PERSPECTIVA

Ler Tintim hoje

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A Companhia das Letras vem lançando desde o ano passado a coleção completa das obras de Tintim, que completa agora em 2009 seus oitenta anos. Trata-se de um dos maiores fenômenos de venda neste gênero em todo o século XX.  A fama de Tintim no auge de sua popularidade, entre os anos 40 e 60, fez com que o presidente Charles de Gaulle fosse obrigado a admitir que, no estrangeiro, ele era o único francófono capaz de rivalizar com ele. Talvez fosse um excesso do presidente francês: Tintim era muito mais conhecido do que De Gaulle e provavelmente muito mais admirado. São nada menos do que 200 milhões de álbuns vendidos desde que o cartunista belga Hergé publicou a primeira história  no “Petit Vingtième”, suplemento do jornal belga “Le Vingtième Siécle” destinado aos jovens: “As Aventuras de Tintim no País dos Sovietes”.

O título já diz tudo: o repórter belga Tintim vai à então recém-criada União Soviética para fazer uma reportagem sobre aquele novo país que contava apenas doze anos de existência. Enfrenta tudo o que um visitante da União Soviética tem direito: a repressão da polícia, o olhar atento dos vigilantes a qualquer estrangeiro (ainda mais, Ocidental), o aparelho estatal atento a tudo e, enfim, a falta da liberdade com a qual está acostumado. O roteiro não parece própro para jovens – ou, pelo menos, para os jovens de hoje – mas o livro ajudou a catapultar Tintim para o sucesso, vendendo dezenas de milhões de cópias e se tornando um dos mais conhecidos de toda a  sua bibliografia.

Uma pequena passada pelas suas páginas nos mostra as características principais da obra de Tintim, como o traço ligne claire (“linha clara”, em francês), marcante e forte, sem distinguir figuras que estão no plano de fundo ou em primeiro plano. Mas, principalmente, o que nos chama a atenção no livro é que ele parece datado, por uma série de razões: é em preto e branco; o traço clear line talvez não seja tão aceito hoje; a própria referência a um país que já não existe , e a maneira como esta referência é feita – enfim, tudo dificulta a nossa aproximação do texto. A leitura destas Aventuras de Tintim no País dos Sovietes têm, para nós, um efeito semelhante ao da leitura daqueles relatos fantásticos de exploradores europeus nas Américas ou de Marco Polo na China. E não só delas. Todas as obras de Tintim nos dão essa mesma impressão, até mesmo quando ele está em países que até hoje existem.

É uma sensação estranha. Em 1929, quando este livro foi publicado, pouca gente sabia como era a vida na União Soviética. Tintim era um stranger in a strange land, e nós, ocidentais como ele, o considerávamos um emissário nosso nestas terras. Sua visão dos soviéticos era a nossa, assim como a sua visão dos chineses, dos australianos e de todos os povos do mundo correspondia mais ou menos à nossa visão deles. Não por acaso, Tintim no Congo é, hoje considerado um livro racista pela maneira como retrata os africanos sem qualquer preocupação com o politicamente correto: em 1929 – e em 1939, em 1949 e até mesmo em 1959 – não havia preocupação com essas coisas.  Da mesma forma, em 1929 fazer uma viagem destas para os confins do mundo civilizado era algo raríssimo: ninguém, ou quase ninguém, ia a Macchu Picchu falar em aimará com os nativos. Hoje, visita-se não só Macchu Picchu mas qualquer vila minuscula em volta e pede-se uma Coca-Cola em inglês sem problemas. Qualquer um faz o caminho de Santiago, visita a Muralha da China, faz mochilões por qualquer canto desconhecido do mundo ou, muito simplesmente abre o Google Earth e tem uma idéia de como é o mundo para além das nossas fronteiras. Um Tintim não precisa nos emprestar sua visão do mundo eurocêntrica para que possamos conhecer o mundo que nos cerca. Ele não é necessário e também não é interessante. Boa parte do roteiro de suas histórias e de suas aventuras calca-se no choque civilizacional entre ele,habitantes de um dos centros da cultura européia, e a perifeira ou além-periferia que ele visita. Claro que são aventuras inteligentes, que os personagens são ótimos – o capitão Haddock é simplesmente espetacular – mas esse confronto, essa aventura que aparece em todos os títulos de suas histórias já não fazem muito sentido para nós. O mundo século XXI é um mundo sem grandes aventuras, sem grandes lugares para descobrir. Tintim é muito menos lido hoje por isso. É pena. Talvez uma das melhores razões para lê-lo seria a possibilidade de recordar de um mundo em que visitar o outro lado do Globo envolvia muito mais do que simplesmente clicar um mouse.

Abril 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura, Livros | | Sem comentários ainda

Fugindo do apocalipse

Desde que comecei a ouvir falar na Internet ouvi falar também no fim da mídia impressa. Era o fim dos livros, substituídos pelos e-books; era o fim da revista, substituída pelas revistas eletrônicas, então escritas em corpo de e-mail para desespero dos míopes; e, claro, era o fim dos jornais. Nem se falava em blogs, flogs, twitters e assemelhados e o fim da imprensa – entendida aqui no seu sentido original, isto é, de algo impresso no papel – já era trombeteado em alto som para quem quisesse e quem não quisesse ouvir. Os argumentos sempre foram os mesmos: espaço ilimitado, economia de gastos, liberdade infinita e até vantagens do ponto de vista ecológico, uma vez que árvores seriam poupadas. Em suma, a sentença de morte não admitia apelação. O jornal estava condenado e seu desaparecimento era questão de tempo.

O tempo então passou. O jornal, como sabemos, não morreu. Claudica, é verdade: as tiragens caem em todo o mundo todo – sobretudo nos EUA – e acompanham uma tendência que vem de há muito tempo, por vários e outros motivos. Mas o fato é que ainda não acabou. E não acabou também o discurso apocalíptico, o qual, como todos os discursos apocalípticos, pode até se tornar démodé, ultrapassado e até brega mas nunca morre de fato. Transmuta-se, mascara-se, usa outros códigos, mas permanece na boca de alguém e volta e meia vem à tona com força, ocupando espaço de destaque e assumindo a aparência de grande novidade. Antes, defendia-se apenas que o jornal em papel estaria com os dias contados. Hoje, nem mesmo os jornais eletrônicos têm seu espaço garantido, tamanha é a profusão de blogs especializados que não cobram por acesso e informam – segundo os defensores desta opinião – tão bem quando os melhores articulistas dos grandes jornais e com muito mais independência. A última eleição nos EUA, em que blogueiros que trabalhavam à noite, após o expediente, tornaram-se participantes ativos de campanhas e vozes a serem escutadas por políticos e analistas experientes, parece ser mesmo um sinal bem forte de que não se trata mas de um exercício de futurologia à 1984 e sim do reconhecimento de um fato concreto e estabelecido.

Não resta dúvida de que a Internet conquistou de vez um espaço dentro da grande mídia e que este espaço tende, no momento, a crescer. Também não resta dúvida de que o jornal deve se reinventar e buscar alternativas para poder sobreviver, se quiser sobreviver, em meio ao turbilhão de informações que assola este novo milênio. A dúvida que resta é: o jornal tem como se reinventar? Pode continuar a ocupar um espaço só seu? Terá instrumentos para resistir? Há algo de intrínseco ao jornal, algo próprio só dele, que lhe assegure a permanência?

Recordo aqui a entrevista concedida pelo americano Henry Jenkins, especialista em mídia, ao canal Globonews há uns meses atrás. Jenkins é um dos maiores estudiosos da difusão da informação com o advento da Internet e da adaptação da humanidade a este novo quadro. Segundo ele, vivemos em uma época em que a quantidade de informação circundante é várias vezes superior à nossa capacidade de assimilar e processar novidades. Com um clique no Google acessamos referências de diferentes níveis de qualidade sobre praticamente tudo e de modo imediato. A questão é que nem sempre temos e sabemos como escolher as melhores fontes diante de tantas opções que se nos apresentam. As palavras de Jenkins não deixam margem a dúvidas: “Precisamos aprender a participar seletivamente ou seremos soterrados pelas informações”. Fazendo uma comparação com uma mídia mais “antiga”, é como uma pessoa que almeja tornar-se um grande sábio acumulando leituras desordenadas sobre os mais diversos assuntos. Sua cabeceira está cheia de livros sobre Física Relativística, filosofia alemã, botânica, esquemas táticos de futebol e estudos sobre o Expressionismo, escolhidos à mão livre, sem cuidado e com pressa. Aquele que escolhe bem essas leituras já não é um leitor sem orientação – é um verdadeiro erudito, capaz de orientar os demais no mesmo processo. E aquele que “participa seletivamente” da informação na Internet é o jornalista. Ou melhor: será o único jornalista digno de sobreviver a este novo mundo. Eis aí o seu provável espaço: pequeno, reduzido, mas ao mesmo tempo indispensável para que a informação circule de maneira proveitosa. Não é preciso lembrar que este é um trabalho de profissional – e, portanto, um trabalho pago.

É claro que nem todos gostam disso. O serviço é redobrado e exige um preparo e uma dedicação que, penso eu, os egressos das faculdades de jornalismo cada vez menos têm (e aqui fala alguém que já freqüentou os seus bancos). O jornalista que quiser permanecer deverá compreender as novas exigências de sua profissão e adaptar-se a elas. E deverá compreender também que, se estas exigências forem cumpridas com êxito, desta grande ameaça que ora paira pode surgir uma nova e grandiosa era para o jornalismo. Até que um outro discurso apocalíptico venha a ressurgir.

Abril 18, 2009 Publicado por Celso Augusto Uequed Pitol | Literatura, Livros | | Sem comentários ainda