PERSPECTIVA

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Levi-Strauss3

“O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; formam sistemas. Estou persuadido que estes sistemas não existem em número ilimitado e que as sociedades humanas, tal como os individuos – nos seus jogos, nos seus sonhos ou nos seus delirios – limitam-se a escolher certas combinações, num repertório ideal que seria possível reconstituir.

Um espírito malicioso já definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poderíamos com mais razão aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: vão da frescura à decrepitude sem se deterem na antiguidade.

Nas cidades do Novo Mundo não é propriamente a falta de reminiscências que me choca. Essa ausência é um elemento da sua significação. Estas cidades são jovens e extraem dessa juventude sua essência e justificação. A passagem dos séculos representa uma promoção para as cidades européias; para as americanas, a simples passagem dos anos é uma degradação. Não foram apenas construídas recentemente, mas de forma tal que podem renovar-se com a mesma velocidade com que foram erguidas, isto é, mal. No instante em que se erguem novos bairros, quase não chegam a ser elementos urbanos: são demasiadamente novos para o serem. O estilo passa de moda, a ordenação arquitetônica primitiva desaparece com as demolições que são exigidas por uma nova impaciência.

Não são cidades novas contrastando com cidades antigas, mas são cidades com um ciclo evolutivo demasiadamente rápido. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte; as do Novo Mundo vivem febrilmente numa doença crônica: eternamente jovens, nunca são todavia saudáveis.

Botânicos nos ensinam que as espécies tropicais compreendem variedades mais numerosas do que as das zonas temperadas, mesmo que cada uma delas seja constituída por um número muito restrito de indivíduos. Esta especialização, no Brasil, foi levada até os limites máximos.

Assim é que uma sociedade limitada distribuiu os papéis entre os seus membros. Nela podiam encontrar-se todas as ocupações, todos os gostos, todas as curiosidades justificáveis da civilização contemporânea, embora cada setor fosse encarnado por representante único. Nossos amigos não eram exatamente pessoas, mas sim funções cuja lista havia sido estabelecida mais em virtude da sua importância intrínseca do que das suas disponibilidades. Havia assim o católico, o liberal, o legitimista, o comunista ou, noutro plano, o gastrônomo, o bibliófilo, o apreciador de cães ou cavalos de raça, da pintura antiga, moderna. Havia o erudito local, o poeta surrealista local, o musicólogo local, o pintor local.

Nenhuma preocupação real em aprofundar os conhecimentos encontrava-se na base destas vocações. Se por acaso dois indivíduos, em resultado de erro de manobra ou por pura inveja, ocupavam o mesmo domínio ou domínios próximos, passavam a ter a preocupação exclusiva de se destruírem mutuamente, o que faziam com persistência e ferocidade notáveis. Havia troca de visitas entre feudos vizinhos, com muitas mesuras uma vez que todos estavam interessados em se manter nas posições. Somos forçados a reconhecer que alguns dos papéis eram desempenhados com brilho extraordinário devido à conjugação de fortunas herdadas, encanto nato e muita manha adquirida.

Os estudantes queriam saber muito, porém apenas das teorias mais recentes. Nunca liam as obras originais, preferiam as publicações abreviadas e mostravam enorme entusiasmo pelos novos pratos. É uma questão de moda e não de cultura. Idéias e doutrinas não apresentavam aos seus olhos um valor intrínseco, eram apenas instrumentos de prestígio, cuja primazia deveriam obter. Partilhar uma teoria conhecida por outros era o mesmo do que usar roupa pela segunda vez. Uma concorrência encarniçada estabelecia-se com o fito da obtenção do modelo mais recente e mais exclusivo no campo das idéias.

Na América tropical o homem encontra-se dissimulado. Em primeiro lugar pela sua própria escassez. Mas mesmo nos locais em que se agrupou em formações mais densas, os indivíduos permanecem enleados pela agregação muito recente. Ainda não aprenderam a conviver. Qualquer que seja o grau de pobreza, no interior ou mesmo nas grandes cidades, só excepcionalmente chegamos ao ponto de ouvir os seres gritarem – sempre é possível subsistir com pouca coisa num solo que começou a ser saqueado pelo homem – e só em alguns pontos – há apenas 450 anos.”

Trecho de Tristes Trópicos (Ed. Martins Fontes)

Novembro 8, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

*São Lucas e a insônia

*Plínio Carlos Baú

Lendo o excelente  site Espaço Vital encontramos um interessante artigo escrito pelo  cirurgião Plínio Carlos Baú. Autorizados pelo autor,  reproduzimos o texto nesse espaço, eis que o que ali consta constitui um relato pungente de uma experiência de vida.

Há cerca de doze anos, um paciente idoso, já no ocaso da sua existência e que, periodicamente era internado por complicações do diabete, teve uma noite de insônia.

Calçou os chinelos, vestiu o roupão e, alta madrugada, saiu do quarto indagando, a quem encontrasse, quem era São Lucas.

Como não encontrou resposta entre os sonolentos funcionários do seu andar, foi descendo todos os andares, perguntando , afinal, quem era o santo que dava o nome ao hospital. Percorreu todo o trajeto, do nono andar ao térreo, inquirindo a auxiliares, técnicos, funcionários da nutrição, seguranças, familiares de outros pacientes, quem era São Lucas.

Amanhecia o dia, quando, derrotado em sua incursão, exausto, retornou ao seu quarto.

Foi assim que o encontrei na manhã em que fui visitá-lo. Estava muito amuado, e foi logo disparando:

- Droga de hospital! Ninguém sabe quem é o santo!

E relatou-me a sua aventura noturna.

Continuou:

- Fui até a capela. Não encontrei nem um santinho ou imagem, ou alguém que me explicasse quem é São Lucas…”

Expliquei-lhe, do meu modo, que São Lucas era um apóstolo de Jesus, que tinha algum pendor em cuidar de doentes, e por isso era considerado o médico da turma dos doze. Tratava-se do santo padroeiro dos médicos.

Cerca de um ano depois, o paciente faleceu em sua cidade de origem, rodeado por muito carinho da família e dos muitos amigos que fizera em vida. Na véspera do seu falecimento, num dos últimos atos de lucidez, chamou a esposa e pediu que ela providenciasse uma imagem de São Lucas para o hospital que tantas vezes e tão bem o acolhera.

Este último desejo foi atendido e, com o auxílio do Irmão Erno Cristh, fez-se a encomenda a um escultor de origem austríaca residente em Treze Tílias, Santa Catarina, conhecido como Sr.Mosel.

Hoje, o santo assiste tranqüilo a todas as pessoas que circulam pelo saguão do nosso hospital e aquele velho morreu em paz. Foi um homem honesto, muito simples e bom.

Era meu pai.

Abril 1, 2009 Publicado por blogperspectiva | Ciências Humanas, Geral | | Sem comentários ainda

Chávez, paladino da moral

“Hugo Chávez proíbe mostra sobre corpo humano na Venezuela
Presidente classificou a exposição de “macabra””

Notícia original aqui

Se me convidassem para assistir à mostra Corpo Humano Real e Fascinante,  apresentada no BarraShopping Sul desde semana passada, aqui em Porto Alegre, eu certamente não iria. Não tenho prazer especial algum em ver músculos, ossos e crânios expostos como se fossem bananas na feira da esquina. Também não consigo ver beleza nesse tipo de coisa e não creio que, sabendo da existência desta mostra, fosse indicá-la a algum amigo.

O senhor Hugo Chávez concorda comigo. Não gosta desta mostra. Acha-a feia, como eu. Não quer que seus filhos a assistam, como eu não iria querer se tivesse filhos. Não pretende indicá-la à vizinha, aos amigos no bar, ao primo com quem joga Winning Eleven, ao senhor idoso com que engata conversa no metrô. E nem eu. Aliás, só estou fazendo propaganda do evento por causa do caso envolvendo o presidente venezuelano. Não gosto deste evento. Posso dizer, até, que sinto um pouco de raiva dele, uma pontinha de ódio, um ódio irracional e baixo. OK, não sinto nada disso, mas poderia sentir. Sem problema algum. E o senhor Chávez também pode sentir a mesma coisa que eu.

A questão é que o senhor Chávez não se limitou a gostar ou desgostar da exposição Corpos Revelados (foi esse o título que recebeu na Venezuela) e do seu impacto diante do público. Foi além: resolveu decidir pelos venezuelanos e proibiu o evento com o seguinte argumento:

— Estamos em meio a algo macabro. São corpos humanos. Corpos humanos! Este é um sinal realmente claro da enorme decomposição moral que atinge nosso planeta

“Decomposição moral” e termos assemelhados são expressões típicas de sacerdotes diante da derrocada dos valores tradicionais no mundo contemporâneo. Lamentar pelo fim dos valores é apanágio daqueles que defendem a existência atemporal destes valores e não os sujeitam a meras contingências de tempo e espaço. Porém, como pode alguém como Chávez falar sobre moral se o seu herói, Karl Marx, dá a seguinte definição de moral:

“É a impotência posta em acção. Todas as vezes que luta contra um vício é vencida. E Rodolfo nem sequer se eleva ao ponto de vista da moral independente, que, ela pelo menos, assenta na consciência da dignidade. A sua moral, pelo contrário, assenta na consciência da fraqueza humana. É a moral teológica. As proezas que realiza com as suas ideias fixas, cristãs, com as quais mede o mundo, a caridade, a dedicação, a abnegação, o arrependimento, os bons e os maus, a recompensa e a punição, os castigos terríveis, o isolamento, a salvação da alma, analisamo-las pormenorizadamente e desmascaramo-las como farsas.”

Para Marx, a moral era uma farsa a ser desmascarada. Mesmo assim, para marxistas como o sr. Chávez é preciso defendê-la a todo custo em um mundo que já não a respeita. Ora, talvez seja porque a moral de Chávez, assim como o seu discurso, não passe mesmo de uma farsa.

Março 19, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | 1 Comentário

Richard Dawkins é tema de palestra na PUCRS

O projeto Fé e Cultura reinicia nesta terça-feira, 17 de março, com a palestra “Richard Dawkins: a desafiante negação de Deus em O Delírio de Deus. Temos respostas?”. Participam os professores Jorge Campos, da Faculdade de Letras, e Érico Hammes, da Faculdade de Teologia. O evento ocorre a partir das 17h45min, no auditório do prédio 9, no Campus Central da Universidade (avenida Ipiranga, 6681 – Porto Alegre). A entrada é franca. Informações adicionais pelo e-mail feecultura@pucrs.br

Março 16, 2009 Publicado por Madame Li Li | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

Em tom de indignação

Os Irredutíveis, de Daniel Bensaid, foi publicado há quase oito anos, alguns meses antes do 11 de setembro. Seu objetivo era reacender a chama da indignação no desfibrado mundo pós-moderno, discutindo alternativas para recuperar a posição da esquerda oscilante entre a social-democracia transmutada em terceira via e os saudosos do stalinismo. Fez críticas ásperas à tendência, na época em vias de cristalizar-se, de aceitar como certas tanto a idéia de Fukuyama do fim da história quanto as pretensões anglo-americanas de exportar os princípios da democracia liberal de tradição inglesa para todos os recantos do mundo, reedição do antigo “white men´s burden” de Kipling. Bensaid percebia indícios claros de que essa idéia de que o mundo caminhava para o consenso sob os auspícios do imperialismo era uma farsa e não foi preciso esperar mais do que alguns meses para comprová-la.

Agora reeditado, Os Irredutíveis não perdeu a relevância porque as condições que o engendraram não mudaram essencialmente. O livro se baseia em cinco teoremas a partir dos quais um pensamento progressista adequado ao mundo moderno deverá surgir. Reafirma a irredutibilidade da política à ética, algo que Marx, bebendo em Maquiavel, já havia proclamado antes; discute fortemente a idéia de que o mercado traz mais benesses do que problemas; relembra, novamente, que o comunismo soviético e o seu fracasso não são impeditivos de novas tentativas de se fazer o comunismo; ataca a pós-modernidade e a idéia fragmentária; e reafirma, por fim, a boa e velha luta de classes e a sua perene atualidade. É marxista até a medula, com tudo o que isso tem de bom e de ruim. Seus acertos indiscutíveis, como quando analisa a mentira que é a tentativa de impor a todas as civilizações o liberal way of life ou quando ataca com veemência as maluquices pós-modernas, são parcialmente eclipsados por tentativas de nos fazer crer que o comunismo ainda vai dar certo. Equívoco na grandeza, grandioso no equívoco, como bem disse Raymond Aron acerca do marxismo. E, assim como a obra de Marx, Os Irredutíveis merece ser lido justamente por isso.

Onde encontrar:

www.boitempoeditorial.com.br
(11) 3875-7285


O autor, Daniel Bensaid, estará ministrando conferência na Feira do Livro de Porto Alegre nesta quarta-feira, dia 5 de novembro, às 19 horas. O evento se dará na Sala dos Jacarandás, no Memorial do Rio Grande do Sul (Rua Sete de Setembro, 1020 – Praça da Alfândega).

Novembro 5, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

Mensagem para os professores

Nossa saudação aos professores vem num tom de exortação respeitosa, que é, ao mesmo tempo, uma apologia da verdadeira profissão de educador, revestida de especial importância nos dias que correm.

“Um homem capaz de ver o quanto o universo é belo não poderá deixar de assumir uma atitude otimista diante dele. Compreendendo toda a grandiosidade, toda a beleza da criação, ele saberá resistir à doutrinação e aos métodos de propaganda que hoje fazem tanto sucesso. A verdade do real o ensinará a ‘não prestar falso testemunho’ a seu próximo. Tendo educado e aguçado a sensibilidade para as grandes harmonias, ele será capaz de distinguir o que é sadio do que é doente, e não perderá a esperança nas grandes harmonias da criação orgânica, mesmo sentido uma dor profunda diante dos trágicos sofrimentos e da morte de seres vivos isolados”.

Konrad Lorenz, “O Declínio do Homem”

Outubro 15, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

“A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, de Friedrich Engels

VISITE O NOVO ENDEREÇO DO BLOG PERSPECTIVA

.

.

Friedrich Engels em 1862

O jovem alemão Friedrich Engels estava com a vida feita. Rico, bem-nascido numa das mais prósperas famílias de Bremen, cultíssimo – já na adolescência escrevia poemas e aprendeu vários idiomas – e de boa aparência, foi designado pelo seu pai para cuidar dos negócios da família em Manchester, na Inglaterra. Não era um cargo qualquer: era nada menos do que a “oficina do mundo”, a cidade das chaminés e das máquinas que abastecia o mundo industrializado com tudo o que ele necessitava. Abrir um escritório em Manchester representava mais, na época, do que hoje abrir um em Nova York, Los Angeles ou Chicago. Era, para ser mais direto, o tipo de emprego que qualquer pai zeloso gostaria de dar para o filhão. E para lá se foi o jovem Engels, armado com algumas garrafas de vinho do Porto, várias cartas das namoradas, seus melhores ternos e, é claro, livros – muitos livros: de Hegel, Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess, Max Stirner e todos os grandes nomes da maior glória que sua pátria fragmentada e oprimida podia ostentar naqueles tempos: a filosofia alemã.

E não qualquer filosofia. Uma filosofia crítica, crente no poder da razão humana, pronta para sair das modorrentas páginas dos compêndios,agarrar o leitor pelo pescoço e convencê-lo, às sacudidas, de que ficar ali parado não ajudava nada a mudar um mundo cuja principal característica era a contínua transformação,o contínuo devir, a contínua e incessante luta de opostos. Era preciso participar. E o século XIX, época da Revolução Industrial, do progresso técnico sem limites, do aumento desmedido de riquezas, oferecia uma oportunidade ímpar para um jovem como ele tomar parte do comboio da História. Engels e seus amigos – entre os quais contava um judeu meio raivoso chamado Karl Marx – logo perceberam que o progresso gerava uma imensa massa de despossuídos como nunca a humanidade havia visto antes. Descobrir qual o papel dela dentro da História era a principal preocupação de jovens ele. Ir a Manchester, o coração do capitalismo do século XIX, tinha um sentido todo especial para o jovem de Bremen e também para seu pai. Só que ele nem desconfiava, mas o garotão Friedrich, por trás dos belos ternos, do sorriso fácil e encantador, dos bons modos de gentleman e do ar um tanto dândi, escondia um socialista revolucionário.

Engels chegou a Manchester em 1842 interessado tanto nas condições que levaram a Inglaterra à dianteira do mundo capitalista quanto no destino que este mundo deixava para a classe trabalhadora, assunto de primeira ordem no seu círculo intelectual. Só que falar do povo pobre era uma coisa. Outra bem diferente era vê-los ao vivo. E não deve ter sido agradável a experiência do menino bem alimentado ao ver in loco aquela gente maltrapilha, homens, mulheres e crianças sujos de graxa e pó, magros, de olhos afundados e pele ressecada pelo frio e pela desnutrição perambulando pelas ruas dos distritos mais pobres das metrópoles. Na sua Alemanha natal, bem menos industrializada, o pobre viva no campo, em suas casinhas estilo enxaimel, cercada por agradáveis jardins e uma pequena horta onde a família trabalhava durante o ano de acordo com as suas possibilidades físicas. O lavrador alemão – assim como o artesão, o carpinteiro e o tecelão -t rabalhava e via o resultado do seu trabalho em suas mãos, ou, no máximo, nas mãos do patrão. Lá viviam, sim, alguns operários pobres, que ele havia visto de longe em uma ou outra visita à fábrica do pai. Mas nada comparável àquele povo extenuado, abrutalhado pelas 14 horas diárias de trabalho ininterrupto que ele via na avançadíssima Inglaterra. E o pior é que não podia fazer muito por eles, já que esta gente que tanto lhe repugnava era nada menos do que os seus empregados – ou seja, por mais pesada que fosse a sua consciência, era preciso tocar a firma. O fraco estômago do rico jovem da Renânia tinha de aguentar aquelas barbaridades durante o dia de trabalho. Mas só durante o dia. Quando o expediente acabava, Engels tomava uma charrete para sua casa num bairro rico de Manchester, sentava na escrivaninha, molhava a pena na tina e começava a escrever, indignado, aquilo que viria a ser o seu primeiro livro: “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra” , publicado agora no Brasil pela editora Boitempo.

Manifestação operária em Londres. Foto de 1848

Não foi uma tarefa fácil. Apesar do ardor de jovem rico e sensível que via a pobreza extrema pela primeira vez – algo facilmente perceptível pelo tom indignado que Engels emprega na maior parte do texto -, a confecção do livro exigiu dele um pouco mais do que o senso de justiça, a arguta observação empírica e a retórica de grande escritor. Em sua escrivaninha, ao lado do tinteiro e da pena, pousavam dezenas de relatórios de inspetores de fábricas, denúncias de instituições de caridade, recortes de reportagens de jornais ingleses, anuários estatísticos e trabalhos de pesquisa social então incipientes, porém muito úteis como fonte de pesquisa. É bem provável que Engels fosse, naquela altura, o dono da mais rica documentação sobre a exploração dos trabalhadores ingleses de toda a Grã-Bretanha, complementada pelas suas próprias observações pessoais sobre o estado dos bairros proletários das principais cidades do país. E dessas observações “A situação da classes trabalhadoras na Inglaterra” está cheio. Se há um momento em que as qualidades de Engels como escritor e jornalista aparecem claramente é quando ele fala das cidades e das paisagens rurais inglesas, como neste trecho:

“A área lanígera do West Riding, no Yorkshire, é encantadora: uma sucessão de verdes colinas, cujas elevações se tornam mais e mais abruptas na direção oeste até culminarem na crista escarpada de Blackstone Edge, divisória entre o mar da Irlanda e o mar do Norte. O vale do Aire, onde se situa Leeds, e o do Calder, percorrido pela ferrovia Manchester-Leeds, contam-se entre os mais sugestivos da Inglaterra, semeados por fábricas, vilas e cidades; as casas cinzentas de pedra, limpas e atraentes, comparadas às construções de tijolos cobertos de fuligem do Lancashire, são graciosas à vista. ”

Este é um momento especialmente agradável do livro. Engels gentilmente convida o leitor para viajar pela Merry Old England de céu cinzento e terra verdejante, conhecer suas metrópoles e suas cidadezinhas, as ruas principais, passear por elas e, quando quase nos sentimos capazes de respirar o agradável ar dos parques e das praças, ele nos joga no chão com apontamentos indignados sobre a miséria dos bairros pobres, a desnutrição, as mortes pela fome e as vidas gastas diante das máquinas. Quando chega a hora de descrever as condições de vida dos trabalhadores, Engels dá, na maior parte das vezes, voz aos jornais, revistas e relatórios. Quando fala do que viu nas fábricas em suas andanças pela Inglaterra, não consegue conter a revolta interior e proclama, em altos brados, “que deverá explodir uma revolução diante da qual a primeira Revolução Francesa e 1794 serão uma brincadeira de crianças”.

Casa de trabalhadores irlandeses

Não deixa de ser curioso. Engels viveu o suficiente para ver que aquele país então francamente revolucionário de 1842 se transformaria no povo mais pequeno-burguês do planeta, preferindo os confortos do capitalismo moderado às refulgentes palavras dos socialistas – que, por sinal, usufruíam e ainda usufruem de boa parte destes confortos. Na introdução da obra, o pensador alemão descreve assim os trabalhadores ingleses antes da Revolução Industrial: “ganhavam para suprir suas necessidades e dispunham de tempo para um trabalho sadio no seu jardim ou em seu campo, trabalho que para eles era uma forma de descanso; e podiam, ainda, com seus vizinhos, participar de passatempos e distrações“. O progresso roubou-lhes tudo isso. Ora, o que eles queriam era, apenas, voltar a ter essa vida – com alguns reparos, alguns ganhos advindos do desenvolvimento tecnológico, algumas facilidades urbanas, mas, essencialmente, esta vida – que é a que têm hoje, passado século e meio de discursos, palanques, reuniões canceladas pela polícia, prisões de seus líderes e a conclusão, com a chegada do líder operário James Keir Hardie ao parlamento, no fim do século XIX, de que era melhor deixar essa coisa de revolução de lado e garantir o dinheiro do pint de cerveja e dos ingressos para os jogos do Liverpool e do Manchester United. Os operários ingleses, que Engels e depois seu amigo Marx tanto louvariam e enxergariam como células das revoluções do porvir, acabariam por serem os primeiros a renegarem definitivamente o marxismo.

Não podemos culpá-los. O marxismo – que é o que Engels defende, mesmo sem, na época, ter tido maiores encontros com Karl Marx – tem pressupostos pelo menos duvidosos e promete um resultado nada a animador. Afirma que todas as criações do espírito humano são decorrência direta ou indireta da estrutura econômica da sociedade em que vivem e que a consciência humana é, direta ou indiretamente, produto dessa mesma estrutura, dando pouco espaço para bobagens pequeno-burguesas como gênio individual ou livre-iniciativa. Por outro lado, promete um futuro de ditadura e opressão, onde os soi-disant proletários tomarão as rédeas dos destinos da Humanidade. Não faltam bons motivos para os trabalhadores preferirem o jogo do seu time preferido à ditadura do proletariado, assim como não faltam bons motivos para os intelectuais não levarem as palavras de Marx e Engels a sério. Pouco adiantaram os avisos de um Lúkacs, que, preocupado com as generalizações que via os críticos do marxismo fazerem, diferenciava esta forma de marxismo, que ele chamava de “vulgar”, do verdadeiro marxismo ortodoxo, que nada tinha de determinista e mecânico como seus críticos queriam fazer crer: já em 1940, Edmund Wilson mandava essa diferenciação às favas ao dizer, secamente, que todo marxismo é vulgar. E não é difícil concordar com ele. Por mais que Lukács diga que a estrutura econômica não é o que determina diretamente as criações do espírito, o fato é que os seus próprios ensaios sobre literatura dão verdadeiras aulas de economia e vinculam tanto a obra quanto a biografia do escritor às circunstâncias de época. Por mais que um Nelson Werneck Sodré concorde com Lúkacs, ele escreveu uma História da Literatura Brasileira onde sabemos, com detalhes, os números da importação de escravos para a Bahia e não lemos um só poema de Gregório de Matos Guerra. Por mais que todos eles pensem que o marxismo é muito mais aberto e refinado do que o mau entendedor pensa, que não é bem assim essa história de determinismo econômico, que isso não passa de manobra dos pensadores burgueses (como se o termo “pensadores burugueses” já não fosse interpretação mecânica a partir da economia…..), a grande verdade que a base da necessidade econômica, em última instância, acaba sempre por preponderar no desenvolvimento político,jurídico, filosófico, religioso e literário, mesmo que estes reajam sobre aquela e vice-versa e que haja uma ação recíproca. E isto foi dito por ninguém menos do que o próprio Engels, numa carta escrita, ironicamente, para refutar a idéia de que o materialismo histórico era determinista.

A situação das classes trabalhadoras na Inglaterra traz em germe esta idéia central do marxismo. Para Engels, tudo o que os operários – e os burgueses – pensam e a maneira como agem decorre única e exclusivamente da situação social em que se encontram. Isto é discutível? Provavelmente. Mas discutamos, então: qual a melhor maneira para analisar corretamente aquela época? Não parece claro que, quando se trata da classe dos totalmente despossuídos, dos semi-escravizados, dos que têm de contar os últimos pence para comprar pão preto para a família esfomeada, as condições econômicas não são a causa prepoderante do seu comportamento? E que tudo o que eles falem, pensem e façam deriva,drireta ou indiretamente, de uma situação-limite onde o lado econômico prepondera? E mais: que, quando uma sociedade,como a da Inglaterra de 1842, é claramente constituída de duas classes com interesses diametralmente diferentes, não estamos falando de uma luta de classes de fato? Difícil contradizer. Pois, por tudo de mau que temos para dizer do marxismo – e não só dele, é bom que se lembre – é certo que não podemos nunca mais esquecer da importância dos meios de produção e as condições concretas da existência para o estudo de uma época, lição que grandes como Max Weber, Karl Mannheim, Benedetto Croce e tantos outros não-marxistas souberam receber e plasmar em novos contornos. Ou até mesmo marxistas declarados,como Benjamin, Adorno e o ainda vivo Hobsbawm, para quem A situação das classes trabalhadoras na Inglaterra era nada menos que “um marco na história do capitalismo” e “uma obra-prima”. E não é de outra maneira que devemos saudá-lo hoje: como um grande livro de historiador, um relato pulsante de um momento decisivo e uma denúncia que permanece, porque muitas das causas que a motivaram ainda estão presentes. Temos o privilégio de ler um documento escrito por alguém que não só viveu aquela época como trabalhou para mudá-la radicalmente. E , no fim das contas, foi o que este jovem rico, culto e de boa aparência conseguiu: mudar radicalmente o mundo. Mesmo que não da maneira como chegou a imaginar.

Onde encontrar:

www.boitempoeditorial.com

(11) 3875 7250

Tudo o que Celso Augusto Uequed Pitol publicou está aqui

Julho 26, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | 5 Comentários

René Girard sobre o relativismo

Entrevista do pensador francês sobre o relativismo cultural e religioso e suas consequências:

http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=194859

Julho 17, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

A vida exemplar de Eric Voegelin

Quem tem uma avó, uma tia ou até uma mãe em idade mais avançada com certeza conhece aqueles livrinhos de vida de santos. São muitas vezes as únicas leituras destas senhoras, que talvez nunca tenham tocado em um simples romance em toda a vidas. E nunca tocaram não porque lhes tenha faltado tempo ou dinheiro para comprá-los: não tocaram porque não viram razões para saber de algo que não aconteceu. Queriam saber de uma vida da qual pudesse tirar algum aprendizado, da qual pudessem tirar exemplos – uma vida exemplar. Como a vida dos santos.

Estas vidas exemplares já não são tão populares. A maioria nem crê que uma biografia possa ter um sentido prescritivo, uma orientação para a vida dos outros – até porque, para muitas dessas pessoas, nem existem prescrições, orientações ou valores para serem passados. As modernas biografias são pouco mais do que passatempos e talvez por isso o filósofo e sociólogo austro-americano Eric Voegelin tenha tido o cuidado de chamar a sua de Reflexões autobiográficas (É Realizações, 192 páginas, tradução de Maria Inês de Carvalho).

E fez bem em evitar a confusão. Porque a autobiografia deste grande pensador, autor de A Nova Ciência da Política e do monumental Order and History, não é mera reunião de fatos marcantes: é um belo e absolutamente necessário testemunho de uma existência voltada para o saber e orientada por sólidos princípios que nem a violência da perseguição nazista foi capaz de abalar. Para quem tem hoje os recursos ilimitados das comunicações, as garantias da democracia liberal e as certezas históricas acerca da barbaridade de certas ideologias, estas Reflexões Autobiográficas são um poderoso estimulante vindo de alguém que, privado de todas as facilidades desde a juventude, jamais deixou de lado uma vida que ele teria todos os motivos do mundo para abandonar. E, ao mesmo tempo, envergonham profundamente aqueles que, no mundo de hoje, ainda ousam acusar sintomas de preguiça intelectual.

Sem ser abertamente prescritiva, a biografia de Eric Voegelin é, para todos os verdadeiros estudantes, tão exemplar quanto eram as dos santos para as nossas tias e avós.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572-5363

Tudo o que Celso Augusto Uequed Pitol publicou está aqui

Julho 3, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

Cosmólogo apresenta provas de que Deus existe

Os gregos procuraram. Os escolásticos também. Leibniz idem. Kant deixou a questão de lado e Nietzsche enlouqueceu ao tentar matá-lo. Nestes últimos 2500 anos a humanidade vem tentando demonstrar racionalmente que Deus não é apenas um personagem interessante de algum épico antigo ou uma resposta psicológica aos nossos medos pessoais. Ao que parece, ninguém chegou a conclusões definitivas, e é por isso que poetas, pensadores e místicos continuam sofrendo por aí. Deus, se existe, ainda não se deu a conhecer. E é bom que ele exista, senão, como lembrou Dostoievski, tudo será permitido.

Sem poder aguentar mais tanto sofrimento, o cosmólogo Michael Heller pôs-se a trabalhar para resolver a questão. O resultado foi a comprovação matemática - sim, matemática – da existência do criador, para gáudio dos fiéis e desapontamento dos céticos.

Quem quiser saber mais leia aqui:

 

Abril 4, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | 3 Comentários

Me sinto “impune”

Entrevista com a atriz Juliana Didone,publicada no jornal Zero Hora,  a respeito da campanha promovida pela empresa de comunicação RBS contra a violência no trânsito. Transcrevemos uma das respostas da atriz e o respectivo link onde está inserida: 

 

KzukaJuliana, o teu slogan pra campanha é sobre os caras que correm demais, feito loucos, já tiveste algumas experiências ruins assim?

Juliana DidoneJá sim e é desesperador. A pessoa que tá dirigindo, muitas vezes perde a noção do perigo e você se sente impune, sem poder fazer nada. Na ocasião, eu dei escândalo e falei que se ele não diminuísse eu saltaria no próximo sinal vermelho.

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a1759364.xml&template=3898.dwt&edition=9257§ion=816

 

Impune… Que coisa…

 

Fevereiro 23, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Ciências Humanas | | 2 Comentários

“O futuro do pensamento brasileiro”, de Olavo de Carvalho

liv-futuro.jpg

Olavo de Carvalho é, provavelmente, o nome mais influente da cultura brasileira contemporânea. Poucos se atrevem a afirmá-lo por causa das muitas restrições que provoca na casta intelectual no poder. Dizer-se admirador de Olavo de Carvalho é pedir para ser chamado de fascista, “direitoso”, carola, elitista e outros termos relacionados, além de amargar um melancólico exílio do mundo cultural brasileiro. Mesmo assim, sua influência perdura e se espalha: quando Reinaldo Azevedo, Percival Puggina, os integrantes do Wunderblogs e muitos outros falam de tradição, repúdio ao coletivismo e respeito pelo legado clássico estão emulando, consciente ou inconscientemente, as lições do pensador paulista, lições estas que já atravessam o Atlântico: o português João Pereira Coutinho, articulista da Folha de S. Paulo, volta e meia fala algum autor que Olavo ajudou a divulgar no Brasil.

O Futuro do Pensamento Brasileiro (É Realizações) foi lançado um ano depois de O Imbecil Coletivo, a obra mais conhecida e polêmica de Olavo de Carvalho. Infelizmente, seu impacto não foi tão grande quanto o da antecessora. É natural: em vez da sátira franca de O Imbecil Coletivo, aqui Olavo se debruça diante da miséria cultural reinante no Brasil e, ao sondar suas origens, pergunta se há, de fato, algo de decente produzido neste país em 500 anos de história. A resposta é afirmativa: há, segundo Olavo, um legado cultura brasileiro a ser aproveitado lá fora e cultivado aqui dentro, mas ameaçado pelo esquerdismo primário, que condena ao limbo quem ousa dizer que a obra de Fernando Pessoa é um pouco mais valiosa que a de Jamelão. Dada a crescente força deste último grupo, Olavo adverte que, se tivesse escrito o livro hoje, colocaria o título no condicional. Daqui a alguns anos, talvez nem isso seja possível.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572 5363

Fevereiro 21, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | 2 Comentários

Prédios históricos da UFRGS – Parte 1

O campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul guarda um dos conjuntos arquitetônicos mais interessantes de Porto Alegre. Delimitado pelas avenidas Oswaldo Aranha, Paulo Gama e João Pessoa e dividido ao meio pela rua Sarmento Leite, o campus começou a ser construído em 1898, com a construção do prédio da Faculdade de Engenharia, o primeiro do Estado.

Localização:

43242post_foto.jpg

 (fonte: www.campusvirtual.ufrgs.br)

Na última sexta-feira, Lord C e Madame  LiLi fotografaram os  prédios históricos do campus. A maioria deles está restaurada ou em processo de restauração.

Começamos então com a vista da rua Sarmento Leite, que divide o campus central.

foto-publicada-1.jpg

O prédio abaixo já abrigou a Escola de Engenharia e o Instituto de Química. Hoje suas salas são ocupadas por alunos de ambos os cursos. Uma parte do prédio está destinada apenas ao serviço administrativo.

fotopublicada2.jpg

O museu da UFRGS foi inaugurado em 1910 como anexo da Faculdade de Engenharia. Ali funcionava o Laboratório de Resistência de Materiais e, anos depois, o curso de Tecnologia em Couro.

foto-publicada3.jpg

foto-publicada92.jpg

O prédio da Rádio da Universidade foi inaugurado em 1921. Na época, era ocupado pela Seção de Meteorologia do Instituto Astronômico e Metereológico da Escola de Engenharia e assim foi até a década de 60, quando a rádio da Universidade foi transferida para lá.

fotopublic5.jpg

ufrgs-fotos-020.jpg

O atual Instituto de Biociências foi inaugurado em 1914. A Faculdade de Medicina e o curso de Biologia funcionaram ali até recentemente. Hoje, o prédio passa por reformas e abrigará o Instituto de Artes.  

fotopublicada7.jpg

fotopublicada8.jpg

fotopublicada9.jpg

Fevereiro 5, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Arte, Ciências Humanas | | 1 Comentário

Textos de Julián Márias

O filósofo que inspirou, de várias maneiras, a atividade deste blog tem vários textos disponíveis na Internet. Esta página espanhola disponibiliza um livro inteiro do mestre – “Breve tratado de la ilusión” – e artigos publicados em jornal ao longo de sete anos.

http://www.conoze.com/doc.php?doc=930

Janeiro 27, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

Preconceito linguistico?

http://www.brazzilbrief.com/viewtopic.php?t=12258

 Um excelente texto que desmonta o mito propagado por alguns linguistas esquerdóides.

Janeiro 9, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

Casas coloniais alemãs no Brasil

Quando se fala em arquitetura colonial alemã no Brasil o primeiro nome que vem à mente de muitas pessoas é o de Gramado. É natural: trata-se mesmo de uma bela cidade, com amplo potencial turístico muito bem aproveitado, paisagens maravilhosas, povo receptivo e……casinhas ao melhor estilo bávaro, enxaimel, jardinzinhos e tudo o que tem direito. Estão por toda a cidade e passam para o visitante como legítimos representantes da contribuição cultural dos imigrantes alemães ao Brasil 

Um olhar mais atento, entretanto, mostra que, na verdade, a colonização alemã na região não foi tão importante assim, e que o pouco casario germânico que lá existiu não era exatamente igual ao que encontramos hoje no centro da cidade. A verdade é que as tais casas “coloniais” foram, em sua maioria, construídas muito depois da chegada dos imigrantes europeus. Não são, portanto, o melhor exemplo para quem quer conhecer o aporte germânico à cultura brasileira.

O blog Perspectiva deixa agora alguns exemplos do autêntico casario germânico no Brasil. Estas construções não têm o mesmo estilo das que encontramos em Gramado, normalmente baseadas no estilo arquitetônico da Bavária (sul da Alemanha). São mais parecidas ao estilo renano, mais simples e sóbrio. Nota-se que não são prédios com muitos adornos, e é natural que sejam assim: foram construídos para servir como moradias, e não como atrativo turístico, e refletem, na sua simplicidade, as dificuldades iniciais dos imigrantes alemães em viver numa terra muito diferente da sua.

Ivoti (Rio Grande do Sul):

009_02_2.jpg
.

944212065_9c66c9b7dd_m.jpg
.

ivoti_enxaimel1.jpg
.

imagem.jpg
.
ivoti_ponte-imperador.jpg

 

Nova Petrópolis (Rio Grande do Sul)

pedancino-interior-nova-petr.jpg

Pomerode (Santa Catarina)

pomerode.jpg

 

São Bento do Sul (Santa Catarina)

saobentodosul.jpg

saobentodosul21.jpg

 

Janeiro 6, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | 5 Comentários

“Breviário da Decomposição”, de Émile Cioran

cioran.jpg

 

 “Só tem essas convicções aquele que não aprofundou nada”. Essa frase de Emil Cioran praticamente resume o seu pensamento Pertencente à grande tradição de despertadores de espíritos, da qual fazem parte Nietzsche, Pascal ,Kierkegaard e Unamuno, o filósofo romeno foi, durante todo o século XX, uma espécie de posto avançado da oposição ao predomínio da técnica e da razão na sociedade moderna. Ferozmente independente, ele não admitiu mestres e, apesar de místico, nunca recorreu aos mestres da teologia para insurgir-se contra a progressiva coisificação do homem: “Um balbucio de Santa Teresa nos dá mais idéia de Deus do que toda a teologia de Santo Tomás de Aquino”.

Além de tudo, foi um dos maiores prosadores em língua francesa do século passado, apesar de ter adotado tardiamente o idioma. Em 1949 escreveu seu primeiro livro em francês: Breviário da Decomposição (Editora Rocco).

A crítica francesa da época se espantou. Afinal, quem era aquele jovem escritor, vindo de uma cultura periférica que arrogantemente atacava toda a filosofia contemporânea e, por tabela, toda a civilização ocidental? Pois é justamente isso o que Cioran faz nesse Breviário. As mitologias, as doutrinas, as linhas de pensamento, enfim, todas as certezas pedantes são submetidas à prova do fogo cioraniano, atiçado pela ironia e pelo sarcasmo amargo. Fazer com que seus leitores vivessem na dúvida e no assombro de encarar as falácias de quem quer tudo explicar pela razão: eis, em poucas palavras, a sofrida missão de Cioran.

Onde encontrar:

www.rocco.com.br
(21) 2507 2000

Dezembro 22, 2007 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas, Literatura | | 1 Comentário

Filosofia e C. Humanas

Dezembro 19, 2007 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda

A Última Transmissão

a_ultima_transmissao.jpg

 

Hoje em dia é fácil levar o rock´n roll a sério. Vários artistas já foram receberam o título de “voz de sua geração”, roqueiros já entraram no panteão dos poetas e há teses de doutorado sobre Raul Seixas e Renato Russo nas melhores universidades. Em que pesem os argumentos dos defensores da alta cultura contra a presença indesejável da música popular – argumentos às vezes muito oportunos, aliás – a verdade é que o impacto do rock em nas produções culturais contemporâneas deixou uma marca definitiva. Mesmo na casa de um amante da poesia tradicional não seria estranho encontrar um disco de Bob Dylan no meio das obras completas de T.S. Eliot.

Isso tudo hoje; quando o crítico musical Greil Marcus começou a escrever, há quarenta anos, rock era música efêmera e de mau gosto, e situa-lo no quadro geral da cultura só podia ser insolência de jovens ignorantes, como Marcus e seus leitores na revista Rolling Stone. Nada mais longe da verdade, como mostra A Última Transmissão (Conrad Editora, 160 páginas), primeira obra de Marcus a ser lançada no Brasil. São textos publicados na Rolling Stone entre os anos 60 e 80 que cobrem a explosão do rock como música de protesto, no fim dos anos 60, passam pelos últimos dias de Elvis Presley e  chegam ao punk rock dos anos 70 e 80. Ali fica claro que as críticas dirigidas a Marcus não passavam de preconceito. Cientista político de formação, procurava sempre entender o rock não como mera diversão de jovens, mas como verdadeiro fenômeno social e cultural, estabelecendo relações aparentemente inusitadas, como entre Bruce Springsteen e Lênin e London Calling, clássico do The Clash, com a política britânica dos anos 80. Um manual para quem quer se aventurar no jornalismo musical.

Onde encontrar:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=4608&tipo=2&isbn=8576161389

Setembro 14, 2007 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas, Literatura, Mundo pop | | Sem comentários ainda

O marxismo de Hobsbawm

ml07_sugarsackswindia.jpg

 

É possível ser marxista depois de Stalin, Mao Tse Tung e Pol Pot? Há várias respostas, tantas quantas há para outra pergunta: “o que é o marxismo?”. Se marxista quer dizer defensor de governos autoritários, autocratas assassinos, sovietes e Ladas, não resta dúvida: ser marxista é cegueira, ignorância ou estupidez e ponto final. Porém, se por marxismo entendemos um método de interpretação histórica com base nas condições sócio-econômicas, então o debate continua aberto e podemos dizer que há, sim, intelectuais marxistas dignos de nosso respeito. É o caso de Eric Hobsbawn.

hobsbawn.jpg

 

Da Revolução Industral Inglesa  ao Imperialismo (Editora Forense Universitária, 328 páginas, R$ 31,50) é um livro bem marxista. Por quê? Primeiro, porque trata de uma época e um país caríssimos à trupe vermelha: a Inglaterra entre 1750 e 1950. Foi o tempo do smog, das indústrias movidas a carvão, do Império onde o sol nunca ia ser pôr e, principalmente, a época da formação da classe operária como hoje a conhecemos e das primeiras organizações socialistas. Foi a época que motivou Karl Marx a escrever O Capital e a lançar as bases científicas do socialismo. E é justamente sobre essas bases que se assenta o livro de Hobsbawn: a interpretação sócio-econômica dos fatos históricos, que Marx postula e Hobsbawn aplica, não explica toda a história, mas é um auxiliar poderoso.

Onde encontrar:

www.forenseuniversitaria.com.br
Fone: (11) 3104-2005 

Setembro 14, 2007 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Ciências Humanas | | Sem comentários ainda