenta o verso, as potencialidades dele. Agora, Deus criou o mundo, o diabo as cercas… então, há uma série de contingenciamentos, de demarcações e isso em poesia é muito evidente que criam facções, estabelecem dissensões, o que não me interessa por completo. Mas, respondendo objetivamente, há, sim, autores experimentando as potencialidades e todo o arsenal técnico da tradição. João Cabral é o melhor exemplo ocorre que ele, como Machado, foi sequestrado – Machado pela esquerda universitária João Cabral pelos concretos, mas, tanto um como o outro estão para além disso e dos grupos que os prenderam para si.
Acha que isso acontece com outros autores?
AB: Sim. Guimarães Rosa, Glauber rocha, conseguem ser o herói de tribos rivais, o que é prova de gênio. Nestes casos, há superfície e profundidade, e em geral, uns ficam em uma parte da obra. Faz tempo que sai da academia, mas era a impressão que eu tinha. Acredito que é mais visível com machado. Da mesma forma como o embranqueceram no começo do século, agora, puseram-lhe a camisa do ‘Che’ o punho erguido e o slogan: “a luta continua”. Se o velho Bruxo pudesse ver isso, estaria a mangar do periferia do seu cinismo.
Apesar desses nomes todos, Não temos vivos um Drummond, um Bandeira, um Cabral de Melo Neto, certo?
AB: Não, não temos
E já tivemos. Os três, vivos. Nos anos 50, 60.
AB: E nem no romance, não temos ninguém como Guimarães Rosa, José Lins, Jorge Amado
Sim, nem esses no romance. Eu não saberia dizer que é o grande romancista brasileiro hoje.
AB: Há duas grandes expressões da prosa: Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que há décadas escrevem o mesmo livro – o mesmo bom livro, mas o mesmo livro. E o Milton Hatoum é bom-moço demais para mim.
Entao, estamos autorizados a falar em queda de qualidade?
AB: Olha, eu não iria a tanto. Há, potencialmente, escritores muito bons que eu acredito ainda renderão o seu melhor. Penso em Michel Laub, Marçal Aquino, Ronaldo Correia de Brito, Diter Stein, Ricardo Lísias, há um potencial. Agora, acho que não sei se vamos reviver um fênomeno como o romance de 30, por exemplo. por que nós falamos do romance de 30 com os olhos de hoje, não com os daquela época. mas houve uma série de autores menores que disputavam espaço e que apostavam a permanência deles. gente que sumiu na poeria do tempo. eu sempre me recuso a olhar o passado com candura, e, de algum modo, por mais que eu reconheça as precariedades do nosso tempo, não me sinto à vontade com esse discurso não. é preciso tempo, formar-se uma espécie de caldo cultural.
E quanto à poesia popular? Acha que um poeta deve aproximar-se dela, pelo menos como forma de conhecimento das variantes da linguagem poética?
AB: É difícil para mim dar esse tipo de depoimento porque eu não consigo me ver como alguém de fora. eu sempre pertenci a este mundo. Mas acho que, na medida em que for verdadeiro para o poeta, para sua história, sim. Pra mim, como tu disseste, ela foi um grande ensinamento. Tive a sorte, a felicidade, de me encontrar com ela, de em muitos momentos da minha vida ter a poesia popular muito próximo, mas acho que, de uma maneira ou de outra, a poesia tem de se sujar de vida. De verdade. Eu vejo muitos poemas por aí que fedem a limpo, a laboratório. Parecem sem sangue, sem carne, sem história. Acredito na poesia que tenha, sim, uma expressão de experiência. A gente cita muito o verso de cecília “poesia é grito, mas grito transfigurado”.olhando muito pro “transfigurado”. Mas não dá pra esquecer q poesia é, sim, primeiramente, grito. E a expressão desse grito tem de ser muito peculiar, muito particular. Ah, nisso, acredito que sim, há um universo muito rico de possibilidades. E penso, sobretudo, em grandes expressões da literatura no mundo que se valeram do repositório popular como Shakespeare, Lorca, etc


