PERSPECTIVA

De Siegfried a São Jorge

“São Jorge matando o Dragão”, relevo em mármore de Donatello, Museu del Bargello, Florença-Itália

O guerreiro Siegfried é um dos heróis mais importantes da mitologia nórdica. Personagem principal da Canção dos Nibelungos, tradicional história germânica que baseou a ópera de Wagner, aparece em várias outras narrativas do Norte da Europa, como a saga Volsunga dos islandeses. Seu inimigo mortal é o dragão Fafnir. Outrora filho de Hreidmar, rei dos anões, Fafnir transforma-se numa besta fera após matar o próprio pai e tomar posse do seu tesouro, guardando-o num buraco embaixo da terra. Fafnir é uma espécie de Caim germânico, mistura de traidor, parricida e ganancioso, desumanizado pelo dinheiro e pela cobiça. Típica lenda nórdica. Na verdade, a mais conhecida delas, que serviu de base para outra história conhecidíssima: O Senhor dos Anéis.

Quando os primeiros padres deixaram o sol acalentador do Mediterrâneo e aventuraram-se pelas brumas do Norte Europeu, aquela terra habitada por gnomos, orcs, goblins e toda sorte de criaturas imaginárias – dentre as quais Siegfried e Fafnir -, tiveram de convencer aqueles homens amigos da guerra que o cristianismo não era uma religião de fracos e pusilânimes. Para completar, a época em que os primeiros missionários chegaram – o século V – era a de decadência do Império Romano, então cristianizado e cada dia mais desprestigiado.Para a mente germânica, era difícil imaginar uma razão especial para um homem morrer pelo amor à humanidade, ainda mais se fosse filho de Deus. Para quê converter-se a algo que pregava o amor entre os homens, pois, como sabiam os germanos, os homens eram de dois tipos: ou como Fafnir, ou como Sigurd. Ou mesquinhos e avarentos, ou impulsivos e autoconfiantes.

Os primeiros padres da Igreja notaram logo que, para convencer guerreiros, era preciso trazer um guerreiro. E o melhor guerreiro que a Igreja do século V tinha era São Jorge da Capadócia. Era nada menos do que capitão do exército romano quando, numa reunião com o Imperador Diocleciano, proclamou em alto e bom som que a Verdade estava com Jesus Cristo e que os demais deuses eram todos falsos. A Jorge foi destinada a pena que, à epoca, se destinava aos cristãos: a tortura. Caso renegasse a fé, os martírios parariam. Jorge nunca renegou, mesmo diante das mais terríveis dores. Lutou contra o Império da única maneira que era possível a um cristão devoto. Acabou degolado no ano 303.

Ao contar a história para os germanos, os padres mudaram um pouco os detalhes do personagem. São Jorge foi transportado para um cenário um pouco diferente. Deram-lhe uma espada, semelhante à de Sigurd, e colocaram-no diante de um dragão, semelhante a Fafnir. O dragão exigia dos habitantes de uma vila na Líbia o sacrifiício de ovelhas para manter-se longe dela. Aos poucos, porém, passou a exigir crianças. Foi raptada uma menina chamada Sabra. Jorge toma sua espada, Ascalon, e seu cavalo branco e vai atrás do monstro para salvar a criança e, assim, converter a vila ao cristianismo. Não é difícil ver, aí, o dragão como simbolo da falsa idolatria, do falso Deus, que acaba por tirar tudo o que de mais valor existe num povo. E Jorge o vence pela espada, assim como Siegfried venceu Fafnir. Estava morta a falsa idolatria e trilhado o caminho para a vida eterna dos povos louros do Norte. Mesmo que, para isso, fosse preciso vestir um santo com as roupas de outro.

LEIA TAMBÉM: São Jorge- Padroeiro dos Guerreiros

abril 23, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Literatura | Deixe um comentário

O aparato, por Otto Maria Carpeaux

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“O aparato deseja que o sirvam. Para o serviço, não precisa de homens geniais, de homens bons. Melhor o serve a mediocridade capaz; não é preciso talento, mas destreza para conseguir um posto proveitoso no aparato. Diligência mediana e decência mediana já são coisa extraordinária. Para que mais? Afinal,não somos todos senão engrenagens nessa máquina gigantesca, nesse rolo compressor, nesse aparato que não nos serve, que nós aliás servimos, que autônomo se fez, que sem compaixão nos pisoteia para fora e nos deixa inválidos à beira da estrada da vida? É assim que o aparato cultiva em nossa alma o sentimento de impotência”. 

Em “Caminhos para Roma”,  tradução de Bruno Mori.

Escrito em 1934. Sim, isso mesmo: há oitenta e um anos.

Desde então, o aparato só cresceu e cada vez mais pessoas estão dispostas a servi-lo.

abril 8, 2015 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Marxismo e descendência

“Marxismo e descendência”, de Antônio Paim (Vide Editorial, 596 páginas), inscreve-se numa respeitável linha de estudos de largo alcance sobre o marxismo, da qual fazem parte o polonês Leszek Kowalowski, com seu “Main currents of Marxism: its origin, growth and dissolution”, e François Furet, com “O Passado de uma ilusão” . O trabalho deste acadêmico baiano, especialista em filosofia política, autor de importantes obras sobre o pensamento político luso-brasileiro, tem contudo alguns pontos diferenciadores importantes. Tendo vivido na URSS nos anos 50, onde estudou na universidade Lomonossov, em Moscou, Paim viu o regime comunista e seus problemas em primeira mão, a ponto de deixar o Partido Comunista Brasileiro – ao qual era filiado – e a filosofia marxista. Daí vem a impressionante familiaridade de Paim com os textos de Marx, Engels, Lênin, Stalin e outros dos nomes mais importantes do pensamento socialista – familiaridade, diga-se, raramente encontrada nos próprios marxistas. Sempre que é possível, Paim dá voz aos próprios autores para sustentar seus apontamentos. E é implacável em sua análise: ataca com vigor certos mitos acalentados por alguns que, incomodados pelos fatos ligados ao stalinismo, procuram desvinculá-lo do marxismo-leninismo e colocá-lo como um “desvio” dele. Paim mostra que isso é irreal: a ligação é mais do que próxima e impossível de ser desfeita. Destaca-se também a análise que faz do Partido Comunista Francês e das relações do marxismo com o positivismo e o estruturalismo, tão presentes nas ciências humanas da segunda metade do século XX.

Onde encontrar:

http://www.videeditorial.com.br

março 31, 2015 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

O humanista Edward Said

“Humanismo e crítica democrática” foi o último livro concluído pelo crítico e ensaísta palestino Edward Said antes de sua morte, em 2003. Não fosse o seu tamanho relativamente diminuto (apenas 183 páginas) e o fato de ser uma coletânea de ensaios e palestras, poderíamos dizer, sem receio, que é a obra mais representativa dos fundamentos filosóficos sobre os quais se assentam os demais trabalhos de Said, como “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”, livros freqüentemente mal entendidos tanto pelos seus críticos quanto pelos seus admiradores.

Lidos à luz deste, os demais livros de Said mostram-se não como aquelas denúncias raivosas contra a opressão e a exploração colonial travestidas de “scholarship” que os seus adversários mal intencionados tentaram (e tentam) fazer crer que são, mas sim como alertas contra o fechamento progressivo da mente dos países ocidentais. O antídoto, Said aponta, é recuperar a velha noção de humanismo, propondo que a aventura intelectual de cada um não seja limitada por preconceitos e barreiras inventadas. Emerge, assim, da leitura destes cinco ensaios – dos quais pelo menos dois, “O regresso à filologia” e “Introdução a ‘Mimesis’, de Erich Auerbach”, merecem o título de magistrais – um Said que mais parece um Julien Benda (que foi alvo de suas críticas) do que um Homi Babbha (que é um discípulo confesso seu), um “homme de lettres” apologista do universalismo, crente na dignidade e no valor essencial de todos os seres humanos, inimigo dos extremismos e exclusivismos e movido por uma quase comovente confiança no conhecimento, na cultura e no homem.

março 26, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Algumas edições de William Morris

William Morris foi designer, pintor, poeta, romancista, tradutor, jornalista, empresário de sucesso, líder político e editor. Seus livros – os de sua autoria, e aqueles que editou – levam a marca da sua paixão pela cultura da Inglaterra medieval, um verdadeiro antídoto para o mau gosto maquinizado de sua época.

William Morris nasceu em 23 de março de 1834. Há 181 anos, portanto. Em grande medida, sua época é, por muitos motivos, ainda a nossa.

março 23, 2015 Posted by | Arte, Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Walter Burkert (1931-2015)

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Neste último sábado, dia 14, no silêncio que convém aos homens de estudo, faleceu Walter Burkert, um dos maiores helenistas do último século e deste que inicia.

Na verdade, dizer “helenista” não é dar a exata dimensão da relevância de seu trabalho. Não que ser helenista signifique pouco: definitivamente, não é.  A questão é que este bávaro nascido em 1931 foi muito mais do que isso. Da mesma forma que Erich Auerbach, Ernst Robert Curtius, Georges Dumézil, Max Muller e tantos outros, Burkert foi filólogo, profissão que desafia os limites que a academia impõe ao pesquisador. Explico: o filólogo impõe a si mesmo o trabalho de partir do idioma e do texto, sobretudo o literário, para chegar, em última análise, à compreensão de uma civilização inteira. De um trecho da Odisséia, Erich Auberbach extrai conclusões sobre toda a cosmovisão dos gregos; dos nomes que os nórdicos davam a seus deuses, George Dumézil faz inferências sobre toda a organização social e política daqueles povos. Por isso, filólogo tem de, por definição, ser um conhecedor de amplos domínios do saber. Não há, a rigor, especialistas em filologia. Talvez por isso não seja uma ciência muito presente nos currículos acadêmicos de hoje, que primam, bem ou mal, pela necessidade imperiosa de especialização.

A obra de Burkert é imensa, em variedade e importância. Em Homero aos Magos, abordou a influência oriental na tradição grega, incluindo aí insuspeitas presenças do Gilgamesh. Em  A criação do sagrado, a maneira como o sentido de sagrado se forma na mente humana. E naquela que muitos consideram sua obra prima, Homo necans, Burkert investiga o processo de transformação da religião em arte, em um rito vivido por um grupo, com o objetivo de instaurar. Os leitores de René Girard, pensador que, nos últimos anos, tem ganho boa divulgação no Brasil – reconhecerão aí conclusões semelhantes em obras como “Violência e o sagrado”. E terão razão: Burkert reconhece, já no prefácio de Homo necans, que Girard tem pontos em comum com ele.

Nesta mesma obra Burkert define, em poucas e definitivas palavras, qual a tarefa que lhe coube, e que serve para definir plenamente a atividade de todos os filólogos:

“Sou um filólogo que parte dos antigos textos gregos e tenta encontrar explicações biológicas, psicológicas e sociológicas para os fenômenos religiosos”. 

Uma tarefa que cumpriu plenamente em seus 74 anos de vida.

março 18, 2015 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Irmão Norberto Luís Nesello: ““Toda escola precisa de alunos que queiram estudar, uma instituição bem preparada e pais para auxiliar”

O Blog Perspectiva passa, a partir de hoje, a publicar uma entrevista todas as sextas-feiras com personalidades ligadas, de alguma forma, aos temas por nós abordados. Para dar início a esta série, escolhemos o professor do Unilasalle, Irmão Norberto Luís Nesello, que há sete décadas – sim, sete décadas – dá aulas na instituição, primeiro no colégio La Salle e depois na Universidade criada em 1998. A entrevista foi realizada na sala de estudos de Irmão Norberto, no Unilasalle, em novembro de 2009. 

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O sarape é a roupa típica usada pelos camponeses da Guatemala. Nossa primeira reação é a de confundi-lo com o poncho que nós, gaúchos, tão bem conhecemos. Foi o que aconteceu quando avistamos irmão Norberto Luís Nesello nas escadarias da capela do La Salle, caminhando na nossa direção para realizarmos a entrevista. Informados de que não se tratava da típica vestimenta gaúcha, estranhamos: o que um legítimo gringo do Norte do Rio Grande do Sul, alto, com as maneiras típicas dos italianos, fazia vestido dessa maneira? Explicou-nos o irmão Norberto que era recordação de uma de suas muitas viagens por este mundo afora: este gaúcho de 81 anos, natural de Marcelino Ramos, já esteve em praticamente todos os lugares onde os irmãos lassalistas passaram, seja em missões, em viagens de estudo ou para dar palestras. Leitor de Camões, Machado de Assis e Santo Agostinho, quando lhe perguntamos sobre outros autores de que tenha gostado ele diz que não costuma ler muitos outros, pois não devemos ler livros bons. E por quê? “Só devemos ler os ótimos, porque a vida é curta”.

O senhor é natural de onde?

De Marcelino Ramos. Na divisa com Santa Catarina, nas margens do Uruguai. Eu sou de origem italiana, mas era uma região com muitas etnias, alemãs, italianas, poloneses, afros. Passei a infância por lá, em uma localidade chamada Rio Quinto, mas viajei por muitas partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, sempre fui uma espécie de cigano. Meus avós eram italianos. Desde pequeno falava o dialeto italiano daquela região, era o dialeto que falávamos em casa. Quando cheguei aqui não falava bem português.

Isso era comum e um problema para alguns religiosos de origem italiana ou alemã, não é?

Sim, e mesmo alguns depois da vida religiosa conservavam um sotaque forte e tinham grandes dificuldades em falar português. Mas eu já falava algo, porque estudei em Santa Catarina, num colégio de freiras. Só vim para cá em 1941. Quando cheguei, tive um problema nos olhos, acho que era tracoma, que chegou a me deixar cego, mas melhorei. Então fiz o ginásio e tive que esperar a idade canônica para começar o noviciado, que era os 16 anos. Fiz o noviciado no colégio Santo Antonio Em 1946, tive um problema de pulmão e fui considerado um candidato à morte. Não existia penicilina, não havia os tratamentos que há hoje, mas consegui me salvar. Em 1950, comecei a lecionar no Externato São Luiz como alfabetizador. E o irmão Fidelis também, grande companheiro, de quem o Jorge Uequed gostava muito. Aliás, lembro-me muito bem dos irmãos Uequed, do Jorge, do Omar e do Paulo, dei aula para eles todos. Comecei a lecionar como alfabetizador, fiz isso por dois anos. Depois fui secretário do colégio, e fui dando aulas até o 3º. Científico. Dava Língua Portuguesa, Francês e Geografia. Dei aulas depois no Magistério, no Científico, até o ano de 1966. Em 1967, o irmão provincial me mandou para carazinho para assumir a direção de um setor do nosso seminário. Fiquei três anos. Fiz faculdade entre 1973 e 1977, em Letras. Fiz pós em língua e literatura portuguesa, na Unisinos. Em 1992, tive a chance de ir à Guatemala, onde conheci o irmão Álvaro Rodriguez Echeverría, e me impressionou o conhecimento, a capacidade, a santidade do professor. Aí em 1995 fui para Roma fazer um curso. Conheci toda a Itália, inclusive a terra dos meus avós. Depois fui fazer mestrado.

O senhor chegou a Canoas em 1942. Foi a primeira vez que o senhor saiu da sua terra?

Não, como eu disse, eu sempre fui um pouco cigano. Já tinha conhecido Santa Catarina, algumas cidades vizinhas e já tinha até andado de automóvel, o que, para um menino daquela época e daquele lugar de onde eu vinha, era um luxo.

E como Canoas pareceu ao senhor logo que chegou?

Era pequenininha. A única grande impressão que eu tenho era, quando vínhamos da estação Augusto Pestana, próxima ao Laçador, pegamos um ônibus e vimos a torre da Igreja Iluminada. Chegamos aqui num sábado.

Vindo para Canoas, o senhor notou muita diferença de onde vinha?

A única cidade com um certo porte que eu conhecia era Joaçaba. Nós, como internos, não tínhamos muito conhecimento sobre a cidade, só dávamos um passeio pela cidade algumas vezes… a única estrada calçada era a Victor Barreto… a estrada de cimento que vinha desde Porto Alegre até São Leopoldo. Havia poucas casas. A cidade terminava ali na Barcelos e ali pelo lado da Federal. Poucas casas além disso. Lembro da construção da BR-116 – que era conhecida como a Estrada da Tropa, por causa da passagem de gado da Fronteira para o Guajuviras. E fiquei sabendo também da enchente de 1941, apesar de não ter estado aqui. Niterói, Fátima, Harmonia, tudo ficou debaixo d’água. A enchente de 1965 eu já vi e era tudo água. Por isso foram construídos os taludes de defesa.

O senhor deu aula durante quanto tempo?

Entre 1950 e o ano passado. 58 anos de aulas para o Ensino Fundamental, Médio e Superior. Passei por todos os níveis.

Ao longo do tempo, o senhor notou alguma diferença no perfil do aluno?

Nesello: Comparando com o de hoje, muita diferença. Os alunos eram mais tímidos, mais afastados. E a família fazia o seu papel. Era muito importante. Se você mandasse uma queixa para família do aluno, ele apanhava em casa. Hoje, se fizer o mesmo, o professor apanha no colégio (risos). O estudo era muito mais intenso. Fazia- se 40 horas de aula em casa. Manhã e tarde. Era praticamente só irmãos lassalistas. A única exceção era o professor Armando Würth, que era professor de Educação Física.

E em 1970 passou-se pela reforma Passarinho, quando muito daquele ensino de Humanidades perdeu-se.

Sim, eu lembro. Latim, música, filosofia… tudo aquilo acabou.

Pelo menos para mim, quando pego um livro de literatura, ou quando comparo o programa de ensino de literatura nas décadas de 50 e 60, fico com vergonha. O que eu aprendi é quase nada perto do que se aprendeu lá. Estudava-se clássicos franceses, latinos…

De Bello Gallico, de Julio Cesar, era lido aqui mesmo, no La Salle. Às vezes, ficam impressionados aqui quando faço contas de cabeça, porque ninguém decora a tabuada. Eu noto essa decadência no ensino em vários aspectos. Apesar disso, noto que os jovens não têm medo de falar, são mais desinibidos. Mas eu percebo que decaiu, sim. Quando eu convido alguém das faculdades para ler algo na capela eu fico impressionado, eles não sabem ler.

E como o senhor avalia aquele momento, visto a partir de hoje?

No sentido humano perdeu-se muito. Baixou o nível também. Uma vez escrevi um artigo para O Timoneiro chamado ““O Triângulo de um lado só””. Ora, toda escola precisa de três coisas: alunos que queiram estudar, uma instituição bem preparada para ensiná-los e os pais para auxiliar. Três lados, portanto. Só que quando se fala de educação, fala-se de melhorar a qualidade do ensino, melhorar a instituição, mas não dos outros dos lados do triângulo, nunca se fala. Qual é o pai que cobra o seu filho? Onde é que anda o aluno durante a noite? Quando eu comecei não havia nada disso, e nem era necessário, já que os pais faziam o seu papel e faziam os filhos cumprirem o seu. Com essas mudanças, o sentido mais humanístico do ensino se perdeu. E as consequências estão aí, para todos verem.

março 13, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 5 Comentários

Pensadores da Nova Esquerda

Pensadores da Nova Esquerda

Roger Scruton é um dos nomes mais importantes do atual pensamento conservador britânico. Em seu país natal é famoso por sustentar acerbas polêmicas com a intelectualidade esquerdist tanto em sua atividade acadêmica – é professor de Estética na Universidade de Londres -, quanto por seus mais de trinta livros lançados ou pelos artigos e ensaios que envia regularmente para os periódicos ingleses. Até mesmo um de seus mais acerbos opositores, o crítico literário marxista Terry Eagleton, foi obrigado a reconhecer-lhe o talento: “Scruton é um dos mais brilhantes filósofos da Grã-Bretanha”, disse ele.

No Brasil, após alguma divulgação nos meios conservadores nacionais (incluindo uma entrevista, com larga circulação, à “Veja”), não se pode dizer que Scruton seja um nome totalmente desconhecido do público leitor. Dois livros seus já foram publicados por aqui  – Beleza e O Coração Devotado à Morte, ambas pela É Realizações – e a eles soma-se agora “Pensadores da Nova Esquerda”  (É Realizações, 336 páginas, tradução de Felipe Garrafiel Pimentel), uma coleção de ensaios originalmente publicados no The Salisbury Review , uma das mais célebres publicações de tendência direitista do mundo anglófono.

O objeto do olhar de Scruton – que é sempre crítico e mordaz – são os principais nomes pensamento de esquerda do século XX. Lançado em 1986 em seu país natal – antes, portanto, da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria -, Scruton deu especial atenção a autores que à época, como agora, dominavam o debate universitário Ocidental, como Jurgen Habermas, Michel Foucault, E.P. Thompson, Antonio Gramsci, Perry Anderson, Gyorgy Lukács e Jean Paul Sartre, todos bem conhecidos dos estudantes brasileiros de Ciências Humanas. Que ninguém se engane: Scruton não é nenhum hidrófobo e está pronto para reconhecer méritos nas obras dos autores que escolheu para analisar. Faz, entretanto, uma ressalva:  para ele, “muito do que é interessante e verdadeiro nesses escritores pode ser desvinculado da ideologia que lhes proporcionou o apelo em voga”. Ou seja,eles têm o que dizer apesar de serem esquerdistas.

Scruton refere-se em particular à Nova Esquerda – “New Left”, no original. O termo é frequentemente usado para definir o grupo de pensadores de esquerda que, a partir dos anos 60 e 70 – mais precisamente, a partir do relatório Kruschev, de 1956, sobre os crimes do stalinismo – passou a reconsiderar certos pontos de vista do marxismo-leninismo e a adotar uma abordagem mais “ampla” de preocupações, como ativismo social em prol de minorias étnicas, sexuais e laborais, em oposição à velha noção marxista de unidade da classe operária. Por isso, a muitos causará estranheza a presença de Lukács  no conjunto da Nova Esquerda, conceito que ele, Lukács, marxista ortodoxo, criticaria com vigor. Em outros provocará sentimento semelhante a simples caracterização de Dworkin e Galbraith como esquerdistas. Scruton não ignora estas objeções – ele tem uma capacidade invulgar de antecipar-se a seus detratores –  e a elas responde dizendo que alguns nomes estão aí pela sua influência decisiva no pensamento da Nova Esquerda.

Os nomes escolhidos por Scruton pertencem a diversas áreas: Direito, Economia, História, Ciência Política e, claro, Filosofia. Esgrimir contra cada um deles em seu próprio terreno, com suas próprias regras, é um desafio dos mais duros para qualquer um, mesmo para eruditos como Scruton.  Felizmente, ele não apenas aceita o desafio frontalmente como sai-se bem: discorre com tranquilidade sobre praticamente qualquer tema de ciências humanas. Circula à vontade por temas de Direito Comercial comparado e pela história intelectual alemã, por ciências naturais e pela economia política marxista, expondo as mais complexas discussões e os mais áridos assuntos com surpreendente clareza e, não raro, um toque de humor tipicamente inglês. É bem verdade que, no afã de provar o seu ponto de vista – e este é, definitivamente, um livro com um ponto de vista – Scruton acaba por fazer uma ou outra avaliação injusta: exemplo disto se vê no ensaio sobre Lukács, que lamentavelmente omite o período pré-marxista de sua produção intelectual e deixa, portanto, de fora um de seus mais lidos e influentes trabalhos, “Teoria do Romance”, apresentando-o apenas como apologista do stalinismo. Mas estes são problemas menores diante do trabalho imenso de Scruton, que proporciona a muitos de nós – formados, em grande parte, a partir da leitura dos autores abordados nesta obra –  uma oportunidade de estabelecer um saudável, desejável e qualificadíssimo contraponto crítico.

março 11, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

“O Impeachment”, de Paulo Brossard: lições de uma leitura

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O jurista gaúcho Paulo Brossard sempre se caracterizou por ser um homem elegante e de hábitos cavalheiresco. Como se sabe, a um homem elegante não fica bem vangloriar-se publicamente de seus próprios feitos, e pior ainda no prefácio de uma obra de sua autoria. Quando este autor conta somente quarenta anos trata-se, então, de atitude quase proibitiva, a ser evitada a qualquer custo. A saída para esta situação é recorrer à modéstia segura, expressa por uma leve autodepreciação controlada e sustentada por uma profunda convicção em suas próprias capacidades.

Talvez seja essa a razão pela qual Brossard, no prefácio de “O Impeachment – Aspectos da responsabilidade política do Presidente da República”, tenha dito que escreveu-o com o objetivo de “de satisfazer exigência legal ao candidatar-se à cátedra de Direito Constitucional da Faculdade que cursou“. Dito de outro modo: uma monografia destinada a cumprir formalidade, ou pouco mais do que isso. Sendo muito claro – e isto é mais do que visível, já nas primeiras páginas – que “O Impeachment” era trabalho destinado a ser um pouco mais do que uma “exigência legal” , temos o direito de imaginar que esta caracterização era a leve autodepreciação a que aludimos anteriormente. Uma atitude de um verdadeiro cavalheiro.

No entanto, podemos, por alguns instantes, conceder à guisa de argumentação e admitir que Brossard realmente tivesse seu trabalho na estima de mero cumprimento de formalidade. Diante disso, lembramos que a nenhum escritor ou artista, de gênero algum, é dada a possibilidade de adivinhar a importância que a posteridade conferirá a suas obras. Como disse certa vez Jorge Luis Borges, uma vez lançada a obra é mais dos público do que de seu autor, e será ele, e ninguém mais, o destinatário principal e juiz supremo do valor e do uso que ela terá. Um poema de juventude a que o autor devote pouca estima, um filme feito às pressas para cumprir o prazo com uma produtora ou os rascunhos e notas para uma palestra que viraram um breve texto transformam-se em obras capitais, influentes e marcantes se assim seus leitores ou apreciadores quiserem. Lançada a obra ao mundo, o mundo dará a ela o valor que considerar justo. E, no caso de “O Impeachment”, o mundo acadêmico brasileiro considerou justo transformar a tese de Brossard em um clássico absoluto sobre tema, tratado fundamental e modelo de tese universitária. Um clássico que, neste ano, completa o seu cinquentenário.

E o mundo que recebeu “O Impeachment” era muito diferente do de hoje. O Brasil via o começo da série de governos militares oriundos do golpe de 1964 – governos dos quais Brossard, um dos principais líderes do MDB, seria franco opositor -, que poriam fim à participação política direta dos brasileiros por mais de duas décadas. A expressão “impeachment”, naquela época, não frequentava o discurso público brasileiro e não era propriamente conhecida pela massa eleitora: isto só se daria a partir de 1992, depois do processo sofrido por Fernando Collor, de massiva divulgação midiática. O trabalho de Brossard era, então, pura tese acadêmica, escrita por um especialista e para especialistas, com o objetivo de estabelecer a “exata fisionomia do ‘impeachment’, sua natureza, sentido, alcance e objetivo, seu lugar na órbita federal e na dos Estados”. Para tanto, vai beber na fonte da melhor doutrina liberal anglo-americana, a de Story, Bagehot, Dicey, Bryce, Blackstone e muitos outros. Registra-se também a presença de Duguit, Jellinek e de juspublicistas brasileiros, como Rui Barbosa, Pimenta Bueno e outros, salpicada com referências a Edmund Burke, Alexis de Tocqueville e John Quincy Adams, incluindo obras pouco conhecidas destes autores e em geral negligenciadas pelo estudioso comum. Formado politicamente dentro do Partido Libertador – defensor e guardião do discurso liberal-conservador de matriz anglo-saxônica – e intelectualmente sob a influência destes mestres, Brossard deixa, portanto, a sua filiação intelectual bem à vista de todos.

O estudo inicia pelas origens do instituto, que remonta a práticas inglesas medievais sobre a responsabilidade do príncipe diante da má condução do governo. Das ilhas Britânicas o impeachment tomou o caminho dos EUA, onde ganhou uma configuração distinta: enquanto na Grã-Bretanha a Câmara dos Lordes julga com plena jurisdição, como se fosse um tribunal, e aplica a pena que for necessária, incluindo a capital, nos EUA, o Senado decide apenas pela perda ou não do cargo de presidente. O homem fica imune. Entre os britânicos, o impeachment tem, tradicionalmente, natureza jurídica criminal. Para os americanos, é um processo político, que transcorre somente no âmbito político e dele não se afasta.

O impeachment foi recebido pelo Direito brasileiro após a Independência. Brossard aponta que,  durante o Império, a tendência era seguir a lição britânica acerca do Impeachment, ou seja, considera-lo como processo criminal. Já na república, passou a ser político, como nos EUA. E assim segue. Não tem no Brasil, assim como nos EUA, o caráter de pena (p. 82), buscando apenas retirar o governante do seu cargo (p. 75).

É importante esclarecer o que é um processo político. De acordo com Brossard, quer dizer, antes de tudo, que, o interesse maior é proteger o Estado e não punir o delinquente (p. 31). Uma vez afastado o governante do seu cargo, o processo já não tem mais sentido algum e não prosseguirá. O que motiva o processo é o governante que gere erroneamente a coisa pública e sua condenação não tem caráter de pena, visando apenas que ele deixe a gestão.

Paulo Brossard com a bancada do MDB. Ulisses Guimarães logo à sua frente. 

O estudo de Brossard é exaustivo, magnificamente organizado e apoiado na melhor doutrina existente na época. Dispôs-se a deixar clara a “exata fisionomia do ‘impeachment’, sua natureza, sentido, alcance e objetivo, seu lugar na órbita federal e na dos Estados” e cumpriu plenamente todos estes objetivos. É se imaginar, no entanto, que o auto de um trabalho tão bem elaborado tenha sua opinião sobre o seu objeto de estudo. Qual o valor deste multissecular instituto para os tempos modernos? Brossard não se furta a esta complicada tarefa.  Inicialmente, ele lembra que, quando chegou aos EUA, o impeachment já era, na Inglaterra, considerado um instituto decadente e de pouco uso prático (p. 31), sujeito a gravíssimas distorções. Lembra para, logo a seguir, dizer que é um instituto que “não funciona porque é lerdo em demasia, ao passo que as crises evoluem rapidamente e reclamam rápidas soluções” (p. 191). Chega a comparar o seu emprego ao uso armaduras medievais em pleno século XX (p.198) e completa: “Contemporâneo da navegação a vela, anterior à luz elétrica e à imprensa….deixou de ajustar-se ao frêmito e às exigências da vida atual”. É um processo lento, que leva meses, para um mundo onde as coisas acontecem com muita velocidade e que demanda, assim, também velocidade do Direito. É esta, após cuidadosa análise, a conclusão de Brossard.

Mas ainda há mais. Vejamos aqui uma reflexão que justifica, senão a condenação explícita do impeachment como instituto, pelo menos a desconfiança acerca de seu emprego:

“A publicidade hoje organizada em moldes de apurada eficiência, capaz de, em instantes, criar impactos profundos na opinião pública da nação inteira, mediante poderosas máquinas de difusão de pensamento, com possibilidades de mudar, em segundos, a feição dos fatos e, distorcendo-os, viciar o julgamento popular; a utilização deformada e deformadora de grupos sociais poderosos, outrora inexistentes ou inatuantes, para agitar, convulsionar, paralisar a nação; apenas estes dois fatores atuando, durante meses, evidenciam que o velho instituto, instrumento de violencias e instrumento de progresso, noutro tempo eficiente e saneador, não tem mais condições de acompanhar o ritmo dos tempos modernos” (p. 194)

Estas palavras foram escritas em 1965 e refletem plenamente a situação de 2015. A única diferença é que a situação só se agravou: há hoje máquinas ainda mais poderosas de difusão de pensamento, com muito mais possibilidades de mudar a feição dos fatos, de viciar o julgamento popular e a serviço de grupos sociais ainda mais poderosos.

Como bom liberal à antiga, é certo que Brossard lamenta este crescimento desmedido do poder estatal, esse alargamento sem fim dos braços do Leviatã. Como conservador, ele também lamenta os excessos dos meios de comunicação e o poder quase infinito da publicidade no mundo. Brossard parece, por trás de sua análise arguta e logicamente impecável do instituto do impeachment, sentir saudades dos bons tempos em que o Estado era menor e menos intervencionista, e onde as coisas da política eram menos influenciadas pela mídia e pela propaganda barata. Quando comenta uma opinião crítica de James Bryce acerca do impeachment, Brossard lembra que essa opinião seria ainda mais válida hoje:

“(…) se razão assistia ao diplomata, historiador e jurista para expressar-se assim, quando o Estado era neutro, absenteísta, não intervencionista, que dizer-se do instituto hoje que o Estado tomou proporções assustadoras e os poderes dos governantes modernos deixariam perplexos o próprio Luís XIV?”. 

A referência ao Rei Sol, feita pelo liberal Brossard, não é casual: é símbolo do tipo de regime que os liberais de primeira hora mais detestavam: o absolutista. Hoje o liberal vê como seu inimigo o Estado moderno, intervencionista, burocratizado, imenso, com governantes cujos poderes superam os dos reis setecentistas, em oposição ao velho Estado liberal – neutro, absenteísta, não-intervencionista – de Dicey, de Bryce e de Story, a todo o mundo dos  constitucionalistas liberais norte-americanos e ingleses tão caros a Brossard e a muitos outros juristas de sua geração. Este mundo se foi – e podemos, nas entrelinhas deste tratado magistral, escutar um leve tom de tristeza.

Isto, no entanto, não passa de um leve tom. Brossard, como vimos, é um homem elegante. A um homem elegante não fica bem reclamar desmedidamente, proclamar o fim do mundo ou revoltar-se cegamente contra tudo. Um verdadeiro cavalheiro como Brossard não aposta em histeria, em trombetas apocalípticas, em iscas para desesperados: cavalheiros enfrentam os problemas e buscam saída para eles. O Estado moderno é o Estado moderno e cabe encontrar saídas concretas para os problemas concretos que, dentro dele, surgem, se desenvolvem e pedem solução. Não é de homens elegantes, compromissados e sérios o apostar em recursos como “poderosas máquinas de difusão de pensamento, com possibilidades de mudar, em segundos, a feição dos fatos e, distorcendo-os, viciar o julgamento popular” e muito menos a “utilização deformada e deformadora de grupos sociais poderosos, outrora inexistentes ou inatuantes, para agitar, convulsionar, paralisar a nação” , ainda mais por soi disant juristas e homens públicos. Por isto, e por muito mais, neste 2015 em que celebramos os cinquenta anos de publicação de “O Impeachment”, seria importante que seus leitores aprendessem, além das muitas lições que o livro traz, também algo  da atitude de Paulo Brossard.

Leia também:

Breve lembrança de Paulo Brossard

março 8, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Livros, Política | 1 comentário

Nova edição de “Raízes do Brasil”

raizesdobrasil

 

A Companhia das Letras reeditou “Raízes do Brasil”, a primeira, mais conhecida e mais influente obra de Sérgio Buarque de Holanda.

Já lá se vão quase oitenta anos da primeira edição. Não parece. Ao contrário do que se passa com um Gilberto Freyre ou um Caio Prado Júnior, seus companheiros de geração, que precisam de ressalvas e cuidados para aproveitarmos, no meio de vários pontos de vista altamente discutíveis e superados, as grandes verdades que inegavelmente nos trazem, este trabalho de Sérgio Buarque chega até nós sem ter sofrido tanto com o tempo. Conceitos ali presentes, como o de homem cordial, patriarcalismo, a adaptabilidade do português em face de outros ambientes e tantos outros são descontraidamente empregues nos mais diversos contextos e para os mais diversos propósitos, a ponto de se converterem em lugares-comuns em várias instâncias do debate nacional.

Por isso, e por muito mais, trata-se de uma leitura obrigatória para quem queira, de alguma forma, participar deste debate.

Onde encontrar:

www.ciadasletras.com.br

março 3, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

“Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”, por Slavoj Zizek

É agora – quando estamos todos em estado de choque depois da carnificina na sede do Charlie Hebdo – o momento certo para encontrar coragem para pensar. Agora, e não depois, quando as coisas acalmarem, como tentam nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o ato de pensar. Pensar quando o rescaldo dos eventos esfriar não gera uma verdade mais balanceada, ela na verdade normaliza a situação de forma a nos permitir evitar as verdades mais afiadas.

Pensar significa ir adiante do pathos da solidariedade universal que explodiu nos dias que sucederam o evento e culminaram no espetáculo de domingo, 11 de janeiro de 2015, com grandes nomes políticos ao redor do globo de mãos dadas, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas – talvez a imagem mais bem acabada da falsidade hipócrita. O verdadeiro gesto Charlie Hebdo seria ter publicado na capa do semanário uma grande caricatura brutal e grosseiramente tirando sarro desse evento, com cartuns de Netanyahu e Abbas, Lavrov e Cameron, e outros casais se abraçando e beijando intensamente enquanto afiam facas por trás de suas costas.

Devemos, é claro, condenar sem ambiguidade os homicídios como um ataque contra a essência das nossas liberdades, e condená-los sem nenhuma ressalva oculta (como quem diria “mas Charlie Hebdo estava também provocando e humilhando os muçulmanos demais”). Devemos também rejeitar toda abordagem calcada no efeito mitigante do apelo ao “contexto mais amplo”: algo como, “os irmãos terroristas eram profundamente afetados pelos horrores da ocupação estadunidense do Iraque” (OK, mas então por que não simplesmente atacaram alguma instalação militar norte-americana ao invés de um semanário satírico francês?), ou como, “muçulmanos são de fato uma minoria explorada e escassamente tolerada” (OK, mas negros afro-descendentes são tudo isso e mais e no entanto não praticam atentados a bomba ou chacinas), etc. etc. O problema com tal evocação da complexidade do pano de fundo é que ele pode muito bem ser usado a propósito de Hitler: ele também coordenou uma mobilização diante da injustiça do tratado de Versalhes, mas no entanto era completamente justificável combater o regime nazista com todos os meios à nossa disposição. A questão não é se os antecedentes, agravos e ressentimentos que condicionam atos terroristas são verdadeiros ou não, o importante é o projeto político-ideológico que emerge como reação contra injustiças.

Nada disso é suficiente – temos que pensar adiante. E o pensar de que falo não tem absolutamente nada a ver com uma relativização fácil do crime (o mantra do “quem somos nós ocidentais, que cometemos massacres terríveis no terceiro mundo, para condenar atos como estes?”). E tem menos ainda a ver com o medo patológico de tantos esquerdistas liberais ocidentais de sentirem-se culpados de islamofobia. Para estes falsos esquerdistas, qualquer crítica ao Islã é rechaçada como expressão da islamofobia ocidental: Salman Rushdie foi acusado de ter provocado desnecessariamente os muçulmanos, e é portanto responsável (ao menos em parte) pelo fatwa que o condenou à morte etc.

O resultado de tal postura só pode ser esse: o quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais mergulham em seu sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas tentando ocultar seu ódio ao Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o paradoxo do superego: o quanto mais você obedece o que o outro exige de você, mais culpa sentirá. É como se o quanto mais você tolerar o Islã, tanto mais forte será sua pressão em você…

É por isso que também me parecem insuficientes os pedidos de moderação que surgiram na linha da alegação de Simon Jenkins (no The Guardian de 7 de janeiro) de que nossa tarefa seria a de “não exagerar a reação, não sobre-publicizar o impacto do acontecimento. É tratar cada evento como um acidente passageiro do horror” – o atentado ao Charlie Hebdo não foi um mero “acidente passageiro do horror”. Ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e foi como tal claramente parte de um padrão muito mais amplo. É claro que não devemos nos exaltar – se por isso compreendermos não sucumbir à islamofobia cega – mas devemos implacavelmente analisar este padrão.

O que é muito mais necessário que a demonização dos terroristas como fanáticos suicidas heroicos é um desmascaramento desse mito demoníaco. Muito tempo atrás, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava se movendo na direção do “último homem”, uma criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume nenhum risco, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância com os outros: “Um pouquinho de veneno de tempos em tempos: que garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles têm seus pequenos prazeres de dia, e seus pequenos prazeres de noite, mas têm um zelo pela saúde. ‘Descobrimos a felicidade,’ dizem os últimos homens, e piscam.”

Pode efetivamente parecer que a cisão entre o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista a ele passa mais ou menos nas linhas da oposição entre levar uma longa e gratificante vida cheia de riquezas materiais e culturais, e dedicar sua vida a alguma Causa transcendente. Não é esse o antagonismo entre o que Nietzsche denominava niilismo “passivo” e “ativo”? Nós no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos, imersos em prazeres cotidianos banais, enquanto os radicais muçulmanos estão prontos a arriscar tudo, comprometidos com a luta até sua própria autodestruição. O poema “The Second Comming” [O segundo advento], de William Butler Yeats parece perfeitamente resumir nosso predicamento atual: “Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores são cheios de intensidade apaixonada”. Esta é uma excelente descrição da atual cisão entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” não são mais capazes de se empenhar inteiramente, enquanto “os piores” se empenham em fanatismo racista, religioso e machista.

No entanto, será que os terroristas fundamentalistas realmente se encaixam nessa descrição? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amistas nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.

É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao atual predicamento: a intensidade apaixonada dos terroristas evidencia uma falta de verdadeira convicção. O quão frágil não tem de ser a crença de um muçulmano para que ele se sinta ameaçado por uma caricatura besta em um semanário satírico? O terror islâmico fundamentalista não é fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade e em seu desejo de salvaguardar sua identidade cultural-religiosa diante da investida da civilização global consumista.

O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os fazem mais furiosos, alimentando seu ressentimento. O problema não é a diferença cultural (seu empenho em preservar sua identidade), mas o fato inverso de que os fundamentalistas já são como nós, que eles secretamente já internalizaram nossas normas e se medem a partir delas. Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente carecem é precisamente uma dose daquela convicção verdadeiramente “racista” de sua própria superioridade.

As recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam o velhoinsight benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo evidencia uma revolução fracassada”: a ascensão do fascismo é a falência da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia potencial revolucionário, descontentamento, que a esquerda não foi capaz de mobilizar.

E o mesmo não vale para o dito “islamo-fascismo” de hoje? A ascensão do islamismo radical não é exatamente correlativa à desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos? Quando, lá na primavera de 2009, o Taliban tomou o vale do Swat no Paquistão, o New York Times publicou que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de proprietários abastados e seus inquilinos sem terra”. Se, no entanto, ao “tirar vantagem” da condição dos camponeses, o Taliban está “chamando atenção para os riscos ao Paquistão, que permanece em grande parte feudal”, o que garante que os democratas liberais no Paquistão, bem como os EUA,  também não “tirem vantagem” dessa condição e procurem ajudar os camponeses sem terra? A triste implicação deste fato é que as forças feudais no Paquistão são os “aliados naturais” da democracia liberal…

Mas como ficam então os valores fundamentais do liberalismo (liberdade, igualdade, etc.)? O paradoxo é que o próprio liberalismo não é forte o suficiente para salvá-los contra a investida fundamentalista. O fundamentalismo é uma reação – uma reação falsa, mistificadora, é claro – contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é repetidamente gerado pelo liberalismo. Deixado à própria sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio – a única coisa que pode salvar seus valores originais é uma esquerda renovada. Para que esse legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única forma de derrotar o fundamentalismo, varrer o chão sob seus pés.

Pensar os assassinatos de Paris significa abrir mão da auto-satisfação presunçosa de um liberal permissivo e aceitar que o conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é essencialmente um falso conflito – um círculo vicioso de dois polos gerando e pressupondo um ao outro. O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.

Fonte: Blog da Boitempo

F

Fon

janeiro 23, 2015 Posted by | Ciências Humanas, Política | Deixe um comentário

Palestra de Roberto Mangabeira Unger na USP

novembro 7, 2014 Posted by | Ciências Humanas, Política | Deixe um comentário

Dando nome aos ‘progres’

Miguel de Unamuno era um grande defensor do intercâmbio entre as nações ibéricas. Contrariando a tendência dominante em Espanha naquela época, convidava o leitor espanhol a estudar Portugal e a língua portuguesa, não para buscar algo novo e diferente, mas para conhecer algo melhor de si mesmo. No campo linguistico, o estudo do português – dizia-nos Unamuno – seria capaz de perfeccionar o próprio uso do idioma castelhano por parte dos espanhóis, pois iria revelar-lhes novas maneiras de usar expressões e enriquecer-lhes o vocabulário. Dizia ele que “en el portugués encontraremos rincones y recovecos de nuestro idioma que no los descubrimos directamente. Aprender portugués es un buen recurso para enriquecer nuestro castellano”. A atitude de Unamuno estava fincada na sua firme crença de que a Ibéria era, na verdade, uma e só cultura com duas faces – a portuguesa e a espanhola – e que cabia a um lado conhecer melhor o outro.

Compartilhando, como compartilhamos, da atitude de Unamuno, fomos à Espanha fazer o caminho contrário, mas com o mesmo espírito: em busca de enriquecimento, de conhecer o outro lado, de buscar “rincones y recovecos”. E voltamos, desta vez, com uma palavra nova, que, acreditamos, será de imensa valia para os brasileiros,  sobretudo nestes tempos em que correm: a palavra “progre”.

Antes de mais nada, quero dizer que, embora seja um entusiasta da relação intercultural, sou um crítico da incorporação desmedida de palavras e expressões com equivalentes em português, mesmo em se tratando das de uma língua irmã como o castelhano. O enriquecimento de que fala Unamuno, e do qual falo aqui, só pode existir quando a incorporação é de uma palavra nova. E este é, precisamente, o caso de “progre”.

Que significa, então, esta curiosa expressão? Importa antes de tudo dizer que ela é relativamente nova: seu surgimento é localizado nos últimos anos do franquismo, e fazia referência aos jovens de classe média e classe média alta com simpatias por certos tópicos, como o comunismo cubano, Che Guevara, maio de 68, uma sociedade mais justa, mais igualitária e menos preconceituosa. Tudo isso, é claro, mais no discurso do que na prática. Como sói acontecer a essas expressões populares, trata-se de uma contração: da palavra “progressista”, entendida aqui no seu sentido político do termo, isto é, como quase sinônimo de “esquerda”. Progressista é aquele que acredita no progresso da História e seu inimigo é o “reacionário”, que se opõe a esse progresso. Progressistas são Lula e Dilma, Lenin e Trotsky, Olof Palme e Willy Brandt, cada um à sua maneira, mas todos sem a menor dúvida progressistas.

Sendo contração, ocorre aqui uma redução do sentido original da palavra progressista. O progre não é um progressista como os outros. Ela acredita, de certa forma, no progresso da história, numa sociedade “melhor”, num mundo “melhor”, mas não possui o mesmo discurso da esquerda mais antiga e não adota os mesmos canais de comunicação desta. Não tem muito interesse na organização quase militaresca dos antigos partidos comunistas, nem no estilo de vida difundido pela antiga URSS. Muitas vezes nem mesmo é marxista. Em alguns casos, é até mesmo anti-marxista.  A expressão que mais próxima temos no Brasil é “esquerda caviar”, mas não serve exatamente. O esquerdista caviar médio (assim como o progre dos anos 70 da Espanha) pode gostar de luxo, mas defende Cuba, a URSS e outros países, mesmo que da boca para fora.  Já o progre moderno nem sempre o faz. “A los jóvenes de ahora no les interesa la política de los partidos, que con su estructura y burocracia son entidades cerradas. Se sienten más satisfechos y encuentran más gratificaciones en otro tipo de plataformas, como las ONG, las redes sociales, donde creen que su acción acaba siendo más efectiva”, indica Julián Santamaría, professor de Ciencia Política da Universidad Complutense de Madrid.

Tão difundida está essa palavra em Espanha que mereceu até mesmo um verbete na última edição do prestigiado dicionário da Real Academia Espanhola. Em artigo dedicado ao tema, Piergiorgio M. Sandri aponta que “las nuevas generaciones se parecen poco al progre de la transición. Aunque puedan haber heredado su antiguo espíritu de lucha, sus reivindaciones ahora se centran en otros temas, como el ecologismo, la igualdad, el pacifismo –esencias del nuevo progresismo– y se llevan a cabo a través de plataformas muy diferentes, más espontáneas y menos organizadas”. A estes temas poderíamos adicionar outros, como as ações afirmativas, o aborto, o casamento gay, a igualdade da mulher e outros. Questões estruturais de ordem econômica, que eram de primeiríssima ordem para os antigos socialistas, comunistas e social-democratas, ficam muitas vezes relegadas a segundo plano diante destas reinvidicações comunitárias, minoritárias e grupais dos progres.

O crítico espanhol Juan Manuel Prada aponta outra característica psicológica fundamental do “progre”:  “ser progre consiste en tener siempre razón, si la realidad te lleva la contraria, peor para la realidad”. É o que os ingleses, outro povo criador de excelentes expressões idiomáticas, chamam de “self-righteouness”. Não é difícil imaginar, assim, a atitude de hostilidade de muitos esquerdistas da antiga – além, é claro, dos direitistas em geral – , criados no velho discurso marxista-leninista. Um exemplo da própria Espanha é Julio Anguita, ex-secretário-geral do PCE, ex-prefeito de Córdoba e uma das mais respeitadas lideranças políticas da esquerda espanhola, que disse, para quem quisesse ouvir: “yo soy rojo, no progre. Si quiere insultarme llámeme progre”. E para diferenciar do progressimo, ao qual ele adere, Anguita criou um novo adjetivo, a “progresia”, para definir a atividade dos progres. “La progresía es, ni más ni menos, el sumidero por donde se han ido las ideas de la izquierda. La progresía es quedarse en la reforma de una serie de aspectos sociales, como los matrimonios homosexuales o las medidas de discriminación positiva de la mujer, mientras que se deja intacta una realidad económica injusta” . A definição de Anguita parece plenamente de acordo com o credo marxista que ele professa, e serve para quem quiser entender bem o fenômeno.

A adoção do termo entre nós ajudará, e muito, a qualificar o nosso reconhecidamente desqualificado debate político. Dentro do rótulo de “esquerda” os brasileiros costumam aglomerar, indistintamente, leninistas, trotskystas, social-democratas, liberais de esquerda e anarquistas, como se todos fossem a mesma coisa. Com esse aporte vindo diretamente da banda hispânica do nosso mundo ibérico, passaremos a identificar uma força que, mais do que simplesmente existir entre nós, tem grande relevância em vários partidos e na condução das políticas públicas do país.

novembro 5, 2014 Posted by | Ciências Humanas, Cultura, Política | Deixe um comentário

Miguel de Unamuno (1864-2014)

 

“A consciência da morte e a ânsia de morrer, a fome de imortalidade pessoal, o propósito com que tendemos a persistir indefinidamente em nosso ser próprio e que é nossa própria essência, isto é, a base efetiva de todo o conhecer e o íntimo ponto de partida pessoal de toda filosofia humana”

setembro 29, 2014 Posted by | Ciências Humanas, Literatura | Deixe um comentário

Alexander Dugin e a marcha da Tradição

Alexander Dugin

A Biblioteca Estatal Russa ocupa um grande e privilegiado espaço no centro de Moscou. Localizada nas proximidades do Kremlin, é considerada a terceira maior do mundo, contando aproximadamente 18 milhões de volumes dispostos em prateleiras que, colocadas lado a lado, somam 280 quilômetros em linha reta, informação que os orgulhosos guias fazem questão de dar ao visitante. Em uma de suas grandes salas de leitura, este visitante encontrará a estátua de um senhor careca e de barba, sentado, concentrado numa leitura que parece muito importante. Não é preciso pedir ajuda do guia para identifica-lo: é Lênin. Mas, o que faz a estátua ali? O guia pode responder: criada em 1862 pelo czar, a biblioteca recebeu o nome do líder bolchevique logo após a Revolução de 1917 e o manteve até o fim da URSS, em 1991.  Depois disso, manteve apenas a estátua.

Hoje ela é apenas isso, uma estátua. Mas já foi mais do que uma estátua. Durante os anos de comunismo, a presença majestosa do camarada Lênin naquele espaço demandava exclusividade: livros e autores considerados indesejáveis para a formação do bom cidadão soviético não lhe podiam fazer companhia. Quem cuidava de manter o ambiente livre deles era a Glavit, o órgão responsável pela censura estatal, formado por 70 mil censores que não deixavam passar nem mesmo rótulos de vodca tidos como inadequados. Aos livros, é claro, dedicava-se redobrado cuidado. Não eram admitidas obras contendo pornografia ou religião, entendidas como formas de imoralidade – e a moral, como se sabe, era escrupulosamente cuidada na União Soviética; também não eram admitidos livros ocidentais – quer dizer, os ocidentais do tipo errado, assim como não eram aceitos os livros russos do tipo errado. Às vezes , nem mesmo os livros de comunistas eram aceitos, se o comunista fosse um do tipo errado, como Trotsky, que não podia sequer ser citado em manuais. Apenas obras do tipo certo podiam ali adentrar – obras que o camarada Lênin aprovaria para lhe servir de companhia.

Por isso, impressiona que a biblioteca que recebe o nome de Lênin, situada a poucos passos do Kremlin, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pátria do materialismo, inimiga das religiões e libertadora do homem (no sentido peculiar que os comunistas dão à palavra “libertação”), tenha dado entrada a livros que defendiam, entre outras coisas, que o mundo moderno é uma degeneração do mundo tradicional; que a metafísica não é um simples ramo da filosofia, estando mesmo além dela; que um dos sintomas da decadência moderna estava na perda do sentido das castas e da hierarquia entre as raças; que Marx era um dos principais responsáveis pela corrupção materialista do mundo de hoje; e que, ao fim de tudo, era tarefa do Oriente iluminar o Ocidente – ideia que, para um russo soviético, talvez até soasse simpática, não fosse esta iluminação de ordem puramente espiritual e totalmente desvinculada das condições materiais. Estas obras, de cunho tão marcada e evidentemente reacionário, foram, em sua maioria, adquiridas nos anos 60 e 70 e formavam juntas uma verdadeira coleção que, em 1978, chegava a 87 volumes. Eram 17 livros de René Guénon, um francês convertido ao Islã e inimigo declarado do progresso, do materialismo e da cultura moderna ocidental de modo geral; 14 de Titus Burckhardt, suíço também convertido ao Islã, especialista em arte muçulmana; 38 de Ananda Coomaraswamy, um cavalheiro britânico nascido no Sri Lanka, estudioso de metafísica, arte e simbolismo orientais; 12 de Frithjof Schuon, outro suíço convertido ao Islã, fundador da tariqa Maryamiyya; e 6 de Julius Evola, italiano associado ao nazi-fascismo (que ele, no entanto, nunca apoiou na íntegra), crítico das sociedades igualitárias, defensor do que chamou de “racismo espiritual” e do retorno aos valores tradicionais pré-cristãos. Nesta coleção havia espaço até mesmo para raridades, como o poema “La parole obscure du paysage intérieur”, de Evola, impresso em 1920 numa edição limitada de 99 cópias numeradas. Estes autores receberam no Ocidente o título de “perenialistas” ou “tradicionalistas”, eram pouco freqüentados e, salvo uma ou outra exceção, não muito respeitados no meio acadêmico, raramente conseguindo espaço em bibliotecas universitárias: mesmo hoje, em 2012, sem censura e com facilidades comunicacionais incomparavelmente maiores, a biblioteca da USP registra muito menos títulos destes autores do que a sua congênere soviética em 1978 – menos da metade, para sermos mais exatos. Eram, em suma, e para dizer as coisas de modo claro e definitivo, livros e autores que não deveriam estar ali.

Lênin na Biblioteca Estatal Russa, zelando pelos leitores

Não deveriam, mas estavam. E, como seria de se esperar, acabaram sendo descobertos por alguém. Este alguém foi o jovem Yevgueny Golovin. Estudante de filologia na Universidade Estatal de Moscou, ele havia conhecido aqueles autores através da leitura do best seller “O Despertar dos Mágicos”, de Louis Pawels e Jacques Bergier, que teve excertos publicados em 1960 pela revista soviética “Nauka i Religiia” (Ciência e Religião). Aproveitando a condição de acadêmico, que lhe permitia ter acesso a todo o catálogo (parte dos livros dos autores tradicionalistas estavam em seções especiais, com acesso restrito a acadêmicos), tomou contato com as obras e, aos poucos, conseguiu formar um grupo de interessados que incluía o escritor Yuri Mamleev e o pensador muçulmano Geydar Dzemal, dois expoentes da contracultura dissidente soviética. Este grupo, marcado pela sua rejeição à experiência comunista e ao Ocidente materialista moderno, reunia-se na própria Biblioteca Lênin para ler e discutir os textos descobertos, muitas vezes até altas horas da noite. Tudo sob o olhar grave e penetrante do camarada Lênin, cujo desgosto diante de tal cena nem podemos imaginar.

Mas os encontros destes senhores não se limitaram à biblioteca. Frequentemente eram realizados em suas casas, onde os debates e saraus frequentemente acabavam em bebedeiras, orgias, rituais de todos os tipos e atos que foram descritos por uma testemunha como uma “poética da monstruosidade”.  No fim dos anos 70, um jovem impetuoso, filho de um oficial da KGB, contando menos de 20 anos, ingressava no grupo. Anos depois ele descreveria estes senhores como “um pequeno círculo de pessoas que recusou conscientemente a participação na vida cultural soviética”, escolhendo em vez disso o que chamou de “uma existência subterrânea”. Este jovem se tornaria, em poucos anos, o maior e mais influente nome dentre aqueles freqüentadores e atendia pelo nome de Alexander Dugin.

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Apesar de Dugin ter descrito a atividade de seus companheiros de Biblioteca Lênin, e a sua própria à época, como “subterrânea” e apartada da vida cultural soviética, não se pode dizer que tenha sido totalmente desconectada do clima geral do país. O período pós-stalinista na URSS – e, em especial, o das décadas de 60 e 70 – é entendido como um momento de renascimento do interesse pela religião e pelas ciências ocultas no país: cabala, budismo, esoterismo, mística islâmica e magia passaram a ganhar popularidade entre os soviéticos, e o cristianismo ortodoxo, por anos associado ao czarismo e às forças da reação, voltou a fazer parte do horizonte de poetas, artistas e intelectuais. Dugin está no centro deste processo de retomada da tradição russa e de incorporação de elementos esotéricos e tradicionalistas. Autodefinido como cristão ortodoxo, sua trajetória intelectual é fortemente marcada pela presença do perenialismo, sobretudo através das obras de Julius Evola e René Guénon, os dois maiores nomes desta linha de pensamento. Guénon entende a Tradição – nas palavras do próprio Dugin  – como a totalidade do conhecimento não-humano e divinamente revelado, que determinou a formação de todas as civilizações sagradas – dos Impérios pré-históricos da Idade do Ouro que desapareceram há milênios, à civilização medieval que, em suas variadas formas (cristã, islâmica, budista, etc.) reproduziu os parâmetros fundamentais da Ordem Sagrada. As verdadeiras religiões e tradições esotéricas trariam consigo, de uma forma ou de outra, resquícios da antiga Tradição Primordial, e o retorno a elas seria a única maneira de o mundo moderno reverter a sua escalada de contínua degradação. Por mundo moderno Guénon entende, principalmente, o mundo ocidental moderno. Para ele, assim como para os perenialistas em geral, a Tradição está muito melhor preservada no Oriente, cuja tarefa seria “iluminar” o Ocidente refém do materialismo (mais tarde, pouco antes de morrer, Guénon faria a distinção entre o Oriente geográfico e o Oriente místico, sendo este último o depositório da tradição de que ele falava). Quanto a Evola, seu pensamento apresenta  alguns pontos de contato com o de Guénon e há por parte dele um grande respeito pelo trabalho do francês, a quem definiu como “o maior mestre de nosso tempo”. Ambos concordam quanto à idéia de Tradição primordial e a de degeneração do mundo moderno, mas diferem quanto à atitude diante desta crise: enquanto Guénon entende que a iniciação de indivíduos duma elite em tradições verdadeiras era o caminho para salvar o Ocidente,  Evola demonstra dúvidas quanto à possibilidade de que isso de fato ocorra: em entrevista dos anos 60 ele chega a dizer que a posição de Guénon oferece pouco atrativo para quem não quiser assumir um estilo de vida oriental ou islâmico. Em vez disso, opina que a transformação do indivíduo, que Guénon afirma se dar por iniciação, dar-se-á apenas após a transformação de toda a sociedade. Marca desta diferença é o editorial do primeiro número de sua revista “La Torre”, onde ele afirma que a publicação “não será um refúgio para um escapismo mais ou menos místico, mas um posto avançado de resistência , de combate e de realismo superior”. Diante disto, torna-se fácil entender o porquê das tentativas evolianas de aproximação com movimentos políticos como o fascismo,  coisa que Guénon jamais tentou fazer e que, aliás, abertamente criticou nas sociedades islâmicas que encontrou no Cairo, imersas em retórica anti-colonial.

Central para esta diferença de abordagem é maneira como cada um encara a estrutura do sistema de castas hindus. Guénon afirma que, nas sociedades tradicionais, a casta sacerdotal – os brâmanes – representando a autoridade espiritual, era distinta (e superior) à dos guerreiros e governantes, a kshatryia, estando esta necessariamente dependente daquela. Evola, por outro lado, entendia que as duas eram originalmente unidas, separando-se no decorrer do processo de declínio da Tradição primordial.  Não será difícil perceber que esta diferença marca, também, o ponto que separa as personalidades de Guénon e Evola de forma definitiva: enquanto o primeiro tem a atitude contemplativa característica de um brâmane, o segundo, sendo adepto da ação, lembra muito mais o típico kshatryia – ou, mais precisamente, um membro da casta que, na Aurora dos tempos, sob o domínio da Tradição, unia o místico contemplativo e o líder heroico, o sábio e o guerreiro, a autoridade espiritual e o poder temporal num só. Tomando os títulos de duas de suas maiores obras, podemos dizer que enquanto Guénon nos apresenta, como um mestre diante de seus discípulos, à Crise do Mundo Moderno, Evola nos convoca a promover uma Revolta contra o Mundo Moderno.

Dugin foi e é um grande divulgador da obra de Guénon entre os russos, e não deixa de reconhecer sua dívida para com ele. No entanto, não resta dúvida de que está mais próximo de Evola. Além de ele lhe fornecer uma série de conceitos e análises importantes, como a interpretação da divisão tantrista entre o caminho da mão direita e o caminho da mão esquerda – que Dugin aplica, com algumas diferenças, aos conceitos tradicionais de direita e esquerda – a ênfase do pensador italiano na ação concreta e no aspecto heroico da existência é imediatamente identificável  no discurso do russo, que inclui passagens como esta: “Precisamos de um novo partido. Um partido a morte (….) Um partido de Deus, a versão russa do Hezbollah, que agirá de acordo com regras totalmente diferentes (…)”. Tais aspectos dizem-lhe muito mais respeito do que “escapismos mais ou menos místicos” , para usar a expressão do editorial de sua revista: interessa-lhe sobretudo a “resistência, o combate, o realismo superior”.

Não escapará ao leitor mais atento de Evola uma incoerência no discurso de Dugin: como pode alguém identificado com um pensador tão marcadamente anti-cristão como Evola (e , de modo bem menos enfático, e sob outros aspectos, também Guénon) dizer-se cristão ortodoxo? Afinal, como se sabe, Evola entendia o cristianismo – marca do espírito meridional semítico, plebeu, igualitário e, portanto, antitradicional – como um fator a mais no processo da decadência do Ocidente e da Europa tradicional. Guénon, por outro lado, apontava a falta de um caráter iniciático e esotérico dentro da tradição cristã, sem o qual não seria possível chegar à Verdade. Dugin responde a ambos asseverando que tanto Guénon quanto Evola conheciam apenas o catolicismo e protestantismo, onde os fenômenos que descrevem de fato ocorreriam, e sublinha que a Ortodoxia – respondendo, aí, à crítica guenoniana ao cristianismo – possui, assim como o Islã e ao contrário do cristianismo ocidental, uma via de realização espiritual completa que engloba esoterismo e exoterismo, o aspecto iniciático e o exterior. A ortodoxia, diz Dugin, não busca “apenas a salvação da alma individual”, mas “a realização espiritual e metafísica e, portanto, supraindividual e suprafísica”. Por outro lado, às acusações de plebeísmo e “semitismo” que Evola lança contra o cristianismo, o russo afirma que, mais uma vez, elas dizem respeito apenas ao cristianismo ocidental. Na ortodoxia, segundo Dugin, há a predominância de elementos helênicos e a veneração a apóstolos anti-judaicos, como João, André e Paulo, enquanto São Pedro, por exemplo, um dos nomes mais importantes do chamado “judeo-cristianismo” e venerado pela Igreja Católica (produto, para Dugin, deste mesmo ‘”judeo-cristianismo”), ocupa ali um lugar secundário. Ademais, predominaria na Igreja russa, ligada ao tzar e fortemente ligada as ideias de missão nacional, um espírito “aristocrático e ascético, ativo e heroico”, que está, sem dúvida, em conformidade com Evola.

Nota-se neste procedimento de Dugin uma tentativa de justificação de sua religião perante os ínclitos mestres da Tradição, e, especialmente, perante Evola.  Ele parece pouco preocupado em saber o que a Igreja Ortodoxa pensa de Guenon e Evola, mas não poupa esforços para que ela faça boa figura diante deles. Fica claro que, antes de ser cristão, antes de ser nacional-bolchevique, antes de ser nacionalista russo, antes de ser anti-atlantista ou anti-americano, Alexander Dugin é um tradicionalista do tipo evoliano, que submete tudo à aprovação do mestre e conforma tudo aos seus ensinamentos. Ao mesmo tempo, ele é mestre para muitos: principal líder do movimento Eurasiano, professor universitário, autor de dezenas de livros e influência marcante para os arquitetos da política externa do governo Putin, a posição que ocupa é – ao contrário da que ocupou outrora – a de participante ativo da vida cultural e política de seu país. Os anos de reuniões na biblioteca Lenin com seus camaradas ficaram para trás: a situação é hoje outra. Na Rússia de Putin – e não só nela – os defensores da Tradição já não levam vidas subterrâneas. Ao contrário: com força, fé e entusiasmo, marcham sobre a terra.

junho 10, 2014 Posted by | Ciências Humanas, Política | 1 comentário

Jacques Le Goff (1924-2014)

 

Alain Touraine, na resenha da primeira edição de “A Civilização do Ocidente Medieval”:

 

“A obra militante de Jacques Le Goff deve nos fazer lembrar do objeto comum das ciências humanas: o estudo das formas sociais e culturais nascidas da luta da ação contra a imobilidade do objeto, natural ou social.”

 

abril 12, 2014 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Ler Oswald Spengler em 2014

Quando “A Decadência do Ocidente” foi publicado pela primeira vez, em julho de 1918, poucos poderiam imaginar — e decerto não o seu autor, Oswald Spengler — que, em menos de quatro anos, o primeiro tomo da monumental obra venderia nada menos do que 53 mil exemplares, cifra que viria a repetir-se com a publicação do segundo tomo. Um verdadeiro best-seller, portanto. Mas um best-seller que podemos qualificar de improvável, o que é devido, sobretudo, a dois obstáculos nada desprezíveis.

O primeiro era a crise econômica vivida na Alemanha após a guerra de 1914-1918, que limitava as compras da maioria da população ao básico indispensável. O segundo era o próprio livro: Spengler apresentava ao leitor mil páginas de um texto denso e exigente onde, passeando pelas realizações, sucessos e declínios de oito culturas distintas, concluía que, por mais grandiosas e extraordinárias que fossem ou parecessem em seu tempo, elas não passavam de organismos que, como todos os organismos, estavam destinados à mesma sorte banal de uma planta ou uma espécie: a de nascer, crescer e, por fim, desaparecer. Além disso, a mais recente das culturas humanas, a Ocidental, encontrava-se justamente no seu estágio final de existência. Um livro, em tese, para poucos iniciados. Pois “A Decadência do Ocidente” passou por cima dos dois obstáculos, o que é prova da urgência da reflexão que propunha naqueles tempos que o próprio Spengler qualificaria, em outro livro, como “anos de decisão”.

Não é de se crer que a Forense Universitária , responsável por esta nova publicação da obra (na tradução feita por Herbert Caro, um dos maiores divulgadores das letras germânicas no em nosso país) vá esperar sucesso semelhante no Brasil, mesmo sendo esta a edição condenada pelo professor Helmut Werner, que reduziu a gigantesca obra original a menos da metade. Afinal, o Brasil, enquanto Brasil, não vê nada parecido com os anos de decisão — titulo, aliás, de outro livro de Spengler — vividos na Alemanha pós-1918. Mas o Brasil enquanto Ocidente vê, sim, a necessidade das reflexões de Spengler para uma cultura que se vê sem rumo, acuada pelo medo de si e dos outros e incapaz de impor-se e de fazer-se ouvir num mundo complexo. Nossos anos são, de certa maneira, também “anos de decisão”. Por isso, a leitura — atualizada e crítica — de Spengler se impõe também a nós, ocidentais do novo milênio.

É importante atentarmos aqui para um fato fundamental: o de que os brasileiros podemos, neste “A Decadência do Ocidente”, usar com o pronome “nós” quando fazemos referencia ao problema que ele apresenta. Quem o diz é o próprio Spengler logo no começo da obra, quando afirma que, por Ocidente, entende a cultura da Europa e das Américas – e não da América, querendo dizer somente a América do Norte, os Estados Unidos e o Canadá. Não é pouca coisa. Os estudos dos últimos trinta anos que abordam a temática decadentista – e creio ser correto falarmos que há tal temática dentro das ciências humanas no último século – normalmente excluem a América Latina do grupo de países ocidentais. É o que faz um Niall Ferguson, por exemplo,, ou, em nível ainda mais baixo, um Patrick Buchanan, os dois na esteira de Samuel Huntington. Para eles, o Ocidente, The West, significa quase o mesmo que o Noroeste do globo, onde vivem sobretudo brancos, com boa renda média, boa segurança institucional e num ambiente liberal-democrático. Muitas vezes é uma designação antes sócio-econômica do que histórico-cultural. Fala-se em “western standarts” para padrão de vida e quando se fala em “western values” é, em geral, uma referência às liberdades da democracia liberal e secular face ao resto do mundo – The Rest, na expressão de Ferguson – onde tais coisas ainda não chegaram, sobretudo o agora temido mundo islâmico. Qualquer uma destas definições faria Spengler, que pouco se interessava para IDH, renda média ou eleições parlamentares, horrorizar-se. São todos símbolos do progresso, e se há algo que Spengler não foi em vida foi um entusiasta pelo progresso.

Não era algo comum naquela época. As filosofias da história mais divulgadas – as de Comte, Hegel e Marx – eram francamente progressistas. O sentido da história existia e cabia ao indivíduo, ao homem concreto, saber para onde ele apontava e adequar-se a ele, amoldando a sua trajetória vital ao caminho correto. Spengler veio com o contrário. Em vez de olhar o horizonte com entusiasmo, viu-o com pessimismo. Rejeitando totalmente a visão linear da História, propôs, influenciado por Nietzsche, uma visão cíclica, onde cada cultura, comportando-se como um organismo, morrerá dando lugar a outra. Oito são as grandes culturas que Spengler ve na História da humanidade: a indiana, a babilônica, a egípcia, a chinesa, a arábica (ou mágica) e, por fim, a Ocidental, ou faustiana. Cada uma delas tem um símbolo primordial, espécie de primeira impressão de uma criança que lhe afetará a vida para sempre. No caso das culturas, o símbolo primordial é o que as anima em tudo, das matemáticas às artes plásticas, da literatura à economia, e com elas permanecerá até que desapareçam. No caso da civilização ocidental, o símbolo primordial é o espaço ilimitado, que a alma faustiana anseia como Fausto anseia pelo conhecimento.

Spengler inscreve-se dentro do chamado historicismo alemão, como um dos integrantes destacados desta geração extraordinária de intelectuais alemães, ao lado de um Max Weber, um Georg Simmel ou um Friedrich Meinecke. E Spengler é historicista em quase todos os pontos relevantes de sua obra. É refratário à idéia – ainda existente, em sua época – de utilizar os modelos das ciências naturais para as ciências humanas; ressalta a necessidade de o historiador, o sociólogo, o crítico de arte compreender o seu objeto de estudo, atitude fundamentalmente diferente do explicar característico dos cientistas; e entende que as consciências são produto do contexto histórico onde vivem e têm seus horizontes por eles limitados. Em outras palavras, o historicismo assume uma posição decididamente relativista: todos os valores de uma cultura estão inexoravelmente ligados a esta cultura, não sendo necessariamente válidos para outra.

Spengler, como faz com tudo em “A Decadência do Ocidente”, leva-o às últimas consequências e o faz de maneira explícita. Nada escapa à passagem do tempo e a mudança do espaço: moral, Direito, instituições, arte nem mesmo a física e as matemáticas e suas pretensões de validez universal. “O filósofo sistemático” – diz ele – “comete um erro muito grave ao considerar seus resultados como duradouros. Esquece o fato de que todos os pensamentos vivem num mundo histórico e , por isso, partilham do destino geral da efemeridade”. E vaticina: “Não há verdades eternas. Cada filosofia é expressão de seu tempo, e só dele”. Nisso sobra espaço para uma crítica à maneira do filósofo ocidental em tratar as suas próprias realizações:

Eis o que falta ao pensador ocidental e que não deveria faltar justamente a ele: a compreensão da natureza histórico-relativa de suas conclusões, que não passam da expressão um modo singular de ser, e somente dele. O pensador ocidental carece do conhecimento dos inevitáveis limites que restringem a validez de suas afirmações. Ignora que suas “verdades inabaláveis” e suas “percepções eternas” são verdadeiras só para ele e eternas unicamente do ponto de vista da sua visão de mundo. Não se recorda do dever sair da sua esfera para procurar outras verdades, criadas com a mesma certeza por homens de culturas diferentes”.

Impossível não lembrar aqui de Wilhelm Dilthey, mestre de Spengler e de todos os historicistas, para quem a pretensão de validade universal da filosofia europeia havia sido quebrada a partir do momento em que Alexandre o Grande empreendeu suas campanhas pela Asia. Nada pode ter pretensão de validade universal.

Nem todos gostaram do estilo de Spengler, das suas frases sentenciosas que encheriam os commonplace books, do tom épico que se nota desde a introdução da obra, das suas conclusões definitivas. Lucien Febvre ataca o caráter “totalitário” da filosofia da História de Spengler, ao englobar toda a ação dos homens de uma determinada época dentro da grã-entidade cultura. Diz que Spengler escreveu sob medida para os alemães daquela época, que preferiam “sentir confusamente” em vez de “compreender lucidamente”. Mesmo as palavras de admiração que Spengler recebeu sempre vieram com ressalvas ou com elogios a aspectos “não-científicos” dela. Eric Voegelin, um inimigo declarado das filosofias da História, reconheceu-lhe a capacidade de aglutinar e combinar conhecimentos diversos e deles extrair uma conclusão, que ele, Voegelin, julgava essencial para qualquer estudioso sério em ciências humanas – e pouco mais do que isso. Já Max Weber, que conheceu “A Decadência do Ocidente” pouco antes de morrer e falava com a autoridade de quem estudara tudo o que Spengler abordava no livro, via nele pouco mais que um diletante – para ser mais exato, “um diletante muito engenhoso e culto”, mas ainda assim um mero diletante. Parece ter sido difícil para o cientista profissional daquela época em aceitar o seriamente trabalho daquele modesto professor de matemática que apenas na idade adulta passou a interessar-se por filosofia. Preferiram elogiar o artista e atacar o filósofo, e elogiar o artista foi, muitas vezes, um ataque velado ao filósofo: é o caso do crítico literário Northrop Frye, que elogia-lhe o estilo e a grandiosidade, reconhece-lhe a influencia imensa a ponto de dizer que, em certo sentido, hoje “somos todos spenglerianos”, apenas para dizer que suas teses já foram refutadas dezenas de vezes. Menos explícito, mas com o mesmo espírito foi Ortega y Gasset, para quem “A Decadencia do Ocidente” foi a peripécia intelectual mais estrondosa daqueles anos. Spengler era um poderoso “acunador de ideas, y quienquiera penetre em las tupidas paginas de este libro se sentira sacudido uma y otra vez por el eléctrico dramatismo de que las ideas se cargan cuando son fuertemente pensadas”. Mais do que tudo, alguém que sabia reunir e organizar ideias e pensa-las “fuertemente” – mas não profundamente, nem corretamente. Como um poeta, não como um cientista. Nesse ponto, Spengler parece-se demasiadamente com seu principal inspirador, Friedrich Nietzsche, que foi antes de tudo, poeta.

A fina percepção de Northrop Fryre levou-o a apontar que poucos livros neste mundo têm o poder de expandir a mente de alguém como este, como os melhores poetas. O próprio Spengler parecia ter noção deste caráter inspirador de sua obra. A todo momento aponta para certos temas que não foram estudados, convidando o leitor qualificado para tal a empreender pesquisas nesse sentido e com a certeza de que o todo por ele construído não será maculado por conclusões diferentes. Spengler sabe que encontrou o caminho.

E o Brasil também teve os seus admiradores de Spengler. Talvez o mais notório deles tenha sido Otto Maria Carpeaux, cujos anos de formação se deram justamente no período em que “A Decadência do Ocidente” fazia furor no mundo de língua alemã. Carpeaux detestava a edição reduzida de Werner e chamava de ignorantes aos que acusavam Spengler de ser um precursor intelectual do nazismo. Outro admirador foi o poeta Gerardo Mello Mourão, que se confessou“Irremediavelmente alcançado pelo toque de epopeia e de elegia com que esse filósofo lírico se debruçou, com o charme de um romancista, sobre a historia de um mundo de glorias e esplendor de espírito, marchando irremediavelmente para a uinda como a velha mansão esplendida de uma dessas famílias a caminho da decadência ,tão típicas da tragédia burguesa de nossos dias”. Uma epopeia, uma elegia, de um filósofo lírico com charme de romancista: um artista, um criador, antes de tudo, pertencente ao mundo da poesia. Mas quem, lendo “A Decadencia do Ocidente”, mesmo quem vê mais virtudes em Spengler, poderá discordar disso? Basta ler a maneira como Spengler termina o livro como quem põe fim a uma apresentação majestosa:

“Assim termina o espetáculo de uma cultura superior, todo esse universo maravilhoso de divindades, artes, ideias, batalhas, cidades e tudo torna a embocar nos fatos primordiais do sangue eterno, que é idêntico às flutuações cósmicas em seus perenes ciclos”. A frase final do livro não poderia estar mais de acordo com o espírito da obra: “Ducunt fata volentem, nolentem trahunt” – o “destino conduz a quem consente, a quem resiste ele o arrasta”. Um poeta reconhece outro, e Mello Mourão foi um grande poeta.

Quanto a Carpeaux, sua irritação tinha sentido. Não foram poucos os nazistas, em especial os de primeira hora, que gostaram da obra de Spengler e até mesmo a empregaram para fins propagandísticos. Isto maculou ainda maisa sua penetração em círculos intelectuais do pós-guerra, como também aconteceu com Carl Schmitt, Ernst Junger e, em menor medida, com Martin Heidegger. A confusão não é de todo incompreensível. O pessimismo, o anti-liberalismo, a exaltação da nação alemã, do heroísmo, do “vivere pericolosamente”. Spengler chega a falar de de matemática e física “faustianas” como os nazistas falavam de “física judaica” para se referir a Einstein. No entanto, Spengler nunca aceitou o determinismo biológico nazista e a figura de Hitler lhe parecia circense. Muitos nazistas que o conheceram pessoalmente ficaram desapontados. Em 1936, seus livros foram banidos pelos nazistas. Pouco depois viria a falecer.

A pergunta que se impõe ao fim de “A Decadência do Ocidente” é: e depois? Afinal de contas, Spengler prediz o fim do Ocidente, mas não o fim deste planeta. Será sucedido por qual outra cultura? Spengler deixa algumas pistas ao longo da imensa obra, mas nunca de modo definitivo. Parece ter certo receio de expor seu posicionamento sobre essa questão. Não o fez como costuma fazer, abrindo ou fechando cortinas, mas em meio a outros debates que inicia no decorrer da obra. Não esqueçamos que “A Decadência do Ocidente” foi publicado no alvorecer da revolução de Outubro, quando o ainda se especulava sobre o futuro da União Soviética e todas as opções estavam abertas. E ele pergunta: ““O que não se pode esperar da Rússia futura?”. Não faltou quem lesse em Spengler uma profecia de que a Rússia que nascia era a Rússia soviética, e que o fim do Ocidente era o fim do Ocidente capitalista. É ele mesmo quem logo se encarrega de desfazer possíveis mal entendidos: o bolchevismo que nascia era ocidental, e não especificamente russo. “Os bolcheviques”, diz ele, “não são o povo, nem sequer parte do povo”. São outra coisa, “algo estranho, estrangeiro, ocidental”. A Rússia de Spengler ainda estava por vir e viria não de fora, mas de dentro, de suas estranhas. E para esclarecer que Rússia é essa Spengler traça um paralelo entre Tolstoi e Dostoievki. Dostoievski é o representante legítimo da tradição russa, enquanto Tolstoi é o ocidental ilustrado, filho das reformas modernizantes de Pedro, o Grande, autor de extraordinários e muito bem escritos romances realistas, relacionado, segundo Spengler, a Marx, Zola e Ibsen. Já Dostoievski não se relaciona com nada, exceto com os apóstolos. Com isto desagradou tanto aos revolucionários e aos conservadores que o leram em primeira mão. Mas isso não lhe importa nada: ser conservador ou ser revolucionário, aponta Spengler, são conceitos ocidentais, inaplicáveis à sua visão de mundo. Os russos, esse “povo sem cidades, que busca realizar sua forma própria de vida, sua própria religião, sua própria história futura”, esse povo é representado por Dostoievski, e não por Tolstoi. É este povo que está preparando, gestando, algo novo, diferente, enquanto a velha Europa decai. “A alma russa está preparando uma terceira espécie de cristianismo, por enquanto sem sacerdotes, baseada no Evangelho de São João e muito mais próxima ao cristianismo mágico (isto é, árabe) que ao fáustico”. E vaticina, em mais uma de suas frases com tom de profecia: “O cristianismo de Dostoievski é o do próximo milênio”. Neste momento histórico em que a Rússia de Putin reaparece no cenário internacional estas palavras ganham um significado especial. Nossa leitura de Spengler em 2014 não pode desconsiderar isto – do contrário, sequer será leitura.

Convém entretanto não petrificarmos a poesia de Spengler, buscando nela previsões definitivas: assim, deixará de ser poesia e de inspirar, até hoje, quase um milênio depois de publicada, a tantos pensadores do mundo. Da “nova Direita” francesa de Alain de Benoist ao novo nacionalismo russo de Alexander Dugin, passando por anti-colonialistas latino-americanos e revolucionários do mundo islâmico, ela segue, multifacetada, aberta a releituras e a ressignificações – como toda boa poesia – expandindo a mente e os horizontes de muitos. Como dissemos, infelizmente ainda não podemos le-la toda em portugues – o que já é, também, uma convocação para uma editora, talvez a própria Forense, traduzi-la por completo (uma boa sugestão, em idioma próximo, é a espanhola assinada por ninguém menos do que Manuel Garcia Morente) e brindar o leitor brasileiro com a poesia de Spengler. Ao menos sua poesia pode ainda emocionar. Ainda mais em anos de decisão, como estes em que vivemos.

março 14, 2014 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Andrei Plesu

A Editora É Realizações vem suprindo uma carência no mercado editorial brasileiro com a publicação de autores romenos, incluindo aí os nomes contemporâneos, que passaram pela ditadura de Ceaucescu e o processo de democratização do país. Assim, já podemos encontrar nas livrarias as obras do filósofo Constantin Noica, do escritor e monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, do poeta e diplomata Lucian Blaga, do dramaturgo Matei Visniec e, agora, do filósofo Andrei Plesu, com o recém-publicado “Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental e outros ensaios” (120 páginas, tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca).

Plesu é uma das  mais importantes figuras da cultura romena contemporânea: foi ministro da Cultura nos anos 90 e é conhecido tanto pela análise crítica dos regimes comunistas (em especial o de seu país) quanto pelo seu estilo refinado de escrita, perceptível mesmo na tradução em português de “Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental”. Quatro ensaios compõem o livro, dos quais se destaca o segundo, “Das elites no Leste e no Oeste”, reflexão primorosa sobre o papel da elite intelectual nas sociedades e a subversão deste conceito tanto mundo comunista do Leste Europeu quanto nas sociedades capitalistas ocidentais. Uma excelente novidade que chega ao Brasil, onde reflexões deste quilate são também muito necessárias.

Para encontrar, clique aqui:

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novembro 1, 2013 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

O tempo de Arturo Pérez-Reverte

As notícias que chegam da Espanha nos dizem que o país se encontra em profunda decadência econômica e social e que os espanhóis estão, como nos piores momentos de sua história, deixando a pátria em busca de emprego e meios de vida em outras terras. Quanto aos que ficam, dizem, estão cabisbaixos, tristes e sem perspectiva. No plano político, a insatisfação é imensa, com ameaças sérias de separatismo e denúncias diárias de corrupção. Típico país em decadência, portanto. Nada, claro, que assuste: este é um estado que os espanhóis conhecem bem. A Espanha é a nação decadente por excelência, ocupando o posto há – falando por baixo – mais de um século. É quase um decadente profissional. E, justamente nos momentos de maior decadência – digo “maior”, porque decadente tem sido sempre – a velha Espanha dá mostras de inquebrantável vivacidade intelectual. Lembremos das primeiras décadas do XX, época em que o destino de todo espanhol, fosse ele galego, basco, catalão, andaluz, asturiano ou castelhano, era arrumar sua trouxinha e bandear-se para este canto do mundo em que vivemos: naquele momento de miséria, guerra e crise, os espanhóis nos deixaram, num espaço curtíssimo de tempo, nada menos do que Unamuno, Azorín, Baroja, Ortega y Gasset, Antonio Machado e muitos outros. 

Diante disto, cabe perguntar: qual o grande nome que a Espanha sumamente decadente de hoje deixará para o mundo? É cedo para dizer. Já nos avisava Borges para nunca esperarmos menos de cem anos antes de julgar um escritor. Mas podemos arriscar um pouco, e pensar num nome que, se não temos certeza de que permanecerá daqui a um século, terá muito a dizer para o mundo de hoje, e em especial, para o Brasil de hoje: Arturo Pérez Reverte. 

É difícil imaginarmos daqui o impacto que tem no seu país este jornalista de 61 anos, ex-correspondente de guerra, romancista premiado e membro da prestigiada e seletíssima Real Academia Española. Para termos uma breve ideia, neste último dia 28 de outubro, às nove e meia da noite, milhões de cidadãos espanhóis deixaram seus Ipads de lado, cancelaram idas aos bares e restaurantes e ligaram seus televisores para assistirem a um programa de nome curioso para os tempos que correm por lá: “Salvados”. O motivo? Ali Pérez-Reverte concederia entrevista. O programa foi líder de audiência naquele horário e quem foi para a frente da TV não se decepcionou. Esperava a coragem, a frase certeira, a crítica corrosiva, a feroz e altiva independência que é, desde Sêneca, marca inconfundível dos espanhóis; encontrou o diagnóstico definitivo para seu país: “España es un país que está maldito históricamente. Perdimos dos ocasiones de oro, en el Concilio de Trento y en la época de la Revolución Francesa”. Opinou que “nos faltó lo que hubo en otros países, una guillotina” . Falou também de problemas que dizem respeito ao resto do mundo: “En otros tiempos, cuando las cosas iban mal, había ideologías que sostenían los ánimos. Ahora no hay líderes y la sociedad está indefensa. No hay una acción coordinada común ni una revolución que permita cambiar las cosas”. E por que? Em primeiro lugar, porque “Vivimos en un mundo con demasiados mecanismos de anestesia”. Há como discordar? 

“Escribo con tanta libertad que me sorprende que me dejen”, diz ele, provavelmente entre risos. Quem quiser pode acessar este blog mantido por um fã espanhol de Reverte, e ler uma compilação de seus artigos colhida de vários jornais espanhóis. A surpresa é mesmo inevitável: como dão espaço a este homem? Pérez-Reverte fustiga com igual vigor aos direitistas e aos esquerdistas, aos liberais e aos comunistas, a americanos e a anti-americanos, aos europeístas de seu país e aos anti-europeus de outras terras, aos militares, ao Estado, ao povo e à imprensa, com quem mantém relação complicada, tendo sido demitido várias vezes, de várias empresas, por nunca ter voltado atrás em uma opinião dada. Dureza, talvez, de ex-correspondente de guerra, presente em conflitos tão sangrentos e bárbaros quanto a guerra do Líbano, de 1982, ou da Iugoslávia, nos anos 90. Dureza, talvez, de espanhol: em certos momentos a prosa de Reverte assemelha-se à do seu compatriota Pío Baroja, que, como ele, exerceu o jornalismo e a ficção e notabilizou-se pelas observações impiedosas sobre seu país e a condição humana em geral, recebendo por isso o qualificativo revelador de “el hombre malo de Itzea”. Por isso tudo, a leitura de Pérez-Reverte desde o Brasil é altamente reveladora sobre o tipo de jornalismo que temos. Aqui não há “hombres malos”: há bons moços do grupo A contra bons moços do grupo B. O jornalista que se autodenomina independente e crítico do que chama de politicamente correto pertence a um tipo bem definido, com características perceptíveis até mesmo pelo estilo em que escreve. É seletivo: ataca apenas a parcela do discurso hegemônico que lhe interessa atacar. Fecha os olhos para a outra e, como bom moço que é, reclama a todo momento que é um perseguido. O “hombre malo” Pérez Reverte jamais faz isso: aceita o caminho que escolheu e suporta-o, como bom espanhol, estoicamente. 

Isso tudo é surpreendente para o brasileiro, mais do que para o espanhol, mais do que para Pérez-Reverte. Será fácil dizer que essa dificuldade de nossa imprensa se deve ao nosso caráter conciliador, ao homem cordial, ao jeitinho e assim por diante. Não porque estas figuras não existam, mas sim porque, no mundo, este tipo de jornalista é a regra. A exceção fica na decadente Espanha de nossa época. Gerardo Mello Mourão atribui a Gilberto Amado a seguinte resposta, ao lhe perguntarem em que país gostaria de ter nascido: “Em qualquer um, desde que em tempo de decadência”. Ter nascido aqui ou acolá é um acidente, a que não se pode perdoar nem louvar. Por isso, quanto a mim, não sei se gostaria de ter nascido em outro lugar. Mas posso dizer que gostaria partilhar com os espanhóis o tempo de Arturo Pérez-Reverte. 

novembro 1, 2013 Posted by | Ciências Humanas, Literatura, Política | Deixe um comentário

Chomsky vs. Zizek

Excelente introdução ao debate entre os dois gigantes da esquerda no Blog da Boitempo.

Mais um capítulo da velha querela entre a filosofia continental (representada por Zizek) e a anglo-saxã (representada por Chomsky)? Talvez evolua para tanto, e se acontecer, será excelente: estaremos diante de uma verdadeira disputa, à moda antiga, entre dois nomes de peso na academia e no mainstream cultural.

Para que isso ocorra, entretanto, é preciso, antes de tudo, que:

1- Chomsky aprofunde-se na crítica – por enquanto, superficial, não-informada e genérica – que fez a Lacan, Zizek e outros filósofos da tradição continental;

e

2- Zizek deixe de lado acusações infantis sobre supostas declarações de Chomsky em apoio ao Khmer Vermelho (irrelevantes para qualquer debate deste porte) e parta para um ataque concreto e direcionado aos posicionamentos do professor do MIT.

Que sejam inteligentes e aproveitem o momento. Todos ganharemos.

agosto 12, 2013 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Relendo Hegel

O filósofo esloveno Slavoj Zizek possui uma curiosa predileção por temas e autores que o debate intelectual moderno relegou a segundo plano ou simplesmente descartou. Por exemplo: em um de seus livros, “Em defesa das causas perdidas”, tenta reabilitar a teoria e a prática revolucionárias em nosso contexto atual; em outro, “Às portas da revolução” , exorta-nos a – segundo ele mesmo – “repetir, nas condições do mundo atual, o gesto leninista que reinventou a prática revolucionária”. Zizek faz isso por considerar que estas discussões são centrais e que toda tentativa de escapar delas é vã. Assim, neste mesmo espírito, volta-se em seu último livro,“Menos que nada” (Editora Boitempo, 656 páginas, tradução de Rogério Bettoni) para o pensador que mais o influenciou: Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

Tal como Lênin e a revolução do proletariado, Hegel já não está tão na moda. Segundo Zizek, é uma injustiça: para ele, o momento histórico em que vivemos, em que o capitalismo global dá mostras de esgotamento, assemelha-se muito ao da passagem do mundo antigo, tradicional, para o moderno, pós-tradicional, quando Hegel – que viveu a época intensamente – “por um breve momento, viu algo que não estava visível nem antes, nem depois”. Por isso a necessidade de repetir Hegel: seu tempo é o nosso, suas questões são as nossas e a atitude que tomou dever ser a nossa. Concordando-se ou não com Zizek (este articulista não concorda na integralidade com ele), o fato é que “Menos que nada” é uma audaciosa reflexão de um dos mais importantes intelectuais públicos do momento, um refinadíssimo leitor de Hegel e arguto interprete do mundo atual. Só isto já é suficiente para recomendar-lhe a leitura.

Onde encontrar: http://www.boitempo.com.br

junho 28, 2013 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Rumo à Estação Finlândia

 

 

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Um trem vindo da Alemanha chegou à estação Finlândia, na cidade russa de São Petersburgo, no dia 3 de abril de 1917. Entre os seus passageiros encontrava-se Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido pelo nome de Lênin. Naquela altura, o líder bolchevique já não se via como o indivíduo Vladimir Ilitch Ulianov, com desejos, fraquezas e problemas particulares, mas sim como um verdadeiro agente da história, disposto a tudo para construir um mundo melhor para a humanidade do futuro. A chegada à dita estação marcaria o culminar de uma corrente de pensamento, à época já contando quase dois séculos, caracterizada pelo culto ao progresso e pela crença nas forças históricas, no aperfeiçoamento do homem e na busca por um mundo melhor: a esquerda.

Está, assim, explicado o título de “Rumo à Estação Finlândia”, uma das mais celebradas obras do crítico e escritor americano Edmund Wilson (Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Brito). É um livro difícil de definir. Publicado em 1940, até hoje resiste às tentativas de catalogação. É História? Filosofia? Jornalismo? É provável que cada leitor de “Rumo à Estação Finlândia” tenha a sua própria definição do que é a obra. Quanto a mim, entendo que é um grande e abrangente ensaio – o gênero por excelência das obras “indefinidas”,  que arriscam conexões de saberes e novas interpretações sem seguirem um método rígido. Nele, Wilson mapeia o trajeto intelectual que levou Lênin a tomar o trem para a Estação Finlândia, partindo de Michelet, passando por Saint Simon, Marx, Bakunin, Trotski e chegando ao próprio líder soviético. A obra agradou, e segue agradando, tanto ao leitor comum quanto ao especializado, que, mesmo podendo fazer um ou outro apontamento às leituras de Wilson sobre certos personagens – em especial Marx, Lênin e Trotski, sobre os quais não se sabia muito quando ela foi escrita – não lhe pode deixar de admirar a erudição, a capacidade de síntese, a elegância do estilo e a capacidade de perceber e conectar as múltiplas vozes do pensamento progressista.

maio 8, 2013 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Uma página de Fernando Sánchez Dragó

Um trecho do jornalista, escritor e ensaísta espanhol Fernando Sánchez Dragó, gentilmente enviado (e anotado) pelo nosso caro amigo e leitor Victor Garcez.

Ainda escreveremos sobre Dragó neste blogue.

fevereiro 3, 2013 Posted by | Ciências Humanas, Literatura | Deixe um comentário

A vida intelectual

Publicado pela primeira vez em 1921, “A Vida Intelectual”, de A. D. Sertillanges é uma das mais conhecidas obras de introdução aos estudos superiores já escritas. Sucesso nos EUA e na Europa, o livro (no original francês) teve boa circulação nos meios católicos brasileiros décadas atrás e ainda pode ser encontrado em antigas bibliotecas. Felizmente, graças à iniciativa da É Realizações, a obra ganhou uma edição brasileira em 2010 e, agora, uma reimpressão.

A base para o estudo de A.D. Sertillanges é a carta “Dezesseis preceitos para adquirir o Tesouro da Ciência”, de Santo Tomás de Aquino. Às lições do Aquinate o padre Sertillanges agrega a força estilística, formada na velha escola da retórica eclesiástica (a mesma que nos deu um Padre Vieira, para ficarmos num exemplo próximo) que nada perdeu na feliz tradução de Lilia Ledon da Silva para o nosso idioma. Em lições curtas, o sacerdote explica ao jovem iniciante as técnicas de leitura, estudo e organização da vida de um postulante a intelectual. Que ninguém, no entanto, se engane com o padre Sertillanges: “A Vida Intelectual” não conclama ninguém a abandonar a agitação do mundo e a refugiar-se no claustro. Trata-se de um livro para o homem de ação, para o estudante cheio de trabalhos e premido pelas provas, para o profissional atarefado, para, enfim, quem luta pela vida e enfrenta tempo e condições adversas. No mínimo, será uma leitura muitíssimo produtiva para qualquer estudante sério.

Onde encontrar:

http://www.erealizacoes.com.br

janeiro 27, 2013 Posted by | Ciências Humanas, Literatura, Livros | , | Deixe um comentário

1922

1922 um ano muito bom convites personalizado

 

Uma das interpretações da profecia maia que marcou o corrente e quase findo ano era a de que o mundo não terminaria em 2012, mas sim passaria por uma radical transformação em todos os níveis e abriria espaço para uma nova era. Se esta interpretação está correta – e deve estar, tendo em vista que a apocalíptica mostrou-se, ao menos até o momento, equivocada – então podemos dizer que, ao menos no mundo da cultura, 2012 já passou. Aconteceu há exatos 90 anos: foi em 1922.

Não é exagero afirmar que o mundo como se o conhece hoje começa ali. Naquele ano, T.S. Eliot (na foto) publicou “The Wasteland” e o primeiro número da revista “Criterion”, que revolucionaria o mundo literário nos dois lados do Atlântico. Também em 1922, James Joyce publica “Ulysses” e Ezra Pound os “Cantos”. No cinema, Murnau lança “Nosferatu”, dando ao Expressionismo Alemão a sua primeira grande obra, e, no Brasil, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada” – aliás, para nós, brasileiros, é desnecessário lembrar da importância da Semana de 1922 para os destinos do país. Na política, é o ano da criação formal da URSS, com a ascensão de Stalin, e da chegada de Mussolini ao poder na Itália, além da Independência irlandesa, que consagrou o uso da guerrilha como tática de libertação nacional. Muito do que aconteceu em 1922 já não existe hoje – mas grande parte do que hoje existe não existiria sem o que aconteceu em 1922.

dezembro 29, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Literatura | Deixe um comentário

“Os brasileiros não se sentem latinoamericanos”

Daqui.

Reinaldo Montero: Sabe o que acontece? Os brasileiros, a maioria deles ao menos, não se sentem latino-americanos. Isso é muito curioso porque a influência do Brasil na América Latina e, em especial, em Cuba, é extraordinária. O conhecimento que há do Brasil em Cuba é enorme: o tropicalismo, o Cinema Novo, o primeiro título da coleção Casa de las Americas foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Essa influência é mais antiga ainda e chega até a música que vocês chamam de erudita. As Bachianas de Villa Lobos, em especial uma interpretação memorável que se fez da Bachiana nº 5, influenciaram o nacionalismo musical cubano, a música “culta”, como se diz em espanhol, nos anos 30 e 40. Depois, com o tropicalismo e o Cinema Novo, nos anos 50 e 60, poderia se dizer que a música brasileira era tão cubana quanto a cubana. 

Eu vim para o Brasil pela primeira vez, em 1986, convidado pela Câmara do Livro de São Paulo, para a Bienal do Livro. Eu lembro que cheguei à noite e me levaram para o hotel. Quando cheguei na recepção do hotel vi num mapa da cidade que estava perto da Ipiranga com a São João. Ipiranga com São João? Alguma coisa acontece no meu coração…Eu saí do hotel e fui até à esquina da Ipiranga com São João, o que, naquele tempo, era muito perigoso. Esse é o exemplo vivo do conhecimento que há em Cuba sobre o Brasil. Não sei quantos brasileiros podem ir a Havana e fazer algo assim…

novembro 15, 2012 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Eric Hobsbawm (1917-2012)

Faleceu na última segunda-feira, vítima de pneumomia, o historiador britânico Eric Hobsbawm. As homenagens vieram de todas as partes: desde o político profissional, que provavelmente nunca leu uma linha sua, até o historiador profissional, que o conhece desde os primeiros semestres na graduação, passando pelo que ele definiu certa vez como “aquele cidadão culto e inteligente, que não tem simples curiosidade sobre o passado, mas que deseja compreender como e porque o mundo viria a ser o que é hoje, e para onde se dirige”, Hobsbawm foi lembrado e saudado por um público imenso, que é o seu público leitor, de tamanho justa e diretamente proporcional à importância de sua obra.

Um público que se formou apesar de Hobsbawm carregar o duplo obstáculo – para quem quer formar público – de ser um historiador marxista. Superou o primeiro – o de ser historiador – com a elegância do estilo e a clareza da exposição, infelizmente cada vez menos cultivados (e, às vezes, até malvistos) pelos seus colegas. Quanto ao segundo – o de ser marxista –, bastaram-lhe a inteligência e a erudição para escapar das limitações deste método de estudo (e para aproveitar-lhe os inegáveis pontos positivos) e dos preconceitos da militância contrária, que quer o fim dos dogmatismos alheios apenas para poder impor os seus próprios. Pode-se criticar os equívocos de Hobsbawm, como a avaliação talvez demasiado benigna do regime soviético; não se lhe pode negar o posto de um dos maiores intelectuais das últimas décadas. 

Writers' rooms: Eric Hobsbawm

Biblioteca de Hobsbawm

Leia também:

Entrevista de Hobsbawm com o italiano Antonio Polito.

Hobsbawm no Perspectiva.

Entrevista de Hobsbawm para a Folha, em 2007.

Entrevista de Hobsbawm para o G1.

outubro 5, 2012 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

“Estamos en el totalitarismo democrático, en el que los hombres creen ser libres”

Entrevista do jurista e cientista político espanhol Dalmacio Negro Pavón, autor de “El mito del hombre nuevo” e “Historia de las formas de Estado”.

O original da entrevista está aqui.

– Comienza su nuevo libro hablando del proyecto de construcción de una nueva religión secular. ¿Podría explicarnos qué clase de religión es esta?

– Sus principios radican en el artificialismo que discurre por toda la cultura europea desde el contractualismo político del siglo XVII. Se basa en la idea de que, ya que el hombre ha hecho muchas cosas con su voluntad, mediante la ciencia y la técnica se puede construir prácticamente todo, incluso a sí mismo.

– ¿Y dónde está lo sagrado en esta nueva religión?

– Se sacraliza el poder de la voluntad humana gracias al conocimiento. Del mismo modo que el ser humano tiene una dimensión política o una dimensión económica, también tiene una dimensión religiosa. El hombre cree siempre que tiene un fin que realizar o alcanzar, pero en la religión secular del hombre nuevo se suprime la idea de que pueda haber un más allá.

– Entonces, ¿en qué se diferencia la religión secular del ateísmo?

– El ateísmo niega a Dios, pero lo presupone. En la religión secular, la idea de Dios desaparece por completo. No obstante, funciona como una religión al dirigir las creencias, pues toda acción humana se apoya en creencias. Fuera de la religión secular, prácticamente toda acción humana descansa íntimamente en la contraposición entre vida eterna y vida temporal. En cambio, en la religión secular desaparece esta contraposición porque es una religión de y para este mundo.

– Dedica una parte de su libro al análisis de las bioideologías. Menciona al ecologismo, el feminismo, la obsesión por la salud… ¿Podría explicarnos qué son?

– Las ideologías prácticamente han muerto. Pertenecen a una época mecanicista, en la que predomina la física. Hoy en día, la física ha sido sustituida por la biología. Lo expresaba muy bien Michel Foucault cuando, hace ya tiempo, hablaba de que lo que ahora importa es la nuda vida.

– ¿Y cual es la aplicación digamos “práctica” de estas bioideologías?

– La destrucción de lo natural. En el caso del feminismo la desigualdad natural de sexos. En la ideología de la salud, la obsesión por la vida en contraposición a los hechos naturales de la enfermedad y la muerte… Si no hay más que esta vida, hay que cuidarla y prolongarla al máximo.

– ¿Se estaría sustituyendo la eternidad por la inmortalidad?

– Esto lo refleja muy bien, por cierto, Michel Houellebecq; sus novelas muestran la actual situación espiritual a este respecto, principalmente la de Europa. Sin embargo, la ideología europeísta progresista esta penetrando en otras culturas y civilizaciones, por ejemplo, en América.

– ¿Hasta qué punto las bioideologías están presentes en el programa de los partidos político?

– Lo que divide hoy a la derecha de la izquierda es la fascinación por la cultura de la muerte. La izquierda, para distinguirse de la derecha, se hace radicalmente abortista, cuando eso no tiene nada que ver con la izquierda clásica.

– ¿Karl Marx rechazaría el aborto?

– Seguramente. La izquierda también se muestra partidaria de la eugenesia, la eutanasia, el ecologismo… En realidad, el origen de las bioideologías es el nacionalsocialismo a través de la llamada Revolución de Mayo del 68. Es como la revancha del nacionalsocialismo frente al marxismo, cuya concepción mecanicista, que se preocupa más de las estructuras sociales, lo contenía, al menos relativamente.

– Sin embargo, este es el signo distintivo de la izquierda de hoy para parecer progresista…

– Efectivamente. Tras de la caída del Muro, la socialdemocracia no tenía nada que decir e hizo suyas las vaguedades del 68. La derecha es más restrictiva, pero porque tiene un electorado que aún no se ha acomodado a eso.

– ¿Podría explicarnos esta conexión que también apunta en su libro de las bioideologías con el nazismo?

– El nazismo, ideología racista, se interesó decididamente por la biología. El nacionalsocialismo empezó a experimentar con la vida humana en los campos de concentración y exterminio, si bien conservaba -a diferencia de lo que hoy sucede- el pudor de intentar ocultar todo lo que hacía. Hoy es como si se pensase en crear una raza nueva.

– ¿Y como se pasa del nazismo a mayo del 68?

– El nazismo quedó en el aire y, a partir del 68, rebrotó con las bioideologías. Es por entonces cuando Foucault afirma que la vida se ha convertido en el centro de la política. Por ejemplo, en Marcuse está muy clara la idea del hombre nuevo. Las novelas de Houellebecq, repito, creo que reflejan muy bien esta persecución de la inmortalidad, de una raza perfecta, de la existencia perfecta, sana, solidaria…

– ¿Y cual sería el fin último de esta vida perfecta?

– Las ideologías y las bioideologías son ateologías políticas, dependientes de la religión secular. Lo que persiguen es crear un tipo de hombre del que se ha excluido toda conflictividad, deseo y sentimiento, en posesión de una racionalidad puramente instrumental que se limite a vivir feliz en la monotonía de su existencia.

– ¿Anida en el proyecto socialista de Zapatero el deseo de crear un hombre nuevo?

– Creo que sí. Pero de una manera muy tosca y disparatada, sin saber qué fin se persigue en realidad, como no sea el de destruir la nación. Pensemos en el caso del aborto. Se denuncian genocidios por todas partes y, sin embargo, al mayor magnicidio al que estamos asistiendo, sin comparación ninguna, es al de aborto. Sin embargo, lo único que escandaliza son los genocidios soviéticos y, sobre todo, los Konzentrationlager.

– Con el agravante de que los otros genocidios al menos se perpetraban en tiempos de guerra…

– Ahora se justifica como medio para suprimir los conflictos y conseguir la “felicidad”. Los gobiernos ya no protegen la vida, que es la función principal de todo gobierno, sino que dejan libremente al albedrío del particular privado, mediante su legislación permisiva -cuando no incitadora- la vida de un ser humano. Se puede discutir interminablemente, pero la ciencia ha establecido que desde la concepción existe un nuevo ser humano.

– La eutanasia sería otra ‘aplicación’ de estas bioideologías.

– Si se acepta el aborto, con más razón la eutanasia. Tenía razón Julián Marias cuando decía que una de las cosas más graves que han ocurrido es la aceptación social del aborto. A ello han contribuido no solo los intelectuales, sino, quizá más, los políticos con la idea de ganarse, sobre todo, a la juventud. Forman parte de la estrategia del sexo como opio del pueblo.

– ¿Cree usted que marchamos hacia un tercer totalitarismo?

– Es una tendencia en las sociedades occidentales y ya está aquí. Estamos en el totalitarismo que advertía Tocqueville, que es el totalitarismo democrático en el que los hombres, explotados y dominados, sin embargo, creen ser libres.

– ¿Y que es lo que podría hacer caer este nuevo totalitarismo?

– Supongo que caerá por agotamiento de las ideas. Controlada la cultura por la socialdemocracia, dueña del Estado, me parece que el cristianismo no tiene fuerza para oponerse. Entre las otras religiones, el islam sí se opone. El ataque del islam proviene, en gran medida, de su oposición a esta religión secular, más que al cristianismo. Por otra parte, el cristianismo casi se ha reducido al catolicismo, si bien las iglesias particulares, desorientadas, están muy debilitadas. Parece que solamente el papado tiene ideas claras.

– ¿Qué cabría hacer para frenar esta religión secular?

– Tener las ideas claras y los cristianos, además, rezar.

setembro 30, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Política | 1 comentário

Um grande livro equivocado

O liberal Raymond Aron tinha uma opinião definitiva sobre o marxismo: “Creio não haver doutrina tão grandiosa no equívoco, e tão equívoca na grandeza. Foi por isso que a ela dediquei tantas horas”. Após termos dedicado algumas horas à leitura das 477 páginas de “Em defesa das causas perdidas”, de Slavoj Zizek (Boitempo Editorial, tradução de Maria Beatriz de Medina), podemos dizer dele algo parecido: trata-se de um livro grandioso no equívoco e equívoco na grandeza.

São vários os méritos de Zizek: suas opiniões sobre cinema, arte e literatura (sua crítica cultural, enfim) costumam ser argutas e profundas, seu texto é quase sempre bem humorado e muito bem servido no que respeita à pura informação – Zizek é um pesquisador infatigável e rara é a página sua que não tem citações. Além disso, o livro traz intuições poderosas e análises acertadíssimas sobre o capitalismo, a sociedade pós-moderna, Heidegger e Foucault que passam por cima das preferências políticas do autor ou do leitor.

Estes são os pontos positivos do livro. Embora notáveis, eles enfrentam um pequeno probleminha: o que Zizek ao fim e ao cabo defende é, muito simplesmente e sem grandes delongas (outro grande mérito do livro), o retorno da ditadura do proletariado como alternativa política válida. Várias idéias o impulsionam nesse sentido e o hegelianismo – mais do que o marxismo – combinado com a psicanálise de Jacques Lacan estão no centro de todas elas.  Zizek é hegeliano e lacaniano to the core e, como tudo aquilo que é assim, acaba por ser, às vezes, um pouco cansativo. Cansam também as suas loas ao totalitarismo e ao lado “negro” de alguns pensadores, desde o começo proferidas com naturalidade que ignora o absurdo. Não podemos concordar com a proposta de Zizek. Ainda assim, vale a pena dedicar algumas horas a este grande livro equivocado.

Onde encontrar:

Fone: (11) 3875 7250

www.boitempoeditorial.com.br

julho 26, 2012 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Quando a Páscoa chega ao Sul

O monge anglo-saxão Beda, o Venerável (672-735) , talvez tenha sido o primeiro representante daquela figura, hoje clássica, do jesuíta perdido entre antropófagos. Homem cultíssimo, versado em latim, grego e hebraico,  intérprete aprofundado das Escrituras e interessado em temas tão díspares quanto astronomia, retórica e história, vivia numa terra que muito pouco tinha a ver com seu espírito refinado. Guardava nisso semelhanças com outros homens de letras da Igreja que, por circunstâncias da vocação que escolheram, tiveram de abandonar os altos círculos intelectuais e embrenhar-se em matas e montanhas a fim de levar a Palavra aos que não A conheciam.  A diferença era que, quando via aqueles seres primitivos, adoradores de divindades da natureza, vivendo nas matas em quase comunhão com os bichos e as árvores,  Beda via não homens nus do outro lado do oceano que ele tinha vindo civilizar e que com ele nada tinham a ver. Via o seu próprio povo, os anglo-saxões, habitantes de um país atrasado e esquecido do Norte da Europa chamado Anglelande –  um país que, hoje, atende pelo nome de Inglaterra.

Para qualquer outro na mesma condição seria fácil lamentar da sorte. Beda nunca saiu da sua ilha fria cercada de brumas, mas é inegável seu mundo pessoal era outro. Ainda que tivesse os mesmos cabelos louros, olhos azuis e força física de seus compatriotas, seu coração estava nas margens do Mediterrâneo, o mesmo mar que banhou as areias da Grécia de Aristóteles e Platão, da Itália de Virgílio e Cícero e da Palestina de Jesus Cristo. Mas aos homens do cristianismo antigo não eram dados os confortos da lamúria e da queixa. Imbuído do melhor espírito beneditino do ora et labora, dedicou-se ao estudo dos costumes e das religiões daquele povo que era, a um tempo, o seu povo e o povo que deveria converter.

Um dos interesses centrais de Beda era a Páscoa. Esta foi uma das obsessões da Igreja durante a Idade Média, dando vazão a debates duríssimos onde ele próprio tomou parte com o tratado De temporum ratione, “A contagem do tempo”. Ali Beda descreve a Eosturmonath , o mês dedicado Eóster, deusa anglo-saxônica ligada à fertilidade e ao nascer do sol, que iniciava durante os começos da primavera do Hemisfério do Norte.  Ela inicia em 21 de março e é particularmente importante no Norte da Europa, onde as durezas do clima condicionam fortemente a vida dos homens. Durante o inverno, a comida é escassa, as noites são longas, o sol pouco aparece e a neve cobre os campos, matando o gado, as plantas e tudo o mais que vive, inclusive os homens. A primavera chega e a vida recomeça: o sol aparece por mais tempo, a água já não é gelo e já não é preciso estocar alimentos: basta colher. Tudo o que estava morto revive: ressuscita.

A imagem de Eóster – também conhecida em outros povos germânicos, chamada por uns de Ostara, por outros de Auster – é representada  por uma mulher com um ovo em sua mão e um coelho, símbolo da fertilidade, em sua volta. E os anglo-saxões logo perceberam que aquele Jesus Cristo que lhes era apresentado ressuscitou na mesma época. Perceberam também que ele, assim como Eóster, trazia alegria onde chegava, os mortos retornavam à vida, da água fazia o vinho e multiplicava pães: era a “luz do mundo”. A identificação foi imediata. Observador atento, Beda anotou: “Agora, os ingleses designam a época de Páscoa pelo seu nome, chamando às alegrias do novo rito com o nome consagrado pelas velhas crenças”. As velhas crenças seriam substituídas pela Boa Nova – o “Evangelion”, em grego – e a velha Eóster, pelo filho de Deus. Mas seu nome, como disse Beda, permaneceu, como os ovos que carregava consigo e o coelho que corria à sua volta, devidamente abençoados pelo cajado dos antigos padres da Igreja. Assim, a ressurreição do Senhor passou a ser, para os primeiros ingleses, o mesmo que a ressurreição de toda a vida.

Deusa Eastra

Para quem vive no lado Sul do mundo talvez isso não faça tanto sentido. Para começar, em nossos idiomas latinos o nome desta época do ano tem outra origem: é o hebraico “Pessach”, que significa “passagem”, e está ligada originalmente à libertação dos israelitas no Egito. Durante a Páscoa ocorreu a ressurreição de Jesus e as correlações simbólicas entre os dois eventos são bastante óbvias. Além disso, no lado Sul do mundo, a Páscoa não coincide com a chegada da primavera. Comemora, isso sim, o começo do outono, que é o começo das noites, do frio, do fim da vida. Isto, em tese, é correto. Mas, neste canto específico do Sul que carrega o Sul no próprio nome, o tempo de provação não é o outono e nem o inverno: é praticamente todo o ano. Quem vive no Rio Grande do Sul trava batalhas contra a natureza que ofuscam todas as batalhas que já se travaram nestes campos. Quem vive no Sul sabe, como nenhum outro, o que é o verão abrasador, a umidade maldosamente unida ao calor, a falta de chuvas ou o excesso delas, as plantações destruídas, as casas destelhadas. Aqui, a própria primavera não é tempo de florir e de viver, e sim de moléstias, doenças, dias que começam congelantes e terminam quentes, de inconstância, de dificuldades. É isto o que antecede o tempo da Páscoa. Quando Março chega, já suspiramos de alívio por termos passado – sobrevivido! – mais um verão. Em breve, a fúria do tempo cessará. As chuvas aumentam a frequência e diminuem a intensidade, tornando-se agradáveis presentes do céu e não tormentosas causas de desgraças. Ao mesmo tempo, ainda não começaram as rajadas de vento que atravessam a Patagônia e nos atingem, sem dó nem piedade, cobrindo os campos de geada, os picos de neve e a vida dos pobres e desvalidos de durezas. Se, para T.S. Eliot – em todos os sentidos, um homem do Norte – abril era o mais cruel dos meses, para o homem deste Sul este é único mês que não é cruel. A Páscoa no Sul é o tempo em que, talvez pela única vez no ano, podemos realmente experimentar a alegria de viver. É o que aprendemos desde pequenos. Nossas memórias infantis da Páscoa são as das primeiras manhãs de ar fresco, quando, em crianças, corremos para o quintal e encontramos os ovos com que passamos o dia, ao ar livre, aproveitando a amenidade do tempo, a beleza do dia, a grama mais verde do ano, o fruir de tudo. E, pela primeira vez, compreendemos, da mesma forma que os anglo-saxões de Beda, que o mundo regenera, que nem tudo é dor e dificuldade, que é possível reviver e que, desde Aquele que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia, a vida vale a pena ser vivida.

abril 9, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Religião | Deixe um comentário

“O homem de hoje não tem um centro ordenador.”

Entrevista: Vitor Hugo Couto Triska, psicanalista

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Conheço Vitor Hugo Couto Triska há nada menos do que 23 anos. É muito tempo – e torna-se mais tempo ainda quando se tem em mente que eu e ele temos 28 anos. E é com a proximidade de quem tem a mesma idade, estudou no mesmo colégio (aliás, na mesma turma) e que partilha lembranças, sentimentos e visão de mundo forjada em laços de amizade familiar – nossas mães são amigas desde antes de pensarmos em nascer -, que posso dispor-me, a qualquer momento, a falar do meu amigo Vitor Hugo, do menino que ia para a aula com uma máscara remendada do herói japonês Jaspion – provavelmente destruída em batalhas imaginárias -, que destacava-se como ótimo aluno, que levantou esperanças e expectativas e que as vem cumprindo integralmente desde que, na virada do milênio, deixamos aquilo que T.S. Eliot chamou de “a praia que todos conhecemos” – o colégio, o nosso colégio, o La Salle, de onde partimos para o Mar Tenebroso camoniano que chamamos vida adulta. Não é, entretanto, o que fiz nesta entrevista. Aqui, falei apenas das tais expectativas que se vêm cumprindo: o Vitor é, para além de meu amigo, um bem-sucedido psicanalista, cuja tese de doutorado – muito bem intitulada “Cultura e estrutura em psicanálise” – aborda um tema que, se não posso chamar de próximo, ao menos não me é estranho por estar presente em nossas conversas: o das respostas que a psicanálise pode dar para entender a cultura contemporânea. Esta entrevista que segue é, assim, um convite ao leitor para que participe destas conversas, onde – já aviso, falando a partir de experiência própria – valerá mais escutar do que falar.

 

 

 

O Timoneiro: Começando pelo começo: porque a escolha pela Psicologia?

Vitor Hugo: Bem, primeiro é preciso dizer que eu não fiz teste vocacional. Quero dizer,  fiz um meio forçado na época do colégio, mas não levei a sério.  O resultado, claro, enfatizou as matérias em que eu ia melhor , que eram Matemática, Física e Química. Mas aí que fica mais curiosa a maneira como eu fui parar na Psicologia. Acredito que tenha a influência da família. Minha mãe já estudava Psicologia ,  havia estudado Filosofia e Direito e acho que foi também influência dela o interesse na área das Ciências Humanas, já que, como eu disse, eu tinha uma cabeça muito voltada para as exatas. Acho que é por aí. Além disso, no colégio eu era muito observador do comportamento das pessoas . Eu não tenho como dizer que foi uma escolha baseada em “tal e tal” critério. Na época foi o que me pareceu mais certo de acordo com os critério que eu poderia ter quando era adolescente. Mas para mim, desde cedo, ficou claro que eu iria trabalhar com clínica. Sempre o que me chamou mais a atenção foi a clínica.

 

OT: Isso desde o começo da faculdade ou antes mesmo de entrar na faculdade?

 

VH:  Antes de começar a faculdade.

 

OT: O interesse era de clinicar mesmo, não apenas só estudar a Psicologia.

VH: Exatamente. Eu não tinha nenhuma leitura sobre Psicologia – aliás, nem mesmo uma leitura suficiente boa para vestibular de Literatura. Como eu disse, o meu interesse sempre foi mais das Ciências Exatas. Até que me apareceu , lá pelo terceiro ano de curso, a Psicanálise.

OT: Só no terceiro ano?

 

VH: Sim. Antes tinha Psicanálise, mas como uma parte das cadeiras de teoria da personalidade. A gente via a psicanálise como uma teoria desligada da prática, da história da filosofia e do momento da ciência moderna e tal. Ao mesmo tempo, eu comecei a me interessar mais por literatura e, por via disso, me interessar mais pela psicologia teórica. O curioso é que até meus conceitos que eram B e C passaram para A ao longo do curso, ao contrário do que acontece com muitos (risos). E também, através de Lacan, acabei encontrando influencia da matemática. Foi uma espécie de reencontro com o meu interesse antigo pelas ciências exatas.

OT: Um reencontro com as tuas antigas aptidões do colégio.

 

VH: É , digamos assim.

 

OT: Mas hoje a tua pesquisa vai por outro caminho, não é?

 

VH: Está indo por outro caminho. Meu doutorado é uma investigação acerca das leituras que a psicanálise pode fazer da cultura contemporânea. Isso é antigo na psicanálise, desde pelo menos o “Mal estar na civilização”, do Freud….

OT:  ……..que, talvez, seja o livro do Freud mais lido por quem não é psicólogo…

VH: Sem dúvida. Esse livro é muito conhecido e objeto de estudo em todas as áreas das ciências humanas. É um livro básico para quem estuda a civilização ocidental dos últimos 100 anos.

 

OT: Um dos sentidos que se pode interpretar o trabalho do Freud é o de que estamos mal por estarmos civilizados, por termos deixado o estado de natureza e assim por diante . O teu trabalho é uma leitura cultural baseada na psicanálise. Tu subscreves essa análise do Freud?

 

VH: Acho que sim. E esse tipo de análise torna-se ainda mais importante numa época chamada de “individualista”. Temos de estudar e compreender que tipos de laços sociais se estabelecem nesta época onde aparentemente  – é o que diz a crítica mais comum – é que não se estabelecem  laços sociais, onde há individualismo e assim por diante. Meu trabalho é uma contra-crítica à crítica que a  psicanálise mais comum faz da cultura.É quase o mesmo que ocorre quando tu escutas os pais dizerem “na minha época não era assim” , “Os filhos hoje não têm limites”- quase como estivessem ressentidos . Mas o que eles não se dão conta é que, no momento que eles exaltam os valores de tradição, eles também estão exaltando sistemas de opressão e modelos que hoje não funcionam mais da mesma maneira.

 

OT: Sempre me vem à mente, quando me falam da substituições dos modelos, uma leitura que era muito comum décadas atrás, que são as vidas de santos. Cada santo era um exemplo a ser seguido pelo leitor. Católico, evidentemente . Como tu entende a passagem desse processo de substituição de modelos , nos últimos 50, 60 anos?

VH: Eu me questiono se é uma passagem. Na época de Freud, era mais fácil e mais possível reconhecer um discurso mais hegemônico. Hoje, isto é difícil.  O que eu questiono é se hoje há , como havia antigamente, um código social mais hegemônico ou se hoje é permitida uma maior pluralidade. Hoje é muito fácil dizer que se seguem os artistas e os jogadores de futebol, por exemplo, em vez dessas vidas de santos ou de outros modelos que tu citaste. Claro, por uma questão de mídia e de exposição muita gente pode ter essa impressão de que a massa é o que prevalece, que esses fenômenos são mais comuns, de consumo em larga escala. Mas não é necessariamente assim.

OT: Mas tu achas que esses fenômenos não chegam a modificar a noção de modelo que muitas pessoas têm?  

 

VH: Eu acho que eles modificam, a questão é que eles não podem ser considerados como universais. A generalização nesse sentido não serve para nada.

 

OT: Disse Sartre que o homem está condenado a ser livre. Obviamente esse “condenados” implica que o homem livre tem um fardo a carregar, uma dificuldade de se orientar no mundo , porque ele não tem mais aquele tutelador tradicional, a tradição serve para tutelar também. O  cidadão que está dentro da tradição é tutelado, ele se sente dentro de um caminho. O homem que é totalmente livre , que está fora disso, está sozinho na estrada.

VH: Claro e ultimamente temos visto muitos filmes que demonstram essa situação. Agora saiu o “Shame” , que mostra um cara completamente isolado, com dificuldades de se relacionar com a irmã, que é a única referência de família que ele tem ,  e se dedicada basicamente ao trabalho e a consumir sexo via internet ou em festas, enfim. O que é uma caricatura, uma imagem , dessa pessoa desligada totalmente das tradições e mais “à deriva”, digamos assim. Nesse sentido  também podemos dizer que sim, as pessoas estão mais livres para escolherem caminhos e ao mesmo tempo muitos autores relacionam isso com a predominância da depressão. O homem de hoje não tem um centro ordenador.

 

OT: Que é, mais ou menos, uma das conclusões de Gilles Lipovetski em “A Era do Vazio”…..

 

VH: Exatamente. É a era da ansiedade, da depressão, que é justamente a sensação de “não pertença” . Quem  escreveu sobre isso  ,e que me chamou muito a atenção, que foi o Albert Camus no “O mito de sísifo”. Eu acho que atualmente predomina entre os psicanalistas uma leitura rasa da cultura , porque eles fazem essa leitura a partir de conceitos consagrados da psicanálise, mas esses conceitos dependem do contexto no qual eles foram criados que seria, digamos , a cultura freudiana , que é pré-segunda guerra mundial.

OT: Então tu acha que esses conceitos deveriam ser relativizados para a época atual ou eles têm de ser relidos?

VH: Eles têm de ser relidos. Precisamos estabelecer conceitos novos , porque isso é muito claro na antropologia . Tu tens uma certa linguagem pré estabelecida  para entender tal cultura , tal cultura e tal cultura. É muito suspeito tu achares coisas comuns entre elas e ficar usando o mesmo mecanismo de compreensão. Então, é o teu mecanismo que está embutindo coisas porque tal e tal  cultura não é um fenômeno naturalem si. A cultura é um conceito da antropologia  para abordar certos fenômenos e tentar fazer uma compreensão. No momento que tu vais lá entender “Édipo” , “A função paterna” e etc, porquê tu ainda vais usar termos  que fazem essa relação ao pai se hoje o lugar do pai na família não é necessariamente um lugar privilegiado?  É e não é, depende da família. Não é mais uma questão universalizada. Não é mais “eu sou o pai, essa é a regra  porque eu sou o pai”. A resposta do filho vai ser “Porque? O cara que eu vi na TV disse tal coisa diferente”.

OT: O que , obviamente, não era assim na época do Freud.

 

VH: Claro, então me parece um certa nostalgia de quando os conceitos clássicos da psicanálise  serviam para interpretar uma certa cultura.

OT:  Uma das críticas que fazem ao Freud diz respeito ao seu pouco conhecimento de filosofia ocidental, apesar de ele conhecer arte e literatura a fundo. Isso confere?

 

VH: Olha , eu não conheço muito os detalhes da vida do Freud , mas isso confere, sim. Freud era um médico, com um grande conhecimento de arte e literatura, sim, mas essencialmente um cientista. O foco do trabalho dele não era filosófico. O que, evidentemente, não impede que um filósofo, pensador, cientista social ou antropólogo possa usa-lo. É o que eu pretendo fazer, e o que defendo que se faça – sempre relendo de acordo com a situação que se vive hoje, para os problemas que temos hoje.

março 30, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 2 Comentários

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

 

Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se  para o Ensino Superior.

Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.

 

O Timoneiro: Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?

Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo  e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.

OT: Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.

CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.

OT: A idéia é mapear toda a cidade?

CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.

OT: Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?

CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos  de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade.  Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.

OT: Quais disciplinas ministrou?

CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.

OT: Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?

CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.

OT: Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?

CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido,  foi condenada e foi para a prisão.   Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.

OT: Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?

CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.

OT: Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?

CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.

OT: E não são vozes iguais.

CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.

OT: Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?

CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia,  mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.

OT: A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…

CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.

OT: Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?

CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim,  muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.

outubro 21, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 3 Comentários

Foucault e o Irã

 

 

“Foucault e a revolução iraniana” (É Realizações, 480 páginas) é um livro que irá surpreender (e decepcionar) muita gente nos bancos acadêmicos do país. O propósito de seus autores –  a historiadora iraniana Janet Afary e o cientista político americano Kevin B. Anderson – é analisar um evento muito pouco conhecido da biografia de Michel Foucault: a sua viagem ao Irã, no final dos anos 70, como correspondente do “Corriere della Sera” e do “Noveau Observateur”, para uma série de artigos sobre o processo revolucionário que levou Aiatolá Khomeini ao poder. Não seria fato para merecer maiores atenções não fosse por um detalhe: ao contrário do que se poderia imaginar, Foucault não foi propriamente um crítico do regime de Khomeini, havendo até mesmo fortes indicações de que tenha sido o oposto disto.

Como pôde Foucault – homossexual, ateu, estudioso (e denunciante) do discurso de poder na modernidade e das diversas modalidades de repressão – tratar assim a um regime que, na melhor das hipóteses, não lhe seria nem um pouco simpático? Em princípio, parece um erro circunstancial de avaliação por parte de Foucault, sem qualquer relação com o resto de sua obra e de seu pensamento. Não é, contudo, o que Afary e Anderson defendem – e de maneira muito convincente – em “Foucault e a revolução iraniana”. Dando especial destaque para questões referentes a relações de gênero e sexualidade, os autores demonstram que, longe de ser um acidente de percurso, a aproximação de Foucault com o regime de Khomeini encontra surpreendente – e inquietante – fundamento em seu pensamento.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

agosto 25, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Morte e imortalidade

O problema da morte parece ausente da filosofia contemporânea – ao menos da filosofia que enche as salas de aula das faculdades, as páginas dos manuais nos capítulos de “filosofia contemporânea” e os cadernos de cultura dos jornais mais prestigiados. Não é o único: estão também ausentes temas como Deus, a eternidade e, às vezes, o próprio homem – e não parece ser coincidência que estes temas ausentes estejam, de alguma forma, interligados.

 Alheio a isto, o filósofo italiano Michele Federico Sciacca preferiu dedicar-se à questão em seu Morte e Imortalidade, de Michele Federico Sciacca (É Realizações, 287 páginas, tradução de Valdemar Munaro), publicado originalmente nos anos 60. E o fez justamente porque, diz ele, uma vida sem a reflexão da morte é inautêntica e falsa. Não podemos expulsa-la de nós, nem a morte e nem a reflexão sobre ela, embora possamos tentar fugir das duas. E Sciacca as encara de frente. Divide o estudo em três grandes partes – A Morte, A Imortalidade e O Suicídio -, dialogando com as posições presentes na tradição filosófica ocidental, em especial com Espinosa, Nietzsche, Hegel e a escolástica. Merece destaque a terceira e última parte, onde tipifica o suicídio e o analisa do ponto de vista moral e metafísico.

 

 Onde encontrar:

 www.erealizacoes.com.br

 (11) 5572 5363

julho 18, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Livros | Deixe um comentário

Lição sobre tradição e progresso

“Com efeito, o tradicionalismo conservador, ou passadismo, não cultiva a árvore, já que mais que a vitalidade desta ele é premido a colocar os próprios interesses e a própria preguiça no lugar de folhas e ramos secos. O revolucionarismo futurista, por sua vez, julga pela aparência, elimina a árvore: o primeiro é inimigo oculto da tradição e declarado do progresso, o outro, inimigo declarado da tradição e oculto do progresso (….) Com efeito, o primeiro conserva as opiniões ultrapassadas produzidas pela verdade e apega-se a elas, verdadeira ànsia pelo caduco, que é expulsa no seguimento da memória a fim de não ouvir a ordem que exige a queda das folhas e a poda do que está seco para que o novo, todo premente, brote e floresça da árvore revigorada; o outro, justamente porque é movido pelo revolucionarismo, nega qualquer verdade que não seja produto dos tempos e possa ser usada ao longo do dia: ao mesmo tempo, incita que se dê um novo “salto para a frente”, de modo que o caos se instale mediante a desordem das opiniões que se seguem e se devoram. A ambos faltam ideias e autênticos ideais; ambos são dogmaticamente críticos, até a grosseria e a estupidez, cegos pela ausência de verdades e pela comum recusa do presente que é substituído pelo futuro ou pelo passado: dois péssimos agricultores que se recusam a lançar-se ao trabalho, pois julgam mais fácil desfrutar da árvore até extinguir-lhe toda manifestação da vida, ou , então, arrancá-la de vez, lançando mão de um falso atestado de morte. Portanto, restam sempre o ódio pela verdade e a violenta constrição do logos, em lugar da sua livre reproposição, crítica e construtiva. Eis porque estamos diante de um liberticídio. “

Michele Federico Sciacca em Filosofia e Antifilosofia (É Realizações, tradução de Valdemar A. Munaro).

maio 28, 2011 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Paternalismo linguístico

O paternalismo é uma das características mais perniciosas e destrutivas da cultura brasileira. E não falo apenas do paternalismo estatal – aquele que dá presentinhos ocasionais ao cidadão enquanto lhe tira a chance de estudar, de ter um emprego decente, de ter, enfim, uma vida digna de ser vivida. Falo de todo e qualquer paternalismo.  Falo do patrão que nega direitos básicos à empregada doméstica mas, de vez em quando, até lhe dá um dinheirinho para comprar uma boneca de R$ 1,99 para a filha, dizendo-se, , por isso, homem de bom coração. Falo do marido que trai a esposa e envergonha a família, mas chega em casa e presenteia a esposa com um belo buquê e as crianças com novos brinquedos. E falo até mesmo do paternalismo do filho, do mau filho, que nunca visita a mãe, esquece-a, despreza-a e cobre-a de beijos no Dia das Mães para depois abandona-la novamente. Falo de muitos, de todos – de nós. É um sentimento que está firmemente incrustrado em nossa forma de viver e de ver o mundo e os nossos semelhantes. Faz parte do nosso ser. Todos o praticamos. Digo mais: gostamos secretamente dele até mesmo quando o atacamos em discursos públicos. E gostamos justamente porque somos assim.

De onde ele vem? Difícil dizer. O paternalismo é, em parte, fruto de uma sociedade desigual, onde o outro raramente está no mesmo patamar nosso e, quando está, frequentemente é um inimigo; e é, em parte, fruto de certos aspectos culturais que a prudência e o espaço não nos permitem aqui adentrar. Convive com o patrimonialismo, dando-lhe o substrato cultural que fundamenta e garante a sua permanência. O dirigismo estatal da economia, o passar a mão na cabecinha do eleitor, a leniência com o criminoso, o fechar os olhos para o corrupto, tudo isso corresponde perfeitamente ao dirigismo, ao passar a mão, à leniência e ao fechar os olhos que tantas vezes assistimos no plano privado. Os dois ajudam-se mutuamente, cada um atuando em sua própria esfera, prolongando indefinidamente a doença até o definhar e a morte do corpo. E não precisamos aqui dizer o que é o corpo. 

A saga do patrimonialismo em nossas terras já foi escrita: é Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, que fica maior e mais atual conforme o tempo passa. A do paternalismo ainda não tem autor nem obra, mas já tem um novo capítulo: é a recente querela acerca da distribuição pelo MEC do livro Por uma vida melhor.

Ao contrário do que o título sugere, não se trata de livro de auto-ajuda. É uma obra didática de língua portuguesa  e foi preparada para ser utilizada nas aulas de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Não seria, em princípio, livro para chamar a atenção da opinião pública nacional. Isto, claro, não fosse o trecho que reproduzimos abaixo:

A reação foi a esperada: de um lado, os defensores da obra argumentaram que é preciso levar em consideração a variante popular do idioma, que os idiomas mudam, que a escola deve aproximar-se do aluno e os demais discursos de costume. De outro, pessoas como estas aqui. Pessoas como a doméstica Maria Erlaine Mendes, que diz: “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo”. Que é o que outros alunos, pobres como ela, dizem. Que é, basicamente, o mesmo que Evanildo Bechara diz. “Sempre se vai para a escola para se ascender a posição melhor. A própria palavra educar, que é formada pelo prefixo latino edu, quer dizer conduzir. O papel da educação é justamente tirar a pessoa do ambiente estreito em que vive para alcançar uma situação melhor na sociedade”.

Os defensores do livro contra-atacam. A Associação Brasileira de Linguistica, a ONG Ação Educativa e o próprio ministro Fernando Haddad  dizem que ele não ensina erros e que se limita, apenas, a registrar a importância da variação linguistica. E, claro, não se poderia deixar de fora o mentor intelectual da coisa toda: Marcos Bagno, professor da USP, que difundiu o termo “preconceito linguistico” através de sua obra Preconceito Linguistico – o que é, como se faz, bibliografia básica para calouros de qualquer faculdade de letras, afirma que não precisamos nos preocupar, pois a idéia de variação linguistica “Não é coisa de petista” (como se alguém tivesse afirmado tal coisa) e que ” Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.”

Diante de tantas opiniões contrárias e favoráveis, de tanta discussão fundamentada ou não, de tanto bate-boca, é importante dar voz a quem elaborou o livro. Helena Ramos, uma das autoras, está irritada. Muito irritada. “Não somos irresponsáveis”, diz ela. ““Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação”. E ela não pára aí: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”.  Afinal de contas, segundo ela, “esse assunto é complexo, é para especialistas”.

É preciso que reconhecer que a sra. Helena Ramos tem muita razão no que diz. De fato, ao contrário do que seus críticos apontam, o livro não ensina a falar erradamente. Deixa, aliás, muito claro que a norma culta é importante para o aluno e deve ser ensinada nas escolas. Deste pecado o livro da sra. Ramos não pode ser acusado. E está corretíssima a sra. Ramos quando afirma que o assunto é complexo. E está correta também quanto diz que muitos dos que criticam o livro não o leram. Há muita gente que não leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Há muita gente que leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Como consequência, as discussões sobre o livro da Sra. Ramos foram e estão sendo mal conduzidas. Tudo isto é verdade.

O problema, o grande problema, é que nenhuma discussão foi tão mal conduzida quanto a que a sra. Ramos propôs em seu livro. À página 12  está escrito que “as classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder –, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”. Vai além: “muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever.”A sra. Heloísa Ramos é linguista e professora do idioma. Está, portanto, mais do que qualificada para saber que afirmações como “a língua é um instrumento de poder” automaticamente abrem o espaço para uma longa discussão sobre política de língua, que inclui até mesmo a veracidade e a aplicabilidade da idéia de que a língua é ou não um instrumento de poder. Se queremos colocar este tipo de discussão para o aluno, então que se entre nela como se deve entrar – com o propósito de ir a fundo. Qualquer coisa diferente disso é simplificar um “assunto complexo, para especialistas”. Tais simplificações constituem atitude típica de discursos políticos: vulgariza-se um conceito complicado, dá-se o tom desejado e pronto. Tem-se uma defesa de uma causa, de uma ideologia, de um partido.

O conceito de “preconceito lingüístico”, questões de política de língua, “norma culta versus variante popular” e outros assuntos são temas que um estudante de Letras é obrigado a enfrentar logo no primeiro semestre de curso. Lê-se Bagno ao lado de muitos outros autores, contra ou a favor dele. Discute-se muito em aula, às vezes acaloradamente,  sobre o que ele diz. Coteja-se seu conteúdo com o de outros: lê-se Houaiss, Luft e muitos mais. Esta discussão, que toma um bom tempo da vida acadêmica do estudante, a sra. Ramos simplifica em duas ou três frases e joga na cara de alunos de meia-idade como verdade absoluta. E um dos perigos da simplificação está aqui: “Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”. Não é “muita gente” que diz “o que se deve e o que não se deve falar e escrever“: é toda a gente. É o Estado brasileiro, nos concursos; são as empresas, ao admitirem os empregados; é a própria professora, nas provas. São as próprias pessoas que falam com erros (ou “inadequações”, como prefere a professora – outro termo que exigiria uma discussão que não ocorre) que o reconhecem.

A questão da diglossia* é um tema sempre candente para quem estuda linguistica no Brasil. Ela existe, assim como existe em muitos outros países. Mas é objeto de profundo e acalorado debate. Algo deste debate pode ser levado para a sala de aula, para alunos de ensino médio, talvez mesmo de ensino fundamental? Pode. Mas com a condição de ser apropriadamente discutida. Em Uma vida melhor ela sequer é discutida. E pior: com toda a simplificação conceitual, com toda a ligeireza no trato de assuntos nada simples, o que se vê é o surgimento de um abismo entre a norma culta e o uso popular como se fossem duas coisas completamente distintas, sem qualquer comunicação entre si . Ocorre, assim, um engessamento da variante popular da língua e da sua relação com a variante culta ,  como se não houvesse convivência, aproximação e influência mútua entre eles. Isto é um breve resumo do que se deveria propor para debate caso se quisesse entrar nestas questões a sério. E nada disto é, nem de perto nem de longe, colocado no texto. 

E pergunta a sra. Helena: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”. Pelo mesmo motivo que as pessoas falam sobre saúde, economia, política – porque lhes afeta. Assim é que funciona numa democracia. A sra. Heloísa não quer que haja discussão? Que não inicie uma discussão como fez no trecho de seu livro. E pior: inicia a discussão para abafá-la logo em seguida. Diz o que quer e, quando surge a interrogação na cabeça de todos,  encerra o debate e vai em frente. Eis aí, mais uma vez,  nosso paternalismo desenhado em cores vivas: para a elite iluminada dos educadores, o assunto discutido “com propriedade”.  Para o resto – os alunos – a simplificação conceitual transformada em discurso rasteiro.

A sra. Ramos se defende: “não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade”. A justificativa é simplesmente falsa. Falsa porque é completamente desnecessária. Não é preciso dizer ao aluno que ele pode usar, em determinados contextos, a variante popular, o “falar-como-prefere”. Isso todos sabem: é uma característica de todos os idiomas e todo falante nativo tem consciência disto. Da mesma forma, o aluno está perfeitamente ciente de que há variantes mais prestigiadas que outras. Ele não precisa que alguém lhe diga: “fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Ele não precisa que lhe digam o que fazer e como se deve sentir. Ele não precisa, enfim de mais paternalismo. 

Diante deste festival de equívocos permeado pelo nosso velho e conhecido problema nacional, a declaração da doméstica – “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo” –  soa como uma esperança. Uma esperança de que o Brasil tem, sim, condições de pôr um fim nesta chaga que nos corrói. Que a esperança venha de onde vem – isto é, do povo – não nos deve surpreender. Aqueles que mais conhecem os resultados da chaga do paternalismo sabem bem que ele precisa , e com urgência,  ser extirpado de nosso país.

*Diglossia: fenômeno linguistico em que dois dialetos ou línguas são usados pela mesma comunidade linguistica.

maio 23, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Literatura, Política | 2 Comentários

A obra de Max Weber, por Otto Maria Carpeaux

No Instituto de Sociologia da Universidade de Munique acaba de ser inaugurado o Arquivo Max Weber, em que, além de documentos e manuscritos, serão conservados os livros e estudos que se escreveram sobre o grande erudito: até agora, aproximadamente, 3.500. Um orgão tão responsavel e tão insular como o “Times Literary Supplement” chamou-o, há pouco, de “a maior figura da sociologia do seculo XX”. Raymond Aron e Lorenzo Giusso dedicaram-lhe livros. O Fundo de Cultura Economica divulgou-lhe as obras no mundo de linguas ibericas. No Brasil, toda pessoa medianamente culta conhece o nome de Max Weber, pelo menos aqueles estudos que fundaram uma nova disciplina cientifica: estudando a influencia da ética protestante ou, mais exatamente, da ética calvinista sobre a formação da mentalidade capitalista, essa tese, embora muito discutida, é sua maior gloria e é o grande desmentido contra a idolatria da especialização: pois nunca teria nascido, se o economista e sociologo Weber, no ambiente estreito de uma cidadezinha universitaria alemã, não tivesse frequentado seus colegas da Faculdade de Teologia que ensinavam e estudavam a historia moderna da Igreja.

Mas tudo que Weber escreveu, continha germes e sugestões para outros estudos, de importancia muito grande, sempre maior do que aparentavam ser os assuntos. Seu primeiro trabalho, de 1891, sobre a historia da estrutura agraria do antigo Imperio Romano, esclareceu o papel historico do latifundio. Conquistou a catedra em Friburg com um estudo sobre a situação dos trabalhadores rurais na Alemanha oriental, então dominada pelos “junkers” prussianos. Combinou, em 1903, os dois assuntos, escrevendo um famoso verbete de enciclopedia sobre “Estrutura agraria na Antiguidade”, responsabilizando o latifundio pelo declinio e pela catastrofe da civilização antiga, terminando com uma sombria perspectiva para o futuro da Prussia latifundiaria de 1908. Também foi Weber o unico sociologo ocidental que se dignou de estudar a revolução russa de 1905: todo o mundo considerava-a então como a derrota de uma revolução socialista; mas o professor de Freiburg explicou-a como o fracasso de uma revolução burguesa, acreditando que esse fracasso causaria a transição direta da Russia, do feudalismo ao socialismo, sem fase burguesa.

Durante a primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, estendeu Weber seus estudos sobre sociologia da religião ao mundo não-cristão. Escreveu sobre religião e sociologia do Islão, da China e do judaismo; mas, sobretudo, os famosos artigos sobre Amos, Hosea, Isaías, Jeremias, os profetas do judaismo antigo. Até então, esses profetas eram considerados como individualistas religiosos, que libertaram o judaismo do monopolio dos sacerdotes do Templo, preparando a transformação da religião nacional dos hebreus em religião nacional dos hebreus em religião universal. Mas Weber demonstrou que os profetas não pensavam na salvação individual das almas, e, sim, na salvação da nação ameaçada. Lutaram contra a burocracia do templo e contra a monarquia, já de prestigio decadente, para que a nação sobrevivesse às suas instituições obsoletas. – Foram estas as ultimas pedras para o grandioso monumento científico que Weber deixou. Depois da catastrofe de 1918, já professor em Munique, dedicou-se, episodicamente, a atividades politicas, contribuindo para o estabelecimento do parlamentarismo na Republica de Weimar. A morte prematura, em 1920, poupou-lhe amargas decepções.

Ainda não se aludiu, nestas linhas, à idéia determinante de Weber, quase um princípio de filosofia da história moderna: esta é caracterizada pela progressiva racionalização de todos os setores da vida. O Estado e o pensamento politico, a Administração e a Justiça, o Direito e as teorias e praticas economicas libertam-se, há 5 ou mesmo 6 seculos, cada vez mais, de mitologias, filosofemas, tabus de toda a especie, para reconhecer como supremo criterio só a eficiencia: é a racionalização da vida ocidental. O mesmo “trend” verifica-se na evolução das ciencias, pela exclusão gradual dos julgamentos de valor, oriundos de preconceitos tradicionais ou de fonte emocional. O testamento de Weber são as duas grandes conferencias muniquenses de 1920, “Politica e profissão” e “Ciencia como profissão”, nas quais proclamou a objetividade total da ciencia e, portanto, sua independencia da politica que, por difinição, nunca pôde ser objetiva. Os valores, sendo elementos subjetivos, não devem entrar no estudo cientifico de problemas nem nos seus resultados. Mas Weber sabe que os valores subjetivos aceitos pelo estudioso têm determinada função psicologica: são eles que inspiram ao pesquisador a escolha dos seus temas. Têm função seletiva. Essa tese autoriza a pergunta seguinte: – quais foram os valores subjetivos que determinaram, para Max Weber, a seleção dos seus temas de estudo? Em toda a imensa bibliografia sobre o sociologo, só duas vezes – por Christoph Steding (1832) e por Wolfgang Mommsen (1959) – foi levantada aquela pergunta. Responderam, partindo de pontos de vista muito diferentes, chegando no entanto ao mesmo resultado: foram valores da vida politica; daquela politica que Weber quis tão radicalmente excluir da ciencia objetiva.

Filho da burguesia capitalista e industrial da Renania, e dedicando-se, como especialista, ao estado de problemas economicos, seria de supor-se que estes monopolizassem a atenção de Weber. Mas não aconteceu assim. Na mocidade recusou os mais vantajosos convites para entrar na direção de grandes trustes; mais, dos estudos especificamente economicos.

A inedita relação que Weber conseguiu estabelecer entre os ensinamentos morais do protestantismo calvinista e o estilo de vida do capitalismo, manda pensar em inspiração religiosa, talvez subconsciente; pois Weber era livre-pensador, descrente, mas filho de gerações de burgueses calvinistas. Mas a analise das suas reações revela logo que a inspiração não era de natureza religiosa e, sim, politica.

A burguesia calvinista renana, que tinha construido a grande industria da Alemanha ocidental é pequena minoria num país meio luterano e meio catolico. Seu destino foi o caso extremo do destino da burguesia alemã do seculo XIX em geral: ficou com liberdade para fazer seus grandes negocios, mas também ficou excluida da direção politica do país, confiada no rei da Prussia, quase absoluto, aos seus aristocratas prussianos, aos seus oficiais aristocraticos, à sua burocracia de juristas. Não foi possível organizar uma oposição eficiente. Os catolicos alemães, no seculo XIX, fecharam-se num “ghetto”, não querendo participar de uma civilização predominantemente protestante. O luteranismo retirou-se para a pequena burguesia e para o Leste agrario, pois a etica luterana paternalista, é incompativel com a grande industria e com a comercialização; o estudo da diferença essencial entre essa etica e a do calvinismo é mesmo um dos meritos de Weber e do seu amigo Troeltsch. O proletariado? Como filho da grande burguesia industrial, Weber se preocupa mais com os sofrimentos dos trabalhadores rurais do que com as esperanças dos trabalhadores urbanos. Seu grande trabalho sobre a influencia da etica calvinista na mentalidade capitalista é vigoroso desmentido ao materialismo historico que explicara, ao contrario, pelo capitalismo as mudanças da mentalidade religiosa; o proprio Weber definiu esse seu trabalho como exemplo de “antimarxismo positivo”; naturalmente num outro nivel do que a antimarxismo barato e ignorante dos maccarthystas de hoje. Weber só quis demonstrar que “o espirito é mais poderoso que a natureza” (inclusive as forças inconscientes da economia). Nesse sentido, o trabalho de Weber sobre etica calvinista e mentalidade capitalista é o ato pelo qual a burguesia alemã conquistou a consciencia das suas origens e do seu destino. Mas essa classe, rica, culta e consciente, estava excluida do poder pelo imperador Guilherme II e seus aristocratas e burocratas e os latifundiarios da Alemanha oriental.

Eis os “valores seletivos” que inspiraram a Max Weber seus temas de estudo. Seus trabalhos sobre o operariado rural da Alemanha oriental atingem diretamente o inimigo agrario, o “junker” prussiano. Os estudos, aparentemente historicos, sobre o declinio da civilização antiga e a derrota do Imperio Romano pela força autodestruidora do latifundio predizem desastre semelhante ao Imperio da aristocracia latifundiaria prussiana; são de natureza complementar os artigos sobre o fracasso da revolução russa de 1905. Enfim, a guerra de 1914 e a direção incompetente dessa guerra pelas classes dominantes da Alemanha confirmaram as previsões do sociologo.

Fiel à sua convicção de que “a ciencia (social) tem a função de fazer compreender fatos incomodos”, Weber começou a fazer oposição ao Kaiser. A censura não conseguiu impedir essa oposição. Nenhum evasionismo obrigou o sociologo a entrincheirar-se atrás de estudos historicos, cheios de alusões à atualidade. De sua livre vontade escolheu, durante os anos de guerra, o estudo dos profetas do judaismo antigo. Esses profetas lutaram contra uma monarquia impotente e contra os sacerdotes profissionais, especie de burocracia do Templo; assim como Weber lutou contra o imperador Guilherme II e sua burocracia administrativa e militar. Os profetas, conforme Weber, não se preocupavam com a salvação das almas individuais, mas da nação ameaçada. O sociologo também se preocupou, naqueles anos, só com o futuro da nação alemã em face da derrota iminente. Ao monarquismo decadente opôs a perspectiva de lideres saidos do povo e legitimados pela sua vocação, o “charisma”; e à burocracia opôs a reivindicação do regime parlamentarista, o regime proprio da burguesia, o triunfo da racionalização enfim também na politica.

Pela derrota de 1918, a monarquia foi abolida. A Republica de Weimar iniciou a experiencia parlamentarista. Weber morreu logo depois, em 1920. Não viveu, para assistir ao espectaculo de forças irracionalistas se apoderarem das suas esperanças. A preocupação exclusiva pelo futuro da nação virou nacionalismo fanatico. A substituição da monarquia pela liderança, “charismatica” degenerou em culto ao “Fuehrer”. O fim eram as ruinas da Alemanha destruida e depois, sua reconstrução meramente economica.

Mas – “o espirito é mais poderoso que a natureza”. Depois de tudo, a lição de Weber sobre a objetividade da ciencia venceu. Em meio das ruinas materiais do nazismo e das ruinas espirituais do “milagre economico” fica em pé o monumento de Max Weber: sua Obra.

 

Artigo publicado no “Suplemento Literário” em 14 de Abril de 1962 e reproduzido a partir daqui.

março 15, 2011 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Max Weber e o jornalismo

“O jornalista pertence a uma espécie de casta de párias, que é sempre estimada pela `sociedade’ em termos de seu representante eticamente mais baixo. Daí as estranhas noções sobre o jornalista e seu trabalho. Nem todos compreendem que a realização jornalística exige pelo menos tanto `gênio’ quanto a realização erudita, especialmente devido à necessidade de produzir imediatamente, e de `encomenda’, devido à necessidade de ser eficiente, apesar de suas condições de produção serem totalmente diferentes.Raramente as pessoas dão-se conta que a responsabilidade dos jornalistas é, na verdade, muito maior do que a dos intelectuais”.

janeiro 31, 2011 Posted by | Ciências Humanas | 3 Comentários

Conhecendo o Trivium

Um dos preconceitos mais praticados e menos combatidos é o preconceito temporal. A maior parte das pessoas tem a superioridade do mundo de hoje perante o antigo como um fato indiscutível. Nota-se tal postura de maneira mais clara quando o assunto é a Idade Média: para muitos, trata-se da Idade das Trevas, onde a Europa foi jogada, inteira, na fossa da ignorância construída pela Igreja e pelas elites a fim de se manterem no poder. Neste período, o legado clássico erguido a duras penas por gregos e romanos ficou soterrado até as luzes do Renascimento voltarem a iluminar o Ocidente. Esta é a versão da história que aprendemos no colégio e repetimos a torto e a direito, condicionando a nossa compreensão daquele período da História e tudo o que a ele está relacionado.

 

É curioso constatar, portanto, que os leitores – e, em especial, os leitores brasileiros – do século XXI sofram horrores para ler um livro como o Trivium (É Realizações, 320 páginas, tradução de Henrique Leal Dmyterko). Para os refinados leitores de hoje, as lições da irmã Miriam Joseph, religiosa americana preocupada com a degradação do ensino dos jovens, talvez pareçam praticamente ilegíveis. Explica-se: o “Trivium” era o termo que os educadores medievais utilizavam para designar as artes liberais da lógica, gramática e retórica, essenciais para todo homem que se quisesse dizer culto. São, ou seriam, a base do ensino de hoje, se o que tivéssemos nas escolas fosse de fato ensino. E talvez por ser educação no sentido verdadeiro do termo, o Trivium é ilegível para muitos – e, justamente por isso, muito necessário.

 

Onde encontrar:

 

http://www.erealizacoes.com.br

(11) 5572.5363

janeiro 28, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Livros | 3 Comentários

Jean Lauand e a pesquisa universitária nos dias de hoje

“Ao mesmo tempo que o pesquisar foi facilitado (….)  surgiu recentemente o problema de avaliar as pesquisas – e mesmo de quantificar seu “valor” – e de estabelecer os critérios para essa valoração. O pesquisador é avaliado (e credenciado…) pela quantidade e qualidade de suas publicações.

Esses critérios são aplicados e afetam o próprio credenciamento do pesquisador, que, por exemplo, se não atingir um certo índice, estará impedido de exercer suas atividades de pós-graduação. Mas os critérios são problemáticos e nem sempre estimulam a pesquisa: tornam difícil, por exemplo, iniciar uma nova revista acadêmica: todos os que nela publicarem nos primeiros números serão punidos com pontuação zero até que a revista – anos depois de sua fundação – venha a receber sua avaliação.

(….) temo que uma das disfunções dessa febre avaliacionista seja a de não estimular a vocação. Como editor, recebo com frequência artigos que seguem com todo rigor as normas técnicas (aproveito para registrar uma queixa de leitor contra a exigência de que as notas venham ao fim do texto e não no rodapé), mas não trazem nenhum insight, nenhuma paixão…”

Quem quer ler o artigo completo acessa aqui.

Quem quer saber mais sobre Lauand, acessa aqui.

novembro 16, 2010 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Em busca da felicidade

Jorge da Cunha Dutra*

 

Qual ser humano não busca a felicidade? Esta é uma pergunta que dificilmente terá uma resposta negativa. A felicidade parece ser algo simples de ser entendida e encontrada, mas vejo nela um profundo mistério em seu significado, digno de toda atenção. E por reconhecer sua importância na vida das pessoas é que venho refletir sobre esse assunto.

Essa busca pela felicidade, que indico no título, pode ser vista na maioria das pessoas. Cada um a procura de diversas formas: reunindo-se com os amigos, familiares, saindo a festas, entre outras. Nessas experiências, os seres humanos tentam vivenciá-las inúmeras vezes procurando eternizar os respectivos momentos, ao máximo possível, dentro daquilo que chamamos de “tempo”. A definição de felicidade é muito ampla. Segundo a Enciclopédia Delta Larousse (1985), um de seus significados pode ser: “estado de perfeita satisfação íntima”. Além deste, penso que é possível de se atribuir inúmeras outras definições para explicar essa sensação que quase todas as pessoas procuram sentir. E neste momento de reflexão, venho dizer que essa felicidade, a qual objetiva o “estado de perfeita satisfação íntima”, me parece não existir. Não entro, aqui, na questão espiritual ou religiosa, mas falo somente sobre a vida terrena. Quando olho para o mundo, tenho a impressão de que o ser humano ainda acredita que alcançará a felicidade plena aqui na Terra. As pessoas chegam a pensar que, se conquistarem tais e tais objetivos, alcançarão tudo aquilo que almejam e terão atingido a felicidade. Já vi casos de pessoas dizerem: “Se eu ganhasse na loteria, resolveria todos os meus problemas!” Será mesmo? Será que resolvendo alguns “problemas” eliminam-se as tristezas que se está sujeito a sofrer? Será que realmente é possível de se prever tudo aquilo que se precisa para ser feliz plenamente?

Muitas pessoas colocam a felicidade como meta em suas vidas. Pensando sobre essas questões, concluí que a felicidade plena não é possível de ser alcançada! Mas por quê? Porque tudo aquilo que cada pessoa “tem” e “conquista” está sujeito ao tempo, inclusive o seu próprio corpo, e tudo aquilo que está sujeito ao tempo não a pertence por completo, de modo que a qualquer momento poderá não ser mais seu. Acredito que só é possível encontrar a felicidade nisto: “nos momentos diários em que se está vivendo”. Algumas pessoas podem até dizer: “Eu já sei que a felicidade é feita de momentos!” Para estas, espero que este texto ajude a reforçar o posicionamento; ou a questioná-lo, também! Mas para aquelas pessoas que ainda acreditam na possibilidade de alcançar a felicidade plena, a estas convido a olhar para uma nova direção. Encaminhando-me para o final deste escrito, sugiro que a meta de vida do ser humano não seja a de alcançar a felicidade, mas a de viver bem a cada dia. E o que é este “viver bem”? Entre outras respostas, eu diria que é, pelo menos, viver de tal maneira que o ser humano se reconheça, verdadeiramente, como eterno aprendiz da vida e que perceba que o mundo não existe só para uma pessoa (o “eu”), mas também para todos os demais seres que aqui habitam.

 E quanto à felicidade? Sendo esta vista como um meio e não como um fim, ela estará perpassando todo o meio ambiente sem ter hora certa para chegar ou para partir e se encontrará com aquele que estiver vivenciando o momento de senti-la, sabendo que a um certo tempo ela se despedirá, deixando a possibilidade de que em muitos outros momentos possa retornar, ou não.

 *Licenciado em Pedagogia (Furg) e Filosofia (UFPel)

 

Publicado no Jornal Agora- Rio Grande

agosto 28, 2010 Posted by | Ciências Humanas | 1 comentário

Merquior, há 30 anos

Entrevista de José Guilherme Merquior, concedida à revista VEJA em 1981. Já lá se vão quase trinta anos. É impressionante como praticamente nada mudou….

Original aqui.

Quarta-feira passada, jantando com autoridades brasileiras na Granja do Ipê, residência oficial do chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, o ex-secretário do Estado americano Henry Kissinger foi saudado pelo ministro João Leitão de Abreu num discurso encastoado com finas citações de Platão e Aristóteles. Como Platão e Aristóteles não costumam freqüentar banquetes em Brasília, sua presença foi logo identificada como sinal da chegada ao governo de José Guilherme Merquior – diplomata de carreira, crítico literário e ensaísta com treze livros publicados que, em agosto, Leitão importou da embaixada brasileira em Montevidéu para compor sua equipe no Palácio do Planalto. Ali, uma das incumbências de Merquior é melhorar os discursos do governo.

O conselheiro Merquior, carioca de 40 anos, é um personagem um tanto exótico na paisagem cultural brasileira – e isso não só por ter passado boa parte de sua carreira em postos tranqüilos e refinados, ideais para buquineiros, na Europa. Sua maior singularidade é ter um temperamento polêmico numa terra em que a crítica literária só costuma ser implacável com best-sellers estrangeiros. Seu novo livro, “As Idéias e as Formas”, uma coleção dos artigos que escreveu para jornais nos últimos três anos, lançado este mês pela Editora Nova Fronteira, é um bom exemplo: lança farpas contra marxistas e liberais, a psicanálise, modismos culturais e os costumes da intelectualidade brasileira – que, a seu ver, está formando uma república das letras de vocação despótica.

Ainda ficaram fora do livro dois momentos extremos de sua contundência: a crítica em que acusa a professora paulista Marilena Chauí de plagiar o filósofo francês Claude Lefort e um ruidoso debate, pelos jornais, com o jornalista Paulo Francis, cujo romance “Cabeça de Papel” Merquior anunciou como treino para uma futura autobiografia intitulada “Cabeça de Vento”. Outro bom exemplo da desenvoltura com que Merquior fala de seus temas preferidos é esta entrevista concedida a VEJA na semana passada.

VEJA – Há um ano, o crítico Eduardo Portella deixou o Ministério da Educação convencido de que este governo não é lugar para intelectuais. O senhor acha que é?

MERQUIOR – Eu acho é que esse assunto merece ser tratado de forma desmitificadora. Cada vez que é discutido de maneira extremista, unilateralizada, o resultado é que se cria um mito. Na França, por exemplo, Régis Debray escreveu há dois anos um livro dizendo que intelectual, quando serve ao poder, é sempre como áulico ou absolutista. Mas veio o governo socialista de François Mitterrand e Debray está no Palácio Eliseu. A meu ver, uma atitude intelectualmente séria é não tratar com categorias maniqueístas: não se pode sacralizar a pureza do intelectual nem demonizar o poder do Estado, que não é um mal em si.

VEJA – Não há no Brasil uma desconfiança recíproca entre o Estado e os intelectuais?

MERQUIOR – É impressionante o número de intelectuais brasileiros que está dentro do Estado e faz de conta que não vê. O que está dando pretexto a tanta retórica ideológica sobre essa questão é apenas uma concepção vulgar de Estado, que só vê seu ramo executivo. Ora, essa não é uma concepção correta, nem jurídica, nem historicamente, nem para o Direito, nem para as ciências sociais. O Estado não é só o governo. Fica muito engraçado ver tantos intelectuais encastelados em posições universitárias, comportando-se como vestais críticas do poder do Estado. Estão fazendo tudo isso dentro do Estado e não sabem.

VEJA – O senhor antipatiza com a sociedade civil?

MERQUIOR – Antipatizo com o mito da sociedade civil, que me parece ter duas origens. Uma, brota da esquerda. Até 1970, certamente durante todos os anos 60. O pensamento marxista ou marxistizante na América Latina, preso ao conceito leninista de imperialismo, que era uma espécie de projeção da luta de classes para a política internacional, fez o resgate ideológico do Estado.

VEJA – Resgate ideológico?

MERQUIOR – Isso mesmo. Pela tradição marxista, o Estado sempre foi sinônimo do mal, de instrumento de opressão. Mas, de repente, através da transposição de que eu falava, os marxistas, tomados de fervor nacionalista, passaram a ver o Estado como denominador comum das classes contra a opressão internacional. Isso foi na era leninista. Agora, os marxistas brasileiros estão em plena era de devoção ao pensador italiano Antonio Gramsci, o que num certo sentido implica a volta às matrizes marxistas que sempre viram no Estado um instrumento de opressão. Essa é a origem esquerdista do mito da sociedade civil.

VEJA – Existe a origem direitista?

MERQUIOR – Claro. Os neoliberais brasileiros – que, aliás, andam precisando de correção semântica, pois na verdade são paleoliberais – juntaram-se à esquerda nessa festa de rejeição do Estado. Porque num país como o nosso o Estado é, ou pelo menos deve ser, um promotor de progresso, do equilíbrio social. Mas os paleoliberais rejeitam essa função do Estado e por isso se juntaram aos gramscianos na criação do mito da sociedade civil, chamada a resolver os problemas brasileiros sem a interferência do Estado ou contra ela. Isso é uma bobagem.

VEJA – Mas rendeu muito debate.

MERQUIOR – Uma das características defeituosas do nosso debate intelectual – quando ele ocorre, pois a outra característica é que ele é muito subdesenvolvido e raramente ocorre – é a tendência à imediata ideologização. Os problemas são sempre apresentados de maneira abstrata, principista e apriorista. Portanto, o coeficiente de análise empírica, de exame concreto de realidades verificáveis, é muito pequeno. O inglês Oscar Wilde dizia que os patrões falam de coisas e os criados de pessoas. No debate político e intelectual brasileiro, há muito pouca gente falando de coisas ou pessoas. Fala-se de noções abstratas.

VEJA – Com que resultado?

MERQUIOR – O resultado, em outras palavras, é que se restaurou no Brasil o estilo escolástico de debate. Uma das melhores definições de escolástica como estilo retórico diz que ela era uma maneira precisa de falar de coisas vagas. Para ver como isso funciona na prática, basta acompanhar a discussão sobre democracia: quase ninguém discute os mecanismos reais de representação. E o resultado é que o debate, político e intelectual, ficou muito chato no Brasil, pois a discussão sobre coisas concretas é sempre muito mais remuneradora que a discussão sobre princípios.

VEJA – Qual seria o remédio?

MERQUIOR – Pessoalmente, há muitos anos eu me espanto com a irresponsabilidade de alguns intelectuais que tendem a minimizar, em nome de uma vesga modernice, o problema do ensino básico, da alfabetização, de dotar as pessoas com o instrumental mínimo do pensamento articulado, que é a capacidade de falar e escrever corretamente. Fala-se mal, escreve-se mal, pensa-se mal no Brasil.

VEJA – Quem escreve mal?

MERQUIOR – Os cientistas sociais, os críticos literários, os políticos e, enfim, mas não por último, os escritores.

VEJA – São problemas de estilo?

MERQUIOR – Há problemas de estilo, sim. No caso dos cientistas sociais, por exemplo, existe o problema do jargão, uma certa resistência a escrever em português. Mas, antes disso, na base disso, há uma coisa pior: a dificuldade sintática, a penúria vocabular, a insuficiência gramatical. Aqui estamos falando de escrever errado mesmo.

VEJA – Escrever mal é pecado grave para um cientista social?

MERQUIOR – Até o fim dos anos 40, os cientistas sociais que tinham importância e prestígio no Brasil escreviam admiravelmente bem – gente como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre. Eles renovaram o estilo literário das ciências sociais brasileiras, que estava ainda muito preso ao modelo de Euclides da Cunha. Agora, o estilo oficial dos cientistas sociais é o das teses universitárias.

VEJA – O senhor tem má vontade para com teses?

MERQUIOR – Teses não são necessariamente feitas para ser publicadas. Na Inglaterra, que tem excelentes costumes acadêmicos, encontram-se intelectuais notáveis, reputadíssimos, que aos 60 anos, com uma carreira acadêmica plenamente realizada, têm dois ou três livros publicados. Mas são livros de verdade

VEJA – Cite livros malfeitos.

MERQUIOR – Eu lembro “A Ideologia da Cultura Brasileira”, do professor Carlos Guilherme Motta, como um livro bem ruim. Não por ser propriamente mal escrito. Ele não tem distinção literária, mas também não é especialmente mal escrito. Ele é mal pensado, com uma arbitrariedade muito grande. Por exemplo, ao analisar o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Naquela fase, começo dos anos 60, não se pode negar que o ISEB fosse um grupo de intelectuais de esquerda pensando o Brasil com um certo grau de sofisticação filosófica, com leituras existencialistas, orteguianas. Carlos Guilherme Motta tratou esse movimento considerando apenas um artigo para jornal de Hélio Jaguaribe. O livro é bairrista. Tudo gira em torno da Universidade de São Paulo.

VEJA – Outro exemplo.

MERQUIOR – Cito um livro muito rico em informações, único do gênero, de consulta obrigatória, que eu mesmo tenho usado freqüentemente: “A História da Inteligência Brasileira”, de Wilson Martins. É muito mal estruturado. O método de organizar autores por ordem cronológica é um equívoco. O importante é a tendência literária, não a cronologia.

VEJA – Na sua opinião, quem escreve bem no Brasil?

MERQUIOR – O memorialista Pedro Nava escreve magnificamente. Os poetas Armando Freitas Filho e Mauro Gama, também. Há uma recuperação dos padrões de elegância na ensaística mais recente, em cientistas sociais, como Bolívar Lamounier. Estou citando, é claro, as novidades.

VEJA – E entre os escritores de vanguarda, algum nome merece destaque?

MERQUIOR – A vanguarda brasileira anda muito quieta, tão quieta que não a estou notando, ou se dissolveu – e não sou eu quem vai botar luto por isso. A última vanguarda fecunda no Brasil foi a de 1922, a geração modernista.

VEJA – Não está acontecendo nada de novo na cultura brasileira?

MERQUIOR – Literariamente, o único fenômeno que noto é a febre do memorialismo, uma tendência tão forte que já chegou até aos jovens, como o best-seller Fernando Gabeira. Gabeira, aliás, escreve bem. Pelo menos, escreve com graça, que é uma virtude que se exilou da literatura brasileira. Só li dele o primeiro livro, “O Que É Isso, Companheiro?”, mas chego a me perguntar se uma parte do sucesso que vem fazendo não é simplesmente porque escreve com graça.

VEJA – Como é o intelectual brasileiro?

MERQUIOR – No Brasil, há uma intelectualidade, mas não uma intelligentsia. A diferença entre uma coisa e outra é a mesma que distingue o gênero da espécie. A intelligentsia é um tipo de intelectualidade, um tipo cujo modelo histórico foram os intelectuais da Europa oriental no século passado, sobretudo no império czarista. O que a caracteriza é a separação em que os intelectuais vivem em relação à sociedade. São párias, até pela situação de sua renda e seu status. Os intelectuais brasileiros mais radicais não são párias de nossa sociedade, nem pela renda nem pelo status. Se disserem que são, eu respondo com uma gargalhada. Eles se beneficiaram do progresso econômico, subiram socialmente nos últimos anos como o resto da classe média. Por isso, têm uma retórica muito radical. Fingem que são uma intelligentsia. Mas, na prática, se comportam como um setor do salariado, têm impulsos corporativistas.

VEJA – O senhor quer dizer que os intelectuais são muito ciosos de seus interesses de classe?

MERQUIOR – Basta ver a prática da excomunhão em meios universitários, como se cassam mandatos intelectuais no Brasil. O AI-5 intelectual nunca foi revogado. É a classe se organizando em corporação. É típica a maneira como se reage no país à polêmica. Quando um intelectual no Brasil se sente incomodado por um crítico, ele não contra-ataca as idéias do crítico, ataca o próprio crítico. Foi o que aconteceu comigo, na polêmica com a professora Marilena Lefort…

VEJA – Quem?

MERQUIOR – Aliás, Marilena Chauí, que em seu último livro psicografou trechos inteiros do francês Claude Lefort. Quando eu denunciei isso em artigo, as pessoas que vieram em defesa da Marilena procuraram desqualificar minha pessoa, a pretexto de que eu trabalho para o governo. Eu me refiro a Maria Sylvia Carvalho Franco, conhecida patrulheira ideológica paulista. Há exceções, felizmente. Eu também critiquei Carlos Nelson Coutinho, porque não me convenceu sua tentativa de provar que leninismo e democracia são compatíveis. Ele entendeu que se tratava de uma discussão de idéias. Respondeu com seus contra-argumentos marxistas. Quando isso acontece, há polêmica. Do contrário, o que se tem é um bom exemplo do clero intelectual agindo como seita. É uma das características de toda seita é o puritanismo, a intransigência no plano da conduta e o dogmatismo.

VEJA – Aonde esse comportamento pode levar?

MERQUIOR – Está levando a uma grafocracia. Criticam-se muito as várias cracias, mas não a grafocracia, termo cunhado pelo marxista austríaco Karl Renner, depois da II Guerra, para designar essa vocação moderna do intelectual para exercer o poder através do que ensina ou escreve. O mal da grafocracia é que, com ela, o humanismo deixa de ser um movimento intelectual para se transformar numa ideologia, no sentido marxista da palavra, isto é, um sistema que reflete os interesses de uma camada intelectual que se comporta como clero.

VEJA – O filósofo Claude Lévi-Strauss, depois de ensinar na USP, escreveu que no Brasil todos querem ser eruditos, mas não têm a vocação nem o mérito. O senhor se considera um erudito?

MERQUIOR – Como categoria neutra, sem dar à palavra conotações de bem ou mal, admito que em alguns trabalhos realizei um certo esforço de erudição. Mas a minha preocupação com a erudição é instrumental, quero equipar-me com ela para tratar de determinados problemas. Mas essa conversa do erudito que leu o último livro é uma bobagem. Ninguém leu o último livro. Essa época acabou na Renascença, quando as grandes bibliotecas tinham 500 volumes. A minha tem 7 000 volumes e não tem o último livro. Por outro lado, a erudição também vai ganhando um ar pejorativo serve para descartar certas idéias, um certo tipo de pensamento a pretexto de que “são coisas de erudito”. A insinuação é de que existe outro saber, por graça infusa, que dispensa seus iluminados do trabalho de serem eruditos. Basta estar na posição “correta”. Eu gostaria de saber quem dá esse atestado de dispensa.

VEJA – Entre a esquerda e a direita, onde é que o senhor fica?

MERQUIOR – Alguém definiu admiravelmente bem as pessoas de minha posição ideológica. Foi o polonês Leszek Kolakowski, num texto que é uma pérola – “Como ser conservador, liberal e socialista”. No fundo da visão conservadora, existe um elemento muito positivo, que consiste em acreditar que nem todos os males humanos têm causas sociais, sendo portanto elimináveis através de mudanças sociais. Do lado liberal, a idéia básica, também verdadeira, é que a finalidade do Estado é dar segurança, sem esclerosar a sociedade com um sistema demasiado refratário à iniciativa individual. Enfim, o socialismo tem de válida a idéia de que o pessimismo antropológico, por trás da posição conservadora, não deve ter o poder absolutista de evitar as reformas sociais citadas pelo reformismo esclarecido.

VEJA – Trocando em miúdos…

MERQUIOR – …Eu me sinto um pouco um iluminista. Tenho confiança no progresso, acredito no progresso pela racionalidade. Essa crença já foi característica dos socialistas, mas hoje os socialistas mais sofisticados abandonaram seu compromisso histórico com o evolucionismo, direita e esquerda ficaram muito parecidas nesse aspecto: o repúdio aos tempos modernos. Adorno, que se proclamava neomarxista, chamou nossa época de satânica. No século XVIII, quem acreditava no progresso eram os filósofos. Atualmente, intelectual que acredita no progresso é coisa rara. Hoje em dia, quem acredita no progresso, felizmente, são as massas.

julho 29, 2010 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

As três humanidades

Mário Ferreira dos Santos*

A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.

São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.

São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.

A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo; ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: “Tenho asfalto na alma … ” ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um “modus-vivendi”; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de “moda”, na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas “exquises”, instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do “taedium vitae”; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico; divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem económica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingénuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, “Os homens excelsos não são originais”.

Justifico por final o título: três humanidades.

A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.

* Filósofo brasileiro (1907-1968). Texto retirado do livro Páginas Várias (Logos, 1966)

julho 6, 2010 Posted by | Ciências Humanas | 1 comentário

Eduardo Gianetti da Fonseca sobre o ensino universitário brasileiro

Agradeço ao amigo Lucas Poggetti pela indicação do link

Leia mais aqui sobre o tema.

julho 3, 2010 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

O Direito mediocrizado

As aulas de Karl Von Savigny na universidade de Marburg eram concorridíssimas. As salas de aula – enormes, em forma de auditório, como era então o costume – não davam conta de tantos alunos e não foram poucas as vezes que o mestre foi obrigado a lecionar no pátio da faculdade, como um líder político num comício ou um pregador num culto. Estudantes universitários de todas as partes da Alemanha matriculavam-se no curso de Marburg – e, antes dele, no de Berlim – para assistir às famosas palestras do professor e sua abordagem particular do Direito. Savigny lecionava Direito Penal, das Obrigações , Possessório e Civil: em todas essas disciplinas partia do estudo do Direito Romano, origem comum de todos os sistemas jurídicos da Europa continental. Para ele, o Direito era produto de uma evolução histórica e originário, assim como todas as manifestações da cultura, do espírito do povo – o Volkgeist -, que o verdadeiro jurista deveria ser capaz de ouvir e o legislador, de plasmar em normas que estivessem de acordo com este mesmo espírito.  Savigny entendia – e o demonstrou em sua obra capital, História do Direito Romano durante a Idade Média – que o Direito Romano havia penetrado de maneira tão profunda na vida dos antigos povos germânicos que, mesmo após o fim do Império, ele sobrevivera nos costumes e das crenças comuns destes povos, constituindo, assim, um patrimônio que não se poderia destacar de sua cultura. Houve mesmo semestres em que os alunos de Savigny não abriram uma só lei alemã de sua época, dedicando todo o tempo ao estudo do Corpus Juris Civilis e a sua recepção pelos juristas europeus através dos tempos, desde o fim do Império Romano até o século XIX.

Não que isso, como frequentemente, e erroneamente, se diz deste grande pensador fosse uma apologia à superioridade dos juristas romanos ou a uma erudição vazia e desvinculada da realidade, típica de homens de gabinete enclausurados em seu culto solitário do passado. Não por acaso, outra de suas obras-primas tinha o nome aparentemente contraditório de Sistema de Direito Romano Atual. Era o estudo do Direito Romano e de suas instituições que, para um alemão do século XIX, ainda teriam validade prática. O que havia de vivo da obra de Cícero, Ulpiano, Justiniano e tantos outros merecia o estudo dos jovens alunos alemães; o que estava morto, que fosse assim considerado: morto. O Volkgeist não era em Savigny, ao contrário de muitos filósofos alemães da época (Schelling, Hegel e outros) um conceito metafísico, mas sim a consciência coletiva de um povo expressa em seus costumes, idioma, literatura, religião, música e, também, o seu direito.  Savigny convidava seus estudantes a correrem até as bibliotecas e ocuparem as jovens mentes com os velhos manuscritos, com os corpora jura e os volumes das seções de História e Filologia, não para levitarem num delírio de cultores dum passado mítico,  à Dom Quixote, mas para saírem de lá fortalecidos com a seiva que o verdadeiro passado, estudado com os pés bem firmes no presente, pode trazer aos homens.

Foi o que fez o jovem aluno Jakob Grimm. Filho de advogado, oriundo de uma família com poucas posses, escolheu o curso de Direito devido às amplas possibilidades de ascensão profissional que, já naquela época, assistia aos seus graduados. Grimm queria sair da faculdade com conhecimento suficiente para se tornar um bom funcionário público, um competente burocrata e, talvez, se tivesse sorte, um magistrado. Queria, enfim, ganhar a vida. O jovem Grimm  foi então ter aulas com o então também jovem Savigny, que contava à época apenas 25 anos . Ao ouvi-lo, no fundo da classe, entre bocejos premeditados, discorrer sobre os primórdios da idéia de posse, citar os antigos juristas romanos, relembrar a história de Roma, submergir nas águas profundas do passado do Ocidente e emergir para observar este mesmo Ocidente nos dias em que viviam, veio-lhe uma súbita paixão que nunca mais largaria.  Não perdeu uma só aula do ilustre professor. Tornou-se seu amigo, parceiro de pesquisas e acompanhou-o até várias bibliotecas da Europa em busca dos manuscritos de que Savigny falava em sala de aula. Até então, Grimm era um rapaz curioso por diversos temas, amante de história, de línguas, de romances. Com as aulas e a tutela de Savigny, passou a pesquisador sério e profundo.  Entrou como um aspirante a bom empregado. Saiu como um aspirante a historiador. O mundo perdeu um  burocrata e ganhou o maior especialista em lendas populares da Europa, grande filólogo, pesquisador e divulgador de contos infantis que, ainda hoje, povoam a imaginação das crianças de todas as latitudes: João e Maria, A Gata Borralheira, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida e muitos outros. E tudo isso, só para não esquecermos, numa aula de Direito.

Até mesmo os alunos mais dados ao escárnio e à crítica eram obrigados a reconhecer a grandeza do mestre. “Savigny é impressionante”, disse um jovem renano chamado Karl Marx, assombrado com sua força argumentativa e sua erudição histórica. Posteriormente submeteria a escola histórica do Direito a severas críticas, mas não falta quem veja muito de Savigny no autor de O Capital, como Ludwig Von Mises, que considerava a influência de Savigny em Marx superior à de Hegel em alguns aspectos. Muitos outros passariam pela cátedra de Savigny, quase todos com alguma forte impressão, positiva ou negativa  – na maior parte das vezes, positiva – até sua morte, aos 82 anos. Uma vida coberta de glórias. Quase cem anos mais tarde, o historiador do Direito Erik Wolf deu o veredicto definitivo: “Savigny estabeleceu um programa de renovação da jurisprudência com base humanística, combinando o método histórico-filologico com o filosófico-sitemático”. E nós acrescentamos: um estudo que, apesar de seus erros aqui e ali, de suas imperfeições  e equívocos, confere ao estudo do Direito a dignidade que a filologia (e, com ela, a história) conferem aos melhores estudos em qualquer área das ciências humanas.

Em 1923, o artista austríaco Hugo Lederer esculpiu uma estátua de Savigny para ser colocada diante da antiga Biblioteca da Universidade Friedrich Wilhelm, atual Universidade Humboldt. Seria destruída pelos nazistas dez anos depois. A barbárie totalitária não apreciava Savigny e a Escola Histórica, apesar de alguns aparentes – só aparentes – pontos de contato entre os dois. Não é preciso, entretanto, que haja um regime assumidamente totalitário para que uma escola, uma linha de pensamento, até mesmo uma determinada postura seja banida da vida intelectual de uma nação. Não é preciso ir longe para demonstrá-lo. Se Savigny fosse professor no Brasil de hoje provavelmente seria impedido de lecionar a sua disciplina: com muita sorte, conseguiria um emprego como professor de História. A partir do momento em que começasse a recuar o estudo da Lei ao passado, a estudar-lhe as origens, os fundamentos históricos, filosóficos, linguísticos, enfim, tudo o que ajudou a formar e a plasmar a norma jurídica dentro do quadro da cultura presente e que lhe ajuda a interpretar, a compreender e talvez mesmo a modificar este mesma norma, o velho Savigny seria, muito provavelmente, expulso da sala de aula sob gritos estridentes de que não estaria ensinando o que devia. O mais triste é que o aluno a proferir o discurso não estaria errado. Savigny não estaria a ensinar o que devia. O que se deve ensinar em nossas faculdades de Direito não é a investigar a origem do nosso Direito, de nossas instituições, de nossa sociedade, de tudo quanto está , diretamente ou indiretamente, ligado ao País que, sob a égide da lei, se formou e se forma diariamente. O que se deve ensinar em nossos cursos jurídicos não é este “programa de renovação da jurisprudência com base humanística, combinando o método histórico-filologico com o filosófico-sitemático”. O que se deve ensinar em nossas faculdades de Direito é a sermos o que o menino Jacob Grimm queria ser antes de ter aulas com Savigny.

O quadro parece amargamente descrito. Errado: não é nada além do que este articulista ouviu de um professor, numa aula de Antropologia Jurídica, quando perguntaram sobre seu método de trabalho empregue noutra disciplina que ministrava, a de Direito Penal: “Lá eu não ensino Direito Penal, e sim o Código Penal brasileiro”. Não sei se o ilustre professor já ouviu falar da conhecida frase do jurista francês Bugnet, que afirmava, sem o menor pudor, não conhecer o Direito Civil e ensinar o apenas o que sabia, o Código de Napoleão. Provavelmente, não. Da mesma forma, poderiam os professores admitir, sem o menor pudor – que, muitas vezes, é sinônimo de hipocrisia e falta de coragem – que não ensinam Direito, e sim o que sabem, isto é, passar em concursos. Francesco Carnelutti já dizia que o jurista que é somente jurista é uma pobre e triste coisa. Da mesma forma, a faculdade de Direito que é simplesmente, um curso onde se decoram leis,  onde se prepara para o exame de Ordem e onde a excelência é medida pelo percentual de aprovação nesta mesmo exame, nada pode ser além de uma pobre e triste coisa de consequências nefastas não só para o futuro do Direito mas para a própria vida intelectual da Nação. As faculdades de Direito sempre foram um espaço onde vicejou a discussão dos destinos do país em todos os âmbitos, do cultural ao político, do social ao econômico, envolvendo professores e estudantes num debate multidisciplinar que terminava, não raro, na formação de grandes nomes da vida pública nacional em todos os aspectos que o termo “público” pode comportar. Como pode haver tal debate se o Direito, reduzido apenas ao Code Napoleon e seus descendentes, transforma-se em mero estudo desvinculado de tudo quanto o cerca e nele influi decisivamente?

É altamente revelador que a proibição do uso de Códigos em provas acadêmicas, prática incentivada pelas instituições de ensino e cada vez mais aplicadas pelos professores, só tem sido de fato empregue após a proibição dos mesmos pelo exame da Ordem dos Advogados. As questões do tal exame, de múltipla escolha, impedem o estudo aprofundado e a análise das minúcias que qualquer tema jurídico naturalmente traz. Exigir de uma ciência humana – ou do Espírito, como outrora se dizia – que apresente respostas únicas e definitivas, a serem marcadas com caneta esferográfica sem possibilidade de discussão posterior é negar os próprios fundamentos da idéia de ciências humanas. Tal método, se empregue num exame de admissão profissional, é equivocado; estendido para o estudo acadêmico será a causa de uma verdadeira catástrofe intelectual. A consagração da nova mentalidade está consubstanciada no termo que, desde há pelo menos vinte anos, se escolheu para denominar o que um dia chamou-se jurista: operador do Direito. Não estudioso: operador. Como o operador de máquinas do sempre atual Tempos Modernos de Charles Chaplin, que limita-se a agir mecanicamente para produzir o máximo com o mínimo de tempo. A questão é que, mesmo findo o serviço, o operador em questão continuava a agir mecanicamente, apertando parafusos imaginários num objeto que não existia. Findo o estudo universitário, o operador do Direito sairá para a vida profissional e operará com maestria aquilo que conhece. Responderá, com a devida precisão, às questões do exame de Ordem que estudou exaustivamente estudou durante os cinco anos de curso (e no ano de curso preparatório que, quase que certamente, acabou por ter de matricular-se). Provavelmente operará o que aprendeu em seu dia a dia, seja qual for a área que escolheu. Tornar-se-á uma pobre e triste coisa, pronta para continuar a manejar a chave de fenda, a apertar o parafuso e a destruir estátuas de grandes nomes da cultura Ocidental quando mandarem fazê-lo.

junho 19, 2010 Posted by | Ciências Humanas | 9 Comentários

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Levi-Strauss3

“O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; formam sistemas. Estou persuadido que estes sistemas não existem em número ilimitado e que as sociedades humanas, tal como os individuos – nos seus jogos, nos seus sonhos ou nos seus delirios – limitam-se a escolher certas combinações, num repertório ideal que seria possível reconstituir.

Um espírito malicioso já definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poderíamos com mais razão aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: vão da frescura à decrepitude sem se deterem na antiguidade.

Nas cidades do Novo Mundo não é propriamente a falta de reminiscências que me choca. Essa ausência é um elemento da sua significação. Estas cidades são jovens e extraem dessa juventude sua essência e justificação. A passagem dos séculos representa uma promoção para as cidades européias; para as americanas, a simples passagem dos anos é uma degradação. Não foram apenas construídas recentemente, mas de forma tal que podem renovar-se com a mesma velocidade com que foram erguidas, isto é, mal. No instante em que se erguem novos bairros, quase não chegam a ser elementos urbanos: são demasiadamente novos para o serem. O estilo passa de moda, a ordenação arquitetônica primitiva desaparece com as demolições que são exigidas por uma nova impaciência.

Não são cidades novas contrastando com cidades antigas, mas são cidades com um ciclo evolutivo demasiadamente rápido. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte; as do Novo Mundo vivem febrilmente numa doença crônica: eternamente jovens, nunca são todavia saudáveis.

Botânicos nos ensinam que as espécies tropicais compreendem variedades mais numerosas do que as das zonas temperadas, mesmo que cada uma delas seja constituída por um número muito restrito de indivíduos. Esta especialização, no Brasil, foi levada até os limites máximos.

Assim é que uma sociedade limitada distribuiu os papéis entre os seus membros. Nela podiam encontrar-se todas as ocupações, todos os gostos, todas as curiosidades justificáveis da civilização contemporânea, embora cada setor fosse encarnado por representante único. Nossos amigos não eram exatamente pessoas, mas sim funções cuja lista havia sido estabelecida mais em virtude da sua importância intrínseca do que das suas disponibilidades. Havia assim o católico, o liberal, o legitimista, o comunista ou, noutro plano, o gastrônomo, o bibliófilo, o apreciador de cães ou cavalos de raça, da pintura antiga, moderna. Havia o erudito local, o poeta surrealista local, o musicólogo local, o pintor local.

Nenhuma preocupação real em aprofundar os conhecimentos encontrava-se na base destas vocações. Se por acaso dois indivíduos, em resultado de erro de manobra ou por pura inveja, ocupavam o mesmo domínio ou domínios próximos, passavam a ter a preocupação exclusiva de se destruírem mutuamente, o que faziam com persistência e ferocidade notáveis. Havia troca de visitas entre feudos vizinhos, com muitas mesuras uma vez que todos estavam interessados em se manter nas posições. Somos forçados a reconhecer que alguns dos papéis eram desempenhados com brilho extraordinário devido à conjugação de fortunas herdadas, encanto nato e muita manha adquirida.

Os estudantes queriam saber muito, porém apenas das teorias mais recentes. Nunca liam as obras originais, preferiam as publicações abreviadas e mostravam enorme entusiasmo pelos novos pratos. É uma questão de moda e não de cultura. Idéias e doutrinas não apresentavam aos seus olhos um valor intrínseco, eram apenas instrumentos de prestígio, cuja primazia deveriam obter. Partilhar uma teoria conhecida por outros era o mesmo do que usar roupa pela segunda vez. Uma concorrência encarniçada estabelecia-se com o fito da obtenção do modelo mais recente e mais exclusivo no campo das idéias.

Na América tropical o homem encontra-se dissimulado. Em primeiro lugar pela sua própria escassez. Mas mesmo nos locais em que se agrupou em formações mais densas, os indivíduos permanecem enleados pela agregação muito recente. Ainda não aprenderam a conviver. Qualquer que seja o grau de pobreza, no interior ou mesmo nas grandes cidades, só excepcionalmente chegamos ao ponto de ouvir os seres gritarem – sempre é possível subsistir com pouca coisa num solo que começou a ser saqueado pelo homem – e só em alguns pontos – há apenas 450 anos.”

Trecho de Tristes Trópicos (Ed. Martins Fontes)

novembro 8, 2009 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

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