PERSPECTIVA

Agente X-9

 

 

 

A gíria “X-9” tem,em certos círculos, o mesmo significado que “dedo duro” para a população em geral. Cabe perguntar: de onde veio a palavra? Ao contrário da sua homóloga mais conhecida, que traz logo à mente uma imagem bem clara de um delator fazendo um gesto característico, esta expressão aparentemente nada significa. Constituída apenas de uma letra e um número, parece ficar bem como codinome. E de fato fica – porque é, realmente, um codinome. Assim era chamado o agente Phil Corrigan entre os seus companheiros de trabalho nas tiras em quadrinhos Secret Agent X-9, publicada nos jornais americanos entre 1934 e 1996. Com tantos anos de divulgação e sucesso, fica fácil entender porque o nome pegou.

As tiras do agente X-9 também foram publicadas em jornais brasileiros e chegaram a ganhar revistas próprias. A estas vem se juntar a coletânea Agente Secreto X-9 , publicada pela Devir Livraria no fim do ano passado. Composta por 570 tiras, ela cobre um período entre janeiro de 1934 e novembro de 1935, mostrando o começo da história e a gênese do personagem. Nestes dois anos as tiras ainda eram responsabilidade de seus criadores originais, o famoso escritor policial Dashiel Hammet e o lendário desenhista Alex Raymond, autor de Flash Gordon. A dupla havia sido contratada pela King Features para criar um personagem capaz de fazer frente a Dick Tracy, que naquela época dominava o setor de quadrinhos policiais americanos. O resultado está aí: seis décadas de sucesso nos jornais, uma bela reedição e uma palavra incorporada à língua portuguesa.

 

Onde encontrar:

 

www.devir.com.br

(11) 2127 8787

 

 

 

abril 5, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Weber economista

 

 

A série de conferências “Linhas gerais de História Social e Econômica do Mundo foi o último curso que Max Weber pôde ministrar do início ao fim. A Gripe Espanhola, o grande flagelo daqueles dias, viria a matá-lo pouco tempo depois do fim das aulas, em 1920, interrompendo aos 56 anos uma brilhante carreira de intelectual e líder político. Segundo dizem, Weber deu aquele curso sob insistência de seus estudantes: não se considerava um especialista em história econômica e teria até mesmo proibido sua esposa, Marianne, de publicar qualquer trabalho seu sobre o tema, pois os julgava cheios de erros e carentes do devido rigor científico. Se esta história é verdadeira, então podemos agradecer a Marianne por ter desobedecido ao marido e coligido as notas de aula dos alunos de Weber, as quais, organizadas e acrescidas de algumas anotações do próprio Weber, deram origem a História Geral da Economia (Centauro Editora, 336 páginas, tradução de Klaus Von Puschen).

Se analisarmos a obra com o rigor que Weber gostaria de ver empregue, seremos obrigados a dar-lhe certa razão. Há mesmo um ou outro ponto em História Geral da Economia que chamará a atenção de especialistas, como o uso do termo “feudal” para definir o processo de colonização da América Latina, algo sobremaneira discutível quando se tem em mente que mundo ibérico não conheceu o feudalismo. Contudo, a grandeza deste pequeno livro não está nos detalhes, e sim na abordagem generalista que o próprio titulo sugere: como bom representante do historicismo alemão, Weber vê a economia dentro do quadro geral da cultura, não como um “eflúvio, uma simples função daquela”, mas sim como “uma subestrutura, sem cujo conhecimento não se pode imaginar, certamente, uma investigação fecunda de qualquer dos grandes ramos da cultura”. Evita, assim, o determinismo e o monocausalismo, verdadeiras doenças intelectuais que já existiam em sua época e contra as quais sempre se opôs.

 

Onde encontrar:

www.centauroeditora.com.br

(11) 39762399

 

 

março 20, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O sistema jurídico inglês

 

Qualquer estudante de Direito sabe a distinção entre os sistemas jurídicos romano-germânico e anglo-saxônico (ou civil law e common law, segundo outra classificação): o primeiro baseia-se no corpo codificando das leis, enquanto que o segundo centra-se no conjunto das decisões judiciais, isto é, na precedência. O esquema  é simplificador e não dá conta das influências de um no outro, fenômeno que se tem dado nas últimas décadas. Isto posto, podemos dizer que, grosso modo, ele vale. O problema é que o estudo do “outro” sistema – no nosso caso, o anglo-saxão – costuma acabar aí. Decora-se o esquema e pronto.

 

Isto ocorre, em grande parte, devido à falta de bibliografia. Raras são as obras sobre o Direito inglês publicadas em português, e mais raras ainda são as que possuem amplidão necessária para servirem às exigências de um estudo sério do Direito Comparado. Por essa razão, a publicação de O Sistema Jurídico Inglês (Editora Forense, 606 páginas), de Gary Slapper e David Kelly, se faz tão importante. Neste pesado volume, os autores exploram os principais pontos do sistema jurídico de seu país de forma didática porém aprofundada, dando especial destaque às recentes mudanças ocorridas no Direito inglês. Como não é escrito tendo em vista o leitor brasileiro e sim o inglês, o livro traz uma introdução geral que inclui vários conceitos comuns ao estudo do Direito em qualquer parte do mundo.

 

Onde encontrar:

 

www.grupogen.com.br

(21) 3543-0770

 

 

fevereiro 26, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O cronista dos subúrbios

O escritor americano John Updike foi descrito certa vez por um crítico de seu país como o cronista dos adultérios dos subúrbios dos EUA. Esta preferência temática do autor não decorre de algum tipo de obsessão,  . O adultério, quando ocorrido no tradicionalíssimo Nordeste dos EUA, é o símbolo da transgressão, de quebra de valores consagrados e das mudanças que acompanham as revoluções estruturais do próprio país com o passar do tempo. Por isso, Updike não se via como um mero narrador de mexericos extraconjugais. Seu tema era a classe média protestante das pequenas cidades americanas – isto é, a América propriamente dita, longe de Hollywood, do cosmopolitismo das metrópoles e da Casa Branca.

Cidadezinhas (368 páginas, tradução de Paulo Henriques Brito) foi o último livro escrito por Updike antes de morrer. O protagonista, Owen Mackenzie, passa por várias pequenas cidades do Nordeste americano durante uma vida transcorrida entre um dos momentos cruciais da História dos EUA, aquele que vai do otimismo do pós-guerra até a decadência pré-era Reagan. Esta contextualização histórica acompanha e reflete as ações de Mackenzie, principalmente no que diz respeito aos seus envolvimentos amorosos, altamente discutíveis segundo os padrões estabelecidos. O foco da mirada do autor direciona-se, porém, sobretudo para seu país, visto aqui com um olhar que mistura crítica, acidez e ternura.

 

Onde encontrar:

http://www.companhiadasletras.com.br

(11) 3707.3500

 

fevereiro 26, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Além das ideologias

 

 

 

Em 1999, a prestigiada Faculdade de Jornalismo da Universidade de Nova York elaborou uma lista das 100 melhores livros de jornalismo de todos os tempos. Na sétima posição, à frente de Truman Capote, Hannah Arendt, Tom Wolfe, H.L. Mencken e Norman Mailer, estava John Reed e seu Dez dias que abalaram o mundo. Sua escolha foi cercada por controvérsias: no meio de vários conservadores, centro-esquerdistas, liberais e apolíticos – isto é, tudo o que é aceitável dentro do espectro político das democracias ocidentais -, Reed era o único abertamente comunista. Houve quem sugerisse que a colocação de Reed em posição tão elevada fosse uma manobra da propaganda esquerdista: ele só estaria lá por causa de suas posições políticas, e não de sua excelência literária e jornalística.Respeitosamente, somos obrigados a discordar. E discordamos com a tranqüilidade de quem não está de acordo com as posições políticas de Reed. Não é preciso fechar os olhos para o que foi a Revolução Russa e para as atrocidades do comunismo dentro e fora do Leste Europeu para admirarmos seu trabalho. Não é preciso ser comunista para ler Dez dias que abalaram o mundo. Mas, para escrevê-lo, foi preciso que Reed tivesse sido o comunista que foi. Seu grande mérito foi ter usado a sua proximidade com a causa socialista como instrumento para conseguir pintar um quadro mais elaborado e profundo do que o jornalista comum poderia fazer. E se há alguma dúvida sobre o valor de sua obra podemos lembrar que o diplomata americano George Kennan, um dos maiores adversários do comunismo durante a Guerra Fria, considerava a obra de Reed o maior relato sobre a Revolução Russa já escrito; e podemos, também, lembrar que Josef Stalin, presidente da URSS, proibiu-a de circular. O que é mais um atestado de como a análise de John Reed sobrevive às disputas ideológicas.

 

Onde encontrar:

 

www.companhiadasletras.com.br

(11) 37073500

 

 

fevereiro 21, 2011 Posted by | Literatura | 1 comentário

Gogol relançado

 

 

 

A seleção de contos O Capote e outras histórias, de Nicolai Gogol (224 páginas) é mais um lançamento da Editora 34, que, através de sua coleção Leste, vem brindando o público leitor com novas traduções de escritores russos como Dostoievski, Maiakovski, Puchkin, Tchekhov, Tolstói e muitos outros. Neste caso trata-se de um relançamento, pois a seleção foi originalmente publicada em 1990, pela editora Civilização Brasileira. Para a edição atual, a obra recebeu uma revisão completa do tradutor, Paulo Bezerra, já um nome consagrado entre nós quando o assunto é literatura russa. E não é para menos, afinal, é ele o responsável pela tradução de boa parte da obra de Dostoievski publicada pela 34.

A seleção de Bezerra contém apenas cinco contos, três dos quais estão entre as narrativas mais conhecidas e influentes de Gogol: “O Nariz”, “O Diário de um Louco” e “O Capote”. São, também, o que há de melhor no livro e só elas já valeriam o volume. As outras duas narrativas, “Viy” e “Noite de Natal”, são baseadas no folclore da terra natal do escritor, a Ucrânia, então província do Império Russo. São um excelente complemento para os três contos escolhidos e, juntos, os cinco perfazem uma obra obrigatória para o leitor da incomparável novelística russa do século XIX e princípios do XX. Isto é, para qualquer leitor de bom gosto.

 

Onde encontrar:

www.editora34.com.br

(11) 3816 6777

janeiro 11, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Entrevista de Gerardo Mello Mourão


 

Se por um lado sua obra poética é majestosa, com pretensões universalistas, por outro, o senhor utiliza elementos locais da sua família e do prosaísmo da vida nordestina. Como conciliar esses dois enfoques aparentemente discrepantes?

Majestosa? Só se for no sentido musical, em que as partituras indicam na pauta as palavras maestoso, ou andante, ou allegro e assim por diante, para marcar o ritmo e o tempo de trechos da sonata ou cantata. Nestes termos, quem me dera que meus versos guardem e transmitam ao leitor a marcação rítmica que está em toda obra poética, de Homero a nossos dias. Todo homem é uma dança, e tudo começa e tudo acaba em dança – advertia Keats. Assim é a poesia. Nasceu da marcação com os pés no chão da dança. Ainda hoje a grande poesia alemã e inglesa – como a poesia dos salmos hebraicos – guarda em cada verso os ritmos greco-latinos, a medida dos tons pela combinação das sílabas breves e longas. Esta é a poesia mensurada de John Donne e Shakespeare, de Byron a Coleridge, a Pound, a Eliot. Nas línguas neolatinas, o ritmo se faz pelas átonas e tônicas, pelo número de sílabas: heptassílabos, os decassílabos, os alexandrinos etc.Mas mesmo em nossa grande poesia, de Dante a Camões, a Mallarmé, a Baudelaire, a Rimbaud, a Leopardi, a Fernando Pessoa, está lá dentro de cada verso a batida dos pés de Homero, Virgílio, Propércio, Ovídio, com seus hexâmetros e pentâmetros, seus dáctilos, anapestos e troqueus – as sonoras combinações de sílabas. É este “arranjo” que dá espírito ao corpo do verso, e o poeta sabe gerá-lo, com a inocência do bom soprador de flauta ou tocador de viola, que rege o furo e a corda do instrumento com a sabedoria intuitiva e mágica que exclui mesmo a intenção. Por geração espontânea, digamos. Sem essa sabedoria mágica, qualquer sujeito poderá metrificar com rigorosa matemática, “more geométrico”, seus falsos versos: mas fará prosa sem saber, como o Mr. Jourdain de Molière.É certo que a revolução estática do princípio do século passado, de Marinetti a Tzara, a Breton e outros, tão fecunda com as descobertas do futurismo, do surrealismo, do dadaísmo, dos concretismos e assim por diante, resolveu abominar a métrica e o verso, como formas artificiais que aprisionaram o pensamento. Oswald de Andrade, um extraordinário “promoter” da boa literatura, embora sendo um poeta menor, como é o caso também de Mário de Andrade, repeliu o poeta que lhe propunha a experiência do soneto, com a famosa imprecação: “Abaixo a gaiola!”. Pelo visto, não sabia o que era um soneto ou não sabia o que era uma gaiola.O soneto, como a quadra, como o decassílabo, como o alexandrino etc., é um instrumento poético, como a flauta, o piano, o violão e o cavaquinho são instrumentos musicais. Com eles se faz música boa ou música ruim, dependendo dos dedos ou do sopro e do ouvido de quem toca. O poeta não é um escravo de versos medidos e contados, mas é servidor e provedor do ritmo, do ritmo mensurado e numerado, como nos tercetos do Dante, na oitava rima de Camões, nos sonetos de Gongora, e busca sempre o ritmo – todos os ritmos-, como Claudel ou Pound ou Walt Whitman. “Todos os ritmos, sobretudo os inumeráveis”, anunciava Manuel Bandeira.Mas a resposta já está ficando longa: é a má sina das respostas que em geral são sempre mais compridas do que as perguntas. Em todo caso, eu diria ainda que o poema se constrói muito como o “opus” musical: a repetição incessante da mesma frase musical, em todos os tons é a “fuga”, ou o “cânon” que estão na medula sonora dos textos mais líricos de Mozart, de Beethoven e de Bach, por exemplo. O poeta repete um número sorteado de sílabas e de palavras, sem nexo entre si, ou trechos de crônicas antigas e histórias do dia-a-dia, como o músico, com apenas as oito notas musicais estabelecidas na escala de Guido d´Arezzo – do-re-mi – e estas oito notas não são uma gaiola, mas a matéria prima do canto.Não há outras, e sair delas, é desafinar. Veja os cantadores de feira do nordeste: eles cantam redondilhas, versos de oito pés em quadrão, os chamados gabinetes de dez sílabas ou o “galope-a-beira-mar” de rigorosos endecassilacos metastasianos. Nunca estudaram métrica, não precisam medir versos no dedos, mas jamais incorrem num verso de pé quebrado. O ritmo nasceu com eles. Os elementos familiares e quotidianos é que salvam o poeta do prosaismo.Convivi muito na juventude com o historiador paulistano Ernani Silva Bruno, muito importante para a nossa geração, e descobrirmos, ainda na adolescência, que a história do mundo é a história de cada homem. E vice-versa. Ernani fundara em São Paulo o movimento “Boitatá”. Boitatá é a cobra de fogo, que abre e ilumina o caminho arrastando-se sobre seu chão. Ernani Silva Bruno cunhou uma frase que é o santo e senha dos que pretendemos nossa inserção no universo: “É preciso abrir uma picada para o universal”. A palavra “picada”, regionalismo típico do caipira de São Paulo ou do matuto do Nordeste, sugere um compromisso com o sítio próprio de nossa tribo. A maneira correta de partir é sair de onde estamos. Até por força da matemática euclidiana, eu só chego lá se partir de onde venho. Eu parto de um engenho de cana, de um curral reiúno, de uns coronéis valentes e bravateiros, de umas mulheres beatas, de uns cangaceiros matadores, bons no rifle e no punhal, que fundaram a Renascença da civilização brasileira.

Quais foram os escritores que o influenciaram mais intimamente? Com quais poetas o senhor alinha sua obra?

Não sei se é próprio falar de influências. Prefiro lembrar algumas referências. A primeira delas foi o caboclo Anselmo Vieira, cantador da feira de Ipueiras, com sua rebeca rouca, sua voz gemedeira, cantando quadras e sextilhas de sete sílabas, mourões de oito pés em quadrão, galopes-à-beira-mar em puros endecassílabos de Metastasio e assim por diante. Aos cinco anos aprendi seus versos de cor, depois de tanto ouvi-los, antes mesmo que os pais do folclorismo nordestino, Gustavo Barroso, Leonardo Mota e Câmara Cascudo os recolhessem em antologias. Depois, entre os doze e os treze anos, comecei a ler e traduzir em grego e em latim, Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio, nos exercícios que eram a voluptuosa disciplina cotidiana e o pão de cada dia no convento de redentoristas holandeses em que vivi até os dezoito anos.E naturalmente a Sagrada Escritura, em que fui iniciado desde a primeira adolescência e que me deu a salubre convivência e o vício da vida inteira no convívio de Isaías, Jeremias, Ezequiel, e Daniel com os quatro evangelhos e as cartas de São Paulo, tudo isso no ritmo religioso do canto gregoriano, cantado de manhã, de tarde e de noite na serenidade claustral, ritmo dominante, talvez, de minha poesia. E mais: nos textos às vezes da Koiné grega, mas sobretudo na linguagem vigorosa do violento latim de são Jerônimo. Este Jerônimo que é para mim, como para André Gide, Léon Bloy e Valéry Larbaud, o maior escritor do Ocidente. De uma de suas passagens, a conversa de Jesus com seus amigos apóstolos na Última Ceia, o agnóstico Gide diria que se nunca tivesse havido um Deus ele teria afinal aparecido naquela noite, com aquele texto, pois jamais um ser humano poderia tê-lo redigido. Só um Deus.No ano passado, em Seminário realizado na Sorbonne pelo Professor Christos Klairis, em sua cátedra Lingüística e com a participação de quinze lingüistas, para um debate sobre um de meus livros de poemas, lembrou aquele mestre que Dionísio, o Trácio, em sua Gramática, a mais antiga que se conhece no Ocidente, ao falar da natureza do poema, dizia que a poesia é um sopro. E Christos Klairis invocava ainda um dos mais antigos estudos de poética que se conhecem, o de Zenon e Eléia, para quem a poesia deve ter duas medidas: a metonímia e os “pachos”, a palavra que quer dizer “espessura”. (Daí vem a palavra “pacote”). Com esta espessura que se constrói com as palavras, uma depois da outra, em cima da outra, o poeta estende no leito dos vales da linguagem o rio volumoso de corrente de sua expressão, para a metáfora de seu canto. Talvez por isto o que é próprio do rio do poema é ser um rio caudaloso.Também em 1999, o jornal Le Monde promovia um debate entre escritores para identificar a qualidade e as tendências da mais autêntica poesia francesa contemporânea. Houve um entendimento praticamente unânime de que os dois poetas mais representativos da França neste século poderiam ser Claudel, entre os mortos, e meu amigo Robert Marteau, entre os vivos, com seus largos, longos, caudalosos versos, capazes de sustentar a metonímia e o pachos da visão eleata da poesia. Sobretudo porque esta caudal se faz com as águas substantivas da metáfora, e não com os berliques e berloques dos adjetivos, artificiais e ornamentais da eloqüência vazia. Parece-me que seria fútil ou arrogante alinhar com a de outros poetas a minha própria obra. Lembraria mesmo a resposta de Heidegger, quando lhe perguntaram como situar “a filosofia de Heidegger”. A resposta do filósofo foi que não havia uma filosofia de Heidegger, e se houvesse não haveria importância alguma. O que existe e o que importa é a filosofia, ponto. No caso, a poesia, e não a poesia de Gerardo.

Durante sua trajetória, o senhor nunca se filiou a nenhuma corrente estilística, nem ideológica. O senhor não concebe a produção artística engajada, como um suporte para para ideologias?

A ideologia é a negação da fecundidade e da liberdade do espírito. O sujeito que se escraviza a uma ideologia não tem idéias. Tem uma idéia só. Às vezes, fascinado por um sonho generoso, o homem se encerra no círculo de ferro, estéril e sem saída, de uma ideologia. O século 20 conheceu esta indigência e esta impostura, com a endemia do marxismo. Parece que hoje não há mais marxistas nos círculos respeitáveis do pensamento em nenhum país culturalmente aparelhado. O marxismo, que se tornou uma redução política na União Soviética e seus satélites do Leste, já não existe mais a não ser na pobre ilha desolada de Fidel Castro, onde sobreviverá, se sobreviver, até o dia em que o idoso “comandante” venha a morrer, e na indigente e agoniada Coréia do Norte, até o dia em que se recolham a um manicômio o ditador “minus habens” ali entronizado por direito hereditário. O marxismo começou a morrer no dia em que um de seus maiores aplicados clérigos, o lúcido e inteligente Achille Occhetto, Secretário Geral do Partido Comunista italiano proclamou: “Il comunismo è finito.” Aí veio o terremoto de Berlim, e um dos mais eminente cardeais da ideologia da Europa, convidado a falar sobre aqueda do muro, respondeu: “Houve um terremoto, e eu não discuto com um terremoto.” No Brasil, quase todos os membros do atual governo pagaram seu pedágio ao marxismo. Hoje, seria uma injúria ou uma desinformação supor que algum deles seja ainda marxista. Restam alguns cavalheiros na mediocridade do mundo acadêmico ou dos supostos profissionais da cultura, que encontraram no marxismo um pé-de-cabra para seus supostos êxitos literatura, conseguidos à custa dos patrulhamentos vergonhosos e imorais, institucionalizados por um funcionário de Stalin, o medíocre escritor Ilia Ehrenburg, como documenta o grave terrível livro de Lottman, La Rive Gauche. Mas, de certo modo o destino do marxismo chega ao fim, com a morte das ideologias, que vão parar todas na lata de lixo da história. Isto não significa que devamos satanizar o marxismo e os marxistas. Eles cumpriram uma importante missão histórica: acelerar o respeito aos direitos dos trabalhadores na selva selvagem do capitalismo desumano. Veja homens como o Oscar Niemeyer: ele é o último dos moicanos do comunismo, e é um santo por sua profissão de fé de amor ao ser humano.

Por que a inteligentzia que compunha os movimentos de vanguarda no início do século 20 (como Ezra Pound e T.S Eliot) comprou idéias fascistas?

Não sei se a inteligentzia comprou idéias fascistas. Mas os exemplos de Ezra Pound não são únicos. Na literatura inglesa, além de Chesterton, que foi militante uniformizado do Partido Fascista de Sir Oswald Mosley, como tantos outros intelectuais, basta lembrar que D. H. Lawrence, o mais importante romancista inglês de seu tempo, assinou manifestos favoráveis a Mussolini, como o próprio James Joyce, que saudou o Duce italiano como uma esperança jovem para o mundo. Quase todos os membros do círculo que girou em torno de Pound, os chamado “Pound’s artists” acompanhavam as idéias políticas do poeta. As patrulhas de esquerda escondem esses fatos, temerosas do peso desses nomes na opinião cultural. Mas todo o mundo sabe disso. Em Portugal, praticamente toda a inteligentzia lusíada aplaudia Salazar e participava de seu governo. O poeta Fernando Pessoa é signatário de vários manifestos e moções de louvor e apoio a Salazar. Na Alemanha, além de Heidegger, passaram pelo nazismo figuras como o cientista Max Planck, criador da teoria dos “quanta”, sem a qual não teria existido Einstein, a Heisenberg, criador da teoria mais avançada da física de nosso tempo, a teoria da indeterminabilidade, que ampliou os horizontes einsteinianos.O dramaturgo Gerhard Hauptmann foi filiado ao Partido Nazista, como Prêmio Nobel de literatura norueguês Knut Hamsum e o pintor Paul Klee saudou o advento de Hitler. Na Itália, o próprio Alcide de Gasperi, ao chefiar o primeiro governo do país depois de Mussolini, recusou-se a promover julgamentos contra os fascistas, para não Ter de meter na cadeia toda a inteligentzia italiana. O poeta D’Annunzio recebeu o título nobiliárquico de Príncipe das mãos de Mussolini, por sua luta armada e por suas odes em favor do fascismo. O mesmo Mussolini nomeou Senadores romanos pelo Partido Fascista o teatrólogo Pirandello e o poeta Marinetti, criador do futurismo e cabeça de todo o vanguardismo literário e artístico da Europa.O então jovem poeta Ungaretti pediu a Mussolini para fazer o prefácio de seu primeiro livro de poemas. E por aí afora, sem esquecer que o próprio Benetto Croce, pai do liberalismo deste século e pai da moderna crítica literária e do pensamento estético moderno, antes de recolher-se ao ostracismo em seu “palazzo” napolitano, em silencioso e digno protesto contra o regime, votara a favor da investidura de Mussolini como Primeiro-Ministro, depois da famosa Marcha sobre Roma. Quando se sabe que até o divino poeta Rainer Maria Rilke, tão alheio aos problemas temporais, saudou com entusiasmo a chegada de Hitler, não é difícil imaginar o que aconteceu no resto da Europa. As relações do psicanalista Jung com o ditador alemão foram as mais explícitas. Hitler o fez presidente da Sociedade Alemã de Psicanálise, e teve nele seu mestre e seu guru: a escolha da cruz suástica como símbolo do nazismo foi uma indicação pessoal de Jung. E além de pai da suástica, Jung foi o inventor da pureza da raça ariana e da exclusão dos judeus da Europa, teses que se tornaram marca registrada do nazismo.Na França, basta lembrar os livros reeditados no ano passado, do escritor israelense Zeev Sterbnell (Gallimard, quase 700 páginas), A Direita Revolucionária e As origens francesas do fascismo. Seria interminável a lista dos escritores franceses oriundos do fascismo, como o próprio Bernanos e toda a legião de impressão de que Charles Maurras fez a cabeça dos franceses militantes e simpatizantes da “Action Française”. Tem-se a impressão de que Charles Maurras fez a cabeça dos franceses representativos, nas letras, nas artes e na política, incluindo o General De Gaulle, Pompidou, o socialista Mitterand e assim por diante. A França madrugou para o fascismo e o anti-semitismo com o “affaire Dreyfus”. Assim, não é por acaso que o mais consagrado – talvez o maior – poeta francês do século, Paul Claudel, tenha escrito uma ode retumbante ao General Franco quando o fascismo despontou na Espanha. E ainda recentemente, em minucioso levantamento divulgado pelo jornal de esquerda Le Monde, a melhor crítica literária do país, ao relacionar os grandes escritores do século no país, chegava à conclusão de que todos eram de direita. E concluía: “Hélas! Ils sont à droite”. Num cotejo entre Aragon e Céline, isto é, entre o poeta símbolo da literatura de esquerda e o romancista condenado como nazista, não era possível hesitar na escolha. O nome a ficar para a posteridade era Céline. E ponha cotejos semelhantes nisto! Basta lembrar o caso da fama pirotécnica de Sartre, cuja obra filosófica está condenada a um julgamento irremissível: é apenas um pastiche, uma contratação medíocre da obra de seu antigo mestre Martin Heidegger, “ad usum Delphini”. No caso, “ad usum” das militâncias de esquerda nas ruas e nas medíocres academias do Terceiro Mundo.

Esse exemplo foi seguido no Brasil com o Estado Novo?

No Brasil, até por ser impostura e uma contrafação do fascismo, o Estado novo não aliciou entusiasmos maiores no universo artístico cultural. A eventual presença de artistas e escritores em órgãos do governos não chega a comprometer ideologicamente ninguém. Ninguém vai acusar Carlos Drummond ou Clarice Lispector de serem partidários da ditadura só pelo fato de haver o poeta servido no gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema – um grande ministro, de resto – ou a romancista por haver tido um emprego no DIP, a agência de propaganda do Goebbels tupiniquim do Estado Novo. Mesmo intelectuais e artistas que foram colaboradores de projetos do governo da ditadura, como Cassiano Ricardo, o citado Gustavo Capanema, o maestro Villa-Lobos, o pintor Portinari e o arquiteto Oscar Niemeyer, estão todos eles acima de qualquer suspeita. Aqui, os compromissos com o fascínio da direita devem ser catalogados entre os militantes e simpatizantes do integralismo, entre os quais não fujo de incluir meu próprio nome, certamente o menos importante entre tantos outros, como Luiz da Câmara Cascudo, Miguel Reale, Gustavo Barroso, Gofredo Silva Teles, Almeida Sales, Ernani da Silva Bruno, Rolan Corbisier, Antônio Galloti, Américo Jacobina Lacombe, Adonias Filho Guerreiro Ramos, os poetas Olegário Mariano, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Tasso da Silveira e Francisco Karam – doce poeta hoje tão esquecido – e toda uma legião de pensadores, professores, artistas plásticos, músicos, acadêmicos, e o próprio Tristão de Athayde, por cuja mão cheguei à filiação integralista. Isto, sem falar nos que passaram apenas por alguma tempo pelo integralismo como o crítico Álvaro Lins e o romancista José Lins do Rego. Mas o integralismo brasileiro era uma direita à moda da casa e não pode ser confundido com o nazismo. Sua satanização pelas esquerdas incompetentes é uma falta de informação. Por exemplo: o integralismo estava cheio de militantes judeus ortodoxos. Meu primeiro chefe imediato, o Diretor do Departamento Universitário a que fui filiado, era o brilhante judeu Aben-Attar Neto, fundador do Centro Osvaldo Spengler, que passou de Chefe do Departamento Universitário a Secretário Provincial de Propaganda do Integralismo no Rio de Janeiro. Mas isso é outra história.

O poeta é um santo?

O poeta é um santo, um santo mártir, no sentido etimológico da palavra, que quer dizer testemunha. Mas o poeta é também um endemoniado. As duas coisas, para lá de todas as medidas. Gide e meu saudoso amigo, o romancista Lúcio Cardoso, achavam que o demônio é a mais permanente fonte de inspiração.

Durante sua trajetória, o senhor nunca se filiou a nenhuma corrente estilística, nem ideológica. O senhor não concebe a produção artística engajada como um suporte para para ideologias?

A ideologia é a negação da fecundidade e da liberdade do espírito. O sujeito que se escraviza a uma ideologia não tem idéias. Tem uma idéia só. Às vezes, fascinado por um sonho generoso, o homem se encerra no círculo de ferro, estéril e sem saída, de uma ideologia. O século 20 conheceu essa indigência e essa impostura, com a endemia do marxismo. Parece que hoje não há mais marxistas nos círculos respeitáveis do pensamento em nenhum país culturalmente aparelhado. O marxismo, que se tornou uma redução política na União Soviética e seus satélites do Leste, já não existe mais a não ser na pobre ilha desolada de Fidel Castro – onde sobreviverá, se sobreviver, até o dia em que o idoso “comandante” venha a morrer – e na indigente e agoniada Coréia do Norte, até o dia em que se recolham a um manicômio o ditador “minus habens” ali entronizado por direito hereditário. O marxismo começou a morrer no dia em que um de seus mais aplicados clérigos, o lúcido e inteligente Achille Occhetto, secretário-geral do Partido Comunista italiano, proclamou: “Il comunismo è finito”. Aí veio o terremoto de Berlim, e um dos mais eminente cardeais da ideologia na Europa, convidado a falar sobre aqueda do muro, respondeu: “Houve um terremoto, e eu não discuto com um terremoto”. No Brasil, quase todos os membros do atual governo pagaram seu pedágio ao marxismo. Hoje, seria uma injúria ou uma desinformação supor que algum deles seja ainda marxista. De certo modo o destino do marxismo chega ao fim, com a morte das ideologias, que vão parar todas na lata de lixo da história. Isto não significa que devamos satanizar o marxismo e os marxistas. Eles cumpriram uma importante missão histórica: acelerar o respeito aos direitos dos trabalhadores na selva selvagem do capitalismo desumano. Veja homens como o Oscar Niemeyer: ele é o último dos moicanos do comunismo, e é um santo por sua profissão-de-fé de amor ao ser humano.

Qual a finalidade da literatura?

A finalidade da literatura é a verdade. Mais claramente: é a beleza da verdade. O escultor Brancuse pergunto um dia a Pound o que ele buscava em seu trabalho. O poeta respondeu: a beleza. Brancuse, que era oficial do mesmo ofício comentou: “Beauty is difficult”. Por isso, Lautréamont advertia: “A missão da poesia é difícil. Ela não se mete nos acontecimentos da política, na maneira pela qual se governa um povo, não faz sequer alusão aos períodos históricos, aos golpes de Estado, aos regicídios, às intrigas da corte. Não trata nem mesmo das lutas que excepcionalmente o homem trava consigo próprio, com suas paixões. O que ela faz é descobrir as leis que dão corpo e vida à política teórica, à paz universal, às refutações de Maquiavel, aos corneteiros da obra de Proudhon, à psicologia da humanidade”. Por isso mesmo, Novalis lembrava as origens apolíneas da poesia nos oráculos de Delfos. Ela junta as palavras e os sons que compõem a magia de sua mensagem logicamente incompreensível, claros enigmas que se dão ao conhecer na zona incontaminada do conhecimento intuitivo. Do conhecimento mágico. A Sibila Délfica, ao proferir certa vez um oráculo a um capitão de Atenas, foi por ele solicitada a interpretá-lo. Respondeu: “Apolo não ensina. Apolo revela.” Assim, a poesia. Ela não ensina. Ela apenas revela, e isto é tudo. Enganam se os poetas que querem ensinar. Como o nosso bom e sofrido João Cabral, que escrevia seus breves versos didáticos como se estivesse sempre ensinando, pedagogicamente. Ele mesmo sabia que não era um poeta e preferia ser chamado de “escritor de poesia”. Escritor, sim, de poesia não. Seus textos devem ser didáticos, mas nunca poéticos. Proferem instruções, ordens do dia, mas não revelações. O mesmo equívoco ocorre com todos os outros supostos poetas engajados.

Tido por muitos como adepto das esquerdas, o senhor recebia pressões por parte da intelligentzia de esquerda para tingir sua obra com um caráter político imediato?

Nas duas ditaduras deste país, a do Estado Novo e a do regime militar de 64, fui perseguido, preso, torturado (em 67 quase até a morte), primeiro como fascista, depois como comunista. Estou vivo por milagre. O oportunismo revolucionário, à esquerda e à direita, forçou a catagolação de quem lhe convinha, neste ou naquele esquema. Haja vista o escritor Otto Maria Carpeaux, até filiado ao fascismo austríaco, que foi confiscado pela esquerda apenas porque lutou aqui contra a ditadura militar. Todos nos querem enquadrar.

O crítico literário Wilson Martins afirma que a literatura brasileira é irrelevante para os outros países. O senhor concorda com ele?

O sr. Wilson Martins, que exerce a missão de crítico com independência, dignidade e uma lucidez rara entre nós para os de seu ofício, sabe o que diz.

Nós ainda padecemos do mal da especialização, da ditadura da certeza e dos bárbaros da individualidade que marcaram nossa história?

A especialização é uma das pragas de nosso tempo cultural. Cito sempre Ortega: o especialista é o sujeito que sabe cada vez sobre cada vez menos.

O senhor considera o esquema proposto por Decartes falido? É preciso acreditar mais na essência do homem? O ser e a razão são irreconciliáveis? O senhor acredita que estamos retomando gradualmente a espiritualidade? Ela é legítima?

Seria preciso um tratado inteiro para responder a esta pergunta. O racionalismo cartesiano não é tão excludente como pensam alguns. O próprio Descartes conta que formulou seu famoso teorema depois de uma revelação que lhe chegara num sonho. Quer dizer: o sonho e a razão, a fé e o raciocínio têm um ponto de encontro no âmago do ser.

O fenômeno da globalização impõe a homogeneização cultural?

A resposta também teria que ser longa. Depois que Paul Valéry nos advertiu que as civilizações morrem, muita gente passou a confundir civilizações com cultura. As culturas não morrem. E quando morrem, é para nascer de novo. O bem-sucedido pragmatismo norte-americano confunde as coisas no simplismo de sua filosofia do êxito. Nas universidades americanas Sócrates e Platão são acusados de fascistas, e os ingênuos professores das Harvards da vida proclamam que estes filósofos estão superados. Não é assim: um automóvel Ford 1930 pode estar superado pelo Ford 1980. Mas o pensamento essencial de um filósofo de 1500 anos atrás não é superado com a facilidade com que se supera um artefato mecânico. Homero ou Dante não podem ser superados. Situam-se num campo em que não existe esse negócio de superação.

Nesse sentido, existiria uma cultura brasileira?

Mesmo quando seja nos seus balbucios, é claro que há uma cultura brasileira. Refiro-me à cultura do saber, como a definiu Max Scheler, e que não tem nada a ver com os conceitos sociológicos e antropológicos de cultura que estão na moda. A cultura brasileira há de ser um quinhão valioso no formal de partilha da cultura ocidental.

Como o senhor enxerga a crise por que passa a Universidade pública? Estamos realmente vivendo um período de crise ou é o conceito de universidade que está deteriorado? Existe alguma saída viável?

Creio que a Universidade no mundo inteiro, salvo raríssimas exceções, está em crise. Melhor: não é a Universidade que está em crise, com a depravação pós-iluminista do conceito de saber.

Como o senhor assistiu às comemorações dos 500 anos de Descobrimento? Mais uma vez a festa – elemento que caracteriza o país – foi imposta de cima para baixo e os representantes legítimos foram alijados?

Convidado certa vez para as comemorações do segundo centenário de Goethe, Ortega y Gasset excusou-se dizendo – “no estoy para commemoraciones.” Eu também, não estou para comemorações, sobretudo quando dirigidas por comandos institucionais.

De sua experiência como correspondente no Oriente, notadamente na China, como o senhor vê a recepção dos países a valores ocidentais, depois da abertura econômica?

Não sei. A China é difícil. Não creio que um povo tribalmente homogêneo, com 5 mil anos de história escrita, possa um dia perder sua identidade. Aquele perigo de ianquização da Europa, denunciado por Ortega y Gasset, não existe na China nem no Japão. Talvez acabe um dia ocorrendo o inverso, como se diz dos gregos: acabaram sempre colonizando seus colonizadores.

No fim da década de 70, o senhor afirmou que naquele momento era necessário “maquiavelizar” o Brasil, seguindo uma orientação de Octavio de Faria. Isso ainda se faz necessário hoje em dia? Como Nicolau pode ajudar nosso governo?

Em seu admirável livro quase adolescente, Maquiavel e o Brasil, escrito aos 22 anos, Octavio de Faria abriu uma picada para a organização do poder político neste país. O Chico Campos, seu mestre e sobretudo seu discípulo em algumas coisas, tentou encontrar aquele momento maquiavélico, também lembrado por Popper, depois de Octavio, para repetir a experiência florentina de fundação de uma civilização política. Mas o ditador de que Chico Campos dispunha não estava à altura. O general Castelo Branco, também influenciado por Campos e pelo romancista Adonias Filho, antigo integralista e discípulo de Octavio, pensou em ser o protagonista desse momento maquiavélico. Também não esteve à altura, até porque Machiavel não propunha ditadores. Propunha estadistas. Neste momento, embora oriunda das esquerdas e dos equívocos marxistas, parece que o presidente Fernando Henrique está, de certo modo, atento aos semáforos do momento maquiavélico. O tempo pode ser propício. Mas o espaço político em que está condenado a operar é precário e inepto. Pode até haver uma vocação de Lorenzo di Medicis na solidão do Planalto. Mas não há aquela graça do Ponte Vecchio sobre o rio, por onde cruzava diariamente para seu despacho na mesa de carvalho do Palazzo della Signoria o amanuense Niccolo Machiavello. No chão de figueiras estéreis do estéril burgo podre de Brasília jamais poderão medrar o espírito e o cérebro do florentino que sonhou o perfil do Príncipe para sua admirável república.

Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=82&Artigo_ID=847&IDCategoria=1016&reftype=2

dezembro 12, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Pensar o mundo

 

 

É fácil vermos os cientistas como seres estranhos, imersos em teorias inexplicáveis e alheios a todo problema mundano que cerca os mortais comuns. É conhecida a história onde Albert Einstein, caminhando pelo campus da universidade onde dava aulas, perguntou aos seus alunos de onde ele vinha. Atônitos, responderam que vinha da direção do refeitório. A resposta do gênio foi: “bom, então isso significa que eu já almocei. Posso ir trabalhar”. Verdadeira ou não, a história confirma o clichê.

Não é este o caso de José Goldemberg. É um dos maiores físicos brasileiros e sua contribuição para a física nuclear é reconhecidamente importante, sendo que seus estudos na área de energia inspiraram o uso do etanol pelo governo brasileiro como alternativa de combustível renovável. Além disso, e talvez mesmo por isso, Goldemberg é também um defensor ferrenho da preservação do meio Ambiente – tendo ocupado inclusive a pasta do setor no governo federal – um mestre preocupado com os rumos da educação no país e um cidadão brasileiro que busca alternativas para tornar o futuro do país um pouco melhor. Este O Mundo e o homem (Editora Perspectiva, 240 páginas) revela este lado de Goldemberg através de artigos escritos para a grande imprensa brasileira sobre temas candentes e pertinentes à sua especialidade. Uma obra de um cientista dedicado a pensar o mundo em que vive, preocupado em fazer o leitor pensar – e assim, transformar, a todos nós, em seus alunos.

 

 

 

Onde encontrar:

 

http://www.perspectiva.com.br

 

(11) 3885.8388

 

dezembro 10, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O Indiana Jones brasileiro

 

 

A busca pelo Eldorado e seus assemelhados tem sido, desde o século XVI, um sonho acalentado por muitos aventureiros do Velho Mundo. Um deles – e, talvez, o último deles – foi Percy Harrison Fawcett, coronel britânico que desapareceu em 1925 na Floresta Amazônica na busca de uma cidade perdida. A falta de notícias sobre Fawcett gerou uma série de especulações a seu respeito, transformando-o inclusive em matéria para o cinema: veio de sua história a inspiração para a saga de Indiana Jones.

Fawcett, de André Diniz Fernandes e Flávio Colin (Editora Devir, 40 páginas) é a adaptação da história do explorador britânico para os quadrinhos. O roteirista André Diniz Fernanes, porém, permite-se ter algumas liberdades criadoras, como narrar uma viagem de projeção astral de Fawcett durante o cativeiro entre os índios, onde ele toma contato com a cidade perdida que tanto procura. Trata-se de uma boa história, onde se sobressai o traço de Flávio Colin, um dos maiores desenhistas brasileiros, falecido em 2002. Aliás, Fawcett é um dos pontos altos de sua carreira: por ele, ganhou o prêmio Ângelo Agostini de melhor desenhista, em 2000. Um importante relançamento da Devir, uma das melhores editoras de quadrinhos do país.

 

Onde encontrar:

 

www.devir.com.br

(11) 21278787

dezembro 3, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Dos sonhos e seus efeitos colaterais

 

 

Quem abre Dos sonhos e seus efeitos colaterais (Editora Mais Que Nada, 184 páginas) e pergunta por que um rapaz como Felipe Longhi Malheiros, nascido em boa família de classe média de Canoas, recém formado em Direito e com boas perspectivas profissionais resolve meter-se num avião e ir para a Nova Zelândia jogar futebol – sim, ir para a Nova Zelândia jogar futebol – deve deixá-lo de lado logo nas primeiras páginas. Provavelmente não será livro para ele. Pior: é capaz até de deixá-lo irritado.

Para os demais, a história da trajetória errática deste nosso conterrâneo no outro lado do mundo- em muitos aspectos semelhante à de milhares de jovens brasileiros que, todos os anos, tentam a sorte no exterior – constitui uma leitura interessante e reflexiva sobre a perda súbita de referenciais e o aprendizado daí advindo para aqueles capazes de aproveitar estas experiências. Longe de casa, dos amigos, do mundo que conhecia, caracterização perfeita de um stranger in a strange land, Felipe enfrentou a hostilidade dos locais, as diferenças culturais, a dificuldade de adaptação, mas também encontrou amizade, hospitalidade e, principalmente, crescimento pessoal. O sucesso ou fracasso de sua carreira relâmpago como jogador é um assunto menor diante disto tudo. O sonho de Felipe, em si, não foi tão importante. O que importa na história mesmo são os efeitos colaterais – e estes podem significar muito mais do que uma carreira vitoriosa.

 

 

Sessão de Autógrafos  na Feira do Livro de Niterói ( Praça Dona Mocinha), na Sessão Coletiva dos Escritores Canoenses, sábado, 04/12, às 15h.

 

dezembro 3, 2010 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Eficiência estatal

A Livraria do Senado Federal é um dos melhores exemplos de eficiência estatal em um país onde o Estado é notoriamente ineficiente. Ali encontramos, por exemplo, os clássicos da nacionalidade a preços baixos (a maioria entre 10 e 30 reais), em boas edições e sem cobrança de taxa de envio para qualquer canto do país. Ali encontramos, também, um Capistrano de Abreu, um Vamireh Chacon, um Sílvio Romero, um Meira Penna, um Afonso Arinos de Mello Franco, um Francisco Adolfo Varnhagen e muitos outros que, não fosse pela Livraria, seriam encontrados apenas nos cantos das prateleiras dos sebos, em edições antiquíssimas, raríssimas e caríssimas. Ali encontramos, ainda, ensaios de Euclides da Cunha sobre a Amazônia, textos de Padre Vieira, a Consolidação das Leis Civis de Teixeira de Freitas, obras do filósofo Farias Brito e muitas, muitas outras. A lista é enorme. Apontar tudo o que ali encontramos de bom ocuparia todo o espaço deste artigo.

Nada do que há ali é, contudo, marca tão significativa de bom serviço prestado quanto a  História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. Finalmente disponível após décadas sem reedições, em quatro volumes muito bem encadernados e custando razoáveis 200 reais, a obra dispensa maiores apresentações: há críticos, como Mauro Gama, que a consideram a melhor história da literatura já escrita, em qualquer país e em qualquer tempo. Austríaco de nascimento, formado entre o melhor da intelectualidade européia de seu tempo, Carpeaux bebeu na tradição historicista alemã – Dilthey, Simmel, Weber e muitos outros -, que ajudou a introduzir no Brasil, e deixou sua obra magna a nós, brasileiros, como recompensa pelo acolhimento que lhe demos durante a Segunda Guerra Mundial. Tão belo e valioso foi o presente dado por Carpeaux que dificilmente o Brasil poderá agradecer-lhe à altura. Um bom começo é levá-lo a todos os brasileiros. E este primeiro passo a Livraria do Senado está dando.

Se levarmos em conta a natureza e os propósitos que pretende atingir, talvez a Livraria do Senado seja o órgão do Estado que melhor funcione. Claro que não se precisa de muito para merecer tal título – alguém dirá que basta o tal órgão simplesmente funcionar – mas o destaque da Livraria não se explica apenas pela fraca concorrência. Ela funciona realmente bem. E “bem”  não a partir desta ou daquela preferência ideológica, desta ou daquela ótica, mas daquela que deve prevalecer quando falamos das funções do Estado: a de todos nós, cidadãos.

novembro 22, 2010 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Uma obra essencial

Os intelectuais na Idade Média (Editora Record) é uma pequena parte da imensa obra do historiador francês Jacques Le Goff. São apenas 252 páginas de um livrinho publicado quando o autor – considerado por muitos o maior medievalista vivo – era apenas um jovem professor de pouco mais de trinta anos. É, em outras palavras, uma obra de juventude. E obras de juventude serão, muitas vezes, objeto de releitura e reescrita, como foi Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque, ou Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, para ficarmos em dois exemplos ilustres. Não foi o caso de Intelectuais na Idade Média. É uma obra pequenina em tamanho, escrita por jovem pesquisador, espremida entre gigantes como História e Memória e A Civilização do Ocidente Medieval – e, mesmo assim, definitiva.

Os motivos pelos quais o mestre Le Goff não alterou o texto de sua obra estão expostos no prefácio. Não incluiu, porém, aquele que é, provavelmente, o mais importante, embora um autor não possa, ao menos publicamente, dizer isso de seu próprio livro: se melhorar, estraga. Intelectuais da Idade Média é, apesar do tema amplíssimo que aborda em poucas páginas e das cinco décadas que nos separam de sua primeira edição, uma obra completa e modelar. Relacionando o surgimento do intelectual medieval à ascensão das cidades, onde as primeiras universidades se instalam, Le Goff nos apresenta um tipo que, ao contrário do que normalmente se imagina quando o assunto é Idade Média,  é um homem público, que fala para o público e preocupa-se não apenas com as alturas da metafísica, mas também com os temas do momento e das massas. Uma obra essencial para qualquer interessado em Idade Média.

 

Onde encontrar:

 

www.record.com.br

(21) 2585 2000

 

 

 

novembro 18, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

A vida intelectual

 

 

Publicado pela primeira vez em 1921, A Vida Intelectual, de A. D. Sertillanges é uma das mais célebres obras de introdução aos estudos superiores já escritas. Sucesso nos EUA e na Europa, o livro (no original francês) teve boa circulação nos meios católicos brasileiros décadas atrás e ainda pode ser encontrado em antigas bibliotecas. Felizmente, graças à iniciativa pioneira da É Realizações – que ,quase na surdina, vem brindando o leitor brasileiro com clássicos da alta cultura – esta bela obra ganha agora uma tradução brasileira.

A base para o estudo de A.D. Sertillanges é a carta “Dezesseis preceitos para adquirir o Tesouro da Ciência”, de Santo Tomás de Aquino. Às lições do Aquinate o padre Sertillanges agrega a sua força verbal,  formada na velha escola da retórica eclesiástica (a mesma que nos deu um Padre Vieira, para ficarmos num exemplo próximo) que nada perdeu na feliz tradução de Lilia Ledon da Silva para o nosso idioma. Em lições relativamente curtas e muito claras e diretas, o padre explica ao jovem iniciante as técnicas de leitura, estudo e organização da vida de um postulante a intelectual. Que ninguém, no entanto, se engane com o padre Sertillanges : A Vida Intelectual não conclama ninguém a abandonar a agitação do mundo e a refugiar-se no claustro. Trata-se de um livro para o homem de ação, para o estudante atolado de trabalhos e premido pelas provas, para o profissional atarefado, para quem luta pela vida e enfrenta tempo e condições adversas. É um organizador mental para homens desorganizados e um guia intelectual para um mundo cada vez mais carente de guias e intelectuais. Um mundo onde eles – guias e intelectuais – são cada vez mais necessários.

 

Onde encontrar:

 

www.erealizacoes.com.br

 

 

novembro 18, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Borges em 1980

“La vida del escritor es una vida solitária. Uno cree estar solo, y al cabo de los años, si los astros son propicios, uno descubre que esta en centro de un vasto circulo de amigos invisibles, de amigos que nunca conocera  fisicamente, pero que lo quieren a uno y eso una recompensa mas que suficiente”

novembro 17, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Chico Buarque e o Prêmio Jabuti

O compositor Chico Buarque anda rindo à toa. O Ministério da Cultura autorizou a captação de 1,5 milhão de reais para a realização de uma temporada de Leite Derramado, peça inspirada em seu último livro.

Fonte da foto

Chico vive um bom momento em relação também a patrocínios oficiais. Vejam aqui.

Além disso, como se sabe, sua candidata a Presidente da República venceu as eleições.

O momento é tão bom para Chico Buarque que seu livro Leite Derramado, classificado em segundo lugar na categoria para a qual fora inscrito para o 52 º Prêmio Jabuti , de forma surpreendente foi escolhido como o melhor livro do ano. Entendendo: o livro que foi considerado o segundo melhor na categoria romance foi considerado depois o melhor entre todos. A Editora Record, responsável pela edição de Se eu fechar os olhos, de Edney Silvestre, que conquistou o primeiro lugar na categoria romance, protestou com os que qualificou de “critérios políticos” na premiação através de uma carta dirigida à Câmara Brasileira do Livro e à Comissão do Prêmia Jabuti

Realmente é difícil entender como o segundo lugar de uma categoria vira o primeiro na premiação geral.   Na Internet circula um manifesto exigindo que o autor/compositor devolva o prêmio.

Como dizia uma velha senhora que eu conheci tempos atrás: ‘Que coisa!”

 

novembro 13, 2010 Posted by | Literatura, Livros | 2 Comentários

Lovecraft

 

No dia 20 de agosto deste ano o escritor americano H.P. Lovecraft estaria completando 120 anos de idade. Em vida, levou uma carreira obscura de escritor de revistas “pulp”, publicações dedicadas a contos baratos de horror e mistério. Apesar de, desde cedo, destacar-se de seus pares, Lovecraft não granjeou fama fora de pequenos círculos de fãs de horror que liam estas revistas. Morreu em 1937, desconhecido e sem dinheiro.

A fama não viria imediatamente após a morte. Por mais alguns anos, Lovecraft não passaria de um nome conhecido apenas por especialistas mais aprofundados no gênero. A rigor, só mesmo a partir dos anos 60 sua obra passou a ser lida por um maior número de leitores, alcançando o devido reconhecimento crítico somente mais tarde.

Esta seleta de contos da Hedra Editora (136 páginas, tradução de Guilherme da Silva Braga) vem ajudar a suprir a pequena oferta da obra de Lovecraft disponível no Brasil. O livro traz sete contos, dentre os quais destaca-se o próprio “Chamado de Chtulhu”, uma das melhores e mais conhecidas histórias de Lovecraft, já adaptada para o cinema e para os quadrinhos. O livro ainda conta com um belo ensaio introdutório do tradutor sobre a vida e a obra de Lovecraft.

 

novembro 3, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

A Sombra de Innsmouth

 

 

A Sombra de Innsmouth é o único livro que Lovecraft publicou em vida. Lançado por uma pequena editora em 1931, custava a bagatela de US$ 2,50 e trazia tantos erros que o escritor chegou a afirmar que “qualquer um disposto a pagar essa quantia por uma mixórdia dessas impressa de qualquer jeito só pode ser um otário”.

O público pareceu concordar: das 400 cópias planejadas para serem impressas, apenas metade chegou a ser encadernada e o restante acabou sendo destruído. Cinco anos depois, o escritor viria a falecer, sem conhecer nada sequer parecido com sucesso comercial ou de crítica. Não que isso lhe importasse muito. Lovecraft não se guiava pela expectativa do público e nem mesmo da crítica especializada, buscando, em vez disso, seus próprios critérios de composição. A história comprovou que, de certa forma, tinha razão: tornou-se objeto de culto e considerado por muitos como o maior autor de horror do século XX.

A Sombra de Innsmouth se num vilarejo portuário chamado Innsmouth, um lugar com péssima fama e freqüentado apenas por quem tem a obrigação de para lá se dirigir. Um jovem tem esta obrigação e ali passa a noite, onde toma contato com as mais terríveis surpresas que, como é comum às terríveis surpresas que aparecem nas obras de Lovecraft, ameaçam a existência humana sobre a terra. O volume ainda traz uma carta do autor onde discorre sobre seu processo de criação e narração de histórias.

 

Onde encontrar:

 

www.hedra.com.br

(11) 3097 8304

 

novembro 3, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

“Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita – MENTIRA!”

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

* Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakósvki.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz:

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas no tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares,

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.

Por temor, aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

outubro 29, 2010 Posted by | Literatura | 2 Comentários

O profeta da vontade

 

 

No colégio, aprendemos a entender o romantismo como a escola literária que atacou os preceitos racionais do classicismo e defendeu um retorno às paixões e ao sentimento. Daí decorrem algumas generalizações, como as que vêm no artista romântico um lunático exagerado ou um  anacoreta desinteressado dos temas deste mundo. O quando há de verdade nisto tudo pode ser medido pela definição pelo crítico Michael Lowy: “o romantismo foi a revolta da subjetividade e da afetividade reprimidas, canalizadas e deformadas”. É a arte da expressão de livre, da força sem freios, do revolucionário e da liberdade do homem. É a arte de William Blake (1757-1827), profeta de um novo tempo.

 

O profeta William Blake tem, como bom profeta, um livro para chamar de Livro, com “L” maiúsculo: “O casamento do céu e do Inferno” (Hedra Editora, 96 páginas, tradução de Ivo Barroso). Em sua Revelação, Blake atribui igual importância ao Bem e ao Mal como pólos opostos e complementares da existência humana. Enquanto o Bem, segundo Blake, obedece à Razão,  o Mal obedece à Energia. Um limita o outro, ou melhor, o aprisiona, erguendo uma muralha que impede, segundo ele, o homem de ver a si mesmo. Destruir essa muralha, para ele, realizar-se plenamente como homem. Independente das convicções que temos, é melhor deixa-las de lado – assim como quando lemos O Paraíso Perdido, A Divina Comédia e outros poemas de inspiração cristã – e saber perceber a riqueza do texto. É aí, quando O casamento do céu e do Inferno deixa de ser revelação para tornar-se poesia, que o verdadeiro lugar de Blake se estabelece: o mais alto que há.

 

Onde encontrar:

 

www.hedra.com.br

(11) 3097 8304

 

 

 

outubro 15, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O sonho latino-americano

 

“Fazer a América”: uma expressão que marcou a trajetória dos imigrantes europeus durante todo o século XIX e metade do XX. O nome “América” não designava apenas a América do Norte, como hoje, mas todo um continente praticamente virgem, com tudo por fazer, onde havia trabalho, fartura e, sobretudo, liberdade. Os EUA foram e são o maior pólo de atração de imigrantes do mundo: mais de 40 milhões de pessoas se deslocaram até lá desde o século retrasado. No lado de baixo do Equador, porém, também havia promessas semelhantes: Brasil e Argentina foram os maiores receptores, mas também o Chile, México, Venezuela e Uruguai abriram suas portas para os miseráveis do mundo aportarem em suas terras. Esta trajetória está presente em Fazer a América (Editora da USP, 584 páginas).

 

Coordenada pelo conhecido historiador Boris Fausto, a publicação conta a presença de estudiosos das maiores universidades brasileiras e latino-americanas. Predominam brasileiros e argentinos, como seria natural, mas o peso distribui-se por todo o continente, do Chile ao México, intercalando temas comuns como o dos italianos em Buenos Aires e São Paulo, e capítulos sobre comunidades menores, como a de galegos no Brasil e franceses na Argentina. A presença desses povos, assim como a de muitos outros, são parte importante da complicada identidade dos países latino-americanos, quebra-cabeça que Fazer a América tenta ajudar a montar.

 

Onde encontrar:

 

www.edusp.com.br

 

 

outubro 15, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

120 anos de Astrojildo Pereira

 

Quando Machado de Assis jazia moribundo no que viria a ser seu leito de morte no bairro do Cosme Velho, em 1908, um menino de 18 anos assistia ao evento com um misto de consternação e tristeza. Nascido nos bairros periféricos da então capital federal, como Machado, o jovem era dado à literatura, à observação arguta da sociedade, ao estudo dos caracteres sociais que vemos todos os dias. Chegando ao local, o menino aproximou-se e, num gesto que provocou impressão dos presentes – políticos, jornalistas, escritores – beijo-lhe a mão. O caminho dos dois fora, entretanto, bem diferente. As pretensões literárias do jovem carioca, inspiradas pelo mestre Machado, em breve cessariam. Permaneceria, entretanto, a preocupação social e o gosto pela literatura,ainda que plasmadas em novos contornos.

Astrojildo Pereira para sempre lembraria daquele momento diante de Machado de Assis. E não só ele. Euclides da Cunha, um dos vários imortais ali presentes, fez questão de mencionar o momento em um artigo intitulado “A última visita”, publicado no Jornal do Commercio da época: ” Naquele meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra”, escreveu Euclides da Cunha. E fez uma previsão: “Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida”.

Hoje, quando a criança nascida a 8 de outubro de 1890 completaria 120 anos, torna-se difícil dizer se a previsão do autor de “Os Sertões” mostrou-se acertada. Como dissemos, Astrojildo Pereira e Machado de Assis seguiram caminhos muito diversos e qualquer comparação torna-se complicada. O fato é que Machado sempre serviu como norte para a carreira de Astrojildo como crítico literário: dedicou vários ensaios ao escritor, que muito serviram para a criação de uma linha de pesquisa sociológica da obra machadiana, como a de Raymundo Faoro e de Roberto Schwarz. Astrojildo inteligentemente rebate a idéia, presente então – e ainda hoje – em muitos setores da esquerda menos iluminada, de que Machado de Assis era alheio ao debate político nacional de sua época. Além de sua destacada participação como jornalista político, Machado fazia uso do humor para apontar os problemas sociais brasileiros:  “o humorismo era seu método, a ironia a sua arma, a sátira a sua forma de crítica e política social”, disse o crítico. Além disso, as transformações sociais do Brasil estavam presentes em várias de suas obras, como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Iaiá Garcia e outras, forma de observação arguta de ideais burgueses dissolvidos (casamento, patriarcalismo, etc, etc).

A importância de Astrojildo para a cultura brasileira da primeira metade do século XX é imensa. Foi o responsável por converter Luís Carlos Prestes ao marxismo. Recebeu elogios do conservador Gilberto Freyre, seu pólo oposto na discussão política; conheceu e manteve relações próximas com Lima Barreto, Nelson Werneck Sodré, Graciliano Ramos e Otto Maria Carpeaux, um de seus amigos mais próximos, que via em Astrojildo um dos melhores nomes do marxismo em terras tupiniquins. Como é infelizmente frequente entre os intelectuais de esquerda, foi rechaçado por muitos dentro do movimento operário e tachado de elitista e pequeno-burguês pelas suas relações intelectuais e pessoas com setores não diretamente ligados ao marxismo. Sua admiração por Ruy Barbosa e pelo já citado Gilberto Freyre, por exemplo, e os elogios públicos que um Nelson Rodrigues lhe fazia foram decisivos para que seu nome acabasse um tanto esquecido por seus pares. Até hoje, seu nome ressoa pouco nos ouvidos dos esquerdistas mais jovens, mais preocupados, talvez, com efígies de revolucionários em camisas baratas do que com a leitura. Mas isso é outra história.

Ou talvez não. Tal é, infelizmente, o destino de quem pensa com independência. Mais do que suas idéias – muitas das quais merecem revisão – , mais até do que sua obra – que continua em permanente atualidade-  o que Astrojildo Pereira deixa como legado para  o meio intelectual brasileiro e para a esquerda brasileira é, sobretudo, uma atitude diante das coisas. Em vez de fechar-se ideologicamente, em vez de louvar e apoiar chavões como “cultura de periferia” e assemelhados, Astrojildo sempre mostrou renovada curiosidade intelectual pela produção cultural todas as correntes, dentro e fora do espectro político ao qual pertencia. E nisso se insere no que há de melhor no pensamento progressista ocidental , que o Brasil, cada vez mais afundado em patrimonialismos e estatismos travestidos de democracia de massas, parece sistematicamente querer ignorar. Mas isso é outra história. Ou talvez não.

outubro 8, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Dilthey em português

A tradução de Introdução às Ciências Humanas, de Wilhelm Dilthey (Editora Forense Universitária, 486 páginas, tradução de Marco Antonio Casanova) é uma das maiores novidades editoriais do ano na área de ciências humanas. A demora de mais de cem anos para uma edição em nosso idioma – o livro foi publicado pela primeira vez em 1883  - dão bem a medida do atraso do Brasil em relação a outros países, nomeadamente os da América Espanhola, quando o assunto é a versão de clássicos para o português. Tudo isso, porém, não importa agora. O fato é que, pela primeira vez, o estudante brasileiro de Sociologia, Filosofia, História, Letras, Direito, Artes e Psicologia, dentre muitas outras matérias, poderá ler o estudo do grande pensador alemão em sua língua materna.

E não exagero quando estendo o grupo de possíveis leitores do clássico de Dilthey a todos os estudantes de ciências humanas. O que Dilthey deseja é estabelecer um método próprio para estas ciências, pronto a combater os desvios positivistas que abundavam à época e queriam reduzir o entendimento das humanidades aos métodos das ciências exatas, o que terminaria nos conhecidos determinismos abundantes na segunda metade do século XIX e no XX inteiro. Esta diferenciação, bem como muitos outros conceitos presentes em grandes nomes do pensamento ocidental do século XX – Ortega y Gasset, Max Weber, Georg Simmel, só para citar alguns -, ainda hoje utilizados e debatidos, torna a leitura da obra uma tarefa obrigatória para todo estudante ou profissional na área de Humanidades que deseje aprofundar-se a sério em sua disciplina.

 

Onde encontrar:

 

http://www.grupogen.com.br

(21) 3970-9450

setembro 23, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Visita ao Jardim

O pior que pode acontecer a um pensador é transformar-se em adjetivo. Não existe maneira mais eficaz de engessar um pensamento , de vulgarizá-lo, de transformá-lo numa figura bidimensional e opaca pronta para acompanhar frases feitas. Os exemplos disso são vários e bem conhecidos. O de Maquiavel talvez seja o mais notório: quem conhece o significado de maquiavélico conhece apenas uma faceta muito simplificada e, no fundo, incorreta, do que é o pensamento do estadista florentino.

É também o caso de Epicuro. O adjetivo “epicurista” dá-nos a impressão de que o pensador grego era uma espécie de Baco da filosofia, um advogado (e praticante) do hedonismo desregrado e do impulso desenfreado. Leitura equivocada, conforme demonstra o estudo Epicuro – O filósofo da Alegria (EDIPUCRS, 128 páginasa) realizado por Reynoldo Aloísio Ullmann, importante nome da Faculdade de Filosofia da PUCRS e recentemente falecido. Através deste trabalho iluminador, o leitor acostumado à concepção corrente e vulgar de epicurismo talvez fique impressionado ao descobrir que o “Filósofo do Jardim” era – para ficarmos num só exemplo que chama a atenção dos desavisados – um defensor de uma ética austera e da continência como forma de alcançar a verdadeira felicidade na vida. Assim, a visita ao Jardim de Epicuro, guiada pela mão experiente do professor Ullmann, mostra-se muito mais interessante do que a primeira mirada poderia fazer supor.

Onde encontrar:

www.pucrs.br/edipucrs

(51) 3320.3523

setembro 23, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Entrevista de George Simenon

Entrevista publicada na revista Oitenta, da L e PM Editores, em 1984. Traduzida por Ana Paula de Melo Mendonça

Por Roberto Gervaso
Milão – Georges Simenon, um grande escritor que há meio século é lido em todas as partes do mundo, que é belga e não francês como muitos pensam. Só produz livros de sucesso: não há aventura do seu famoso “inspetor Maigret” que não tenha se tornado best-seller.

Mas não é somente o sucesso comercial que lhe é reconhecido. Há um consenso também em torno da qualidade literária do seu trabalho. “É o mais autêntico romancista da literatura francesa contemporânea”, celebrou André Gide. “A sua arte é de uma beleza intolerável”, disse Mauriac. Entre os seus leitores mais célebres e mais fanáticos nesses cinqüenta anos estão Mao Tse-tung, Lyndon Johnson, Charles Chaplin, o rei da Suécia, Céline, Maurois, Henry Miller.

Depois de repudiar o seu suntuoso e inacessível retiro de Epalinges, Simenon, embora cada vez mais rico com os incalculáveis direitos autorais que recebe de mais de cem países, decidiu há dez anos morar num pequeno apartamento de poucas peças no centro de Lausanne. Mora com Teresa, sua última mulher, de sangue italiano, com ele há mais de vinte anos, que recorda o que ele esquece, fazendo os contatos com editores e protegendo-o da curiosidade pública.

O “pai da literatura policial feita com arte” ou o “patriarca belga da literatura francesa” produziu em cinqüenta anos mais de quatrocentos volumes. A Universidade de Liége, sua cidade natal, fundou o Centro de Georges Simenon, que recolhe os manuscritos, a interminável correspondência e as edições nas várias línguas das obras do mestre. Este Centro é muito procurado por estudantes de literatura de vários países da Europa que escrevem teses sobre Simenon.

Dizem – e deve ser verdade – que nenhum escritor do mundo recolhe tanto dinheiro em direitos autorais. Dizem também – e também não há por que duvidar – que ninguém teve mais mulheres: cerca de dez mil, contra as cinco mil de Frank Sinatra, as 1,2 mil de John Kennedy, as aproximadamente mil de Don Juan e as 180 ou duzentas (há divergência na cifra) de Casanova.

Aos 76 anos, que não demonstra, sempre a fumar um dos seus vinte cachimbos, usando aparelho para surdez, o copo na mão (cerveja, bordeaux ou chá), passa a maior parte do seu tempo numa das peças do seu pequeno apartamento que serve como estúdio e quarto. Ali, ele dorme, come e dita ao gravador suas inesgotáveis Memórias, num esforço para entregar a própria vida aos pósteros. E, talvez, também aos contemporâneos. À noite, depois do telejornal, antes de se recolher, dedica algumas horas a reler, com o mesmo gosto e a mesma surpresa da primeira vez, os Essais de Montaigne.

Foi ali, no escritório-alcova de Simenon, que o repórter Roberto Gervaso, do Corriere della Sera, de Milão, encontrou-o. Esta foi a conversa entre os dois:

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É verdade que você é o autor mais lido, depois de Marx?
SIMENON – Segundo as estatísticas da Unesco, sim. Mas, há outros, além de Marx, mais lidos do que eu.

Quais são?
SIMENON – A Bíblia e Lênin, que são mais lidos do que Marx também.

Onde você tem mais leitores?
SIMENON – Nos Estados Unidos e na União Soviética.

Mais mulheres ou mais homens?
SIMENON – Tomando como ponto de referência as cartas que recebo, é meio a meio.

O que lhe dizem as mulheres nas cartas?
SIMENON – Fazem confidências e pedem conselhos.

E os homens?
SIMENON – Contam-me os seus problemas. São, sobretudo, médicos e psiquiatras.

Mais lido pelos jovens ou pelos menos jovens?
SIMENON – Dos treze aos oitenta anos.

Pelos intelectuais ou pelo homem médio?
SIMENON – Por estes e por aqueles.

Como se desenvolve a sua inspiração literária?
SIMENON – Jamais tive inspiração literária.

Você se define como um artesão, eu sei. Por quê?
SIMENON – Porque eu, efetivamente, trabalho como um artesão. Sento-me à mesa de trabalho – isto é, na poltrona – numa hora determinada, trabalho um determinado tempo e, só depois de cumprir o expediente, me levanto.”

Onde termina o artesanato e começa a arte?
SIMENON – É muito difícil dizer.

Por quê?
SIMENON – No artesanato, seguidamente, tem arte, e na arte tem artesanato.

Acredita no estado de graça?
SIMENON – Acredito no escritor se desfazer da sua pele e entrar na pele do personagem.

Ainda diria a frase que disse certa vez: “Não sei e não saberei jamais se tenho talento”?
SIMENON – Sim. O talento é algo que avaliam os pósteros e não os contemporâneos.

Mas o que é o talento?
SIMENON – É a capacidade de inventar um caráter, uma situação, uma paisagem.

Escritor é só aquele que se faz ler?
SIMENON – E quem mais seria?

A desenvoltura faz o perfeito narrador?
SIMENON – Sempre se deve escrever como se fala.

E fácil escrever fácil?
SIMENON – Não. É dificílimo.

E as suas relações com os adjetivos?
SIMENON – Péssimas. Odeio-os, como também detesto os advérbios. Aborrecem-me os enfeites e as lantejoulas do texto. Acabam por torná-lo obscuro. É preciso ser compacto, reduzir tudo ao osso.

Um escritor é sempre autobiográfico?
SIMENON – Eu não sou. Mas alguns são.

Primeiro dever de um escritor?
SIMENON – Tornar-se lido e ser sincero.

De um jornalista?
SIMENON – Idem.

O escritor-personagem nasce só do juízo do público?
SIMENON – O sucesso é determinado pelos leitores.

É mais rara uma vida bem vivida ou bem escrita?
SIMENON – Bem escrita. É melhor, porém, se for bem vivida.

Chegará também para você a hora do Prêmio Nobel?
SIMENON – Se chegar, recusarei.

Por quê?
SIMENON – Os prêmios são como as medalhas, os laços de fita e os penachos que enfeitam as vacas e os touros vencedores nas exposições de animais.

Quem lhe inspirou Maigret?
SIMENON – Os vários policiais que conheci.

Quando nasceu?
SIMENON – Quem?

Maigret.
SIMENON – Em fevereiro de 1929.

Onde?
SIMENON – Num vilarejo holandês de pescadores. Lá, hoje, há um monumento para ele.

Quantos livros você dedicou a Maigret?
SIMENON – Oitenta e nove.

Por que Maigret agradou e ainda agrada tanto?
SIMENON – É um homem comum, como tantos, que sabe compreender, mas não julga.

O melhor Maigret no cinema?
SIMENON – Nenhum.

Como nenhum?
SIMENON – Maigret existiu e existe somente na minha cabeça. É meu, exclusivamente meu.

Por que você o aposentou há sete anos?
SIMENON – Não foi ele o aposentado. Fui eu que me retirei.

Nas suas histórias, não existe o tempo: nem a guerra, nem a resistência, nem a era atômica. Por quê?
SIMENON – O homem, no seu íntimo, não tem nada a ver com a guerra, com a resistência, com a era atômica.

As piores armadilhas do romance policial?
SIMENON – Mas Maigret não é Poirot, e eu não sou Agatha Christie.

Explique-se.
SIMENON – Os romances policiais têm regras bem precisas, enquanto eu não tenho. Na segunda página, posso tranqüilamente revelar o nome do assassino.

Com quantos anos escreveu o primeiro romance não-policial?
SIMENON – Aos 31 anos.

Quantos escrevia, em média, por ano?
SIMENON – Policial, um; não-policiais, cinco.

Nunca renegou uma obra?
SIMENON – Não. Basta não relê-las, como o meu amigo Fellini nunca revê os seus filmes.

Voltaire escreveu Candide em três dias. Você, em quanto tempo escrevia, ou escreve, um romance?
SIMENON – No início, levava onze dias.

E no fim?
SIMENON – Uma semana.

Usou muitos pseudônimos?
SIMENON – Dezessete.

Quando começou sua autobiografia?
SIMENON – Dia 13 de fevereiro de 1973.

Título do primeiro volume?
SIMENON – Um homem como qualquer outro.

Você?
SIMENON – Sim, eu.

Em que ponto estão suas memórias?
SIMENON – Estou concluindo o décimo nono volume.

O seu autor policial favorito?
SIMENON – Nenhum. Não os leio.

Nem mesmo Agatha Christie?
SIMENON – Nem mesmo ela.

E não-policial?
SIMENON – Refere-se aos meus autores de cabeceira?

Sim.
SIMENON – Antes de tudo, Montaigne.

E depois?
SIMENON – Conrad, Gogol, Tchékhov, Dostoiévski, Faulkner.

Você disse que, se recomeçasse, seria biólogo.
SIMENON – Amo o homem. Quero conhecê-lo e entendê-lo. A biologia ajudaria muito.

Você é considerado um homem de esquerda?
SIMENON – Sou um individualista empedernido.

Os burgueses não o agradam. Por quê?
SIMENON – São convencionais demais, e pouco individualistas demais.

Já fez política alguma vez?
SIMENON – Não. Nunca votei ao menos.

Você diria com Clemenceau: “Quem faz política para valer suja as mãos”?
SIMENON – Com as mãos limpas, não se faz política.

Como nasce a violência política?
SIMENON – Quem não tem o poder político quer tirá-lo de quem o tem. E quem o tem, para protegê-lo, usa agentes provocadores.

Como se extirpa?
SIMENON – Sobretudo extirpando-se os nacionalismos, fomentadores de violência.

O que é, para você, o amor?
SIMENON – A mais bela invenção do mundo: entender-se sem necessidade de palavras.

Quantas mulheres você conheceu biblicamente?
SIMENON – Falaram em dez mil.

E você, o que diz?
SIMENON – Talvez uma a mais, ou uma a menos.

Profissionais ou amadoras?
SIMENON – Muitas jovens atrizes e bailarinas.

É ciumento?
SIMENON – Gostaria de não sê-lo. Mas sempre fui, e o sou. Terrivelmente.

Quando o ciúme impede o adultério?
SIMENON – Casei em primeiras núpcias com uma mulher ciumentíssima, que, depois do primeiro dia de casados, ou da primeira noite, não recordo, ameaçou de se suicidar se algum dia eu a traísse.

E você?
SIMENON – Eu a traí escondido durante vinte anos, odiando-a.

Odiando-a?
SIMENON – Sim, porque não há nada mais humilhante, mais ofensivo à nossa dignidade do que a coerção à mentira.

E vocês se separaram.
SIMENON – Sim, e uma semana depois, ela, que tinha quarenta anos, passou a andar com um garoto de dezesseis.

Você esteve verdadeiramente apaixonado por Josephine Baker?
SIMENON – Eu tinha 22 anos, inexperiente, desconhecido, e ela era ultracélebre. Mas foi uma relação brevíssima.

Como acabou?
SIMENON – Num certo momento, fugi para uma ilha.

Por quê?
SIMENON – Não queria me tornar o sr. Baker.

É mais difícil viver ou conviver?
SIMENON – É melhor conviver. A solidão é atroz. Sobretudo para o homem a quem faltam a força de caráter e o espírito de iniciativa femininos.

Chega-se mais bem preparado ao casamento ou à morte?
SIMENON – A morte é previsível. O casamento, sempre uma incógnita.

As mulheres devem ser tratadas com cavalheirismo?
SIMENON – Sim.

E os homens com amabilidade?
SIMENON – Sim.

É mais fácil entender os outros ou a si mesmo?
SIMENON – A si mesmo.

Você sempre foi ao fundo de si mesmo?
SIMENON – Sou o meu melhor psicanalista.

Nunca deixou alguma coisa pela metade?
SIMENON – Jamais.

Qual é o conselho que lhe foi mais útil durante a vida?
SIMENON – Não julgar nunca. Foi um conselho do meu pai.

Já esteve ameaçado de falir?
SIMENON – Não. Mas tive meus altos e baixos.

O sucesso modificou-o?
SIMENON – Em nada.

Dizem que é um misantropo.
SIMENON – Ao contrário: adoro as pessoas, a vida.

E que é cínico.
SIMENON – Se cínico é quem diz o que pensa, sim.

Quem são seus amigos?
SIMENON – Pouquíssimos.

Diga um.
SIMENON – Fellini. Embora fiquemos meses sem nos vermos, nem nos telefonarmos.

E os seus inimigos?
SIMENON – A minha última mulher. Eu, porém, não a considero assim.

Também para você, como para Voltaire, o trabalho é alegria?
SIMENON – Sim, mas a que preço!

No seu passaporte está escrito “aposentado”?
SIMENON – Não: sem profissão.

setembro 16, 2010 Posted by | Literatura | 1 comentário

Contos húngaros

A literatura húngara é praticamente desconhecida dos brasileiros. À exceção de um Sandor Márai, um dos maiores escritores do século passado, o único nome húngaro ligado às letras que chegou até nós é Paulo Rónai, o grande tradutor, professor de idiomas e crítico literário que para cá emigrou durante da 2ª. Guerra. No resto do mundo, a situação não é muito diversa: pouco se ouve falar dos escritores húngaros na Europa, na América ou em qualquer outro lugar. Parte da explicação pode estar naquilo que é essencial para uma literatura: o idioma. O húngaro não tem parentesco próximo com nenhum das grandes famílias de línguas européias e sua situação geográfica é, de certa forma, uma representação de sua situação cultural: a Hungria faz fronteira com países latinos, germânicos e eslavos – e não é latina, nem germânica e nem eslava. Uma legítima outsider – e, como toda outsider, uma solitária que desperta pouco interesse dos outros.

É uma solidão injusta. Prova disto é a seleção Contos Húngaros (Hedra, 200 páginas, tradução de Paulo Schiller). São contos de quatro autores de nomes tão desconhecidos quanto impronunciáveis: Gyula Krúdy (1878-1933); Dezsö Kosztolányi (1885-1936); Géza Csáth (1887-1919) e Frigyes Karinthy (1887-1938). Mesmo assim, todos granjearam alguma divulgação nos grandes centros culturais europeus, como Gyula Krúdy, que chegou a ser apelidado de “Proust húngaro”. Dentre os contos selecionados, merecem destaque os contos “O Leitor”, pela fina ironia e admirável capacidade de concisão, e “Professor, Por Favor”, pelo senso de humor ao retratar o cotidiano de um jovem estudante de colégio. Uma bela apresentação de uma literatura que merece mais atenção por parte dos nossos editores e leitores.

Onde encontrar:

www.hedra.com.br

(11) 3097 8304

setembro 9, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Em busca de sentido


O psicólogo e psiquiatra austríaco Viktor Frankl foi um dos nomes mais importantes das ciências humanas do século XX. Criador da Logoterapia, técnica psiquiátrica que busca restaurar no paciente a noção de sentido para sua vida, Frankl ficou famoso pelo livro “Em Busca de Sentido”, onde analisa a vida de um prisioneiro de um campo de concentração nazista a partir de suas experiências durante três anos em vários desses campos, inclusive Auschwitz. Ali ele encontrou, entre homens para os quais aparentemente não havia qualquer esperança, uma surpreendente vontade de viver, mostrando que mesmo nas condições mais extremas o homem é capaz de encontrar uma razão para sua existência.

Algo do que Frankl passou nos campos de concentração, e não só neles, está em O que não está escrito nos meus livros (Editora É Realizações, 184 páginas), memórias redigidas pouco antes do seu falecimento, em 1997, quando o autor contava 92 anos. Sua vida se confunde com a história do século XX, que ele viveu como poucos: nasceu e formou-se em Viena, um dos maiores centros culturais do Ocidente; foi testemunha ocular das piores atrocidades do nazismo, espectador privilegiado de todas as transformações sociais e comportamentais verificadas nos últimos tempos e, também, intérprete influente destas mesmas transformações, que deram ao homem a satisfação de várias necessidades mas não cuidaram do que ele chama de “necessidade de significado”. Nas suas palavras, o homem atual está “até mesmo criando necessidades, mas a necessidade de significado ou, como eu costumo dizer, o desejo de encontrar um significado, permanece inatingido”. Como se vê, o mais que centenário Viktor Frankl está mais atual do que nunca.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572 5363

agosto 29, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Civilização e Barbárie

O leitor desta edição de Facundo (Cosac Naify, 512 páginas) nascido no Rio Grande do Sul não poderá deixar de notar uma particularidade da tradução (aliás, muito boa) de Sérgio Alcides: o uso da palavra “gaúcho” para qualificar o homem do campo da Argentina. Nossos olhos e ouvidos talvez esperassem encontrar a expressão gaucho, de acordo com a grafia e a pronúncia platinas, de forma a sublinhar as diferenças existentes entre o tipo humano do nosso pampa e o do pampa deles. Alcides preferiu passar por cima disso e dos conselhos de gente como Carlos Reverbel, para quem a confusão entre o gaúcho e o gaucho, em que pesem o mesmo ambiente e algumas semelhanças óbvias, não faz sentido quando vista de perto. Terá sido a opção certa?

Em princípio, parece discutível. Eu próprio sou daqueles que tende a concordar com Reverbel e não enxergo semelhança suficiente para justificar o uso do mesmo termo. No entanto, ao tomar este livro particularíssimo, a um tempo ficção, ensaio sociológico, história e biografia – à semelhança de Os Sertões, de Euclides da Cunha – e ler a história de Facundo Quiroga, caudilho da província de La Rioja, não posso deixar de rever, ao menos em parte, um pouco do mesmo conflito que, em outros contornos, com outras nuances, também se viu registrado por estas plagas ao longo dos tempos. Facundo representa o conflito entre civilização e barbárie – subtítulo do livro – que Sarmiento identificou como a questão central de seu país: trata-se, sem dúvida, de um gaucho. O quanto ele terá de gaúcho, de nosso, em sua visão de mundo, em suas atitudes e pensamentos, é, como eu disse, discutível. Mas é suficiente para fazer da leitura deste clássico, para nós, um prazer com um sabor muito especial.

Onde encontrar:

(11) 3218 1452

www.cosacnaify.com.br

agosto 28, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Encontro com Sérgio Buarque

A obra de Sérgio Buarque de Holanda pode ser colocada no seleto grupo de milagres produzidos pela inteligência deste país. O grupo é pequeno: inclui um José Guilherme Merquior, um Gilberto Freyre, um Otto Maria Carpeaux e poucos mais. Ao contrário da maioria deles, porém, a obra de Sérgio Buarque de Holanda nunca sofreu qualquer tipo de censura ou ataque mais forte de lado algum. Ainda que sua tese do “homem cordial” tenha sido objeto de severas críticas – motivadas antes por más leituras do que por qualquer outra coisa – a verdade é que o autor de Raízes do Brasil nunca sofreu boicotes severos, sendo figura garantida nos programas de ensino de qualquer curso de ciências humanas. Sérgio Buarque tornou-se referência básica, e Raízes do Brasil, sua obra mais conhecida, uma leitura obrigatória.

Infelizmente, tamanho sucesso de um livro de juventude – ao qual ele posteriormente faria vários reparos – acabou por encobrir a produção posterior do autor, que nem de longe logrou o mesmo êxito. É o caso de Visões do Paraíso. Este extraordinário estudo comparado do mito edênico entre os colonizadores ibéricos traz conclusões são elucidativas. Ali ele demonstra que, enquanto os espanhóis descreviam as terras além-oceânicas com cores vivas, falando de criaturas mágicas e tesouros infindáveis, os portugueses prendiam-se ao mais concreto, ao descritivo e à quase opacidade no estilo. As decorrências desta postura para os dois povos e para seus descendentes na América são inúmeras e ajudam a explicar as diferenças entre nós e nossos vizinhos, bem como certas características que a cultura brasileira vem assumindo desde sempre. Uma obra indispensável para entender o Brasil.

Onde encontrar:

www.ciadasletras.com.br

(11) 37073500

agosto 20, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O pensamento jurídico hoje

Quem estuda Direito e cursou ou cursa as disciplinas introdutórias da faculdade sabe bem a importância de se ter acesso aos textos originais das matérias, em especial os clássicos e os mais conectados com as tendências contemporâneas de cada uma destas disciplinas. É este o caso das disciplinas de Antropologia, Sociologia Jurídica, História do Direito e, sobretudo, Filosofia do Direito, cujos textos são, muitas vezes difíceis de encontrar e selecionar, mesmo em se tratando de clássicos. No caso dos autores contemporâneos, então, o problema aumenta ainda mais. O tempo ainda não se encarregou de selecionar o que é perene e o que é de momento, e o estudante fica perdido diante de tantos textos. É preciso, então recorrer às antologias e confiar no trabalho de quem as organiza e apresenta ao leitor. Ler uma antologia é, antes de tudo, uma atitude de confiança.

Correntes Contemporâneas do Pensamento Jurídico (Manole, 464 páginas) é um livro que merece tal confiança. A seleção feita pelos professores Anderson Vichineski Teixeira e Elton Somensi de Oliveira dá ao leitor um panorama bastante completo sobre as atuais discussões jusfilosóficas no mundo inteiro. Ao lado de nomes mundialmente já consagrados, como Ronald Dworkin e John Finnis, professores brasileiros e estrangeiros abordam temas como o neojusnaturalismo, o neocontratualismo e os desafios que o Direito tem a enfrentar num mundo cada mais interligado e sem fronteiras. Um livro indispensável na estante de qualquer acadêmico.

Onde encontrar:

www.manole.com.br

(11) 4196 6000

agosto 17, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Explicando a hermenêutica

As cadeiras de Hermenêutica Jurídica são o terror de muitos estudantes de Direito. Ministradas entre o terceiro e o quinto semestres na maior parte das faculdades, costumam apanhar o aluno sem o necessário cabedal de conhecimentos e sem prática com matérias que exigem elevado grau de abstração. Muitas vezes a culpa também é dos professores, que jogam em cima dos estudantes um conteúdo completamente diferente de tudo o que já viram antes sem o necessário cuidado e acompanhamento. Ninguém nega que a hermenêutica é difícil, nem mesmo os bons professores. O que se pode fazer é não dificultar ainda mais o aprendizado.

Por essa razão, a publicação de livros como este As escolas hermenêuticas e os métodos de interpretação da lei, de Marcelo Mazotti (Editora Manole, 124 páginas) reveste-se de especial importância. Fazem falta, em nosso país, manuais de acompanhamento que expliquem a matéria com a clareza necessária sem, no entanto, perder-se com isso o rigor conceitual indispensável para o estudo. É o caso deste livro. O autor – advogado e professor em São Paulo – dedica dois capítulos a uma introdução geral à hermenêutica, incluindo aí as principais contribuições à matéria por parte de nomes como Heidegger, Dilthey, Gadamer e outros, reservando o terceiro capítulo para a hermenêutica jurídica propriamente dita e um quarto para, a partir da análise de três casos concretos, estudar a forma como os Tribunais Superiores do país a vêm aplicando. Um livro essencial para o estudante.

Onde encontrar:

www.manole.com.br

(11) 4196 6000

julho 19, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

O homem certo, no lugar certo, na hora certa

O Prêmio Nobel merece todas as críticas que se lhe fazem. Dizem que seus critérios são escusos, que não premia sempre os melhores, que atende a interesses outros que não os puramente literários. Dizem também que está sujeito a ventos que vêm da política, da economia e até da psicologia, quando os julgadores (europeus, na maioria) são acometidos por súbito sentimento de condescendência para com os certos países, mormente os de Terceiro Mundo, ou os irrelevantes em termos culturais, ou os dois. Dizem de tudo – e não é sem razão aquilo que dizem. De fato, premia-se por vários motivos discutíveis: para sanar “dívidas históricas”, para dar reconhecimento a determinadas literaturas, para atender a demandas de bastidores. O resultado é a vitória de representantes de minorias perseguidas (seja por etnia, idioma, religião ou sexo) e da periferia econômica, social e política do mundo, muitas vezes no lugar de nomes que freqüentam os principais centros de cultura do Ocidente.

Por outro lado, há a ação da propaganda. E ninguém faz propaganda melhor do que a esquerda, em especial os comunistas, solo de onde, aliás, brotou o termo agitprop. A propaganda fez Jorge Amado ser considerado um gênio, colocou Gorki no mesmo patamar de Dostoievski, transformou Brecht num grande dramaturgo e Jean Paul Sartre num ícone de uma geração, mais citado do que lido e mais imitado do que citado. Borges foi um dos primeiros a apontar essa particularidade do Nobel quando disse que Neruda, além de ser péssimo poeta, só saiu vencedor devido às suas posições políticas. O exagero do mestre argentino, embora exagero, demonstra que esta particularidade do prêmio não é nova.  Gente de quarta categoria já foi premiada. Gente que defende determinada bandeira, linha ideológica, pensamento. Gente que não deveria ter vencido. Por outro lado, Joyce, Pessoa, Drummond e Borges nunca ganharam um Nobel; Dario Fo, Elfriede Jellinek e Toni Morrison, sim. O Nobel, por si só, não quer dizer muita coisa – ao menos, não quer dizer tanto quanto alguns ainda crêem.

José Saramago preencheu plenamente os dois pré-requisitos para ser conduzido, com todas as honras, à escadaria do Conservatório Real de Estocolmo. Em primeiro lugar, é comunista. Não é “de esquerda”, “liberal no sentido americano” ou “social-democrata”: é comunista. Nunca deixou de sê-lo, apesar de seu recente (e bastante atrasado) rompimento com Fidel Castro. É materialista: há crítica, implícita ou explícita, à religião em seus livros. É marxista: removendo os véus da ideologia, procura desnudar a crua realidade em constante mutação e apontar-lhe o fundamento material que dá origem a toda forma de opressão. Por último, é intransigente. Não atenuou nunca a sua opção ideológica e até a justificou biologicamente: “sou um comunista hormonal, no meu corpo há hormônios que me fazem crescer a barba e outros que me fizeram ser comunista. Não quero me transformar em outra pessoa”. Um hormônio, que, aliás – algum leitor mais bem-humorado notará – parece estar intrinsecamente ligado ao outro. Não no caso de Saramago, que se mantém cuidadosa e inteligentemente longe da caricatura.

Por outro lado, sendo português, Saramago é da periferia. Apesar de ser Europa, Portugal é periferia em todos os sentidos que o termo “periferia” pode assumir, do político-econômico ao artístico. Sua literatura é praticamente desconhecida fora do seu pequeno território: é pouco conhecida (excetuando o próprio Saramago e um ou outro clássico mais óbvio) até mesmo dos brasileiros. É menos relevante para a cultura do século XX do que a de alguns países latino-americanos, como a Argentina. O idioma de Saramago é menos importante, em termos europeus, do que o russo ou o holandês. Ao mesmo tempo, é uma língua de matriz européia, falada em todos os continentes e com uma literatura de oitocentos anos de idade. Nunca havia sido concedido um prêmio para os lusófonos. Era preciso reparar este defeito – e o melhor, naquele momento, era José Saramago. Um legítimo caso de homem certo na hora certa.

Homem certo? Poderá ser chamado de “homem certo” quem ganha um prêmio alavancado pelas suas convicções ideológicas e com a complacência dada pela sua condição periférica? Num certo sentido – que tem a ver com aquilo que influencia decisivamente a escolha do prêmio -, sim. Noutro sentido – que tem a ver com a justiça propriamente dita -, não. Quem ganha a notoriedade que um prêmio como o Nobel confere ao premiado deveria, em tese, merecê-la por méritos próprios. É a questão que se colocou à época e ainda se coloca nestes momentos que seguem a sua morte, quando uma parcela dos que sobre ela escreveram apontaram estes dois fatores como determinantes para a fama do autor. Não foram apenas dois ou três que colocaram sobre os ombros da propaganda política e da condição periférica de Saramago o leitmotiv de sua premiação e de sua fama mundial. Não foram apenas dois ou três, também, que fizeram questão de diminuir sua obra com bases nestes predicados. Segundo esta corrente, Saramago não apenas foi catapultado pela sua opção ideológica como, por essa mesma opção, não merecia ganhar e não merece a importância que lhe deram. Foi chamado de antissemita pelas suas opiniões contrárias à ação de Israel na Palestina, de propagandista barato pela suas defesas dos regimes de esquerda, de anti-cristão pelas suas declarações sobre a Igreja e, naturalmente, de comunista, por todo o resto. Para muitos, Saramago morreu como um verdadeiro criminoso.

Deste último crime – o de ser comunista – Saramago é réu confesso. E, como muitos deles, fechou os olhos para certas coisas que diante das quais não se deve fechar. Até o fim da vida, defendeu um regime totalitário que matou centenas de milhões de pessoas em um século, ganhando de todas as guerras e epidemias que já castigaram a terra. Silenciou durante muito tempo sobre Cuba, sobre a Coréia do Norte, sobre tudo o que o comunismo disseminou. Tudo isso é verdade. As críticas que se faz ao comunista Saramago são as mesmas que se pode fazer a praticamente qualquer comunista. Estendê-las à sua obra é, porém, um grave e óbvio equívoco. A obra de Saramago, em seus melhores momentos – aqueles que, de fato, o fizeram ser premiado – nada tem de comunista. Aliás, Ensaio sobre a cegueira é o tipo de livro que poderia perfeitamente ter sido escrito por um anti-comunista, nascido em país sob este regime, exilado por razões políticas e desejoso de atrair a atenção internacional e incitar seus concidadãos a tentar a libertação à maneira dos cegos da narrativa. Este mesmo livro é exemplo claro de que ser periférico não é o mesmo que ser provinciano: não fala apenas a seus concidadãos ou a todos aqueles que, por algum tipo de curiosidade momentânea, estão interessados nas coisas de Portugal. Mesmo quando seu pequeno país é tema de obra – veja-se o caso de História do Cerco de Lisboa, O ano da morte de Ricardo Reis ou A Jangada de Pedra – os temas ali tratados são absolutamente universais e podem ser transpostos, com pouca perda, para qualquer outra realidade. A opinião de um Harold Bloom é definitiva: “Saramago é o maior escritor contemporâneo”. E Harold Bloom pode ser criticado por muitas coisas, mas não por desconsiderar a importância da universalidade de um escritor ao avaliá-lo.

A crítica de fundo ideológico não pode ser levada a sério – a própria esquerda faz isso com freqüência, sem ser levada a sério por quem não é da própria esquerda. Criticar Saramago por ser esquerdista é como desconsiderar Bernanos ou T.S. Eliot por serem de direita. Os motivos que o levaram a ganhar o prêmio estão em sua obra. O que comprova, mais uma vez, que Saramago era mesmo o homem certo na hora certa: preencheu os critérios estabelecidos e os aliou à qualidade de uma obra atemporal. Os motivos menos respeitáveis que lhe garantiram o prêmio, esses podemos esquecê-los. Fiquemos com os respeitáveis. Estes sobreviverão ao próprio escritor, suas opiniões pessoais, suas convicções íntimas, seus erros e acertos.

julho 19, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

A maldição do Buk (uma tradução)

Publicamos a seguir a tradução de “The Damnation of Buk”, de Charles Bukowski, de autoria do advogado e poeta  portoalegrense Thiago de Medeiros. Até onde sabemos, é a primeira em língua portuguesa.

the damnation of Buk

[The Last Night of the Earth Poems (1992)]

getting old, and older, concerned that
you might not get your driver’s license
renewed, concerned that the hangovers
last longer, concerned that you might
not reach the age of 85,
concerned that the poems will stop
arriving.
concerned that you are concerned.

concerned that you might die in the
spa.
concerned that you might die on the
freeway while driving in from the
track.
concerned that you might die in your
lap pool.
concerned that the remainder of your
teeth
will not last.

concerned about dying but not about
death.

concerned that people will no longer
consider you dangerous when
drunk.

concerned that you will forget who
the enemy is.

concerned that you will forget how to
laugh.

concerned that there will be nothing to
drink in hell.

and concerned you will have to
listen to
one poetry reading
after another
after another …

the Los Angeles poets
the New York poets
the Iowa poets

the black poets
the white poets
the Chicano poets
the 3rd world poets

the female poets
the homosexual poets
the lesbian poets
the bisexual poets
the sexless poets
the failed poets
the famous poets
the dead poets
the etc. poets

concerned that the toteboard will
explode into flowers of
shit

and the night will never
come.

————————

Bukowski, Charles:

A maldição do Buk

[Extraído de Os poemas da última noite da Terra (1992)]

ficando velho, e velho, preocupado que
você não poderá ter sua carteira de motorista
renovada, preocupado que as ressacas
não terminam, preocupado que você não poderá
alcançar os 85 anos,
preocupado que os poemas irão parar
de chegar.
preocupado que você é preocupado.

preocupado que você poderá morrer
no spa.
preocupado que você poderá morrer na
auto-estrada enquanto estiver dirigindo no
caminho.
Preocupado que você poderá morrer em sua
piscina.
preocupado que o restante de seus
dentes
não vão durar.

preocupado sobre morrer mas não sobre
morte

preocupado que as pessoas não irão
considerar você perigoso quando
bêbado.

preocupado que você irá esquecer quem
é o inimigo.

preocupado que você esquecerá como
rir.

preocupado que não existirá nada para
beber no inferno.

e preocupado que você terá de
escutar a
uma leitura de poesia
depois outra
depois outra…

os poetas de Los Angeles
os poetas de Nova York
os poetas de Iowa

os poetas negros
os poetas brancos
os poetas chicanos
os poetas do 3º mundo

as poetas mulheres
os poetas homossexuais
as poetas lésbicas
os poetas bissexuais
os poetas sem sexo
os poetas falidos
os poetas famosos
os poetas mortos
os poetas etc.

preocupado que o placar do hipódromo irá
explodir em flores de
merda

e a noite nunca irá
chegar.

julho 9, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Lançamento de Antônio Jesus Pfeil

Quando perguntei a meu amigo Antônio Jesus Pfeil qual o motivo que o levou a escolher uma vida dedicada à cultura, e ao cinema, em particular, a resposta foi imediata: “porque quis fazer coisas que me dão prazer”. Simples assim. Tão simples que não deixa qualquer margem para questionar-se. Já lá se vão cinco décadas dedicadas às coisas que lhe dão prazer. Elas lhes deram também três Kikitos no Festival de Gramado, vários outros prêmios, vários livros de História do Cinema e o fundamental “Canoas – Anatomia de uma cidade” além da recuperação de vários filmes antigos que, não fosse Antônio Jesus Pfeil, estariam totalmente perdidos. Deram também a nós, canoenses, que vemos um conterrâneo destacar-se numa seara onde normalmente não damos grandes frutos, e a todos os interessados que aproveitam o resultado de suas pesquisas.

Estes interessados ganham agora, com a publicação dos Cadernos de Pesquisa do CPCB (Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro), sediado no Rio de Janeiro, mais um material de trabalho: o artigo “Cinema gaúcho I – 1900 a 1913”, tema que Jesus conhece como poucos no país. Mais um produto de anos dedicados ao prazer, mais uma contribuição para a história do cinema e mais um motivo de orgulho para os canoenses.

Onde encontrar:

http://www.mnemocine.com.br/cpcb/

Fone: (21) 551-7967

junho 28, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Roqueiros nos 80

Era difícil ser roqueiro no Brasil dos anos 80. Além do preconceito que havia contra os cabeludos – sim, ser roqueiro naquela época era quase sinônimo de ter um cabelo, digamos assim, chamativo – não era nada fácil conseguir aquilo que faz um roqueiro: o rock´n roll. Os shows das grandes bandas eram raros, apenas os discos mais conhecidos tinham edição nacional (em vinil, como é óbvio) e as notícias eram raras e demoravam a chegar. Bandas alternativas, apenas em alguns programas de rádio ou através de algum conhecido rico – nos anos 80, somente os ricos podiam viajar de avião – que tinha morado nos EUA. Esta era a vida de quem acompanhava o mundo pop num país periférico, fechadíssimo, com problemas econômicos aparentemente insolúveis e longe de tudo. E que achava que rock era coisa de marginal.

O desenhista Roger Cruz era, muito provavelmente, um destes cabeludos. É o que deixa claro em Xampu – Lovely Losers, mais um quadrinho nacional publicado pela Devir Livraria. A descrição da atmosfera reinante na época a partir do cotidiano de um grupo de adolescentes, centrado na relação entre uma estudante de Química e o vocalista de uma banda de hard rock da Zona Norte de São Paulo, só pode ser feita por alguém que viveu, e intensamente, aquele período. Num momento em que os anos 80 – e, mais recentemente, também os 90 – são alvo de releituras, de renovado interesse e de alguma saudade, este livro é um prato cheio para satisfazer os nostálgicos.

Onde encontrar:

(11) 2127 8787

www.devir.net

junho 28, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

José Saramago (1922-2010)

“Dificílimo ato é o de escrever, responsabilidade das maiores.(…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(…)”

 


junho 19, 2010 Posted by | Literatura | 1 comentário

Olhar sobre a Europa

A preparação do livro “Europa – Gênese de uma civilização”, de Lucien Febvre, envolve uma situação no mínimo curiosa. Reunião de notas ministradas pelo autor nos anos de 1944 e 1945 no Colége de France, o livro surge justamente num momento em que seu tema central –a Europa – corria sério risco de desaparecer. Ainda que a guerra se encaminhasse para o fim, o seu desenrolar ainda era uma incógnita. Era bem possível que Febvre – um dos mais importantes historiadores do século XX, fundador da Escola dos Annales junto com Marc Bloch – estivesse naquele momento falando de uma civilização prestes a ruir e a subsistir apenas em livros como o seu. Febvre parecia disposto a deixar um testemunho do que foi a civilização que, bem ou mal, praticamente criou o mundo moderno.

Este tom de urgência percorre todas as 332 págnas de “Europa”. Está na escrita apressada e cheia de lacunas de Febvre, como é de se esperar de anotações esparsas; está nas constantes e veladas referencias ao nazismo quando o tema “Alemanha” surge, quase à meia-voz, para não acordar o inimigo que estava lá fora; está nas repetições constantes, no início de cada capítulo, do conceito de Europa. Ainda podemos sentir este tom agora, sete décadas depois de terem sido escritos os textos. Talvez porque quando dissesse Europa, o autor quisesse dizer o mesmo que nós hoje queremos quando falamos em Ocidente. O risco é o mesmo: os inimigos é que são diferentes.

Onde encontrar:

www.edusc.com.br

junho 18, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Surpresas de Vieira

Ao lermos um destes Sermões de Padre Antonio Vieira que a Loyola vem publicando em edição especial há mais ou menos um ano, somos surpreendidos de modo especial não pela brilhante oratória do jesuíta luso-brasileiro, nem pela originalidade de suas idéias ou pelos jogos retóricos de que faz uso. Estas são coisas que já esperamos ali encontrar. O que nos surpreende em Vieira é a familiaridade. Ao lermos qualquer dos seus sermões presentes neste volume, sentimos uma proximidade em diversos níveis com o nosso português brasileiro de hoje. Esta familiaridade não a sentimos com praticamente nenhum outro escritor português. Nem Camões, nem Eça, nem Pessoa, nem mesmo Saramago – só para ficar em alguns dos poucos nomes das letras lusitanas que gozam de algum prestígio por aqui – estão tão próximos de nossa fala e do nosso escrever quanto Vieira, que viveu e escreveu no século XVII. Nele reconhecemos um ritmo, uma sintaxe, uma semântica, um vocabulário tão parecido com o nosso que a distância temporal parece apenas uma ficção de historiador, como freqüentemente ocorre quando se trata de obras de arte.

E isto porque Vieira é um autor nosso – plenamente nosso. É parte integrante e essencial de nossa cultura, de nosso agir e de nosso pensar. O idioma é a parte mais visível desta pertença, mas há mais, muito mais. Quem quiser descobri-lo, se já não o descobriu, por favor acesse o link e o telefone abaixo relacionados.

Onde encontrar:

http://www.loyola.com.br
(11) 2914-1922

maio 24, 2010 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Estranho Lovecraft

O escritor Howard Phillip Lovecraft era um sujeito bastante estranho. Assumidamente misantropo, odiava visitar Nova York ou qualquer outra grande cidade, preferindo sempre sua Providence natal ou qualquer ambiente silencioso e solitário. Sua aparência não provocava outra reação. Alto, olhos penetrantes, pele muito clara, sofria de uma doença raríssima chamada poiquilotermia, que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque. Uma espécie de complement fantasmagórico para uma figura já suficientemente sombria.

Sombrios eram também os personagens que habitavam o mundo de Lovecraft. Diz-se que boa parte vinha de seus freqüentes pesadelos, alguns deles incrivelmente reais e detalhados. Neste Lovecraft, de Hans Rodionoff, os sonhos do escritor americano são bem reais e as terríveis criaturas que aparecem em seus contos caminham entre nós. O livro inicia com o relato de uma infância perturbada, marcada pela descoberta do Necronomicon – uma espécie de grimório demoníaco muito freqüente em suas obras – e de que dispõe de um dom especial de transitar entre o mundo dos deuses antigos, como ele o chama, e o mundo em que vivemos. Assim, Lovecraft cresce e vê-se obrigado a avisar a humanidade daquilo que lhe aguarda através de seus contos de horror. A HQ de Rodionoff é uma obra de ficção, já que Lovecraft em público admitiu que os seres presentes em seus contos não existem. Isto, claro, em público.

Onde encontrar:

www.devir.com.br

(11) 2127-8787

maio 21, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

“A poesia é uma forma de resistência contra a banalidade”

Eliane Couto Triska, poetisa

Quem adentra o consultório de Eliane Triska é surpreendido com o olhar penetrante de ninguém menos do que Sigmund Freud. Sim, é isso mesmo. Um Freud de gesso, com talvez uns 80 centímetros de altura, mira atentamente a consulta como um professor avalia seus discípulos durante a execução prática das aulas. Ou então como observador privilegiado, como no caso desta entrevista. Tratou-se, é claro, de poesia – da poesia de Eliane, que já conta um volume, Os Tempos e Sua Voz, e está prestes a contar outro -, de arte, de música, da importância disto tudo para ela e para o resto do mundo. Moradora da cidade desde seus quatro anos, ex-aluna do Colégio Maria Auxiliadora, Nani pertence a uma Canoas diferente da cidade de trabalhadores braçais, de concreto, de ritmo cada vez mais frenético: a Canoas da cultura. Essa Canoas a que Nani pertence é tão pequena e tão diferente que, à primeira vista, nem parece ser Canoas. Mas é. E por causa de pessoas como Eliane, como a entrevista mostrará. Espero que o Freud, nossa inesperada companhia, tenha gostado dela.

*        *        *        *



OT: Canoas tem um sério problema, e bem conhecido, com a questão da leitura. É uma cidade que não lê. Tu nasceste e foste criada numa cidade que lia menos ainda do que hoje e tinha ainda menos opções, a não ser em casos específicos e isolados. Como uma pessoa que cresce numa cidade como essa envereda para a literatura?

ET: Vou te dizer. Eu cantava nas irmãs (Colégio Maria Auxiliadora). Fazia primeira, segunda e terceira voz, o que fosse, porque eu tinha ouvido afinadíssimo. Também tocava piano. Como eu era pobre à época, eu tinha de ir a pé até as irmãs. Depois de um ano e pouco de estudo, eu não queria mais “pianar”, até porque eu estava atrasada nos meus estudos de piano e não fazia os exercícios, pois eu tinha um ouvido muito privilegiado e já começava a compor. Então comecei a tocar violão, que era mais simples. Compus várias músicas e já me apresentava no Niterói, com o grupo Caravelle. Fui convidada para ser solista deste conjunto e meu pai disse que eu deveria continuar os estudos e parar com aquilo. Para mim isso foi muito doloroso. Nós fazíamos serestas com o Mário Barros, um virtuoso no violão, o Finger, o Sr. Romeu, até uma ou duas da madrugada. Eu sei que, quando eu parei, tinha trinta e tantas composições.

OT: A música surgiu na tua vida antes da poesia, portanto.

ET: Sim. E eu até hoje eu escrevo com música.

OT: O que talvez explique a tua preferência pela métrica e pela melodia…

ET: No primeiro livro, nem todos. No segundo, todos os sonetos estão dentro da métrica. O poema tem de ser lido, ele é musical, ele tem ritmo. Mesmo os que têm verso branco têm ritmo.

OT: O que tu compunhas?

ET: Era bossa nova, era o que se ouvia na época. Até hoje, se eu estou num soneto, se tenho dificuldade em buscar imagens, eu vou aos meus registros musicais e vou buscar essas coisas. E não sou só eu. Eu sei que muitos poetas da Net também apontam isso, que escrevem com música.

OT: Viveste intensamente os anos 60, que foi uma época memorável para a música. O que tu escutavas? Quais as tuas preferências?

ET: Chico Buarque de Holanda. Um poeta. Até hoje o releio. O lado social, essa maneira de fazer uma crítica de forma tão doce. Tens que alcançar a emoção. Onde tu tocas o outro, tu consegues. Senão, por mais elevado que seja o teu discurso, aquilo é nada. O Chico em mim toca a emoção e o Tom Jobim, por exemplo, eu noto a beleza, mas não me toca tanto. O Chico vem ao meu encontro. E isso também quando tu lês um poema.

OT: E que outros artistas, além dele?

ET: Eu gosto de Gilberto Gil, Caetano Veloso, enfim, os músicos dessa época. Depois disso, veio o que? Não vejo nada do mesmo nível. Claro que surgem algumas coisas boas. Eu adoro a Rita Lee. E eu sempre tive uma verdadeira paixão pelo Michael Jakcson, sempre gostei dessa coisa exótica, diferente que cercava a figura dele. Certa vez, vi a gravação da preparação do show dele. Eu o vi fazer uma crítica a um músico no meio do show porque estava fora do ritmo. Ou seja, no meio do show ele percebeu que havia uma diferença de ritmo, no meio daquela barulheira toda. Era exatamente o que ele parecia. Ele não era falso. Ele tinha algo na cabeça e conduzia nesse sentido.

OT: Quais teus planos próximos?

ET: Estou indo a Portugal agora. E chego dia 21 para um encontro, um jantar-tertúlia com poetas portugueses. Alguns são grandes poetas, como o José Augusto de Carvalho, que já tem vários livros publicados. Boa parte dos poetas com o quais converso são portugueses. Eles trabalham com ele de uma forma muito bela. Eu me identifico com isso. Minha escrita é clássica. Eu leio os clássicos. O soneto é pesado, tem uma carga de emoção. E por uma questão talvez de personalidade eu gosto mais dele.

OT: A poesia é também expressão de personalidade?

ET: Sabes o que o Freud diz dos poetas? Ele diz que a poesia ou arte está naquele intermédio entre a impossibilidade de a realidade atender a todos os desejos do homem e a realidade crua. Na fantasia nós nos atendemos. A fantasia serve à vida frente à realidade crua. Serve como algo sublimatório. Como dizem alguns, quem escreve, escreve sobre a falta.

OT: Tu estudaste numa época em que a formação na área de humanidades era muito melhor do que a de hoje. O colégio foi importante pra tua formação?

ET: Não, não foi. Eu tinha um tio que tinha livraria e me trazia os livros que me interessavam. Desde sempre as obras infantis, essas histórias foram importantes para a minha formação. Dava Peter Pan na TV e eu diz que a roupa do Peter Pan era assim, era assado….só que a TV era preto e branco! Depois quando estudei filosofia na faculdade – fiz um ano de curso na Unisinos, depois de me formar em Direito – foi muito importante, um período em que aprendi muito e pode-se dizer que foi impotante, sim, para a minha formação.

OT: E posteriormente tuas leituras foram para qual lado?

ET: Livros espiritualistas. Li durante uma época muitos desses livros. Isso aos 18 anos. Os rosa-cruzes, as coisas maçônicas, o que era misterioso, era segredo, era oculto. Tudo isso se enlaça numa personalidade.

OT: A música que te despertou vocação artística, não é? Quando apareceu a poesia?

ET: Foi uma coisa banal. Alguém da casa espírita – da qual eu já fui presidente – me manda por email para entrar no grupo “Mil maneiras de amar”. Eu começo então a ler poemas. Eu olhava um poema e eu dizia “eu sei fazer isso!” (risos). Aquilo mexeu comigo. Comecei a fazer parte, então. Foi uma retomada. Como se um período estivesse dormindo, latente, desde a época que eu trabalhava com musica. Toda aquela minha vocação artística ressurgiu de repente. E então comecei a escrever e a colocar meus poemas na Internet, que é uma maneira maravilhosa de divulgar trabalho. Afinal, estamos num período de transição de mídias.

OT: A questão da autoria com a Internet é complicada, não é?

ET: Eu nunca tive um problema grave. A não ser uma poetisa do Rio de Janeiro que apontou um poeta do Rio que estava roubando alguns versos meus. Então, ela pediu que ele retirasse esses versos e deixou um “cuidado com a tua obra”. A Internet facilita muito a comunicação, mas banaliza também.

OT: Discute-se muito se o livro vai continuar como hoje o conhecemos. Eu coloco também a questão: a poesia vai continuar? Como disse Gilles Lipovetski, vivemos na “era do vazio”. Será que a poesia vai continuar a assumir um papel importante como tem assumido na história da humanidade?

ET: A poesia é uma forma de resistência contra a banalidade, inclusive com a própria língua. Não temos como saber se vai sumir ou não, porque a nossa sensibilidade apenas nos deixa perguntas, vivemos tudo de maneira muito rápida. Basta ver na Internet. Um grupo solta 500 poemas do nada….mas é um momento interessante em que todo mundo escreve. Daqui a pouco vem uma imagem, vem um significante, tu retiras aquele significante…. Daqui a pouco aparece um poema com isso.

OT: Que poeta provoca isso em ti?

ET: Os portugueses, principalmente. Bocage, Castro Alves, Florbela Espanca, Vinicius de Moraes….os sonetistas, principalmente.

OT: E dos contemporâneos?

ET: Na Net. José Agusuto de Carvalho, Eugenio de Sá…..todos portugueses que eu conheci na Internet. A Rosa Pena também. O Carpinejar é um deles, é talentoso. Mas eu estou muito ligada aos clássicos.

OT: Borges disse que nenhum livro com menos de cem anos merecia ser lido….

ET: É porque ele permanece. É porque ele provou o seu valor. É porque ele falou da alma, da universalidade. A arte é do universal.

OT: Tu falas muito da questão da inspiração e que de repente eclode em forma de poesia. João Cabral de Melo Neto diz que poesia é trabalho. É trabalho?

ET: É trabalho e muito trabalho. Porque uma coisa é a imagem, a outra coisa é a traduzi-la em palavras e outra é metrificar. E isso é o mais lindo, quando tu consegues trabalhar o poema e deixá-lo como tu queres. Aqueles que como eu elegeram o soneto que tem que cuidar da metrificação, isso é um grande trabalho. Agora, quando está pronto, dá um alívio….e tu dizes “meu Deus” fui eu quem fiz!

OT: Dostoievski diz que escrever é libertar demônios…

ET: O poeta está sempre falando nele. Mesmo os poemas sociais, e isso qualquer analista vai te dizer, são metáforas. É o poeta que está falando dele sempre.

OT: O Mario Faustino dizia que o mau poeta degrada o idioma. Conseqüentemente degrada e civilização. Ele colocava a função da poesia num patamar elevadíssimo, civilizatório.

ET: Mas é. Aquele que escreve um mau poema não é poeta. Existe a poesia e o poema. Só porque alguém versou, pôs numa forma, isso não faz dele um poeta. Falta a poesia. Às vezes é uma prosa, às vezes é até prosaico, mas está numa forma de poema e não é um poema, é apenas um bom texto. Aprendi a fazer essa distinção com os poetas portugueas que me ajudaram a diferenciar o que é um bom texto e o que é poesia. Há que se saber diferenciar, porque senão….quando se diz um mau poeta, será que existe um mau poeta? Ou existe o que é poeta e o que não é poeta?

Publicada originalmente em O Timoneiro

maio 17, 2010 Posted by | Entrevistas, Literatura | Deixe um comentário

Letras de hoje e de amanhã

Ficção brasileira contemporânea (Editora Civilização Brasileira, 174 páginas), de Karl Erik Schollhammer, é um livro ambicioso. Sua tarefa é dificílima por dois motivos. Primeiro, porque há uma dificuldade inerente a toda crítica que quer definir um período específico de história literária estando dentro deste período. Avaliar contemporâneos é sempre complicado e apontar o valor de determinadas obras lançadas há pouco, com pouca fortuna crítica e poucas releituras – que Borges considerava ainda mais importantes do que as leituras – é como avaliar o impacto de uma guerra na história da civilização no meio de uma batalha desta mesma guerra, entre tiroteios, gritos do general e cadáveres. Por esse motivo, o mesmo Borges nos aconselhava a não ler livros com menos de um século de existência. A crítica não pode, porém, escusar-se de fazê-lo e é o que Schollhammer faz aqui, com todas as dificuldades que acima referimos.

O segundo motivo é apontado, ainda que indiretamente, pelo próprio Schollhammer. Uma das marcas da produção literária brasileira atual é a sua heterogeneidade: nela não encontramos uma tendência dominante, referenciais comuns entre os autores ou sequer algum tipo de preferência de estilo ou forma. Fica difícil, portanto, reunir tantos autores, com tendências tão díspares, dentro de um esquema comum. Schollhammer apenas ensaia uma elaboração deste esquema e deixa claro que não é possível ir muito além disso. Ao fim de tudo, Ficção brasileira contemporânea acaba sendo uma ótima seleção de autores e um ponto de partida – a ser complementado, talvez, daqui a alguns anos – para uma caracterização da produção literária nacional das últimas décadas. O que, deve-se dizer, já não é pouca coisa.

Onde encontrar:

Grupor Editorial Record

maio 7, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Oficina de poesia

Ao abrirmos Artesanato de Poesia: fontes e correntes da poesia ocidental (Editora Companhia das Letras, 588 páginas) de Mário Faustino (1930-1962) talvez tenhamos a sensação de estar diante de uma enciclopédia ou de um dicionário. Explica-se: cada um dos textos que compõem o volume apresenta um poeta, com sua biografia, sua bibliografia, um estudo de sua obra devidamente contextualizado e a análise de um ou dois poemas. Ou seja, são muito semelhantes aos verbetes de enciclopédias de grande porte, como a Britannica ou a Mirador.

O tom é manifestamente didático. O objetivo de Faustino era ensinar poesia ao leitor, o que, aliás, já transparece pelo título da obra e fica ainda mais claro quando sabemos que os “verbetes” foram publicados não em revistas especializadas ou em periódicos acadêmicos – que praticamente inexistiam à época – mas sim num suplemento dominical do Jornal do Brasil. O foco era tanto o leitor descansado de domingo disposto a estudar os clássicos quanto o jovem aprendiz disposto a ingressar no Empíreo artístico. Por trás disso está a importância que Faustino conferia à poesia: encarava o fazer poético e a sua importância para a cultura e a própria civilização com aquele sentido de high seriousness de que falava Matthew Arnold. Um mau poeta, dizia o autor de O Homem e a sua Hora, degrada o idioma; por conseqüência, degrada a civilização. Nada mais, nada menos do que isso.

Onde encontrar:

Companhia das Letras

maio 7, 2010 Posted by | Literatura | 1 comentário

Na luta contra o mal

Há quem culpe eventos como o nazismo, o fascismo e comunismo pela decadência cultural de uma dada época ou de um dado povo. E não deixa de ser verdade. No caso alemão, por exemplo, toda uma geração de brilhantes intelectuais e artistas nascida nos começos do século XX foi morta, aprisionada ou obrigada a emigrar. São as conseqüências nefastas causadas por uma situação-limite. Porém, esta mesma situação-limite, ao pôr em causa os princípios básicos sobre os quais assentou-se a civilização, dá a chance para aqueles que acreditam firmemente nestes princípios lutarem por eles, mostrarem o seu valor e deixarem uma lição para as gerações vindouras. É este o caso do teólogo alemão Dietrich Bonheoffer, tema da obra Dietrich Boenhoeffer – Cristianismo e Testemunho (Editora da Universidade do Sagrado Coração).

As 115 páginas do livro, de autoria da Irmã Miriam Cunha Sobrinha, apóstola do Sagrado Coração de Jesus, talvez não sejam suficientes para a importância deste grande teólogo, pastor e membro da resistência antinazista na Alemanha. Mesmo assim, constituem uma excelente introdução ao seu pensamento e à sua vida, que teve um trágico fim em 1943, na prisão, quando foi enforcado após ter participado do complô para assassinar Hitler. Quando lhe perguntaram sobre as implicações morais de fazer parte de um plano para matar alguém, ele respondeu: “É melhor fazer um mal do que ser o mal”.

Onde encontrar:

http://www.usc.br/edusc/

(14) 2107 7220

abril 23, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Escuridão urbana

Noite Luz, de Marcelo d´Salete, insere-se numa linha de produção artística bra¬sileira que inclui filmes como Cidade de Deus e Estação Carandiru, a obra de Rubem Fonseca, Paulo Lins e Ferrez e a música dos Racionais e de MV Bill. Compartilha com eles o retrato pintado em cores fortes de um cenário urbano terceiro-mundista que sufoca seus habitantes e condiciona as suas vidas a poucas opções que lhes são destinadas mais pela sorte do que por qualquer outra coisa. O jogo da sorte e do azar é o jogo dos totalmente desamparados, perdidos nas selvas de pedra de um país sem lei e sem ordem que não sabe onde alocar seus filhos miseráveis. É uma odisséia tipicamente brasileira – tão típica que já se transmutou em arte. As seis histórias que compõem Noite Luz são partes dessa odisséia da qual todos somos protagonistas. O título do livro (e da primeira história) é o nome de um clube noturno de São Paulo onde se passam todas as ações e para onde tudo inevitavelmente converge. As personagens e os acontecimentos todos estão interligados, mas guardam entre si a autonomia necessária para que tudo não acabe num “gran finale” previamente desenhado e perceptível para os leitores mais atentos. Até porque o mundo de Noite Luz não tem espaço para “gran finales”.

Onde encontrar: http://www.vialettera.com.br/

(11) 3862.0760

abril 18, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Reencontrando Jack

Jack, o Estripador, é um dos britânicos mais conhecidos de todos os tempos. Rivaliza com Sherlock Holmes, a Rainha Elizabeth e os Beatles e certamente é mais conhecido do que os Rolling Stones, David Beckham e Alfred Hitchcock – aliás, numa votação de 2005, foi escolhido como o pior súdito de sua Majestade da história. Já foi tema de livros e filmes e não faltam teorias acerca de sua verdadeira identidade. Uma das mais interessantes foi lançada pelo inglês Stephen Knight em 1976, segundo a qual os assassinatos foram parte de uma conspiração para ocultar o nascimento de um herdeiro bastardo ao trono britânico. Apesar de ser criticada por todos os estudiosos do tema, a teoria ganhou fôlego e inspirou ninguém menos que o quadrinista Alan Moore, autor de Watchmen e V de Vingança, a escrever Do Inferno (Via Lettera, 4 volumes), uma de suas histórias mais conhecidas e respeitadas, agora finalmente publicada em português.

Para além do roteiro admiravelmente bem construído de Alan Moore, repleto de referências históricas à Inglaterra vitoriana (cada volume da coleção tem um longo apêndice onde são explicadas estas referências), Do Inferno impressiona pelo traço sombrio de Eddie Campbell, maravilhosamente bem casado com o cenário londrino da época, cheio de smog, fuligem e escuridão real e metafórica de uma época de grande progresso econômico e terrível decadência social.

Um ambiente propício para o surgimento de assassinos cruéis, e, sobretudo, de boas histórias e bons autores. Como Alan Moore e seu Do Inferno.

Onde encontrar:

http://www.vialettera.com.br

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abril 18, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

A redescoberta de Vicente Ferreira da Silva

A  Editora É Realizações, de São Paulo, vem cumprindo um importante papel de divulgação, no Brasil, de autores pouco conhecidos entre nós ou então esquecidos da nossa intelectualidade. Tal é o caso de Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), filósofo paulistano falecido precocemente aos 47 anos e autor de uma das obras filosóficas mais originais em língua portuguesa. Apesar de sua atividade fecunda durante o seu relativamente curto tempo de vida – trabalhou junto ao jurista Miguel Reale na fundação do Instituto Brasileiro de Filosofia – e de ter recebido algum reconhecimento em vida, hoje é um nome praticamente esquecido, algo em parte explicável pelas poucas reedições de sua obra. A publicação de suas Obras Completas em dois volumes supre esta carência.

Influenciado pela fenomenologia (Edmund Husserl, Max Scheler e, sobretudo, Martin Heidegger, de quem foi um dos primeiros leitores no Brasil), Ferreira da Silva foi apontado pelo português Antonio Braz Teixeira como “o mais brasileiro dos filósofos brasileiros, pela divinização da natureza e pelo politeismo/paganismo do seu pensamento, pelo verdadeiro sentido cósmico que revela”, ligando-o a figuras de orientação semelhante, como Guimarães Rosa e Glauber Rocha, a fim de constituir uma contribuição brasileira e original à cultura ocidental. Este primeiro volume, intitulado Dialética das Consciências, reúne trabalhos publicados entre 1948 e 1958, como a própria Dialética das Consciênicas – provavelmente a sua obra-prima – incluindo também ensaios publicados em revistas sobre temas circunstanciais de época que, no entanto, não perderam a atualidade. Um grande lançamento para este final de ano.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572 7363

abril 2, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Desejo na literatura

A ficha catalográfica de Mentira Romântica e Verdade Romanesca (É Realizações, 366 páginas, tradução de Lilia Ledon da Silva) indica um livro de crítica literária. Muito provavelmente o faz por falta de definição melhor para esta obra de estréia do filósofo francês René Girard, já que o sentido comumente aceito de crítica literária não cabe para qualificá-la. O livro de Girard é muito mais do que isso.

Aqui, filósofo francês expõe pela primeira vez a sua teoria do desejo mimético, estabelecido entre sujeito e objeto com a presença de um mediador. Este mediador é uma espécie de modelo para o sujeito: é através da presença dele que o objeto se torna digno de ser desejado. Para Girard, todo desejo humano é assim. O clássico e definitivo exemplo desta teoria é o do caso amoroso, que existe menos per se do que para ser compartilhado com amigos: o homem trai a esposa mais para contar aos amigos do seu feito do – amigos que tem em alta estima e que considera também como modelos – do que para qualquer outra coisa. Para Girard, na literatura ocidental a presença deste mediador é, implícita ou explicitamente, apontada pelos verdadeiros romancistas, e ele o demonstra através da análise das obras de Cervanes, Stendhal, Proust, Dostoievski e Flaubert. A partir da leitura cuidadosa destes clássicos surge uma perturbadora revelação: a de que não somos autônomos e livres como somos dados a crer.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572 5363

abril 2, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Pensar o mundo

É fácil vermos os cientistas como seres estranhos, imersos em teorias inexplicáveis e alheios a todo problema mundano que cerca os mortais comuns. É conhecida a história onde Albert Einstein, caminhando pelo campus da universidade onde dava aulas, perguntou aos seus alunos de onde ele vinha. Atônitos, responderam que vinha da direção do refeitório. A resposta do gênio foi: “bom, então isso significa que eu já almocei. Posso ir trabalhar”. Verdadeira ou não, a história confirma o clichê.

Não é este o caso de José Goldemberg. É um dos maiores físicos brasileiros e sua contribuição para a física nuclear é reconhecidamente importante, sendo que seus estudos na área de energia inspiraram o uso do etanol pelo governo brasileiro como alternativa de combustível renovável. Além disso, e talvez mesmo por isso, Goldemberg é também um defensor ferrenho da preservação do meio Ambiente – tendo ocupado inclusive a pasta do setor no governo federal – um mestre preocupado com os rumos da educação no país e um cidadão brasileiro que busca alternativas para tornar o futuro do país um pouco melhor. Este O Mundo e o homem (Editora Perspectiva, 240 páginas) revela este lado de Goldemberg através de artigos escritos para a grande imprensa brasileira sobre temas candentes e pertinentes à sua especialidade. Uma obra de um cientista dedicado a pensar o mundo em que vive, preocupado em fazer o leitor pensar – e assim, transformar, a todos nós, em seus alunos.

Onde encontrar:

http://www.perspectiva.com.br

(11) 3885.8388

março 26, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Terror em Barrow

Confesso que não fui verificar se a cidade de Barrow, no Alaska, existe ou não. Provavelmente é mais uma destas cidades que só existem nas páginas dos quadrinhos, como Gotham City, Metropolis, Sin City e tantas outras que, de tão presentes no imaginário dos leitores, chegam a parecer reais para muita gente. Barrow não tem o encanto cosmopolita de Metropolis e nem o clima misterioso de Gotham City; é apenas uma cidadezinha perdida naquele bloco de gelo ao Norte do Canadá que os EUA compraram dos russos em 1867. Teoricamente, não é cidade para figurar no mapa mundi dos comics. Mais figura. E por um motivo que, hoje, está muito na moda: vampiros.

Que os incautos não se confundam. Os vampiros que atuam em Barrow em 30 dias de noite – retorno a Barrow (Devir Livraria) não têm nada a ver com aqueles seres dóceis e sensíveis que alguns livros e filmes da moda tentam nos impingir. Estes vampiros são uma criação recente. Os vampiros de Barrow são old school e não estão interessados em parecer simpáticos a adolescentes: estão interessados em matar gente. Muita gente. E esta cidade, localizada nas proximidades do pólo Norte, é o local perfeito para quem quer fazer isso: durante os meses de inverno, o sol não aparece no horizonte e os moradores vivem numa escuridão contínua por 30 dias. Como sabemos, vampiros agem à noite. E a noite, em Barrow, é longa, como as noites de festas memoráveis costumam ser.

P.S: Acabei de consultar a Wikipédia. Barrow existe, sim. Pensando bem, talvez fosse bom que não existisse.

Onde encontrar:

www.devir.com.br

(11) 2127- 8787

março 25, 2010 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Calvin e Haroldo

Quem tem o hábito de ler os quadrinhos dos cadernos de cultura e lazer de nossos jornais certamente conhece as tiras de Calvin e seu urso de pelúcia, Haroldo. Muitos começaram a gostar do personagem a partir dali e a acompanhar o desenrolar das histórias.

É curiosa a confecção destas tiras de jornal. Devem interessar ao leitor e prender-lhe a atenção e, ao mesmo tempo, dar a sensação de continuidade e despertar a curiosidade pelo desenrolar da história na tira do dia seguinte, como pequenos capítulos de um romance. No meu caso, não partilhei desta singular experiência. Fui conhecer Calvin publicado em livros e demorei a perceber que as tiras poderiam ser lidas de forma independente. Um desses livros é o agora reeditado Deu Tilt no Progresso Científico (Conrad Editora, R$ 29,90).

Cada um terá o seu Calvin preferido: o Cosmonauta Spiff, o Homem Estupendo, o aventureiro que viaja até o tempo dos dinossauros sem sair do quintal, o que provoca a Susi e é provocado pelo Moe. Todos estes são, sem dúvida, merecedores de citação. Mas, para mim, os momentos maiores do personagem de Bill Waterson são aqueles em que Calvin e Haroldo estão sozinhos, quase sempre em morros ou bosques, conversando sobre a vida, o destino do homem e a sociedade onde vivem, sempre com muito bom humor. Um bom exemplo destes diálogos – o melhor de todos os presentes no volume, para mim – está na página 27 do livro e prefiro omitir o seu conteúdo. Vale a pena comprar o Deu Tilt no Progresso Científico só para lê-lo.

Onde encontrar:

www.conradeditora.com.br

(11) 2799-7799

março 25, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Um mistério chamado Mário Faustino

O poeta piauiense Mário Faustino (1930-1962)  é um dos grandes mistérios da literatura brasileira. Não por causa de sua obra, que, embora complexa e conectada ao que de melhor se produzia nas vanguardas do Ocidente – principalmente Ezra Pound, T.S. Eliot, Dylan Thomas, Guillaume Appolinaire e outros -, não faz por merecer a pecha de hermética ou ilegível. Tampouco pela sua personalidade, pois, jornalista de profissão e adepto da divulgação da literatura através da crítica, nada tinha em comum com conhecidos ermitões da literatura, como o recém-falecido J. D. Salinger, ou com aristocratas encastelados, como Stefan George. O mistério que envolve o nome de Faustino não é de sua autoria e sim de seus contemporâneos e pósteros. E, como todo mistério, traz uma pergunta: como é que o autor de O Homem e Sua Hora (Companhia das Letras 226 páginas) foi esquecido?

A resposta é complexa e muito provavelmente nós a encontraremos para além da literatura propriamente dita, lá longe, no terreno pantanoso da política literária, onde o que menos importa é o talento e onde Faustino, como muitos homens de verdadeiro talento, tinha sérias dificuldades em se movimentar. Felizmente, a condição de leitores nos poupa de enfrentar questões deste patamar.  Esta edição de O Homem e Sua Hora Letras vem acompanhada de ensaios introdutórios da organizadora, Maria Eugenia Boaventura, e do filósofo Benedito Nunes, amigo de Faustino, além de uma coleção de poemas esparsos do autor, publicadas em vários jornais e revistas, e alguns até mesmo inéditos. Um pequeno livro que ajuda a reparar parcialmente uma injustiça histórica.

Onde encontrar:

www.ciadasletras.com.br

(11) 3707 3500

março 22, 2010 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

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