PERSPECTIVA

Uma aula de Gilberto Freyre

Gilberto Freyre dizia-se avesso à atividade de professor. Considerava-se antes de tudo um estudioso independente, desvinculado de qualquer ligação formal a universidades ou institutos e sem qualquer obrigação de dar aulas, ao contrário da maioria dos seus contemporâneos. Por essa razão, em sua extensa bibliografia não figuram muitos ensaios sobre metodologia ou reflexões sobre a atividade de um sociólogo e muito menos textos destinados a estudantes, como manuais ou livros de introdução à matéria. Esta opção de Freyre, aliada ao seu estilo “literário” – já foi qualificado pelo poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo como um dos cinco maiores estilistas brasileiros – talvez seja responsável pela pecha de “diletante” que seus detratores costumam lhe impor, o que só um leitor desatento (ou preconceituoso) de sua obra. Nesta sua Sociologia – Introdução ao Estudo dos Seus Princípios , belissimamente editada pela É Realizações, vemos uma resposta de Freyre a estas críticas todas. É um livro didático? Sim e não. Embora o livro tenha algo da estrutura de um manual e Freyre afirme que seu objetivo é servir de companheiro de trabalho para estudantes, o livro não se limita a coligir opiniões alheias ou as ultimas novidades na matéria. Quem espera tais coisas deste livro pode ficar um tanto decepcionado. É, sim, um livro para estudantes (ou estudiosos, enfim) de Sociologia e aborda cada ponto do complexo sistema da Sociologia. Mas é também, e antes de tudo, um livro de Gilberto Freyre, onde se encontra mais de seu ponto de vista e de suas conclusões do que os de outros.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572-5363

Dezembro 10, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Príncipe Valente

Um nobre inglês costumava dizer que O Príncipe Valente foi maior contribuição para a literatura inglesa nos últimos 100 anos. Sem querer fazer coro à manifestação exagerada, o fato é que a história em quadrinhos criada por Harold Foster em 1937 representou uma verdadeira revolução na arte seqüencial. Primeiro, o tratamento “sério” de fatos históricos: inspirada nas lendas arturianas, a trama situa-se na Grã-Bretanha entre os dias finais do Império Romano e os começos da Idade Média, e tenta, na medida possível seguir fielmente o desenrolar dos fatos históricos. Depois, o traço refinado de Foster e o cuidado com os detalhes anatômicos dos personagens, bem como as roupas da época. Por fim, a falta dos balões para representar as falas dos personagens, substituídos por textos ao pé da página. O personagem ganhou fãs no mundo inteiro e virou filme, programa de TV e até RPG.

Neste primeiro volume, editado pela Opera Graphica, temos os anos de formação do Príncipe Valente. Filho de um rei nórdico que aporta nas costas britânicas (representação da invasão saxônica e viking que a Grã-Bretanha sofreu no século V), Valente – apelidado de Val – aprende a sobreviver naquele mundo hostil e semi-bárbaro que era a Europa medieval e, ao mesmo tempo, a pegar gosto pelos perigos e pelo desconhecido. A maior parte das histórias mostra o aprendizado do jovem príncipe e sua preparação para a vida de aventuras que terá nos próximos episódios, além de enfrentar a dor da morte de entes queridos e ter os primeiros encontros com os cavaleiros arturianos, como Sir Lancelot. Destaque para a excelente edição da Opera Graphica, que conta com um belo ensaio introdutório sobre o personagem e o autor.

Onde encontrar:
http://www.operagraphica.com.br/

Dezembro 5, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 1 Comentário

Sarau em Língua Inglesa em Porto Alegre

Data: 5 de dezembro de 2009 (sábado)

Horário: 15:00 hs

Local: auditório da Livraria Cultura, Shopping Bourbon Country av. Túlio de Rose nº 80

Entrada franca

Coordenação: Profa. Maria Da Graça Gomes Paiva (ex-docente da UFRGS) e Kleber Valenti Schenk (Bacharel em Letras – UFRGS)

Tema: Um tributo à música!

A proposta do Sarau é prestar um tributo à música em todas as suas versões melódicas tanto no idioma inglês quanto em outros idiomas. A ideia de construir uma “Babel” musical a ser vivenciada por todos os participantes é o objetivo declarado dos organizadores que convidam a todos para que participem, ressaltando o grande poder de comunicação e de expressão que a linguagem musical – poética, vocal ou instrumental – nos possibilita sentir, vivenciar e compartilhar. todos é mais do que resposta ao convite – constitui-se, na verdade, a ratificação de um desejo e de um pedido para que o SARAU continue com êxito em 2010. Participe e traga seus amigos para compartilharmos esta celebração.

Novembro 30, 2009 Publicado por blogperspectiva | Arte, Literatura, Música | | Sem comentários ainda

Estudando o Fantasma

A rigor, uma só biografia do Fantasma parece impossível. Afinal, como qualquer fã de quadrinhos sabe, o personagem de Lee Falk assumiu muitas identidades ao longo dos séculos, sendo necessário, portanto, dedicar a cada uma delas um volume específico. Além disso, o Fantasma é o Espírito que anda: não morre. Logo, sua biografia, se sair, ficará permanentemente desatualizada.

Talvez por isso, esta biografia do Fantasma lançada pela Opera Graphica não se assemelhe às biografias que nos acostumamos a ver. Talvez o título mais correto fosse “Enciclopédia do Fantasma”. Explico: nas 144 páginas do livro do professor de comunicação e pesquisador Marco Aurélio Lucchetti talvez menos da metade seja dedicada à vida ou “às vidas” do personagem. Há incontáveis informações sobre os autores das histórias, os desenhistas, os fãs, os vilões, as homenagens, enfim, tudo o que cerca o fantasma. Dele próprio, nem tanto. E não se pode dizer que foi uma escolha errada. Ao contrário, o trabalho de Luccheti é excelente, não só para o fã do personagemm como para os aficcionados pelos quadrinhos de modo geral. O trabalho de pesquisa inclui mais de mil imagens e todas as capas lançadas no Brasil, além de entrevistas com os desenhistas e vários detalhes que escapam até mesmo ao mais empedernido fã. Que é, certamente, o maior beneficiado com o lançamento deste livro.

Onde encontrar:
www.operagraphica.com.br

Novembro 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Instantâneos da Feira do Livro de Porto Alegre/2009

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No encerramento da Feira do Livro de Porto Alegre os presentes desfrutaram de bons momentos com apresentação do Grupo de Danças Folclóricas Kunstkraft da Comunidade Evagélica de Esteio.

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Degustação de livros

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Um show à parte a participação de Volt e Banricomprinhas na Feira

 

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Novembro 15, 2009 Publicado por Madame Li Li | Geral, Literatura | | Sem comentários ainda

Teoria do Estado de Solidariedade- Wambert Gomes di Lorenzo

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Tive o prazer de conhecer o professor Wambert durante um curso, há alguns anos. Desde então, tornei-me admirador de sua inteligência e da sua notável capacidade expositiva, que praticamente garante a qualidade do livro a ser lançado amanhã.

Onde comprar

Novembro 12, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Ordem e História

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O segundo volume de Ordem e História, de Eric Voegelin, intitulado O Mundo da Pólis (Edições Loyola, R$ 89) , aborda a formação da concepção de ordem no mundo grego, dando seguimento ao primeiro volume, Israel e a Revelação. O trabalho de Voegelin na Grécia prossegue no próximo volume, Platão e Aristóteles, a ser lançado em breve. Aqui, Voegelin investiga em profundidade as raízes da formação da cultura grega, desde os primórdios, com a civilização cretense, passando pela Ilíada, pela Odisséia, o surgimento da filosofia com Parmênides, Heráclito e outros pré-socráticos, e desemboca nos primeiros historiadores, onde faz uma análise da concepção helênica de história e a sua particularidade face às demais civilizações da mesma época. Inicialmente, Voegelin ocupa-se dos mitos – a tentativa primeira dos gregos em representar a ordem no ser – passando depois a examinar minuciosamente o surgimento da filosofia e das instituições políticas e religiosas, que suplanta a mitologia como simbolização da ordem cósmica e confere um caráter único à civilização grega.

Novembro 12, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Retrato de uma geraçã0

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Em seu poema “Apologies to Harvard”, uma espécie de ajuste de contas com o seu passado estudantil, o escritor americano John Updike sai-se com a seguinte frase: “E nós nem sabíamos que éramos uma geração”. E nem poderiam. No turbilhão de acontecimentos que marcam a juventude – e a juventude universitária, sobretudo – esse tipo de coisa nem passa pela cabeça de alguém. Registrar uma geração é tarefa para as gerações vindouras, ou para representantes daquela geração que, por talento, formação e oportunidade, podem registra-la para a posteridade. É o caso de Ruy Nedel e seu Porto Alegre dos Casais – A Medicina da Santa Casa ( 272 páginas, EDIURI).

E é isso que o livro do ex-deputado constituinte e médico há mais de quatro décadas nos oferece: o retrato de uma geração. No caso, a dos estudantes de medicina da UFRGS que, entrando na faculdade entre o fim dos aos 50 e o início dos 60, completaram a sua formação em meio ao golpe militar e às mudanças sociais, políticas e comportamentais pelas quais o Brasil e o mundo passaram naquela época. O pano de fundo histórico não abafa, no entanto, a riqueza das relações humanas descritas ali, relações estas que, mais do que a História que as cerca, forma, verdadeiramente, uma geração de homens, que vivem e pensam em uma determinada época. E esta geração, que não se sabia uma geração, ganha aqui o seu testemunho.

Pedidos pelo email:

ineshoffmann@uol.com.br

Outubro 29, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Relendo Pessoa

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Fernando Pessoa se definiu como um “poeta animado pela filosofia”. Há quem diga que foi o maior filósofo de uma língua tão pobre em pensamento quanto a nossa, e isso pode ser aplicado tanto à filosofia propriamente dita quanto à poesia. A regra entre os poetas portugueses – e também entre os brasileiros – é a expressão de sentimentos primários, de amores mal-resolvidos, desejos não concretizados e paixões momentâneas que se esvaem com o tempo. É “eute- gosto-tu-me-gosta”, de que falava Drummond. Os valores da civilização, o homem diante do cosmo e o próprio cosmo interessam apenas a uns poucos poetas, que não raro são tachados de “intelectualistas” e “difíceis” e não recebem, do público ou da crítica, o devido reconhecimento no momento em que surgem.

Pessoa é o exemplo paradigmático de tudo isso. Pouco publicou em vida; no único concurso de poesia de que participou, recebeu um prêmio de consolação, e não é preciso dizer que seu trabalho inscrito – o clássico Mensagem – era incomparavelmente superior ao livro vencedor. Só nos anos 60 sua obra começou a receber análises sérias. Hoje, está entre os principais temas dos críticos portugueses e brasileiros. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos, de Carlos Felipe Moisés (Editora Escrituras, 228 páginas) é um claro exemplo disso. O livro é uma reunião de ensaios que, ressaltando o aspecto filosófico da obra de Pessoa, além de suas características esotéricas, contribuem para uma sempre fecunda releitura da obra. Um livro imprescindível para acadêmicos e fãs do poeta português.

Outubro 23, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

O historiador Winston Churchill

GRD_385_HISTÓRIA DOS POVOS DE LÍNGUA INGLESA Vol IV

Winston Churchill é um grande personagem da história política e militar do século XX. Estadista inteligente, figura central da resistência ao nazismo, autor do brado “só tenho para vos oferecer sangue, suor e lágrimas”, proferido no seu discurso de posse na Câmara dos Comuns, é um exemplo de força na adversidade e de coragem pessoal e política. Em suma, um candidato natural o mais importante prêmio para os que se destacam em tais misteres: o Nobel da Paz. Porém, não foi o que aconteceu. Churchill recebeu em 1953, logo após a guerra, nada menos do que o Nobel de Literatura, num ano em que poderiam ter agraciado um Camus, um Sartre ou qualquer outro escritor de porte semelhante engajado na guerra recém terminada. Justificou-se a escolha de Churchill pelos seis volumes da sua A Segunda Guerra Mundial , sem dúvida o mais importante documento daquele período. Já seria um motivo razoável para premia-lo, até pelo clamor do momento. Mas a obra de Churchill não se esgotou neste ponto, e uma bela prova disso é História dos Povos de Língua Inglesa (Editora Ibrasa, 449 páginas, tradução de Aydano Arruda). Publicada pela primeira vez em 1951, agora chegam às mãos do público brasileiro os dois últimos dos quatro volumes, intitulados “A Era da Revolução” e “As grandes democracias”. Os dois volumes enfocam os dias de paz que se seguiram à queda de Napoleão e chega até a morte da Rainha Vitória e o começo do século XX, passando pelas guerras dinásticas as lutas internas da Europa, as quais desfizeram o equilíbrio do mundo civilizado. Uma aula de história e narrativa por um das maiores personalidades do século passado.

Onde encontrar:

Outubro 13, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

*Velha árvore

*Eliane Couto Triska


Velha árvore, rapariga religiosa,
Estranha, essa tua sombra que, vadia,
Sedenta de qualquer um em qualquer dia,
Se deita no teu gozo – A milagrosa!

Pode reclamar-te a juventude?
Por que, se, na secularidade
De vida, em sacrifício à saúde,
A morte só conhece a metade?

Frondosa, ainda exibes a grinalda
Copada para a noite resolvê-la
Num noivo com um anel de esmeralda.

E a noite, que transforma tudo em igual,
Aniquila tua sombra, ao recolhê-la
Às letras, numa folha de jornal.

Do livro *Os tempos e sua voz*

Setembro 27, 2009 Publicado por blogperspectiva | Literatura | | 1 Comentário

*A Guerra dos Farrapos, segundo Dona Picucha

* Dona Picucha Terra Fagundes, personagem  de O Continente, primeiro volume da trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo , contou esta história nas páginas 284/289 do romance.

Dona Picucha Terra Fagundes, conte alguma coisa da sua vida.

Pra contar não tenho muito. Mas sou filha do velho Horácio Terra, negociante no Rio Pardo. Me casei muito menina com um tropeiro de Caçapava. Quem me escolheu marido foi meu pai sem pedir minha opinião. Quando vi, estava noiva. O moço vinha uma vez por semana, mas ficava na sala proseando com o velho. Eu mal tinha licença pra espiar pela fresta da porta. E fomos muito felizes, graças a Deus Nosso Senhor.

Onde está seu marido?

Enterrado em chão castelhano. Morreu na Cisplatina.

Dona Picucha, quantos filhos teve?

Fui bem como a mulita. Tive uma ninhada de sete machos.

E os sete se criaram?

Com o leite destes peitos.

Deram muito trabalho?

Nem tanto. Só sinto não ter tido mais sete.

Me perdoe a curiosidade, mas quantos anos a senhora tem?

Sessenta e seis na cacunda.

Quem vê a senhora não diz.

É muita bondade sua, sei que estou um caco velho. Mas não vá embora ainda. Quero que prove meus bolinhos de polvilho e um licorzinho de butiá. Quem sabe aceita um mate? Só lhe peço que não repare, pois isto é casa de pobre.

Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim, olhos de noz-moscada, buço cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e chinelas de ourelo.

Dona Picucha Fagundes, uma coisa vou dizer: quem um dia entrou em vossa casa nunca mais há de esquecer seu cheiro de flor e pão quente o pintassilgo da gaiola os manjericões da janela os ratos que espiam nos buracos dos rodapés e que vós tratais como pessoas da  família.

Quem passou pela vossa casa, ainda que viva cem anos, há de sempre recordar

vossas mãos ágeis que fazem renda de bilro

vossas mãos frescas e secas, boas para espremer queijo

vossas belas mãos afeitas a acariciar cabeças de filhos , netos e gatos lvossas ligeiras mãos que sabem curar feridas de gentes e bichos

vossas rapadurinhas de leite

vossos lençóis cheirando a alfazema

vossos chás caseiros

vossos óculos na ponta do nariz

vossas cantigas

vosso oratório onde sempre há velas acesas

e a vela solitária que às vezes acendeis no meio do pátio para o Negrinho do Pastoreio.

Quem um dia passou pela vossa casa há de guardar para sempre na memória

os causos que contais de Carlos Magno e os Doze Pares de França

os vossos fabulosos casos de assombrações e mistérios, princesas e fadas, lagoas brabas e salamancas.

Dona Picucha Terra Fagundes quem vos ensinou essas histórias e rezas e receitas, essas cantigas antigas e essas estranhas simpatias que tudo podem curar?


Depois da Guerra dos Farrapos dona Picucha não falou mais nas proezas de Carlos Magno e seus doze cavaleiros.

Esqueceu Rolando por Bento Gonçalves

Olivério por Antônio Neto

Reinaldo por Davi Canabarro

Flores Malão por Lima e Silva.


Entre, patrício, a casa é sua. Não faça cerimônia, tome assento e aceite um chimarrão.

Eu lhe conto como foi. Nunca vi guerra mais braba nem mais comprida.

Durou dez anos.

Está vendo aquele pessegueiro lá no fundo do quintal? Quando ele floresceu, em setembro de 35, chegou a notícia que o general Bento Gonçalves tinha dado o grito da Revolução. Um ano se passou, e eu estava ainda comendo compota dos pêssegos de 35 quando o general Neto proclamou a República Rio-Grandense.

Dei tudo que tinha prós Farrapos. Meus sete filhos. Meus sete cavalos.

Minhas sete vacas. Fiquei sozinha nesta casa com um gato e um pintassilgo. E Deus, naturalmente.

Quando eu não estava fazendo pão ou doce, fazia renda de bilro, porque estas mãos que vossuncê está vendo não sabem ficar sossegadas.

Sina de mulher é essa: ficar em casa esperando, enquanto os homens se vão em suas andanças.

Mas por que será que o tempo custa tanto a passar quando há guerra?

Decerto não pode andar ligeiro, tropeçando num morto a cada passo.

E por que às vezes o vento geme tanto que parece ferido?

Decerto porque viu muito horror no seu caminho.

Foi uma guerra tremenda. Durou dez anos. Bem dizia o compadre Quinzote.

Em todo o Continente não podia haver ninguém de lado, só os urubus, que pra eles carne de farroupilha era o mesmo que carne de cararnuru.

Vossuncê deve se lembrar de quando prenderam o general Bento Gonçalves.

Bento Gonçalves da Silva

Foi preso, foi desterrado,

Mas deixou o bravo Neto

Pra cumprir o tratado.

Quando me contaram que os imperiais tinham levado nosso general pra Bahia e metido ele no Forte do Mar, acendi uma vela pra Santo António, que tem honras de sargento, e lhe pedi que ajudasse o nosso chefe a fugir.

Santo António me atendeu, é santo mui cumpridor.

Um dia Bento Gonçalves pediu licença aos carcereiros pra tomar um banho de mar. Deram. Ele se atirou nas ondas e começou a bracear com vontade, e quando os guardas caíram em si nosso bravo presidente estava longe já entrando na canoa dum amigo, pois tudo era combinação. Veja só que homem ladino!

Depois, bem disfarçado, entrou num navio que descia cá prós mares do Sul, desembarcou em Santa Catarina, montou logo num cavalo e se tocou pró Continente.

Upa! Upa! meu bragado! Tenho pressa de chegar, vou assumir a presidência da República Rio-Grandense, e preciso muitas contas ajustar!

Depois de três dias de viagem batida chegou numa estância e gritou:

Ó de casa:

Apareceu uma velhinha.

Minha boa senhora, quero que me arranje um cavalo, que me alugue ou que me venda, o meu está mais morto que vivo, venho de longe, preciso chegar ao meu destino, é um caso de vida ou de morte.

A velhinha respondeu:

Vivo sozinha neste rancho, dei tudo que tinha prós Farrapos e o resto os imperiais levaram. Só me resta um cavalo, que faz todo o serviço da estância. Esse não vendo nem alugo, nem por ouro nem por prata nem por sangue de lagarta. Há só um ente no mundo pra levar o meu tordilho. É o homem que mais venero, e o que mais admiro: o general Bento Gonçalves.


Mas vá se servindo de mate, a chaleira está aí mesmo.

Pois foi uma guerra braba, que judiou com o Continente. Mas dela saímos limpos, passamos todas as provas, honramos o nosso povo.

Mas cá pra nós vou lhe dizer, do lado dos caramurus também havia muita gente boa, que todos eram do mesmo sangue.

E o tal de Bento Manuel Ribeiro? Ninguém entendia esse cristão. Um lia estava com os imperiais e no outro com os farroupilhas. Havia até quem dissesse que duma feita ele entrou na Salamanca do Jaraú e saiu de lá com o corpo fechado pra bala e arma branca.

O meu compadre Quinzote acredita nessas bruxarias. E eu as vezes também acho que alguma coisa deve haver…

O general Bento Manuel era valente, ligeiro e alarife. O povo até fez uns versos:

Pode um altivo humilhar-se,

Pode um teimoso ceder,

Pode um pobre enriquecer,

Pode um pagão batizar-se,

Pode um mouro ser cristão,

O arrependido salvar-se

Tudo pode ter perdão

Só o Bento Manuel, não.


Mas isso de perdoar é lá com Deus Nosso Senhor, que conhece melhor as pessoas.

Pois é como lhe digo. Os homens da Revolução eram feitos duma só peça.

Não sei se vossuncê se lembra do manifesto do presidente, do ano 38.

Tenho guardado o jornal que o meu filho me mandou da guerra. Leia onde ele marcou.

Éramos o braço direito e tão bem a parte mais vulnerável do Império.Agressor ou agredido o Governo nos fazia sempre marchar a sua frente:disparávamos o primeiro tiro de canhão, e eramos os últimos a recebê-lo. Longe do perigo dormião em profunda paz as de mais Províncias, em quanto nossas mulheres, nossos filhos e nossos bens, presa do inimigo, ou nos erão arrebatados, ou mortos, e muitas vezes trucidados cruelmente.

É preciso ter senhoria na cabeça pra escrever palavras assim.

Foi uma guerra mui séria, de ódios e durezas, ferro contra ferro, olho por olho, dente por dente.

Vossuncê deve estar lembrado que os republicanos deram alforria pra todos os negros que se alistaram nas suas forças. Os imperiais quando pegavam um desses negros mandavam dar-lhe uma sumanta de duzentos a mil açoites.

O governo farroupilha deita então um decreto, dizendo que dali por diante toda vez que os caramurus surrassem um negro farrapo eles tiravam a sorte entre os prisioneiros e passavam um oficial legalista pelas armas.

Vingança, sim senhor. Mas davam morte de homens e não castigo de cachorro.

Como o patrício está vendo, o respeito entrava na guerra.

Também, houve cada uma!

Os farroupilhas precisaram levar sua frota por mar. Vai então José Garibaldi inventou de carregar dois navios em cima de carretas puxadas por duzentas juntas de bois. Coisa igual nunca se viu, dês que o mundo é mundo. E assim aqueles dois barcos fizeram léguas por terra do Capivari até o mar.

Montado no seu cavalo Garibaldi é o capitão. Nas verdes ondas do campo A sua rédea é o timão.

Foi por esse tempo que os Farrapos tomaram a vila da Laguna, onde por sinal nasceu a minha avó materna. Garibaldi foi por água, Canabarro foi por terra. E acabaram proclamando a tal República Juliana.

Também foi por esse tempo que Garibaldi conheceu Anita.

E agora me dê licença de falar na minha gente.

Um dia um capitão farrapo, de espada na cinta, lenço republicano no pescoço, bateu na minha porta, tirou o chapéu e entrou.

Venho da parte do general Canabarro. Tenho o pesar de lhe comunicar que seu filho o tenente Crescendo morreu em ação como um bravo. O general me pediu que lhe desse os seus pêsames.

Fiquei tonta, meio cega, mas fiz força pra não chorar. Porque essas coisas, como tantas outras, a gente deve fazer quando está sozinha.

Diga ao general Davi que lhe fico muito obrigada.

E como não tinha mais que dizer, perguntei ao capitão:

Aceita um amargo? Ou uma guampa de leite?

E depois que ele foi embora, peguei na renda de bilro, porque estas mãos que vossuncê está vendo não sabem ficar sossegadas. Mas ai! este coração de velha é que ficou sem sossego, e não encontrei pra ele outro trabalho senão pensar nos ausentes.

E o tempo continuava a andar num tranco lento de boi lerdo. Entrava inverno, saía inverno. E a guerra nada de acabar.

Notícias foram chegando.

Batalha do Taquari. Nessa perdi dois filhos.

Cerro dos Porongos. O general Canabarro foi pegado de surpresa: mais três filhos meus que se foram.

O sétimo morreu no Poncho Verde.

Depois veio a paz, com honras pros dois lados.

Mas a flor do Continente se perdeu.

Os campos ficaram desertos, as mulheres de luto, casas viraram tapera, cidades empobreceram, cemitérios cresceram, os urubus engordaram, e muita gente até hoje passa necessidade por causa dessa guerra e os que antes não tinham nada, depois dela ficaram com menos.

E agora aqui está a velha Picucha Terra Fagundes, esperando a chamada de Deus.

Ah! Ia me esquecendo de lhe dizer que tenho sete netos, todos homens.

Quando vejo eles, que já estão grandotes, sinto um calafrio pensando noutra guerra.

Por falar nisso, vossuncê acha fundamento nos boatos que andam correndo que vai haver outro barulho com os castelhanos?

Deus queira que seja mentira, mais uma guerra ninguém agüenta.

Mas vá tomando o seu mate Quem sabe aceita uns bolinhos? Não faça cerimônia, a casa é sua.

E agora se me dá licença, vou voltar à minha renda, porque estas mãos que vossuncê está vendo não sabem ficar sossegadas.

Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim, olho, de noz-moscada, buço cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e chinelas de ourelo.


Setembro 20, 2009 Publicado por Madame Li Li | Geral, Literatura | | 1 Comentário

Um livro de nosso tempo

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“Quando os russos se tornaram eslavos, quando os franceses assumiram o papel de comandante de mão-de-obra negra, quando os ingleses se tornaram ‘homens brancos’ do mesmo modo como, durante um certo período, todos os alemães se tornaram arianos, então essas mudanças significaram o fim do homem ocidental. Pois não importa o que digam os cientistas, a raça é, do ponto de vista político, não o começo da humanidade, mas seu fim, não a origem dos povos, mas o seu declínio, não o nascimento natural do homem, mas sua morte antinatural”.

Esta frase poderia ter sido escrita hoje, no tempo das cotas, das “ações afirmativas”, da “igualdade racial”, das “políticas compensatórias”, do orgulho negro, branco, rosa ou cinza. Mas é de 1949, dez anos depois de ver tudo aquilo ter-se transformado em realidade. Se alguém se sente em alerta ou preocupado, ótimo: é isso mesmo o que Hannah Arendt quis provocar quando publicou Origens do Totalitarismo (Companhia das Letras, 562 páginas,tradução de Roberto Raposo). A epígrafe do livro, de autoria de Karl Jaspers, é altamente elucidativa: “Não almejar nem os que passaram, nem os que virão: importa ser de seu próprio tempo”.

Origens do Totalitarismo é um livro do seu tempo e com as preocupações do seu tempo, mas serve perfeitamente como aviso e guia para aqueles que vieram depois dele – ou seja, nós. Lemos a análise dos três epifenômenos do Mal presentes em nosso século – anti-semitismo, o imperialismo e o totalitarismo – como algo situado num passado longínquo, pré-Onu, pré-convenção de Genebra e pré-Direitos Humanos e, ao mesmo tempo, perigosamente próximo do mundo em que vivemos.

O alerta de Hannah Arendt continua válido: Origens do totalitarismo é, definitivamente, um livro de nosso tempo.

Onde encontrar: (11) 3707 3500

www.ciadasletras.com.br

Setembro 17, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Kant e Hegel

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Os nomes dos alemães Immanuel Kant e Georg F. Hegel estão ligados a boa parte do que aconteceu no mundo nos últimos dois séculos. Quando um estudante de Direito aprende que a ciência jurídica reduz-se à análise e interpretação da norma, quando um estudande de filosofia aprende que a história humana é a história da luta de classes ou quando um líder político fala em ideologia estão emulando, talvez sem saberem, o nome destes dois grandes pensadores. Juízos de valor à parte, Hegel e Kant estão ao lado de uns poucos na posição de artífices da nossa visão de mundo moderna. E, como tais, escapar deles é muito difícil. É preciso erguer-se acima da nossa época, mirá-la do alto e, assim, também mirar as épocas anteriores, de onde a nossa vem e para as quais deveria prestar tributo.

Olavo de Carvalho faz este rigoroso e indispensável exercício intelectual na aula 28 da sua coleção História Essencial da Filosofia (É Realizações, 72 páginas). Segundo ele, as pessoas de hoje enxergam o mundo de uma maneira kantiana, hegeliana ou da mistura das duas: “De cada um vão derivar correntes que prosseguem até hoje e que de algum modo modelam não só as idéias dominantes na sociedade, mas se impregnam tão profundamente na cultura que chegam a determinar e dar forma à percepção individual das coisas”. Olavo alerta, porém, para as deformações cognitivas que ocorrem no pensamento Ocidental desde o Renascimento e que, através de Hegel e Kant, desembocam em algumas das piores tragédias do século XX.

Onde encontrar:
www.erealizacoes.com.br
(11) 5572.5363

Setembro 16, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

O Newton oculto

Qualquer pessoa que tenha completado o segundo ano do Ensino Médio conhece o inglês Isaac Newton: é ele o formulador das leis básicas da mecânica que aprendemos na 1ª.. série do Ensino Médio e daquele método matemático que estudamos um ano depois denominado, muito simplesmente, de “Binômio de Newton”. Quem acompanha, ainda que superficialmente, alguma publicação de divulgação científica decerto já ouviu falar do “Principia Mathematica” e, com absoluta certeza, da imagem clássica do homem de peruca, à moda do século XVIII, encostado numa macieira à espera que a queda de uma maçã lhe dê o leitmotiv necessário para elaborar a Teoria da Gravitação Universal.

Em suma: conhecemos muita coisa do Newton astrônomo, físico e matemático e algo do homem excêntrico e solteirão. Nada, porém, do Newton dedicado ao estudo da Alquimia, do ocultismo e da Bíblia, estudioso do hebraico e do grego e autor de diversos tratados de teologia e interpretação bíblica, para quem “a maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode”. É este Newton que As profecias do Apocalipse e o livro de Daniel: as raízes do Código da Bíblia (Pensamento-Cultrix, 224 páginas, tradução de Carlos Salum e Ana Lucia da Rocha Franco) nos revelam. Aqui, o cientista estuda pormenorizadamente as profecias dos livros de Daniel e do Apocalipse e as relaciona com a história européia e mundial, encontrando pontos de contato e pistas que levam à idéia de um Código escondido nas Escrituras.

Onde encontrar:

www.pensamento-cultrix.com.br

Setembro 9, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

O crítico Bandeira

A Apresentação da Poesia Brasileira de Manuel Bandeira, é uma das melhores antologias de poetas brasileiros já publicada. Além da seleção criteriosa, que vai José de Anchieta a Haroldo de Campos, o livro traz um ensaio introdutório do autor onde cada um dos principais nomes da nossa poesia é submetido a rigorosa crítica, como sói acontecer nas melhores antologias. Um livro modelar. Ou quase. Manuel Bandeira pecou apenas ao ser excessivamente rigoroso com um poeta em particular: ele mesmo. Nas 504 páginas de Apresentação da Poesia Brasileira não há apreciação crítica do seu próprio trabalho e seu nome aparece apenas em um ou outro momento menos relevante. O julgamento de Bandeira é seguro em praticamente todo o livro – a não ser quando chega aos seus companheiros de geração, quando fala demais dos outros e nada de si mesmo. Este pequeno defeito, provocado talvez pela proverbial humildade do autor – apelidado por Murilo Mendes de “franciscano da poesia” -, não chega a manchar uma obra que, embora dedicada ao leitor iniciante (foi escrita sob encomenda de uma editora mexicana, disposta a apresentar os poetas brasileiros ao público hispano-americano), jamais desce ao nível do reles didatismo e muito menos da superficialidade. É um livro de genuína crítica literária, seja na segurança ao apreciar dos predecessores, seja na coragem de apontar, dentre os mais novos, quais mereciam maior atenção do público leitor. Em uma palavra: essencial.

Onde encontrar:

www.cosacnaify.com.br (11) 7727-1218

Setembro 7, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

A caminho do Inferno

O lançamento de Preacher – A Caminho do Texas (Devir Livraria, 200 páginas, R$ 45) é um dos mais aguardados do ano.As multipremiadas aventuras do pastor Jesse Custer e do vampiro irlandês Cassidy não são publicadas há quase uma década no Brasil, e agora viraram álbum pela primeira vez, numa bela edição com a capa de Glenn Fabry.

O enredo é típico das road stories, criação original da cultura americana, presentes no cinema, na literatura e na música popular daquele país: é a velha história do peregrino solitário que atravessa o gigantesco território americano em busca de algo, seja o dinheiro, a fama ou a salvação de sua alma. O caso de Preacher é, nesse sentido, bastante singular: os protagonistas parecem procurar, isso sim, a danação eterna.

Jesse Custer é um pastor em crise que encontra  em seu caminho  um misto de anjo e demônio chamado Genesis. Com sua ex-namorada Tulip uma jovem pistoleira e Cassidy, um vampiro irlandês beberrão, Jesse parte  do coração do Texas até a cidade do Nova York, passeando por cenários que nada lembram a mítica Big Apple.

Violência, degradação e muito bom humor acompanham a trajetória dos personagens nesse verdadeiro clássico dos quadrinhos contemporâneos.

Onde encontrar: www.devir.com.br (11) 3347.5703

Agosto 29, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Contos de F. Scott Fitzgerald

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O filme O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher, tem quase três horas de duração. O conto O Curioso Caso de Benjamin Button, de F. Scott Fitzgerald (1896 -1940), tem exatas trinta páginas. A coletânea de contos em que ele aparece, O curioso caso de Benjamin Button e outras histórias da Era do Jazz (José Olympio, tradução de Brenno Silveira), não chega a trezentas páginas, que seria um tamanho compatível com o tempo de duração da adaptação. Só por aí já podemos ter uma ideia do que foi o trabalho do roteirista em dilatar o tempo da narrativa, inserindo detalhes que o conto não traz ou o faz de maneira implícita ou superficial. Apesar do cuidado de Fitzgerald com o estilo – clássico, sem os experimentalismos típicos dos seus contemporâneos – o conto felizmente permite essa expansão, dado o grande período de tempo transcorrido nas trinta páginas em que o escritor nos conta a história do homem que nasceu com aparência de velho e foi rejuvenescendo com o passar dos anos.

A narrativa é um dos trunfos de Fitzgerald. Assim como o nosso Machado de Assis, foi jornalista e aprendeu a arte da concisão, duramente trabalhada pelas rigorosíssimas exigências de espaço dos jornais. Também como Machado, gosta de conversar com o leitor como quem convida um amigo para tomar chá na varanda, o que é outro provável resquício do cronista e jornalista. E, como se tudo isso não bastasse, o autor de O Grande Gatsby é também muito machadiano em sua visão irônica da sociedade (sobretudo a alta sociedade), em seu pessimismo incoercível e na latente ternura pela incapacidade dos homens de sua época supostamente feliz – os anos 20 nos EUA, a “Era do Jazz” – em serem felizes. Só isso – ou tudo isso – já justifica a leitura atenta destes contos.

Onde encontrar

Julho 29, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Cartas de Burckhardt

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O suíço Jakob Burckhardt (1818-1897) passou para a história como o típico erudito solitário, austeramente dedicado aos seus elevados afazeres e desligado do impuro mundo exterior. Isso foi, ao menos em parte, verdade: homem de hábitos simples, morador do segundo andar de uma casa de comércio durante a maior parte de sua vida, quase que inteiramente dedicado à sua cadeira de História da Arte na Universidade da Basiléia, Burckhardt contemplou com a sua época com a preocupação de um apaixonado pelos valores perenes da civilização européua diante da derrocada geral trazida pelo populismo, o capitalismo industrial e o igualitarismo.

Nestas Cartas (Topbooks, 416 páginas), vemos quão freqüentes eram estas preocupações na cabeça do autor da monumental A Cultura do Renascimento na Itália. Dirigidas a vários interlocutores – dentre os quais ninguém menos do que Friedrich Nietzsche, amigo do historiador – , Burckhardt discorre nelas sobre a sua concepção de história (outra preocupação freqüente), sobre a ascensão dos governos democráticos (entendidos aqui no seu pior aspecto, ou seja, demagógicos) na Europa e a massificação da cultura, além de muitas, muitas opiniões sobre arte, cultura e tudo o que diz respeito ao sacerdócio deste autodenominado “monge secular”.

Onde encontrar:

www.topbooks.com.br

(21) 2233 8718

Julho 21, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Luz em agosto

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Considerado por muitos como o melhor livro de William Faulkner, Luz em Agosto é uma espécie de suma da obra do escritor do Mississipi. Nas 44 páginas desta bela edição da Cosac Naiffy, encontramos todos os prinncipais elementos que fizeram de Faulkner um dos maiores nomes da literatura do sécul XX e, possivelmente o melhor romancista americano: a narrativa contada sob várias perspectivas, a sobreposição de histórias, os fluxos de consciência, a questão racial (tema candente, em se tratando de Sul dos EUA), os personagens dilacerados moral e fisicamente, dentre várias outras características não só de Faulkner como de todo um estilo, o chamado “Southern Gothic”, espécie de transposição inusitada do gótico do frio e sombrio Norte Europeu para o quente e úmido Sul dos EUA.

Luz em Agosto apresenta três histórias cujo centro está em Joe Christmas, branco mas com sangue negro (algo pelo menos inusitado, em se tratando da região), um típico marginalizado de Faulkner. Assim como Lena Grove, uma jovem grávida que sai do Alabama em direção ao Tennessee em busca do pai de seu filho, e o reverendo Hightower, afastado de suas funções devido a uma desgraça pessoal. O assassinato de uma ex-amante de Christmas será o ponto de contato entre essas pobres criaturas, habitantes do trágico mundo que Faulkner criou. À imagem e semelhança do nosso.

Onde encontrar:

www.cosacnaify.com.br

(11) 3823 6599

Julho 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Discutindo a crise

criseA atual crise econômica pôs em discussão aquilo que há poucos meses era tido como indiscutível: o capitalismo. De uma hora para outra, o bom e velho neoliberalismo claudicou e, hoje, ninguém se atreve a defendê-lo em público. Livros empoeirados do velho Keynes – e do ainda mais velho Karl Marx – saíram do canto das prateleiras e passaram a ser relidos com o fervor de quem procura a cura para uma doença. Como costuma acontecer em momentos como esse, marxistas saíram da toca como formigas provocadas e passaram a picar as pernas de todo mundo com a velha e boa retórica do fim do capitalismo devido aos seus problemas internos. Alguns, porém, vão um pouco além da retórica. É o caso de Istvan Meszáros e seu A Crise Estrutural do Capital (Boitempo Editora, 136 páginas).

Como todos os livros de Meszaros, este é um livro marxista. Duramente marxista. Aliás, poucos dos pensadores modernos são tão irrenunciavelmente marxistas quanto Meszaros – e poucos são capazes de fazer análises tão inteligentes e refinadas do mundo de hoje como ele. Húngaro, ex-aluno de Gyorgy Lukács, Meszaros enxerga no mundo de hoje, e com excelentes argumentos, um momento crucial de crise no capitalismo. Além disso, acredita que é preciso apresentar uma alternativa a esse sistema condenado. Esta alternativa é, naturalmente, o comunismo. Todos sabem o que acontece  num regime comunista e todos sabem que devemos evitá-lo a todo custo. O problema é que comunistas como Meszáros, apesar disso tudo, não deixam de ter razão em muito do que dizem. O que fazemos com eles, então? Não sei. Mas sei que precisamos lê-los.

Onde encontrar: (11) 3875 7250
www.boitempo.com.

Julho 3, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

NY por Will Eisner

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A cidade de Nova York é uma das obsessões do quadrinista Will Eisner. Grande parte de sua obra tem a Big Apple como cenário. Mas não como os cenários costumam ser, meros panos de fundo para a ação dos personagens. A Nova York de Will Eisner parece ser quase uma entidade viva, com personalidade própria, capaz de atuar na vida de cada um dos seus habitantes como uma mãe – e uma mãe dominadora.

Nova York: A vida na Grande Cidade (Cia das Letras, 440 páginas, tradução de Augusto Calil) é uma espécie de Suma dos retratos que Eisner faz da cidade e dos seus habitantes em seus outros livros, sobretudo Avenida Dropsie, A Força da Vida e O Sonhador. Aqui, porém, câmera de Eisner aproximase um pouco mais: cada história é uma espécie de flash de uma situação única, de um momento efêmero dentre os incontáveis momentos efêmeros que a vida na cidade grande proporciona. Muitas vezes sequer há diálogo: basta a imagem pura e simples do traço expressionista de Eisner para revelar os mistérios escondidos nas vielas sujas, nos becos, nas mansões,nos pequenos apartamentos de classe média baixa, nos bairros de imigrantes que o autor conheceu tão bem na infância. Mistérios estes que, uma vez revelados, deixam à mostra uma beleza insuspeita e, entretanto, incomparável. Assim como a cidade de Nova York. Assim como o grande Will Eisner.

Onde comprar

Junho 15, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Frei Rovílio Costa – O ideal da leitura

A notícia do falecimento do frei Rovílio Costa nos entristece profundamente. Tivemos oportunidade de conhecer o frei em meados de 2004 e desde então nos tornamos seus admiradores. O amigo dos livros e dos gatos conquistou nossos corações por sua inteligência, sua capacidade de transmissão de conhecimentos e principalmente, pelo fato de que era uma daquelas pessoas que fazem o mundo ser um lugar mais agradável, mais feliz.Lamentamos que naquela casa repleta de livros e gatos não estará mais a figura física do simpático frei, mas resta o consolo de que sua obra permanecerá e seu exemplo estará presente nos corações e mentes que ele conquistou.

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Frei Rovílio na Feira do Livro de 2008 dirigindo-se para assistir espetáculo de Ariano Suassuna

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Como homenagem ao querido Frei reproduzimos aqui o texto que publicamos no jornal canoense O Timoneiro no dia 28 de outubro de 2005 .

O IDEAL DA LEITURA

Patrono da Feira do Livro é título pomposo. Então imaginamos a figura do patrono como alguém de difícil acesso, um intelectual sisudo e quase inalcançável.No entanto, a figura de Frei Rovílio Costa escolhido para ocupar o cargo neste ano desmonta totalmente esta concepção.Basta entrar nas depedências da Editôra EST para percebermos que estamos ingressando no mundo de alguém que encara a vida e as pessoas de acordo com os valores cristãos que defende. Em meio a livros e mais livros, circula sobranceira, totalmente cônscia de seus direitos, a gata Gelina, que o patrono qualifica como gata de telhado. Neste ambiente Frei Rovílio Costa conduz a maior editora do Rio Grande do Sul, e nos recebeu para uma entrevista, com a presença da gata, é claro.

Qual a importância de sua escolha como patrono para a Filosofia da EST?

A escolha do patrono da Feira do Livro, tanto quanto a discussão que vai começar agora sobre o Fato Literário, do qual estou entre os cinco escolhidos, não é uma escolha minha, da minha pessoa, porque não escolheriam um escritor nem um editor propriamente dito, mas uma amante seja da edição, seja do livro. As duas coisas eu as vejo como provisórias. O que é definitivo para mim é a pesquisa: seja publicando ou não, eu vou continuar pesquisando, vou continuar tentando dar ao livro a carga sentimental e afetiva para que ele não seja um intruso na mente e na vida de qualquer criança, de qualquer jovem que seja obrigado a ler inadequadamente. A escolha para patrono significa o reconhecimento de um trabalho feito, porque pelos critérios adotados até hoje, sempre se escolheu alguém da área da alta literatura, da arte, mas este ano escolheram uma ideia, um tipo de trabalho. Então os escolhidos são os mais de três mil autores que tenho publicado.

Quais os próximos projetos da EST?

O projeto principal é ir cobrindo o mais poss[ivel as etnias presentes no Brasil e Rio Grande do Sul. Nós temos coberto quase que a totalidade da etnia italiana e alemã[...]

Qual a relação do ideal cristão em que o senhor for formado e o seu trabalho como editor de livros?

Quando nós tomamos a história da Igreja, se diz que as duas fontes são a Bíblia e a tradição. A Bíblia é a palavra escrita, e a tradição é o boca a boca. Há verdades que estão baseadas mais no magistério da Igreja do que da Bíblia.

Como conciliar as atividades de religioso e de editor?

Eu escolhi ser religioso. Ser editor vem em decorrência. Na Universidade eu estava ligado a dois horários: o horário acadêmico e o de atividades religiosas. No resto do tempo, comecei a dar importância a escrever, a levar as outras pessoas a escrever, a pesquisar e a levar as outras  pessoas a pesquisar. Editar faz parte da ocupação do tempo pessoal.

Sendo religioso, o senhor acredita em missões pessoais. Qual, então, a missão que o senhor vê na EST, e, ao mesmo tempo, qual o diferencial que o senhor vê na editora?

Alguém perguntou qual o futuro da EST, porque até o presente é um trabalho meu pessoal. São Paulo demonstra que existe a Lei e o espírito da lei, então existe o livro e o conceito (espírito) do livro. São tão importantes as obras publicadas quanto a ideia criada de que se faça cultura como cotidiano.  A cultura é como a vida: não se vivem fatos esporádicos e datados, mas cada segundo do cotidiano. Como a gente não se alimenta só uma vez por ano, mas todos os dias, assim a cultura é um todo, não de um dia, mas de todos os dias. Através dos mais de rinta anos da EST, foi possível ajudar leitores e pesquisadores, que levarão as propostas da EST em suas atividades profissionais. Essa nova forma de cultura vida está assegurada, independente de a EST continuar ou não. Sua missão essencial foi realizada.

Qual o futuro do falar vêneto?

O livro Não é a morte das línguas (2000), de Claude Hagége, prevê que, das 12 mil línguasm dentro de cem anos, seriam 6 mil. Perde-se uma língua por semana. Mas, uma pesquisa recente está mostrando que também estão se formando novas línguas. E agora também há o movimento na Itália para reconstituição do ensino das línguas regionais e de grupos minoritários, com respaldo político. Decisões politicas são importantes para prestígio dos falantes. O interiorano que nunca falou português  entre nós e nunca falou i9taliano oficial na Itália, com decisões políticas favoráveis, serão importantes esteios na manutenção dos idiomas, como bases de formas diferentes de identidades. A Itália, pela lei 153, estende o ensino do italiano oficial ao mundo, sem se dar conta que, de fato, a grande emigração, sobretudo de 1860 a 1914, partiu para diferentes pontos do planeta, falando seu idioma regional, provincial, comunal e, por vezes, com típicas características familiares. Dos diferentes falares vênetos, lombardos, trentinos, friulanos e outros constituiu-se aqui o Talian, como língua que hospeda as demais, com prevalência vêneta por a maioria dos imigrantes serem vênetos. A sobrevivência do Talian depende de ele conseguir respaldo político e prestígio social e uma consciência crítica que venha a se criar pelo valor intransferível de ser a língua materna, que uma vez perdida, perde o afetivo próprio. Aprender a língua que foi dos antepassados, depois que nada dela se conhece, não é aprender uma língua envolvente e sentimental, mas uma língua artificial como as demais. Então,a té que alguns falam e compreendem, outros compreendem embora não falem, é o tempo precioso de salvar a base das diferentes identidades familiares, através do Taliam, que deixa caminho aberto à retomada das variantes regionais e provinciais da Itália.

Quais são suas leituras preferidas?

Eu gosto de ler, mas não me apego a este ou aquele literato. Gosto muito de José de Alencar, cearense e casualmente o Ceará é homenageado nesta Feira do Livro; são os 140 anos do Iracema. Eu comecei lendo o Tronco do Ipê. Ele escreve aventuras à beira de rios, raízes de árvores…Eu perguntava: onde será que estão estas árvores? Quando ia para casa – nós morávamos perto de um rio – tem um angico que dobra em cima do rio, eu achava qye aquela era uma das árvores descritas, mas faltavam as famosas raízes serpeando na barranca do rio.

Depois, na área da filosofia, tem Martin Buber. Um livro fantástico, que envolve história, cultura, análise até da perspectiva social é O Nome da Rosa. A partir dele, todos os livros do Umberto Eco. Até Como se faz uma tese é inovador. A proposta acadêmicca não é aquela proposta americana, assim materializada, totalmente esquematizada, parece que é só preencher um quadrinho.

Junho 13, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 3 Comentários

Poder oculto

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Um livro intitulado Poder oculto que governa os mundos talvez leve o leitor precipitado a pensar que está diante de um tratado de teorias da conspiração. Em outras palavras, de um livro cuja credibilidade é, no mínimo, bastante discutível. Nada mais falso. O estudo do cientista político italiano Giorgio Galli destina-se a uma área que recebeu pouca atenção, isto é,a influência de sociedades secretas, grupos esotéricos e iniciáticos na política mundial.
É natural que muitos torçam o nariz para um assunto desses. Afinal, para muitos,a política está somente subordinada a interesses econômicos – aliás, não só a política, como todas as realizações humanas – e qualquer coisa além disso tem pouca influência na condução dos assuntos ligados ao poder. Giorgio Galli nos mostra que, muitas vezes, por trás de regimes políticos – totalitários, sobretudo – estão crenças profundas que pouco ou nada têm a ver com interesses econômicos e que jazem no fundo das aspirações coletivas dos povos, seus mitos particulares, sua visão de mundo, sua história e seus desejos de momento. O século XX, tão impregnado do laicismo e do culto à razão, foi justamente aquele onde o esoterismo mais influenciou na condução da política. Giorgio Galli mostra, assim, o que havia de crenças ocultas na Alemanha nazista, na Itália de Mussolini, no Portugal de Salazar e em muitos outros países.

Onde encontrar: madras.com.br

Junho 13, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

História como história da liberdade

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A indagação sobre a condução da História foi um dos temas centrais do pensamento dos séculos XIX e XX. Respingado pelos últimos vestígios do positivismo comtiano, do hegelianismo e de um marxismo elevado à categoria de verdade de Estado, o centênio passado viu o florescer de sistemas políticos totalitários que se auto-denominavam a realização plena de ideais de sociedade, germinadas num passado remoto e desenvolvidas ao longo dos tempos até chegar ao estágio semi-divino prometido por esses sistemas. A história, segundo eles, era um vetor com um só sentido para o qual todos inexoravelmene caminharíamos. Assim entendiam o marxista Lênin e o hegeliano Giovanni Gentile, mentores teóricos do comunismo soviético e do fascismo italiano, respectivamente. Entre esses dois amores balançou o coração da humanidade na primeira metade do século XX.

Foi neste ambiente que, em 1938, Benedetto Croce lançou História como História da Liberdade (Topbooks, 456 páginas, tradução de Julio Castañon Guimarães). Um livro solitário, com uma proposta solitária em um tempo em que a palavra “liberdade” não andava muito em voga. Enquanto que, segundo os marxistas, a história da humanidade caminhava em direção ao comunismo, e, segundo os fascistas inspirados por Hegel, ela só chegaria ao seu ápice com o Estado fascista, para Croce a evolução do homem era sempre na direção da liberdade, seja ela entendida do ponto de vista político, artístico ou econômico. Mais: para Croce, o dever do historiador é identificar esses resquícios da idéia de liberdade ao longo da história com vistas a interpretar o presente e ajudar a construir um futuro. Este é o sentido da expressão “intelectual engajado” para Croce: o de alguém comprometido com a dignidade do homem.

Onde encontrar:

www.topbooks.com.br

(21) 2233 8718

Maio 7, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Dia Mundial do Livro

No dia 23 de abril  de 1616 faleceram Cervantes, Shakespeare e o peruano Garcilaso de la Vega. Também em  23 de abril nasceram Maurice Druon, o  co-autor de   “Le chant des partisans”, o hino da Resistência Francesa na 2ª Guerra Mundial( falecido aos 91 anos, no último dia 14 em Paris), o islandês K. Laxness (Prêmio Nobel em 1955) e  Vladimir Nabokov (Lolita, Gogol). A data também marca o falecimento do catalão Josep Pla e do colombiano Manuel Mejía Vallejo. Evidente a importância do 23 de abril para a literatura.

A Conferência Geral da UNESCO , inspirada pela tradição dos livreiros da Catalunha que no dia 23 de abril, data do padroeiro São Jorge,  presenteiam os compradores de livros com uma rosa (aqui) escolheu a data para comemorar  o dia Mundial do Livro.

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Portal Unesco

A cada ano uma cidade é escolhida como Capital Mundial do Livro. Este ano o título é conferido a Beirute. Para lembrar o evento, a EBCT emitiu um selo comemorativo na série RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS, que homenageia países e regiões do mundo. Quem quer saber mais clica aqui.

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Comemorando a outorga, prevista solenidade de abertura das comemorações alusivas ao título “Beirute: Capital Mundial do Livro – 2009”, no dia 05/05/2009,às 20h30m, no Teatro SESI-São Paulo.

Além disso,também em São Paulo,  a Exposição “Beirute: Capital Mundial do Livro – 2009”, de 6 a 17 de maio, das 9 às 20 horas, no Espaço FIESP, com entrada franca . O evento terá uma mostra de fotos de pontos históricos e culturais de Beirute.Além disso, obras de artistas plásticos onde Beirute é o tema.

Que comparecer à exposição poderá visualizar ainda documentos históricos, jornais, revistas, livros de autores brasileiros, libaneses e descendentes, entre eles Gibran Khalil Gibran, Amin Maalouf, Raduan Nassar, Milton Hatoum, Paulo Coelho (serão expostos seus livros publicados em Beirute), Antonio Houaiss, Evanildo Bechara e Aziz Ab’Saber.

Fonte : Unesco

Abril 23, 2009 Publicado por Madame Li Li | Literatura | | 1 Comentário

A derrota dos melhores

O poema “The Second Coming” – “A Segunda Vinda” – do irlandês William Butler Yeats é uma obra-prima da poesia moderna e uma das maiores peças literárias de língua inglesa em todos os tempos. Cheio do simbolismo muito particular à poesia do próprio Yeats, um estudioso de ocultismo e mitologias orientais (e, não obstante tudo isso, um cristão), o poema publicado em 1921 ala de uma época em que “tudo desmorona; o centro se desmembra/ Mere anarquia recai sobre o mundo/Monta a sombria maré sanguinolenta/ E a cerimônia da inocência é afogada em toda parte“. E, a seguir, resume em duas linhas qual é o espírito geral desta época: “Os melhores perdem toda convicção, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”

Não é preciso dizer que as leituras de The Second Coming são quase tantas quanto são os seus leitores. Para Harold Bloom, Yeats enxerga a instalação do comunismo na Rússia, em 1917,  e as suas promessas redentoras de criação de um novo mundo e de um novo homem como um prenúncio apocalíptico do retorno de um falso Cristo, de um falso Messias, de um Anticristo, prometendo uma Salvação sem Cristo e uma religião sem Deus – e, por isso, uma falsa Salvação e uma falsa religião. O último verso faz uma pergunta aterrorizante: “Qual horrenda besta, quando chegar a hora, arrastar-se-à até Belém para nascer?”. Talvez Yeats não se referisse apenas ao comunismo russo daquela época. Talvez este poema com mais de sete décadas de vida não seja mero produto de época – e, se o for, esta época provavelmente não terminou.

Para dizer a verdade, depois de saber deste caso, cristaliza-se em mim a convicção de que vivemos, sim, a época da Segunda Vinda, a época em que o centro que guiava o mundo já não retém nada, a época em que a besta procura Belém para renascer e, enganando a todos, guia a humanidade como um profeta em direção ao abismo. A época, em suma, em que os piores estão cheios de paixão, e que os melhores, como Gilberto Thums, perdem toda a convicção no que fazem.

Abril 21, 2009 Publicado por blogperspectiva | Literatura, Política | | 1 Comentário

Ler Tintim hoje

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A Companhia das Letras vem lançando desde o ano passado a coleção completa das obras de Tintim, que completa agora em 2009 seus oitenta anos. Trata-se de um dos maiores fenômenos de venda neste gênero em todo o século XX.  A fama de Tintim no auge de sua popularidade, entre os anos 40 e 60, fez com que o presidente Charles de Gaulle fosse obrigado a admitir que, no estrangeiro, ele era o único francófono capaz de rivalizar com ele. Talvez fosse um excesso do presidente francês: Tintim era muito mais conhecido do que De Gaulle e provavelmente muito mais admirado. São nada menos do que 200 milhões de álbuns vendidos desde que o cartunista belga Hergé publicou a primeira história  no “Petit Vingtième”, suplemento do jornal belga “Le Vingtième Siécle” destinado aos jovens: “As Aventuras de Tintim no País dos Sovietes”.

O título já diz tudo: o repórter belga Tintim vai à então recém-criada União Soviética para fazer uma reportagem sobre aquele novo país que contava apenas doze anos de existência. Enfrenta tudo o que um visitante da União Soviética tem direito: a repressão da polícia, o olhar atento dos vigilantes a qualquer estrangeiro (ainda mais, Ocidental), o aparelho estatal atento a tudo e, enfim, a falta da liberdade com a qual está acostumado. O roteiro não parece própro para jovens – ou, pelo menos, para os jovens de hoje – mas o livro ajudou a catapultar Tintim para o sucesso, vendendo dezenas de milhões de cópias e se tornando um dos mais conhecidos de toda a  sua bibliografia.

Uma pequena passada pelas suas páginas nos mostra as características principais da obra de Tintim, como o traço ligne claire (“linha clara”, em francês), marcante e forte, sem distinguir figuras que estão no plano de fundo ou em primeiro plano. Mas, principalmente, o que nos chama a atenção no livro é que ele parece datado, por uma série de razões: é em preto e branco; o traço clear line talvez não seja tão aceito hoje; a própria referência a um país que já não existe , e a maneira como esta referência é feita – enfim, tudo dificulta a nossa aproximação do texto. A leitura destas Aventuras de Tintim no País dos Sovietes têm, para nós, um efeito semelhante ao da leitura daqueles relatos fantásticos de exploradores europeus nas Américas ou de Marco Polo na China. E não só delas. Todas as obras de Tintim nos dão essa mesma impressão, até mesmo quando ele está em países que até hoje existem.

É uma sensação estranha. Em 1929, quando este livro foi publicado, pouca gente sabia como era a vida na União Soviética. Tintim era um stranger in a strange land, e nós, ocidentais como ele, o considerávamos um emissário nosso nestas terras. Sua visão dos soviéticos era a nossa, assim como a sua visão dos chineses, dos australianos e de todos os povos do mundo correspondia mais ou menos à nossa visão deles. Não por acaso, Tintim no Congo é, hoje considerado um livro racista pela maneira como retrata os africanos sem qualquer preocupação com o politicamente correto: em 1929 – e em 1939, em 1949 e até mesmo em 1959 – não havia preocupação com essas coisas.  Da mesma forma, em 1929 fazer uma viagem destas para os confins do mundo civilizado era algo raríssimo: ninguém, ou quase ninguém, ia a Macchu Picchu falar em aimará com os nativos. Hoje, visita-se não só Macchu Picchu mas qualquer vila minuscula em volta e pede-se uma Coca-Cola em inglês sem problemas. Qualquer um faz o caminho de Santiago, visita a Muralha da China, faz mochilões por qualquer canto desconhecido do mundo ou, muito simplesmente abre o Google Earth e tem uma idéia de como é o mundo para além das nossas fronteiras. Um Tintim não precisa nos emprestar sua visão do mundo eurocêntrica para que possamos conhecer o mundo que nos cerca. Ele não é necessário e também não é interessante. Boa parte do roteiro de suas histórias e de suas aventuras calca-se no choque civilizacional entre ele,habitantes de um dos centros da cultura européia, e a perifeira ou além-periferia que ele visita. Claro que são aventuras inteligentes, que os personagens são ótimos – o capitão Haddock é simplesmente espetacular – mas esse confronto, essa aventura que aparece em todos os títulos de suas histórias já não fazem muito sentido para nós. O mundo século XXI é um mundo sem grandes aventuras, sem grandes lugares para descobrir. Tintim é muito menos lido hoje por isso. É pena. Talvez uma das melhores razões para lê-lo seria a possibilidade de recordar de um mundo em que visitar o outro lado do Globo envolvia muito mais do que simplesmente clicar um mouse.

Abril 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura, Livros | | Sem comentários ainda

Fugindo do apocalipse

Desde que comecei a ouvir falar na Internet ouvi falar também no fim da mídia impressa. Era o fim dos livros, substituídos pelos e-books; era o fim da revista, substituída pelas revistas eletrônicas, então escritas em corpo de e-mail para desespero dos míopes; e, claro, era o fim dos jornais. Nem se falava em blogs, flogs, twitters e assemelhados e o fim da imprensa – entendida aqui no seu sentido original, isto é, de algo impresso no papel – já era trombeteado em alto som para quem quisesse e quem não quisesse ouvir. Os argumentos sempre foram os mesmos: espaço ilimitado, economia de gastos, liberdade infinita e até vantagens do ponto de vista ecológico, uma vez que árvores seriam poupadas. Em suma, a sentença de morte não admitia apelação. O jornal estava condenado e seu desaparecimento era questão de tempo.

O tempo então passou. O jornal, como sabemos, não morreu. Claudica, é verdade: as tiragens caem em todo o mundo todo – sobretudo nos EUA – e acompanham uma tendência que vem de há muito tempo, por vários e outros motivos. Mas o fato é que ainda não acabou. E não acabou também o discurso apocalíptico, o qual, como todos os discursos apocalípticos, pode até se tornar démodé, ultrapassado e até brega mas nunca morre de fato. Transmuta-se, mascara-se, usa outros códigos, mas permanece na boca de alguém e volta e meia vem à tona com força, ocupando espaço de destaque e assumindo a aparência de grande novidade. Antes, defendia-se apenas que o jornal em papel estaria com os dias contados. Hoje, nem mesmo os jornais eletrônicos têm seu espaço garantido, tamanha é a profusão de blogs especializados que não cobram por acesso e informam – segundo os defensores desta opinião – tão bem quando os melhores articulistas dos grandes jornais e com muito mais independência. A última eleição nos EUA, em que blogueiros que trabalhavam à noite, após o expediente, tornaram-se participantes ativos de campanhas e vozes a serem escutadas por políticos e analistas experientes, parece ser mesmo um sinal bem forte de que não se trata mas de um exercício de futurologia à 1984 e sim do reconhecimento de um fato concreto e estabelecido.

Não resta dúvida de que a Internet conquistou de vez um espaço dentro da grande mídia e que este espaço tende, no momento, a crescer. Também não resta dúvida de que o jornal deve se reinventar e buscar alternativas para poder sobreviver, se quiser sobreviver, em meio ao turbilhão de informações que assola este novo milênio. A dúvida que resta é: o jornal tem como se reinventar? Pode continuar a ocupar um espaço só seu? Terá instrumentos para resistir? Há algo de intrínseco ao jornal, algo próprio só dele, que lhe assegure a permanência?

Recordo aqui a entrevista concedida pelo americano Henry Jenkins, especialista em mídia, ao canal Globonews há uns meses atrás. Jenkins é um dos maiores estudiosos da difusão da informação com o advento da Internet e da adaptação da humanidade a este novo quadro. Segundo ele, vivemos em uma época em que a quantidade de informação circundante é várias vezes superior à nossa capacidade de assimilar e processar novidades. Com um clique no Google acessamos referências de diferentes níveis de qualidade sobre praticamente tudo e de modo imediato. A questão é que nem sempre temos e sabemos como escolher as melhores fontes diante de tantas opções que se nos apresentam. As palavras de Jenkins não deixam margem a dúvidas: “Precisamos aprender a participar seletivamente ou seremos soterrados pelas informações”. Fazendo uma comparação com uma mídia mais “antiga”, é como uma pessoa que almeja tornar-se um grande sábio acumulando leituras desordenadas sobre os mais diversos assuntos. Sua cabeceira está cheia de livros sobre Física Relativística, filosofia alemã, botânica, esquemas táticos de futebol e estudos sobre o Expressionismo, escolhidos à mão livre, sem cuidado e com pressa. Aquele que escolhe bem essas leituras já não é um leitor sem orientação – é um verdadeiro erudito, capaz de orientar os demais no mesmo processo. E aquele que “participa seletivamente” da informação na Internet é o jornalista. Ou melhor: será o único jornalista digno de sobreviver a este novo mundo. Eis aí o seu provável espaço: pequeno, reduzido, mas ao mesmo tempo indispensável para que a informação circule de maneira proveitosa. Não é preciso lembrar que este é um trabalho de profissional – e, portanto, um trabalho pago.

É claro que nem todos gostam disso. O serviço é redobrado e exige um preparo e uma dedicação que, penso eu, os egressos das faculdades de jornalismo cada vez menos têm (e aqui fala alguém que já freqüentou os seus bancos). O jornalista que quiser permanecer deverá compreender as novas exigências de sua profissão e adaptar-se a elas. E deverá compreender também que, se estas exigências forem cumpridas com êxito, desta grande ameaça que ora paira pode surgir uma nova e grandiosa era para o jornalismo. Até que um outro discurso apocalíptico venha a ressurgir.

Abril 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura, Livros | | Sem comentários ainda

Ler T.S. Eliot na Páscoa

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“O anjo no sepulcro vazio de Jesus”, Gustave Doré


T.S. Eliot é um poeta cristão, ou um cristão poeta, dependendo do momento. Nem sempre a matéria religiosa é dominante em sua poesia. Mas ela está sempre lá, mesmo indiretamente: a desolação de The Wasteland ante o mundo contemporâneo é a mesma que muitos cristãos da mesma época, principalmente católicos, sentiram ao verem o mundo que conheceram e ajudaram a construir ser destruído a partir de seus alicerces, como uma implosão. Eliot lamentava ao enxergar o mundo dessacralizado que se lhe mostrava, um mundo que parecia ter esquecido tudo o que os mártires, os santos, os doutores e tudo o que os homens da Igreja deixaram construído para nosso desfrute – e, com isso, esquecido também os valores básicos da civilização.

Como os maiores poetas, o grande mestre do Missouri também foi visionário. Tudo o que as abadias, os monastérios, as escolas e os claustros nos legaram é hoje pó a ser varrido pela vassoura do progresso histórico. Cada vez mais o mundo dá mostras claríssimas de que Deus, Cristo e a religião são problemas do passado. Eliot, como outros, o enxergou muito antes de todos. Como outros, não foi devidamente ouvido.

Por isso, a leitura do sexto coro de “A Rocha”, publicado em 1934, tem um significado especial nesta Páscoa de 2009. As belas mensagens em louvor ao Homem que morreu por nós dão aqui lugar a um poema de duras palavras, , duramente sarcástico, e também indignado, de dedo em riste para o leitor, mas nunca amargo ou desesperançoso. Este coro é uma convocação para a batalha num momento em que a maioria das pessoas pensa em celebrar e isso talvez não seja a atitude mais agradável a se fazer. Mas os grandes poetas, como T.S. Eliot, são homens à semelhança do Cristo especialmente inspirado do Evangelho de Mateus, X, 34-36: eles não vêm à terra para trazer a falsa paz , mas sim perturbar-nos com a espada.

É difícil para aqueles que nunca foram perseguidos
E para aqueles que jamais conheceram um Cristão
Acreditar nas histórias da perseguição cristã.
É difícil para os que vivem próximos à Delegacia
Acreditar no triunfo da violência.
Imaginais que a Fé já conquistou o mundo
E que os leões dispensem agora os carcereiros?
Será preciso vos dizer que tudo quanto foi pode ainda vir a ser?
Será preciso vos dizer que mesmo as iluminações medíocres
De que podeis vos jactar numa sociedade cultivada
Dificilmente sobreviverão à Fé que as tornou acreditadas?
Homens! Poli vossos dentes ao vos erguer e retirar;
Mulheres! Esmaltai vossas unhas
Poli os dentes do cão e as garras do gato.
Por que deveriam os homens amar a Igreja? Por que
deveriam eles amar suas leis?
Ela lhes fala da Vida e da Morte, e de tudo o que desgosto
lhes daria recordar.
Ela é meiga onde os homens gostariam de ser duros, e dura
onde a ternura os faria erguer um altar.
Ela lhes fala do Mal e do Pecado, e de outros fatos amargos.
Amiúde tentam eles escapar
À treva que no fundo os corrói e ao seu redor se alastra,
Sonhando com sistemas tão perfeitos em que o bem seja de
todo dispensável.
Mas o homem que é há de ofuscar
O homem que pretende ser.
E o Filho do Homem não foi crucificado apenas uma vez
para nos salvar,
O sangue dos Mártires não foi vertido apenas uma vez para
nos salvar,
A vida dos Santos não foram doadas apenas uma vez para
nos salvar
- Pois que o Filho do Homem é sempre crucificado
E o serão também os Mártires e os Santos
E se o sangue dos mártires deve escorrer sobre os degraus
Precisamos antes construir estes degraus;
E se deve ser o Templo derrubado
Precisamos antes ter o Templo edificado

Abril 11, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 3 Comentários

Uma biblioteca no lugar de um boteco

Neste sábado pela manhã fomos ao parque Getúlio Vargas em Canoas/RS conferir o Prefeitura na Rua, programa  promovido pela administração municipal com a presença do prefeito, vice-prefeita e secretários nos bairros da cidade. O programa tem o objetivo de ouvir as reivindicações  da população transmitidas diretamente aos setores responsáveis. A iniciativa de ir ao encontro da  população nos pareceu extremamente interessante, pois nada como ver e ouvir para realmente sentir as necessidades da comunidade. Assim, esperavamos um evento positivo, sinalizador de mudança de postura no trato com a população.

Não estávamos preparados, no entanto, para a agradável surpresa que nos esperava já na entrada do parque. Ao lado do prédio  do SEMPA existia um local destinado venda de bebidas, na verdade um boteco, que ultimamente sequer aberto estava. Um lugar feio e nada edificante, chegando a ser ofensivo face a beleza do espaço onde estava localizado, em meio aoverde do parque. Pois bem, o antigo bar virou uma mini biblioteca. A BiblioParque foi inaugurada hoje, com a presença do prefeito Jairo Jorge. Não deixa de ser sintomático: onde antes havia um boteco, com tudo o que um boteco traz, abriu-se uma biblioteca, com tudo o que de positivo, iluminador e semeador  ela traz.

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Estantes com bons exemplares que tem capacidade de atender ao gosto literário de um público diversificado.

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Os artesãos locais também participam do Prefeitura na Rua, expondo seus trabalhos. Existe um movimento propondo um feira livre nos moldes do Brique da Redenção. Idéia excelente.

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Com relação ao Prefeitura na Rua ficamos satisfeitos com a forma como os cidadãos são atendidos. Sob um toldo e suportando estoicamente um calor de muitos graus, o prefeito Jairo Jorge e a vice Bete Colombo atendiam com muita solicitude aos canoenses. Ao lado, representantes das secretarias municipais também solicitamente  ouviam e anotavam as postulações para encaminhamento.Percebe-se muita vontade de acertar no encaminhamento de solução para os problemas de Canoas e isso já representa muito face ao que observamos nos últimos anos na cidade.

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Bete Colombo e Jairo Jorge atendem aos canoenses

Março 21, 2009 Publicado por Madame Li Li | Geral, Literatura | | 6 Comentários

Ainda a reforma ortográfica

Eis aqui o texto mais engraçado sobre a Reforça Ortográfica da Língua Portuguesa.

Para uma piada de português (sem trocadilho), nada melhor do que umas boas gargalhadas.

P.S.: Atenção nos comentários, schifaizfavoire.

Fevereiro 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 1 Comentário

Edgar Allan Poe, 200 anos

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Desenho: Madame Y

“Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza; os ardores de curiosidade da convalescença; o morrer das estações sobrecarregadas de esplendores enervantes, os climas quentes, úmidos e brumosos, em que o vento do sul amolece e distende os nervos, como as cordas de um instrumento, em que os olhos se enchem de lágrimas, que não vêm do coração; a alucinação deixando, a princípio, lugar à dúvida, para em breve se tornar convencida e razoadora como um livro; o absurdo se instalando na inteligência e governando-a com uma lógica espantosa; a histeria usurpando o lugar da vontade, a contradição estabelecida entre os nervos e o espírito, e o homem descontrolado, a ponto de exprimir a dor por meio do riso. Analisa o que há de mais fugitivo, sopesa o imponderável e descreve, com essa maneira minuciosa e científica, cujos efeitos sao terriveis, todo esse imaginário que flutua em torno do homem nervoso e o impele para a ruína.”

Edgar Allan Poe (1809-1849), por Charles Baudelaire

Fonte da citação: Poe Brasil

Fevereiro 10, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 1 Comentário

Os burocratas e a literatura

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*Desenho por Madame Y

O farmacêutico mineiro Carlos Drummond de Andrade entrou para o serviço público em 1934. Estava cansado da carreira que escolhera na juventude por imposição paterna e sobrevivia de bicos como professor de História e redator de jornais, que também não lhe agradavam e roubavam-lhe tempo precioso de seus prazeres pessoais. Tinha 32 anos. Aposentou-se em 1962, aos 60 anos, com três décadas de diligente serviço prestado, condecorações e reconhecimeno. Foi um funcionário exemplar durante todo este tempo. Seria caso do sr. Drummond de Andrade recolher-se à vida privada e, calmamente, sentado em sua cadeira de balanço, acompanhado de um bom chá e da edição mais recente do Correio da Manhã, esperar a inefável chegada da morte. Em vez disso, este senhor nascido na pequena Itabira, típica cidadezinha mineira encravada no meio das montanhas, resolveu dedicar seus dias a um singelo prazer: escrever. Cometeu alguns poemas e chegou até a publicar livros, o senhor Drummond. E um destes poemas dizia respeito justamente à sua atividade profissional e ao que o sr. Drummond sentia por ela:

Escravo de Papelópolis

Oh burocratas, que ódio vos tenho
e se fosse apenas ódio
é ainda o sentimento da vida
que perdi sendo um dos vossos.

O ódio de Drummond aparenta ter sentido. Como um artista pode ser devedor da burocracia? Afinal, nada parece ser mais tolhedor de talentos individuais do que o ambiente de uma repartição pública, onde homens e mulheres enfadados e enfadonhos repetem mecanicamente gestos ensaiados à Chaplin em Os Tempos Modernos, trocando apenas a chave de fenda pelo carimbo e a peça de metal pelo documento autenticado. Ali não há espaço para a paixão, para a criação, para a mudança de rumos, de paradigmas, de vidas – para o gênio, enfim. Aliás, a mediocridade, da qual o artista foge como o diabo da cruz, é recompensada e bem vinda. Dito isto, fica claro um bom escritor não pode ser burocrata e um bom burocrata, definitivamente, não pode ser escritor. Eis a verdade, nada mais que a verdade. A raiva de Drummond para com o seu ganha-pão fica, assim, plenamente justificada.

Ganhar o pão é sempre um problema para um escritor. Seus livros normalmente vendem pouco e o lucro das vendas escoa por tantos canais intermediários que somente um percentual muito pequeno de tudo chega de fato ao seu bolso. A mesquinhez da vida cotidiana fere sua rica e fina sensibilidade: o choro do filho recém-nascido, os puxões de cabelo da filha mais velha no filho mais novo, os queixumes da esposa na hora do jantar, as contas que não páram de chegar, a caspa que teima em cair do cabelo, tudo isso são problemas que demandam aporte financeiro para ser solucionado. Nem todos os escritores são como o peregrino do absoluto León Bloy, para quem a pobreza não significava rigorosamente nada, ou para o flanêur Baudelaire, que transformou as imundas ruas parisienses onde dormia em matéria de poesia. Alguns escolhem trabalhar e enfrentar o mundo da melhor maneira que podem. Drummond foi corajoso e enfrentou o mundo: escolheu ser burocrata. Assim como seu conterrâneo Murilo Mendes, auxiliar de guarda-livros. Ou do compatriota Machado de Assis. Ou o companheiro de língua Fernando Pessoa. Ou seus contemporâneos Franz Kafka e Georges Bernanos. Ou o velho George Bernard Shaw, de uma geração anterior. Ou Borges. Ou ainda Camilo José Cela, nada menos do que censurador oficial do regime franquista.

A lista de escritores-burocratas se prolongaria ad infinitum e, por isso, nos faz pensar que, talvez, a idéia de que um escritor não possa ser burocrata não seja tão verdadeira assim – ou, se é verdadeira, que o seja de uma maneira um tanto diferente da que inicialmente imaginamos. É uma lista feita quase que só de nomes do século XIX e XX, quase todos da Europa Ocidental e das partes mais evoluídas das Américas. Parece estranho, porque a burocracia, como sabemos, não é um fenômeno nada novo. Já os antigos romanos e egípcios tinham os seus escribas, os seus censores e os seus funcionários públicos de carreira, todos burocratas no melhor sentido do termo. Mas também todos eles não tinham nenhuma das garantias e regras que Machado de Assis tinha na Secretaria de Agricultura, que Kafka tinha na companhia de seguros, ou Drummond tinha no Ministério da Educação. Não eram submetidos a estatutos, não entravam na carreira por concurso, não tinham horário fixo de trabalho, muitas vezes não eram sequer remunerados e eram demitidos, expulsos do país ou até mesmo mortos ao bel prazer do governante por qualquer simples demonstração de incompetência, como um erro gramatical. O burocrata que hoje conhecemos e imaginamos é produto da sociedade racionalizada do século XIX regida pela “dominação legal”, na tipologia de Max Weber, isto é, baseada em um estatuto sancionado e cumprido, onde pouco importa quem está lá mas sim o que faz. O verdadeiro burocrata não pode fazer uso de todos os seus dotes pessoais para fazer um serviço fora de série. O sistema é impessoal e exige o total e absoluto descomprometimento do funcionário para todas as matérias que não são da sua imediata obrigação.Cumprir a sua obrigação sine ira et studio – sem paixão nem entusiasmo – é o seu objetivo máximo.

Weber dizia que a escolha definitiva dos tempos modernos era entre a “burocratização” e o “diletantismo” na administração pública, sendo que a primeira era a claramente mais indicada para as necessidades das sociedades modernas. O diletante – de “dileto”, amado, querido, desejado – deveria ficar de fora, ou dedicar outro horário para as atividades às quais dedicaria todas as suas forças físicas e mentais. Ora, é exatamente aí que entram os escritores-burocratas. Todas as suas preocupações profissionais esgotam-se nas oito horas regulamentares e toda a sua mente está voltada para a execução de trabalhos que lhe exigem o mínimo de imaginação e interesse. Fora disso tudo, está tão livre quanto Pã nos campos da Arcádia.A atividade superior do espírito é equiparada, na sociedade moderna, a mera diversão das horas vagas, como assistir a uma corrida de automóveis ou à novela das oito, e é assim para a imensa maioria dos romancistas e poetas surgirdos desde o século XIX. Figuras caricaturais (mas não autores de caricaturas) como um Rilke, incapaz de se encaixar em qualquer serviço por mais simples que fosse, são raridade absoluta e despertam até mesmo o desprezo dos demais escritores. É a maneira com que o estado escolheu para ser mecenas: dar um emprego público para o escritor comer e dormir e, nas horas vagas, cumprir a sua nobilíssima função de antena da raça, como disse Pound.

O crítico inglês Matthew Arnold (ele também um burocrata) dizia que a grande arte cumpriria em nosso tempo o mesmo papel que as religiões cumpriram em outras épocas. O artista antena da raça de Pound tornar-se-ia espécie de sacerdote, guia espiritual leigo para um mundo abandonado por todos os deuses nesta época que – novamente segundo Weber – era a primeira desde o alvorecer da humanidade em que a religião havia deixado de ser um assunto público para um assunto meramente privado.Hoje já podemos dizer o mesmo da arte, transformada pela primeira vez em diversão de momentos fastidiosos. Talvez seja mais pensando em tudo isso, na condição que o mundo reservara para si, e não tanto no acabrunhante emprego que desempenhava, que Drummond disse que sentia haver perdido sua vida para a burocracia. Uma vida desperdiçada? Nem tanto. Drummond foi bem injusto com as oito horas diárias passadas entre papéis, clips, máquinas de escrever, grampeadores, furadores, livros-caixa, arquivos mortos e vivos e colegas de trabalho. Por mais enjoadas que fossem, foram estas oito horas diárias que lhe permitiram escrever seus poeminhas e deixar sair o poeta excepcional que jazia por baixo do funcionário competente. Talvez, encalacrado em outra atividade, seu talento fosse empregado para ser um brilhante advogado, um grande jornalista, um professor de sucesso Estas oito horas o inscreveram na história, dando inclusive sentido a brincadeiras como esta do primeiro parágrafo deste artigo. Drummond deve e muito à burocracia. É a maneira com que o estado escolheu para ser mecenas: dar um emprego público para o escritor comer e dormir e, nas horas vagas, cumprir a sua nobilíssima função de antena da raça, como disse Pound, sob as frias garantias de que nem ele, nem o seu colega ao lado fanático por futebol, serão importunados. Até amanhã, na hora em que o expediente recomeça.

Janeiro 23, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

O Natal do velho Dickens

Neste dia em que armamos nossos pinheiros num canto da sala,decoramo-los com bolinhas e bonequinhos, armamos um presépio ao seu pé e desejamos uns aos outros o melhor que podemos imaginar peço que o leitor faça um pequeno exercício mental e imagine, por um momento, uma época em que nada disso existia. Uma época em que a comemoração do dia do nascimento do menino Jesus não envolvia sorrisos, abraços em família, brindes e grandes jantares em longas mesas, de onde, à meia-noite, saem as crianças em disparada em direção à árvore para procurar os seus presentinhos daquele ano. Difícil, não é? Fomos – a maioria de nós, pelo menos – criados para acreditar que o Natal é isto e que o espírito natalino, além de existir, consiste nesta reunião de pessoas dispostas a desejar umas às outras dias e vidas melhores. Imaginamos, então, que isto tem sido assim nos últimos dois milênios e que os primeiros cristãos, por viverem em um local onde não havia pinheiros, faziam suas arvorezinhas de Natal com oliveiras e seus presépios com bonecos de argila retirada das praias do Mediterrâneo. Imaginamos com tanta certeza que é impossível imaginar outra coisa. Não dá, hoje, para pensar em Natal sem esses pequenos detalhes.

Porém, este Natal sem pinheiros, presépios, sorrisos e presentinhos existiu e não faz tanto tempo assim. Era uma festa sóbria, bonita, talvez, mas sem grandes encantos ou grandes expectativas por parte das crianças e menos ainda dos adultos, que comemoravam a chegada do Deus que se fez homem por amor a nós e que morreu para nos salvar com o respeito compungido de quem agradece uma vida de sacrifício. A Páscoa, que lembrava a crucificação, tinha o mesmo clima um tanto soturno. É claro que os homens desejavam um Feliz Natal uns aos outros e que os melhores sentimentos cristãos eram lembrados, mas este “Feliz Natal” talvez não quisesse dizer o mesmo que as atuais “Boas Festas”, mesmo porque não havia propriamente uma festa relacionada à data. As ruas não se enchiam de enfeites. As portas das casas não ostentavam coroas. As lojas não contratavam Papais Noéis para oferecem balas às crianças e os pobres pais não colocavam barbas nem roupas vermelhas para darem presentes aos filhinhos. A noite do dia 24 de dezembro era passada com um jantar especial, talvez uma oração e depois cama. Sem muita história. Sem muita magia.

O senhor Charles Dickens, nascido em Portsmouth, em 1812, passou muitos natais assim. Ou melhor: passou muitos natais bem piores do que estes. Desde os 14 anos de trabalhar, e trabalhar duro, para poder sobreviver na Inglaterra dos começos da Revolução Industrial, quando leis trabalhistas, sindicatos, medidas de proteção social e outras cositas más não eram sequer sonhadas pelos trabalhadores. Seus natais eram cheios de incertezas, dívidas não pagas, dinheiro faltando e perspectiva de um ano nada agradável. Quando chegou à idade adulta, Dickens começou a escrever para jornais e publicou alguns romances, elogiados pela crítica mas sem grande sucesso comercial. Ser escritor já era, desde aquela época, ofício para quem tem outro emprego. As histórias de Dickens criticavam a situação humilhante em que viviam os trabalhadores da Inglaterra, a fria indiferença dos habitantes das grandes urbes para com o próximo em necessidade e todas as coisas que o nascente capitalismo moderno fazia com as pessoas. Eram em boa parte autobiográficas e não deixavam de ser uma libertação de demônios com os quais o escritor teve de conviver desde pequeno, mas também resultavam da observação arguta sobre a condição de vida da maioria dos seus compatriotas. Era uma quase obsessão para Dickens, o tema da pobreza. Até que, em 1843, resolveu aparentemente deixar esse tema de lado e investir em outro. Lançou Canção de Natal, seu livro mais conhecido.

Não é preciso falar muito da história. Canção de Natal teve nada menos do que 200 adaptações para o cinema, incontáveis versões em quadrinhos e figura na lista de qualquer biblioteca infantil que se preze. Foi traduzido para quase todas as línguas conhecidas. O tema do Natal caiu muito bem para a época, que começava a comemorar comercialmente a data. Caiu tão bem que o livro de Dickens fez um sucesso gigantesco, como provavelmente nunca um outro livro havia feito na Inglaterra: o mercado consumidor livreiro não existia antes do século XIX e nem as edições com tantas tiragens, fruto direto da ocupação maciça das cidades registrada na época. Dickens aproveitou bem o momento – mas o momento tambem se aproveitou bem de Dickens. Mesmo nestas latitudes meridionais, onde o Natal é a época do calor e não da neve, a comemoração do Norte da Europa penetrou através da leitura de A Canção de Natal. Tão lido foi A Canção de Natal que, a partir de então, a data virou sinônimo daquilo que sempre deveria ter sido – um ritual de passagem.De repente, todos nós passamos a ser Velhos Scrooges que, visitados por três espíritos de Natal, somos convocados a mudar radicalmente de vida antes que seja tarde demais. A generosidade do velho sovina depois de ver que sua vida estava sendo gasta com preocupações mundanas é expressa nos presentes que, uma vez por ano, os pais dão aos filhos e os jantares que as famílias dão umas às outras, comemorando alegremente o momento. Talvez algo do aspecto formalmente religioso se tenha perdido com isto. Nem todos rezam ao pé da árvore e são poucos os que vão à missa após as comemorações. Dickens tirou um pouco de religião do Natal com sua historinha para embalar sonhos de crianças. Mas colocou em nosso coração a idéia profundamente cristã de que o dia 25 de dezembro é capaz de mudar a vida de qualquer pessoa porque foi este dia que mudou para sempre a história da Humanidade.

Dezembro 24, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Feira do Livro II

Não tinhamos intenção de visitar a Feira do Livro neste final de semana, mas, como todos os apaixonados, inventamos desculpas para estar perto de quem nos cativou. E assim nos dirigimos á capital dos gaúchos em busca de uma camiseta da Feira .

Logo na chegada tivemos a satisfação de encontrar Jairo Jorge, o prefeito eleito de Canoas (RS). Foi altamente gratificante saber que o responsável pela condução da cidade nos próximos anos tem apreço por livros. Não deixa de ser uma esperança para uma cidade tão carente na área cultural.

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Jairo Jorge, prefeito eleito de Canoas (RS)

Encontramos por lá também Peninha, o historiador mais gremista do Brasil. Vibrante de simpatia e muito solícito, não negava autógrafos nem pedidos de fotos por parte dos fãs.

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No pavilhão de autógrafos, o Senador Paulo Paim, com a obra O Canto dos Pássaros nas manhãs do Brasil, tinha a sessão mais concorrida do horário. O livro é um registro de algumas das atividades do senador como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado Federal.

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Senador Paim

Novembro 15, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Geral, Literatura | | 2 Comentários

Feira do Livro

Em mais um dia de peregrinação na Feira do Livro de Porto Alegre, que se encerra neste final de semana, constatamos que as fontes que existem no laguinho artificial da praça estão funcionando. Há alguns anos era triste olhar o local, com o laguinho seco e entulhado de lixo.  Atualmente a água é limpa e as fontes ligadas proporcionam um ambiente muito agradável.

Um fato chamou nossa atenção. Estranhamos existir na banca de ofertas de uma livraria especializada em livros usados , oferecidas por R$5,00 , duas obras com registro catalográfico de biblioteca. No caso, da biblioteca do Colégio Vera Cruz de Porto Alegre. Acreditamos que a escola realizou a venda dos exemplares para o  “sebo”,mas seria mais adequado que fosse retirada a etiqueta pois não causa uma boa  impressão ver livros  com registro em uma biblioteca expostos à venda. Quanto mais não seja por banalizar a oferta de venda de exemplares com registro, não gerando mais surpresa, o que facilitaria ação daqueles que gostam de surrupiar livros de bibliotecas.

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Novembro 15, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Geral, Literatura | | Sem comentários ainda

Domingo na Feira

O domingo na Feira do Livro foi marcado pela maciça presença de gremistas. As razões são por demais conhecidas.

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Nas bancas

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Circulando

feira-087Tornando o domingo ainda mais doce

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Sorrindo.

Os sorrisos de Carlos e Cíntia representam bem o sentimento dos gremistas neste domingo


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Opa! Um rubro-negro neste post eminentemente gremista? Ziraldo e sua simpatia desfilavam tranquilamente pela Feira. Sempre afável e gentil, o maravilhoso criador do Maluquinho – que não gosta de ser chamado de “Senhor” – posou para fotos, autografou livros e saiu calmamente pela Caldas Junior enchendo do discreto charme da cultura a noite que recém caira em Porto Alegre. Estará amanhã, segunda-feira, na Praça de Autógrafos a partir das 17 horas.

Novembro 10, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Geral, Literatura | | Sem comentários ainda

Os tempos e sua voz

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Há muito tempo não lemos poesia. O mundo de hoje não o permite e não só pelo tempo que as futilidades nos roubam dos precisosos dias de vida. Não lemos poesia porque elas não parecem ter algo a nos dizer. Não achamos necessário desvendar os jogos verbais dos poemas, compreender as metáforas, degustar cada palavra como se fosse uma iguaria preparada por um chef talentoso. Nem sequer a musicalidade, ingrediente indispensável até à poesia mais popular, já não nos importa. Assim como o famoso “eu lírico” do poeta, que nos parece hoje de uma proximidade bem desagradável.

Neste sentido, o livro de Eliana Couto Triska, Os Tempos e sua voz, não parece ter a melhor das sortes em termos de público. É lamentável vaticinar um destino como esse para uma obra recém-lançada, mas não vejo alternativa. Ela tem o incontornável defeito de trabalhar a palavra na época da crise da palavra, como nos lembra um assustado George Steiner. Comete todos os equívocos: cuida da métrica e da musicalidade, deixa transbordar o eu, cede à inovação formal sem excessos, busca, enfim, o belo. É, em uma palavra, poesia – da melhor qualidade, para aqueles que souberem ouvir a voz de Eliane que já na epígrafe mostra a que veio:

No lar univérsico,

correntes de forças exóticas

traçam linhas vibratórias

que alcançam bordas,

limites não nomeados,

algo além da imaginação.

Nela ou fora dela, em qualquer ponto

há encontros…

P.S.: A autora  está autografando o livro na 54ª Feira do Livro, no dia 10 de novembro, 2ª -feira, às 17 horas, na Sala Oeste do Santander Cultural.

Onde encontrar:
Fenix21@terra.com.br

Novembro 9, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 4 Comentários

Pôster da 54ª Feira do Livro

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O pôster da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre é uma obra muito inspirada.

Quando visitamos a  Banca de Lembranças da Feira o gentilíssimo atendente nos presenteou com o pôster que pode perfeitamente ser emoldurado e adornar bibliotecas ou qualquer local onde estejam os livros. O atendimento na banca é condizente com o clima reinante na Alfândega nesses dias iluminados em que o livro é o astro principal no centro da mui leal e valerosa. Atendimento de primeira ,onde a cortesia vai além da polidez contida e quase alcança o limiar de afetividade. Como resultado, o feliz frequentador gasta ali mais do que planejara. Foi o que fiz , mas não me arrependo e garbosamente ostento minha sacola que carrego atravessada no peito que veste a camiseta alusiva. Coisas de amante da Feira.

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Novembro 4, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Literatura | | 1 Comentário

54ª Feira do Livro – Perdemos o espetáculo do Ariano

feira

Início da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre e anunciada a presença de Ariano Suassuna com Nau: aula-espetáculo. Como assinantes de Zero Hora buscamos informações no jornal e descobrimos que seria dia 1 de novembro, às 20 horas no Teatro Sancho Pança, Armazém B do Cais do Porto.

Pois bem, após retirarmos “O Romance da Pedra do Reino” da prateleira nos dirigimos ao centro da capital dos gaúchos com a intenção de assistir à aula-espetáculo e com a tímida esperança de conseguirmos um autógrafo naquela que é, talvez, a obra mais relevante de Suassuna.

Chegando à Feira, que este ano parece melhor do que nunca, com um visual renovado em vários setores, nos dirigimos diretamente ao cais. Eram aproximadamente 19h30m. Chegaríamos cedo para aproveitar bem o clima que ronda esse tipo de acontecimento, como a chegada do escritor ao local, por exemplo. Quando visualizamos a imensa fila que estava formada em frente ao local, acendeu-se uma luzinha vermelha naquele lugarzinho de nosso cérebro que indica problemas.

Fila esperando pela aula-espetáculo de Ariano Suassuna

Obtivemos a informação de que para ingressar no teatro teria sido necessário que chegassemos mais cedo quando foram distribuídas senhas.Informado também de que no site da Feira constaria esta informação( de fato consta).

Assim perdemos a oportunida de assistirmos Ariano Suassuna, pela omissão de um detalhe fundamental na cobertura de Zero Hora, mas aprendemos a lição. A partir de agora somente buscaremos informações sobre os eventos da Feira do Livro no site da própria.

Como a visita à Feira sempre é válida, seguimos o velho dito popular : “tira o sangue da cara e vai de novo”. O contratempo não permitiria que arruinassemos um dia de visita a um evento que sempre fez parte de nossas vidas. Feira do Livro é sagrada.

Sagrado evoca espiritualidade. E eis que lá vem um personagem, ligado ao culto da espiritualidade e que é um símbolo desse evento maravilhoso. Com pressa, caminhando a passos largos,o simpático frei,  patrono da Feira de 2006. E sabem onde foi colocar-se essa figura ? Na fila, esperando sua vez para ingressar no teatro, de onde foi retirado pela organização que o conduziu, para dentro da sala. Esse agir aparentemente pequeno diz muito sobre a pessoa que é Frei Rovílio Costa.

Frei Rovílio Costa e sua humildade franciscana

Observando a fila dos que iriam assistir ao espetáculo , com uma certa inveja em nossos corações não franciscanos, visualizamos de forma meio opaca o que parecia ser uma uma camisa do Sport Recife.

Chegando perto constamos que realmente era uma camisa do Leão, vestida por um jovem conterrâneo de Ariano Suassuna, ao seu lado, uma senhora vestindo uma camiseta com a bandeira de Pernambuco e, ao lado dela, outro jovem com uma camiseta evocativa de Recife. A terra natal e a terra eleita , além do clube do coração do escritor, representados de forma singela. Bonita homenagem.


Nordestinos na aula-espetáculo de Ariano em Porto Alegre

Feira do Livro 2007

Novembro 2, 2008 Publicado por Miss Lou Lou | Literatura | | 3 Comentários

*Os meios não justificam os meios

*Eugenio Brauner

Saí do trabalho, ontem, passei no supermercado para comprar duas garrafinhas de cerveja e alguns petiscos, tomei um banho, calcei os chinelos e atirei-me defronte à televisão para assistir o novo Ronaldinho e o Grêmio.

Acabei vendo Pesca Mortal, no Discovery, porque o jogo do Grêmio foi de fazer os mortos do João XXIII fazerem greve e pedirem para descansarem em outro lugar.

O Grêmio apenas fardou, já que os Roth Boys não estavam com a menor vontade de adentrar a cancha, enquanto o Sport tão somente acumulou mais uns pontinhos no programa de milhagem da TAM. E dizer que este time vai disputar a Libertadores no ano que vem, salve-se quem puder!

Claro que serei muito hostilizado por estas declarações, aliás, na breve história do Perspectiva, não existe ninguém mais vilipendiado, mais xingado, mais caluniado do que eu. Vão me rotular de colorado, tal coisa e coisa e tal. No entanto, vamos em frente e, segundo PIRILAMPO (2008, p.71), “Perodai-os Pai, eles não sabem o que fazem”.

Pois bem, o Celso Roth acabou com o Grêmio, assim como Rocky Balboa destruiu com Apollo Creed, em 1977. Aliás, nada que espante os amantes do esporte bretão, pois Celso “Sexy Hot” adora desconstruir equipes que ele mesmo forma, tal qual aquele irmão mais novo que vive dependurado na mesa de botão, tirando do lugar a goleira, derrubando o goleiro, engolindo a bolinha e tirando um ou outro puxador da mesa.

A minha expectativa maior, portanto, ficou a voltada para o novo cracaço Douglas Costa e fiquei com o mesmo sentimento de todos os homens que passam a noite olhando para uma guria na festa – mas a noite inteira mesmo – e na hora que ele toma coragem a dita cuja vai embora.

Lembrei-me do Marcelinho Ferro Elétrico, para ficar no lado azul da Força. Uma firulinha aqui, um “diblizinho” ali, uma passadinha de pé sobre a bola e nenhuma objetividade, assim como o velho e bom Diego, eterna promessa do lado vermelho.

Fiquei com a impressão de que o Grêmio terá que jogar muito mais para ganhar o Getulião 2008, pois está mais claro que cabelo de albino que, enquanto São Paulo e Flamengo crescem feito bigode de gato, o tricolor está tendo desempenhos pífios e risíveis.

Inclusive, Sandro Goiano, um cara respeitado pela torcida tricolor e declarado torcedor da Geral, disse, nos microfones, que o Grêmio vai ter que jogar muito mais para “sair campeón”.

Como diz o Chico, “a coisa por aqui tá preta”, enquanto o barco Lucy’s Love segue na frente na pesca dos caranguejos.

*Eugenio Brauner, colorado militante e literato nas horas vagas, é conhecido por suas análises totalmente imparciais sobre os adversários do time do Beira-Lago.

Tudo o que Eugenio Brauner publicou no Perspectiva está aqui

Outubro 24, 2008 Publicado por blogperspectiva | Literatura | | 1 Comentário

XX Salão de Iniciação Científica da UFRGS

O Salão de Iniciação Científica da UFRGS ocorre de 20 a 24 de outubro nas dependências da Reitoria.  Os participantes apresentam um resumo de sua pesquisa, fazem apresentação oral e um pôster. Segundo os organizadores, o sentido do Salão está na apresentação e no aperfeiçoamento de cada uma dessas formas de divulgação do trabalho científico e a avaliação está associada à preocupação de valorizar e garantir o espaço da Iniciação Científica.

Um dos integrantes do nosso blog é participante do Salão fazem quatro anos , com seu projeto de pesquisa sobre J.R.R. Tolkien. A pesquisa  Tolkien e os Críticos, iniciou no ano de 2007 , com Ana Maria Kessler Rocha Sandra Sirangelo Maggio como orientadoras. Este ano, orientado por Sandra Sirangelo Maggio , o  tema da apresentação continuou enfocando a maneira como a obra do escritor foi recebida pela comunidade literária no decorrer do tempo. Quem quiser ler o resumo da pesquisa clica aqui.

O pôster que foi apresentado, obra de Madame Y, é o que apresentamos abaixo.

Outubro 22, 2008 Publicado por blogperspectiva | Arte, Literatura | | 3 Comentários

A lição de uma santa

Para lembrar o dia de Santa Teresa D´Ávila, presenteamos os leitores do Blog Perspectiva com um ensaio do historiador, jornalista e crítico literário austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux, autor da até hoje insuperada História da Literatura Ocidental. O ensaio foi retirado do volume 1 dos Ensaios Reunidos do autor,fls91/97 (Topbooks, 1999).

HÁ ALGUNS anos um dos meus amigos entrou numa livraria católica e pediu um livro sobre Santa Teresa. A jovem que o atendeu trouxe um monte de livros sobre Santa Teresinha do Menino Jesus. – “Mas não, eu queria alguma coisa sobre a grande Santa Teresa de Ávila!” A jovem levantou os ombros e respondeu: – “Sinto muito, mas a grande Santa Teresa já não é moderna.”

Sem dúvida, a “grande” Santa Teresa teria rido desta anedota; a visionária tinha, como verdadeira castelhana, o humor superior da sua raça e a inteligência prática. A invasão do “moderno” nas regiões da eternidade, sintoma tão grave aos nossos olhos, teria sido para a santa um novo impulso de atividade. São os santos que transformam o mundo.

Nada mais interessante que observar as coisas que são tomadas a sério pelos nossos contemporâneos, se eles são ainda capazes de levar alguma coisa verdadeiramente a sério. Achar-se-á que os idealistas e os espiritualistas mais sublimes se apavoram em face das crises econômicas, das revoluções sociais e das batalhas militares, como se isso tivesse alguma importância. Ah! como o materialismo venceu até os seus inimigos mais rebeldes! Quanto a mim, estou convencido que os santos são o verdadeiro sinal dos tempos, muito mais importantes que a distribuição das forças diplomáticas e econômicas ou as novíssimas invenções da técnica militar. Todos esses que hoje se agitam tumultuosamente estarão mortos em breve, e nós juntamente com eles. É a morte que dá a esses episódios a sua verdadeira medida. A morte carnal, a decomposição, à qual – maravilhosas lendas da Antiguidade cristã! – a carne dos santos resiste. Somente, é preciso saber o que é um santo.

Os santos não são acessórios de crenças passadas nem figuras de gesso inexpressivas. O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele o merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo. Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos; representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo. É a lição da grande Santa Teresa.

Teresa de Cepeda y Ahumada é filha de um grande da Espanha, filha da cidade castelhana de Ávila, cujas muralhas ciclópicas pareciam construídas para a eternidade; Unamuno celebrou-as como símbolo da imortalidade. Alimentada tanto pelo espírito aventureiro dos romances de cavalaria – chegando mesmo a escrever um deles – como pelo espírito exaltado da Flos Sanctorum, das lendas dos santos, e também desejosa de tornar-se santa, Teresa escolhe o caminho da aventura religiosa. Prepara-se para as cruzadas e para os martírios, abandonando o século e entrando para o convento do Carmo. Mas o que ela encontra no convento, é o século. Estamos antes da reforma do Concílio de Trento. Parece que aí, no convento, se levava a sério o mundo. As religiosas nos seus parlatórios gozavam de uma liberdade que a severidade castelhana proibia às mulheres do século. A vida nos conventos é uma verdadeira “comedia de capa y espada”, com as suas serenatas e seus duelos. O barulho das armas na Itália e em Flandres ecoava no parlatório, bem como o tilintar do ouro das Índias. “A súbita mudança de alimentação e de hábitos me fez cair doente” – escrevia a religiosa a seu pai. Ela estava mais doente do que imaginava. Caiu em letargias que duraram dias e dias. Uma vez as irmãs chegaram a preparar-lhe a sepultura. Mas a morte passa. Teresa volta ao mundo. A leitura das Confissões de Santo Agostinho ensina-lhe o valor único da alma humana. O destino do mundo não depende das guerras de religiões nem das guerras de conquistas. É na alma humana que os destinos do mundo se decidem. Iluminada por essa sabedoria, Teresa apavora-se com as palavras evangélicas que ouviu durante a missa: “Vigilate itaque, quia nescitis diem neque horam” – “Velai, pois que não sabeis nem o dia nem a hora.” É o fim da parábola das virgens sábias e das virgens loucas, das virgens sábias que prepararam as lâmpadas para as núpcias, e das virgens loucas que esqueceram o óleo, e as lâmpadas apagaram-se, e caiu a noite, e o noivo celeste não as reconheceu; é o evangelho que se reza hoje em dia durante a missa em honra a Santa Teresa. Teresa está resolvida a não pertencer mais ao número das virgens loucas. Quer reformar a Ordem. Prontamente a virgem sábia foi considerada louca. Teresa cai em êxtases: vê o céu aberto, o anjo do Senhor fere-lhe o coração com a flecha do amor. Processaram-na, prenderam-na. Ela porém, não se deixa domar. Essa visionária extática reúne em si a imaginação de Dom Quixote e a inteligência prática de Sancho Pança, e mais ainda: o humor superior e o gênio literário do criador dessas personagens imortais. Com a coragem do cavaleiro andante ela percorre toda a Espanha – que viagens pitorescas e picarescas! – para fundar os trinta e dois conventos das Carmelitas descalças. Resiste ao rei Felipe II e a seus inquisidores, ao núncio apostólico e aos bispos, aos superiores, que a torturam cruelmente. Reclusa em Toledo, escreveu as obras místicas que a consagraram a primeira prosadora da literatura espanhola; escreveu inúmeras cartas aos grandes do mundo e às religiosas dos seus conventos, cartas cheias de coragem indomável, cheias de conselhos práticos, cheias de um humor surpreendente e de uma sabedoria superior. Ao morrer, em 1582, conseguira fazer o que o rei e o Grande Inquisidor não conseguiram: a Igreja na Espanha estava salva.

Altar da Capela Cornaro-Igreja de Santa Maria della Vittoria-Roma


Escultura de Gian Lorenzo Bernini(1598-1680)
Êxtase de Santa Teresa

Santa Teresa tem o seu monumento. Bernini o esculpiu. Sobre um altar da igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, vê-se a santa com os olhos fechados em êxtase, um sorriso encantador nos lábios; o anjo que lhe fere o coração com uma flecha de amor parece um Eros. É uma obra-prima da arte barroca; e compreende-se imediatamente a intenção genial do artista: Teresa era histérica.

Um católico profundamente crente como o barão Huegel declara: “Nunca houve um santo visionário que tivesse uma saúde nervosa normal” (carta de 19 de novembro de 1898); e cita o livro do sábio bolandista P. Hahn S. J. sobre Santa Teresa. Essa comprovação, que não é precipitada, coloca-nos diante de um problema sério, mais sério que a pretensa vizinhança entre o gênio e a loucura. Porque a histeria não é uma loucura. A histeria pode perfeitamente ser acompanhada do gênio, pois que ela não afeta a inteligência. Mas o gênio religioso? A histeria é uma doença do caráter.

É precisamente pelo caráter que se distingue o histérico egocentrista e orgulhoso do santo teocentrista e humilde. Para o histérico, o mundo é um joguete em volta do seu eu; o santo sacrificou o seu eu a Deus, e toma o mundo a sério. Para os “normais”, para os pequenos-burgueses de espírito, o mundo do histérico e o mundo do santo parecem igualmente quiméricos. A pedra de toque de distinção é a ação. O mundo é um conjunto de material para a ação. O histérico, fechado dentro do seu eu, é incapaz de agir num mundo que ele mesmo criou e que não existe na realidade. O santo é histérico em todas as aparências do seu mundo à parte, que os outros não compreendem, mas esse mundo é superior ao nosso mundo. Um interessante estudo de Georg Sebastian Faber distingue entre o histérico, assunto da psicanálise, e o homem superior, assunto duma metapsicologia: ambos sofrem duma dissociação da consciência, o suksma do ioga hindu; nos histéricos e esquizofrênicos, a dissociação da consciência provém duma irrupção do subconsciente na consciência; a dissociação mental do homem superior provém da irrupção dum “supraconsciente”. A doença mental paralisa a consciência; o supraconsciente enche o espírito com uma nova força superior, com aquilo que Sócrates e Goethe designavam como “Demônio”; e é uma força de ação. A aparição de um santo é a invasão de nosso mundo pela eternidade. Por aí o santo é capaz de agir. Mais ainda: a sua santidade e a sua atividade são a mesma coisa e transformam o mundo. “Pelas suas obras vós os reconhecereis.” “Porque as suas obras os seguem.”

A obra de Santa Teresa! Ela é a maior figura da história eclesiástica barroca; é uma grande figura da literatura espanhola; é uma das almas mais seráficas que a terra já viu. Três atributos que pertencem ao passado. Que temos a ver com isso? Que interesse tem isso para nós?

A história literária de Santa Teresa ainda não está escrita. É preciso procurar o seus traços nos estudos esparsos de Carl Neumann, de Henri Bremond, de Manuel Bartolomé Cossio, de Max Wieser, estudos que já permitem a afirmação de que Santa Teresa é uma figura central da história do espírito europeu. Numa carta a Morell, de 16 de dezembro de 1696, o grande Leibniz escreveu: “Tendes razão em estimar as obras de Santa Teresa; os seus pensamentos fornecem reflexões filosóficas que já apliquei.” Todo conhecedor da posição central de Leibniz na história da filosofia moderna ficará impressionado. Por outro lado, Max Wieser provou que Santa Teresa criou toda a terminologia psicológica empregada pelo sentimentalismo do século XVIII e em seguida pelo romantismo. Dois fatos que justificam algumas explicações mais especializadas.

Santa Teresa é uma grande psicóloga. O seu Camino de perfección é tão realista e tão eterno quanto as estradas de Castela. O seu Castillo interior tem as muralhas tão duráveis como as da fortaleza de Ávila que Unamuno cantou. Na história da psicologia moderna, Teresa ocupa precisamente o mesmo lugar que o Agostinho das Confissões na psicologia antiga. A Antiguidade não conheceu o valor da alma individual; depois do desmoronamento do mundo antigo, Agostinho encontra a sua alma sozinha com o Criador: a alma humana é realmente o que há de maior valor sobre a terra. Teresa foi despertada por Agostinho: ela viveu na época em que a Antiguidade ressuscitada pelo humanismo tinha feito esquecer o valor da alma humana. Se Teresa foi chamada a criadora de um humanismo cristão, foi porque acharam nas suas obras uma terminologia cujos efeitos eram incalculáveis sobre o espírito europeu: “Alma y Dios, Sola con El Solo” – estas palavras significam exatamente o valor incomparável da alma humana, que, ela só, resiste perante Deus; “Alma hermosa” – essa expressão salva toda a beleza das coisas deste mundo para os espaços infinitos do Castillo interior e dá um novo centro e nova direção a todas as atividades. No tempo em que os Conquistadores espanhóis descobriram os tesouros da Índia, Teresa descobriu os tesouros da alma. E isto sobreviveu àquilo.

Teresa teve na Espanha um público escolhido: foi lida pelo rei Felipe II e por Dom João d’Áustria, por Fray Luís de León e Cervantes. Cossio demonstrou que as influências de Santa Teresa operaram a transformação do pintor grego Theotokopouli em El Greco de Toledo. Ora, a língua espanhola era então a língua universal. Teresa foi lida em Nápoles, em Flandres e entre os prisioneiros de guerra em Argélia. Foi lida pelos últimos católicos da Inglaterra, onde o grande poeta barroco Richard Crashaw lhe dedicou o seu Hymn to the name and the honour of the admirable Saint Teresa, e até mesmo no Peru. Sobretudo, Teresa inspirou a devoção do santo bispo Francisco de Sales.

Até à admirável História literária do sentimento religioso em França (especialmente vols. I-III), do abade Henri Bremond, não tínhamos ainda conhecido a grande “primavera espiritual” francesa do barroco, que se inspira no “humanismo devoto” de Francisco de Sales. Depois, o bispo Pierre Camus, e o carmelita Pe Philippe Thibaut, bem como o terceiro volume de Bremond, nos apresentam o cardeal Berulle, fundador da Congregação do Oratório, e o seu discípulo Olier, fundador do seminário de St. Sulpice. Daí é que surgiram o abade de Saint-Cyran e Pascal, e tudo quanto tem valor na mística de Port-Royal: “A alma só perante Deus”. Sabe-se que toda a literatura francesa até os nossos dias está impregnada de polêmicas jansenistas e antijansenistas que se inspiram, por igual, em Santa Teresa. O mais belo poema religioso da língua francesa, En attendant la mort, de François Maynard, fixa uma atitude teresiana de alma nestas palavras: “Dans le désert sous l’ombre de la Croix” (1). Mas aqui o que mais nos preocupa é o grande oratoriano Nicolas Malebranche, cuja filosofia “ocasionalista” é a fórmula filosófica do “Sola con El Solo”. Malebranche transmitirá este pensamento a Leibniz, cuja “mônada”, a alma isolada, é o germe do idealismo alemão. Mas Unamuno achou a “mônada” no “só cristão” de Kierkegaard, e Carl Schmitt achará o ocasionalismo em toda a filosofia do romantismo. É ainda Bremond que persegue a linha “quietista” do Pe Lallemant e da religiosa Marie de l’Incarnation (“C’est vraiment notre Thérèse”) (2), até Fénelon e os místicos da Renânia, entre os quais Pierre Poiret é o “pai do pietismo literário” (Max Wieser), o criador da expressão alemã “Schoene Seele” (“alma hermosa”): expressão que dominará o sentimentalismo do século XVIII e reaparecerá em Goethe, em Novalis e no romantismo. Aí ele encontrará o ramo inglês do pensamento teresiano – pois o espírito inglês deu mostras duma estranha afinidade com o espírito da santa – ramo que provém dos anglocatólicos e dos platônicos de Cambridge, movimento que vence com Shaftesbury, o pai espiritual do classicismo de Weimar (3) e do neo-classicismo inglês do século XIX. O sentimentalismo e o romantismo têm a sua fonte comum nas Confissões de Rousseau, que leu o seu Agostinho pelos olhos de Santa Teresa. Deixemos Unamuno prosseguir esta linha de Sénancour, Chateaubriand, Leopardi, Vigny, Amiel, até Quental, onde reaparece a substância cristã do pensamento teresiano. Paulo Tillich (4) pôde prosseguir este pensamento até às polêmicas idealistas, humanitárias, do jovem Marx. Sem dúvida o pensamento teresiano era o “Castillo interior” da alma humana contra todos os ataques da violência barroca, do racionalismo do século XVIII e do materialismo do século XIX. O que há neste mundo, ainda, presentemente, de verdadeiro “personalismo”, é devido a esta notável e estranha oposição do humanismo cristão. Em plena Inglaterra vitoriana, o oratoriano Cardeal Newman transmite a psicologia teresiana a Coventry Patmore, poeta do Unknown Eros, em que o último platônico inglês, o grande romancista Charles Morgan, se inspirou, e cujo ensaio sobre Singleness of mind representa a voz da última resistência.

Santa Teresa conquistou um mundo; conquistou-o, porém, contra o mundo. O mundo de Santa Teresa é a Espanha barroca: um mundo rude. A própria Teresa o descreveu no seu Libro de fundaciones: a frieza impassível do rei, a astúcia dos ministros, a imbecilidade dos bispos, a grosseria dos generais e a covardia dos burgueses; a única figura luminosa é o Grande Inquisidor Quiroga, que El Greco pintou inesquecivelmente. Teresa descreveu as suas viagens sobre mulas miseráveis, aos ventos do inverno de Castela e ao sol escaldante da Andaluzia, as noites nos albergues, que nós conhecemos em Dom Quixote, entre fidalgos que têm ar de ladrões e ladrões que têm ar de fidalgos. É um tempo de ferro e de sangue, como o nosso tempo. Em toda parte do mundo os espanhóis batem-se como heróis e destroem como selvagens. É precisamente dessa Espanha desumana que a voz mais humana proclama o valor incomparável de toda alma.

Esta voz venceu o barulho insensato de uma época. A alma está com Ele, “Sola con El Solo”, e ela será mais forte. Esta mulher, corajosa contra todos os poderes temporais e espirituais do mundo, é bem a filha de gerações de senhores feudais espanhóis, altivos e livres nos seus castelos: os estranhos avós do mais sublime fenômeno dos nossos dias, do liberalismo espanhol moderno. O pensamento de Santa Teresa é a sublimação religiosa da liberdade espanhola, a sua alma é o castelo duma liberdade superior. Superior aos poderes políticos, militares, econômicos, reais, eclesiásticos e burgueses da sua época. Os tesouros das duas Índias amontoam-se sobre o cais de Sevilha, onde todo o poder do mundo está reunido para levar os seus idólatras sobre os caminhos do diabo. Teresa, solitária na sua cela de Toledo, segue, como Richard Crashaw a cantou, “with white steps the way of light”(5) . Amontoa os tesouros da alma, “the sacred flames of thousand souls”(6) . Aos demônios da violência opõe o seu firme “Todo nada”. “Dios solo” – dizia ela, olhando os alicerces gigantescos do Escorial. Hoje o castelo dos reis de Espanha não é mais que uma lembrança, “todo nada”, e o palácio vazio fica encoberto pelos arcos do Castillo interior, o céu castelhano do “Dios solo”.

Teresa fez história. A história não se faz com armas e tesouros; a história não é o teatro dos generais e dos diplomatas. A verdadeira história passa despercebida, tranqüilamente, no centro da alma humana. Ela finalmente é a mais forte. É a nossa fé.

Essa fé, é preciso defini-la? O pensamento de Santa Teresa operou os seus efeitos fora da Igreja, e a definição dessa fé consiste essencialmente em estabelecer fronteiras. Deus não é o “Deus dos mais fortes exércitos”, o que soa muito bem na boca dos incrédulos, e o puerilismo contemporâneo, mesmo o devoto, não resistirá, porque é incapaz de levar a sério o mundo. Mas a fé de Santa Teresa é bem capaz disso; a fé que acha uma ordem superior e um sentido no mundo e na sua história. A lição da santa é que as muralhas do Castillo interior são eternas, como as muralhas de Ávila não o são. O que, bem compreendido, não é uma consolação, mas sim uma esperança. O último “teresiano”, Charles Morgan, exprimiu-o no Essay on singleness of mind com o qual prefaciou o seu drama O rio faiscante:

“Muitos homens se deixam convencer pelo desespero de não haver remédio contra a violência do mundo presente, exceto a fuga ou a destruição. Mas há outro remédio que está ao alcance de qualquer, da mãe, do sábio, do marinheiro, do camponês, dos jovens e dos velhos. O remédio é esta concentração do espírito ativo, que o pensamento humano conservou através de tantas tiranias, e que o preserva ainda. Essa concentração espiritual a que Jesus chamou a pureza do coração, e que é o gênio do amor, da ciência e da fé. Assemelha-se a um rio faiscante, indomável e inflexível como o zelo dos santos. Chamam aos santos de fanáticos, e realmente eles não permitem que ninguém os desvie dos seus objetivos. Mas é no caos da política que através deles chegamos à ventura e ao milagre: – de ser um homem.”

Notas:

(1) “No deserto, à sombra da Cruz.” [Nota do Editor d´Os Ensaios Reunidos]

(2) “É verdadeiramente nossa Teresa.” [N.E.]

(3) Com “V” no original. [N.E.]

(4) Aportuguesado no original. [N.E.]

(5) “Com passos brancos o caminho da luz” [Bruno Tolentino]

(6) “As chamas sagradas de um milhar de almas.” [B.T.]

Outubro 15, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Guillermo Arriaga

Entrevista de Guillermo Arriaga, roteirista de Amores Brutos, Babel e 21 gramas e um dos mais festejados autores mexicanos de hoje.

“É curioso como Obama visita a França e a Alemanha, mas não o México. E este é o país que mais influencia os Estados Unidos. A migração se aprofunda, 90% da cocaína entra por lá. Além disso, é seu maior comprador de armas; existe um tráfico à inversa, que é o de armas, para o México. O país está em um momento de definição. Há grande violência, narcotráfico, desigualdade econômica. São semelhanças com o Brasil, com a diferença de que lá o tráfico alimenta um mercado maior do que aqui.”

“Sabe, eu gosto de ouvir as pessoas falando “portunhol” comigo, mas creio que o idioma faça com que o Brasil fique um pouco isolado. Os brasileiros estão em um país grande, em uma potência econômica, em que há um orgulho brasileiro. Acho que isso também está mudando na América Latina. O Brasil se dá conta de que não pode continuar isolado. O governo de Lula é muito bem-visto, como um estadista, de uma maneira mais ativa que Fernando Henrique Cardoso. É visto como um homem que está no controle do país. Acho que é um país muito influente. Juan Rulfo dizia que todos devemos ler o Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.”

Outubro 15, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | Sem comentários ainda

Mitologia, Literatura e Imaginário

O projeto Ficção de Fantasia do curso de Letras da UFRGS , coordenado pela professora Sandra Sirangelo Maggio ,promove o colóquio Mitologia, Literatura e Imaginário de 17 a 19 deste mês de setembro no auditório do Instituto de Letras, no Campus do Vale( Av. Bento Gonçalves, 9.500).

O Colóquio debaterá a arte e o universo mágico presente em obras que se tornaram populares nos últimos anos, como Harry Potter, As Crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis. Haverá também exposição de pôsteres, de livros, comunicações e atividades culturais.

Celso Augusto Uequed Pitol, integrante desse blog, participará do colóquio apresentando os resultados de sua pesquisa sobre a obra de J.R.R. Tolkien , iniciada há três anos.

A entrada é franca.

Outras informações pelo telefone 3308-7081.

Setembro 13, 2008 Publicado por blogperspectiva | Literatura | | 2 Comentários

Escola Municipal Paulo VI-Canoas-RS promove Feira do Livro

A Escola Municipal l  Paulo VI  realizará  de 18 a 23 de agosto  sua  III Feira do Livro e I Feira Multidisciplinar. A Escola fica situada na av.Irineu Carvalho Braga, 2.781 , no  bairro Fátima – Canoas/RS.

O panfleto de divulgação expõe a motivação dos organizadores :

A realização da Feira do Livro Escolar é de fundamental importância para facilitar o acesso ao livro e a sua circulação no meio escolar, democratizando a leitura, sendo que a programação cultural deverá tornar-se multiplicadora da promoção da leitura como fonte de prazer, conhecimento e cidadania. Assim como uma Feira Multidisciplinar proporciona a toda a comunidade escolar um envolvimento dentro dos espaços oferecidos e utilizados para a divulgação dos trabalhos produzidos pela unidades de ensino.

Este projeto é importante para divulgar as práticas educativas e encantadoras realizadas no cotidiano escolar, oportunizando a participação de todas as áreas de conhecimento. Dessa forma, observa-se a importância do livro, que é vital para o processo educativo, pois viabiliza o acesso a leituras condizentes com seu meio e com todas as suas diferenças

A promoção da leitura como fonte de prazer é um sonho dos integrantes deste blog e por isso a iniciativa da Escola Municipal Paulo VI  nos enche de alegria e acreditamos deva ser estimulada e divulgada por todos aqueles que tem consciência da imensa diferença em termos de riqueza interior que existe entre quem teve desenvolvido o hábito da leitura e os que desconhecem esse prazer.

PROGRAMAÇÃO

18/08/08

14 horas – Abertura, Exposição de trabalhos e apresentações artísticas.

19/08/08

10 horas – Apresentação Grupo de Dança da E.M.E.F. Rio Grande do Sul.

Exposição de trabalhos e apresentações artísticas

20/08/08

Concurso da melhor redação e do melhor desenho e Feira do Troca-troca.

21/08/08

Apresentação do Grupo de Dança da E.M.E.F. Paulo VI.

14 horas – Apresentação do teatro “Adeus Sarita” com o ator e escritor Alex Riegel

22/08/08

Apresentações artísticas e exposição de trabalhos.

23/08/08

Galeto da Escola.

Agosto 17, 2008 Publicado por Madame Li Li | Literatura | | Sem comentários ainda

“Estrela da Vida Inteira”, de Manuel Bandeira em debate na PUCRS

No próximo dia 6 de agosto , das 17h30min às 19h30min a obra “Estrela da Vida Inteira”, de Manuel Bandeira, será tema do  encontro do projeto “Relendo a Literatura” da Faculdade de Letras da PUCRS.

O evento, destinado a estudantes e docentes de literatura, deverá ocorrer  no auditório do prédio 9, no Campus Central da Universidade (avenida Ipiranga, 6681 – Porto Alegre).Nas próximas edições serão estudados textos de Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Milton Hatoum.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail:

relendoaliteratura@pucrs.br.

Julho 23, 2008 Publicado por Madame Li Li | Literatura | | Sem comentários ainda

Blog de Geoffrey Chaucer

http://houseoffame.blogspot.com/

Será este o limite da criatividade dos blogueiros?

Julho 17, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Alívio Cômico, Literatura | | Sem comentários ainda

A Vigésima-Quinta Hora, de Virgil Gheorgiu

Pouco se sabe da Romênia no Ocidente e menos ainda neste cantinho mal afamado chamado Brasil. A etimologia nos remete a uma origem latina presente no radical “Rom”, o mesmo de “Roma”, “romanos” e “romance”. Abrimos um livro de história e descobrimos que, de fato, os romanos lá estiveram, primeiro sob as ordens de Roma, do ano 10 até o 410, e depois sob as de Bizâncio, até 1456. São, portanto, quatorze séculos de civilização latina, mais do que a maior parte dos países ocidentais. Concluímos que o radical “rom”, de romanos, é também o de romenos – aliás, desde o século VII, quando foi utilizado pela primeira vez. Por fim, desdobramos um mapa-múndi e direcionamos nossos olhos para o Leste Europeu, onde o nome do pequeno país aparece. Então nos damos conta de que este pequeno país latino está cercado por alemães, húngaros e vários povos eslavos, os quais o separam, por pouco, da Turquia e dos países do Oriente Médio. E foi neste país latino, circundado por vizinhos que circunstâncias históricas transforaram ora em aliados, ora em inimigos ou dominadores, que produziu o maior romance – ou o maior testemunho – acerca da barbárie que esteve perto de destruir toda a civilização que a Romênia carrega em seu nome: este romance é “A Vigésima-Quinta Hora”, de Virghil Gheorgiu.

Na epígrafe da edição portuguesa – traduzida por ninguém menos do que Vitorino Nemésio – há uma citação de Toynbee que diz o seguinte: “a história, como drama, é como o romance – filha da mitologia. Escrever a história é, também, fazer ficção: selecionam-se fatos, enfatiza-se alguns deles, interpreta-se outros. A “Ilíada” pode contar a história da Guerra de Tróis e “Guerra e Paz”, a das invasões napoleônicas na Rússia; a história da Segunda Guerra e de seus efeitos produzidos na alma dos homens, é o que – também – nos conta Virghil Gheorgiu, o romeno Virghil Gheorgiu, habitante de um país cristão e latino cercado por inimigos. Cristão e latino, isto é, ocidental – só que o Ocidente já esqueceu o que é ser cristão e latino. Na Europa Oriental, entretanto, o legado se conservou, fortalecido pela dura resistência ao avanço dos turcos otomoanos – uma resistência, antes de tudo, interior: mesmo após terem sido conquistados pelo Império Otomano, os romenos não abandonaram o cristianismo. Que diferença dos seus vizinhos, tão facilmente convertidos às religiões materialistas inventadas depois do Iluminismo, como adolescentes imaturos às ordens de uma nova gangue!

O termo “gangue” cabe bem aqui. Pois o nazismo, o fascismo e o comunismo têm o mesmo poder de atração dos gângsters; seduzem pela violência injustificada, pela lei do mais forte, pelo assassíno em nome da causa – e um assassínio desses, amparado por uma causa sem sentido, e, também ele, sem sentido. Diante dessas gangues, os romenos não capitularam. Romenos como Johann Moritz, o personagem central de “A Vigésima Quinta-Hora”. Moritz vive numa pequena aldeia da Transilvânia, interior da Romênia. Seu único desejo, como todo aldeão romeno, é manter sua casa, casar com a mulher amada, ter uma boa família e seguir os 10 mandamentos. Nada mais do que isso. Aparentemente, não há nada de errado com Moritz. O seu problema foi ter vivido durante a Segunda Guerra Mundial sendo quem é – um cidadão comum que não empunhava bandeira alguma. Sem manifestar qualquer simpatia por causas maiores, Moritz é sucessivamente perseguido por nazistas, comunistas e democratas ocidentais, acusado de judaísmo (por ser amigo de judeus), reacionarismo (por ser cristão) e comunismo (por ter o azar de ter sido preso junto com eles). Ele não entende praticamente nada do que está acontecendo à sua volta – e, mesmo assim, jamais, em momento algum, deixa de ser quem é. Intuitivamente. Sem levantar bandeiras, sem proclamar nada, sem autoproclamar-se nada. Moritz é apenas um indivídio solitário oprimido entre mundos que não o compreendem e que ele não compreende. Assim como a própria Romênia, país latino entre não-latinos, pobre entre europeus ricos e corajosamente cristão entre ateus.

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Julho 15, 2008 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura | | 1 Comentário