PERSPECTIVA

Não sairemos daqui

Torcida do Liverpool no “Kop” (espaço sem cadeiras atrás dos gols), nos anos 70, cantando:

We shall not, we shall not be moved

We shall not, we shall not be moved

Just like a tree that’s standing by the water

We shall not be moved

Infelizmente, os anos passaram e os velhos “Kopites” (assim eram chamados os torcedores que ficavam naquele canto do estádio) saíram, sim, para dar lugar aos que ficam sentados durante todo o jogo e, embora seus cânticos emocionados continuem a ecoar por Anfield Road, a coisa, definitivamente, não é a mesma.

Que isso sirva de lição para outras torcidas, de outras latitudes e hemisférios.

fevereiro 11, 2013 Posted by | Esportes | 1 comentário

Entrevista com Gerardo Mello Mourão

Aproveitando a ocasião do Dia da Independência do Brasil, disponibilizamos aqui uma entrevista de um dos escritores brasileiros mais identificados com o nacionalismo: o poeta, romancista, líder político e jornalista Gerardo Mello Mourão (1917-2007). Natural de Ipueiras, no Ceará, autor do essencial “Invenção do Mar” – que o crítico Wilson Martins definiu como o equivalente brasileiro de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões – Gerardo foi também deputado federal pelo MDB  (chegando a ser cassado pelo AI-5, em 1968) e correspondente da Folha de São Paulo em Pequim. 

O texto que segue é a transcrição de uma entrevista concedida ao final de 2001, cujo original se encontra aqui.

 

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Pode começar?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Pode.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Gerardo, vê se você agora relembra sua origem social, seu ambiente familiar, sua instrução, sua formação intelectual, os primeiros tempos.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Bom, eu nasci numa pequena cidade ao pé da Serra da Ibiapaba, chamada Ipueiras – do outro lado é Piauí – no noroeste do Ceará.

            Venho de uma família como toda gente da minha terra: uma família antiga, tradicional, com alguns antepassados até poderosos etc. e tal. A minha mãe era pobre, a família já empobrecida através dos tempos, e era professora primária em Ipueiras. De todo modo, éramos aquilo que se chamava de as famílias importantes da região. Ela, os Noronhas, os Araújos, os Holandas, toda aquela gente é uma família só. O Ceará é uma tribo grande.

            Ainda agora fui receber um título de Cidadão Honorário de Crateús, onde passei parte da minha infância, uma cidade já maior do que Ipueiras. E eu disse: “Bom, eu creio que todos nós aqui somos primos ”. E aí fez-se as chamadas dos Vereadores, começou pela Presidência: Mello Souza, Melo não sei de quê, Araújo, tudo parente. Então, éramos gente conceituada, mas pobres.

            A minha mãe era professora em Ipueiras e formou quase todo mundo que aprendeu a ler, a escrever e a contar ali. Depois, em Crateús, e foi também professora em Nova Russas. E quando não tinha mais o que me ensinar, chegou lá um sujeito que veio de Fortaleza, que era de Crateús também, mais bem formado do que a minha mãe, o Prof. Solón Farias, que abriu uma pequena escola lá. Eu fui aluno dele e, para mim, foi assim um deslumbramento. Foi a primeira impressão que eu tive de um homem inteligente, culto, aberto, mas professor primário, ainda no grau primário. Mas primário naquele tempo era uma coisa muito séria: estudava-se realmente. A minha mãe, professora, sabia muita coisa, era diferente.

            Chegou a época de querer formar o menino que levava… Não havia em todo o Ceará, nem em Sobral, que era a capital da região toda, não havia um colégio, um ginásio, o segundo grau. Em Sobral não havia ginásio. Havia um seminário menor, de Dom José Paz. Não havia um ginásio, só em Fortaleza. A minha mãe não tinha dinheiro para me colocar interno em Fortaleza. Eu tinha dois irmãos que moravam aqui no Rio. Então, fui morar com os irmãos e seguir os meus estudos.

            Os meus tios quiseram me matricular no Colégio Militar. Arranjaram até um expediente lá. Como eu sou sobrinho-bisneto do General Sampaio, arranjaram uma porção de vantagens lá para eu entrar no Colégio Militar, mas eu refuguei. Apareceu o Bispo da cidade de Valença, que era o Dom André Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti – todos nós tínhamos na conta de parente e, realmente, em toda parentela nordestina, somos todos Albuquerque e Cavalcanti – e quiseram me levar para o seminário dele de Valença. Mas chegou uma missão de padres redendoristas holandeses e eu me entusiasmei. Eu disse que queria ser desses padres e fui ser redendorista, e aí fiz o meu estudo de humanidades. Os primeiros estudos superiores foram com os seminários, dos holandeses.

            Quando eu aprendi humanidades… Hoje dificilmente você pode ter um centro de estudos tão sério. Passei quase 8 anos internos num mosteiro, não saía nem para as férias. Não era um seminário comum. Interno num mosteiro, tinha 5, 6 aulas por dia. Fiz 2 horas de latim durante 6 anos, 5 anos de grego, 4 anos de alemão. Enfim, estudando humanidades, como se estudava antigamente, quase como na Idade Média. Estudava o trilho e os quatrilhos. Aprendia-se de tudo, até música, o que não aprendi porque não tinha… Era uma… Aprendi aquelas coisas.

            A minha formação básica foi essa. Tudo o que eu sei devo à minha mãe, pobre professora primária no interior do Ceará, e aos monges redentoristas holandeses que me formaram. Depois, saí por conta própria e ganhei o mundo – ou perdi o mundo.

            A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) -   E o senhor chegou a presenciar a atividade dos cangaceiros? O senhor assistiu à Coluna Prestes?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - A minha terra era uma terra ainda muito marcada por essa vida primitiva do Nordeste, inclusive por grupos de cangaço. Eu meu lembro, eu tinha 7 anos de idade, estávamos já em Crateús, quando a Coluna Prestes entrou em Crateús comandada por João Alberto – na semana passada, inauguramos lá uma casa com memorial da Coluna Prestes. Então, soltaram todos os presos da cadeia de Crateús.

            A Coluna Prestes entrou tranqüilamente em todas aquelas cidades do interior sem resistência. Eu me lembro que estava em Ipueiras quando desembarcaram na estação da estrada de ferro os chamados “Os revoltosos”. Quando chegaram à estação, foi uma festa para os meninos, uma farra ver aqueles homens chegando comandados pelo João Alberto, com um chapéu de escoteiro grande na cabeça, um lenço vermelho, os oficiais todos com lenço vermelho, saltaram na estrada de ferro.

            Antigamente, na estrada de ferro tinha um telégrafo que funcionava em todo o interior do Brasil. Só havia o telégrafo na estrada de ferro, com aquelas pilhas primitivas feitas de garrafas cortadas com ácido dentro. O João Alberto entrou, todos nós atrás, os meninos, todos os soldados, e chamou um sargento. Havia um telegrafista que era zarolho que passava telegramas, vendia passagens e despachava bagagens. Então, o João Alberto chegou e disse para o sargento: “Pega esse telégrafo aí e quebra”. O sargento pegou os vidros de ácido do telégrafo de morse, jogou nos trilhos e quebrou. E você assistindo aquilo assim, bem bestificado. E o João Alberto disse – eu guardei essa frase até hoje; eu tinha 7 anos, isso foi em 1924, eu sou de 1917 – “Isso é mais perigoso do que 500 inimigos”. Eu passei a ter um respeito profundo pelo Seu Mileto, que manipulava um aparato mais perigoso do que 500 inimigos!

            João Alberto chegou e foi para a cidade. Hospedou-se com o estado maior na casa de meu avô, que era chefe político de Ipueiras; e a outra parte na casa do Major José Bento Fontenele, que era outro chefe político.

            Ele e o meu avô mandaram matar os novilhos, churrasqueou para a soldadesca, hospedou a oficialidade dentro de casa. E me lembro que João Alberto disse para meu avô – que se chamava Capitão José Ribeiro Mello, Capitão da Guarda Nacional: “ Quanto é que tem nos cofres da Prefeitura? ” O meu avô disse: “ Tem 400 mil réis ”. Ele também chamava o João Alberto de Capitão. E ele disse: “ Passe para cá ”. O João Alberto deu um recibo e levou os 400 mil réis que eram o tesouro municipal de Ipueiras.

            E por ali foram caindo aquelas cidades, até irem para Crateús, onde o Governo do Estado decidiu resistir. Juntou os destacamentos policiais de toda a região, todas as forças que pôde, armas, munições etc., e se concentrou em Crateús à espera do ataque dos revoltosos que iriam passar de Crateús para o Piauí. Soltaram, inclusive, todos os presos da cadeia para servirem de soldados.

            Havia um preso que foi cangaceiro do bando do Lampião, que se chamava Zé Mourão, por quem eu tinha um encanto, um fascínio. Ele era meu primo. O meu pai e a minha mãe ficavam indignados: “Esse cangaceiro não é parente da gente!”. Devia ser. Ele era um caboclo branco, bonito. Eu ficava com meus primos todo dia, pelo menos conversando com ele na grade da cadeia. Foi só virar o herói da revolução que contava umas façanhas que deviam ser lenda que o Zé Mourão saiu rolando pela praça dando tiro e não sei mais o quê.

            É certo que João Alberto atacou Crateús, um acontecimento histórico que se chamava o bombardeio de Crateús. Isso faz muito tempo.

            Passei agora lá na minha casa antiga. Ela está toda reformada. Hoje é uma casa bonita, não é a nossa pobre casa, mas está lá. Um dos nossos vizinhos era o nosso primo Raimundo Resende; o outro era o tio da mãe, chamava Tobias Soares, o homem mais mentiroso de Crateús, famoso pelas histórias que contava.

            Mas, enfim, a nossa casa era residência e escola. Havia uma sala grande que tinha um nível mais baixo do que a planta do resto da casa. Então, as vizinhas todas pediram para ir dormir lá para se defender de balas. Dormiu lá uma quantidade enorme de senhoras, umas 20 ou 30 senhoras. O único homem da casa era eu, que tinha 7 anos.

            Veio um primo nosso, afilhado de minha mãe, chamado Milton Benjamin. Acho que hoje ele está em Brasília. É um velho médico que deve estar com uns 80 anos. Ele foi Coronel da Força Pública de Pernambuco e é tio desses meninos do PT, do Cid Benjamin e do César Benjamin, são meus parentes. Esse menino tinha uns 16, 17 anos, era afilhado da minha mãe e dizia: “Madrinha, eu vou dormir aqui, porque precisa ter um homem em casa”.

            Eu sei que começou o bombardeio de Crateús. Estava tudo fechado e só ouvia aquele pá-pá-pá-pá, aquele tiroteio. E eu ouvia sempre um grito durante a noite, aquilo ficou no meu ouvido: “Poupa munição, cabra do Prestes! Poupa munição, cabra do Prestes!” Não sei o por quê. Eu sei que os revolucionários revoltosos, na calçada da nossa casa, foram repelidos, voltaram na noite seguinte. A Força Pública estava esperando, na noite seguinte voltaram e repetiu-se a mesma cena: tiroteio a noite inteira. E lá pelas tantas da madrugada cessou o tiroteio e bateram na nossa porta, bateram numa janela: “Abra!” Assombrado, Milton, disse: “Vamos abrir”. Abrindo a porta, eles pediram emprestadas 3 redes porque havia uns homens feridos na calçada. Então, abrimos, ajudamos lá, vimos aquela poça de sangue e tenho a impressão de ter ficado com a mão molhada de sangue. Não sei se foi impressão de infância. E o Milton, o meu primo e outros ajudantes levaram os 3 sujeitos feridos que foram enterrados na saída de Crateús. Então, o povo inventou que os homens tinham sido enterrados vivos, e eles viraram santos. Hoje as pessoas fazem promessas, levam flores, rezam, etc. Fui lá ver a sepultura deles.

            O Prefeito Nazareno Mello, meu primo, encomendou ao Oscar Niemeyer um memorial para registrar essa passagem da História do Brasil. A Coluna Prestes foi uma coisa importantíssima na História do Brasil. A Coluna, como se dizia à época,   foi como uma serpente percorrendo o território do País, dando uma consciência cívica ao povo. Aquela coisa do tenentismo era um pouco vago. Naquele tempo, não havia uma ideologia, não havia coisa alguma, justiça nem representação, mas um despertar da consciência nacional e um ato de heroísmo que ficou plantado na História.

            Então, a cidade de Crateús foi protagonista desse momento histórico e heróico da vida política brasileira, que contaminou grande parte do povo.

            Estive agora em Crateús e entrei no mercado. Visitei os lugares da minha infância. Um mercado velho que fica assim, uma lojinha de Norberto Ferreira. O Sr. Norberto era o padeiro de Crateús, o primeiro padeiro que vi. Em Ipueiras, não havia padaria. Quando fui para Crateús, eu conheci o pão; em Ipueiras, eu comia tapioca. Mas o pão do Sr. Norberto era delicioso. Nunca era suficiente o pão que eu comia de manhã. Achava pouco, queria mais e não tinha. Eu entrei no mercado e vi um velhinho trêmulo, com parkinson, evidente, e disse: “Aqui é do Sr. Norberto?” Ele disse: “Eu sou o filho dele.” “Você não é o filho da Éster?” “Sou.” Ah, era o Ferreirinha, filho do Sr. Norberto, meu companheiro de infância e o primeiro comunista de Crateús! Ficou satisfeitíssimo de termos ido lá homenagear a Coluna Prestes. Ferreirinha… O Sr. Ferreirinha disse: “Eu vou lhe mostrar aqui o primeiro arquivo de Crateús.” Tem um retrato da escola da minha mãe, os alunos todo ao redor. Tinha o meu avô, eu, menino desse tamanho, de cara redonda, o Expedito Machado, o Jânio Machado, com cara de caveirinha, colegas de escola mesmo.

            Então, foi um negócio assim de… eu fiquei muito feliz de ter voltado a Crateús, porque eu tenho a minha terra como o meu patrimônio único. A herança que eu tenho é o negócio do Ceará. O Ceará é negócio, a minha vida, a minha formação, o meu sentimento de País, o meu sentimento de Brasil. O resto é bobagem. O resto é… Toda minha obra literária se funda ali.

            Eu fiz outras coisas na vida, fiz política liberal, fiz política convencional no Brasil, fui Deputado, tudo isso. Eu ocupei muitas coisas. Mas tudo isso na minha vida foi adultério. O meu matrimônio é com a minha terra e com a minha poesia, que é fundada ali, começou ali. Então, é a minha vida, é a minha poesia, o resto é besteira. Tudo é adultério, o matrimônio foi aquele ali.

            Eu me comovi de receber um título de Cidadão Honorário de Crateús. Eu devo dizer aqui – não é para esnobar não – que recebi um título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, cidadão carioca. Um Vereador me deu esse título, foi votado na Câmara, marcaram a solenidade e eu não fui receber. Não me ocorreu, no dia eu não pude, marcaram outra solenidade, também não fui não sei por quê. Acho que estava no hospital e não fui. Recebi um título de Cidadão Fluminense, dado pelo Chuay, grande companheiro de cadeia, que fez questão disso. Mas, o de Crateús, nem que eu tivesse que atravessar o oceano para receber esse título eu quereria, porque lá é minha terra, minha raiz, minha origem.

            Eu me julgo um homem original no meio da cultura brasileira – original naquele sentido goetheano. Goethe disse que original é tudo que está plantado na origem. Só se é original   quando se está plantado na origem. Tentei fazer uma obra original da literatura brasileira e na minha vida. Fiz muitas besteiras na vida, adultérios de todo o jeito, mas minha fidelidade à origem é grande.

Eu falo sempre com muita emoção de Ipueiras e Crateús.

            A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) -   O senhor saiu de Ipueiras…

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Nós ocupamos o litoral do Brasil. No princípio, como se dizia, o Brasil era Pernambuco; Pernambuco era o açúcar, e o açúcar era o ( ininteligível. ). Então, nós nos ocupamos com o litoral e não havia gente. Nem de português, nem o povoador tinha gente para navegar o sertão imenso. Estava ocupado em defender o litoral contra as invasões de piratas ingleses, franceses e mais tarde os holandeses, que depois vieram de maneira maciça, e assim por diante.

Só fizemos a navegação interior do País quando nós, na guerra holandesa, capítulo que fundou o Brasil, expulsamos os invasores. Esse foi um gesto brasileiro, e não do colonizador português. Portugal e Espanha entraram em negociação com a Holanda para entregar a parte já ocupada por eles.

O Padre Antônio Vieira acumpliciou-se com isso; o Embaixador Souza Andrade, de Portugal, acumpliciou-se com isso. Estava tudo pronto. Quando receberam a ordem aqui para entregar, um caboclo português, com alguns índios e negros, também disseram que não entregavam. E João Fernandes Vieira escreveu a famosa carta ao Rei de Portugal, dizendo: “ Vou desobedecer Vossa Majestade pela primeira vez. Vou primeiro expulsar os invasores de nossas terras. Depois irei a Portugal receber o castigo da minha desobediência, mas eu não cumpro a ordem.”

Resistiram às ordens do rei e expulsaram com a primeira guerrilha gloriosa que se travou no mundo. Hoje os oficiais tratam da guerrilha holandesa como um capítulo especial da estratégia e das táticas de guerra moderna, como uma coisa que precedeu o Vietnã. Nas guerrilhas, venceu o exército holandês, que era o mais poderoso do seu tempo.

Pelos estudos de hoje, sabe-se que a etapa do soldado holandês – etapa é aquilo que um soldado recebe, como roupa, comida, etc. -, em Pernambuco, na Bahia, no Nordeste, digamos, era superior à etapa de um soldado americano hoje em vitaminas e proteínas e roupas. E esses caboclos eram leigos.

Então, fundou-se o Brasil ali. Pela primeira vez na História do Brasil aparece a palavra “pátria” num documento da guerra holandesa, escrito pelo negro Henrique Dias. O holandês mandava sempre (i ninteligível. ) cartas para o Henrique Dias e Camarão tentando comprar coisas, e ele não respondia. Dali a uns dias, perguntou por que não respondia às cartas. Ele disse: “ Eu respondo como tenho respondido sempre no cano das bombardas. Sou homem de poucas letras e muita espada e não descansarei enquanto não expulsar o invasor da minha pátria. E respondo pelo Camarão, porque essa também é a pátria dele .”

É o primeiro documento da História do Brasil em que figura a palavra “pátria” feita pelo negro Henrique Dias, em nome dele e do Camarão. Então, ali se fundou realmente a pátria brasileira, expulsando os holandeses.

Os homens que guardavam as costas do Brasil tiveram tempo de começar a navegar as terras dos sertões. Aí surgiram as bandeiras.

Falamos muito nas bandeiras paulistas, que realmente foram as mais frondosas, de maior êxito e admiráveis, com heróis como o Raposo Tavares e Borba Gato. É uma coisa fabulosa. Mas é preciso ver que houve grandes bandeiras também, como as bandeiras baianas, da Casa da Torre, que percorreram distâncias imensas. Houve também as bandeiras pernambucanas, juntando todo o Nordeste, quando um sujeito do Ceará inventou a paçoca e ensinou aos bandeirantes do rio São Francisco que poderiam levar aquilo como comida.

Eu tenho uma grande admiração pelos filmes de faroeste americano. Vê-se aqueles homens admiráveis naqueles cavalos bonitos, mulheres bem vestidas naquelas diligências fabulosas, e fico um pouco humilhado porque eles viveram no século XVIII até XIX. O nosso foi no século XVII e XVIII.

Os bandeirantes brasileiros percorreram este País à pé, com os pés sangrando, inchados, lutando contra os índios, a onça, o bicho do mato, a fome, comendo raízes e tudo. Foi uma epopéia.

Então, eles marcaram um encontro nas margens do São Francisco, nas bandeiras paraenses de Pedro Teixeira, e foram. Pedro Teixeira saiu de Belém do Pará, passou pelo Equador, pela Colômbia, invadiu tudo, tomou posse até o Oceano Pacífico, em nome do rei de Portugal, andando à pé e de canoa.

Os bandeirantes da Casa da Torre, da Bahia, e os bandeirantes pernambucanos marcaram um encontro e fizeram a estratégia do avanço das bandeiras. As bandeiras paulistas foram as mais frondosas e poderosas e fundaram este País. Então, chegaram às Minas Gerais, mas depois que nós construímos a segurança do país, que fizemos um país defendido contra as invasões estrangeiras. É esse, então, o papel que o Nordeste cumpriu neste país.

Os mineiros são muito novos. Eu me lembro um amigo nosso, numa ocasião, fazendo um programa de televisão com João Cabral. Muito deslumbrado com ele, disse: “ João, imagine se você tivesse nascido em Minas! “ Ele respondeu: “ Espera aí, moço! Vocês são do século XVIII e XIX. Eu estou aqui desde o século XVII. Quem fundou a Vila Rica do Pilar do Albuquerque foi um parente nosso – meu, do Tarcísio, do Albuquerque, sobrinho da dona Brites, a Velha.”

O Capitão Antônio de Albuquerque, pernambucano, fundou a cidade de Ouro Preto. Nós fizemos o país. É claro que a contribuição deles também é enorme, grandiosa, e deram ouro, a nós não tocou o ouro. Nos tocou foi o açúcar, que era um ouro duro de roer.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) -   Era o ouro daquele tempo.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O açúcar foi, no século, o maior negócio da história do mundo, porque não havia açúcar no mundo. Nas cortes européias, as condessas, as princesas, a classe alta faziam seus docinhos caseiros, em doses homeopáticas, com mel de abelha. De repente, o mundo é inundado pelo açúcar.

A cana-de-açúcar é uma coisa prodigiosa, um cano com água de açúcar já dentro e pronto. É só moer. Isso foi o maior negócio do mundo na época. Tão grande que despertou a cobiça internacional.

Aí veio a guerra de Holanda, que foi uma coisa muito séria. Não foi uma simples invasão de piratas. A Holanda era o país mais rico do planeta, naquela época, e foi sempre um país muito liberal. Foi o único país da Europa onde os judeus não foram perseguidos. Os judeus se refugiaram na Holanda.

Os judeus são um povo poderosamente inteligente, com seus físicos, seus médicos, seus banqueiros. Então, eles se concentraram na Holanda e foram gratos a ela. Armaram a Holanda para a conquista.

Veio um príncipe alemão, Maurício de Nassau, contratado pela Companhia das Índias, empresa da Holanda, que planejou fazer um império atlântico, dominando toda a ribeira do Atlântico Sul, no lado da América, e a ribeira do Atlântico no lado da África. Nassau mandou, de Pernambuco, ocupar Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau. Mandou as tropas descerem até a Patagônia planejando um império a ser construído. Mas os guerrilheiros de João Fernandes Vieira acabaram com a brincadeira deles.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) -   Dr. Mourão, voltando um pouco à sua vida, já que o senhor foi para o seminário, por que não se tornou um padre?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu também me pergunto muitas vezes por que não fui padre. De certo modo, acho que me faltou heroísmo.

Um dos escritores que eu mais respeito, Léon Bloy, disse que a única tristeza que o homem tem no fundo da alma é não ser santo. O santo é aquele que participa da divindade. E a vocação para o sacerdócio e a vida monástica, que é a que escolhi, é o caminho da santidade. Chamava-se antigamente de a escada do paraíso, desde os primeiros mosteiros do Oriente.

Gaza, que é o lugar onde se matam os judeus e árabes, foi uma cidade por excelência das letras, das artes e do espírito, no seu tempo, com um maior número de doutores. Dali saíram os grandes primeiros monges, que chamavam os mosteiros da escada do paraíso ou a porta do paraíso.

Mas essa escada requer muito heroísmo, uma renúncia a todos os prazeres do mundo. E eu devo lhe dizer que sou um sujeito que não tive vocação para o heroísmo, mas também não sou um canalha. Levei 7 meses na maior angústia: saio ou não do mosteiro? A vida no mosteiro é muito boa. Tem-se diariamente uma hora de conversa com o padre mestre dos clérigos.

Uma vez, disse: “ Padre, eu não tenho condições. Estou tentado, quero sair, vou para o mundo. Não vou ser padre .” Ele respondeu: “ Está bem. Peça a Deus que o ilumine, reze, pense um pouco por 2 ou 3 dias. “ No dia seguinte, eu voltava: “ Padre, pelo amor de Deus, não quero sair, quero ficar .”

Fiquei nessa angústia existencial terrível quase antológica de saio ou não saio até que, depois de 7 meses de angústia, resolvi sair. E nessa hora, quando tirei o meu hábito, depositei-o sobre a cama juntamente com todos os meus vestes eclesiásticos, o meu solidéu, comecei a chorar e não saí. Fiquei numa situação muito delicada e disse que não queria mais sair. O padre disse “ Pode sair tranqüilo. Você já foi suficientemente provado. Isso é uma provação que Deus lhe deu durante 7 meses. Não fique se torturando, pode ir tranqüilo que você se salvará .“

A minha saída foi uma coisa tão terrível que eu saí do mosteiro num sábado de carnaval. Você não pode imaginar o que era o carnaval no Rio de Janeiro naquele tempo. Cantava-se pelas ruas: “ Eva querida, quero ser o seu Adão .” E aquela coisa fabulosa! (risos. ) Eu dizia: “ Está tudo perdido, está tudo louco, vai tudo para o inferno!”. Fui à missa no domingo de manhã e procurei o padre: “ Estou saindo do mosteiro, quero voltar. ” O padre pediu-me que tivesse calma. E eu não voltei.

A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - E aí o senhor descobriu a poesia?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu saí faltando poucos dias para pronunciar os primeiros votos na vida monástica. Não são os chamados padres diocesanos, de paróquia. Os padres de ordens monásticas pronunciam votos de pobreza, castidade e obediência.

Eu perdi a castidade, a obediência e conservei o luxo da pobreza para o resto da vida. Mas, evidentemente, nunca deixei de ser cristão. Passei muito tempo afastado das práticas religiosas, mas sempre com a presença de Deus.

Lembro-me que, quando cheguei aqui, fui procurado por Tristão de Athayde, Alceu Amoroso Lima, que era o que naquela época se chamava de chefe do laicato católico, escritor. Fui com um amigo meu chamado Orlando Carneiro, que foi o primeiro sujeito que conheci no Rio. Chamava-se Orlando Carneiro, pai de Luiz Orlando.

Fui à missa em um domingo de carnaval e tinha um sujeito do meu lado que começou a me cutucar e a falar comigo. Tinha uma voz rouca e falava alto. Eu, um sujeito acostumado com aquela postura monástica dentro da missa, disse: “ Amigo, por favor, quando terminar a missa nós conversamos .“ “ Não me importa, eu sou amigo íntimo de Jesus Cristo ”. Era o Orlando Carneiro, pai do Luiz Orlando. Foi meu grande amigo. E levou-me ao Tristão de Athayde, ao Alceu Amoroso Lima, no dia seguinte.

O Alceu me disse: “ Meu filho, não estou aqui para dar conselho, é só uma advertência. Você esteja sempre com Deus. Estando com Deus, está bem. Esteja de bem com Deus; ou de mal com Deus. Mas esteja com Deus, com a presença dele. Mesmo estando de mal com Ele, mas esteja com Deus ”. Foi o primeiro passo que dei. Ele me meteu no Integralismo. “ O que você vai fazer? Não importa ser monge ou padre. Tenha uma vocação salvacionista. No fim, você deseja salvar as almas.” “Eu desejo fazer alguma coisa na ordem da política.” “Então você vai ali na Travessa do Ouvidor, 32. Tem um movimento político novo. É um movimento cristão católico integralista. Você se inscreve lá e vai ser integralista cristão. salvacionista ”.

No fundo, os políticos canalhas, mesmo os políticos que ignoram tudo, têm uma espécie de vocação para o charlatanismo e para o salvacionismo. Algumas legítimas e outras puramente charlatanescas. O Brizola, antes de ser político, era pregador. Pregava o Evangelho dentro das cadeias para salvar. Então, o salvacionismo leva muito à política também. Não todos. Então, daí foram os meus primeiros passos.

Hoje sou um homem muito mais amadurecido na minha fé. Vivo presente ainda a palavra do Alceu: O senhor está com Deus. De mal com Ele; de bem com Ele . Quer dizer, se eu fiz um negócio que estou sabendo que é mau é porque não está de acordo com as minhas relações com Deus. Porque Deus, como dizia o meu mestre Unamuno: “ O que é o problema religioso do homem? O homem está ligado a Deus porque Deus é mais eu do que eu mesmo ”. Ele é o Criador e nós somos jogados no mundo como pedaços da galáxia primitiva que Ele criou. Ele é mais eu do que eu mesmo.

Ter consciência moral e espiritual é muito importante. Isso não quer dizer que eu esteja sempre andando direitinho, não. Mesmo completamente destrambelhado, mas sempre tenho consciência daquilo que está certo e daquilo que está errado e me esforço para acertar.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Gostaria que o senhor nos falasse também como é que foi esse seu contato com a política. De que forma o senhor aderiu a esse movimento; que impressão isso lhe causou e a conseqüência disso.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu fui lá e o Tristão me disse: “ Vá lá na Travessa do Ouvidor nº 32 – lembro-me até hoje – em frente à Livraria Schmidt” . O Augusto Schmidt tinha uma livraria pequena bem em frente à sede do Integralismo. Aliás, o Plínio fundou o Integralismo no Rio na Livraria do Schmidt.

É uma história muito curiosa de ser contada ainda. O Plínio Salgado fundou, em São Paulo, a Sociedade de Estudos Políticos e a Ação Integralista Brasileira para fazer um aparelho político para a Sociedade de Estudos Políticos. O aparelho se chamava Ação Integralista Brasileira. Plínio, foi o fundador; Iaci Gayara, o Alfredo Silva Teles, o Roberto Simonsen, o velho – não o Ministro Simonsen; o Gustavo Barroso. Estava aqui no Rio. E o Plínio fez 14 viagens ao Rio de Janeiro. O Plínio então um dia fundou em São Paulo.

Depois de fundado o negócio, ele olhou e falou: “ Vou fazer um desfile na Avenida Paulista ”. O Menotti del Picchia, o Cassiano Ricardo, amigos dele, disseram: “ Não faça isso. Vai ser ridículo fazer um desfile com 40 sujeitos. Vai ser vaiado !”. “ Não me importo com vaia. ” “Amanhã, quando você for ao Automóvel Club, vão fazer uma gozação! ” “ Um dia eu fecharei o Automóvel Club ”. “ E no Jockey Club.. .” “ Um dia eu fecharei o Jockey Club .” E fez a marcha dele.

            Veio 14 vezes ao Rio de Janeiro – ele contava isso – de trem de segunda classe, às vezes com a calça remendada nos fundilhos, o que era muito comum naquele tempo, para arranjar aqui. Mas ninguém estava com ele. Reuniam-se na livraria do Schmidt. Quando chegavam as 6 horas, o Schmidt baixava aquela porta de aço e o Plínio vendia o peixe dele. Era um homem muito fascinante no falar.

            Freqüentavam ali Gustavo Barroso, Everaldo Leite, que era um engenheiro da Light; Antônio Galotti, San Tiago Dantas, Thiers Martins Moreira e alguns outros, Jaime da Silva Teles daqui do Rio de Janeiro. Até que um dia resolveram: vamos fundar. O Schmidt, entusiasmadíssimo, queria que ele fundasse um movimento católico, como a Action Française. Com as condições do Schmidt cumpridas, fecharam o católico também. Então o Schmidt disse: “ Agora vamos levar para fora do Rio de Janeiro ”.

            Foi fundado o núcleo aqui com 10 ou 12 sujeitos. E os recursos para viajar? Vamos viajar como? O Schmidt falou: “ Faz um livro ”.

            O Plínio foi o mais prodigioso datilógrafo que já vi na minha vida. Era um monstro. Escreveu esse livro. Ficou trancado na livraria à noite inteira. De manhã cedo, entregou o livro pronto. “ Está aqui. Vamos editar”. “Como é o nome do livro?”  O Que é o Integralismo” .

            O Schmidt era um editor que não tinha um tostão. Pulava de galho em galho como alguns editores que conhecemos. Foi ao conselheiro Mayrink Veiga, velho Mayrink Veiga, pai do Antenor. “ Conselheiro, isso aqui é um livro importante contra o comunismo e tal. Preciso só de 5 contos para editar esse livro ”. O Mayrink Veiga deu 5 contos. O Schmidt imprimiu o livro fiado e deu 5 contos ao Plínio para viajar.

            O Plínio pegou um navio da Lloyd. Tinha que ir alguém junto com ele. Então o Thiers Martins Moreira, muito jovem, tinha acabado de se casar inclusive com uma mulher encantadora, a Rosita, muito bonita, disse: “Vou junto.” “E a Rosita?” O Thiers tinha um emprego de 400 mil réis por mês. Então, o Galotti, o San Tiago, o Lacombe, o Gustavo disseram: “ Vamos fazer uma vaquinha e damos uma mesada para a Rosita. Pode largar o emprego ”. A Rosita ficou morando numa pensão e o Thiers seguiu com o Plínio.

            Primeiro, o navio parou em Vitória. Lá, fundaram o Movimento Integralista com um sujeito que tinha uma rede de farmácias chamado Roubach. O filho do Roubach posteriormente foi um dos donos do Pró-Cardíaco, Robson Roubach, estudante que conheci. Fundaram em Vitória. E um engenheiro da estrada de ferro, Edson Vieira, parece-me.

            Depois foram para a Bahia. Lá o Plínio fez uma conferência nas faculdades de Medicina e aí ingressou um número grande de sujeitos. Os primeiros a entrar foram o Balbino, professores, estudantes. Alguns deles estão vivos ainda.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Esse grupo tinha alguma coisa a ver com a Câmara dos Quarenta?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não. A Câmara dos Quarenta foi uma organização criada muito mais tarde, quando o Integralismo já estava forte para instrumentar melhor a administração do partido. A Câmara dos Quarenta era um negócio mais decorativo. O Plínio reuniu a Câmara dos Quarenta para colocar sujeitos que podiam prestar serviços ao partido, especialmente financiadores. Eram Raul Leite, alguns industriais, enfim. Tinha certa importância, mas não era um organismo que comandava o partido. Quem comandava o partido era o secretariado nacional. Era o Integralismo organizado.

            Quem fez toda a estrutura do integralismo, da organização política do Integralismo, foi o Secretário de Organização Pública. Era o Everaldo Leite, engenheiro da Light. Acho que morreu. O Everaldo foi quem estruturou, fez as secretarias. O Integralismo tinha um ministério. Tinha um ministro, secretário nacional, correspondente a cada ministério.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Sr. Mourão, me diga uma coisa. Está muito boa a sua exposição. O senhor deixou de falar o seguinte: como o senhor vivia e sobrevivia profissionalmente?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Comecei a trabalhar como professor. Era professor de latim e de francês em vários colégios aqui, inclusive no Ginásio de São Bento. Foi o meu primeiro emprego como professor. Depois, fui jornalista no jornal integralista Ofensiva , aquele jornal diário e em outro jornal diário integralista, O Povo, do qual fui diretor com 20 e poucos anos. Era eu e o Juca Loureiro, genro do Plínio. Como professor tirava o meu sustento, pois tive algumas pequenas heranças. Minha mãe era pobre, mas tínhamos sempre algumas pequenas heranças e tinha uma vida razoavelmente suportável. Minha vida se tornou muito difícil depois, quando tirei 6 anos de cadeia, já casado com a minha primeira mulher, porque fiquei viúvo. É difícil sobreviver.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O que houve para o senhor tirar esses 6 anos de cadeia? O que aconteceu?

              O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Vou chegar lá.

            Fui preso 18 vezes. Tinha uma atuação muito jovem, porém muito presente. Quando se fechou o Integralismo começou-se a conspirar. Portanto, 18 vezes.

            Eu tinha no partido uma posição de diretor do jornal diário – diretor nominal, evidentemente. O Plínio me fez diretor. Aparecia o meu nome diariamente em artigos violentos etc. Quando começou a conspiração para o Estado Novo, nós fomos contra. Depois, fui preso durante a guerra, já acusado de relações com a Alemanha nazista etc. Nunca tive relação com a Alemanha nazista. Nunca houve uma lei brasileira que me condenasse. Fui condenado a 30 anos de prisão. Não fui condenado à morte até porque não havia pena de morte. Não havia pena alguma.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Qual foi a instituição que o condenou?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Tribunal de Segurança Nacional. Fomos presos primeiro na Conferência Pan-americana, que se realizou no Hotel Glória. Havia um capitão, Túlio Regis Nascimento.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Famoso.

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Esse capitão tinha sido da Aliança Nacional Libertadora. Depois tornou-se um homem de direita. Primo legítimo do Alexandre Konder, do Valério Konder, dessa gente.

            Tínhamos um grupo e começamos a fazer uma anarquia no Hotel Glória. Fizemos o diabo. Jogamos panfletos etc. Veio a polícia. O Túlio era capitão. Deu uma chave de galão e fomos presos na hora. Depois nos soltaram, nos tornaram a prender. Até que prenderam e foi quando houve o rompimento de relações do Brasil com os países do eixo – Alemanha, Itália, Japão. Fui preso e saí daqui tranqüilamente. O Túlio ficou recolhido ao Forte de Copacabana e agrediu um coronel do Forte, o Coronel Sadock. Pegou o coronel, através da grade, e quase o matou. A sua situação ficou grave. Daí veio o Konder e vários outros. Aí fiquei tranqüilo lá na cadeia. Não tinha crime nenhum para me condenar quando o Getúlio publica um decreto – o Decreto nº 4.766, de 29 de outubro de 1942 – definindo crimes contra a segurança nacional, cujo art. 21 dizia: “promover e manter no território nacional, ação em favor do inimigo. Pena mínima: 20 anos até máxima.” A máxima seria a morte. Daí então vinha o art. 69 lei. O art. 68 dizia: esta lei retroagirá até a data de 28 de janeiro de 1942 . Será a primeira vez na história do Direito Penal, desde a codificação do direito romano, que uma lei penal retroagirá. O primeiro artigo de todos os códigos penais do mundo diz que não haverá crime sem prévia cominação legal. Ninguém pode ser processado ou condenado se não em virtude e na forma de lei anterior. Isto é ditadura! Estado Novo, não é?

            O art. 69 diz que, no caso de aplicação retroativa desse decreto, não haverá pena de morte, transformando-se a pena máxima em 30 anos. Por isso, escapei da retroativa.

Estávamos presos. Havia até uns advogados presos lá, partidários do eixo. Eram contra a entrada do Brasil na guerra, contra os Estados Unidos. Não há tribunal que aplique essa regra. Havia um advogado, o Dr. Camilo Pimentel, famoso, que dizia que o Tribunal de Segurança aplicava qualquer coisa e o Tribunal de Segurança aplicou a lei.

            Nunca comparecemos diante de um juiz. Nunca houve autos nesse processo. Foi apenas a folha policial mandada pela Delegacia de Ordem Política e Social e, na base daquilo, fomos julgados e condenados.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Essa decisão foi tomada em que data?

              O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Hein?

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – qual foi a data da decisão do Tribunal?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Já estávamos presos há quase 2 anos. A data da decisão, exatamente, não sei. Eu estava preso desde janeiro, e a lei foi promulgada em 29 de outubro de 1942.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - E retroagiu para que dia?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO –   Retroagiu para 28 de janeiro.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Para atingi-los?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Para nos atingir. Fomos, então, condenados. Pensei que quando acabasse a guerra, iriam nos soltar. Realmente, quando acabou a guerra, caiu a ditadura do Estado Novo, e o primeiro ato do Governo José Linhares foi extinguir o Tribunal de Segurança Nacional. Houve o famoso discurso do Brigadeiro Eduardo Gomes, no Teatro Municipal, discurso este que parece ter sido redigido pelo próprio Keller, em que o Brigadeiro pedia justiça para as vítimas desse tribunal infame que se ergue no País como um coro de tragédia grega .

            Então, o primeiro ato do Governo José Linhares foi extinguir o Tribunal de Segurança Nacional, e todos os processos foram encaminhados à apreciação da Justiça Militar. Então, entramos com um habeas-corpus no Supremo, no qual foi Relator o Ministro Ribeiro da Costa, e revisor o ministro Nelson Hungria, que tem uma frase lapidar que diz que a condenação do Mello Mourão é uma monstruosidade que precisa ser revogada para salvaguardar a dignidade da própria Justiça.

            O habeas-corpus foi concedido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, que determinou a anulação do processo por não haver nenhum crime nas leis brasileiras que possam ser atribuídas a esses cidadãos. E não havia autos no processo. Nunca comparecemos a um juiz. Isso se desenrolou e eu paguei pelo fato o resto da vida. Era chamado de peão nazista, condenado à morte, não sei o quê. Nas memórias do Barros, ele conta uma história nossa. Houve um repórter que fez uma matéria tremenda contra nós, eu, Túlio, Konder na revista O Cruzeiro . Eu era mais notório porque escrevia em jornal todos os dias. Era uma coisa tremenda.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Quem foi esse repórter?

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Quem? Quem foi esse repórter?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO –   Esse repórter, você logo adivinhará.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Davi Nasser? Era o Davi Nasser?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO –   O Túlio disse: vamos matar esse sujeito! Matar não, disse o Konder. Vamos fazer ele comer um prato de merda! Nós o cercamos por 3 ou 4 dias e, por fim, pegamos o sujeito na zona norte, para os lados de Andaraí, Vila Isabel. Nós pegamos o sujeito e o colocamos no carro e o levamos para o botequim do Português, em São Cristóvão, onde estava tudo preparado. O Português já tinha preparado o prato. Baixamos as portas e todos nós dissemos: Come ou morre! Konder era um sujeito incisivo:Come ou morre agora! Ele disse: Eu como . Tem um guardanapo? Não , eu disse. É sem guardanapo! Comeu um prato inteiro. Quando acabou de comer, o Túlio disse: Agora vai morrer. Ele disse : Mas Já comi! Vai morrer, porque quem come merda morre! Não pode viver! Por fim, soltamos o sujeito. E o Túlio disse: Olhe, da próxima vez, morre! comendo ou não comendo. Pode ir embora!

            Mas isso me diverte, às vezes, um pouco. O sujeito foi condenado à morte. Eu fui condenado à morte. Fomos os 2 únicos sujeitos condenados à morte na história da República, que eu conheça. Quem tirou da cadeia fui eu. Quer dizer, eu tirei, não. Eu fiz o pedido de indulto ao Presidente. Os meus companheiros de prisão eram dois pracinhas. Mas era um negócio interessante. Os jornais da época fizeram reportagens grandes sobre esses 2 rapazes. Eram 2 pracinhas do Rio Grande, que estavam na Itália. Um deles era um rapaz loirinho, muito bonito, chamado Luiz, e o Adão era um sujeito gaúchão, amulatado. Eles, me parece, que estavam embriagados, entraram na casa de um pobre camponês italiano e abusaram das meninas da casa, e, depois de estuprá-las, mataram-nas e também o velho camponês italiano. Foram condenados à morte. O grande General do Rio Grande do Sul, Cordeiro de Farias, condenou-os à morte pelo Conselho de Guerra. A Lei de Guerra tinha que moralizar o Exército. Parece que o próprio Mascarenhas recomendou ao General Dutra que comutasse a pena de morte em 30 anos de prisão, porque a pena de morte traumatizaria os soldados da FEB se matassem os dois rapazes. E a pena foi comutada a 30 anos. Tiraram o preso da penitenciária. E eu fiz o pedido de indulto deles ao General Dutra. Redigi o pedido e o enviamos. Os dois tinham a pena de morte. Luís e Adão. Não me lembro do sobrenome deles, mas, na República do Peru, há uma moça, que mora aqui, e que era assistente social da Marinha e prestava muitos serviços à instituição. É minha prima, até — Iradi Gadelha. Ela que me pediu para fazer o indulto. Eu o fiz, ela o encaminhou e os sujeitos foram indultados. Voltaram ao Rio Grande. Foi a única pena de morte. Os únicos condenados à morte. Quem me dera abolir essa pena.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Qual foi a sua experiência política, depois da cadeia?

            A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) – Eu li em algum lugar que o senhor recebeu a visita do Camus na prisão.

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO –   Eu recebi. Creio que o Camus esteve comigo em 3 ocasiões, para me visitar.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Albert Camus.

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Albert Camus. O Camus veio aqui e eu havia traduzido para o Teatro Experimental do Negro — era do amigo Abdias Nascimento, fiz na cadeia — uma peça do Camus chamada Calígula. Modéstia à parte, fiz uma tradução perfeita, uma beleza de tradução do Calígula, do Camus. E o Abdias ficou andando com o Camus pelo Teatro Experimental do Negro. O Camus era uma figura fisicamente impressionante. Só faltava chorar, olhando para mim. Fiquei comovido e ele, comovidíssimo, disse que não. Poeta. Conversei com ele; voltou. Na terceira vez, ele me disse: Não se meta em política. Somos artistas! Não temos que fazer a história. Nosso papel é sofrer a história! Uma frase que é uma beleza. Nosso papel é sofrer a história e não fazer a história. Deixa esses sujeitos fazerem a história. Não se meta em política!

            E eu reincidi. Andei fazendo política de novo em 1964, 1967, mas foi adultério. ( Risos .) Mas tive muitos amigos. O Tristão me visitou várias vezes na cadeia.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Como você despertou para a poesia? Você escreveu um livro, um romance, que ficou conhecido como o romance precursor em matéria de realismo mágico, fantástico, que foi o Ás de Espadas . Depois, você…

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É o Valete de Espadas .

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Valete de Espadas !

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Valete de Espadas foi um livro que teve fortuna. Não tem nada com realismo mágico. O Valete de Espadas foi um romance do existencialismo cristão. Um romance que teve fortuna. O Valete de Espadas está traduzido em 12 línguas.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Mas muitos acham que foi o romance precursor.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Sim, mas antes disso eu escrevia poesia. Eu faço parte de um grupo que se chama Santa Hermandad de la Orquídea. Somos 6. Há um retrato muito bonito nosso por aqui. Somos 6 rapazes, que nos reunimos pela primeira vez em Buenos Aires, em 1939. Godofredo Siommi, maior poeta da língua espanhola; Efraim Thomas Bó, figura endemoniada, morreu aqui. Napoleão Lopes Filho; eu; Raul Young, que está vivo em uma pequena cidade balneária da Argentina –– eu tenho que ir lá ainda antes de morrer –– e o negro Abdias Nascimento.

Então, escrevíamos poesias. Estávamos envolvidos com política. Eu era um homem de direita, com integralismo, etc. O Godo era Presidente da FUBA, Federação Universitária de Buenos Aires, de esquerda, filho de um dos mais famosos anarquistas argentinos, o velho Nikolai Siommi, que tinha um recorde de 32 travessias de Buenos Aires para Montevidéu, para fugir da polícia. O pai era anarquista. O Godo era de esquerda. O Efraim era do Partido Comunista, candidato a Deputado por Entre Rios, partido comunista. Raul Young era colega da faculdade –– eu, o Abdias e o Napoleão.

Trabalhávamos a poesia com muita seriedade. É uma história longa. Até que um dia chegamos e decidimos a abandonar tudo! não ter mais nada com coisa alguma. O nosso único compromisso era com a obra poética. Iríamos fazer uma obra poética. O que havíamos feito até aquele momento não valia nada! Queimamos tudo, quilos de caderno de poesia ruim, como costumam fazer os adolescentes, na frente de um bar em Buenos Aires, chamado Victória. Por isso, chamou-se El Pacto de Victória. Queimamos tudo e daquele momento em diante escrevemos a consigna, o inventor da ordem Ou Dante ou Nada! uma consigna juvenil. Mantivemos uma fidelidade a isso. Queimamos toda a obra e começamos com a Santa Hermandad de la Orquídea.

Fizemos um pacto, então, de percorrer uma navegação do interior. Andamos no Brasil todo, América Latina e por aí afora. O Godo morreu este ano. Fui à Viña del Mar, onde ele vivia. Era diretor de uma escola de arquitetura fundada pelos poetas, a maior escola de arquitetura do mundo! Antes de morrer, escreveu uma carta:Se tivesse de aprender arquitetura, iria para uma pequena escola no penhasco . Foi uma escola em que fui professor 2 anos e meio. Nessa escola, ensina-se no primeiro ano de Arquitetura os 4 aristotélicos, os 5 diálogos de Platão, e assim por diante. Faz-se 1 mês de extrapauta, aulas de tailleur , fora as aulas curriculares, que são na própria oficina de Arquitetura.

Todo ano, um grupo da escola do último ano, com 80 a 100 alunos, faz o programa chamado Travessia. Este ano foram ao Cabo de Santo Agostinho, ponto extremo do oriente brasileiro. Sempre que vêm aqui, dou-lhes uma aula de 2 horas na praia. Fui aos funerais do Godo, numa cerimônia com 2 mil e tantos estudantes. Fundamos uma cidade em Viña del Mar, la ciudad abierta , onde qualquer artista pode morar. Eu posso ir para lá agora com toda a minha família e ficar morando lá de graça, temos casas, moram vários lá. O funeral foi muito comovente. Construímos um cemitério dentro da cidade e uma ágora grega na cidade, quando eu estava lá.

Conseguimos esse terreno com o Governo do Frei, que nos deu uma praia imensa ao lado de Viña del Mar. Foi uma luta, porque diziam que éramos comunistas, sujeitos esquisitos e estranhos. Depois veio o governo do Allende, que dizia que éramos facistas, etc. O Godo nunca fez outra coisa na vida a não ser poesia. Também se recusou a publicar. Há uns 40 livros, todos edições de 40 ou 50 exemplares tirados na Universidade e distribuídos. Assim também fazia o Kadaf, maior figura da poesia grega moderna. Kadaf nunca editou um livro. Fazia um poema com 50 exemplares, 40 exemplares e mandava para 40, 50 pessoas. Foi o mais importante da literatura grega moderna.

Godo era contra eu editar, mas passei a fazê-lo. O negro Abdias se dedicou exclusivamente ao problema da raça negra, da redenção dos negros brasileiros, dizia que era a missão dele e era realmente uma coisa tão importante. Se os negros do Brasil tivessem consciência da importância desse fato, teriam um retrato do negro Abdias em casa. Lembro-me dos nossos primeiros encontros com o Abdias, que era integralista também. Era do gabiente do Plínio. Ele ia conosco, todos os estudantes integralistas, importantes na época. Ele dizia: Ser negro neste País é duro . Eu dizia: O que é isso, Abdias? Quem está ligando para isso? Ele dizia: Onde você corta o cabelo? Eu dizia: No salão Belas Artes. Era um salão que ficava na Avenida Rio Branco, em frente ao Jóquei Clube. Ele dizia: Eu não corto o cabelo lá . Falei: Então, vamos embora . Fomos lá e o meu barbeiro era um italiano chamado Luigi. Sentei e o Abdias também sentou, esperando vaga. Vagou uma cadeira, chamaram um, chamaram outro. Eu disse: Luigi, este senhor aqui está esperando; ele estava antes deles . Ele me respondeu:Não atendemos pessoa de cor . O quê? Não atendemos pessoa de cor. Fale alto! Não atendemos pessoa de cor. Pessoa de cor, não; não atende negro. Abdias, ele não atende negro aqui. Levantamos e quebramos a barbearia do homem todinha, aqueles espelhos bonitos, aqueles vidros de loções. Paramos na polícia. Perguntei: o nde mais que você não entra, Abdias? Ele dizia que não entrava em lugar algum! Eu não entro no Cassino da Urca, Cassino de Copacabana. Falei que iríamos ao Cassino da Urca. Saí e arranjei vários amigos. Havia um amigo meu, oficial da Marinha, chamado tenente Carvalho, que era um atleta, e outro, que se chamava Jorge Paes Leme, filho do capitão dos portos do Rio, gostava de briga, etc e tal. O outro se chamava Nelson Americano Freire, irmão do General. Disse que iríamos levar o negro no Cassino da Urca. Chegando lá, entramos, os quatro. Era uma porta de vidro rotativa. Quando passamos, eu disse: Cadê o negro? Disse ao porteiro que estava faltando um companheiro nosso. Ele disse: Dr. n ão entram pessoas de cor aqui . Como é?Quebramos a porta de vidro do Cassino da Urca e fomos parar na polícia. E assim por diante.

No Copacabana Palace, veio o Balé da Kathlyn Dougham, um dos maiores balés negros folclóricos do mundo, com passagem paga de Nova Iorque, tudo reservado. Quando chegaram aqui, no Copacabana Palace, e viram aqueles negros, disseram: Desculpem, houve um engano e não há vaga .   Foi o maior escândalo. Fomos lá e quebramos o Copacabana Palace. É essa a situação dos negros no Brasil, o Abdias foi um pioneiro. O Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro. Negro não entrava em teatro. Quem fazia papel de negro nos teatros era um sujeito pintado de piche. Era uma coisa horrível. Esse negro dedicou a sua vida a isso.

Tenho um grande respeito a ele, é um guru, um santo da cor. Sacrificou, inclusive, a vida. Foi professor na Universidade. Abdias é catedrático da Universidade do Estado de Nova Iorque. É aposentado. Vive disso, vive de uma aposentadoria que é boa, dá pra viver, porque é em dólar, não é?

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Como o senhor foi tocado pela poesia? Foi no tempo do seminário? Como descobriu a poesia? Como foi esse encontro?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu lhe disse que queimamos quilos de poesia ruim. No seminário, devo ter escrito uns 100 ou 200 cadernos de poesias ruins. Naquela época se estudava Poesis no quinto ano. Então, o sujeito aprendia a escrever poesia metrificada em português, a fazer poesia em metrolatino e em metrogrego. Diziam: fazer hoje uma poesia sobre um incêndio na floresta em metros, em dactil virgiliano. (tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam, tam) e em grego (trecho falado em grego) . Um exercício poético. Então, escrevi quilos de poesia. Era uma vocação que está muito ligada à ingenuidade da juventude brasileira. Todo mundo quer começar sendo poeta.

Você já cometeu seus sonetinhos, não?

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – também…

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Todos nós. Diziam que aquilo não era poesia, mas prosa rimada, prosa metrificada. Poesia é um Dante, poesia é uma metáfora. Saímos lendo, lendo e discutindo 24 horas por dia. Lemos tudo o que se podia ler na época. Eram livros que abriam de Mallarmé, um mestre, Benedetto Croce, mestre da estética moderna, que também teve seus pecados políticos; foi Senador, Deputado, fundador do Partido Liberal, fundador do pensamento liberal da Europa, apesar de ter votado a favor da posse do Mussolini, quando ele fez a marcha sobre Roma.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) -   Benedetto Croce.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Benedetto Croce, pai do liberalismo e da estética moderna. Croce disse que o homem conhece duas formas de conhecimento humano. O conhecimento lógico ou conceitual e o conhecimento mágico ou intuitivo. O conhecimento lógico é o objeto da filosofia, da história onde você adquire o conceito de uma coisa, mas não a coisa em si. A coisa é do conhecimento mágico e intuitivo, é o conhecimento poético. Há uma linguagem do conhecimento mágico e uma linguagem do conhecimento lógico.

Dessa forma, a linguagem da poesia é a metáfora; não é a imagem, não é a comparação. É a metáfora, é a coisa levada além do além, do além de si mesma para chegar ao núcleo, ao caroço da realidade. O conhecimento lógico de uma banana lhe dirá que se trata de uma fruta com forma cilíndrica geralmente, com uma casca mais grossa, com um miolo assim. Isso não é banana, isso é o conceito da banana. Todo conceito, no fundo, é um preconceito. O conceito é uma coisa pessoal. É o conceito que eu faço, que você faz, que ela faz, pode ser fato ou não. Agora, o conhecimento mágico e intuitivo, esse não se explica logicamente, esse lhe dá a coisa propriamente dita.

Então, chegamos à poesia. Há poucos poetas respeitados no mundo. A poesia não ensina nada. O sujeito começa a querer ensinar… Você faz uma poesia engajada, você está fazendo libelos políticos, bons ou maus, mas libelos. Qualquer um pode redigir aquela prosa. A poesia vem da musa, a coisa do Apolo. Aprendemos que é muito ligada à Grécia.

            O próprio Goethe, um dia, foi fazer uma romaria ao Convento de São Francisco de Assis e, no caminho, encontrou um templo antigo de Minerva que tapava as Atenéias dos gregos, e ficou lá um mês inteiro. A Grécia nasceu ali, com o pai Homero, nasceu com Hexíodo, quando o homem tomou conhecimento de que existia sobre a terra. Começamos a buscar aquelas fontes todas. Passamos a ler diariamente, horas e horas e horas, Homero inteiro, Hexíodo inteiro, Virgílio inteiro, Dom Quixote inteiro. Goethe sabia de cor Dom Quixote inteiro. E várias outras coisas que são fundamentais ao conhecimento mágico e intuitivo das coisas. Essa é a poesia, porque a poesia não ensina; não queira ensinar nada a ninguém com poesia.

            Apolo fundou a Grécia, fundou a Confederação Grega, chamada Anfictiônia , onde tudo era resolvido pelos oráculos da Sibila, na gruta de Apolo. Dormi lá uma noite, porque fui preso de manhã cedo por ter tomado banho nu na fonte de Castalha e havia um soldado grego que me prendeu ; escrevi tudo num dos meus livros. Um dia, um desses capitães gregos, Temístocles, fez uma consulta a Apolo. Antes da batalha, antes de uma eleição, antes de uma luta, antes de uma viagem, ele se consultava com os deuses, na Sibila; chamava-se Sibila porque siciava, através de sibilos. O capitão não entendeu bem e disse: “ O senhor pode me explicar melhor o que o senhor quer dizer com isso?” Então, Apolo disse: “Apolo não ensina, Apolo revela”; a poesia revela as coisas, não ensina; quem quiser que as veja.

            Então, a nossa poesia é isso.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – O que se destaca na sua obra poética? O que o senhor considera mais importante na sua obra poética?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É muito difícil você se julgar e falar sobre sua própria obra.

            Fiz algumas obras e, em certo momento, tomei a poesia como algo cosmogônica; a poesia funda as coisas, é uma cosmogonia. Uma das frases-mestras da nossa vida é a frase de Hölderlin: (trecho falado em alemão) – “Mas o que permanece é o que os poetas fundam”. A poesia é uma cosmogonia que funda.

            Assim, tive a audácia de querer fazer a fundação do Brasil, que foi o primeiro livro de uma trilogia chamado Os peãs . Peãs é o nome dos Cantos de Apolo; eram cantos de amor, cantos eróticos, cantos de guerra, cânticos de dor , paianes , em grego. E comecei uma trilogia chamada País dos Mourões ; era uma história sobre aqueles homens rudes, brutais, ignorantes que fundaram uma terra, fundaram um país, fundaram uma vila, uma cidade, uma casa, matando, morrendo com sangue; tudo se funda penosamente, ninguém faz nada sem muito sangue, sem muito sacrifício. Então, era um livro fundador, País dos Mourões . Mourões eram um dos grupos parentais que foram mortos e mataram, também, os Meros, seus primos.

            Depois o segundo volume, esses livros sucederam ao Valete de Espadas , que escrevi na prisão, onde escrevi, primeiro, 10 elegias de perdição, que se chama Cabo das Tormentas . E ainda reeditaria o livro. Depois, cheguei à conclusão de que, ainda ontem, estava nos braços de uma mulher (risos) e que hoje acordei miseravelmente em cima dessa cama de cadeia onde jogaram-me um bule de café sórdido. Que lógica há nisso? Então, comecei a escrever um conto e vi que não há lógica alguma. Por que ontem estava lá e hoje estava aqui? E o livro foi-se desdobrando em 10 ou 12 capítulos, cada dia acordando num lugar diferente sem lógica nenhuma. E não tem lógica nenhuma, porque ontem estava em São Paulo e acordei ouvindo um idiota falar, e daqui vou ouvir um político falar de coisas. Tem lógica isso? Não tem.

Então, Valete de Espadas é um drama da “irresidência” na terra, o homem não reside. Nesse livro, primeiro, a pessoa acorda numa cidade desconhecida, no dia seguinte, acorda num navio; depois, acorda num cassino, acorda num prostíbulo. E é o que acontece; não tem lógica alguma! Estava ontem num mosteiro e hoje estou num prostíbulo. Não há lógica! Não há lógica! É uma mágica. Nós somos manipulados por um poder que joga conosco, como jogamos carta de baralho. Sou um valete de espadas, acordo num cemitério, acordo numa conspiração… O valete é um moço bonito.

            Mas, saí do Valete de Espadas para escrever o País dos Mourões, que já é a residência na terra; o homem também reside na terra, também toma posse dela e a cria e a funda.

            O segundo livro da trilogia dos Peãs , que começa com País dos Mourões , chama-se Peripécia de Gerardo , que é um canto itinerante onde todos estão procurando o país onde morar, procurando a residência, procurando o chão com o qual se sonha e o qual se deseja. Peripécia, no sentido grego da palavra, vem de “peripípto”, “pípto” significa cair e “peri” é cair em redor de si mesmo. Ou seja, o sujeito cai e vemos uma peripécia.

            O terceiro canto, o terceiro livro dos Peãs chama-se Rastro de Apolo , e descobri que era o país de Apolo; Lá é onde se pode estar no seu chão, debaixo do seu céu; é uma relação do homem com seu destino eterno, isto é, com a divindade. Acredito que Deus existe. Escrevi a vida desse santo, um pobre frade ignorante e rezador, uma coisa fabulosa. Comecei com uma história, ingênuo, para contar milagres e outras coisas, que Deus não existe, etc.

Lembro-me de um amigo meu, português, Antonio Valdemar, era membro da Academia de Ciências de Lisboa, que contou que, na juventude, era um sujeito inteiramente ateu militante. Ele foi a uma conferência do Cardeal Dom Nuno, Cardeal Patriarca das Índias. Ele era um rude português dos Açores, que havia sido pescador dos Açores e era um cardeal. Dizem que o Cardeal começou a falar e ele se levantou — tinha vinte e poucos anos —: V.Exa. está aí a ‘falaire’ de Deus, que foi Deus, por que Deus isso… Mas Deus não existe, eu sei que Deus não existe. Por que esse negócio de Deus? O senhor tem alguma prova de que Deus existe? Então, o Cardeal ficou, assim, perplexo e o Valdemar disse que o padrezinho novo que chegou começou a soprar no ouvido dele umas coisas; ele empurrou o padre e disse: Não, meu filho, não sou um homem de letras, fui um seminarista medíocre, nem sei como me ordenei padre, não me lembro mais dessas provas da existência de Deus, de Santo Tomás, das 5 ou 7 provas de Santo Tomás, e também não me interessa . Não ‘senhore, doutore. Eu não tenho nenhuma prova de que Deus existe, agora, o senhor tem alguma de que ele não existe? (Risos.) Então, entramos numa aposta de pascal, Pascal disse: “ existe ou não existe ”. Qual é o negócio para o homem? É um negócio um pouco sórdido, interesseiro. Se existe, o que vou sacrificar? Vou sacrificar 10, 20, 30, 50, 60 anos de vida desafiando essa coisa, jogando contra uma eternidade? E há tantas provas de que Ele existe como de que Ele não existe, e tenho sinais de que Ele existe. Provas, não, sinais. Então, fico com os sinais. A aposta que faço é nos sinais de Deus, presentes.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Recite parte de um poema que o senhor considera mais marcante de sua obra.

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É difícil. Depois dessa trilogia, dediquei-me a um trabalho mais pesado, um trabalho que me levou, inclusive, a um exame histórico de documentos. Na realidade, foi a descoberta do mundo, os portugueses inventaram o mundo, foi a invenção do mar.

            Retirei uma frase de Capistrano de Abreu, que disse: O Brasil é uma invenção do mar . É essa costa imensa para onde veio um capitão de 24 anos, irmão do 1º Governador-Geral, Martin Afonso Lopes de Souza, que saiu com uma frota de navio, desde o Maranhão até a Patagônia, desenhando a costa do Brasil, nominando os acidentes da costa, os cabos, as enseadas etc. Então, foi o mar que inventou o Brasil, e os portugueses inventaram o mar. Antes, o mar era aquela bacia mediterrânea, e o português, um povo deste tamanho, passou por toda a costa da África, toda — não é força de expressão! Diga o nome de um país ou de um acidente; os portugueses chegaram lá primeiro. E um príncipe louco, naquele negócio de Sagres, onde temos medo até de andar e de o vento nos carregar, esse homem louco, com silícios, casto, rezando, fazendo penitências e fundando um centro de estudos náuticos, um dos maiores cartógrafos do mundo. Ele navegou o mundo inteiro sem nunca ter navegado uma milha. Mandou o sujeito passar o Cabo Bojador, e o sujeito foi e não passou. Ele disse: Volte até passar , e o sujeito voltou. E ele mandou, afinal, Bartolomeu Dias pegar o Cabo das Tormentas, onde não se podia passar, porque, de acordo com a geografia e a cosmografia da época, ali era o fim do mundo; depois dali, havia abismos infinitos, a pessoa caía. Ali não havia mar nem nada. O sujeito foi, não passou e ele disse: Não volte sem passar . Ele foi, passou e descobriu o caminho para as Índias, pegou o outro lado da África, o Oceano Índico e Moçambique, até as Índias.

            Então, foram os portugueses que inventaram o mar, e o mar inventou o Brasil. E resolvi fazer uma epopéia, mas, no mundo moderno não cabe mais uma epopéia. Quem vai fazer uma epopéia? Os grandes críticos do mundo moderno dizem que a epopéia do homem moderno é o romance. E por que não? Parece que a epopéia foi a invenção do mar, é a metáfora do homem descobrindo o mundo e criando o mundo. Há documentos históricos. Mergulhei naquela Torre do Tombo, mergulhei em tudo, passei praticamente 2 anos em Portugal em serviço; não se trata de um livro de história, mas a metáfora da história.

            Acho que o livro foi muito importante, foi considerado por certa crítica muito importante. Wilson Martins disse que o que restará da poesia brasileira deste século é a Invenção do Mar . Em Portugal, um sujeito disse o livro reescreveu de novo Os Lusíadas , porque Camões cantou a aventura do mar asiático. Então, a fundação do Brasil está toda ali. As poucas coisas que contei aqui sobre a história do Brasil estão lá. Terminei, evidentemente, na Guerra Holandesa. Não vou fazer história da Monarquia e da Proclamação da República, a coisa que se criou com este negócio de um país, de uma pátria.

            Às vezes, as pessoas acham ridícula a palavra pátria, mas não é não. Ela é o nosso chão.

E assim vai. Agora, estou escrevendo a vida de um milagreiro, São Gerardo, as anedotas, os milagres. Gosto muito dos milagreiros. Os dois grandes milagreiros na América foram um frade mulato chamado Martin de Porres, que era irmão leigo, dominicano. Não pôde ser padre porque era mulato e não admitiam mulato nas ordens religiosas. Aqui, o primo do Abdias   quis ser franciscano e não pôde, só como irmão leigo. Hoje, está tudo aberto.

Martin de Porres foi um grande milagreiro, no Peru. Certo dia, iam inaugurar um convento. Era um frade ignorante, rezador, fazia milagres a torto e a direito. Iam inaugurar uma sala nova, a sala do capítulo do convento, a sala de reuniões, e iam fazer a festa da cumeeira na casa. Antigamente, se fazia a festa da cumeeira. Hoje, na nossa terra, ainda se faz essa festa da cumeeira. Todo o mundo bebe cachaça, traz sanfona para tocar. O dono da casa parece um rei, um deus. A cumeeira é uma viga que se coloca para sustentar a casa. Então, foram inaugurar a cumeeira, os frades todos, o vice-rei do Peru, todo mundo assistindo. Quando foram colocar a viga, faltaram 3 palmos. O irmão Martin de Porres disse: Irmãzinha, cresça os 3 palmos . E a viga cresceu os 3 palmos. Os historiadores do Peru disseram que era uma lenda, uma coisa sem importância. O importante é que a lenda cria história. A história não existe sem a lenda.

O mais materialista dos pensadores, Marx, fundou sua teoria da luta de classes sobre a lenda de Caim e Abel. Caim era o poder industrial, o sujeito que transformava a criação; Abel, o inocente. Era a luta da indústria e da agricultura. A luta de classes começou com Caim e Abel. É a lenda de Caim e Abel.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O senhor não quer recitar uma poesia?

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - No final, ele poderia pegar o livro dele e ler. Talvez fosse melhor.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – tá bom, tá bom.

(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – pega aí um livro meu qualquer!

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – O senhor quer tomar um copo d’água? Quer fazer um lanche?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Hein?

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - quer parar pra fazer um lanche, Dr. Gerardo?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Traz aí uns livros meus!

(Intervenções simultâneas ininteligíveis.)

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Mas diga, o senhor ia falar sobre a beleza.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Pois é. (ininteligível) perguntou a Paulo: O senhor trabalha em quê? O Paulo disse: Eu trabalho a beleza . Ele disse: Beauty is difficult — a beleza é difícil.

Há pouco tempo fiz um poema, traduzido em 3 ou 4 línguas, sobre o mito da beleza. No Antigo Testamento, o mito da beleza está no livro do profeta Daniel, no episódio de Susana, uma beleza, uma mulher irresistível. Os velhinhos se reuniram lá, para pegá-la no jardim, tomando banho. Era a beleza.

Os averroístas dos séculos XIV, XV, como Augustín Nifo, achavam que a beleza podia acontecer no cânone da forma feminina, da forma de uma mulher. Escolheram uma mulher chamada Joana de Aragão, uma princesa, como cânone da beleza. Beleza realmente, sabe? Eu fiz um livro sobre a beleza chamado Susana , traduzido, também, em 3 ou 4 línguas.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Susana quer dizer o quê, exatamente?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Beleza.

             O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos)   – É a beleza? É uma palavra grega?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não, “Susana” é uma palavra das línguas semíticas. Evidentemente era uma mulher da cidade de Susa, uma susana.

(Falha na gravação.)

“José herdou as terras

João os rios

com seus navios

no Amazonas no São Francisco no Parnaíba

Francisco herdou o engenho

a cana caiana

Manuel herdou os patacões de ouro

Antônio herdou as fazendas de bois

e Pedro a casa-grande

escada de mármore

jacarandás lavrados

outros herdaram os cavalos

arreios estribos de prata

e até Miguel herdou

a cartola a casaca

o relógio e a corrente

de ouro.

Naquele tempo havia amantes francesas e alguém

             herdou Jacqueline

e alguém

as pistolas de coldre de madrepérola

e o punhal na bainha de vaqueta.

Eu não herdei nada

fugi para a Cidade de Susa

e raptei

à beira da fonte

uma

Susana.

As terras arderam os rios secaram os navios

afundaram

  os patacões? — derreteram —

a escada caiu,

jacarandás se quebraram

os cavalos morreram

rasgou-se a casaca, puiu-se a cartola

parou o relógio sumiu a corrente

e a pistola e punhal morreu Jacqueline num

cabaret de Crateús.

                       O tempo comeu tudo

Restou a eternidade

                       teus olhos tua boca

herança minha

Susana.”

Então, a beleza é a única coisa que resta.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Bonito poema!

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Esse é o da beleza?

(Pausa.)

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O Invenção do Mar é a metáfora da nossa história portuguesa e brasileira. Começa com Dom Diniz, que foi realmente o fundador da língua portuguesa. Ele fundou a Universidade de Coimbra. Ele fundou a língua portuguesa política. Em toda a Europa, todas as leis, todos os alvarás, todos os decretos, todas as sentenças de todos os governos — na França, na Espanha, na Alemanha, na Inglaterra, na Itália —   eram em latim. Um dia, Dom Diniz decidiu: “As leis de Portugal, os alvarás, os decretos serão feitos na língua do povo português”. Foi o primeiro povo que adotou oficialmente a sua língua. As aulas de todas as universidades da Europa — de Pavia, de Padova, de Heidelberg, de Oxford, de Paris — todas eram em latim. Ele disse: “As aulas da Universidade de Portugal serão dadas na língua do povo português”. Foi o fundador.

E fundou a esquadra portuguesa. Ele foi casado com a mulher mais bela da Europa, Santa Isabel – Rainha Isabel – mulher belíssima que tinha um ciúme mortal dele. Ele era cheio de mulheres, mas apaixonado por ela. Um dia, ele estava na cidade do Porto. O cais estava cheia de barcos. Ele olhou e perguntou: “De onde são esses barcos?” Disseram: “São barcos franceses, de Marselha, e barcos de Liverpool, da Inglaterra”. Ele perguntou: “E portugueses, por que não há?” “Porque não há madeira em Portugal para se fazerem barcos”. Ele saiu dali e, então, plantaram-se os famosos pinhais de Leiria, para se fazerem tábuas para barcos, para que Portugal tivesse uma esquadra. Em 10 anos, começou-se a serrar tábuas para fazer os primeiros barcos portugueses. Foi o sobrinho dele o infante que começou as navegações, com os barcos que ele mandou fazer.

E ele foi poeta por excelência da língua portuguesa, poeta cortesão, das cantigas cortesãs, dos madrigais. Começo com um canto dele:

“Ai flores do verde pinho

ai pinhos da verde rama

coroado das flores do verde pinho

eu não quero este mar — eu quero o outro:

quero o mar das parábolas e elipses

dos cones helicôneos dos abismos

o mar sem fim — o mar

com seus heliotrópios suas ninfas

seus cavalos-marinhos, seus tritões

e seus lobos do mar:

e tu, Pater Poseidon,

com teu tridente em teu palácio de águas.

E era uma vez Diônisos — poeta e rei

e um dia a flor do pinho será tábua

e um dia a tábua será sonho quando

o pinho de novo verde sobre as águas verdes

talhado a enxó

entre as espumas talhar as ondas: — então

o mar libidinoso irá lambendo

as ancas das caravelas redondas.

Ai flores

do verde pinho

ai ramos de Leiria

ai flor dos linhos do Alentejo.

E a flor das velas nesse baile

bailando ao vento cada vez mais longe

cada vez mais perto — Diônisos —

dos sonhos que sonhavam

os olhos de Isabel —  

e um dia os pinhos serão galgos

e esses galgos do mar irão galgar

das pupilas do Infante

a latitude e a longitude das lonjuras

ao sal da lágrima — ao sal das águas.

E no chão das águas

ai flores do verde pinho

ai linhos do branco linho:

caminhos dançam sobre o chão de abismo

sobre o chão dançador da esmeralda revolta

a dança da saudade marinheira

cantada nas violas:

ai tábuas que foram verdes

tão tábuas para fragatas

tão tábuas para guitarras.

No mesmo pinho, Luís Vaz de Camões,

cantavam cantos do mar

das partidas não chegadas

dos amores desterrados

pelas váreas do Alentejo

de Teresas e Marias.

E as moças de seios redondos

de Traz-os-Montes, das Beiras de Portugal

gemiam canções de amor:

ai flores do verde pinho

ai pinhos da verde flor:

na flor, na frôa e na fulô de seus aromas:

saudades dos marinheiros.”

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Isso é bonito!

            A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) – lindo!

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – E vai por aí a fora! o Brasil, em cada cântico… O Padre Manuel da Nóbrega, “Esta terra é uma empresa nossa”. É outra coisa que quero dar aqui.

Hoje, há na literatura latino-americana um escritor poderoso, Gabriel García Márquez. O meu País não é um Macondo, o Brasil não é um Macondo! Custou sangue, suor e lágrimas para fundarmos o País. Isso não é uma brincadeira. Fazer disso uma anedota, um folclore? Não, senhor! Isto não é uma colônia, não é um Macondo!

Aliás, citamos muito sangue, suor e lágrimas. Winston Churchill, na guerra, quando suas ilhas estavam ameaçadas pelo terror do nazismo, fez um famoso discurso. Churchill foi um orador espantoso. Em certo ponto, disse “sangue, suor e lágrimas”. A frase é do Padre Antônio Vieira, no púlpito de uma igreja na Bahia, quando desafiou Deus: “Deixando os holandeses nos invadirem, não nos destes mais do que sangue, suor e lágrimas”.A frase é nossa. Este País foi feito sob sangue, suor e lágrimas. Cem mil portugueses foram comidos pelos índios, assados com mandioca. Quantos índios morreram, não sabemos. O próprio Antônio Vieira pergunta um dia: “Onde estão os milhões de índios?” Calcula-se que havia de 6 a 8 milhões de índios, pelos melhores cálculos. Quantos negros morreram, até antes de chegarem? Em geral, morria metade antes de chegar ao Brasil. Então, fundar o País custou muito a nós. Não se deve levar esses fatos por anedota, por brincadeira.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Não teria sido possível colonizar o Brasil sem os negros.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não, não teria sido possível. Como iam fazer açúcar? Não havia mão-de-obra. O português não tinha mão-de-obra para isso. A mão-de-obra índia era muito duvidosa. Os índios nunca foram dados a esse tipo de trabalho. Os índios brasileiros estavam na idade da pedra lascada. Não eram como os índios, por exemplo, da América. No Peru, havia os incas; no México e na América Central, havia os maias e os astecas, povos que chegaram a um alto ponto de civilização e cultura. No Brasil, os índios estavam na idade da pedra lascada. Os índios não sabiam sequer morar. O primeiro aprendizado do homem sobre a terra é fazer uma casa. Os índios não tinham aldeias, eram nômades: paravam aqui, depredavam a caça e a pesca do local e mudavam para outro local.

Daí a ignorância brasileira, ou essa cultura de “caderno dois”: dizem que os pataxós foram os primeiros índios a ver Cabral. Coisa nenhuma! Os pataxós estão na Bahia há 100 anos; eram índios do Mato Grosso, ou melhor, eram nômades, como todos os demais índios brasileiros. Evidentemente, deram uma contribuição, uma contribuição de sangue. Temos uma população cabocla muito grande, e boa. Foram os portugueses que fizeram dar uma ênfase muito grande a isso.

Meu amigo Darcy Ribeiro, que nunca leu um livro na vida, mas que era um dos sujeitos mais prodigiosamente inteligentes que conheci. Para ele, nossos índios nunca fizeram nada; sua contribuição foi passiva, de sangue.

Quanto à contribuição negra, hoje é vivamente enfatizada. Cito o meu amigo Abdias. Dou razão aos negros: tudo o que fizeram tinham direito de fazer, porque sofreram muito. Um poema famoso de um amigo meu, poeta negro do Haiti, diz que isso seria algo inventado por algum historiador demente. Não é verdade que cassavam sujeitos nas costas da África e os traziam para cá; não é verdade que aqui separavam mães de filhos, pais de filhos, não é verdade que aqui os levavam para leilão em praça pública, onde exibiam seus testículos para provar que eram machos, na hora da venda. São tantas humilhações que só podem ter sido inventados por algum historiador demente.

Mas houve uma grande contribuição. Este País é europóide, queiram ou não. Este país é europóide. Este País é lusóide. Foram os europeus, sobretudo os portugueses, que fizeram este País. Os índios nos deram isso, os negros nos deram aquilo e aquilo outro. Os portugueses nos deram a língua, que é a coisa mais importante, o cabedal mais importante, o potencial mais importante é a língua humana. Nossa pátria é nossa língua, nosso ser é nossa língua, é a nossa alma. Os portugueses nos deram a língua! Os portugueses nos deram, de um modo geral, a religião. Os portugueses nos deram a arte de vestir. Nos vestimos como europeus! nos ensinaram a arte de morar. Nos deram as instituições de direito público. Portanto, a grande contribuição é do europeu. Este País é europóide, queiram ou não. Somos europóides, e não somos africanos e não somos índios. Somos europóides!

E fomos construídos com um sacrifício inaudito: Eu lhe digo: 100 mil portugueses morreram aqui!

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Relativamente aos negros, não eram tanto os capitães de navios ou os traficantes de escravos que traziam os escravos; havia brigas tribais entre os próprios africanos, que leiloavam os derrotados, os vencidos, como escravos nas praças dos povoados africanos.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Na verdade, se houve caça aos negros, houve muito pouca. Realmente, os reguletes africanos vendiam os inimigos por objetos, como pedaços de fumo. Havia preços para os negros e as negras. Eles vendiam os inimigos, para fazer negócio. Os negros foram os primeiros!

Há outra coisa: não foram os portugueses os grandes negociantes. Os portugueses eram os testas-de-ferro dos navios. O negócio era inglês. Cromwell estabeleceu o monopólio do tráfico de negros, que pertencia, portanto, à Coroa Inglesa, ao Parlamento inglês. E os anglo-saxônicos eram muito mais terríveis contra os negros do que nós aqui. Houve crueldade e tudo o mais, não podemos negar nada. Os negros sofreram muito e têm direito a tudo. Não nego nada disso, mas é preciso verificar a situação dos negros aqui. Fez-se a abolição e depois a independência — antes não havia condições, mas nos Estados Unidos a abolição ocorreu mais de sessenta e tantos anos depois da independência. E isso custou uma guerra na qual morreram 800 mil pessoas, em nome dos escravocratas. Os escravocratas fizeram uma guerra para não emancipar os negros. Aqui, como tudo no Brasil, custou a assinatura de uma princesa, com uma pena de ouro.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Dr. Gerardo, vamos sair um pouco desse domínio da poesia e da magia, como o senhor disse, e vamos para um outro domínio por onde o senhor também andou, o da política, um domínio mais lógico, né? Vamos contar também um pouco da sua trajetória.

O senhor saiu da cadeia, depois de 6 anos desse processo penoso, dessa acusação tremenda. O Brasil estava sendo redemocratizado. Getúlio foi afastado do poder. O País voltou à democracia; as instituições eram livres. O que o senhor fez? O que aconteceu com a sua vida?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu saí da prisão quando o País foi democratizado. A primeira coisa era refazer a minha vida, depois de 6 anos de prisão.

A minha mulher morreu uma semana antes de eu sair da prisão e me deixou uma filha. Eu fui tratar de sustentar a família. Procurei emprego aqui e ali, essa coisa toda, mas eu estava, evidentemente, contagiado por um certo vento de liberdade que o País tinha respirado, depois da queda de uma ditadura. O Estado Novo foi uma ditadura terrível, silenciosamente terrível. Vão dizer que não houve aqui campos de concentração! Houve campos de concentração, e eu estive num campo de concentração na Ilha das Flores. Não houve fornos crematórios, como no nazismo, não houve stalinismo, mas houve coisas terríveis.   Toda   a   justiça foi posta de lado. Houve uma euforia de liberdade depois. Eu me entusiasmei com a campanha do Brigadeiro, por exemplo.

Casei-me pouco tempo depois de sair da cadeia. Tinha mulher de família política. O pai era Deputado, depois foi Senador e Ministro. E eu entrei também na política. Fui até Deputado Federal por Alagoas, mas sempre fazendo uma coisa um pouco… um adultério. Não era o meu negócio, mas fiz. Achei que eu poderia dar uma certa contribuição, mas eu não tinha contribuição alguma a dar.

Depois, veio a ditadura militar, e fui para a cadeia de novo. Fugi para o exílio. Fui cassado. Passei dois anos e meio no exílio.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos)   – Qual a alegação que eles usaram?

  A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - O senhor foi cassado pelo AI-5?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Não tinha nem acusação, não havia acusação alguma.

  O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos)   –   O senhor foi cassado pelo AI-5?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Ninguém sabe por que fui cassado. Eu tenho um diploma de cassado, que preguei na parede.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) -   Foi cassado em que ano?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui cassado no AI-5. Eu estava em casa jantando, quando a Lígia Doutel de Andrade ligou: “Acabamos de ser cassados eu, fulano e não sei quem…” Até hoje não se sabe por quê. Eu, por acaso, tenho uma certidão de que fui cassado, porque precisei tirar uma certidão de que não tinha título eleitoral porque estava cassado; então, deram-me a certidão.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) -   O senhor foi para onde?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui para o Chile. Os meus amigos della Santa Hermandad estavam todos lá me esperando. Foi uma farra!

Saí com dificuldade de Brasília. Eu tinha passaporte diplomático, de Deputado e tudo o mais. O General Kruel… Eles me prenderam no primeiro dia da revolução, levaram-me para a Fortaleza de Santa Cruz. Estávamos presos lá eu, o Nelson Werneck Sodré, o Schwein, o Coronel Cerveira, o Neiva Moreira, uma porção de gente. Ficamos lá. A Câmara se declarou em sessão permanente até me soltarem, porque eu tinha imunidades. Então, Castelo mandou soltarem-me.

Fui para Brasília. O riograndino General Kruel, irmão de Amaury Kruel, era o Chefe de Polícia do Governo de Castelo. Procurou meu sogro, que era compadre e sócio dele, e disse: “Barros, vão matar o menino, o senhor aqui, o Gerardo. Um bando de oficiais quer matá-lo”.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Por quê? Porque que eles queriam matá-lo?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Eu não sei. Havia uma campanha tremenda contra mim. Tinha feito um discurso muito violento no dia em que saí da prisão.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O que o senhor disse nesse discurso que o senhor fez no dia que saiu da prisão?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Denunciei. Cheguei sujo na Câmara, saindo da fortaleza direto para a Câmara.

            Primeiro, marquei a minha passagem. Naquele tempo, havia avião para Brasília saindo do Santos Dumont. O Doutel de Andrade, que era líder do partido, disse: “Não vai, senão vão prendê-lo. Marca no Santos Dumont e vai pegar o avião com a gente no Galeão.” Então, fui para o Galeão. O Doutel e meu sogro estavam nesse avião, foram pegar-me.

            Cheguei a Brasília e, usando a palavra no Grande Expediente, fiz um discursos de quase duas horas. O Humberto Lucena, até morrer, dizia que aquele tinha sido o maior discurso que ele ouvira na Câmara. Havia um silêncio, não havia zumbido.

Quiseram-me matar — mataram alguns sujeitos. Foi algo terrível. Denunciei a prisão e denunciei tudo. Foi a primeira voz que saiu do fundo das catacumbas para denunciar as prisões de Deputados. A minha foi a primeira voz. Fiquei 15 dias preso. Quando saí, fui para a Câmara e fiz um discurso contando o ocorrido.

            Então, o sujeito disse: “ Não fica na casa do Barros” , meu sogro. Fiquei na casa do Paes de Andrade, um sujeito extraordinário. Ele me disse: “Vai para a minha casa. Se morrer, não morre só.” O Paes naquele tempo era bom atirador. Ele saía comigo da casa dele para a Câmara, ia da Câmara para a casa dele, e havia sempre um jipe com oficiais do Exército esperando do lado de fora. O Paes falava: “Não morre um só aqui, não. Se morrer, morrem dois” O Kruel disse que havia um grupo de oficiais que queria matar-me e que seria melhor mandar-me embora.

            Comprei uma passagem numa agência que havia no Hotel Nacional. Naquele tempo, o único vôo internacional que partia de Brasília era um vôo que ia para Trinidad e Tobago e, na volta, para o Chile. Comprei a passagem para sair daqui do Rio. À noite, o Kruel foi à casa do Barros: “Barros, esse menino está louco! Se ele for para o Rio, vão prendê-lo lá. Mande-o embarcar aqui, que aqui eu posso botá-lo dentro do avião”. Então, comprei essa passagem.

            O Miguel Marcondes, um grande amigo, um sujeito extraordinário, Deputado por Campo Grande, no Mato Grosso, também do PTB e estava metido no “grupo dos 11”, disse: “Você pega um avião com a minha carteira para Campo Grande e depois para Ponta Porã” — a terra dele era Ponta Porã. “De lá você atravessa a rua e está no Paraguai.” Foi o que eu fiz.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Pedro Juan Caballero?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Pedro Juan Caballero. Fui com a carteira de Deputado do Miguel Marcondes, viajei como Miguel. Atravessei para Pedro Juan Caballero direto do aeroporto. Não havia lugar no avião. Lá havia um avião das Linhas Aéreas Paraguaias, mas não havia lugar. Um tenente disse que não havia lugar, o avião era oficial do Paraguai. Eu disse: “Eu tenho um negócio urgente em Assunção, não posso deixar de ir.” Por fim, o tenente respondeu: “Posso deixar o senhor em Villa Concepción”. Pensei: “Sair daqui da fronteira já é um grande negócio”.

Entrei num avião cheio de índios, macacos, papagaios, o diabo! Quando chegamos a Villa Concepción, pedi ao tenente para me dar um lugar e perguntei: “Quanto o senhor quer?” . Puxei um quilo de dinheiro do bolso. O tenente paraguaio olhou e disse que eu poderia viajar na minha cabine. Dei 20 contos a ele, era uma fortuna. Dei 20 contos, viajei na cabine dele para Assunção e, de lá, fui para o Chile. Foi algo medonho.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Como foi esse exílio no Chile?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - De Assunção já liguei para lá. Os meus amigos foram esperar-me no aeroporto de Los Cerrilos, em Santiago, com um avião particular, para levar-me para Viña del Mar. Eu saí do avião da Pan American e fui para Viña del Mar em um aviãozinho particular dos meus amigos. Fiquei lá dois anos e meio.

Era o Governo do Frei, de quem fiquei muito amigo.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - O senhor lecionou na universidade?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Fui professor na Universidade Católica e tinha um lugar também no Serviço Internacional da Promoção Popular. Havia muitos exilados brasileiros lá, e viviam todos muito bem. Todos os exilados brasileiros no Chile estavam trabalhando. Também foram para o Chile outros exilados. Havia 14 ex-Deputados Federais, alguns professores, alguns estudantes.

No Uruguai havia gente mais diversificada. Havia operários e camponeses. A vida dos exilados uruguaios foi um pouco infernizada com disputas. No Chile, éramos uma comunidade classificada e todos estávamos trabalhando. O Governo do Chile deu amparo a todos. Todos que estavam lá tinham emprego.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O Fernando Henrique estava lá nessa época?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Sim, claro. Havia um primo-irmão do Fernando Henrique. Era um médico comunista chamado Hugo Alexandre, meu grande amigo. Ele era solteiro, mais jovem. Ficou morando na minha casa. Eu tinha uma casa boa, grande. Lá conheci o Fernando Henrique, que freqüentou a minha casa.

Serra era estudante. Havia meia dúzia. O Serra era estudante. Fizemos uma caixinha. Quem tomava conta da caixinha era o Adão Pereira Nunes, uma espécie de patriarca dos exilados, um grande homem. Adão era um santo homem, um comunista histórico, um comunista romântico, firme, mas um sujeito de um coração e de uma alma gigantesca. O Adão organizou uma caixinha. Os que estavam trabalhando contribuíam. Eu dava todo mês 50 dólares. Alguns poucos que não tinham trabalho viviam da contribuição da caixinha. Eram poucos. Todos os demais trabalhavam.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) -   Quando o senhor voltou ao Brasil?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu voltei para o Brasil em 1967. Alguns amigos meus, como o Miguel Marcondes, que foi muito importante para mim, disse; “ eu já conversei aqui com o Adauto” , que era Presidente da Câmara, “Você chega aqui e vem direto para a Câmara” . Eu vim.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - E reassumiu?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Reassumi.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Depois de 2 anos?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Depois de 2 anos, reassumi.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - E como foi explicado o afastamento, do ponto de vista institucional e legal?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Pedia-se licença. Voltei e até assisti ao fechamento da Câmara.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor se candidatou novamente? Porque em 67…..

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967 eu fui cassado.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Em 1967?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967, fui cassado.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Então, antes do AI-5?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Em 1967 eu era suplente, havia disputado a eleição e fui suplente. Então, cassaram… Cassaram nada, cassaram a suplência!

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - O senhor se exilou novamente ou ficou aqui?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eu fiquei aqui, trabalhando penosamente. Eu ainda tinha pequenas economias ainda do Chile, eu ganhava mais ou menos bem lá. Então, foi possível viver.

Fui trabalhar no boletim cambial, o “ Peralva” , o João Alberto Leite Barbosa.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Chamavam “besteira   cearense”.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O João Alberto, cearense, era um sujeito muito inventivo. Ele tinha um grupo de revistas econômicas, umas 4 ou 5 revistas. O BC era um revista diária. Tirava-se algum holerite. Havia uma revista semanal e outras 4 ou 5 revistas. Fiquei trabalhando lá durante algum tempo. Era possível sobreviver.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) - Dr. Gerardo, como o senhor vê essa sua experiência dentro da política prata, da política partidária, da política institucional? O que o senhor retira dessa experiência hoje?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Um dia perguntaram isso ao Joyce. Joyce tinha sido militante político na Irlanda. Meteu-se em política até na Itália. Assinou manifestos defendendo Mussolini. Depois de uns tempos, perguntaram a ele sobre política. Ele respondeu: “A política? Não sei se foi um súcubo ou um íncubo que dormiu comigo uma noite, do qual hoje tenho a maior repugnância”. O quadro político brasileiro — eu tenho muitos amigos ainda metidos na política, amigos nossos, que você conhece, mas é um negócio….a gente tem que pensar na tolerância até com eles — a política brasileira é muito pobre!

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Pobre sobretudo de idéias.

(Falha na gravação.)

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - … foi o líder do Goulart no Senado, um líder de poder pessoal junto ao Jango. Havia amizade, afeto, muita intimidade. Estava por dentro das coisas todas; passou pelas mãos dele quase tudo que se possa imaginar.

Já no Governo Juscelino, ele foi Ministro. Eu estive muito na intimidade do poder, e quanto mais a intimidade do poder chega perto de você, você acaba convencendo-se de que está dormindo com o súcubo ou com o íncubo.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - É o demônio, né?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - É terrível.

A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - Durante o Governo do João Goulart, o senhor defendeu as reformas?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Defendi as reformas, a reforma agrária, sobretudo. Trabalhei, defendi e apresentei projetos nesse sentido. Fui muito marcado durante o Governo Goulart, muito marcado.

A SRA. ENTREVISTADORA (Ana Maria Lopes de Almeida) - O senhor falou que apresentou projeto de lei referente à reforma agrária.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Apresentei um projeto de lei. Eles não… Apresentei um projeto que acho que podia… A coisa em que o Jango mais esbarrou na reforma agrária, segundo algumas conversas… Diziam: “ O Jango não tem dinheiro para a reforma agrária. Nós precisamos de mais 3 bilhões para poder começar uma reforma agrária”. Eu disse: “Jango, eu tenho uma solução”. Quando eu era menino, lá no Ceará, não havia meio circulante no interior — ainda há pouco estávamos comentando isso com alguns amigos em Crateús. Os comerciantes não tinham dinheiro em Ipueiras, Crateús. Havia apenas mercadorias. Então, os comerciantes passaram a imprimir dinheiro, um dinheiro que se chamava boró: “Pagar-se-á ao portador deste a importância de 10 mil réis no armazém de Raimundo Mourão”. Raimundo Mourão emitia o dinheiro, e pagava-se.

Naturalmente, com o tempo, vários deles quebraram. Dizem que um parente meu quebrou com 600 mil contos de borós. Isso deve ser exagero. Devia haver 60 mil ou 6 mil. Enfim, emitia-se boró, e o boró se fazia circular como dinheiro.

Então, eu disse: “Jango, você emite boró?”   Ele perguntou: “O que é boró? Que diabo é boró?” “Eu vou explicar: emite-se um dinheiro, uma moeda que sirva para se pagarem impostos, mas que não vai servir para a importação nem para subsídio de exportação. Então, ela não vai incidir no câmbio. Com esse dinheiro a gente compra terra e faz a reforma agrária”. Mas os doutores lá da Câmara acharam que “a moeda podre contamina a moeda forte” .

Foi uma coisa inventiva, viu? Emitir um dinheiro para…..mas, eu discuti muito.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Como foi essa transição ideológica da direita para a esquerda? Como o senhor mudou?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - O que era direita e o que era esquerda? É preciso lembrar-se de que os problemas sociais, os problemas de justiça social… O primeiro sujeito que instituiu no mundo 8 horas de trabalho chamou-se Benito Mussolini. Foi Mussolini que inventou 8 horas de trabalho para o trabalhador, que inventou férias para o trabalhador, que inventou auxílio-família para o trabalhador. Assim, os que eram chamados de direita tinham uma preocupação social muito grande. O partido nazista, na Alemanha, era um partido com preocupações sociais. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era um partido contra o qual estava a alta burguesia, entendeu?. A preocupação social estava muito na mentalidade de toda a minha geração, à esquerda e à direita, e sobretudo na geração católica, que vinha da encíclica Rerum Novarum , de Leão XIII, que suscitou o problema social da Europa, e vinha da bula Quadragesimo Anno, de Pio XI, que se preocupava muito, vinha dos sindicatos católicos fundados na Bélgica.

Eu lia muito isso. No Brasil, a concentração de dinheiro, de poder e a construção de oligarquias se tornaram intoleráveis para qualquer um que contemplasse aquele panorama.

Portanto, a linha entre direita e esquerda era muito próxima. A direita brasileira do meu tempo era profundamente antiamericana, eram contra os americanos. Gustavo Barroso escreveu Brasil, Colônia de Banqueiros , livro ainda hoje é comentado. O Fernando Gasparian, um editor de esquerda, comentou o livro, que denuncia o capitalismo internacional. Era, portanto, uma linha muito tênue.

A diferença maior na época, em 1935, quando começou a agitar-se o problema do socialismo, com a Aliança Nacional Libertadora, era um problema de nacionalismo. Naquela época, a esquerda era internacionalista. Havia o internacionalismo do socialismo, etc., e a direita era profundamente nacionalista. No dia em que entrei para o integralismo, o Tristão me mandou ir ver o Plínio, que estava fazendo um discurso profundo. Ele estava denunciando, dizendo que o País estava vendido, etc. Lembro-me desta frase até hoje: “Porque até a luz que nos alumia é estrangeira”, e apontou para a lâmpada da Light . Fiquei tocado com aquilo!

E o Governo do Jango trouxe as causas nacionalistas. Os integralistas do Rio Grande do Sul elegeram Brizola, Governador naquela época. O integralismo, naquele tempo, no Rio Grande do Sul, tinha um eleitorado que era um fiel de balança, muito dividido entre o PSD, que era a UDN, e o PTB.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – O senhor falou que o partido nazista era o partido socialista. Os ideólogos do socialismo e do partido nazista foram expurgados a partir do momento em que o Hitler fez um acordo com os barões do RU .

             O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Bom, o desenrolar da coisa é uma contingência natural. Tudo é íncubo e súcubo, por esse caminho.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Nós temos sobretudo na política brasileira — e também internacionalmente — alguns casos de artistas que chegam ao poder, como o caso de José Sarney, que é um acadêmico, um escritor, e foi Presidente da República. Há outros Presidentes da República com pendores literários, como Juscelino, que também foi da Academia. Como o senhor vê a convivência entre a arte e a política? É uma convivência possível? Os artistas têm uma contribuição política para dar?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Eles que dêem, se quiserem; eu não dou mais! Eu sou muito amigo do Sarney, gosto muito dele. E acho até o Sarney um escritor importante. O romance Dono do Mar é importante, ele sabe disso. Eu me dou muito com ele. Contudo, enfim, eles não têm mais como mudar. Eles entraram nisso. É como um sujeito que convive com uma sogra megera o resto da vida. Ninguém o mandou contrair   o casamento. Ele terá que agüentar a sogra; então, ele agüenta a política o resto da vida.

E muitos tiram dela vantagens, lícitas ou ilícitas, ou comodidades, né? Além da comodidade, há os compromissos. Conheço o drama de alguns políticos, coitados, que entram nesse negócio e assumem certos compromissos com as suas regiões, com a sua sociedade, com as suas comunidades, e que não podem mais se afastar dele. Conheço casos assim, que me dão pena. Estão perdendo tempo! Digo-lhes: “Larga essa porcaria aí!”

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Mas o senhor não acha que o empobrecimento da política, que o senhor próprio constatou, deve-se muito a isso? Se a política, além de ser esse tipo de atividade, incorporasse um pouco da arte, ela não estaria num patamar acima, ela não poderia desenvolver-se num outro patamar?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É muito difícil fazer um julgamento sobre a política brasileira. A coisa mais grave que aconteceu com a política brasileira ao longo dos tempos foi o despreparo cultural do povo brasileiro. Tobias Barreto, no seu tempo, dizia que o Brasil não tem povo, tem público. Ainda hoje, até certo ponto, tem mais público do que povo. Não há consciência popular. O povo brasileiro é despreparado, as lideranças são despreparadas.

E, neste ponto, entra a única coisa que eu debito aos portugueses: eles são refinados colonizadores. Não é sem razão que Portugal foi a última metrópole a se retirar das colônias da África, a última, depois da França e da Inglaterra. Portugal não permitiu no Brasil, como bom colonizador, que se formasse uma geração de ensino superior. Não havia uma escola superior. Criaram apenas uma escola de Medicina, então não se formavam pessoas. Em escolas superiores, estariam formando-se lideranças possíveis e ameaçadoras, a tal ponto que no Brasil a primeira escola superior foi criada depois da Independência. Foi um projeto inepto do Martim Francisco. Tenho a história do projeto da Faculdade reconhecido por Clóvis Bevilácqua, que apresentou o projeto de Martim Francisco: “Haverá duas escolas superiores no Brasil, uma em Recife e Olinda e outra em São Paulo”. Foi fundado o ensino superior sob o pleonasmo do Martim Francisco de Andrada, que era um dos Andrada.

Sabe qual é a mais antiga universidade brasileira? A universidade daquele Estado que até há pouco tempo, antes dessas “Rondônias da vida”, era o mais novo da Federação, o Paraná, que se destacou de São Paulo. A universidade mais antiga do Brasil é a Universidade do Paraná, que é dos anos 30. Não havia universidade. Havia algumas escolas superiores, que se destacavam. O País não tinha uma tradição de formação de consciências culturais, consciências do saber. E a relação entre o saber e o poder é decisiva. O exercício do poder é uma conseqüência do exercício do saber.

Lembro-me de que, certo dia, eu estava nos Estados Unidos, na casa do negro Abdias, que reunia todos os negros americanos, no tempo da Angela Davis, famosa militante negra condenada à morte — não a mataram, mas ela chegou a ser condenada à morte por metralhadora. Estávamos jantando na casa do Abdias, à noite, e a Angela Davis, entusiasmada, disse: “Nós vamos tomar o poder!” Eu disse: “Oh, menina! Tomar o poder aqui nos Estados Unidos? Tomar o poder do Pentágono, do FBI?” Ela disse: “Eles têm o poder porque eles detêm o saber, e as elites americanas estão desertando do saber. Hoje, nas universidades americanas, os filhos dos Rothschild e dos Rockefeller não estudam mais, a não ser as matérias ancilares, como Gerência de Capitais, Administração de Empresas, Sociologia. Eles não chegam às matérias que são o núcleo do saber, como História, Filosofia, Direito, etc”.

Isso é verdade. Essa rebelião das massas, relatada na obra de José Ortega y Gasset, vai começar por aí. As massas estão tomando o saber e, um dia, chegarão ao poder. Estão entrando em colégios e faculdades. Contudo, a faculdade brasileira ainda é muito ruim, a universidade brasileira é a pior do continente, é pior do que a da Bolívia, pois não temos tradição. Eles têm universidades que vêm dos primeiros dias da colônia. As primeiras universidades da América espanhola datam de 1543. A Universidade de Santo Domingo, a Universidad Mayor de San Marcos, o Colégio San Felipe, na Colômbia, Colégio de San Agustín, na Bolívia, o San Carlos, no Chile: todas são grandes universidades.

            O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – San Andrés.

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Eles têm tradição. Na Bolívia, há professores de Filosofia, conheci alguns. Estive, por exemplo, diante de um professor espanhol salamaqueño . Aqui, o negócio é penoso.

É claro que, no campo da ciência aplicada, temos áreas mais desenvolvidas do que no restante da América Latina. Medicina e Engenharia são exemplo disso. Há centros de excelência de Medicina em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ciência aplicada, pois na área do pensamento puro, não tem! e o que constrói a história é o pensamento puro, os homens que pensam.

            O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – O senhor gostaria de falar mais alguma coisa?

            O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Não, já falei demais.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Foi bom, foi bom!

A SRA. ENTREVISTADORA ( Ana Maria Lopes de Almeida) – Foi maravilhoso!

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Uma grande aula, né!

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Foi muito bom. Qual é a editora do seu livro Invenção do Mar ?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – Você não o tem?

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) - Não.

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO - Isso é uma vergonha! Vai levar um.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – O Tarcísio, na viagem, veio recitando de cor um poema seu.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Um do País dos Mourões . É da Record?

O SR. GERARDO MELLO MOURÃO – É Record.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Coloca para a equipe de tevê. Não vou precisar não.

O SR. ENTREVISTADOR (Ivan Santos) – Não, esse é para você, Tarcísio.

O SR. ENTREVISTADOR (Tarcísio Holanda) – Não, vou comprar o livro.

setembro 7, 2012 Posted by | Entrevistas | Deixe um comentário

“Tempos apocalípticos” – Paulo Brossard sobre a retirada dos crucifixos nos tribunais


Minha filha Magda me advertiu de que estamos a viver tempos do Apocalipse sem nos darmos conta; semana passada, certifiquei-me do acerto da sua observação, ao ler a notícia de que o douto Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado, atendendo postulação de ONG representante de opção sexual minoritária, em decisão administrativa, unânime, resolvera determinar a retirada de crucifixos porventura existentes em prédios do Poder Judiciário estadual, decisão essa que seria homologada pelo Tribunal. Seria este “o caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de Estado laico” e da separação entre Igreja e Estado.

Tenho para mim tratar-se de um equívoco, pois desde a adoção da República o Estado é laico e a separação entre Igreja e Estado não é novidade da Constituição de 1988, data de 7 de janeiro de 1890, Decreto 119-A, da lavra do ministro Rui Barbosa, que, de longa data, se batia pela liberdade dos cultos. Desde então, sem solução de continuidade, todas as Constituições, inclusive as bastardas, têm reiterado o princípio hoje centenário, o que não impediu que o histórico defensor da liberdade dos cultos e da separação entre Igreja e Estado sustentasse que “a nossa lei constitucional não é antirreligiosa, nem irreligiosa”.

É hora de voltar ao assunto. Disse há pouco que estava a ocorrer um engano. A meu juízo, os crucifixos existentes nas salas de julgamento do Tribunal lá não se encontram em reverência a uma das pessoas da Santíssima Trindade, segundo a teologia cristã, mas a alguém que foi acusado, processado, julgado, condenado e executado, enfim justiçado até sua crucificação, com ofensa às regras legais históricas, e, por fim, ainda vítima de pusilanimidade de Pilatos, que tendo consciência da inocência do perseguido, preferiu lavar as mãos, e com isso passar à História.

Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes no templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou. No seu artigo “O justo e a justiça política”, publicado na Sexta-feira Santa de 1899, Rui Barbosa salienta que “por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz”… e, adiante, “não há tribunais, que bastem, para abrigar o direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados”.   Em todas as fases do processo, ocorreu sempre a preterição das formalidades legais. Em outras palavras, o processo, do início ao fim, infringiu o que em linguagem atual se denomina o devido processo legal. O crucifixo está nos tribunais não porque Jesus fosse uma divindade, mas porque foi vítima da maior das falsidades de justiça pervertida.

Não é tudo. Pilatos ficou na história como o protótipo do juiz covarde. É deste modo que, há mais de cem anos, Rui concluiu seu artigo, “como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”.

Faz mais de 60 anos que frequento o Tribunal gaúcho, dele recebi a distinção de fazer-me uma vez seu advogado perante o STF, e em seu seio encontrei juízes notáveis. Um deles chamava-se Isaac Soibelman Melzer. Não era cristão e, ao que sei, o crucifixo não o impediu de ser o modelar juiz que foi e que me apraz lembrar em homenagem à sua memória. Outrossim, não sei se a retirada do crucifixo vai melhorar o quilate de algum dos menos bons.

Por derradeiro, confesso que me surpreende a circunstância de ter sido uma ONG de lésbicas que tenha obtido a escarninha medida em causa. A propósito, alguém lembrou se a mesma entidade não iria propor a retirada de “Deus” do preâmbulo da Constituição nem a demolição do Cristo que domina os céus do Rio de Janeiro durante os dias e todas as noites.

Fonte: Zero Hora

março 16, 2012 Posted by | Política | 2 Comentários

“Só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa”

Por ocasião da Colação de Grau da Turma CNA 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis (Canoas/RS) que realizou-se no dia 19 de janeiro de 2012 no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, o integrante deste blog,  Celso Augusto Uequed Pitol, escolhido orador de sua turma, proferiu o seguinte discurso que aqui será reproduzido na íntegra a pedido dos novos bacharéis, perfeitamente cônscios do sentido do “presente precioso” referido pelo paraninfo, Prof.Andrio Portuguez Fonseca.

Ilustríssimos componentes da mesa, queridos colegas formandos, senhoras e senhores.

No último dia do ano letivo de 1905 um estudante de 17 anos foi chamado ao púlpito do auditório da Academia Smith, nos EUA ,para fazer o discurso de formatura. Seu nome era Thomas Stearn Eliot. Ele era então um jovem promissor, e decerto seus colegas e professores esperavam muito dele. O que talvez ninguém imaginasse era que o jovem Thomas viria, passados alguns anos,  a ser considerado como um dos maiores poetas do século XX, figurando na história da literatura sob o nome de T. S. Eliot. Naquele momento, entretanto, era apenas o jovem Eliot – um garoto que dava seus primeiros passos no caminho da vida.

E foi com a decisão de quem dá um passo largo porém firme e animado por uma profunda convicção em si que o então jovem Eliot disse as seguintes palavras:

“De pé junto à praia que todos conhecemos

Hesitamos em dúvida por um momento

Depois, com uma canção nos lábios, velejamos

Pelos baixios da enseada – sem mapa para indicar

Sem luz para iluminar as rochas do fundo

Mas concedei ainda que nos aventuremos.

Como colonos que embarcam no cais

Em busca de fortuna numa praia distante

Bem sabem que perdem aquele tempo

Que jamais haverão de resgatar,

E quando partem compreendem cabalmente

Que, ainda que revejam sua terra natal

Não mais ali serão como cidadãos

Embora a senda seja lenta e tortuosa

Embora se crispe diante de mil temores

Ao olho crédulo da juventude ela parece

Uma vereda onde florescem o pilriteiro e  a rosa.

Esperamos que assim seja; pudéssemos sabe-lo!

Pudéssemos contemplar os anos vindouros.

Temos aí uma convocação. Eliot compara seus colegas de academia a colonos prestes a embarcar rumo ao mar desconhecido que se lhes abre à frente. Pede que sejam corajosos, que agüentem a senda “lenta e tortuosa” sem mapa nem guia ou sequer luz para lhes iluminar o caminho.

Não há promessas de se chegar ao destino desejado: a falha é um elemento presente, e por isso diz: “hesitamos em dúvida por um momento”. Mas isso é passageiro. Embarcam “com uma canção nos lábios”,  sem medo do que lhes aguarda. E mesmo sem promessas ou perspectivas definidas, o jovem Eliot projeta:

“Daqui a muitos anos, quando já formos

Velhos e grisalhos, qualquer que seja a nossa sorte,

Desejaremos contemplar ainda o sítio que,

Pouco importa o que sejamos ou o que houvermos feito,

Ou em que terras distantes possamos ter estado,

Nunca esquecemos depois de todos estes anos”.

Eliot está certo de que a viagem terá volta: está certo de que os “colonos que embarcam no cais” a ele retornarão. Está, em uma palavra, confiante.

O poema declamado não ficou esquecido numa gaveta, junto a fotos antigas, bilhetes que nunca encontraram destino e cadernos dos tempos de colégio. Considerou seu autor que mereciam a recompensa suprema da permanência: afinal, só importa aquilo que permanece, e permanece aquilo que importa.  Juntou-o a outros escritos da mesma época num só volume e deu-lhe singelo e revelador titulo: “Poemas escritos na primeira juventude”.

Ali encontramos o frescor, a vontade de enfrentar o novo, a celebração da vida tudo o que se pode esperar da primeira juventude. Mais do que tudo isso, entretanto, encontramos confiança: confiança do jovem no futuro, no sucesso, em si mesmo, no que é e no que poderá ser. Ousamos dize-lo: se há uma palavra que transparece na leitura deste poema – e usar apenas uma palavra para resumir Eliot é, no mínimo , ousadia – , esta palavra é “confiança”.

O tempo passou. Eliot já não está entre nós. Suas palavras, no entanto, permanecem vivas: afinal, só importa o que permanece, e permanece o que importa. Tal como ele e seus colegas, portamo-nos de pé “junto à praia que todos conhecemos”, à espera da “senda lenta e tortuosa”. E se nos é permitido pensar, em mais um arroubo de extrema ousadia – pois é, repetimos, momento de sermos ousados – , que podemos ter algo em comum com o autor deste poema, que seja num só aspecto de sua genial personalidade: o da confiança. É assim que desejamos portar-nos agora: confiantes no caminho que vamos percorrer.

A confiança nos será uma companheira valiosa. Se caminho aberto diante de Eliot se avizinhava lento e tortuoso, não o será menos o nosso. Ousemos novamente – pois, mais uma vez, é momento de sermos ousados – e digamos logo: nossa senda é ainda mais tortuosa e mais difícil do que a dele. Eliot e seus colegas vislumbravam o mundo pronto que diante deles se abria, o mundo com suas cores, sons, silêncios, fúrias, alegrias tristezas, vibrações – um mundo para ser visto, saboreado, conhecido, contemplado com olhos de menino admirado e assustado ante o novo. Diante de nós abre-se outro caminho: o mundo que encontramos não está aí apenas para ser contemplado com os olhos de meninos assustados. Já não estamos na primeira juventude. Não, o mundo que encontramos agora nos impõe uma tarefa – uma missão. Recebemo-la desde o momento em que entramos pela primeira vez no portão da faculdade como alunos de Direito. Ali, começamos a nos preparar para este momento de partida para o mundo – e foi um longo preparo.

Começamos investigando os fundamentos da ciência jurídica, do Estado e da Constituição, a fim de assentarmos a base sobre a qual erguer-se-ia o monumental edifício; depois, empreendemos o estudo da sociologia, do Direito Civil e dos Direitos Fundamentais, diretrizes-mestras para os homens viverem em harmonia: até este momento somos primeiranistas e o Direito se nos parece uma lindíssima discussão entre alguns dos maiores nomes do pensamento humano; a seguir, como que para coroar nossa entrada no mundo mais duro dos adultos, vemos os contratos e as obrigações – o que só é facultado aos adultos – e os primeiros passos de processo civil. Assim seguimos no estudo das relações familiares, que é coisa de adultos mas exige que entendamos um pouco aqueles que ainda não são adultos; entra o terceiro ano de faculdade e adentramos com força nos domínios da propriedade, do capital e do trabalho: estudamos a empresa, os títulos de crédito, o direito das coisas  e o direito trabalhista. No quarto ano, já somos suficientemente grandes para confrontarmos o Direito Penal e descermos aos subterrâneos da espécie humana guiados por nossos professores, como Dante guiado por Virgílio pelos subterrâneos do mundo. No último e derradeiro ano somos levados para o alto, para longe destas profundezas – estudamos as impessoalidades do Direito Administrativo, do Direito Econômico, do Direito Tributário, Societário e Internacional. Nestas alturas terminamos nossos anos de formação – tudo mediado e facilitado pela amizade e pela convivência com os colegas que se tornaram nossos amigos nestes anos todos. Antes, falávamos por nós e agíamos por nós. Hoje, falamos por nós e por todos aqueles que desde a aurora dos tempos ajudaram a fazer do Direito não apenas uma ciência mas uma realidade concreta, e do estudante de Direito e do jurista promotores desta ciência e desta realidade. É esta régua pela qual seremos medidos daqui para frente. Nada mais, nada menos.

Ser medido por esta régua é difícil. É difícil também mantermo-nos dentro de seus limites. O mar que se nos abre à frente é cheio de perigos. Suas águas revoltas não perdoarão marinheiros mal preparados e navios mal construídos, e sua imensidão guarda terras ignotas, perigosas e viciadas. Camões parecia saber disto ao exortar seus compatriotas a dilatar a fé e o Império em sua obra maior, “Os Lusíadas”: também nós, a cada metro que vencermos em alto mar, estaremos dilatando o Império do qual nos fizemos súditos e da fé em que fomos batizados durante nestes anos de formação: a fé na Justiça e o Império da lei.

É claro que esta empresa não se conseguirá  por espasmos de grandiosidade, e não fincará solo pelas simples palavras. Serão os nossos atos cotidianos, pacientes, aparentemente simples que levarão a termo a tarefa que recebemos. As vicissitudes da vida nos levarão para trajetórias diversas. Se hoje, aqui sentados, estamos um ao lado do outro, sabemos no fundo que, no futuro, não será mais assim: sabemos, no fundo, que chegará o momento em que, perdidos em alto mar, cercados de perigos, olharemos para o lado e não mais veremos a face amiga de nossos companheiros de fé. Chegará, sim, o momento em que nos sentiremos solitários em alto mar. Pareceremos então sozinhos, desconectados um do outro. Apenas pareceremos. Estar junto nada mais é do crer nas mesmas coisas. E nós, daqui para diante, se agirmos conforme a fé que recebemos e dilatarmos o Império que habitamos, mesmo que não vejamos uns aos outros, estaremos juntos para sempre. Mas é preciso que, contra vento e maré, dilatemos a fé e o Império.

Eis a missão que nos é dada hoje, nesta noite.

É então chegada a hora da partida. Da praia que todos conhecemos avistamos o mar revolto que iremos enfrentar. Estamos munidos da graça concedida, da fé que professamos, do aprendizado que recebemos, do estandarte do Direito a ser carregado por onde estivermos e fincado onde ele não imperar. Já é ousadia suficiente. Mas o momento, repetimos, é dos ousados. E por isso, ousamos pela terceira vez. E ousamos agora fazer um pedido – um longo pedido Àquele que, acreditamos – ao menos aqueles que acreditam – , será capaz de atendê-lo. Pedimos que a travessia que fizermos, conquanto longa, seja repleta de todo o melhor que uma travessia pode trazer; que ela sirva para pôr em prática o que aprendemos, e para que aprendamos ainda mais; que o passar do tempo não nos transforme no futuro em simples ex-colegas de faculdade; que as tempestades que enfrentarmos não nos impeçam, e que as dificuldades não nos endureçam – que permaneça entre nós um pouco deste nosso olhar de meninos assustados e admirados diante da vida, um pouco do que nos resta da primeira juventude; e que, ao reunirmo-nos de novo nesta praia, restem apenas as melhores lembranças da longa travessia. E que nunca, nunca, deixemos de confiar – no que aprendemos nestes anos de formação, no que aprenderemos no caminho que escolhermos e, principalmente, e ao fim de tudo, no que somos. Pois só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa.

Muito obrigado.

janeiro 26, 2012 Posted by | Geral | 6 Comentários

A Jornada dos Magos

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália

T.S. Eliot escreveu “A Jornada dos Magos” em 1927, para uma série de cartões ilustrados da editora Faber and Gwyer (atual Faber and Faber) intitulada “Poemas de Ariel”. Escreveu-o pouco depois de ter se convertido ao cristianismo, a portas fechadas e sem alarde, para, dizem, não ferir as suscetibilidades do meio literário. A conversão acabou com seu casamento e trouxe-lhe a pecha de poeta cristão, altamente negativa em certos círculos: deixou-nos, no entanto, esta página e muitas outras: escrito sob o ponto de vista de um dos três Reis Magos a testemunhar o nascimento de Jesus, “A Jornada dos Magos” é, até certo ponto, testemunha do momento vivido pelo próprio Eliot – momento que, creio, é o mesmo para todos os convertidos.

Aqui está uma leitura do poema feita por Eliot, precedida de uma breve explicação.

A tradução é de Ivan Junqueira.

 

*                  *                    *                        *                    *                    *                      *                   *

 

“Foi um frio que nos colheu

Na pior quadra do ano

Para uma viagem, e longa era a viagem:

Os caminhos enlameados e o tempo adverso

Em pleno coração de inverno.”

E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,

Jaziam em meio à neve derretida.

Foram momentos em que recordamos

Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,

As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.

E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam

E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.

E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,

As cidades hostis, as vilas inóspitas,

As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.

Foi uma rude quadra para nós.

Ao fim preferimos viajar à noite

Dormindo entre uma e outra vigília,

Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo

Que aquilo tudo era uma loucura.

E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,

Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,

Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,

E três árvores recortadas contra o céu baixo,

E um velho cavalo branco a galope pelo prado.

E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;

Seis mãos se viam pela porta entreaberta

A disputar peças de prata com seus dados,

E pés que golpeavam os odres já vazios

Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos

Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,

E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.

Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,

E outra vez o farei, mas considerai

Isto considerai

Isto: percorremos toda aquela estrada

Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,

Tinhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,

Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,

Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.

Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,

Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,

Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.

Uma outra morte me será bem vinda.

dezembro 24, 2011 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Bo Diddley

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novembro 11, 2011 Posted by | Música | Deixe um comentário

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

 

Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se  para o Ensino Superior.

Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.

 

O Timoneiro: Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?

Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo  e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.

OT: Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.

CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.

OT: A idéia é mapear toda a cidade?

CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.

OT: Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?

CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos  de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade.  Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.

OT: Quais disciplinas ministrou?

CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.

OT: Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?

CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.

OT: Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?

CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido,  foi condenada e foi para a prisão.   Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.

OT: Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?

CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.

OT: Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?

CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.

OT: E não são vozes iguais.

CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.

OT: Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?

CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia,  mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.

OT: A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…

CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.

OT: Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?

CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim,  muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.

outubro 21, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 3 Comentários

Dica para Rafinha Bastos

Para quem quer aprender a fazer humor “politicamente incorreto” de verdade.

outubro 12, 2011 Posted by | Mundo pop | Deixe um comentário

Minha querência (Leopoldo Rassier)

Nossa singela lembrança do 20 de setembro.

setembro 19, 2011 Posted by | Geral, Música | 2 Comentários

Conselho do He-Man para nossos amigos colorados

Em nome do espírito esportivo, o Blog Perspectiva dirige-se aos seus leitores colorados e oferece, magnânima e bondosamente, o ombro amigo em hora difícil.

Afinal, perder um jogo em que dois pênaltis óbvios não são marcados, com atuação constrangedora do so-called melhor centroavante brasileiro do momento e a melhor apesentação de um lateral-direito desde que Arce saiu do Olímpico deve ser mesmo motivo de imensa tristeza.

Nestes momentos, só apelando para o He Man.

agosto 29, 2011 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

Rádio Gaúcha e o descompromisso

Estava eu ouvindo o programa “Esportes ao Meio-Dia”, na quarta-feira, quando duas pérolas proferidas em menos de cinco minutos me compeliram a desligar o rádio.

A primeira se refere ao provável time escalado por Julinho Camargo para o jogo entre Figueirense x Grêmio. O réporter (confesso que não recordo o nome), ao especular sobre  o ataque mencionou os nomes de André Lima e Leandro. E, na sequência, dispôs que Miralles, desde a época do Renato, ainda não conseguiu uma atuação convincente que o credencie ao time titular.

Esquece o repórter que a primeira partida de Miralles pelo Grêmio foi contra o Avaí, última partida de Renato no comando da equipe. Miralles, naquele jogo, entrou quando o Grêmio perdia por 2×0. Atuou bem e foi um dos responsáveis pela reação do time e consequente empate.

Após a partida contra o Avaí, jogou mais dois ou três jogos e, se não me engano, sempre entrando no decorrer da partida. Pergunto-me: diante de tais fatos é possível afirmar que teve Miralles oportunidade de ser ou não convincente?

A segunda pérola foi proferida por um cidadão chamado Simões. Segundo ele, em 2007, no Campeonato Brasileiro, o Grêmio estava 11 pontos à frente do segundo colocado e ainda assim não conseguiu manter a vantagem. Esqueceram de avisá-lo que isso foi em 2008.

Descompromisso com os fatos, no mínimo.

julho 20, 2011 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

Palestra: Introdução ao Trivium

A importância do estudo do Trivium

para o pensamento filosófico

 

com o prof. Marcus Boeira*

 

CONTEÚDO:

- A inserção de Aristóteles no ocidente medieval;

- O panorama político: o Império carolíngeo e a cosmovisão cristã;

- O pensamento grego e a tradição cristã;

- As artes liberais: o Trivium;

- Inteligência e realidade;

- O desenvolvimento posterior: a origem das universidades e a erupção do edifício cultural europeu.

QUANDO: dia 21 de JULHO/2011 (quinta-feira).

HORÁRIO: das 19h às 22h.

ONDE: Premananda: Centro de Terapia e Cultura. Rua Domingos José de Almeida, 161. Bairro Rio Branco/Porto Alegre – RS. [www.premananda.com.br]

 

 

INSCRIÇÕES (antecipadas): pelos fones

           51 33988998       ou            51 81068456      .

 

INVESTIMENTO: R$ 50,00

 

OBS.: Havendo interesse dos participantes, a palestra poderá ter continuidade no formato de um Curso sobre o Trivium.

 

Professor de Filosofia Política. Mestre e doutorando em Direito do Estado pela USP.

Premananda: Centro de Terapia e Cultura Védica
Porto Alegre/RS
Rua Domingos José de Almeida, 161. Bairro Rio Branco
Fones: 33988998 / 81068456

julho 20, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

PPS Canoas propõe a criação de Secretaria em defesa dos animais

A Executiva Municipal do PPS de Canoas apresentou no último dia 17 de junho ao prefeito de Canoas Jairo Jorge,  a criação da Secretaria Especial de Defesa dos Direitos dos Animais.

Entregue ao prefeito pela executiva do partido, a proposta visa implementar medidas para resolver o problema dos animais abandonados em Canoas, bem como impedir os maus tratos aos mesmos. “O prefeito gostou da sugestão e disse que iria determinar a área competente e os estudos necessários para avaliar a proposta. Na nossa proposta, a secretaria terá autonomia orçamentária e poderá, assim, trabalhar em conjunto com entidades não-governamentais”, diz Celso Pitol, presidente municipal do partido.

Boa iniciativa. Atos concretos e não conversa fiada.

julho 12, 2011 Posted by | Política | Deixe um comentário

Prefeitura de Porto Alegre disponibiliza telefones para socorrer pessoas expostas ao frio

A Prefeitura de Porto Alegre disponibilizou dois números para atender moradores de rua expostos ao frio nestes dias de inverno congelante.

Quem encontrar algum, não deve deixar de ligar para os números são 3289 4994 (para menores) e 3346 3238 (para adultos).

 

junho 29, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Entrevista: Roberto Tietz, professor e técnico de vôlei

Sou e sempre serei um lassalista

Há muitas maneiras de caracterizar o trabalho e a pessoa de Roberto Tietz. Podemos falar de sua carreira exitosa como técnico da Ulbra , do Pinheiros (SP) e, atualmente, do Pallavollo Lugano, da Suiça, de seus 25 anos como professor e treinador de equipes escolares, de seus novos projetos na área de educação infantil e de muitas outras coisas. Eu prefiro defini-lo com uma palavra: como um amador. E não como qualquer amador. Falamos aqui de um amador que, não contente com o lugar periférico destinado aos amadores, adentra o sagrado espaço ocupado pelos profissionais e ainda a tem a petulância de reclamar que este sagrado espaço está, vejam só, demasiadamente profissional. Uma conduta assim é um prato cheio para ser ridicularizada. É fácil escarnecer de um amador. O problema é quando o amador é querido e admirado pelos alunos, escrupulosamente cuidadoso e meticuloso em seu trabalho e, assim, muito bem sucedido no que faz. O problema torna-se pior quando o amador, sendo amador, ajudou a construir muito do ambiente que hoje os profissionais habitam. E o problema torna-se ainda mais difícil de resolver quando o amador prova factualmente que ser amador é melhor do que ser profissional. O que fazemos com um amador desses? Talvez o melhor seja, em vez de chamá-lo de amador – termo que a percepção menos treinada pode levar a interpretações equivocadas – qualifica-lo de outra forma. Façamos isso, então. E eu, na condição de amigo e ex-aluno de Tietz, vou defini-lo, mais uma vez, com uma palavra: como um verdadeiro e vocacionado educador.

OT: És natural de Canoas?

RT: Nasci em Porto Alegre, em 1966, mas desde que nasci moro em Canoas. Tive alguns hiatos sem morar aqui e isso foi bom para construir um sentimento de cidadania , uma noção do que temos de bom e do que não é tão bom. Eu, quando era pequeno, durante 4 anos morei em Caçapava do Sul. Anos depois morei em Santos e São Paulo. Aí, quando saí da Ulbra, que me proporcionou conhecer todo o país, fui morar em São Paulo para trabalhar no Pinheiros, o maior clube social do país. Mas a base continuou sempre aqui. Nunca deixei de ter minhas coisas aqui. Cheguei a ter um semestre em que eu voltava de São Paulo toda segunda para dar aula em Canoas, no Unilasalle.

OT: Quando começou a tua relação com o La Salle?

RT: Depois de me formar no La Salle, no segundo grau, fui ser professor ali. Estou há 25 anos no La Salle, completados neste ano. 25 anos sem interrupções. Entrei em 1987, ainda era estudante de educação física, e criei minha história como professor, cordenador de educação física, coordenador da escola, até quando o reitor me pediu que eu ajudasse na construção do curso de educação física. Fui o primeiro coordenador do curso. De lá sai do colégio e passei a ser somente professor da universidade. Trabalhei também no Maria Auxiliadora, dei cinco anos de aula lá. Entrei na Ulbra e me obriguei a sair do Auxiliadora, mas não quis, de maneira nenhuma, sair do La salle. Foi uma exigência que, inclusive, fiz ao pessoal da Ulbra na época.

OT: Fala um pouco dessa tua relação com o La Salle.

RT: Eu acho que o La salle faz parte da história de Canoas e do canoense. Mesmo quem não foi aluno. Porque o La Salle tinha uma relação muito estreita com a cidade, hoje, não tenha a certeza de que ela seja tão estreita, até porque a cidade cresceu. Mas se tu pegares a própria expansão do centro de Canoas, por exemplo, vais ver que muito disso passou pela relação com o La Salle. As ruas do centro, boa parte delas passava pelo terreno dos irmãos lassalistas, a XV de Janeiro passou por dentro do La salle, enfim, eu acho a nossa geração – a minha e depois a tua – ainda trouxe esse vinculo com o La salle. E eu sinto esse vínculo de maneira muito forte. Tanto que, hoje, eu vejo que o La salle é muito profissional e isso me incomoda como lassalista – e eu sou e sempre serei um lassalista– porque acho que certas coisas estão se perdendo.

OT: Como assim?

RT: Lembro da quadra que ajudei a pintar, das idéias que eu dei, de como as coisas eram e mudaram…..essa história não pode ser desprezada. Hoje, muito da educação superior está ligada às leis do MEC, que exige, entre outras coisas, que é preciso ter doutorado. O que vale é o numero de doutores. Quando começamos o curso de Educação Física, eu deixei claro que gostaria de indicar alguns professores que seguem os valores e estão ligados às raízes da instituição. Lembrei que aqui funciona um colégio, que está fundado sob as bases de São João Batista de La Salle, o padroeiro dos professores, e que isso deve estar sempre presente como filosofia da instituição. Por exemplo: para mim, era importante que um professor universitário fizesse a reflexão com os alunos no começo das aulas, como La Salle fazia. Isso para o MEC não tem valor, mas, para mim, é o que constrói um verdadeiro professor. Isso é o tipo de coisa que não se vê mais. Eu vejo às vezes professores universitários que nunca deram aula na vida! É normal vermos doutores que saem da graduação, que têm tese, livros publicados e viram assim professores. Para esses eu pergunto: como é que eu resolvo quando um aluno briga com o outro? E o que eu gostaria de fazer é que ele saísse como tu, um lassalista, uma pessoa que recebeu os ensinamentos de La Salle. Eu queria (e ainda quero) que um professor de Educação Física do La salle fosse um professor diferenciado, com essas raízes. Não sei se a gente consegue isso ou não, mas é o que eu procuro sempre passar para os alunos. Logo na minha primeira aula eu ponho um pensamento na lousa. E eu nunca falo do meu currículo, ainda que muitos dos meus alunos saibam que sou técnico profissional. O currículo que eu trago para a sala de aula é o de duas décadas como professor, não os cursos que eu tive aí fora ou porque fui campeão brasileiro. O que me faz ser , na minha avaliação, digno daquele momento, é a minha história dentro do La salle como professor.

OT: Às vezes, as exigências de doutorado e mestrado acabam alçando à condição de acadêmico pessoas que talvez não devessem ter optado por esse caminho e, ao mesmo tempo, barrando genuínas vocações de professores.

RT: Exato. E isso, infelizmente, acontece e muito nas licenciaturas. Mas na minha área eu posso dizer que é importante ter experiência. O aluno me diz “professor, estou no estágio, tenho essa dificuldade” e eu vejo que essas dificuldades eu já passei como professor , como aluno, como estagiário, então eu posso solucionar. Dentro da universidade sou muito mais ligado ao aluno, ao estagiário e ao professor do que à pesquisa. A pesquisa hoje eu faço com os profissionais. Na área da preparação física eu tenho um profissional da preparação física, e eu trabalho junto com ele.

Equipe de vôlei do La Salle de 1999 durante o torneio CECA, treinada por Roberto Tietz.

OT: Nunca me esqueço de uma frase do Larri Passos (treinador do Gustavo Kuerten) dizendo que o esporte de alto rendimento não é saúde, e sim desempenho. Concordas?

RT: Concordo. A dor e o desconforto são lei dentro do esporte profissional. Não é que não seja saúde, ele é contrário à saúde. O jogador convive com a dor, quando terminar a carreira terá dores e ele tem que ter noção disso e ser valorizado por isso. Mas, e alguém pode perguntar: porque se justifica o esporte profissional? Primeiro, porque o esporte é uma empresa. Há o patrocínio, há o COI, a FIFA, grande parte do patrocínio mundial está ligado ao esporte. Assim, o esporte gera emprego. Dizer “eu sou contra o esporte” é dizer “eu sou contra o Google, a Gerdau”. Vamos querer tirar essas coisas do planeta? Não, não é? Tomemos, então, o exemplo da Fórmula 1. Muito do que eu falei que é feito lá, como esporte de ponta, anos depois vai cair no teu automóvel. Nesse sentido, o esporte de alto nível se justifica também pela saúde. Muito da saúde está ligado à experiência no esporte. Os próprios planos de saúde estão muito ligados ao esporte por prevenção. A maratona, por exemplo, gera muitas informações para quem quer correr por lazer. Enfim, quando tu fazes um esporte de lazer ele está ligado indiretamente ao esporte de ponta. Mas o esporte de ponta, em essência, não é saúde.

OT: Técnicos como o Bernardinho, da seleção brasileira, com um estilo muito expansivo, costumam ser assim também fora da quadra?

RT: Só dentro da quadra. Fora dela o Bernardinho é uma criança. É um cara com palestra ótima e eu tenho muito do jeito dele. Na beira da quadra eu passo por um cara nervoso. Como exercício, eu te digo, muito é teatro. Na Suíça, eles são muito mais calmos. Lembro que nos primeiros jogos o meu assistente técnico, que é croata, disse assim “calma, Roberto, calma”, porque ele achava que eu estava nervoso (risos). Mas isso é importante para o time , para o jogador, pois assim eles sabem que alguém está ali junto com eles, brigando junto com eles. Isso são técnicas. Eu treinei a equipe do CSSGAPA máster por décadas, dava treino e uma das coisas que eu sempre me lembro é que diziam “tu briga, briga com a gente e termina o jogo a gente vai tomar uma cerveja”. Eu não brigo com a pessoa, brigo com o atleta naquele momento. O Bernardinho, por exemplo, tem o grupo na mão, como amigos. Ele tem o respeito dos atletas. Para mim, é o melhor treinador do mundo.

OT: Como se deu a tua ida para a Suiça?

RT: O Pallavolo Lugano me chamou porque eles queriam sair da condição de uma equipe intermediaria para equipe de ponta, então era interessante para eles que tivessem um técnico com formação gerencial, como é o meu caso. O trabalho vem sendo muito satisfatório. Terminamos o campeonato em quinto lugar empatados com outros três times, ou seja, terminamos, na verdade, na terceira colocação. Isso nunca havia acontecido na historia do Lugano. Foi tão satisfatório que abri portas lá. Fiquei sabendo essa semana que o técnico do time que tinha sido campeão suíço no ano retrasado será o Carlos Schwanke , que foi meu jogador, e isso me deixou muito contente, pois sabemos que técnicos fecham e abrem mercado. Assim como há países em que não entram técnicos brasileiros porque alguns profissionais nossos fecharam o mercado.

OT: Como foi a, digamos assim, “transição”  para o mundo Suíço?

RT: Eu sempre digo que em dez anos vou ser prefeito de Canoas e aí vou aplicar algumas coisas simples que gente vê lá e que dão resultado e não sei por que não são feitas (risos). Eu queria que pagassem uma passagem para os políticos brasileiros fazerem um estágio lá e verem como são feitas as coisas. Primeiro, eu estou numa parte da Suíça que é o sonho de todo italiano e o sonho de final de carreira de todo suíço. A Suíça italiana é a Itália que deu certo. É muito mais rica que organizada que a Itália, tanto que a quantidade de italianos trabalhando lá é muito grande. E a Suíça do norte é muito mais rica e organizada do que a parte onde estou , mas quando alguém se aposenta quer ir pra lá, pois é mais tranqüilo e quente, é a chamada Suíça Tropical. Eles dizem que Lugano é o Rio de Janeiro da Suíça e tem até um morro que lembra o Pão de Açúcar. Agora está fazendo 30 graus, o que é difícil no norte da Suíça. Em Lugano, o verão é de 25 a 35 graus, como o nosso, e como tem a região de lagos há muitos esportes de verão. É uma praia sem mar. E com uma qualidade de vida excepcional.

OT: A receptividade das pessoas à tua presença foi boa? Houve algum choque cultural?

RT: O que houve de choque cultural foi essa coisa latina que eu tenho como técnico, porque esse meu estilo mais “passional” assustou um pouco os suíços (risos). Tem cidades em que a torcida somente bate palmas, ficam calmos o jogo todo. Certa vez, fui jogar no interior da Suíça com um time muito pequeno e, enquanto o técnico do time pequeno ficava sentado no banco e falava com o time nos pedidos de tempo, eu, com o meu time, berrava todos os palavrões em português (em italiano não podia dizer) durante o jogo e a torcida olhava um pouco para a bola e um pouco para mim. Quem fazia o maior barulho em quadra era eu. (risos).

OT: Como o vôlei brasileiro é visto no exterior?

RT: Como o melhor do mundo. Nós somos muito admirados e conhecem muito bem os nossos jogadores. Temos uma filosofia de trabalho muito respeitada. Aqui no Brasil se treina mais, se treina quase à exaustão , no limite do jogador físico e psicológico. A Itália treina um pouco menos, a Suíça muito menos em termos de horas-treino. Essa coisa de ir atrás de jogo, estatística, os grandes centros fazem como nós mas fazem diferente, usam a estatística mas fazem diferente. Acho que temos um pouco mais expertise para analisar essas informações.

OT: Qual o nível atual da nossa liga em comparação com a dos outros países?

RT: Olha, é das melhores. Está entre as mais competitivas, porque muitos jogadores brasileiros voltaram. Estão querendo trazer estrangeiros, inclusive, como aconteceu no inicio da superliga.

OT: Como avalias, como um balanço geral, a tua experiência na Suíça?

RT: Eu tive muito prazer em vivenciar algo que é muito bom e, no entanto, possível de se realizar. Acho que existem muitas coisas pequenas que podemos fazer, a gente fala muito da educação e faz muito pouco. E acho que também temos que aprender com o vôlei, coisas novas em termos de trabalho, de maneira de trabalhar. Mas a nossa casa é sempre a melhor , o melhor pais do mundo é o Brasil, mas tem lições simples de cidadania e respeito que poderíamos tirar deles.

junho 25, 2011 Posted by | Entrevistas | 2 Comentários

Nélsinês lança obra na Feira do Livro de Canoas

junho 16, 2011 Posted by | Literatura | 1 comentário

Discurso de Borges agradecendo ao Prêmio Cervantes de 1980

http://www.youtube.com/watch?v=vo2Eo-G-1sE&feature=player_embedded#at=124

Majestades,

Senhoras e senhores,

O destino do escritor é estranho, mas todos os destinos o são; o destino do escritor é cursar o comum das virtudes humanas, as agonias, as luzes; sentir intensamente cada instante de sua vida e, como queria Wolser, ser não somente ator, mas também espectador de sua vida. Também tem que recordar o passado, tem que ler os clássicos, já que o que um homem pode fazer não é nada, podemos simplesmente modificar muito levemente a tradição; a linguagem é nossa tradição. O escritor tem uma desvantagem: o fato de ter que operar com palavras, e as palavras, como se sabe, são uma matéria efêmera.

As palavras, como Horacio não ignorava, mudam de conotação emocional, de sentido; porém o escritor tem que se resignar a este manejo, o escritor tem que sentir, e logo sonhar, logo deixar que lhe cheguem as fábulas; convêm que o escritor não intervenha demasiado em sua obra, deve ser passivo, deve ser hospitaleiro com o que lhe chega e deve trabalhar essa matéria dos sonhos, deve escrever e publicar, como dizia Alfonso Reyes, para não passar a vida corrigindo os rascunhos, e assim trabalha durante anos, e se sente sozinho, vivo numa sorte de sonho; porém se os astros são favoráveis, uso deliberadamente as metáforas astrológicas, ainda que deteste a astrologia, chega um momento no qual descobre que não está sozinho. Nesse momento que lhe chega, que lhe chega agora, descobre que está no centro de um vasto círculo de amigos, conhecidos e desconhecidos, de gente que leu sua obra e que a enriqueceu, e nesse momento ele sente que sua vida foi justificada.

Eu agora me sinto mais que justificado, me chega este prêmio, que leva o nome, o máximo nome de Miguel de Cervantes, e recordo a primeira vez que li o Quixote, ali pelos anos de 1908 ou 1907, e creio que senti, naquele momento, o fato de que, apesar do titulo enganoso, o herói não é dom Quixote, o herói é aquele fidalgo manchego, o senhor provinciano que diríamos agora, que à força de ler a matéria da Bretanha, a matéria da França, a matéria de Roma, a Grande, quer ser um paladino, quer ser um Amadís de Gaula, por exemplo, ou Palmerín ou quem fosse, esse fidalgo que se impõe essa tarefa que algumas vezes consegue: ser dom Quixote, e que ao final comprova que não o é; ao final volta a ser Alonso Quijano, ou seja, que há realmente esse protagonista que costuma se esquecer, este Alonso Quijano.

Quero dizer, também, que me sinto muito comovido. Tinha preparadas muitas frases que não posso recordar agora, porém há algo que não quero esquecer, e é isto: comove-me muito o fato de receber esta honraria das mãos de um Rei, já que um Rei, como um Poeta, recebe um destino, aceita um destino e cumpre um destino e não o busca, ou seja, se trata de algo fatal, lindamente fatal, não sei como dizer minha gratidão, somente posso dizer meu incalculável agradecimento a todos vocês…

Muito obrigado.

Fonte: http://www.45graus.com.br/borges-por-suas-proprias-palavras-agradecendo-o-premio-cervantes-em-1980,periscopio,67111.html

junho 14, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Lançamento de “Prática Jurídica”, de Juliana Leite Ribeiro do Vale

A prática jurídica é tema de especial importancia para todos aqueles que pretendem dedicar-se ao Direito como atividade profissional. Os conhecimentos jurídicos teóricos tornam-se insuficientes para enfrentar o dia a dia forense e, não raro, brilhantes estudantes encontram aí imensas dificuldades.

O livro que será lançado neste sábado pela Editora UniRitter de autoria de Juliana Leite Ribeiro do Vale e Maria Lúcia B. Morais certamente será instrumento de grande  ajuda para estudantes e profissionais do Direito.

Juliana Leite Ribeiro do Vale é professora da UniRitter nas disciplinas de Família e Sucessões e Prática Jurídica, tendo como característica de suas aulas a ênfase em fazer com que o aluno seja capaz de entender os fundamentos do Direito e aplicá-los aos casos concretos. Seu carisma e assumido amor pelo Direito tornam as horas noturnas de  suas aulas algo prazeiroso para seus alunos. Se o livro reproduzir o espírito presente nas salas de aula de Juliana sua leitura será certamente proveitosa.

Repetindo o bordão de um conhecido site de vendas: Recomendo

junho 10, 2011 Posted by | Sem categoria | 2 Comentários

Chuta pro gol!

Olímpico, onze da manhã de sábado, dia 7 de maio. Nesta agradável manhã de outono, aproximadamente 500 pessoas acompanhavam o treino do Grêmio com vistas ao Gre-Nal de amanhã. Torcedores de todas as idades, raças, credos e procedências criam um ambiente de tranquilidade e apoio ao time.

Terminado o treino, saem os jogadores, sob aplausos, e permanecem no campo apenas Paulo Odone e Renato Portaluppi, conversando. De repente, da social levanta um rapaz e grita, a plenos pulmões, as seguintes palavras:

- Chuta pro gol!

Grita uma, duas, três, dez vezes. Talvez mais. Grita até ficar sem ar. Pára um pouco, toma um pouco mais de ar e continuar a gritar: Chuta pro gol! Chuta pro gol!

A torcida fica atônita. As crianças páram de brincar de pega-pega nas escadas da social. Os senhores param de preparar o chimarrão. Os funcionários param de limpar. Os geraldinos param de discutir a melhor tática para o jogo de amanhã. Os cachorros páram de brigar entre si. Os pombos param de voar e postam-se em fila indiana próximos à linha lateral do campo.

Tudo pára. Todos olham para o rapaz ,como se quisessem perguntar: “Para que isso, tchê?”.

Como se tivesse ouvido a pergunta, o rapaz responde, também aos gritos:

- O Jonas não era nenhum gênio! Ele só chutava pro gol! Eu moro em São Paulo, sofro a mil quilômetros daqui e vim para cá só para dizer isso! CHUTA PRO GOL!

A paralisia gera dura mais uns trinta segundos, tempo suficiente para a massa receber e processar a informação. O próximo passo é a resposta. E a resposta vem logo depois, da boca de dezenas ali presentes.

- CHUTA PRO GOL! CHUTA PRO GOL!

Aos gritos. A plenos pulmões.

O rapaz vindo de São Paulo talvez não tenha imaginado – ou talvez tenha – mas conseguiu canalizar, em três palavras , o que a torcida espera que os atacantes façam amanhã.

P.S.: Um registro importante: Paulo Odone saiu pelo Portão do Largo dos Campeões, pela frente, conduzindo seu  carro. No trajeto, foi cumprimentado por vários torcedores do Grêmio. Uma demonstração de comprometimento e confiança no comportamento civilizado de sua torcida.

maio 7, 2011 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

Ernesto Sábato (1911-2011)

“Viver consiste em construir recordações futuras”

maio 1, 2011 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Entrevista com Ernesto Sábato

abril 30, 2011 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Tolkien e a Ressurreição

(….) Cunhei a palavra eucatástrofe : [significa] a repentina mudança feliz em uma história que o atinge com uma alegria que os leva às lágrimas (….) A Ressurreição foi a maior eucatástrofe possível no maior Conto de Fadas – e produz aquela emoção essencial: a alegria cristã que produz lágrimas por ela ser qualitativamente tão parecida com o pesar, pois vem daqueles lugares onde a Alegria e o Pesar são um só, reconciliados, assim como o egoísimo e o altruísmo se perdem no amor.

É claro que não quero dizer que os Evangelhos contam apenas um conto de fadas; o que quero dizer é que eles realmente contam um conto de fadas: o maior”.

Carta de J.R.R. Tolkien para seu filho, Christopher Tolkien

abril 24, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

São Jorge, padroeiro dos guerreiros

“São Jorge matando o Dragão”, relevo em mármore de Donatello, Museu del Bargello, Florença-Itália

São Jorge é um dos santos mais populares da Igreja e, talvez por isso, um dos mais requisitados para o cargo de padroeiro. O guerreiro nascido na Capadócia (região da atual Turquia ) é escolhido como padroeiro de clubes de futebol , a Catalunha, a Inglaterra, a Lituânia, a Geórgia, Moscou, Gênova, várias ordens milares e instituições do mundo inteiro. Mas será que é apenas o grande número de fiéis que dá a São Jorge toda essa importância, digamos, institucional?

Primeiro, cabe perguntar o que um clube de futebol, nações, cidades e exércitos têm em comum. Resposta: a luta. Seja no campo de jogo ou no campo de batalha, jogadores e soldados recebem o nome de “guerreiros” por aqueles que torcem pelo seu sucesso. E São Jorge é o santo guerreiro por excelência, aquele que, mesmo nos piores momentos, jamais perde a fé na vitória. Não lhe faltou chance para provar isso. Soldado romano, erguido à condição de membro da corte numa época de violenta perseguição contra cristãos, Jorge fez defesa apaixonada do cristianismo diante dos seus próprios pares. Perguntado sobre o que era o cristianismo, Jorge respondeu: “É crer na Verdade”. Ao que um cônsul perguntou: “E o que é a verdade?”. E ele respondeu: “A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e Nele confiado me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade.”

Não é preciso dizer que, naquela época, quem fizesse semelhante defesa apaixonada do cristianismo era imediatamente morto. Não foi o caso de Jorge: primeiro, o imperador pediu que ele fizesse uma retratação pública. Não a fez. Depois, mandou torturá-lo de várias maneiras. Também não obteve sucesso. Aliás, conforme o processo de “persuasão” avançava, Jorge ganhou cada vez mais notoriedade e respeito por parte da população, – incluindo aí a própria mulher do imperador, que se converteu ao cristianismo. Quando enfim foi degolado, no dia 23 de abril de 303, já era uma figura célebre pela sua resistência e fé incomuns.

A imagem clássica de São Jorge lutando contra o Dragão dá bem a noção da mensagem que São Jorge passou para a humanidade. Mesmo contra um adversário muito maior e armado apenas de uma lança, Jorge joga-se sobre ele com a confiança daqueles que nada temem porque têm ao seu lado um aliado indestrutível que jamais os abandona mesmo depois da morte. Como os georgianos, que homenagearam o santo dando-lhe o nome da pátria. Como os soldados ingleses nas cruzadas, que morreram com a cruz estampada na bandeira. Como todos, enfim, que buscam um espelho de força e garra para as lutas que o homem é obrigado a enfrentar diariamente.

Oração de São Jorge

abril 23, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Dia internacional do café

Nós, assumidos cafemaníacos homenageamos os Dia Internacional do Café com o vídeo abaixo:

http://wp.me/s6yds-cafe

abril 14, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Espetáculo musical Berry – Canção Francesa Contemporânea



abril 1, 2011 Posted by | Música | Deixe um comentário

SARAU EM LÍNGUA INGLESA NA LIVRARIA CULTURA- “Um tributo à amizade e aos livros!”


DATA: 9 DE ABRIL DE 2011 (SÁBADO)

LOCAL: AUDITÓRIO DA LIVRARIA CULTURA, SHOPPING BOURBON COUNTRY. Av. Túlio de Rose, nº 100.

HORÁRIO: 16 -17:30

ENTRADA FRANCA

COORDENAÇÃO: MARIA DA GRAÇA GOMES PAIVA (PROFA. APOSENTADA DA UFRGS) e KLEBER SCHENK (UFRGS)

ATIVIDADE DE EXTENSÃO (PROREXT/UFRGS)

Tema: Um tributo à amizade e aos livros!

 

O próximo Sarau em Língua Inglesa na Cultura, edição 2011, abordará um tema tão em voga quanto relevante desde o início da civilização: a amizade e sua importância nas nossas vidas; amigos que vão e vem, que se perdem e que se ganham; que estão perto e que estão longe; que estão conosco nos momentos de alegria e nos momentos de dificuldade e que deixam marcas em nossa trajetória de vida. Neste mês de abril relembraremos grandes personalidades do dia 23, que é o dia de São Jorge, padroeiro da Inglaterra, deus da guerra no Brasil e deus do amor na Catalunha; e também o Dia Internacional do Livro, celebrado nesta data em função do aniversário da morte de dois grandes autores: William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Também trataremos, por meio de citações, vídeos, pequenos poemas e de um fórum interativo, os assuntos sugeridos pelo público, tais como: Ray Charles, Páscoa, Joseph Campbell, entre outros. O Sarau na Cultura sempre acontece em um clima descontraído e animado com o intuito de desenvolver aautoexpressão em língua inglesa, em um lugar extremamente agradável e aconchegante cujo nome já diz tudo: cultura. Traga seus amigos e venha compartilhar seus conhecimentos e experiências conosco!

 

março 30, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Comissão da Secretaria de Cultura de Canoas e o mau uso da língua pátria

 

“Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?”
(Napoleão Mendes de Almeida)

Como todos sabemos, o uso da língua portuguesa no dia-a-dia é variável. Varia de acordo com a classe social, com o nível de estudo, com a região, com o local, com o interlocutor. Há momentos em que os desvios à norma são toleráveis e há momentos em que estes mesmos desvios são, digamos, pouco recomendáveis. Há momentos para o uso da gíria e há momentos para um cuidado mais apurado no uso do idioma. E isto não ocorre apenas no Brasil: o inglês pode ser usado da maneira mais informal possível no East End londrino, terra natal do proverbial dialeto cockney e, a poucos quilômetros dali, receber o mais pomposo e cuidadoso tratamento da família real inglesa, no Palácio de Buckingham, de onde a expressão “king’s english” vem e é utilizada no sentido de conferir pureza e bom uso ao idioma de Shakespeare. As palavras do eminente gramático Evanildo Bechara não parecem deixar espaço para qualquer dúvida:

“Como, de manhã, a pessoa abre o seu guarda-roupa para escolher a roupa adequada aos momentos sociais que ela vai enfrentar durante o dia, assim também, deve existir, na educação lingüística, um guarda-roupa lingüístico, em que o aluno saiba escolher as modalidades adequadas a falar com gíria, a falar popularmente, a saber entender um colega que veio do Norte ou que veio do Sul, com os seus falares locais, e que saiba também, nos momentos solenes, usar essa língua exemplar (…).”

Poucas vezes as palavras dos renomados  gramáticos  fizeram tanto sentido quanto no caso que passaremos a relatar.

Um dos integrantes deste blog inscreveu-se junto à Secretaria Municipal de Cultura de Canoas no Programa de Incentivo a Cultura, visando publicação de obra literária. A obra em questão tratava-se de um livro com entrevistas de canoenses atuantes nas mais diversas áreas. A introdução da obra trazia a justificativa para sua publicação.

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.

Ao lado da introdução, foi entregue à Comissão encarregada da seleção  o teor completo da obra a ser publicada, isto é, o texto das entrevistas realizadas. Entrevistas que, repetimos, incluíam pessoas dos mais diversos segmentos da cidade, de atletas ao secretário municipal de educação, de vereadores a ex-deputado, de artistas a cineasta. Canoenses de todos os setores, enfim.

Passados alguns meses, o autor do projeto compareceu à Secretaria Municipal de Cultura  e foi informado de que a Comissão de Analise de Projetos Culturais havia opinado contrariamente à sua pretensão de ser contemplado com verba do PIC para publicação.  Recebeu três documentos com timbre da Secretaria Municipal de Cultura onde constam as razões expostas pelas integrantes da  Comissão. E o conteúdo destes documentos oficiais é de causar constrangimento a todo aquele que tenha um mínimo de apreço pela cidade de Canoas e pelo idioma nela falado. Nesses documentos oriundos da Secretaria de Cultura de Canoas,  o que se viu não foi o mau uso das “roupas” linguisticas de que falou Evanildo Bechara.  Foi muito pior: foi a ausência completa de trajes. Um verdadeiro atentado ao pudor idiomático. E pior, um atentado com consequências que vão muito além de muito simplesmente maltratar o idioma: eles chegam a maltratar a justiça.

A cópia dos documentos segue abaixo :


I

O proponente resolveu recorrer da decisão. As razões do recurso que foi protocolado no dia 10 de março de 2011 na Prefeitura Municipal de Canoas,a serão aqui reproduzidas com a  finalidade de levar a conhecimento público a maneira desrespeitosa com que é feita avaliação de projetos culturais em Canoas.

 


PRELIMINARES

I-Quanto à tempestividade


O signatário, acreditando no propósito do Município de Canoas de promover apoio a projetos culturais, inscreveu-se no PIC com obra expressamente destinada a registrar a  memória viva da cidade através de depoimentos de seus moradores.Este propósito consta da introdução da obra, que foi, juntamente com a totalidade do texto, anexada ao projeto, também expresso no formulário de apresentação. Após a inscrição, adotou o hábito de semanalmente realizar ligações telefônicas para a Secretaria da Cultura, a fim de inteirar-se da data da seleção dos trabalhos. Tal prática perdurou até o início do mês de fevereiro de  2011, quando lhe foi informado por funcionário da Secretaria de Cultura que não haveria decisão antes do mês de março e que tal se daria através de evento público amplamente divulgado, com  prévio aviso aos inscritos.

Tranquilizou-se, então, o atarefado signatário. Aguardaria o mês de março para então retomar a rotina de averiguar qual teria sido a decisão daquela que considerava, até então, como qualificada comissão julgadora.

Qual não foi sua surpresa quando, ao comparecer à Secretaria de Cultura no dia 4 de março, foi-lhe informado que o resultado havia sido noticiado no dia 22 de fevereiro do corrente ano.

A notícia, constante no site da Prefeitura, assim relata:

“A Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Diretoria de Economia da Cultura, divulgou no início desta semana os nomes dos contemplados no Programa de Incentivo a Cutlura 2010.(…)”

Ou seja, trata-se de uma notícia comunicando acerca da divulgação ocorrida no início daquela semana. Não se trata, absolutamente, da própria divulgação do resultado e sim de mera notícia, cuja única finalidade é, simplesmente, informar ao público que a divulgação já havia ocorrido. Logo, não há como a municipalidade pretender que a data da notícia seja o termo inicial para fluência de prazo recursal. Isso seria dizer que uma mera notícia, constante no rol de inúmeras notícias da página da prefeitura sem qualquer destaque especial, cumpriria a função de intimar os concorrentes, assumindo a função de tornar publicado o resultado no sentido do artigo 10.2 do edital 015/10, que assim dispõe:

“9.1. A Secretaria Municipal de Cultura, por meio de publicação no site da Prefeitura Municipal de Canoas (http://www.canoas.rs.gov.br) e no mural oficial no Gabinete do Prefeito de Canoas, disponibilizará a lista de todas as propostas ganhadoras, assim como a relação, por ordem alfabética, dos projetos suplentes.

9.3. O resultado final dos contemplados por este Edital será publicado no site da Prefeitura Municipal de Canoas (http://www.canoas.rs.gov.br) e no mural oficial no Gabinete do Prefeito de Canoas.

10.2 Da decisão da Comissão de Análise  de Projetos Culturais, caberá recurso administrativo em 05 (cinco) dias úteis,  a contar da publicação do resultado, no Protocolo Geral do Município, mesmo local das inscrições. O recurso apresentado será julgado no prazo máximo de 05 (cinco) dias úteis, prorrogável por um mesmo período.”

Outrossim, a lei  8666/93 estabelece que :

Art. 109.  Dos atos da Administração decorrentes da aplicação desta Lei cabem:

I – recurso, no prazo de 5 (cinco) dias úteis a contar da intimação do ato ou da lavratura da ata, nos casos de:

(…)b) julgamento das propostas;

(…)

§ 1o A intimação dos atos referidos no inciso I, alíneas “a”, “b”, “c” e “e”, deste artigo, excluídos os relativos à advertência e multa de mora, e no inciso III, será feita mediante publicação na imprensa oficial, salvo para os casos previstos nas alíneas “a” e “b”, se presentes os prepostos dos licitantes no ato em que foi adotada a decisão, quando poderá ser feita por comunicação direta aos interessados e lavrada em ata.

A notícia veiculada no site, conforme já frisado, informa que já ocorreu a divulgação dos resultados. Assim, é inclusive desnecessário ressaltar ser inadmissível que se considere simples notícia como  publicação oficial,  considerando-se que existe no Brasil o império da lei. Publicação oficial não prescinde de divulgação em órgão oficial e mera notícia não substitui esta forma de publicação.

O edital informa que os resultados seriam publicados no site da Prefeitura. Em que pese  tenham sido eles noticiados (sem qualquer destaque, frise-se), não se pode considerar, como acima dissemos, em hipótese alguma, que simples notícia cumpra a função de publicação mencionada tanto no edital quanto na Lei 8666/93.

O signatário foi, de fato, intimado do resultado de seu pedido de no dia 04 de março de 2011. Afinal, foi nesta data que tomou conhecimento de que, em algum lugar incerto e não sabido – pelo menos aos não aquinhoados com informações privilegiadas…. – , ocorreu a publicação dos resultados. Sim, pois é isso que informa a notícia veiculada no site da Prefeitura: que a Secretaria Municipal de Cultura divulgou a lista de aprovados. Em lugar algum há menção de onde ocorreu esta divulgação, o que leva a crer que ainda não foi publicada em órgão oficial.

Então, muito embora ainda espere a publicação oficial, considera-se o recorrente intimado a partir da ciência inequívoca, face recebimento dos documentos de avaliação em data de 04 de março de 2011. E, a partir dessa data inicia a fluir o prazo recursal de cinco dias,  sendo desnecessário salientar que 09 de março de 2011 é o primeiro dia útil após a ciência do ocorrido.


II-Quanto à comissão


Primeiramente, cumpre ressaltar a absurda falta de conhecimento básico da língua portuguesa por parte de membros da Comissão de Análise de Projetos Culturais – CAPC , composta por Leila da Silveira, Camila Mousquer Buralde e Lígia B. Fensterseifer. Tal desconhecimento inclui a incapacidade de formular frases compreensíveis, o que evidencia despreparo para julgar trabalho alheio.

Vejamos, apenas a título de exemplo, o resumo da avaliação da parecerista Leila da Silveira:

“Resumo da avaliação: O presente projeto apresenta um custo de acordo com a realidade, não clareza nos objetivos, tem que explorar mais este lado criativo, o porponente esta hábito a aplicar este projeto, será descentralizado.”grifo nosso

Ininteligível. O resumo da avaliação da parecerista trata-se de um acúmulo palavras (algumas sequer existentes na língua portuguesa), ali dispostas na  infrutífera intenção de construção de uma frase.

O que significaria a expressão”o porponente(sic)esta(sic) hábito(sic) a aplicar este projeto, será descentralizado”?.

Dificulta, inclusive, a tentativa de oposição ao que supostamente está sendo colocado. Para que haja oposição é preciso conhecer aquilo ao que se irá opor; isto, como se vê, afigura-se uma tarefa complicada, dada a extrema dificuldade para se entender o conteúdo da  frase final de um parecer que determina se irá o Município de Canoas patrocinar ou não um projeto literário. Defende-se o recorrente do que imagina seja uma crítica ao seu trabalho.

“Pessoa hábita a fazer este trabalho” – O que seria uma pessoa “hábita”, segundo Leila Silveira?

A palavra, inexistente na língua portuguesa com sentido diverso de habitar (e sem acento), está inserida na frase aparentemente com o sentido de substituir a palavra “apta”. Pois bem, se assim for o requerente seria pessoa APTA a realizar o trabalho. Sendo assim, porque recebeu nota  5? Se é apta, deveria forçosamente receber nota 10, como lhe foi atribuída pela integrante Camila Mousquer Buralde. Por outro lado, a parecerista Lígia B. Fensterseifer preferiu ignorar que o edital expressamente prevê a contrapartida obrigatória de 10% das obras e assim conferiu-lhe a nota 5.

Mas retornemos a Leila Silveira, que, considerando ser o proponente pessoa “habita”, sem restrições, conferiu-lhe nota 5. Por que? Seria a palavra habita um código que promove demérito à pessoa assim denonimada? Misteriosa forma de aquilatar trabalho alheio, utilizando palavra inexistente na língua portuguesa.

Mas vai além Leila Silveira em seu estranho afã em agredir sistematicamente a língua pátria. A parecerista, integrante de comissão ligada à Secretaria de Cultura de Canoas, formula frases como a que é reproduzida a seguir:

“Criatividade. O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho.Apenas, entrevistas. A pergunta é: O que pretende com estas entrevistas.  Qual será os critérios para selecionar os entrevistados? Falta de titulo.”

A questão de mérito não será enfocada neste momento. Detenhamo-nos apenas na continuidade da agressão à língua portuguesa perpetrada por Leila da Silveira. A senhora avaliadora aparenta desconhecer a concordância do verbo “ser”: na frase em questão, estando o substantivo “critério” no plural seria imperativo que o verbo fosse conjugado no plural. A frase deveria ser assim formulada: “Quais serão os critérios”, ou se entendesse que o proponente deveria utilizar apenas um critério, aí então permaneceria o verbo ser no singular juntamente com critério. Nunca, jamais se utiliza “qual será os critérios” No entanto, o citado erro no uso do idioma, embora fira a gramática, não ataca a lógica elementar. Com algum esforço foi possível compreender o que a parecerista aparentemente pretendia dizer.

O mesmo lamentavelmente não se pode dizer da seguinte frase:

“O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho.Apenas, entrevistas”.

Ou então esta:

“O presente projeto apresenta um custo de acordo com a realidade, não clareza nos objetivos, tem que explorar mais este lado criativo, o porponente esta hábito a aplicar este projeto, será descentralizado.”

A parecerista Camila afirma que “O projeto carece de criatividade, haja vista que não serão realizadas entrevistas para compor a obra, mas serão utilizadas  entrevistas já elaboradas e publicadas não apresentado nenhuma novidade, tão pouco criatividade”

No resumo de Camila:

“ O projeto não atende aos critérios de avaliação. Não foi apresentada contrapartida . As modificações que devem ser procedidas estão diretamente ligadas com o objeto, tal remendo não é aconselhável. Para tanto,não recomendo o projeto.”

Inicialmente detenhamo-nos no uso da expressão  “tão pouco criatividade“. Em vista das demais agressões ao idioma apontados anteriormente este poderia ser até considerado de menor potencial  ofensivo. Afinal, trata-se “apenas” da substituição da palavra tampouco pela expressão tão pouco. A falta de familiaridade com a língua gera esses problemas. Como existem semelhanças fonéticas, aqueles despreparados para o manuseio do português cometem esses erros.

Da mesma forma a substituição de “portanto” por “para tanto”, como fez a parecerista Camila no mesmo resumo.

O proponente é acadêmico de Letras. Está, portanto, habituado ao estudo das peculiaridades do uso da língua mãe, inclusive por parte de pessoas menos habituadas ao convívio com as letras. Mesmo assim, revelou-se incapaz de compreender o que a parecerista Leila pretendeu dizer nas frases supracitadas. Pensou, inclusive, em solicitar auxílio aos seus professores de lingüística e sintaxe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lamentavelmente, as férias letivas impossibilitaram que pedisse  ajuda aos mestres. Tão logo inicie o ano letivo, entretanto, levará ao conhecimento dos mesmos os pareceres para que sejam alvo de cuidadosa análise por parte daqueles que prezam a língua e a literatura, como exemplo a não seguir.

Isto posto, cumpre ressaltar o seguinte: todos estamos sujeitos a cometer erros idiomáticos . O cidadão comum os comete diariamente, sem maiores prejuízos tanto a si quantos aos outros. Entretanto, em se tratando daqueles que exercem função pública de avaliação de projeto literário, é imperativo que tenham conhecimento esmerado da língua, pois suas responsabilidades são incomparavelmente mais pesadas.  Quem não maneja bem a língua talvez não a compreenda bem e assim não terá alcance para julgar obras. Mas em Canoas julgaram, e a análise da avaliação de mérito indicará que julgaram de forma inaceitável.

II – a

Descumprimento por parte da comissão do que prevê o edital 015-10

O artigo 8.1 do edital 015-10 estabelece que a comissão deverá pautar-se nos seguintes requisitos para análise e avaliação dos projetos culturais:

a) aspectos orçamentários do projeto, pela relação custo-benefício;

b) retorno de interesse público; – ignorado pela comissão

c) clareza e coerência nos objetivos;

d) criatividade;

e) Importância para o Município;    – ignorado pela comissão

f) descentralização cultural;

g) valorização da memória histórica da cidade;   – ignorado pela comissão

h) princípio de equidade entre as diversas áreas culturais possíveis de serem incentivadas; - ignorado pela comissão

i) princípio de não aceitação de pluralidade de projetos; – ignorado pela comissão

j) capacidade executiva do proponente  a ser aferido na análise de seu currículo.

O artigo 8.1, frise-se, é imperativo.

Desconhecemos as razões pelas quais um projeto que tem, como uma de suas maiores justificativas de realização, a valorização da memória histórica da cidade, como está bem expresso nos objetivos e na introdução da obra ,não tenha esse requisito sido avaliado, bem como outros ali presentes.


ANÁLISE DAS AVALIAÇÕES DE  MÉRITO


Vejamos, então, um a um, o constante nos pareceres de Leila da Silveira, Camila Mousquer Buralde e Lígia B. Fensterseifer, que integram a comissão de avaliação. Salientamos que os mesmos serão reproduzidos exatamente como foram escritos, sendo que as eventuais incorreções gramaticais são de responsabilidade de seus signatários.

a) ASPECTOS ORÇAMENTARIOS

-Leila Silveira

 

“O presente projeto custode  acordo com realidade do mercado. Nota 6”

Por que nota 6? A frase (extremamente mal elaborada) da avaliadora leva a supor que entendeu ter o projeto uma relação positiva de custo-benefício, estando de acordo com o valor praticado no mercado. Mas, apesar disso, confere a Celso Augusto Uequed Pitol a nota 6. Ou seja, entendeu que merecia desconto de 4 pontos na nota o projeto que, segundo entendimento da própria parecerista, estava de acordo com a realidade do mercado. O motivo do desconto é obscuro, o que leva a crer que foi realizado sem observância de nenhum critério objetivo, sendo expressa apenas a vontade livre e com oculta motivação da avaliadora.

 

-Camila Mousquer Buralde

“Analisando o valor unitário entende-se como plausíveis com os valores de mercado. Nota 10”

A avaliação de Camila Mousquer Buralde evidencia que os critérios não são objetivos. Para ela, estando o projeto de acordo com os valores de mercado, a nota é 10. Para Leila, isso leva a conferir nota 6. As notas não têm compromisso com a fundamentação.

 

-Lígia B. Fensterseifer

“O valor unitário dos livros está de acordo como valor praticado no mercado- – Nota 8”

Já a parecerista  Lígia, seguindo a linha de incoerência no critério de avaliação, muito embora tenha, assim como as duas pareceristas anteriormente mencionadas, considerado que o projeto está de acordo com o valor praticado no mercado, retirou dois pontos do signatário, deixando-o com nota 8. Por quê? O que motiva a discrepância de notas ante exatamente a mesma observância, qual seja, o projeto ter valores condizentes com a realidade de mercado? Gera a dúvida sobre o que seria necessário para que as pareceristas Leila e Lígia confiram a nota máxima nesse quesito. Motivações ocultas, eis que a nota conferida ao recorrente não condiz com o que está expresso.

 

b) CLAREZA E COERÊNCIA DOS OBJETIVOS

 

Leila Silveira

“O presente projeto não tem com clareza os seus objetivo.  Nota 1.”

Bastaria ler o projeto para que qualquer pessoa que conheça medianamente a língua portuguesa entendesse seus objetivos. Afinal, no formulário da inscrição firmado pelo recorrente consta:

“Como objetivos do projeto:

Traçar um perfil de uma cidade a partir da vivência de seus habitantes.

Como justificativa do projeto:

A importância de termos o registro da passagem  e da opinião dos entrevistados sobre a cidade, que são, a um tempo, testemunhas de seu desenvolvimento e importantes atores deste mesmo desenvolvimento.”

“Como resultado previsto do projeto:

Através do registro das entrevistas, compor um painel da cidade através das muitas vozes que dela fazem parte, representadas pelos entrevistados.“

E mais, no texto de introdução da obra, que acompanhou a seleção de entrevistas, lemos o seguinte:

“Para quem não é canoense, este trecho do romance “Clarissa”, de Érico Veríssimo talvez nem chame a atenção:

“Clarissa saia todas as manhãs às sete para tomar o ônibus que a levava a Canoas. Já começava a gostar dos alunos. Canoas era bonita, com suas vivendas no meio de jardins verdes e floridos. Ouvia-se o canto dos passarinhos. Um silêncio fresco envolvia as casas, árvores e as criaturas.”

Para nós, porém, não pode deixar de chamar. Ao lermos a bela descrição do maior romancista gaúcho, ainda mais num momento em que Canoas nem sequer poderia ser chamada de cidade – o livro data de 1932, e a emancipação de Canoas, de 1939 – temos bons motivos para sentir orgulho.

O orgulho vem, porém, acompanhado de uma indagação: que cidade é esta? Onde estão os prédios, as ruas, o asfalto, o trem, as máquinas, os trabalhadores apressados? Onde está a poluição? Onde está a cidade que vemos, sentimos e enfrentamos todos os dias,  quase como uma inimiga que nos encara  assim que pomos os pés para fora de casa? Fica difícil reconhece-la. Ao fecharmos o livro e irmos à janela de nossas casas, procuramos em vão as “vivendas no meio de jardins verdes e floridos” e dificilmente ouviremos “o canto dos passarinhos” no meio da buzina dos automóveis, dos gritos dos vendedores, do clangor do trem ao chegar à estação.

Nós não a reconhecemos. Ao contrário do Érico Veríssimo de 1932, não vemos Canoas como uma cidade bonita.

E não somos só nos. Todos os nossos visitantes parecem ter idéia semelhante. É freqüente ouvi-los opinar sobre a pujança econômica da cidade, a sua vocação empreendedora, a força industrial e comercial do segundo maior PIB do Estado. Fazem, ocasionalmente, algum comentário sobre a falta de certos serviços, certas, opções, mas nem isso é especialmente marcante : a verdade é que, via de regra, quando falam de Canoas, até que falam bem. Mas também é verdade que ninguém diz que é bonita ou agradável. Não falam das nossas praças, do nosso verde, das nossas águas, das “vivendas no meio de jardins verdes” e do “canto dos passarinhos”. E não falam de seus habitantes. Não falam de nós. Ninguém fala de nós. Não há poeta nem cantor para os canoenses. Existimos apenas para, dia a dia, mês a mês, ano a ano, trabalhar incessantemente em nossas fábricas, em nossas casas de comércio, em nossas repartições públicas, em nossos escritórios,  em nossas praças, ruas e avenidas, para o bem da economia municipal,estadual e nacional. Canoas merece, como poucas cidades neste mundo, o título de cidade de trabalho, com todos os prós e contras que este título traz consigo.

Quem passa pela Praça da Emancipação, no centro da cidade, encontra uma enorme escultura de concreto. Ali vemos uma canoa e três homens: um deles tem um remo nas mãos, é alto e robusto; o outro, de cabeça baixa, segura uma espécie de pergaminho; e outro, atrás dos dois, aponta para a frente. Não é difícil reconhecer, ali, o trabalhador braçal, o intelectual e o líder. São, todos eles, canoenses.

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.

Impossível maior clareza de objetivos. A afirmativa de expressar que o projeto não tem clareza em seus objetivos é quase ofensiva ao recorrente.

 

- Camila Mousquer Buralde

“Analisando o Plano de Trabalho verifica-se que o mesmo não é claro e apresenta incoerências, dentre elas: critérios de escolha das entrevistas que serão inseridas na obra; proporcionalidade entre as mesmas;pertinência do conteúdo.Nota:2”

O parecer supracitado causa revolta. Inicialmente, pelo que parece, busca implementar uma forma de censura prévia, uma vez que critica o critério de escolha das entrevistas. Voltamos a 1968 e este recorrente não percebeu?

Ora, o critério de escolha é claro: pessoas que auxiliaram e auxiliam na construção da história da cidade. Da mesma forma, a proporcionalidade, mencionada pela parecerista, deve ser enxergada de forma relativa. Afinal, o tamanho da entrevista é proporcional ao que o entrevistado tem para contar.As estradas da vida são diferentes e de diferentes tamanhos; logo, o que as pessoas têm para contar têm, também, diferentes tamanhos.Mas os censores sempre foram assim. Vilipendiam obras com critérios obscuros e suprema arrogância.

Ao final, conclui a parecerista que as histórias de uma cidade, narradas por seu próprio povo quando conta sua própria história , não formam um conteúdo pertinente. Questiona, portanto, o recorrente:  o que seria um conteúdo pertinente?

Mesmo que eventualmente não compartilhasse a parecerista da escolha de algum dos entrevistados, mesmo que preferisse que alguns deles fossem relegados ao esquecimento, como muitas vezes os autoritários de plantão costumam fazer, isso não tira a pertinência do conteúdo. A história, meus amigos, se conta não apenas pela facção que eventualmente detém o poder. Ela ocorre com todos e deve ser registrada. A parecerista detém o poder  de barrar patrocínio a uma obra, e o exerce pretendendo promover a volta da censura.

 

- Lígia B. Fensterseifer

“Traçar o perfil da cidade, proposto no objetivo do projeto, é duvidoso, pois a escolha dos entrevistados e suas opiniões representa que parcela da população? As perguntas aos entrevistados não são direcionadas a questões específicas do município de Canoas”      -Nota 2

O parecer acima transcrito evidencia que faltou à parecerista alcance de análise da proposta do recorrente. Ao que tudo indica, imaginou, ao ler que um dos objetivos do projeto seria “traçar o perfil da cidade”, que o recorrente faria algo similar a uma pesquisa, para fins de estatística. Isso resta claro na observação acerca da parcela da população correspondente aos entrevistados, bem como no que diz respeito às perguntas que, segundo a  parecerista, não são direcionadas a questões específicas do Município.

Trata-se, claramente, de falha de interpretação. Nunca foi objetivo do projeto fazer pesquisa com a população, para fins estatísticos, acerca de questões do Município.

Não ousa o recorrente imaginar quer a parecerista pretendesse que o livro retratasse “guetos”, o que um desavisado leitor de seu parecer poderia imaginar. A população não está dividida em “parcelas” na obra. Os canoenses foram  entrevistados sem esse critério discriminatório. Na apresentação do projeto, o recorrente deixou claro que seriam entrevistadas pessoas de diversas áreas de atuação, o que significa dizer-se que não haveria exclusão por diferenças ideológicas, classe social, raça, sexo,ou qualquer outra. Apenas canoenses, contando através de suas histórias, a História de sua cidade, sem que alguns sejam considerados “mais iguais do que os outros”.

Mesmo que eventualmente não compartilhasse da escolha de algum dos entrevistados, mesmo que preferisse que alguns deles fossem relegados ao esquecimento, como muita vezes os autoritários de plantão costumam fazer, isso não é aceito no Brasil de hoje, com a  democracia que este recorrente tem a sorte de usufruir pela luta dos que a conquistaram.  Como dissemos antes: a História se conta não apenas pela facção que eventualmente detém o poder. Ela ocorre com todos e deve ser registrada. A parecerista detém  o poder  de barrar patrocínio a uma obra e exerce este poder pretendendo promover a volta da censura.

 

c) CRIATIVIDADE

 

Leila da Silveira

“O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho. Apenas, entrevistas. A pergunta é: O que pretende com estas entrevistas? Qual será os critérios para selecionar os entrevistados? Falta de título.”

Foi com esforço hercúleo que o recorrente leu o parecer.

A vontade de que a volta da censura ocorra no Brasil é manifesta novamente. Além disso, cumpre indagar-se o que entende a parecerista por criatividade. Escolher entrevistados, elaborar perguntas pertinentes para cada um deles e fazer a relação deles com a cidade implica em criatividade. Importante ressaltar que o edital não exigia dos participantes que apresentassem obra de ficção. Se o fato de o  projeto conter “apenas, entrevistas” lhe tira a criatividade, isso leva a crer que, para que ela exista,  no mesmo deveria conter relatos ficcionais, restringindo enormemente o cabedal de projetos a serem estimulados pelo Município de Canoas. Ficariam de fora na análise da Comissão, apenas para exemplificar, obras como o “Poder do Mito”, de Joseph Campbell , eis que ali constam “apenas” entrevistas.

O que pretende está claramente expresso nos objetivos como explicado acima, mas repetido novamente neste momento:

Anexo I do formulário de inscrição:

“Como objetivos do projeto:

Traçar um perfil de uma cidade a partir da vivência de seus habitantes.

Como justificativa do projeto:

A importância de termos o registro da passagem  e da opinião dos entrevistados sobre a cidade, que são, a um tempo, testemunhas de seu desenvolvimento e importantes atores deste mesmo desenvolvimento.

Como resultado previsto do projeto:

Através do registro das entrevistas, compor um painel da cidade através das muitas vozes que dela fazem parte, representadas pelos entrevistados.  “

E mais, no texto de introdução que acompanhou a seleção de entrevistas é afirmado:

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.”

O esquecimento da  falta de título seria facilmente sanável.

 

-Camila Mousquer Buralde- nota zero

“O projeto carece de criatividade, haja vista que  não serão realizada entrevistas para compor a obra,mas serão utilizadas entrevistas já elaboradas e publicadas, não apresentando nenhuma novidade, tão pouco criatividade.Nota:zero”

O que entende a parecerista por criatividade? Busquemos um conceito no mestre Aurélio Buarque de Holanda, de um dos ramos mais estreitamente ligados á cultura nesse país e parente da atual ministra da Cultura, figura, portanto, altamente qualificada para nos auxiliar na busca do sentido da palavra:

Segundo o mestre, “criatividade”, significa capacidade criadora; engenho, inventividade.

Justifica Camila Mousquer Buralde que o fato das entrevistas constantes do projeto terem sido anteriormente publicadas, como de fato foram, no semanário O Timoneiro, tira caráter de criatividade do projeto. Não é demais ressaltar que as entrevistas foram realizadas pelo recorrente e não por outra pessoa, como a afirmativa constante da decisão de Camila pode levar a crer. As entrevistas são elaboradas pelo recorrente e foram selecionadas dentre as publicadas no espaço que o jornal O Timoneiro lhe disponibilizou.

Talvez Camila confunda ineditismo com criatividade. No entanto o edital não impede que entrevistas sejam objeto de um livro. E o fato de terem sido publicadas anteriormente não torna o projeto menos criativo.

 

- Lígia B. Fensterseifer

“O proponente atua como entrevistador no jornal onde trabalha, não diferenciando seu trabalho da proposta do livro, que busca fazer uma coletânea de entrevistas. Nota 4”

Talvez a parecerista devesse explicar de que maneira o fato de o recorrente exercer a função de entrevistador no jornal O Timoneiro retira de seu trabalho o caráter de criatividade. Ignora ou demonstra ignorar que a realização de uma entrevista exige prévia escolha de temas, habilidade na condução, timing, capacidade de extrair o máximo do entrevistado e outras características que poderiam perfeitamente entrar no conceito de criatividade.

Também deveria explicar o que há de desabonatório no trabalho do proponente, que macula de maneira indelével seu projeto. O que importa que publique entrevistas em O Timoneiro e pretenda fazer uma coletânea?

 

d) CAPACIDADE EXECUTIVA DO PROPONENTE

 

-Leila Silveira

“O presente projeto apresenta o proponente sendo uma pessoa hábita a fazer este trabalho. Nota 5

A inquiração do sentido da palavra “habita” foi realizada em tópico anterior. Não voltaremos ao  assunto, verdadeiramente constrangedor para a cultura da cidade. Porém, não resistimos a  indagar se a palavra “habita” tem mesmo algum significado negativo, pois somente isso justificaria a nota cinco atribuída ao ora proponente pela parecerista. Afinal se “habita” significa “apta” a nota deveria ser 10. No entanto, como lhe foi conferida nota 5, imagina que talvez “habita” tenha outro significado e, diante disso, solicita que lhe seja elucidada a dúvida.

 

-Camila Mousquer Buralde

“Pelas informações prestadas, o proponente apresenta capacidade executiva.Nota 10”

Afirmativa positiva leva a nota máxima. Tem capacidade, recebe nota 10.Talvez hábita realmente tenha um significado negativo que este reles formando em Letras não conheça.

 

-Lígia B. Fensterseifer

“O proponente apresenta condições de executar o projeto, caso seja contemplado, embora não tenha nenhuma proposta de contrapartida prevista em seu projeto.”Nota 5

Não é demais ressaltar que o item 8.1 do edital 015/10 em sua alínea “j” preceitua que “A Comissão de Análise de Projetos Culturais – CAPC observará as condições estipuladas neste Edital devendo pautar-se, para análise e avaliação dos projetos culturais, nos seguintes requisitos:

j) capacidade executiva do proponente  a ser aferido na análise de seu currículo.  “

Se o currículo do proponente indica que ele tem capacidade executiva, e isto é expresso pela parecerista, a nota terá de ser 10. Qualquer outra nota indicaria intenção de afetar a reputação do proponente. Esse requisito não prevê análise de contrapartida e sim aferição do currículo do proponente. Quem recebe nota cinco pelo seu currículo tem abalo em sua reputação.

No entanto, não evitará enfrentar o tema da contrapartida. O edital 015/10 expressa em seu artigo 13.1

A contrapartida referida na Lei 5012/005 deverá ser realizada através de cota social. No caso do projeto de incentivo resultar em obra de arte de caráter permanente, como CD’s, livros, filmes,  vídeos ou outros, o retorno mencionado consistirá em doação de parcela de edição de um percentual  de 10% ao acervo municipal para uso público.

Ora, ao firmar o requerimento, o proponente aceitou os termos do edital e, portanto, comprometeu-se a entregar 10% da obra ao  acervo municipal. Por isso, desnecessário que reiterasse o compromisso ao preencher o formulário. A contrapartida já estava assegurada quando firmou sua inscrição. Não era questão de proposta, como colocado pela parecerista, e sim obrigação derivada da aceitação dos termos do edital 015/10, conforme o previsto em seu artigo 14.2.

A inscrição do candidato implicará na aceitação das normas e condições estabelecidas neste Edital, em relação às quais não  poderá alegar desconhecimento.

 

e) DESCENTRALIZAÇÃO CULTURAL

 

-Leila Silveira

“O presente projeto terá como foco público alvo geral”. Nota 6

Não focaremos a evidente falta de sentido da frase.

Tentaremos interpretar o parecer. Parece-nos que a senhora Leila entende, ao fazer uma constatação não valorativa, que isso deprecia o projeto. Constata que o projeto terá como foco o público em geral e atribui a nota 6. Significa dizer que ousar apresentar um projeto tendo como foco a população como um todo é um demérito para a comissão da Secretaria de Cultura do Município de Canoas. Devemos entender que o projeto deveria ser direcionado a guetos culturais ou de outra natureza?

 

-Camila Mousquer Buralde

“Este tópico não é contemplado pelo projeto apresentado.”. Nota zero

 

- Lígia Fensterseifer

“Não contempla este critério” – nota zero

Tendo em vista o zero retumbante, escrito em gordas letras, que segue uma seca e direta afirmativa de que o tópico simplesmente não é contemplado no projeto, não podemos nos esquivar a indagar o que seria, ao fim e ao cabo, a descentralização cultural. Afinal, este tópico, segundo Camila Mousquer Buralde não está presente no projeto apresentado. Por outro lado, como vimos acima, Leila da Silveira entendeu que o projeto é descentralizado, enfatizando este dado no resumo da avaliação (“será descentralizado”).

Se por descentralização cultural entendem as avaliadoras Camila e Lígia como sendo a presença, dentro do projeto, dos mais diferentes estratos da sociedade canoense, não podemos ver como não esteja este tópico contemplado . Afinal de contas, estão ali pessoas de todas as classes sociais da cidade e de todos os cantos do município. Estão ali desde esportistas, estudantes, músicos até políticos, escritores, jornalistas, enfim, todos os estratos da sociedade canoense. Não é, de modo algum, um projeto “centralizado” no que quer que seja. Aliás, poderíamos dizer que é difícil imaginar um projeto tão descentralizado quanto este.

Assim sendo requer REVISÃO da avaliação de mérito, que decidiu pela não-contemplação de seu projeto no Programa de Incentivo a Cultura 2010, eis que as razões expostas evidenciam de forma cabal o equívoco da decisão.

Termos em que,

Pede e espera deferimento

Canoas, 10 de março de 2011

Celso Augusto Uequed Pitol

Não termina aí a história

. Esperou pacientemente o julgamento de seu recurso. No dia 21 de março,  através de contato telefônico para a Secretaria Municipal de Cultura  foi informado de que a Comissão  mantivera sua posição contrária ao seu projeto sob fundamento em que o recurso fora intempestivo. Para cientificar-lhe da decisão, foi-lhe entregue uma folha de papel A4, sem timbre,  com um texto digitado e três rubricas.

 

 

O título do texto é significativo do descaso para com o cidadão que ousou apresentar um projeto literário.

“Parecer da Comissão sobre o recurso apresentado…………..”

Qual Comissão? Sequer constam os nomes de seus integrantes naquele pedaço de papel, que também não identifica sua procedência. Poderia ter sido digitado em qualquer lugar, por qualquer pessoa, pois nada o vincula com a Secretaria de Cultura de Canoas.

E prossegue nos seguintes termos:

“Esta Comissão deixa de analisar o mérito do presente recurso, haja vista o mesmo ser intempestivo, pois a publicação do resultado final dos contemplados, conforme estabelecido no item 9.3 do referido Edital, foi publicado no site eletrônico da Prefeitura Municipal (www.canoas.rs.gov.br)”

Ignoremos o óbvio problema de concordância (irrelevante, diante da torrente de outros problemas gramaticais existentes) e sigamos em frente.

O recurso já havia tratado longamente do tema “tempestividade”, invocado como argumento central para a “Comissão” não recebê-lo. Não trataremos disso agora porque não é foco desta postagem discutir interpretação de texto legal. O foco dessa postagem é tratar do absurdo que é uma comissão para avaliar projetos culturais ser  constituída por pessoas com pouco ou nenhum domínio daquilo que mais identifica uma cultura, isto é, o idioma. Não se concebe, em hipótese alguma, que alguém possa se dizer habilitado a julgar uma produção literária, por exemplo, sem conhecer, e bem, o idioma em que ela foi escrita. Não se exige, naturalmente, que a comissão seja constituída de filólogos renomados, estudiosos profundos da língua e de seu uso. O que se exige aqui é simplesmente o básico: que as pessoas saibam escrever minimamente bem. Não como um grande estilista do idioma ou como um candidato ao Nobel: minimamente bem. Com capacidades mínimas de organização mental e respeito à normas gramaticais. E a resposta ao recurso, sem nenhuma observância de requisitos mínimos que deve conter um documento oficial é apenas consequência da falta de respeito já demonstrada quando da análise do trabalho.

O cidadão é desrespeitado duas vezes: em primeiro lugar, vê um trabalho realizado com esmero ser avaliado por quem visivelmente não está apto a fazê-lo. Em segundo lugar, quando, inconformado com esta decisão, elabora cuidadosamente recurso bem fundamentado e recebe como resposta um parecer a rigor anônimo, de uma vaga “Comissão” que parece não querer ousar dizer seu nome.

Foi, e continua sendo, uma tarefa hercúlea trabalhar com cultura em Canoas. Torna-se difícil tentar apagar um estereótipo  quando o próprio poder público, através dos órgãos aos quais delega a função de cuidar da cultura, faz de tudo para que se perpetue.

 

 

março 29, 2011 Posted by | Geral | 4 Comentários

Parabéns Porto Alegre! 239 anos!

O vídeo abaixo, mais uma bem sucedida campanha publicitária da Companhia Zaffari de Supermercados, expressa com perfeição o amor que os componentes deste blog têm pela nossa Capital.

Porto Alegre realmente é demais  e com certeza é a cidade que tem a música mais bonita em sua homenagem.

março 26, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

Déjà vu

2011


O Brasil era o país do futuro. Agora, o futuro chegou.

 

Anos 60

 

 

Propaganda do governo militar na década de 60

Fonte: Nosso Século

 

 

março 21, 2011 Posted by | Política | Deixe um comentário

BBC anuncia a morte de Hitler

Destaque para o badalar dos sinos de Westminster no início do programa e a chamada “This is London Calling”, que abria os programas da BBC para fora do Reino Unido.

março 18, 2011 Posted by | Mundo pop | Deixe um comentário

Mensagem natalina II- Sebastião Melo

Feliz Natal e um próspero Ano Novo!

Um fraterno abraço,
Sebastião Melo

 

Recebemos do vereador  Sebastião Melo- Porto Alegre/RS mensagem natalina que retribuímos e aqui postamos para que os bons votos externados se propaguem.

dezembro 21, 2010 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Mensagem natalina

O cartão virtual do deputado Paulo Odone(PPS/RS) é muito bonito pela mensagem e também pelo seu colorido. Nos permitimos reproduzi-lo.

dezembro 21, 2010 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Entrevista de Steve Jobs em 1985

“The most compelling reason for most people to buy a computer for the home will be to link it into a nationwide communications network. We’re just in the beginning stages of what will be a truly remarkable breakthrough for most people–as remarkable as the telephone.”

Thus far, we’re pretty much using our computers as good servants. We ask them to do something, we ask them to do some operation like a spread sheet, we ask them to take our key strokes and make a letter out of them, and they do that pretty well. And you’ll see more and more perfection of that–computer as servant. But the next thing is going to be computer as guide or agent.”

Entrevista completa aqui Aqui.

Como bônus: o comercial de TV que tornou a Apple famosa em todo o mundo.

Um comercial que, visto hoje, tendo-se em mente as atitudes recentes da Apple e de seu líder Steve Jobs, soa um tanto irônico.

dezembro 21, 2010 Posted by | Ciência & Saúde | Deixe um comentário

Eleição de Final de Ano do Redação SporTv contempla clubes gaúchos

O programa Redação SpotTv promoveu hoje sua eleição de final de ano. Diversas categorias foram objeto de votação pelos  abalizados comentaristas do conceituado canal de esportes , André Rizek, Lédio Carmona, Renato Maurício Prado e Luiz Carlos Junior. Nos ocuparemos aqui apenas dos títulos vencidos pelos clubes gaúchos. O Internacional saiu vencedor na categoria Mico do ano, pela performance no Mundial de Clubes da FIFA. Já o Grêmio foi lembrado por seu jogo diante do Santos na Copa do Brasil ( 4×3)  e venceu como  a torcida mais feliz do Brasil em 2010.

O Perspectiva cumprimenta os vencedores.

 

 

dezembro 17, 2010 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

A Governança Solidária Local e a Copa de 2014

*Cézar Busatto

Porto Alegre prepara-se para o grande evento da Copa do Mundo de 2014 de modo a promover as transformações estruturais que a cidade há pelo menos duas décadas necessita, ao mesmo tempo em que nesse processo possa se produzir um legado de inclusão social e melhores serviços públicos para os porto-alegrenses que mais precisam. Para alcançar esse propósito de desenvolvimento harmonioso e sustentável, o governo municipal está empenhado na integração e fortalecimento da rede de participação democrática, representada pelo Orçamento Participativo, os Conselhos de Políticas Públicas, o Conselho do Plano Diretor, os Foruns de Segurança e Direitos Humanos, as Redes de Proteção à Criança e ao Adolescente e outras. A partir da prática inovadora da Governança Solidária Local em desenvolvimento na cidade, cuja essência é a criação de ambientes de diálogo e cooperação entre todos os cidadãos em favor de uma cidade mais democrática e inclusiva em todos os seus bairros e regiões, será realizado no ano de 2011 o V Congresso da Cidade sob o paradigma de uma cidade para todos.

O Congresso da Cidade será um processo de articulação ee mobilização de todas as forças e saberes da cidade, a partir de cada rua e bairro, de modo a construirmos de forma participativa e solidária as ações prioritárias necessárias e possíveis para produzir uma cidade ainda melhor para todos até 2014

 

*Cézar Busatto é Secretário de Governança Solidária Local de Porto Alegre

 

Fonte: Vida Democrática

Sobre o mesmo tema no Perspectiva:  Governança Local :Alternativa para as Cidades

novembro 30, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

José Dirceu no Roda Viva

novembro 19, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

Poster XXII Salão Iniciação Científica UFRGS – A relativização da tradição heróica anglo-saxônica em “Juliana”, de Cynewulf

 

novembro 14, 2010 Posted by | Arte | Deixe um comentário

Lula, por Fábio Konder Comparato

“O único risco para a oligarquia brasileira (e latino-americana, de modo geral) é a presidência da República, porque a tradição latino-americana é de hegemonia do chefe do Estado em relação aos demais Poderes do Estado. Se o presidente decidir desencadear um processo de transformação das estruturas sócio-econômicas do país, por exemplo, ele porá em perigo a continuidade do poder oligárquico.

Ora, Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrou que não encarna esse personagem perigoso para a oligarquia. Ele é o maior talento populista da história política do Brasil, muito superior a Getúlio Vargas. Mas um populista francamente conservador, ao contrário de Getúlio ou de Hugo Chávez, por exemplo. Mas o que significa ser um político populista? Populista é um político que tem a adesão muitas vezes fanática do povo, que tem um extraordinário carisma popular, mas que mantém o povo perpetuamente longe do poder. O populista conservador pode até, se isso agradar ao povo, fazer críticas aos oligarcas, mas mantém com eles um acordo tácito de permanência do velho esquema de poder. Ora, isto representa a manutenção do povo brasileiro na condição de menor impúbere, ou seja, de pessoa absolutamente incapaz de tomar decisões válidas. O populista é uma espécie de pai ou tutor, que trata os filhos com o maior carinho, enche-os de presentes, brinquedos, etc, mas nunca lhes dá o essencial: a verdadeira educação para que eles possam, no futuro, tomar sozinhos as suas decisões. É um falso pai. O verdadeiro pai existe para desaparecer. Se o pai não desaparecer, enquanto pai, alguma coisa falhou, uma coisa essencial, que é a educação dos filhos para a maturidade. O fundamental do líder populista é que ele mantém o povo muito satisfeito, mas num estado de perpétua menoridade.”

 

Declaração dada em entrevista publicada na Caros Amigos. Sim, você leu bem: na Caros Amigos.

novembro 11, 2010 Posted by | Política | 1 comentário

Entardecer em Canoas/RS

Rua Inconfidência

Créditos da foto: Paulo Munir Peres Uequed

novembro 10, 2010 Posted by | Arte | 2 Comentários

Apoteótico Paul*

*Ana Iris Ramgrab

 

O Celso pediu para eu escrever um texto sobre o show do Paul McCartney em Porto Alegre. Eu disse pra ele que não ia conseguir dizer muito além de “bah, chorei no corinho de ‘Hey Jude’!!!” e que algum descornado iria comentar algo do tipo “Achei cafona” e eu ia ficar triste e me esconder para sempre num buraco, num misto de humilhação pública e auto-preservação, porque com esse calor que faz hoje em Porto Alegre, um buraco caía bem.

Mas já que eu vou falar do show, é melhor começar pelo começo, que é bem esquisito: meu conhecimento de Beatles, Wings e da carreira solo do Paul são os mais básicos possíveis. Não que eu não goste, mas eu nunca decorei discografia de ninguém pra saber de quando é cada música. MAS! Meu tio ama Beatles. Ele sim decora setlists, e sabe tudo, e coleciona. O que eu sei, eu aprendi com ele. Todos os presentes que eu compro pra ele são Beatles-related porque eu sei que ele vai gostar (tipo os descansos de copo com as capas de discos dos Beatles que eu comprei nos EUA e que ele transformou num QUADRO pra casa dele, ou o DVD de Across the Universe, que eu rodei Porto Alegre inteira atrás pra dar de presente de Natal ano passado). Beatles, pra mim, sempre foi o meu tio. E o Beatle preferido do meu tio sempre foi o Paul. Aí, quando começaram os rumores de que ele viria não só para o Brasil, mas para PORTO FRAKKIN’ ALEGRE, nós começamos uma troca furiosa de SMS por informações, negociações e combinações porque é claro que ele iria no show, e eu queria ir junto com ele pra dividir esse momento.

E, olha, só mesmo 1/4 dos Beatles e o amor do meu tio por eles pra me fazer passar uma hora e meia esperando o site processar a compra dos ingressos, só pra descobrir que até hoje ele não processou (mas eu tive a sorte de não ter a minha ligação cortada na central telefônica deles, então fui garfada em 4% a mais por ingresso, mas consegui). Ou pra me fazer sair de casa às 4 da tarde de domingo, num sol típico do pré-verão portoalegrense, pra ir de T5 até o fim da José de Alencar, e depois a pé até o Beira-Rio. O que, diga-se, foi a parte mais tranqüila em termos de deslocamento (pra ser sede de Copa do Mundo, Porto Alegre ainda precisa melhorar muito). Depois de enfrentar as hordas de pessoas nas filas pro gramado, conseguimos chegar na rampa 4, que dava acesso às cadeiras numeradas ímpares (pode ser um Beatle, mas eu tenho 1,50m e se eu me arrisco a ir no gramado, o máximo que eu vejo são os cotovelos alheios).

Mas isso tudo aconteceu mais de 3 horas antes do show começar. E o que interessa é o show, não é mesmo? Então vamos lá. Um pouco depois das 21h, a iluminação do palco diminuiu, dando a dica de que estávamos a minutos de um grande momento. É legal ver que não interessa a hora, o local e o motivo, grandes momentos sempre são precedidos de um breve silêncio, quase uma segurada de respiração coletiva. E quando mais de 50 mil pessoas fazem isso ao mesmo tempo, acreditem, é um silêncio muito difícil de ignorar.

Até que… Até que os privilegiados da fila do gargarejo começam a gritar, e a gente sabe que o cara tá no palco. Paul. O cara. Porque ele é. O cara. Absolutamente charmoso o tempo todo, interagindo com o público com o seu (já bastante discutido) português bem ensaiado, com direito a gírias e gauchismos. Apesar de dizer que iria falar mais inglês, ele falou em português praticamente todas as vezes em que se dirigiu ao público.

O setlist já foi muito e melhor discutido por gente que sabe melhor do que eu do que está falando, então vou me limitar a dizer é muito difícil ficar imune diante da seqüência de clássicos que Sir Paul enfileirou. “My Love”, “Here Today” e “Something” me fizeram chorar (pois é…), e meu tio quase chorou quando ele começou “Eleanor Rigby” (e a minha irmã chorou quando eu mostrei pra ela hoje de manhã o vídeo de “And I Love Her”. Pessoas sensíveis sofreram ontem).

E porque não dá pra ser Paul McCartney e não ser apoteótico, logo depois de fazer todo mundo cantar juntinho “Let It Be”, a pirotecnia se concentra toda em “Live and Let Die”, com explosões de fogos de artifício .

E aí… Bom, aí ele começa “Hey Jude”. E a real? A real é que, bah, eu chorei no corinho de “Hey Jude” e pode ser cafona, mas também foi catártico. Paul conduziu o coro dos 52 mil abestalhados que ainda não acreditavam estar ali, na frente dele, ouvindo o cara cantar. Primeiro os homens, depois as mulheres. Todo mundo junto. Lindo. Emocionante. (Eu pretendia incluir um vídeo de “Hey Jude” aqui, mas o YouTube não tá colaborando, gentes.).

As luzes se apagam. A banda sai do palco, e o público resolve continuar brincando de corinho de “Hey Jude”. Até que a banda volta e toca mais três músicas, terminando com “Get Back” e saindo de cena novamente. (Em ambas saídas da banda, a câmera acompanha o Paul até a entrada dos bastidores, e a corridinha que ele dá é tão ridiculamente britânica que só vendo pra entender). A segunda, e última, volta da banda começa com nada mais nada menos que “Yesterday” (todo mundo chorando junto, abraçadinho, já pensando àquela altura que a Kleenex perdeu uma ótima oportunidade de patrocínio), seguida de “Helter Skelter”. Já é quase meia-noite em Porto Alegre, e os últimos minutos do dia 7 de novembro são saudados com “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, pondo um quase fim a 3 horas que misturaram nostalgia, sonho e um quê de absurdo (pensa bem, cara, eu fui no show do Paul McCartney. Paul. Mac. Cartney. Minha banda preferida – e que eu vi ao vivo em 1994 num show igualmente apoteótico ali do lado, no Gigantinho – e cujo nome vem de um pseudônimo de quem? Rá! Não, não caiu a ficha ainda).

Nenhum artista que se preze que tenha uma música chamada “The End” poderia deixar de encerrar um show com ela, e nesse caso não foi diferente. Só que não estamos falando de qualquer artista, e nem de qualquer banda, então “The End” não é qualquer música: “And in the end the love you take is equal to the love you make.

novembro 9, 2010 Posted by | Música | 2 Comentários

Lançamento de “Dos sonhos e seus efeitos colaterais”, de Felipe Longhi Malheiro, em Canoas/RS

 

 

Lançamento da obra em Canoas/RS

Dia: 09/11

Horário: 19h30m

Local: Challenge Centro de Idiomas, rua Gal Salustiano, 215

 

 

novembro 7, 2010 Posted by | Livros | 2 Comentários

Quando a cara de pau não encontra limites

O Itamaraty aproveitou ontem a primeira sabatina realizada pela ONU sobre a situação dos direitos humanos nos EUA para declarar que estava “preocupado” com o aumento da pobreza na sociedade americana e sugeriu ao governo de Barack Obama que amplie programas sociais.

“O Brasil nota com preocupação o aumento do número de pessoas vivendo na pobreza nos EUA e a persistente diferença racial”, afirmou a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo. “A desigualdade é refletida em áreas como moradia, emprego, educação e saúde”, disse.

O Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, ainda deu sua sugestões sobre como os EUA deveriam tratar da pobreza: “O reconhecimento das necessidades fundamentais da população como um direito humano é um passo importante para superar a pobreza”, ensinou a embaixadora, que ainda criticou a política de imigração americana.

Quem acha que isso não pode ser verdade acessa aqui.

 

A propósito, ocupamos o 73º lugar no ranking de Desenvolvimento Humano da Onu enquanto que o país de Obama ocupa o 4º lugar.

novembro 7, 2010 Posted by | Alívio Cômico, Política | Deixe um comentário

José Serra faz palestra na França e sofre novo ataque dos inimigos da democracia

José Serra foi convidado para proferir palestra no Forum Europa América Latina  , em Biarritz, França com a presença de políticos e acadêmicos europeus e latino-americanos. Serra falou sobre  perspectivas do desenvolvimento e da democracia na região e considera que o processo de desindustrialização em marcha criará problemas para a criação dos 50 milhões de novos empregos que a América Latina  necessita até 2020. Além disso, dissertou sobre  questões que atravancam o amadurecimento das democracias, sobre política externa e integração da região além de  relações com a Europa.

Importante para o Brasil o fato de José Serra, um experimentado homem público, não ter se considerado derrotado face ao insucesso eleitoral e, assim, não ter se calado, continuando a expressar o posicionamento que externou na campanha.

Temos uma presidenta eleita cujo sucesso na condução do país interessa a todos nós. Por outro lado, temos, pelo visto,  um líder oposicionista altamente qualificado que está demonstrando uma qualidade invejável: não se cala e não esmorece ante adversidades.  Bom para o Brasil  que assim seja.

Lamentável, porém, o fato de que um cidadão estrangeiro, identificado como representante do Movimento Zapatista mexicano, que, pelo visto, desconhece princípios básicos de civilidade que incluem, por exemplo, permitir que o palestrante conclua sua explanação tenha interferido na palestra. Fosse aceitável outro agir, as palestras deveriam incluir apenas apoiadores das idéias do palestrante ou, então, dever-se-ia permitir apenas palaestras de uma determinada corrente de opinião.

Lamentável o agir anti-democrático do representante mexicano no evento. Não se deve, porém, relacionar esta triste atitude à nacionalidade do ofensor. Afinal de contas, nós, brasileiros, bem sabemos que dentro do território pátrio abundam cidadãos que pensam e agem da mesma maneira.

Mais lamentável ainda, porém, é a repercussão do fato. Vários são os sites louvando e batendo palminhas para a atitude do agressor.  Mais uma vez, um ato que agride os princípios democráticos é referendado por apoiadores do atual governo. Esquecem os incautos que os ataques à democracia, minando-a, causam danos a todos – inclusive a eles. É importante sempre defendê-la, pois, do contrário, um dia, os agredidos podem ser qualquer um de nós,cidadãos.

novembro 5, 2010 Posted by | Política | 11 Comentários

CNT SENSUS declarou que Dilma venceria no primeiro turno

A pesquisa CNT/Sensus, cujo proprietário é dono do PR, partido coligado à Dilma Roussef,  candidata da situação, dava 54,7% dos votos válidos para ela , no primeiro turno. Ela chegou a 46,9%.

O site da candidata alardeava a vitória no primeiro turno isso em 29 de setembro. Clique aqui

Agora novamente vem com dados absolutamente desproporcionados com o que se ve e ouve nas ruas.

Definitivamente não tem valor algum o resultado das pesquisas que pretendem induzir nosso voto na base do Já Ganhou.Falta de vergonha e de respeito. Aparentemente nos enxergam como um bando de seres absolutamente desprovidos da capacidade de analisar fatos e situações, bem como de desmemoriados que aceitam qualquer coisa que é veiculada.

Quem não se enxerga assim tem obrigação de repudiar este tipo de prática desrespeitosa divulgando esses dados para evitar que outras pessoas menos informadas seja induzidas por um onda criada pelos institutos de pesquisas.   O CNT Sensus tem interesse no resultado, visto ser aliado na coligação de Dilma Roussef, então não é de se estranhar que tenha errado tão feio no primeiro turno.

 

outubro 27, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

Dilma no limite

*Fernando de Barros e Silva, da Folha de São Paulo

SÃO PAULO

“Vocês podem ter certeza, eu estou preparada para ser a primeira mulher presidente do Brasil”. Foram as últimas palavras pronunciadas por Dilma Rousseff no debate da TV Record, já no início da madrugada de ontem. Quando um evento como esse chega ao fim e, mais uma vez, ela parece ter sobrevivido, seus assessores só podem comemorar aliviados -ufa!

O fato é que Dilma não inspira certeza sobre nada. É aflitivo vê-la na TV. Não apenas pelo aspecto rombudo e robótico da sua figura. A aflição de Dilma está estampada no ritmo da sua fala, ao mesmo tempo lenta e acelerada, feita de arranques e soluços, de frases decoradas mas quase sempre truncadas.
Como o debate foi na emissora de Edir Macedo, falar em Deus pegava especialmente bem. E Dilma falou, mais de uma vez: “No que depender do meu governo se Deus quiser” -assim, sem pausas, sem vírgulas, sem ênfases, como alguém que se desincumbe de um fardo.
Dilma passa a impressão de estar no limite das suas capacidades, a um triz de um curto-circuito. Isso apesar da vantagem relativamente folgada que abriu sobre José Serra -56% a 44%, segundo o Datafolha.
Não se trata, certamente, de uma pessoa despreparada. Dilma tem substância. Mas não é, nunca foi, uma pessoa preparada para chegar à Presidência. É uma neófita. Nem de longe reúne os recursos pessoais para o exercício da função de seus antecessores -Lula ou FHC.
Sua candidatura representa a continuidade de um projeto, mas é também um capricho de Lula. Ninguém sabe como ela vai arbitrar conflitos, como irá gerir a máquina do Estado ou como se sairá enquanto líder política. A rigor, ninguém sabe qual a turma que ela pretende atrair para perto de si no poder.
A revelação de que Erenice Guerra fez da Casa Civil um centro de arte em família é um péssimo cartão de visitas para quem patrocinou a ascensão da ex-ministra. Sobretudo quando se trata de uma candidata também aclamada no escuro.

outubro 27, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

Paulo Brossard- referência moral da Nação

outubro 23, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

Editorial do Jornal “O Estado de São Paulo”

Editorial do Estadão:

 

Fonte

outubro 22, 2010 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Brasil real

Pelo menos cinco emergências de Hospitais da Capital registram superlotação

Este é o Brasil real – o Brasil onde os cidadãos não tem seus direitos mais básicos respeitados.

Curiosamente, este Brasil não costuma aparecer nos programas eleitorais da sra. Dilma Rousseff.

 

outubro 17, 2010 Posted by | Política | Deixe um comentário

8 de Outubro – Dia do Nascituro


A CNBB teve a iniciativa de considerar o dia 08 de Outubro como sendo Dia do Nascituro. A propósito do tema e face ao avanço de tentativas de atentar contra os nascituros com a legalização do aborto, o PERSPECTIVA, no intuito  de ajudar a defender aqueles que não têm voz para se defender, publica nota da CNBB sobre a Semana pela Vida.

Por decisão da CNBB, a Igreja no Brasil realiza cada ano, no início de outubro, a semana pela defesa da vida. Não é que somente nesta semana devamos fazê-lo, mas todos os dias, ao longo do ano inteiro. Os cristãos são chamados a escolher, amparar, defender e proteger a vida: “escolhe, pois, a vida”, recordava-nos a Campanha da Fraternidade em 2008. Nós cremos no Deus da vida, que ordenou – “não matarás” -, e somos discípulos daquele que é vencedor da morte e restaurador da vida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O início de outubro nos traz boas motivações adicionais para manifestarmos nossa posição em defesa da vida, ameaçada de diversas formas, inclusive a vida humana. Estamos no início da primavera, uma explosão de vida, de cores e beleza. O papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate, nos adverte sobre a importância de preservar a vida e o meio ambiente no planeta Terra, nossa casa comum (cf. n. 48-50). Cuidar bem da natureza e da nossa casa comum é questão de justiça e solidariedade para com os demais seres que povoam este belo e abençoado paraíso da vida, talvez único no universo; é questão também de  justiça e solidariedade para com as futuras gerações, para as quais não deveremos deixar em herança um mundo estragado e sem condições boas de abrigar a vida.

A Igreja também recorda, no dia 4 de outubro, São Francisco de Assis, poeta e cantor da natureza; ele, santo e alma pura, não se deixou corromper pela ganância e o egoísmo, que matam a vida; por isso podia dizer “mãe terra” e reconhecer em cada criatura um  irmão e uma irmã; ele se reconhecia como filho querido do Pai muito amado, que fez boas todas as coisas e as abençoou. Por essa mesma razão, também o Papa Bento XVI nos diz na encíclica citada acima que a questão ecológica não deve ser o sonho de alguns ativistas e sonhadores, mas um assunto que envolve nossa fé em Deus Criador e nossos deveres morais. Respeitar e defender a vida é prestar homenagem ao Deus da vida. O contrário seria ofensa ao Criador e pecado contra os irmãos.

A semana de defesa da vida, porém, tem um significado específico para nós: Manifestamos nosso grito de alerta diante dos desprezos, ameaças e agressões contra a vida humana e, assim, queremos desenvolver mais e mais uma cultura favorável à vida humana. De muitas formas a vida humana é desrespeitada e ameaçada: pela miséria, que não permite viver dignamente; pelos vícios, que estragam a saúde e roubam a vida prematuramente; pela violência difusa, de tantas formas, onde muitas pessoas perdem a vida de maneira trágica; pelo aborto, que ceifa um número assombroso de vidas inocentes e indefesas. Não podemos ficar indiferentes diante da cultura da morte, que faz, inclusive, negócios muito rentáveis com o comércio de morte! Lembramos a advertência do Papa Bento XVI, na Fazenda da Esperança, no dia 12 de maio de 2007, contra os que tiram lucros vultosos do comércio da droga: deverão dar contas a Deus pelas vidas que fizeram perder em decorrência desse comércio de morte!

Muito grave é a questão do aborto provocado. Há projetos de lei para legalizar esta prática, até mesmo para que possa ser realizada com dinheiro público! Há mesmo quem argumente que isso é um “direito humano”. Tirar a vida de seres humanos inocentes e indefesos seria um direito humano?! Fala-se em “despenalização”, ou “descriminalização” do aborto, ou em “interrupção da gravidez”, ou “parto antecipado”. São formas de linguagem que escondem a realidade, mas o objetivo e a dura realidade é a mesma: A supressão da vida de um ser humano inocente e indefeso. A interrupção da gravidez, ou o parto feito antes de certo tempo de gestação levam inevitavelmente à morte do feto, ou bebê. Espalhou-se o uso da pílula do dia seguinte (“método contraceptivo de emergência”), que também pode ser abortiva se já houve fecundação após uma relação sexual.

Há quem argumente pelo direito que as mulheres teriam para decidir sobre seu corpo; tratando-se de uma gravidez, há nisso um equívoco primário, pois o feto ou bebê que a mulher traz no seu útero não é parte do seu corpo, mas é um outro corpo, diverso do dela; melhor dito, é um outro ser humano, diverso dela; a natureza da mulher recebeu de Deus a bela e gratificante missão de acolher a vida, de dar-lhe condições para nascer, de amparar e proteger esta vida frágil. Evidentemente, se somos contrários ao aborto, não significa isso que queremos a todo custo o castigo das mulheres que, por alguma razão, o praticam. Mas como proteger a vida nascente, se o aborto fosse legalizado? A defesa da vida, além disso, também requer a cobrança das autoridades para que o Estatuto do Nascituro seja aprovado quanto antes e que seja usado o rigor da lei contra as clínicas clandestinas (ou pouco clandestinas), que exploram o comércio do aborto, para tirar lucros.

Além disso, a defesa da vida nascente também requer, de nossa parte, o amparo e a solidariedade para com a mulher que gera um filho, ou tem uma gravidez problemática, ou até indesejada. A medicina, a psicologia e a assistência social podem fazer muito por ela, sem precisar fazer o aborto; as organizações da Igreja podem estar ao lado dela para ajudá-la. A semana pela defesa da vida deveria ainda ser marcada por homenagens às mulheres grávidas, ou que têm filhos pequenos; elas prestam um grande serviço à humanidade! Em nossas igrejas poderiam ser realizadas celebrações especiais para elas, inclusive previstas no ritual de bênçãos.

Dia 8 de outubro, por iniciativa da CNBB, é o Dia do Nascituro em todo o Brasil. Seja um dia para dizer: Bem-vindos à vida! Felizes são as mães de vocês! Sejam abençoados e abençoadas por Deus!

Cardeal Odilo Pedro Scherer

 

Fonte

outubro 8, 2010 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Chávez critica os ‘felizes’ pela morte do líder das Farc

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, comentou pela primeira vez a morte de um dos principais comandantes das Forças Armadas da Colômbia (Farc), criticando quem está “contente” com a notícia. “Nós não deveríamos estar felizes com a morte de alguém”, afirmou Chávez na noite de ontem, durante um evento transmitido pela televisão estatal.

O presidente Chávez mostra ao mundo que é muito mais do que um ditador brutalhão. Mostra-se alguém capaz de se comover com a morte de um ser humano, mesmo que este ser humano tenha sido responsável por um sem-número de assassinatos e crimes de toda sorte. É bonito, muito bonito. Estamos comovidos, senhor presidente Chávez. Porém, não resistimos em perguntar-lhe o motivo pelo qual não fez a mesma coisa quando isto aqui aconteceu. Será que a vida de um comandante das FARC vale mais do que a deste senhor?

setembro 27, 2010 Posted by | Geral | Deixe um comentário

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