A Londres de Clarissa Dalloway

Os dias de junho são agradáveis em Londres. Excetuando pontuais ondas de calor mais forte, o verão naquelas latitudes jamais castiga as pessoas da maneira como nós, da parte subtropical do mundo, estamos acostumados. Nesses dias, é possível acordar com manhãs frescas, bem temperadas pelos ventos que sopram do Tâmisa e encontram os apressados londrinos em suas lidas diárias.

Uma dessas manhãs foi aquela, de junho de 1923, em que Clarissa Dalloway saiu de sua casa para comprar flores. Abriu a porta e foi recebida pelo ar matutino, que lhe pareceu “como o tapa de uma onda; como o beijo de uma onda”. Era Londres, a sua Londres, que a recebia para mais um dia de verão. Esse dia, que dá início a “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, é um dia londrino, passado em Londres e entre londrinos.

A Londres pela qual Clarissa passeia é uma cidade em transição. As melhorias urbanas e a migração para os subúrbios saneiam a metrópole, muito mais agradável nesse século do que no anterior. Os automóveis já são um transporte popular, e os famosos ônibus de dois andares circulam pelas ruas ao lado de tramways, bondes e linhas de metrô que cortam a cidade de norte a sul.

E Clarissa caminha em meio a tudo isso: passa pelo Big Ben, passeia pela Bond Street, vê os ônibus na Picadilly; é tocada pela dança das pessoas na metrópole. Na escrita de Virginia Woolf: “Nos olhos dos passantes, na sua pressa, no seu andar, na sua demora; no burburinho e vozearia; carros, autos, ônibus, caminhões, homens-sanduíches, bamboleantes e tardos; charangas; realejos; na glória e no rumor e no estranho aerocanto de algum avião sobre a sua cabeça, estava isto, que ela amava: a vida, Londres; aquele momento de junho”.

Como dizia Samuel Johnson, quem está cansado de Londres está cansado da vida. E Clarissa ama a vida; por isso, ama Londres. E aquele momento de junho, com seu frescor matutino, só ajuda a amá-la ainda mais.

 

Texto originalmente publicado no livro “Virginia Woolf” (Edições Companhia Zaffari, 2019). 

Tolstoi e Proudhon

Pierre-Joseph Proudhon – Wikipédia, a enciclopédia livre

A Rue du Conseil situa-se na zona sul de Bruxelas, capital da Bélgica. No começo do século XIX, a região foi um reduto de artistas, intelectuais e exilados políticos. Um deles foi o filósofo anarquista Pierre Joseph Proudhon. Perseguido em sua França natal, ocupou o número 8 da rua entre 1858 e 1864. Naquele número, Proudhon lia, escrevia e recebia visitantes.

Em março de 1861, recebeu um jovem russo de trinta e três anos. Proudhon nunca havia visitado a Rússia, mas estava familiarizado com os russos: recebia muitas cartas de admiradores daquele país, onde suas opiniões sobre a liberdade, a autogestão, a educação e o papel da mulher agitavam debates entre intelectuais progressistas. O jovem que lhe batia à porta era um desses muitos admiradores. Seu nome era León Nikolaiévich Tolstoi.

Tolstoi Facts | O Escriba

Os dois se entenderam muito bem, embora pertencessem a mundos muito diferentes. Proudhon era um pensador progressista de origem operária, enquanto Tolstoi era filho da aristocracia russa, um mundo estagnado e preso ao passado. Mas o russo pensava no futuro: tinha ideias revolucionárias sobre educação, inspiradas em Proudhon, e estava ali para compartilhá-las com ele. Esboçava o projeto de uma escola libertária, onde os jovens seriam livres para aprender o que quisessem. O objetivo, mais do que instruir, seria criar cidadãos livres e conscientes.

Proudhon ouviu-o atentamente. Abriu a gaveta e mostrou um manuscrito ao visitante. O material, então inédito, defendia a guerra como princípio fundamental da vida humana, criador das leis, das instituições sociais e da própria cultura. O título desse manuscrito era “La Guerre et la Paix” (“A Guerra e a Paz”). Tolstoi se interessou e revelou que também escrevia um livro sobre a guerra. Pediu-lhe, então, autorização para tomar o título emprestado. Proudhon, que não se importava com direitos autorais, autorizou o uso. “O livro era, é claro, o monumental “Guerra e paz”.

Proudhon não viria a conhecer a obra-prima de seu interlocutor: morreu em 1865, quatro antes da primeira edição de “Guerra e paz”. Já Tolstoi, que visitara o número 8 da Rue du Conseil na condição de jovem admirador, sairia dali com suas convicções reforçadas e enriquecidas – e com um título que entraria para a história da literatura.

Texto originalmente publicado no livro “Tolstói e Dostoievksi’, da Companhia Zaffari

O Homem diante da peste:  um capítulo de “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni

A Lombardia de Manzoni: região de Lecco, gravura de Francesco Gonin

“A peste, que o tribunal sanitário se empenhara em manter à distância, entrara, com as hordas imperiais, para invadir e despovoar não só o território milanês, como parte da Itália” (…) “Em fins de março, a enfermidade já assumira caráter epidêmico, em todos os bairros da cidade; generalizavam-se os males súbitos, com toda a sucessão dos sintomas nefastos, as mortes rápidas, violentas, não raro repentinas, sem qualquer indício anterior da doença”.

Com poucas alterações, os dois trechos acima bem serviriam para descrever a Itália assolada pela epidemia de coronavírus. No momento em que escrevo, o número de mortos aproxima-se de sete mil e o de infectados já ultrapassa setenta mil. As medidas de quarentena forçada não surtiram, até agora, o efeito desejado: pelas ruas vazias de Milão – e também de Bérgamo,  Cremona,  Lecco , Pavia e outras cidades lombardas – passa um cortejo de caminhões com corpos de vítimas, em busca de vagas em cemitérios já lotados. Mas os trechos não são de alguma notícia recente, e sim de um livro antigo, com quase duzentos anos, que traz uma insuspeita mensagem para hoje: trata-se de “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni.

Não é um título muito conhecido pelos brasileiros. Na Itália, contudo, “Os Noivos é um clássico de primeira ordem: publicado em 1827, está no mesmo patamar de importância das obras de gênios como Petrarca ou Tasso e apenas um degrau abaixo do incomparável Dante Alighieri e sua “Divina Comédia”. No colégio, os italianos leem Manzoni pelos mesmos motivos que nós, brasileiros, lemos Machado de Assis ou Euclides da Cunha – e, tal como nós, brasileiros, esquecem-se dele quando completam os estudos secundários. É leitura obrigatória de escola, e sofre do destino comum às reveses das leituras obrigatórias.

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Capa da primeira edição de “Os Noivos” (“I promessi sposi”)

Há noticias, contudo, de que os italianos retornaram a “Os Noivos” após a explosão da epidemia. As vendas – pela Internet, evidentemente – dispararam nos últimos dias e, pouco antes da decretação de quarentena, vários professores de literatura aproveitaram o momento para abordar a obra com seus alunos. O “Corriere dela Sera” exorta os italianos a voltarem às páginas do velho clássico: “releiamos Manzoni”, ordena um artigo recente.

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Alessandro Manzoni

Não podemos deixar de perguntar: há espaço para literatura numa hora dessas? Um amigo residente em Roma define o momento: a Itália está de joelhos. O que a literatura pode dizer aos italianos agora? Podemos conjecturar uma resposta.

A narrativa de “Os Noivos” se passa, como os trechos selecionados demonstram, num período de epidemia: a peste bubônica que atingiu a  Lombardia ao redor dos anos 1630, com foco especial em Milão, a maior cidade da região. Em uma pequena localidade do interior vive um casal, Lorenzo (apelidado “Renzo”) e Lucia. São gente simples, sem instrução e muito católica, como costumam ser os camponeses lombardos. Renzo e Lúcia estão noivos e desejam casar-se, mas esbarram na negativa do vigário local. O motivo? Um nobre da região, Dom Rodrigo, apaixonou-se por Lúcia e quer impedir o matrimônio. A partir daí, tem início uma trajetória de 38 capítulos, tentando escapar de vários obstáculos para que o sonho se concretize.

 Os capítulos que Manzoni dedica à instalação da peste em Milão são o 31 e o 32; pertencem, portanto, ao terço final da obra. Destacam-se do resto da narrativa em estilo e em temática: são quase como um “intermezzo histórico” dentro do romance. Manzoni narra todo o processo de surgimento e disseminação da peste, processo cujos episódios guardam espantosa semelhança com o momento atual. Está tudo ali: os primeiros contágios; a omissão criminosa das autoridades, que menosprezaram o perigo da doença; o descuido do povo, que não soube avaliar bem o risco que corriam; as teorias conspiratórias sobre a origem da moléstia, culpando estrangeiros, bruxos, demônios, o que fosse; e, por fim, a degradação moral, com a ascensão de bandidos, escroques e aproveitadores e a destruição dos mais elementares laços sociais. “Os marotos”, conta Manzoni, “poupados pela moléstia viam, na confusão geral, uma garantia de impunidade e dela se valiam para extorsões e rapinas. À perversidade acrescentava-se o desvario dos desgraçados milaneses, constrangidos a viver entre cenas repelentes e montes de cadáveres. O terror dissolvia os laços mais íntimos e elevava sombria desconfiança entre esposos e irmãos”. Assim como a Milão de 2020, a de 1630 está de joelhos.

Está desenhado o cenário de horror. Mas é um cenário que Renzo precisa encarar: recebe a informação de que Lúcia está em Milão. No capítulo 34,  Manzoni toma-nos pela mão e convida-nos a acompanhar o jovem camponês pelas ruas da cidade sitiada. Eis o que encontra:

“Já então, privada de dois terços dos seus habitantes – mortos, doentes ou emigrados -, a cidade perdera a animação habitual. Poucos transeuntes nas ruas, em trajes sumários, sem capa nem capote, para oferecer o mínimo de facilidades aos ‘untadores’. Desleixados no aspecto, os cabelos e a barra hirsutos, iam em geral armados de bordões, não raro de pistolas, e providos de pastilhas perfumadas, de esponjas embebidas em vinagre aromático, ou de pequenos recipientes com azougue. Os fidalgos não só saíam sem o séquito usual, mas apareciam de cabaz ao braço, comprando comestíveis e artigos necessários. Os amigos cumprimentavam-se de longe. Cada qual procurava desviar-se dos estorvos repulsivos e mortíferos que se lhes deparavam no caminho, bem como andar constantemente no meio da rua, para evitar as imundícies ou outros fardos macabros arremessados pelas janelas.”

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Renzo caminha por de vielas contaminadas, atravessa praças apinhadas de cadáveres e se esgueira pelos cantos dos edifícios lacrados por contaminação. Quando sai de alguma situação difícil, ouve um grito estrepitoso, um choro, um pedido de algum desesperado. Na famosa Praça de São Marcos, um patíbulo e uma forca aguardam quem desobedecer às ordens de quarentena. E assim segue, rua a rua, como num labirinto infernal, encontrando agressividade, inimizade, prantos e terror.

Nas proximidades do canal Naviglio, Renzo encontra um cidadão. Dirige-se a ele com o chapéu na mão, respeitosamente, como decerto lhe ensinaram seus pais. Espera, naturalmente, uma resposta parecida. Mas recebe o contrário: o estranho lança-lhe olhares de suspeita, recua e ameaça-o com uma bengala de ferro, ordenando, aos gritos, para que se afaste. Na Milão sitiada e de joelhos, já não valem os códigos morais que os homens conhecem. Grande parte é tentada a atirá-los fora, como literatura ultrapassada, e aceitar o jogo da barbárie. Dignidade e decência nesta hora? Manzoni reconhece que é assim, mas o quadro escuro que pinta traz alguns pontos de luz.

 

Renzo ouve, de longe, uma mulher presa à sacada de um prédio fechado pelo comissário por suspeita de contaminação. A mulher tem fome. Renzo não tem dúvidas: apanha os pedaços de pão que traz no bolso e oferece à faminta. A seguir, passa por uma viela encontra um padre, de pé, junto a uma porta entreaberta, com o ouvido colado a uma fresta. Trata-se de uma casa condenada pelo governo de Milão, cheia de infectados pela peste esperando apenas pelo fim. O padre escuta as confissões de todos e ministra, ali mesmo, a extrema-unção. A degradação, afinal, não atingiu a todos. Os códigos não estão mortos; e, para alguns, podem servir como uma espécie de amuleto contra a desumanização.

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“A mãe de Cecília”, quadro

É o que Renzo assiste quando encontra uma mãe que carrega uma criança nos braços. A criança tem nove anos e está morta. Chama-se Cecília. Passam diante dela os “monatti”, grupo de criminosos pagos pelo governo milanês para recolher os cadáveres dos vitimados pela peste. Vêem o corpo da menina e tentam, com a brutalidade costumeira, arrancá-la dos braços da mãe para deitá-la por cima dos cadáveres que carregam, como um objeto estragado recolhido na rua. Mas a mãe resiste: afasta-se e mergulha a mão no bolso em busca das últimas moedas – provavelmente as últimas que verá em vida -, entrega-as aos “monatti” e faz duas exigências: a de que ela mesma acomodará a filha no comboio e que eles não encostarão um dedo nela. Trato feito, a mãe beija a testa da criança, ajeita-a como se a deitasse na cama, cobre-a com um lençol e sussurra:

– Adeus, querida Cecília. Descansa em paz. Logo à noite, estaremos contigo.

Esse é um dos episódios mais lembrados pelos leitores de “Os Noivos” – e é, para muitos estudiosos, a culminação poética do livro. O fato de Manzoni ter reservado as suas melhores tintas para uma completa despossuída, que resiste com tudo o que pode em perder o último pedaço de dignidade, demonstra a importância que dava a esse momento para entender o sentido geral da obra. Talvez seja por isso que, nesta hora difícil, os italianos retornem às páginas de “Os Noivos”: para lembrar que, se a Itália está de joelhos, só enfrenta a peste aqueles que permanecem em pé.

 

 

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Oswald de Andrade e o “homem cordial”

Oswald de Andrade passou a segunda metade dos anos 40 dedicado ao estudo. O desligamento do Partido Comunista Brasileiro, ocorrido em 1945, e o desapontamento com os rumos do mundo pós-guerra levaram-no a rever posicionamentos: segundo o filósofo Benedito Nunes, Oswald esperava o “ocaso dos imperialismos, das ditaduras e da moral burguesa” – o que, como se sabe, não aconteceu. Ocupa-se, então,  das leituras, sobretudo em filosofia, encaminhando ideias que frutificarão na década seguinte.

Um dos primeiros frutos destes anos decisivos para Oswald está na comunicação “Um aspecto antropofágico da cultura brasileira: o homem cordial”, apresentada no Congresso Brasileiro de Filosofia em março de 1950. Ali estão presentes dois elementos fundamentais: primeiro, a retomada das ideias antropofágicas dos anos 20, que a aproximação com o marxismo havia eclipsado; segundo, a leitura de “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda – sobretudo o capítulo dedicado ao “homem cordial”.

Oswald sublinha a tendência do brasileiro a incorporar em si os sentimentos do outro. Esta tendência guarda proximidade com características do homem cordial delineado por Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”. Cordial, de cors, coração em latim; é o homem movido pelas emoções e que tende a preferir a vida social, a comunhão, a “expansão para com os outros”, o “viver nos outros”. São os traços definidores do brasileiro – o homem cordial por excelência. O homem que “devora” – ritualisticamente – o seu semelhante.

Na leitura de Buarque, estes são traços problemáticos: o homem cordial seria resquício de um passado rural, arcaico e atrasado. A superação do atraso, com a urbanização e o desenvolvimento, sinalizará, também, a superação do homem cordial. Já Oswald vê nele a prefiguração de uma nova forma de ser e estar no mundo, onde a alteridade e a comunhão substituirão o individualismo do homem moderno.

Oswald desenvolverá este ponto de vista no ensaio“ A Crise da Filosofia Messiânica”,também de 1950, onde a decepção da década anterior dá lugar à releitura otimista e à esperança. As novas ideias frutificam: o homem cordial – emotivo, dado à comunhão, ao “viver nos outros” e à antropofagia ritual – não apenas subsistirá como será o modelo de um novo homem, de um novo mundo.

O homem que parou o tempo

O filósofo esloveno Slavoj Zizek foi convidado pela rede de televisão Russia TV para fazer um comentário sobre a trajetória de Fidel Castro no dia de sua morte, 25 de novembro de 2016.

Todos esperavam um discurso laudatório: trata-se, afinal, de Slavoj Zizek, um dos maiores nomes do pensamento de esquerda de hoje, autor de obras fundamentais como “Em defesa das causas perdidas” e “Bem vindo ao deserto do real!” e partícipe frequente do debate público progressista. Quem o convidou decerto imaginou que ele partilhasse do luto das esquerdas pela morte do grande comandante da Revolução Cubana.

Pois quem pensou assim, pensou errado. Logo que recebeu a palavra do apresentador, Zizek tratou de decepcionar a produção do programa e, principalmente, a sua audiência: “Peço desculpas aos meus amigos esquerdistas, mas creio que Fidel deva ser esquecido o mais rápido possível”.

O apresentador do programa parou por um momento. Como assim? Esquecido? E com a audácia de dirigir-se aos “amigos esquerdistas” com um pedido banal de desculpas? Seria o caso de alguém chamar-lhe a atenção.

Mas ninguém fez isso; e Zizek é do tipo que, quando não encontra oposição, prossegue sem pedir licença. Foi o que fez: “Perguntem a si mesmos: Cuba produziu algo de novo em termos de prática social, em economia, cultura e política?”. Novo silêncio. Ninguém opôs nada. Zizek, é claro, prosseguiu: “Quando visitei Cuba há uns 10 anos o .que me deprimiu não foram as violações de direitos humanos ou a economia: foi a sensação geral de estagnação. Nada mudava. Não havia criatividade, não havia atividade na economia , na cultura. Era um lugar onde as pessoas ficavam sentadas e esperando”.

A ala esquerda da Internet reagiu à fala de Zizek. Muitos o acusaram de eurocentrismo, de não compreender a experiência socialista cubana e de fechar os olhos para conquistas sociais da Revolução de 1959. Quanto a mim, creio que, de fato, Zizek não compreendeu Castro nem a Revolução Cubana. Se tivesse compreendido, não criticaria o fato de os cubanos viverem num ambiente onde nada mudava e onde o tempo havia parado. Pelo contrário: saudaria  Fidel Castro por ter cumprido seu objetivo. Porque as cinco décadas em que ele passou à frente do governo cubano foi precisamente isso: uma resistência contra o avanço do tempo.

O tempo cumpre um papel fundamental da cosmovisão capitalista. Ao contrário das sociedades do mundo antigo, marcadas por um tempo cíclico e circular, a sociedade ocidental capitalista vive no tempo evolutivo. Busca-se o avanço, o progresso, a substituição incessante do antigo pelo novo; rejeita-se a estabilidade e a estagnação. Nós, que vivemos nela, sabemos disso: andamos por aí com os olhos no relógio, conferindo o telefone a cada instante – e dizemos, para explicar o porquê de fazermos isso, que “tempo é dinheiro”. Os comunistas , que buscam a superação do capitalismo através da instalação do socialismo, entendem que esta instabilidade já foi superada– e a mudança e a novidade, que lhe são características, já não têm razão de ser.

Essa característica do mundo socialista, que Fidel quis recriar nos trópicos caribenhos, foi muito bem percebioda por Milan Kundera. Oriundo do bloco comunista – nasceu em Praga, na então Tchecoslováquia, em 1929 -, Kundera descreveu com agudeza o ambiente geral daquele universo em “A insustentável leveza do ser”, sua obra mais conhecida, presença obrigatória de toda prateleira dos bons leitores nos anos 80. A esquerda, diz ele, é aquele lado do espectro político que acredita na Grande Marcha, “aquela soberba caminhada sempre em frente, a caminhada em direção à fraternidade, à igualdade, à justiça, e ainda mais para lá, apesar de todos os obstáculos, porque para a marcha ser a Grande Marcha é preciso que haja obstáculos.” É o lado que acredita, em outras palavras, no progresso.

Mas esta Marcha não seguirá indefinidamente: terá um fim quando for estabelecida uma sociedade onde os ideias de igualdade, fraternidade e justiça sejam acessíveis a todos. Esta sociedade, Kundera diz, é aquela que os entusiasmados militantes socialistas edificaram para criar um paraíso – um paraíso na terra. Nesta sociedade não haverá mais marcha alguma: a História e o tempo humano terão chegado ao seu fim.

Fidel e seus companheiros – com seu irmão, Raul, e Che Guevara à frente de todos – trabalharam sem cessar para que o tempo dos cubanos parasse em janeiro de 1959, quando a Revolução triunfou. A face mais visível deste esforço é percebida por todo turista que visita Havana e caminha pelo centro da cidade, em tudo idêntico ao dos anos 30 ou 40, e contempla os automóveis antigos, de variável estado de conservação. A face menos visível está – para ficarmos em um só exemplo – nas escolas cubanas. Ali persistem modelos educativos com ênfase na disciplina e na memorização, que passaram incólumes a todas as novidades da pedagogia. Enquanto os jovens do mundo todo passaram vão à escola usando todo tipo de roupa, calçado e corte de cabelo, os alunos cubanos seguem, em 2016, indo às aulas de camisa, calça e sapatos – exatamente como seus congêneres do mundo todo faziam em 1959.

Já nos EUA, ao lado de Cuba e de Fidel, o tempo continuou a passar – e velozmente. Nos EUA, os relógios seguiam e seguem correndo, e os homens, a reboque dos relógios, seguem em busca do que há de maior, melhor, mais forte, mais poderoso, mais qualificado: é preciso criar novas roupas, novos transportes, novas maneiras de estudar e ensinar, novas formas de governar a sociedade, novas maneiras de organizar o mundo. As sociedades submetidas ao tempo não aceitam aquelas que se consideram fora do tempo: tentam punir tal audácia. E os EUA tentaram, e tentam, punir Cuba de todas as formas, arrancando-a de sua beatífica estagnação para jogá-la na mesma estrada livre e desimpedido que percorrem em alta velocidade.

Mas Fidel resistiu a todas as investidas do tempo. Enfrentou-o como um capitão de navio, que encara os golpes das ondas numa tempestade em alto-mar. Enfrentou e saiu vencedor: Cuba segue sem participar da corrida. Talvez por isso Zizek tenha achado estranho que os cubanos vivam como pessoas que ficam sentadas à espera de algo. Para nós, que, como Zizek, vivemos sob o domínio do tempo, é mesmo difícil de entender. O que fazem ali? Que esperam? Minha suspeita é: esperam que nos juntemos a eles.

Descaso na Zona Sul de Porto Alegre

Era uma tarde de sexta-feira, 19 de junho. Fazia sol e frio o que satisfazia minha exigência para um dia ser considerado agradável.

A Zona Sul de Porto Alegre foi o destino escolhido para pequeno passeio  após visita ao Foro Central da capital. Para quem não sabe, a Zona Sul porto-alegrense sempre foi considerado um local à parte da cidade, uma espécie de refúgio bucólico em meio ao turbilhão urbano da capital gaúcha. Não à toa, foi por anos escolhida por moradores como local para passar férias em uma época em que era muito difícil o acesso ao litoral gaúcho. Mesmo nos dias atuais, conserva o charme e a beleza que sempre a caracterizaram.

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A Rua Vicente Failace

Enfim. retornando à descrição da tarde de sexta-feira, estava tudo perfeito.  Encontrado o local para um bom café, a rua aprazível convidava para uma caminhada. A Rua Vicente Failace reúne qualidades que encantam seu visitante. Ao final dela, a surpresa de constatar que desemboca no Guaíba, com um cenário que se descortinava encantador.

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No entanto, a decepção ocorreu tão logo me aproximei da beira do rio. Se por um lado o local é naturalmente lindo e zelado por seus moradores, as margens do Guaíba demonstravam outro cenário. Grande quantidade de lixo se acumulava junto à margem, agredindo os olhos de todos que prezam por meio-ambiente e urbanização com sustentabilidade. O descaso do poder público fica evidente pela evidente ausência de um olhar interessado na preservação da qualidade de vida na cidade. Os resíduos, provavelmente levados pelas águas até o local, ferem a paisagem, atingem o meio-ambiente e dificultam alavancar Porto Alegre e sua Zona Sul como melhor destino turístico.

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O lixo acumulado: a Zona Sul merece melhores cuidados

Um socialista na Casa Branca?

“Este país não pertence apenas a um grupinho de bilionários”. 

Gore Vidal dizia que os Estados Unidos têm um só partido, o Partido da Propriedade, com duas alas à direita: a republicana – mais estúpida, mais rígida, mais cegamente devota do capitalismo liberal – e a democrata – mais “bonitinha”, um pouco mais corrupta e mais disposta a fazer alguns ajustes diante das demandas de pobres, negros e anti-imperialistas. Daí a dificuldade que muitos têm em aplicar ao contexto americano a distinção, frequente no resto do Ocidente, entre direita e esquerda: para Vidal, e para muitos outros, não há esquerda nos EUA. Pelo menos não uma esquerda com condições de vencer eleições.

O insuspeito Paul Krugman, em artigo recente, enfrenta esta questão e garante: a situação está mudando. Para ele, os Estados Unidos estão apresentando um nível de polarização política que desde a Guerra Civil não se vê; há, portanto, uma fissura no Partido da Propriedade. Os projetos de democratas e republicanos estão muito bem delineados e a oposição entre eles é bem clara: enquanto os democratas tentarão expandir o alcance dos programas sociais, a intervenção estatal na economia e reduzir gastos bélicos, os Republicanos farão todo o contrário. Ou seja, o Partido Democrata cada vez mais se consolida como uma típica alternativa da esquerda nos moldes europeus. Já os Republicanos, bem – estão cada vez mais Republicanos.

Uma das marcas desta situação é a candidatura de Bernie Sanders às prévias do Partido Democrata, lançada nesta terça-feira, dia 26 de maio. Senador pelo Estado de Vermont, ex-prefeito de Burlington (capital daquele Estado), este nova-iorquino de 74 anos, nascido e criado nas durezas do Brooklyn, tem antiga e ampla identificação com movimentos de esquerda e partidos não-alinhados, como o Liberty Union. Atualmente, Sanders é oficialmente um senador independente – o que é permitido nos EUA – mas alinhou-se com os democratas para concorrer, recebendo apoio do grupo Occupy Wall Street e do partido Democratic Socialists of America, que apresenta a inusitada condição de ser americano e ter ligações com a Internacional Socialista. Uma inusitada condição que Sanders partilha: é um autoproclamado socialista, que apoia fortemente as cooperativas lideradas por trabalhadores, a regulação da mídia e a criação de um sistema público de educação superior e de saúde, além de simpatizar abertamente com o tradicional modelo escandinavo de social-democracia, que está em perigo na própria Escandinávia.

Um candidato com um discurso desses acaba por fazer muitos inimigos nos EUA. E Sanders elegeu, ele próprio, mais um: a desigualdade. “O que temos visto” – diz ele – “é que, enquanto as pessoas trabalham mais horas por dia por salários cada vez mais baixos, temos visto um grande aumento de renda e desigualdade de riqueza, que agora está atingindo níveis obscenos”. E vaticina, sem medo de ferir suscetibilidades: “Este país não pertence apenas a um grupinho de bilionários”.

É justamente a crescente desigualdade de renda que, segundo a análise de Krugman, está causando esta polarização na política americana: os ricos, à medida que ficam mais ricos, tendem a rumar para a direita do espectro político, eliminando concessões a qualquer resquício de sensibilidade social que poderiam alimentar. Além disso, as recentes medidas de Obama para regular Wall Street afastaram de vez os grandes investidores do Partido Democrata (de quem nunca foram muito fãs, é bom que se diga) e os levaram a migrar para o lado dos republicanos. Aos democratas restou a base do eleitorado, que vem perdendo renda em comparação com os ricos. Os americanos, aponta Krugman, terão, pela primeira vez em muito tempo, uma verdadeira escolha a fazer na eleição do ano que vem.

A candidatura de Sanders é fruto deste momento. É claro que ele entra na disputa como azarão: do outro lado estará nada menos do que Hillary Clinton, que dispensa apresentações e tem a grande vantagem de transitar um pouco melhor entre investidores e megaempresários, um tanto descontentes com os obamismos. Mesmo assim, sua mera presença já ajuda a aglutinar a esquerda em torno de uma figura forte, com poder político e de negociação. Talvez o Partido da Propriedade de Vidal ainda não tenha a sua dissidência. Mas parece certo que está finalmente formada a sua ala esquerda.

Entre o sertão e a biblioteca

GROSA

Talvez nenhum autor brasileiro tenha trabalhado tanto para escrever uma obra atemporal como Guimarães Rosa. Não que outros grandes nomes da nossa literatura trabalhassem a fundo perdido, sem quererem que sua obra se perpetuasse. Ao contrário: pretensão nunca faltou entre eles. A diferença entre eles e Guimarães Rosa é a intenção. É como se escrevessem apenas para o momento, para as discussões do dia-a-dia, resposta para chamados como a hipocrisia das elites, a necessidade de fundar uma nacionalidade ou a beleza singela do amor singelo, quase sempre expressa com o máximo de singeleza. Transcender os apelos ligeiros é um expediente ao qual nossos literatos não são muito afeitos, mesmo quando pretensiosos. Deixam essas coisas para os filósofos, e estes para os filósofos estrangeiros. Essas coisas de eternidade estão lá longe e não nos interessam tanto assim.

Mas elas interessam muito a Guimarães Rosa e, por isso, no momento em que escrevia, – e, sobretudo, no momento em que escrevia Grande Sertão: Veredas– estava muito ciente do impacto de sua obra na literatura brasileira. Sabia que trabalhava com assuntos que, se haviam sido tratados antes, o foram de modo superficial, embrionário, olhadelas de soslaio durante viagens que não raro levavam ao nada, e ainda assim de modo completamente diferente. Sabia-se único, em suma. Pôde talvez antever que se falasse, trinta anos depois de publicada a sua obra maior, de nada menos do que uma cosmologia de Grande Sertão: Veredas, com direito a criação do mundo, bem e mal, ascensão e queda e tudo o que uma cosmologia que se preze tem direito.

Sem querer tirar daqui a metafísica – até porque, por definição, é ela que nos abarca, e não nós a ela –, devemos voltar nossos olhos para o enfoque escolhido, que é o da linguagem, algo um tanto óbvio quando se fala de Guimarães Rosa. É o que logo de cara chama a atenção de qualquer um. Palavras que nunca vimos antes surgem a todo instante, e Grande Sertãocomeça, algo solenemente, com uma delas, Nonada, uma contração de “não, nada” ou “não é nada”, falada pelos jagunços do sertão. Temos que aprender a sintaxe própria do autor, que não é a mesma do português que vemos no dia-a-dia, ainda que o idioma seja, sem sombra de dúvida, o português. Os personagens têm nomes estranhos, união de vocábulos que são também união de significados e dão ao personagem suas principais características pessoas, à maneira das antigas narrativas míticas. Cada palavra e cada frase são pequenas “obras abertas”, na acepção de Umberto Eco. São desafios à nossa lógica, e não poderia ser diferente: Guimarães Rosa é pré-lógico, puramente intuitivo, sem a regulação daquela estruturação da linguagem exibida nas gramáticas e nos manuais de retórica. E o é conscientemente, como ele mesmo confessou:

“(…) Como eu, os meus livros, em essência, são anti-intelectuais – defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração, sobre o bruxulear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, da megera cartesiana. Quer captar a experiência direta com o ser, e por isso prefere ‘ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff – com Cristo principalmente”. Rosa quer, portanto, a intuição. Segundo a bela definição de Benedetto Croce, intuição é a “forma auroral do conhecimento”, anterior à lógica e à petrificação que os conceitos sempre trazem. Qual é a saída para um escritor assim? É a poesia. Segundo Croce, ela é a intuição pura, única linguagem capaz de “captar o palpitar da vida em sua realidade”. Por isso o Grande Sertão, malgrado a sua forma romanesca – é aquela em que ele mais facilmente se encaixa –, é essecialmente poético, e por isso nos parece primitivo, como a Ilíada e as sagas islandesas nos parecem primitivas no enredo e na linguagem.

Em um ensaio intitulado “o Iapa de Guimarães Rosa”, o filósofo tcheco naturalizado brasileiro Villém Flusser dá uma missão a Guimarães Rosa. Segundo ele, nosso idioma sofreu dois grandes purgatórios: o primeiro deu-se quando, após a purificação da língua latina, a migração dos povos bárbaros vulgarizou o idioma. Após um breve florescimento durante o Renascimento, começou o segundo purgatório, marcado pelo preciosismo lingüístico, o excessivo apego à forma e o sufocar da imaginação, que redundou na gramatiquice muito nossa conhecida. Para Flusser, Guimarães Rosa será o responsável pelo renascimento do português como língua de cultura, ao unir o que ele chama de língua do sertão e língua das bibliotecas – isto é, a língua em estado bruto, do dia-a-dia do homem, do homem rural, sobretudo, e a língua cristalizada em estruturas que resistem às mudanças. É a língua do vaqueiro e a do empoladíssimo professor de língua, de Lampião e de Napoleão Mendes de Almeida. Eis o que faz Rosa, segundo Flusser:

“Viaja com os vaqueiros em busca de palavras e formas. Dorme com os bezerros para captar os ruídos e as imagens brutais que tendem a realizar-se na linguagem sertaneja. Sorve a plenitude das vogais e mastiga a dureza das consoantes para apalpar a matéria prima da língua”. Logo depois, “mergulha nos compêndios, anota e compara formas de gramática latina, húngara, sânscrita ou japonesa para penetrar o tecido da língua e desvendar-lhe a estrutura”.

A empolgação de Flusser ao antever um futuro glorioso para a criação rosiana é análoga à empolgação da época – o ensaio data dos anos 60– com o futuro do Brasil e, especificamente, o da nossa cultura. Não podemos dizer que ele tenha se equivocado, apesar de tudo. Ainda que a obra de Guimarães Rosa não tenha sido, até hoje, bem digerida pelos frágeis estômagos dos literatos brasileiros – que costumam engolir finas iguarias como se fossem pipoca de cinema, e por isso raramente ultrapassam o nível da imitação barata – resta-nos a esperança de que a vista contemplada por Guimarães Rosa seja tão ampla quanto parece. Como bem observou Ferreira Gullar, ele estava plantando ipês, árvores para florescerem séculos depois de germinadas. E, quando isso começar, os séculos que geraram metáforas desgastadas como “túmulo do pensamento” e “inculta e bela” ficarão definitivamente para trás.

A derrota dos melhores

O poema “The Second Coming” – “A Segunda Vinda” – do irlandês William Butler Yeats é uma obra-prima da poesia moderna e uma das maiores peças literárias de língua inglesa em todos os tempos. Cheio do simbolismo muito particular à poesia do próprio Yeats, um estudioso de ocultismo e mitologias orientais (e, não obstante tudo isso, um cristão), o poema publicado em 1921 ala de uma época em que “tudo desmorona; o centro se desmembra/ Mere anarquia recai sobre o mundo/Monta a sombria maré sanguinolenta/ E a cerimônia da inocência é afogada em toda parte“. E, a seguir, resume em duas linhas qual é o espírito geral desta época: “Os melhores perdem toda convicção, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”

Não é preciso dizer que as leituras de The Second Coming são quase tantas quanto são os seus leitores. Para Harold Bloom, Yeats enxerga a instalação do comunismo na Rússia, em 1917,  e as suas promessas redentoras de criação de um novo mundo e de um novo homem como um prenúncio apocalíptico do retorno de um falso Cristo, de um falso Messias, de um Anticristo, prometendo uma Salvação sem Cristo e uma religião sem Deus – e, por isso, uma falsa Salvação e uma falsa religião. O último verso faz uma pergunta aterrorizante: “Qual horrenda besta, quando chegar a hora, arrastar-se-à até Belém para nascer?”. Talvez Yeats não se referisse apenas ao comunismo russo daquela época. Talvez este poema com mais de sete décadas de vida não seja mero produto de época – e, se o for, esta época provavelmente não terminou.

Para dizer a verdade, depois de saber deste caso, cristaliza-se em mim a convicção de que vivemos, sim, a época da Segunda Vinda, a época em que o centro que guiava o mundo já não retém nada, a época em que a besta procura Belém para renascer e, enganando a todos, guia a humanidade como um profeta em direção ao abismo. A época, em suma, em que os piores estão cheios de paixão, e que os melhores, como Gilberto Thums, perdem toda a convicção no que fazem.

A Vigésima-Quinta Hora, de Virgil Gheorgiu

Pouco se sabe da Romênia no Ocidente, e quase nada no Brasil. A etimologia nos remete a uma origem latina presente no radical “Rom”, o mesmo de “Roma”, “romanos” e “romance”. Abrimos um livro de história e descobrimos que, de fato, os romanos lá estiveram, primeiro sob as ordens de sua Roma natal, do ano 10 até o 410, e depois sob as de Bizâncio, até 1456. São, portanto, quatorze séculos de civilização latina, mais do que a maior parte dos países ocidentais. Concluímos que o radical “rom”, de romanos, é mesmo também o de romenos – aliás, desde o século VII, quando foi utilizado pela primeira vez. Por fim, desdobramos um mapa-múndi e direcionamos nossos olhos para o Leste Europeu, onde o nome do pequeno país aparece. Então nos damos conta de que este pequeno país latino está cercado por alemães, húngaros e vários povos eslavos, os quais o separam, por pouco, da Turquia e dos países do Oriente Médio. E foi neste país latino, circundado por vizinhos que circunstâncias históricas transforaram ora em aliados, ora em inimigos ou dominadores, que produziu um dos maiores romances sobre a barbárie que esteve perto de destruir toda a civilização que a Romênia carrega em seu nome: este romance é “A Vigésima-Quinta Hora”, de Virghil Gheorgiu.

Na epígrafe da edição portuguesa – traduzida por ninguém menos do que Vitorino Nemésio – há uma citação de Toynbee que diz o seguinte: “a história, como drama, é como o romance – filha da mitologia. Escrever a história é, também, fazer ficção: selecionam-se fatos, enfatiza-se alguns deles, interpreta-se outros. A “Ilíada” pode contar a história da Guerra de Tróis e “Guerra e Paz”, a das invasões napoleônicas na Rússia; a história da Segunda Guerra e de seus efeitos produzidos na alma dos homens, é o que – também – nos conta Virghil Gheorgiu, o romeno Virghil Gheorgiu, habitante de um país cristão e latino cercado por inimigos. Cristão e latino quer dizer ocidental – só que o Ocidente já esqueceu o que é ser cristão e latino. Na Europa Oriental, entretanto, o legado se conservou, fortalecido pela dura resistência ao avanço dos turcos otomanos. Uma resistência, antes de tudo, interior: mesmo após terem sido conquistados pelo Império Otomano, os romenos não abandonaram o cristianismo, diferentemente de seus vizinhos, tão facilmente convertidos às religiões materialistas inventadas depois do Iluminismo, como adolescentes imaturos às ordens de uma nova gangue!

O termo “gangue” cabe bem aqui. Pois o nazismo, o fascismo e o comunismo têm o mesmo poder de atração dos gângsters; seduzem pela violência injustificada, pela lei do mais forte, pelo assassíno em nome da causa – e um assassínio desses, amparado por uma causa sem sentido, e, também ele, sem sentido. Diante dessas gangues, os romenos não capitularam. Romenos como Johann Moritz, o personagem central de “A Vigésima Quinta-Hora”. Moritz vive numa pequena aldeia da Transilvânia, interior da Romênia. Seu único desejo, como todo aldeão romeno, é manter sua casa, casar com a mulher amada, ter uma boa família e seguir os 10 mandamentos. Nada mais do que isso. Aparentemente, não há nada de errado com Moritz. O seu problema foi ter vivido durante a Segunda Guerra Mundial sendo quem é – um cidadão comum que não empunhava bandeira alguma. Sem manifestar qualquer simpatia por causas maiores, Moritz é sucessivamente perseguido por nazistas, comunistas e democratas ocidentais, acusado de judaísmo (por ser amigo de judeus e ter um nome que soa judaico), reacionarismo (por ser cristão) e comunismo (por ter o azar de ter sido preso junto com eles). Ele não entende praticamente nada do que está acontecendo à sua volta – e, mesmo assim, jamais, em momento algum, deixa de ser quem é. Intuitivamente. Sem levantar bandeiras, sem proclamar nada, sem autoproclamar-se nada. Moritz é apenas um indivídio solitário oprimido entre mundos que não o compreendem e que ele não compreende. Assim como a própria Romênia, país latino entre não-latinos, pobre entre europeus ricos e corajosamente cristão entre ateus.

Tudo o que Celso Augusto Uequed Pitol publicou está aqui

Arabi Rodrigues, poeta do pampa

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Otto Maria Carpeaux dizia que a cultura popular era algo importante demais para ficar nas mãos dos intelectuais. Essa bela amostra do refinado senso de humor do historiador austro-brasileiro é um libelo contra a intromissão de certas teorias que tentam – ou tentavam, porque andam em desuso – explicar as coisas do povo dentro de linhas evolutivas e processos históricos, como se a arte – ou a música, ou a poesia – de origem popular fossem um mero estágio inicial de cultura à espera de desenvolvimento. Essas teorias transformam o povo em mero joguete para seus ímpetos classificatórios e nos ensinam a desprezar Homero, o Antigo Testamento, as sagas islandesas, as odes anglo-saxônicas, o Martin Fierro, todos os cancioneiros nacionais e outros exemplares insuspeitos de clássicos oriundos da massa iletrada que o cânone letrado aceita. Tais criações seriam, no máximo, produtos de época, bons para figurar nas primeiras páginas da historiografia literária ocidental como documentos de um tempo bárbaro e rude já passado há muito e sem ressonâncias notáveis no presente. Assim eles as classificam.

Felizmente, Arabi Rodrigues não se classifica. Quando perguntam a este grande payador gaúcho, nascido em Canguçu e há muito tempo morador de Novo Hamburgo, na Grande Porto Alegre, se sua poesia é popular ou erudita, ele confessa que não sabe dizer. E não precisa mesmo. O homenageado na abertura da Feira do Livro, na última sexta-feira, em cerimônia realizada no Centro Cultural Érico Veríssimo – quando recebeu a medalha “Jayme Caetano Braun” do mérito gaúcho 2007″, conferida pela União Brasileira de Trovadores – , sabe muito bem que as classificações por gêneros não são estanques e, sobretudo, que elas são um trabalho a ser feito posteriormente. Não é tarefa do verdadeiro poeta definir-se a si próprio. Isso o faz a crítica.

Talvez o assunto peça outra pergunta. A poesia de Arabi – e vamos defini-la desta forma, mais justa do que o uso indiscriminado de adjetivos – bebe em quais fontes? O que ele leu e ouviu para escrever e cantar? Arabi aprendeu a fazer payadas com um negro uruguaio analfabeto que lhe ensinou a rigorosíssima métrica da poesia gauchesca. Por esse lado, é claramente popular. Ao mesmo tempo, venera Camões, Cervantes e toda a tradição literária ibérica – em sua biblioteca há um grosso volume antigo de poesia popular açoriana, outro do argentino Hilário Ascasubi, outro de poesia portuguesa e outro da espanhola – uma tradição , que, segundo ele, nenhum poeta que viva num espaço de confluência como o Rio Grande do Sul tem o direito de ignorar. Nesse sentido, a poesia de Arabi é bem popular, já que toda poesia verdadeiramente popular é tradicional. Os antigos aedos gregos sabiam épicos inteiros de cor e seguiam regras muito estritas ao declamá-los, sob pena de perderem o sagrado posto que ocupavam. O povo faz o mesmo com os poetas que subvertem as regras. Até gênios como Whitman tentaram desesperadamente soar populares ao abolir a rima e a métrica, julgando abolir também o caráter aristocrático da poesia para devolvê-la ao povo – e fracassaram totalmente. Borges notou certa vez que os cantores do interior da Argentina tentavam compor no espanhol mais castiço que podiam e cuidavam escrupulosamente a rima, ainda que, no dia a dia, parecessem ignorar a conjugação de todos os verbos. Claro: tinham a poesia em alta conta e a tratavam como algo distinto, quase sagrado.

Araby pertence sobretudo a esta última tradição: a dos cantadores gauchescos. Sua matéria é o pampa, terra sem fronteiras que se estende por quatro países e reúne todas as raças que povoaram a América. E Arabi , como homem da fronteira, bilíngue e binacional, sente-se igualmente à vontade em Buenos Aires, Montevidéu, Artigas, Uruguaiana, Rio Grande ou Santiago Del Estero. Basta alguns minutos de conversa íntima com ele para ouvirmos que “no hay diferencia” entre os países do pampa, que tal poema ou autor é “muy lindo” e que sua poesia não pretende tomar o lugar de “nadie”, já que para todos “hay espacio”. A mistura sai livremente. Lembra a caracterização do uruguaio Julián Murguia em “Contos do País dos Gaúchos” daqueles homens falando uma mistura de português e espanhol, indo e vindo por cima de uma fronteira que não existia”.

Binacional é o poeta, e sua poesia também. Arabi é um representante brasileiro da payada, estilo não só pampeano como também andino e chaquenho, presente portanto em praticamente metade da América do Sul. Tanto é que ninguém sabe precisar se a origem da palavra é castelhana, portuguesa, guarani ou quíchua. O payador é primo do repentista e dos cantadores sertanejos e caipiras, acompanhado ou não de música. Payador foi o mítico Santos Vega e também Juan Nava e Gabino Ezeiza, todos argentinos, payador foi o germânico (com sangue indígena) Jayme Caetano Braun, payador foi o negro analfabeto e anônimo que ensinou Arabi a rimar, foi o basco Hilario Ascasubi, que o portenho Borges venerava – e Borges, autor de um livro de milongas e de muitos poemas de inspiração gauchesca, também tem algo de payador. Esse negro anônimo e tantos anônimos de todas as cores sentam à beira do mesmo fogo de chão à espera da vez para declamar. A payada é, como nenhum outro estilo, a música da América Latina por excelência, espaço onde se congregam, e sob vários títulos, as muitas linguagens e cores que compõem o mais colorido dos continentes.

Um espaço tão vasto e variado como este inspira, como poucos no mundo, a imaginação do poeta. A seguir, fragmentos de alguns poemas de Arabi Rodrigues, pequena parte de uma grande produção que já conta vários volumes.  Os excertos são do livro “Marcas do Tempo”, publicado em 1997.

Da copa do cerro grande,

avô dos cerros de volta,

a vista ganhou distância

por entre as coxas de pedras,

por onde passa a sanguinha

que deságua no arroio.

No fim dos olhos compridos,

o dia chega cansado

no bivaque do poente

prádespir-se do motivo

do suor dos nossos dias,

mas uma réstia teimosa,

insiste em ser refletida

na prata das Tres Marias.

(Jarau)

…………………………..

“Ao passo lento dos dias,
As horas vão engolindo
A distância dos andantes,
Que buscam apenas um lume,
Sem pretensão de chegar.
Essa paciência arrastada
Que dilata os horizontes,
É só um pequeno trecho
Que a gente precisa andar”

(Caponete)

……………………

“Depois de chegar no topo
Da Cordilheira dos Andes,
a pampa surgia grande
Como promessa divina;
a libertade apontava
o vento mostrando o rumo
Para quem chegava de longe
Para fazer pátria no sul.
O verde e o céu azul
Se abraçavam na distância,
como miragem da infância
Que o tempo guarda no prumo”

(El Peon Arriero)