“Só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa”
Por ocasião da Colação de Grau da Turma CNA 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis (Canoas/RS) que realizou-se no dia 19 de janeiro de 2012 no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, o integrante deste blog, Celso Augusto Uequed Pitol, escolhido orador de sua turma, proferiu o seguinte discurso que aqui será reproduzido na íntegra a pedido dos novos bacharéis, perfeitamente cônscios do sentido do “presente precioso” referido pelo paraninfo, Prof.Andrio Portuguez Fonseca..
Ilustríssimos componentes da mesa, queridos colegas formandos, senhoras e senhores.
No último dia do ano letivo de 1905 um estudante de 17 anos foi chamado ao púlpito do auditório da Academia Smith, nos EUA ,para fazer o discurso de formatura. Seu nome era Thomas Stearn Eliot. Ele era então um jovem promissor, e decerto seus colegas e professores esperavam muito dele. O que talvez ninguém imaginasse era que o jovem Thomas viria a ser considerado como um dos maiores poetas do século XX, figurando na história da literatura sob o nome de T. S. Eliot. Naquele momento, entretanto, era apenas o jovem Eliot – um garoto que dava seus primeiros passos no caminho da vida.
E foi com a decisão de quem dá um passo largo porém firme e animado por uma profunda convicção em si que o então jovem Eliot disse as seguintes palavras:
“De pé junto à praia que todos conhecemos
Hesitamos em dúvida por um momento
Depois, com uma canção nos lábios, velejamos
Pelos baixios da enseada – sem mapa para indicar
Sem luz para iluminar as rochas do fundo
Mas concedei ainda que nos aventuremos.
Como colonos que embarcam no cais
Em busca de fortuna numa praia distante
Bem sabem que perdem aquele tempo
Que jamais haverão de resgatar,
E quando partem compreendem cabalmente
Que, ainda que revejam sua terra natal
Não mais ali serão como cidadãos
Embora a senda seja lenta e tortuosa
Embora se crispe diante de mil temores
Ao olho crédulo da juventude ela parece
Uma vereda onde florescem o pilriteiro e a rosa.
Esperamos que assim seja; pudéssemos sabe-lo!
Pudéssemos contemplar os anos vindouros.”
Temos aí uma convocação. Eliot compara seus colegas de academia a colonos prestes a embarcar rumo ao mar desconhecido que se lhes abre à frente. Pede que sejam corajosos, que agüentem a senda “lenta e tortuosa” sem mapa nem guia ou sequer luz para lhes iluminar o caminho.
Não há promessas de se chegar ao destino desejado: a falha é um elemento presente, e por isso diz: “hesitamos em dúvida por um momento”. Mas isso é passageiro. Embarcam “com uma canção nos lábios”, sem medo do que lhes aguarda. E mesmo sem promessas ou perspectivas definidas, o jovem Eliot projeta:
“Daqui a muitos anos, quando já formos
Velhos e grisalhos, qualquer que seja a nossa sorte,
Desejaremos contemplar ainda o sítio que,
Pouco importa o que sejamos ou o que houvermos feito,
Ou em que terras distantes possamos ter estado,
Nunca esquecemos depois de todos estes anos”.
Eliot está certo de que a viagem terá volta: está certo de que os “colonos que embarcam no cais” a ele retornarão. Está, em uma palavra, confiante.
O poema declamado não ficou esquecido numa gaveta, junto a fotos antigas, bilhetes que nunca encontraram destino e cadernos dos tempos de colégio. Considerou seu autor que mereciam a recompensa suprema da permanência: afinal, só importa aquilo que permanece, e permanece aquilo que importa. Juntou-o a outros escritos da mesma época num só volume e deu-lhe singelo e revelador titulo: “Poemas escritos na primeira juventude”.
Ali encontramos o frescor, a vontade de enfrentar o novo, a celebração da vida tudo o que se pode esperar da primeira juventude. Mais do que tudo isso, entretanto, encontramos confiança: confiança do jovem no futuro, no sucesso, em si mesmo, no que é e no que poderá ser. Ousamos dize-lo: se há uma palavra que transparece na leitura deste poema – e usar apenas uma palavra para resumir Eliot é, no mínimo , ousadia – , esta palavra é “confiança”.
O tempo passou. Eliot já não está entre nós. Suas palavras, no entanto, permanecem vivas: afinal, só importa o que permanece, e permanece o que importa. Tal como ele e seus colegas, portamo-nos de pé “junto à praia que todos conhecemos”, à espera da “senda lenta e tortuosa”. E se nos é permitido pensar, em mais um arroubo de extrema ousadia – pois é momento de sermos ousados – , que podemos ter algo em comum com o autor deste poema, que seja num só aspecto de sua genial personalidade: o da confiança. É assim que desejamos portar-nos agora: confiantes no caminho que vamos percorrer.
A confiança nos será uma companheira valiosa. Se caminho aberto diante de Eliot se avizinhava lento e tortuoso, não o será menos o nosso. Ousemos novamente – pois, como dissemos, é momento de sermos ousados – e digamos logo: nossa senda é ainda mais tortuosa e mais difícil do que a dele. Eliot e seus colegas vislumbravam o mundo pronto que diante deles se abria, o mundo com suas cores, sons, silêncios, fúrias, alegrias tristezas, vibrações – um mundo para ser visto, saboreado, conhecido, contemplado com olhos de menino admirado e assustado ante o novo. Diante de nós abre-se outro caminho: o mundo que encontramos não está aí apenas para ser contemplado com os olhos de meninos assustados. Já não estamos na primeira juventude. Não, o mundo que encontramos agora nos impõe uma tarefa – uma missão. Recebemo-la desde o momento em que entramos pela primeira vez no portão da faculdade como alunos de Direito. Ali, começamos a nos preparar para este momento de partida para o mundo – e foi um longo preparo.
Começamos investigando os fundamentos da ciência jurídica, do Estado e da Constituição, a fim de assentarmos a base sobre a qual erguer-se-ia o monumental edifício; depois, empreendemos o estudo da sociologia, do Direito Civil e dos Direitos Fundamentais, diretrizes-mestras para os homens viverem em harmonia: até este momento somos primeiranistas e o Direito se nos parece uma lindíssima discussão entre alguns dos maiores nomes do pensamento humano; a seguir, como que para coroar nossa entrada no mundo mais duro dos adultos, vemos os contratos e as obrigações – o que só é facultado aos adultos – e os primeiros passos de processo civil. Assim seguimos no estudo das relações familiares, que é coisa de adultos mas exige que entendamos um pouco aqueles que ainda não são adultos; entra o terceiro ano de faculdade e adentramos com força nos domínios da propriedade, do capital e do trabalho: estudamos a empresa, os títulos de crédito, o direito das coisas e o direito trabalhista. No quarto ano, já somos suficientemente grandes para confrontarmos o Direito Penal e descermos aos subterrâneos da espécie humana guiados por nossos professores, como Dante guiado por Virgílio pelos subterrâneos do mundo. No último e derradeiro ano somos levados para o alto, para longe destas profundezas – estudamos as impessoalidades do Direito Administrativo, do Direito Econômico, do Direito Tributário, Societário e Internacional. Nestas alturas terminamos nossos anos de formação – tudo mediado e facilitado pela amizade e pela convivência com os colegas que se tornaram nossos amigos nestes anos todos. Antes, falávamos por nós e agíamos por nós. Hoje, falamos por nós e por todos aqueles que desde a aurora dos tempos ajudaram a fazer do Direito não apenas uma ciência mas uma realidade concreta, e do estudante de Direito e do jurista promotores desta ciência e desta realidade. É esta régua pela qual seremos medidos daqui para frente. Nada mais, nada menos.
Ser medido por esta régua é difícil. É difícil também mantermo-nos dentro de seus limites. O mar que se nos abre à frente é cheio de perigos. Suas águas revoltas não perdoarão marinheiros mal preparados e navios mal construídos, e sua imensidão guarda terras ignotas, perigosas e viciadas. Camões parecia saber disto ao exortar seus compatriotas a dilatar a fé e o Império. Também nós, a cada metro que vencermos em alto mar, estaremos dilatando o Império do qual nos fizemos súditos e da fé em que fomos batizados durante nestes anos de formação: a fé na Justiça e o Império da lei.
É claro que esta empresa não se conseguirá por espasmos de grandiosidade, e não fincará solo pelas simples palavras. Serão os nossos atos cotidianos, pacientes, aparentemente simples que levarão a termo a tarefa que recebemos. As vicissitudes da vida nos levarão para trajetórias diversas. Se hoje, aqui sentados, estamos um ao lado do outro, sabemos no fundo que, no futuro, não será mais assim: sabemos, no fundo, que chegará o momento em que, perdidos em alto mar, cercados de perigos, olharemos para o lado e não mais veremos a face amiga de nossos companheiros de fé. Chegará, sim, o momento em que nos sentiremos solitários em alto mar. Pareceremos então sozinhos, desconectados um do outro. Apenas pareceremos. Estar junto nada mais é do crer nas mesmas coisas. E nós, daqui para diante, se agirmos conforme a fé que recebemos e dilatarmos o Império que habitamos, mesmo que não vejamos uns aos outros, estaremos juntos para sempre. Mas é preciso que, contra vento e maré, dilatemos a fé e o Império.
Eis a missão que nos é dada hoje, nesta noite.
É então chegada a hora da partida. Da praia que todos conhecemos avistamos o mar revolto que iremos enfrentar. Estamos munidos da graça concedida, da fé que professamos, do aprendizado que recebemos, do estandarte do Direito a ser carregado por onde estivermos e fincado onde ele não imperar. Já é ousadia suficiente. Mas o momento, repetimos, é dos ousados. E por isso, ousamos pela terceira vez. E ousamos agora fazer um pedido – um longo pedido Àquele que, acreditamos – ao menos aqueles que acreditam – , será capaz de atendê-lo. Pedimos que a travessia que fizermos, conquanto longa, seja repleta de todo o melhor que uma travessia pode trazer; que ela sirva para pôr em prática o que aprendemos, e para que aprendamos ainda mais; que o passar do tempo não nos transforme no futuro em simples ex-colegas de faculdade; que as tempestades que enfrentarmos não nos impeçam, e que as dificuldades não nos endureçam – que permaneça entre nós um pouco deste nosso olhar de meninos assustados e admirados diante da vida, um pouco do que nos resta da primeira juventude; e que, ao reunirmo-nos de novo nesta praia, restem apenas as melhores lembranças da longa travessia. E que nunca, nunca, deixemos de confiar – no que aprendemos nestes anos de formação, no que aprenderemos no caminho que escolhermos e, principalmente, e ao fim de tudo, no que somos. Pois só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa.
Muito obrigado.


Ler este discurso é lindo,mas ouvi-lo na integra do próprio orador,foi indescritivel!!
Parabéns Celso!
Gostei,muito lindo. Ser jovem, é lindo, a juventude é feita de sonhos, cabe aos jovens ter confiança e ir atrás de s eus ideais, em qualquer profissão,
com ensino medio ou com ensino fundamental, com uma faculdade, pois todos somos necessários nesse universo.
Sensacional. Quero dizer que são palavras como essas que me dão forças para continuar no caminho e me formar.obrigado!
Chorei mais uma vez! Parabéns, Celsinho! E obrigada!!
=)
OLÁ CELSO:
O Mar ainda desconhecido, por onde todos voces navegarão; O que importa no entanto é o que permanece e permanece aquilo que importa; É o que voces carregam jundo, a bagagem de tudo o que aprenderam nestes longos anos.
O teu discurso é ímpar pois foi profundo como o Mar e simples e raso como o que importa, o que voces levarão por toda esta existência.
Parabens, e parabens aos teus Pais Linda E Pitol.
Abração fraterno………………………Carmo Souza – “SEU CARMO”.