“Diários da Amazônia”, de Roger Casement, são publicados no Brasil

Destacado

 

O irlandês Roger Casement teve uma vida marcada pelo signo da mudança.

Nascido numa Irlanda submetida ao domínio britânico, membro da aristocracia colonial de origem inglesa, tornou-se, com muitos de sua classe, membro do serviço civil britânico: foi cônsul de Sua Majestade em vários países. Ao contrário de muitos de seus pares, contudo, tinha uma visão nada positiva dos Impérios e do Imperialismo – era, afinal de contas, um irlandês. E um irlandês conhece os efeitos do colonialismo como ninguém.

Casement foi cônsul-geral britânico no Brasil e fez duas viagens à região do Alto Amazonas, em 1910 e 1911, com o objetivo de investigar denúncias de violência e escravidão cometidas contra indígenas brasileiros, peruanos e colombianos. O relato dessas viagens, reproduzido no livro “Diários da Amazônia”, é considerado pioneiro na defesa da cultura ameríndia e dos direitos humanos.

O livro da Edusp é a primeira tradução para o português da obra de Casement. Ele foi organizado pela professora Laura Izarra, coordenadora da Cátedra de Estudos Irlandeses W. B. Yeats da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e pela pesquisadora Mariana Bolfarine, daquela cátedra. A tradução é de Mariana Bolfarine, Maria Rita Drumond Viana e Mail Marques Azevedo.

 

 

 

 

 

 

 

Thiago de Mello (1926 – 2022)

Templo Cultural Delfos: Thiago de Mello – o poeta da floresta

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Patrícia Melo e a literatura

Patricia Melo fala de seu novo livro no Viamundo desta quarta. | Viamundo

 

O porquê da literatura

Há várias razões pelas quais devemos nos dedicar à literatura. Primeiro, porque ela é sempre uma hipótese. Hipótese de uma vida. É uma maneira de você vivenciar uma vida diferente da sua. De ter uma experiência diferente e aprender. A maneira mais fácil de ver a importância da literatura na vida de um ser humano é pensar nos livros que mudaram sua vida. Há livros que mudam nossa vida. Mudam nossa cabeça de tal forma que a gente passa a ter uma conduta diferente. Passa a ter uma perspectiva diferente. A literatura não é só sonho, entretenimento, embora também possa ser, mas é também autoconhecimento. Ela é a vivência de uma experiência possível. Ou de uma experiência impossível. É um mergulho na linguagem. Uma possibilidade de aprender, de maneira muito agradável, a estrutura da sua língua. De aprender novos vocábulos. De melhorar sua maneira de falar. As vantagens de ser um leitor são tantas. É até difícil elencar. A vida, sem literatura, é como a vida sem o sonho. É pobre. Uma vida reduzida. Sempre brinco: a gente deveria ter duas vidas, uma para viver e outra só para ler. Por mais que me dedique à literatura, estou sempre correndo atrás. Sempre achando que minha formação está cheia de buracos. Que há livros e mais livros que quero ler. Para mim, não há prazer maior do que sentar em uma poltrona, pegar um livro e mergulhar na história.

Os livros que mudaram minha vida

Daria para fazer uma entrevista inteira só sobre os livros que mudaram minha vida. Um deles foi O estrangeiro, do Camus. Esse absurdo da vivência, esse vazio sobre o qual Camus sempre fala na literatura dele, ecoou de uma forma tão profunda em mim… Acho que já o li umas dez vezes. Outro que teve um impacto profundo foi Crime e castigo, do Dostoiévski. Quando falo em transformação do leitor, não é só na sua maneira de pensar. Ela também tem a ver com uma questão estética. Alguns livros me marcam profundamente pelo estilo. Pela maneira como aquela história é contada. Outros livros me marcam pela densidade dos personagens, são personagens que você passa a carregar a vida toda. Quem leu Lolita, do Nabokov, por exemplo? Lolita é uma personagem que tem carne. Você sabe perfeitamente quem ela é. Ela é tão presente na vida do leitor quanto um familiar, um parente. Às vezes até é muito mais próxima de você como figura humana do que um primo, um tio. O que a literatura nos dá é uma gama de possibilidades — estética, experimental, no sentido de vivência. Há livros que marcam especificamente porque há algo neles que ecoa em nós de maneira direta. Mas, no fundo, o que vai transformar o leitor é essa constelação de leituras. Em um livro há o apelo estético, no outro há um personagem no qual o leitor se reconhece, e às vezes até de maneira negativa, como um espelho assustador, no outro é um espelho inspirador. É nessa dinâmica, na leitura de vários autores, que você tem a perspectiva de se enriquecer como pensador. Como ser humano. Como pessoa.

Escrita e plano

 Nunca consegui fazer um plano literário. Sempre faço um mergulho no livro que me proponho a escrever, sem pensar muito no que vai ser na sequência. Sem tentar responder às expectativas que são criadas em cima da minha própria literatura. Tem sido isto: a cada livro, um novo desafio. Sempre encaro assim o início de um novo projeto. Um desafio que nem sei se vai dar certo. De repente, não dá certo. Um desafio em termos de estilo, narrativa, temática. Sempre é um tiro no escuro. Procuro escrever sem planejar muito, sem ter muita expectativa, para também não me frustrar demais. 

O escritor e a liberdade

 O que acho interessante, na vida do escritor, é justamente a liberdade. Por exemplo, senti uma certa pressão quando escrevi O matador. Foi um grande sucesso — não só no Brasil, mas fora dele. Havia uma expectativa dos meus editores. Como se meu próximo livro tivesse que ter a força d’O matador. Acho que é muito frustrante pro escritor repetir uma experiência que ele acabou de realizar no livro anterior. Não sei o que é ter um estilo, mas imagino que significa exatamente isto: retomar experiências de projetos anteriores em projetos em construção. Acho que isso é, no mínimo, tedioso. Você não se impõe nenhum desafio, fica repetindo a fórmula que deu certo. Tenho tentado, ao longo da minha carreira, a cada novo projeto, esquecer o livro anterior. Esquecer aquela experiência.

Prazer do risco

Lembro do poeta Joseph Brodsky falando que literatura e poesia são espaços nos quais os profissionais que estão envolvidos são quase obrigados a abrir mão de suas experiências se não quiserem se frustrar. É diferente dos outros profissionais que se beneficiam das experiências que ganharam ao longo da realização de projetos. É exatamente essa a minha sensação. Quando começo um projeto, falo: “Bom, isso aqui não quero. Já sei exatamente o que não quero, que é o que sei fazer”. O que sei fazer é o que não quero. Quero algo arriscado. Sentir que estou fazendo pela primeira vez.

O processo criativo

O que aprendi como roteirista de cinema e TV é o que chamo “eficiência da narrativa”. No cinema e na TV você tem pouco tempo para contar uma história, então é preciso ser muito eficiente, saber exatamente como contar a história. O que eu trouxe dessas mídias foi isso, essa preocupação com a eficiência. Com conseguir articular uma narrativa, que é um arco. Ela tem desenvolvimento, ápice, tem que se resolver. Isso vem muito da preocupação como roteirista. Acho isso muito benéfico para minha literatura. Porque eu, como leitora, sou muito crítica no que diz respeito à eficiência das narrativas dos autores. Às vezes, me incomoda: estou lendo e percebo que o livro está cheio de gordura. Pra que isso? Sinto que é quando falta a mão do editor cortando. É difícil para o próprio autor cortar. Não consegue cortar, o livro fica com barriga, sem ritmo. São essas preocupações que eu trouxe do cinema e da televisão: ritmo, eficiência. Foi muito positiva essa temporada no audiovisual. • Processo criativo 1 Acabei um livro novo, e esse processo sempre se repete. Cada livro tem uma escritura, uma pesquisa, até uma rotina de trabalho diferentes. Mas o que se mantém sempre é o nascimento do livro. É sempre da mesma maneira. Estou no branco, sem saber o que vou fazer, não sei o que quero fazer no próximo projeto, aí começo a me interessar por alguma coisa específica. Geralmente é um tema. Sempre que estou lendo o jornal, escolhendo novos livros que vou ler, estou sempre privilegiando uma temática. Começo a mergulhar numa temática. Antes ainda de perceber que aquilo vai se transformar num livro. Na verdade, começo a pesquisar sem saber que estou pesquisando. E, de repente, penso: “Esse é um material que posso usar em um romance”. Assim que tenho um tema, a primeira coisa que penso é em quem vai contar a história. Quem são os personagens que podem incorporar a temática. É sempre nessa sequência: primeiro a temática, depois personagens, aí começo a pensar em uma história mesmo. Começo a fabular. Mas em uma fase muito experimental, sem saber até se vou seguir adiante com isso. • Processo criativo 2 De repente, tenho um ovo. Tenho esses personagens de que gosto, essa temática, aí começo a fase de pesquisa. Vou atrás de amigos que sei que podem me dar uma bibliografia, vou atrás de profissionais que trabalham com essa temática que quero conhecer. Geralmente é um assunto que desconheço totalmente. Isso dura uma média de um ano, mais ou menos. Só de leituras, anotações. Vou preenchendo um monte de caderninhos, até de conversas que tenho com pessoas que me interessam. Muita anotação de coisas que vejo, pessoas que conheço, trejeitos delas, frases que me falam. Vai tudo pra esse caderninho.

Ladrão e espião

Todo escritor é um bom ladrão. Mais do que ladrão, todo escritor é um espião. Ele está sempre olhando pelo buraco de fechadura. É impossível você deixar de ser espião sendo escritor. O tempo todo você fica com a maquininha de espião ligada.

A inspiração

Sopro das musas Tem muita angústia na escritura. O que é a escritura? Um momento de busca. Você está buscando uma série de coisas. Uma estrutura, um personagem. Parte da criação acontece fora da mesa de trabalho. Mas uma parte muito importante acontece quando se está escrevendo. É importante que aconteça quando se está escrevendo. Se você decide tudo antes, sobra muito pouco espaço para a improvisação. Para as musas. É na hora que você senta para escrever que há a possibilidade de se relacionar com as musas, receber um sopro delas.

Só começo um livro quando sei como vai acabar. Sei o começo e sei o fim. Nunca mudei. Pode ser que no futuro aconteça. Em todos os livros que escrevi até agora, a partida e a chegada eu sabia. O resto pode ficar um pouco sem saber, vai se desenvolvendo. Mas esses dois pontos acho importante de o ficcionista dominar, acho que isso dá um norte. No meu caso, pelo menos.

Vingança

No Mulheres empilhadas, tinha a questão da realidade que eu queria trabalhar. Mas queria, também, que houvesse espaço para a vingança. A vingança não poderia ser no plano da realidade, porque achava que, dessa forma, se a protagonista tomasse consciência da violência e fosse como um matador de saias, como a personagem da Uma Thurman no filme do Tarantino [Kill Bill], aí estaria transformando essa mulher em um assassino do mesmo tipo que mata as mulheres. Então, queria que a violência fosse uma fábula. Quase que um canal para extravasar, uma sublimação dessa violência. Desse desejo de vingança. Uma sublimação do desejo de vingança. Aí, as coisas foram se juntando na pesquisa. Queria que acontecesse no Acre, porque o Acre me dava vários tipos de mulheres: a da floresta, dos povos ribeirinhos, das comunidades indígenas, da comunidade rural. Uma coisa foi levando a outra, aí consegui criar — buscando nas próprias lendas amazônicas — uma realidade imaginária de guerreiras vingadoras que saem atrás dos homens que escapam impunes dos tribunais e fazem rituais de canibalismo com eles. Elas se vingam, matam, se divertem muito com os atos. Era uma estrutura que permitia, também, uma espécie de contrapeso à violência. Um olhar mais bem-humorado. O contrapeso da realidade. Fiquei muito feliz de conseguir. Foi uma matemática. No começo, estava com muita dificuldade de estruturar o romance. Precisei de uma estrutura tripartida para dar conta de tudo isso.

Lugar de fala e literatura

 Lugar de fala significa empobrecer a literatura. A literatura é um espaço de liberdade, não pode haver esse tipo de preocupação. O que significa ter lugar de fala na literatura? Que só posso escrever sobre o que vivo? Só sobre a minha experiência? Isso é de uma pobreza… É como se você colocasse toda sua imaginação numa caixinha. “Tem que ser assim agora, porque tem que ter o lugar de fala. Você não tem autoridade pra falar isso…” Eu, como ficcionista, tenho autoridade para falar sobre o que quiser. Assim como os críticos têm liberdade para odiar meu livro e achar que fiz muito mal. Que não convenço. Que os personagens que escrevi não têm densidade. Mas tenho que ter essa liberdade. Literatura e lugar de fala são duas coisas incompatíveis. Não dou a menor bola para essa discussão no âmbito da literatura. Não gasto nem tempo pensando nisso.

Duelo literário em Londres: para escoceses, Shakespeare é um “shite Rabbie Burns”

O clássico Escócia x Inglaterra desta última sexta-feira terminou em 0 x 0. O jogo válido pela Eurocopa teve com apresentação aguerrida dos escoceses e uma atuação abaixo do esperado por parte dos ingleses, que não souberam usar a vantagem de jogar em Wembley a seu favor.

A disputa anglo-escocesa nas ruas de Londres teve um componente literário: um grupo de torcedores da Tartan Army reuniu-se diante da estátua de William Shakespeare, em Londres, e iniciou um canto provocativo:

“A shite Rabbie Burns

You’re just a shite Rabbie Burns”

(tradução livre: “Você é apenas um Rabbie Burns de merda”)

 

O Rabbie Burns em questão é Robert Burns (Rabbie é o apelido de “Robert” no dialeto escocês), o poeta nacional da Escócia.

Robert Burns: 4 uncomfortable truths about the man celebrated the world over | The Scotsman

Robert Burns nasceu em Ayrshire, na Escócia, em 1759. Sua poesia de recorte nacionalista (era um firme defensor da Independência escocesa)  e popular (incluía crítica social e religiosa) faz parte da memória comum de todos os escoceses, que o citam frequentemente em discursos, textos ou celebrações. E seu trabalho atravessou fronteiras: a mais famosa de suas criações, “Auld lang syne”, foi popularizada mundo afora como canção natalina.

Em uma votação popular de 2009, Burns foi escolhido pelos seus compatriotas como o maior escocês de todos os tempos – vencendo até mesmo o líder independentista William Wallace, celebrado por Mel Gibson em “Coração Valente”. Uma glória e tanto. Mas não maior do que ser cantado a plenos pulmões pelos torcedores comuns após um jogo de futebol. Eis a maior prova de que Robert “Rabbie” Burns viverá para sempre.

Resumo e análise de “Mensagem”, de Fernando Pessoa

O momento

“Mensagem”, de Fernando Pessoa, foi publicado no dia 1 de dezembro de 1934. A data comemora a Restauração da Independência do trono português e o fim da União Ibérica, que colocou os reinos de Portugal e Espanha sob o mesmo monarca. A escolha de Fernando Pessoa não parece ter sido gratuita: o livro aborda justamente a restauração da grandeza perdida de Portugal em todos os níveis:  simbólico, político, cultural e espiritual.

Em 1934, Portugal é um país profundamente decadente, mas que busca a reconstrução. É a nação mais pobre da Europa Ocidental e profundamente dependente dos ingleses, com quem têm um tratado desde o século XIV. Em 1933, o ditador Antonio Salazar assume o poder com a promessa de, entre outras coisas, retomar a grandeza perdida do país.

O poeta

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Aos cinco anos, perde o pai e é levado pelo padrasto e pela mãe para Durban, na África do Sul, onde faz o curso primário e secundário. Retorna a Lisboa em 1905, matriculando-se no curso de Letras da Universidade de Coimbra. Sustenta-se como correspondente comercial em línguas estrangeiras. Envolvido pela poesia, passa a participar de revistas como a “Orpheu”, publicação fundamental das letras portuguesas daquela época. Em 1934, publica “Mensagem” e inscreve o livro em um concurso nacional de poesia, obtendo o segundo lugar.

No ano seguinte, é acometido de uma cirrose hepática e morre. Seu único livro publicado em vida é “Mensagem”.

3. A poética de “Mensagem”: estrutura do poema, recursos poéticos, temática

“Mensagem” é o único trabalho de pessoa elaborado de modo estruturado. O resto de suas publicações em vida foram poemas esparsos, livretos ou ensaios, impressos em jornais ou revistas literárias.

A matéria de Pessoa em “Mensagem” é a História de Portugal – suas origens simbólicas, suas aventuras marítimas e sua mitologia nacional da redenção e do retorno à glória. A glorificação da história nacional aproxima “Mensagem” de “Os Lusíadas”, de Camões. Quem lê “Os Lusíadas” acaba por conhecer boa parte da história portuguesa, narrada de forma mítica, mas, ainda assim, narrada, com personagens, acontecimentos e desenrolares. Não é o caso de “Mensagem”: aqui, os eventos da história portuguesa são, mais do que contados, interpretados.

O livro apresenta uma estrutura tripartite, isto é, dividida em três partes: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”. As partes são equivalentes, grosso modo, à ascensão, ao apogeu e ao declínio de Portugal.

3.1 – “Brasão”

Os poemas reunidos nesta parte do livro abordam a formação de Portugal, a expansão do território e os descobrimentos. A divisão desta parte do livro é baseada no brasão nacional de Portugal, que tem dois campos divididos: um tem sete castelos, o outro, cinco quinas. Na parte de cima do brasão está a coroa e o timbre. Os poemas abordam as principais figuras da história portuguesa, como o infante Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Afonso de Albuquerque e diversos mitos relacionados a Portugal.

Trecho:

SEGUNDO / VIRIATO

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é ja o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.

 

 

3.2 – Mar Português

Nesta parte, os poemas enfocam as viagens marítimas e as conquistas de Portugal. Enfoca os principais caminhos percorridos pelos portugueses ao longo de sua longa trajetória histórica, os inimigos enfrentados e as missões desempenhadas.

Trecho:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

3.3 – O Encoberto

Enfoca a visão de D. Sebastião e do Quinto Império, mito capaz de reverter a decadência portuguesa. Dom Sebastião foi um rei de Portugal desaparecido em 1578, após um ataque aos mouros no Norte da África. Após o seu desaparecimento, diversas lendas e profecias são associadas ao seu nome, todas elas prevendo o seu retorno triunfal – ao conjunto destas lendas e profecias dá-se o nome de sebastianismo.

A volta do rei Dom Sebastião está em diversas profecias presentes na cultura portuguesa – como a do Padre Antônio Vieira – e sua missão será formar o Quinto Império, onde Portugal voltará a ganhar a proeminência do passado.

Trecho:

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

 

 

Resumo e análise de “Poemas escolhidos”, de Florbela Espanca

Ilustração de Yassmine Uequed Pitol

1 – O momento

Na virada do século XIX para o XX, Portugal é um país em busca de reconstrução. O país passara os últimos oitenta anos tentando refazer-se da perda territorial do Brasil, fonte inesgotável de recursos para a Coroa, para inserir-se no capitalismo europeu moderno, cuja evolução não acompanhara. Para piorar as coisas, em 1890 os portugueses recebem o chamado “Ultimatum” dos britânicos, que põem o país contra a parede e exigem a cedência de amplas áreas do seu (já decadente) Império colonial. A contragosto, os portugueses obedecem.

Uma crise social e econômica põe o país em profunda depressão: a população emigra em massa (em geral, para o Brasil), a miséria grassa em quase todo o país e a monarquia, fiel da balança da política local, começa a balançar pela primeira vez em sete séculos de existência. O estado de ânimo da nação portuguesa está desenhado nas palavras de um grande poeta daquele momento, António Nobre: “Meus amigos, que desgraça é nascer em Portugal”.

2- A poetisa

Foi neste Portugal derrotado e em busca de novos caminhos que Florbela Espanca nasceu. A menina veio ao mundo no dia 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, pequena localidade do Alentejo, no sul do país. Filha de um antiquário e de uma camponesa, tinha apenas um irmão, Apeles, e seu nome de batismo – Flor Bela Lobo – foi trocado na adolescência, quando, ainda como estudante do afamado Liceu Nacional de Évora, passou a assinar seus primeiros versos.

Em vida, Florbela Espanca publicou apenas duas obras: o “Livro de Mágoas”, de 1919, e o “Livro de ‘Sóror Saudade'”, em 1923 – os dois às próprias custas. Nenhum dos dois obteve maior notoriedade em vida; o primeiro, contudo, esgotou a edição. As menções a Florbela na imprensa portuguesa da época são raras: o jornal “Correio da Manhã”, por exemplo, incluiu-a no grupo de jovens senhoras que demonstram “saber versejar”, sendo capaz, portanto, de distrair os homens nos salões de Évora com suas composições. Ficam claros os preconceitos da época sobre o lugar destinado às mulheres. Florbela suicidou-se em 1930 sem ter tido qualquer fama.

Foi, contudo, conhecida por vários poetas seus contemporâneos; dentre eles, ninguém menos do que Fernando Pessoa – outro que morreu sem ter notoriedade -, para quem Florbela era “Alma sonhadora, irmã gêmea da minha”.

3 – A poética de Florbela: estilo, temas, abordagens

A obra de Florbela Espanca inclui diários, contos, artigos, ensaios e epístolas. Mas é, sem dúvida, como poetisa que nós a conhecemos melhor, e é na poesia que está o seu melhor.

Florbela, como vimos, publicou apenas dois livros em vida. A quase totalidade de seu trabalho é de publicação e reconhecimento póstumos.

De acordo com o estudioso Rolando Galvão, em Florbela temos uma repetição incessante de certos termos como “alma”, “saudade”, “beijos”, “amor”, “poeta” e outros ligados às sensações individuais. Enfatize-se aqui “individuais”: a poetisa pouco ou nada se importa com temas sociais ou coletivos, como o destino de certos grupos. Interessa-lhe o “eu” fraturado, fruto das oposições, das frustrações e da incompreensão.

É o que vemos em “Fanatismo”, por exemplo:

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida …
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

Nas duas estrofes anteriores, temos a exposição do desejo incontrolável , fruto de uma paixão obsessiva. O eu lírico da poetisa não procura controlar essa paixão e o desejo, pelo contrário: descreve-o plenamente, sem receios. O mundo que a cerca pouco importa: suas oposições, suas lutas, as grandes transformações históricas e sociais, nada disso tem valor diante daquilo para o qual a poetisa destina seu olhar. A estrofe a seguir o confirma:

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..

A fragilidade e a transitoriedade do mundo não importam, nem mesmo Deus importa: só o objeto amado.

O tom é semelhante em outro poema, “Horas rubras”, onde o passar do tempo durante a noite é associado

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas…Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…Sou chama e neve branca misteriosa…
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras !

Em toda a poesia de Florbela , como dissemos, sobrepõe-se o Eu ante tudo – o Eu que ama, o Eu que adora, o Eu que se rende às paixões e aos encantos. Um poema com o título “Eu” não pode ser diferente:

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

A voz que enuncia é a que se sente como “Crucificada e dolorida”. Não apenas um Eu que ama, é um Eu que está fraturado, disperso, dividido, lesado de muitas formas. No segundo quarteto, aparecem expressões como “sombra”, “luto”, “névoa”, que evocam a escuridão e o desespero.

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Novamente o Eu que se enuncia ante tudo e todos aparece no poema “Vaidade”:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Os dois primeiros quartetos são os de uma poetisa em busca da perfeição de expressão, da pura habilidade artística e do sucesso estético. Seu sonho é o do fazer artístico pleno. Mas os dois tercetos finais mostram outra realidade:

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

No primeiro terceto, vê-se um objetivo distinto: a poetisa quer ser mais do que uma grande artista – quer ser alguém diante do qual a Terra anda curvada. Mas é tudo sonho – do qual ela acorda, e descobre que não é nada. Esses extremos entre a auto-percepção e a realidade são um elemento frequente da poesia de Florbela Espanca, expressos de diversas formas.

No poema “Lágrimas ocultas” vemos essa distinção entre a realidade e auto-percepção e a falta de alguém para confessar as frustrações:

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

O eu lírico presente em Florbela está sempre em estado de tristeza e perda – sempre em desesperança. A alegria, se existiu, ficou no passado, e dele não sairá. A boca, que antes tinha o sorri das Primaveras, agora apenas tem a tristeza e a desesperança.

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Lágrimas que a poetista chora em solidão, mesmo que cercada pelos outros. Elas brotam dentro da alma e ninguém as vê cair – porque não caem ao longo do rosto, mas dentro da alma. A tristeza de Florbela é sempre solitária e invisível.

Marguerite Yourcenar (1903-1987)

Credit: INA via Getty Images/INA

 

No dia 8 de junho de 1903 – há 118 anos, portanto – vinha ao mundo a escrita francesa Marguerite Yourcenar.

Batizada como Marguerite Cleenewerck de Crayencour, foi uma criança excepcional: lia Jean Racine com oito anos de idade, e seu pai ensinou-lhe o latim aos oito anos e grego aos doze.

Sua obra mais conhecida é “Mémoires d´Hadrien” (Memórias de Adriano), de 1951, autobiografia imaginária sobre a vida e a morte do imperador romano Adriano – inspirada pelo fato de que  Adriano foi, ele próprio, autor de uma autobiografia que, no entanto, não chegou aos nossos dias.

A obra foi um enorme sucesso e lançaram-na para a fama internacional.

Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras, em 1980, após uma campanha e apoio ativos de Jean d’Ormesson, que escreveu o discurso de sua admissão.

Viria a falecer sete anos depois, em 1987.

 

 

80 anos de José Guilherme Merquior

O fenômeno Merquior • LIVRES

No dia 22 de abril de 1941, em meio à Segunda Guerra Mundial, vinha ao mundo José Guilherme Merquior.

Veio para um mundo em oposição – um mundo onde se opunham ideologias, sistemas políticos, visões de mundo, interpretações e utopias. Um mundo de confrontos.

Confrontos que não se esgotaram com o fim da Grande Guerra: quando o menino Merquior chegou à idade adulta, dividia-se o planeta entre capitalistas e comunistas, exigindo que cada pessoa tomasse uma posição. O rapaz escolheu, então, as duas bandeiras que empunharia: a do liberalismo e a do racionalismo. Levou-as consigo pelo mundo e defendeu-as nos campos de batalha que escolheu pisar: no ensaio, na crítica literária e nas mil incursões pelas Ciências Humanas, da sociologia à estética, da antropologia à economia.

Sua presença na vida cultural brasileira foi marcante. Apresentou autores, lançou debates, provocou opositores, agregou companheiros para novos caminhos. Parte dessa presença está em seus livros: “De Anchieta a Euclides”, “Liberalismo Antigo e Moderno”, “A Razão do Poema”, “O Marxismo Ocidental”, “A Estética de Lévi-Strauss” e muitos outros. Outra parte está nos artigos que publicou em diversos jornais ao longo de mais de vinte anos – a maioria deles ainda inédita.

Merquior envelheceu muito bem. Tudo, absolutamente tudo, o que escreveu continua a nos interessar. Resta saber se o Brasil de hoje – aprisionado em confrontos de baixo nível – ainda terá interessados à altura de seu pensamento.

https://perspectivaonline.com.br/2015/06/03/merquior/

200 anos de Charles Baudelaire

No último dia 9, lembramos os 200 anos de nascimento de Charles Baudelaire, o patrono dos passantes, dos andarilhos, dos que vagam sem rumo pelas ruas das grandes metrópoles.  

Lembramos, também, o homem que cunhou o termo “modernidade” –  “A modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável”.

 

A Covid-19 levou Alfredo Bosi

Morre de covid-19 o crítico literário Alfredo Bosi aos 84 anos | Eu & | Valor Econômico

A Covid põe-nos à prova mais uma vez: nessa manhã de 7 de abril, o vírus levou o grande Alfredo Bosi.

Nascido em São Paulo, em 1936,  Bosi era membro da Academia Brasileira de Letras. Foi professor da USP durante décadas e presidente do Instituto de Estudos Avançados daquela instituição.

Viveu na Itália, onde estudou a literatura e a filosofia do Renascimento Italiano e recebeu importante influência da crítica literária peninsular – em particular dos mestres Benedetto Croce e Francesco de Sanctis.

Sua mirada intelectual sempre foi, contudo, direcionada para o Brasil e para os temas principais da cultura brasileira, aos quais dedicou obras fundamentais como “História Concisa da Literatura Brasileira” e “Dialética da Colonização” – dentre outras dezenas de livros sobre crítica, história e teoria literárias.

Alfredo Bosi era casado com Ecléa Bosi (falecida em 2017) e deixa dois filhos.

Aniversário de León Tolstoi

5 curiosidades sobre o russo Liev Tolstói, um dos maiores novelistas do  mundo - Traduzca - Tradução juramentada, simultânea e documentos. Orçamento  online!Hoje, lembramos os 192 anos do nascimento de Leon Nikoláievich Tolstói.

Nascido em 1828, em uma família aristocrática, Tolstói é conhecido pelos romances Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877). Alcançou aclamação literária ainda jovem, primeiramente com sua trilogia semi-autobiográfica, Infância, Adolescência e Juventude (1852-1856) e por suas Crônicas de Sebastopol (1855), obra que teve como base suas experiências na Guerra da Crimeia.

A ficção de Tolstói inclui dezenas de histórias curtas e várias novelas como A Morte de Ivan Ilitch (1886), Felicidade Conjugal (1859) e Hadji Murad (1912). Também escreveu algumas peças e diversos ensaios filosóficos.

Morreu em 1910, aos 82 anos de idade. Antes da morte sua família se dedicava à cuidar de sua saúde diariamente. Nos últimos dias, Tolstói conversou e escreveu sobre a experiência da morte. Renunciando ao estilo de vida aristocrático, ele deixou sua casa no meio do inverno daquele ano, às escondidas.

Foi acometido por uma pneumonia na estação de trem de Astapovo, depois de um dia inteiro de viagem. O mestre da estação levou Tolstói a seu apartamento, e seus médicos pessoais foram chamados para socorrê-lo. Recebeu injeções de morfina e cânfora. A polícia tentou limitar o acesso a sua procissão de funeral, mas milhares de camponeses se reuniram nas redondezas.

Segundo algumas fontes, Tolstói passou as últimas horas de sua vida pregando o amor e a não-violência aos passageiros do trem.

                                                                                     PUBLICIDADE

7 anos sem Seamus Heaney

Seamus Heaney: an Irish legend growing in reputation | Times2 | The Times

No dia 30 de agosto de 2013 – há sete anos, portanto – perdíamos Seamus Heaney.

Heaney nasceu em 1939, na Irlanda do Norte. Conhecer a Irlanda do Norte é essencial para quem quer conhecer a obra de Heaney, profundamente assentada naquele país dividido. Fruto do colonialismo inglês, a divisão política entre o sul majoritariamente católico e o norte majoritariamente protestante encobre a divisão cultural que existe neste último: de um lado, os descendentes de colonizadores ingleses e escoceses das Lowlands, protestantes e fiéis à Coroa; de outros, descendentes dos celtas originais do país, católicos e defensores da união com a República da Irlanda. A religião é apenas uma das barreiras a separar as duas comunidades, que também se separam pela língua, pela história e pelo destino. E Seamus Heaney era da comunidade católica, isto é, da comunidade oprimida, minoritária, sujeita a leis discriminatórias e à constante opressão policial.

Tudo isso aparece na poesia de Heaney. Aparece, sim, na forma de poesia política, como nos seus livros dos anos 1960. Recusou fazer parte de uma coletânea de poetas britânicos e admitiu, em um poema seu, nunca ter levantado um copo para saudar a rainha. Mas a sua poesia inclui também uma relação viva e receptiva com a terra do Norte da Irlanda, os bogsides, as colunas celtas, o verde por todo o lado. Ao mesmo tempo, foi autor da tradução premiadíssima do épico anglo-saxão Beowulf, poeta arquigermânico e arqui-anglo-saxão – portanto, arqui-inglês – que o arquicelta Heaney traduziu, segundo ele mesmo, dando um colorido e uma vocalidade irlandesas às duras sílabas do velho idioma germânico incompreensível para os ingleses de hoje.

Nunca deixou de entender o que era o conflito. E nunca deixou de entender o que era a reconciliação. Antes de ser poeta da guerra, Heaney foi o poeta da reconciliação.

Deixamos aqui um de seus poemas, traduzido para o português por José Antônio Arantes:

Os escribas

Nunca me empolguei com eles. Se eram excelentes, eram rabugentos e espins como o azevim que liquesciam para a tinta. E se jamais me liguei a eles eles jamais me recusaram meu lugar.

Na quietude do scriptorium uma pérola negra crescia neles como a velha crosta seca nas penas. Na margem de textos de encômio garatujavam e agadanhavam. Resmungavam se o dia estava escuro ou muito giz tornara o velino brando ou muito pouco o deixara oleoso.

Sob as garupas dos caracteres reuniram tropas de cóleras míopes. O ressentimento semeou nos fetos desencaracolados das versais.

De quando em quando eu me punha longe dali e em minha ausência via a inclinada cursiva de um dorso, e os sentia aperfeiçoarem-se contra mim página por página.

Que se lembrem desta não desprezível contribuição a sua arte invejosa.

PUBLICIDADE

O mapa-múndi da literatura

PUBLICIDADE

 

Qual o escritor mais representativo da França? Seria, talvez, Baudelaire? Rimbaud? Camus? E o da Itália? Será Dante? Da Inglaterra, ficaríamos com Shakespeare, Milton ou Spenser? E da Alemanha, preferiremos Goethe, Schiller ou Thomas Mann? Sempre será difícil escolher um só mestre da literatura para representar um país. Os nomes mudam de pessoa para pessoa e de geração para geração, e não há uma resposta definitiva. O que podemos é debater as escolhas feitas por alguém, ou, talvez, pouco mais do que isso.

Por essa razão, vale dar uma olhada no interessante trabalho do usuário Backforward24, do fórum de discussões Reddit: um mapa-múndi onde cada país é representado pela sua obra literária mais relevante.

Alguns são escolhas canônicas, como o clássico “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, para representar a literatura mexicana, ou “Guerra e Paz, de Tolstói, como o escolhido da Rússia – assim como Machado de Assis e seu “Dom Casmurro” para representar o Brasil. Outros podem ser alvo de discussão – o que, aliás, é quase inevitável em literatura.

Eis o mapa:

 

A Fonte do Livro Aberto, na distante Budapeste

A distância entre Brasília e Budapeste, capital da Hungria, é de aproximadamente dez mil quilômetros. Para termos noção dela, basta dizer que é mais do que o dobro do caminho a percorrer entre o Oiapoque e o Chuí, nossos pontos extremos. Ir e vir do Brasil para a Hungria é, portanto, tarefa árdua – que, no entanto, foi desempenhada por muitos milhares de imigrantes húngaros durante as guerras na Europa, nos duros tempos das viagens de navio através do Atlântico. Alguns deles assumiram posição de destaque na cultura brasileira, como Paulo Rónai, um dos maiores filólogos, tradutores e críticos que já tivemos. Autor de dicionários, coletâneas e inúmeras traduções pioneiras, Rónai dedicou sua vida à promoção do melhor do humanismo europeu em nossas terras. Em carta destinada a seu amigo Ribeiro Couto, manifestou agradecimento ao país que o acolheu e externou um singelo desejo: “que meus livros possam servir ao Brasil”.

Os livros, para os húngaros, são parte essencial da vida. Eles lêem em toda parte: no metrô, nos pontos de ônibus, nos cafés, nas incontáveis bibliotecas espalhadas pela cidade. Estão entre os europeus que mais dedicam tempo do dia à leitura, atrás apenas dos finlandeses. Infelizmente, nem sempre o húngaro encontra as obras que quer em seu idioma, o magiar. Trata-se de língua particularíssima, sem parentesco algum com os demais idiomas indo-europeus, falado apenas por eles e pelos seus compatriotas emigrados por todo o mundo. Por isso, os húngaros aprendem, desde cedo, os idiomas ocidentais: alemão, francês, inglês. Lêem, também, nesses idiomas, que têm seções especiais a eles dedicadas em qualquer boa livraria de Budapeste. Assim como Rónai, o húngaro transita bem entre livros.

Por isso, a municipalidade de Budapeste ergueu, em 2012, ergueu em 2012 um monumento a este objeto tão querido pelos seus habitantes. Trata-se da Fonte do Livro Aberto.

 

A escultura, feita em mármore, representa um livro aberto em uma mesa. No que seria a dobra interna do livro, foi instalado um pequeno chafariz móvel, que recria o movimento de virada de página. Situada na praça Já é um dos principais pontos turísticos da belíssima cidade apelidada, com muita justiça, de “Rainha do Danúbio”.

Encantamo-nos, a dez mil quilômetros de distância, com essa celebração. Mas o Brasil, que recebeu Paulo Rónai e outros milhares de filhos de Budapeste, não celebra o livro. Conforme disse recentemente um ministro do atual governo, a leitura não é tema de interesse dos mais pobres – “é coisa da elite”, segundo ele. Por essa razão, considera razoável retirar as isenções fiscais para a edição e circulação de obras no Brasil, um dos raríssimos instrumentos de promoção da leitura em nosso país. Mesmo com essas isenções, o Brasil ocupa os lugares mais baixos nos rankings internacionais de leitura – onde os húngaros, que ergueram a maravilhosa Fonte do Livro Aberto, fazem boa figura. Sem elas, o consequente aumento do preço do livro restringirá ainda mais o acesso ao saber. O governo não se preocupa: o livro, afinal de contas, é apenas para a elite.

Os dez mil quilômetros que nos separam de Budapeste e de sua lindíssima fonte são, como dissemos, difíceis de percorrer. Paulo Rónai os percorreu, e presenteou-nos com o que tinha de melhor – seus livros. O Brasil, que o acolheu tão bem, parece não ter sido capaz de acolher os valores que o formaram. Apesar de já não viajarmos em navios, a distância entre o mundo de Rónai e o mundo que nós, brasileiros, hoje habitamos parece intransponível. Resta-nos admirar, de longe, a Fonte do Livro Aberto – e tentar recuperar, entre nós, tudo aquilo que ela representa.

 

 

PUBLICIDADE

Kafka, segundo Jorge Luis Borges

jose luis Borges

jose luis Borges auteur le plus grand ecrivain sud Americain 1977

Um sonho eterno – Transcrição dos comentários gravados do narrador e poeta argentino Jorge Luis Borges (2 de julho de 1983)

Minha primeira lembrança de Kafka é do ano de 1916, quando decidi aprender o idioma alemão. Antes, tinha tentado estudar russo, mas fracassei. O alemão acabou sendo muito mais simples e a tarefa foi gratificante. Tinha um dicionário alemão-inglês e depois de uns meses não sei se conseguia entender o que lia, mas podia apreciar a poesia de alguns autores. E foi quando li o primeiro livro de Kafka que, embora não lembre agora exatamente, acho que se chamava Onze Contos.

O fato de que Kafka escrevia de maneira tão simples me chamou a atenção, já que eu mesmo podia entendê-lo, apesar de o movimento impressionista, tão importante nessa época, ter sido marcado, em geral, pelo barroco, que jogava com as infinitas possibilidades do idioma alemão. Depois, tive a oportunidade de ler O Processo e a partir desse momento passei a acompanhar sua obra continuamente. A diferença essencial em relação aos seus contemporâneos e até mesmo aos grandes escritores de outras épocas, como Bernard Shaw e Chesterton, por exemplo, é que com eles o leitor é obrigado a levar em conta a referência local, a conotação do tempo e do lugar. O que também é o caso de Ibsen e de Dickens.

Kafka, por outro lado, tem textos, sobretudo os contos, onde se estabelece algo eterno. Podemos ler Kafka e pensar que suas fábulas são tão antigas como a história, que esses sonhos foram sonhados por homens de outra época sem necessidade de vinculá-los à Alemanha ou à Arábia. O fato de haver escrito um texto que ultrapassa (em informação) o momento de sua concepção, é notável. É possível pensar que foram redigidos na Pérsia ou na China e aí está seu valor. E quando Kafka faz referências é profético. O homem que está aprisionado por uma ordem, o homem contra o Estado, esse foi um de seus temas preferidos.

Eu traduzi o livro de contos cujo primeiro título é ‘A Transformação’ e nunca soube por que todos decidiram chamá-lo de ‘A Metamorfose’. É um disparate, eu não sei quem teve a ideia de traduzir assim essa palavra do mais simples alemão. Quando trabalhei com a obra, o editor insistiu em deixá-la como está porque já era famosa e se vinculava a Kafka. Acho que os contos são superiores a seus romances, que, por outro lado, nunca terminam. Têm um número infinito de capítulos, porque seu tema é de um número infinito de postulações.

Gosto mais de seus relatos breves e, embora não haja, agora, nenhuma razão para qualificar um sobre outro, escolheria aquele conto sobre a construção da muralha. Eu escrevi também alguns contos nos quais tratei, ambiciosa e inutilmente, de ser Kafka. Há um, intitulado La Biblioteca de Babel e algum outro, que foram exercícios na tentativa de ser Kafka. Esses contos eram interessantes, mas eu me dei conta de que não tinha cumprido meu propósito e de que devia buscar outro caminho. Kafka foi tranquilo e até um pouco secreto e eu escolhi ser escandaloso.

Comecei sendo barroco, como todos os jovens escritores e agora trato de não sê-lo. Tentei também ser anônimo, mas qualquer coisa que escreva se reconhece imediatamente. Kafka não quis publicar muito em vida e pediu que destruíssem sua obra, o que me lembra o caso de Virgílio, que também encarregou seus amigos de destruírem a não concluída Eneida. A desobediência destes fez com que, felizmente para nós, a obra se conservasse. Eu acho que nem Virgílio nem Kafka queriam, na realidade, que seus trabalhos fossem destruídos. Senão eles mesmos teriam se encarregado do trabalho. Se eu atribuo a tarefa a um amigo, é um modo de dizer que não me responsabilizo. Meu pai escreveu muitíssimo e queimou tudo antes de morrer.

Kafka foi um dos grandes autores de toda a literatura. Para mim, é o número um deste século. Eu estive nos atos do centenário de Joyce e quando alguém o comparou com Kafka disse que isso era uma blasfêmia. É que Joyce é importante dentro da língua inglesa e de suas infinitas possibilidades, mas é intraduzível. Por outro lado, Kafka escrevia em um alemão muito simples e delicado. Ele se importava com a obra e não com a fama, isso é indubitável. De todas as maneiras, Kafka, esse sonhador que não quis que seus sonhos fossem conhecidos, agora é parte desse sonho universal que é a memória. Nós sabemos quais são suas datas, qual foi sua vida, que é de origem judaica e tudo, mas isso vai ser esquecido, apenas seus contos continuarão a serem contados.

*Originalmente publicado por El País Brasil, em 8.4.2015.

Fintan O’Toole sobre orgulho nacional e vergonha nacional

25 years of Irish life through the columns of Fintan O'Toole

 

O jornalista, ensaísta e dramaturgo irlandês Fintan O’Toole é uma das figuras mais influentes do debate público em seu país. Ex-diretor do “Irish Times”, escreve com frequência na imprensa irlandesa, em vários jornais ingleses e no “New York Review of Books”. Em seu país, seus detratores frequentemente o acusam de ser um um west brit (“britânico ocidental”), gíria irlandesa usada para designar um patrício excessivamente simpático aos ingleses, velhos inimigos da Ilha Verde. É bem verdade que O’Toole não partilha da anglofobia de muitos irlandeses – como todo dramaturgo deste mundo, ama o teatro inglês – mas  tampouco vê os vizinhos com olhares acríticos: um dos temas mais frequentes de seus últimos ensaios é o crescimento do nacionalismo xenófobo na Grã-Bretanha, proximamente ligado ao Brexit e à eleição de Boris Johnson – de quem O’Toole se declara adversário direto.

Fintan O’Toole tem, portanto, muito a dizer sobre o nacionalismo. Por isso, vale a pena ler um trecho de sua entrevista recente para o El País sobre orgulho nacional, vergonha nacional e as consequências associadas a esses dois sentimentos:

Vergonha é um conceito muito perigoso quando tratamos de política. Sabemos que historicamente a direita e a extrema direita recorreram ao conceito de vergonha nacional como parte de seu arsenal retórico. “Nosso grande povo, nosso grande país, foi submetido à vergonha de ser humilhado, e temos que nos erguer.” Isto justifica a violência; identificam-se os vetores dessa vergonha na sociedade, apontamos para os judeus ou quem quer que tenhamos à mão. Este discurso de humilhação nacional me preocupa. Já o encontramos durante as negociações do Brexit, quando Theresa May era a primeira-ministra. A imprensa britânica o usava todo momento. Theresa May se reunia em Bruxelas e lá não lhe davam tudo o que pedia, e as manchetes falavam em humilhação. Esta é uma forma de pensar na vergonha política sobre a qual devemos estar conscientes justamente para evitá-la. Entretanto, acredito que os progressistas têm que pensar nisto: você só pode usar a ideia de vergonha de uma forma positiva se ainda acredita no orgulho nacional, se é capaz de apresentar uma ideia progressista de orgulho por seu país. Acredito que isto seja o difícil para a esquerda: como articulamos a noção de orgulho nacional? William B. Yeats, o poeta irlandês, diz que há uma diferença entre o orgulho nacional e a vaidade nacional. A vaidade tem um componente de pele muito fina, em que preciso apresentar uma versão de mim mesmo que é falsa, livre de complicações, livre de pecado. Sabemos que é algo inventado, uma atuação. Já o orgulho nacional é algo relaxado, as coisas estão bem, estou à vontade sendo espanhol ou irlandês. Acredito que resta muito trabalho por fazer no que se refere a construir um discurso que contraste com o da extrema direita, essa extrema direita que já não é mais, porque se colocaram todos no centro! Temos que ser capazes de desmontar a ideia de vergonha e articular aquilo do que devemos estar orgulhosos. Que coisas devem nutrir nosso senso de pertencimento na hora de sermos norte-americanos, ou britânicos, ou irlandeses, ou espanhóis. A esquerda tende a evitar estas coisas porque sabemos que podem ser mal usadas e virarem algo tóxico. Quanto ao que diz Campbell… Parece que os britânicos se surpreendem com Boris Johnson. Todos nós sabíamos o que ele era. Aconteceu com Trump. Todos sabiam quem ele era. As pessoas não perceberam que um personagem como Johnson seria incompetente, e não quiseram ver que Trump seria autoritário e incompetente, um desastre. São personagens que não teriam que estar metidos em política. 

 

PUBLICIDADE

 

O Mateador – poema de Arabi Rodrigues

O quadro “Mateando”,  da artista Yassmine Uequed Pitol, inspirou uma belíssima pajada do poeta  gaúcho Arabi Rodrigues. Vale a pena lê-la: 

 

Um mate, feitio caseiro
tem sabor de pampa largo
e a consciência do encargo
de cuidar do pago inteiro.
-Quem ceva, sorve o primeiro
à frente dos convidados.
O ritual dos desgarrados,
possui conceitos fraternos,
templado ao frio dos invernos,
à mão dos abnegados.

A cuia, segue o ritual
pelo “lado de laçar”.
quem chega, tem ficar
a esquerda do “pedestal”.
-Por favor, não leve a mal,
tem que esperar tua vez,
escutas com altivez,
o que o outro, irá dizer,
para melhor compreender,
as razões dum camponês.

Mate, bebida sagrada,
sangue verde da querência;
que guarda na sua essência,
rufar de cascos, Arrancada,
céu de pátria, proclamada
ante a mão do Soberano.
Mate amargo, campejano,
descendência guarani,
nasceu e cresceu aqui,
no chão do vento minuano.

Mate amargo, tradição,
tão viva, quanto a bombacha.
“No grito de vai, ou racha”,
conserva a alma do chão;
réstia de luz, um brasão
onde a Capital se estriba,
mergulhando no Guaíba,
quando dia se desgarra,
como corda de guitarra,
“bien templada, un punto arriba”.

Me agrada, quando clareia
ao rosicler da manhã;
reverenciar o meu clã,
ao pé d’antiga candeia,
aonde o corpo mateia,
co’a alma dos ancestrais.
Palavras, toques, sinais,
ante o altar da memória.
Mate Amargo, nossa história,
na comunhão do Iguais.

N. casa do rio, junho, 25/20

Carlos Ruiz Zafón (1964-2020)

Morreu o escritor Carlos Ruiz Zafón - BOM DIA

“Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele.” – Carlos Ruiz Zafón

A literatura espanhola perdeu hoje o escritor catalão Carlos Ruiz Zafón.

Nascido em Barcelona, em 1964, Zafón foi um dos maiores best-sellers das literaturas ibéricas:  autor de obras como “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, “A Sombra do Vento”, “O Palácio da Meia Noite” e “O jogo do anjo” – todas publicadas no Brasil pela editora Planeta -, venceu diversos prêmios literários, como o Berry Award, Corrente D’Escritas e muitos outros.

O escritor vivia desde os anos 1990 em Los Angeles, mas nunca esqueceu as ruas, as sombras, o sol e as lendas de sua cidade natal, que transformou em um espaço poético cheio de símbolos e metáforas envolvendo as complexas relações entre leitura, realidade, ficção e arte.

Zafón enfrentava um câncer. Deixa sua esposa, Mari Bellver, e dezenas de milhões de leitores ao redor do mundo.

Vargas Llosa entrevista Borges

Jorge Luis Borges, em sua casa de Buenos Aires, em 1983.

Original publicado no jornal El País. 

 

Se precisasse nomear um escritor de língua espanhola de nosso tempo cuja obra irá perdurar, deixará uma marca profunda na literatura, citaria esse poeta, contista e ensaísta argentino que emprestou seu sobrenome a Graciela Borges, Jorge Luis Borges.

O punhado de livros que escreveu, livros sempre breves, perfeitos como um anel, onde se tem a impressão de que nada falta e sobra, tiveram e têm uma enorme influência nos que escrevem em espanhol. Suas histórias fantásticas, que ocorrem no Pampa, em Buenos Aires, na China, em Londres, em qualquer lugar da realidade e da irrealidade, mostram a mesma imaginação poderosa e a mesma formidável cultura que seus ensaios sobre o tempo, o idioma dos vikings… Mas a erudição em Borges nunca é algo denso, acadêmico, é sempre algo insólito, brilhante, divertido, uma aventura do espírito da qual nós leitores saímos sempre surpresos e enriquecidos.

A entrevista que Borges nos deu ocorreu no modesto apartamento do centro de Buenos Aires em que mora, acompanhado de uma empregada que também lhe serve de guia, já que Borges perdeu a vista há anos, e de um gato angorá batizado com o nome de Beppo porque, nos disse, era o nome do gato de um poeta inglês que admira: Lord Byron.

 

 

MARIO VARGAS LLOSA. Me impressionei muito ao ver sua biblioteca e não encontrar livros seus, não há um sequer. Por que não tem seus livros em sua biblioteca?

JORGE LUIS BORGES. Tenho muito cuidado com minha biblioteca. Quem sou eu para me comparar com Schopenhauer

MVLL. E não há livros sobre o senhor, vejo que não há nenhum livro dos que foram escritos sobre o senhor.

JLB. Eu li o primeiro que foi publicado durante a ditadura, em Mendoza.

MVLL. Qual ditadura, Borges? Porque infelizmente foram tantas…

JLB. A daquele…, de cujo nome não quero me lembrar.

MVLL. Nem mencioná-lo.

JLB. Não, também não. É bom evitar algumas palavras. Bom, foi publicado o livro Borges, Enigma y Clave, escrito por Ruiz Díaz, um professor de Mendoza, e por um boliviano, Tamayo. E eu li esse livro para ver se encontrava a solução, já que conhecia o enigma. Depois não li mais nenhum. Alicia Jurado escreveu um livro sobre mim. Eu lhe agradeci, disse: “Sei que é bom, mas o assunto não me interessa ou talvez me interesse muito, portanto não vou lê-lo”.

Mario Vargas Llosa, em janeiro de 1980.

Mario Vargas Llosa, em janeiro de 1980. BERNARD CHARLON / GETTY IMAGES

 

MVLL. O senhor também não leu a volumosa biografia publicada por Rodríguez Monegal.

JLB. E o que me diz, é muito boa?

MVLL. Pelo menos muito documentada e feita realmente com uma grande reverência, um grande afeto pelo senhor e um grande conhecimento, acho, de sua obra.

JLB. Sim, somos amigos. Ele é de Melo, não? Da República Oriental (Uruguai).

MVLL. Sim, além disso aparece em um de seus contos como personagem.

JLB. De Melo me lembro de uns versos muito bonitos de Emilio Oribe, que começam de maneira trivial e depois se exaltam, se alongam: “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casas”… Bom, isso não está muito… “coloniais casas”, “casas coloniais” ligeiramente diversas… “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casas, em meio à terrível planície interminável”, e agora se engrandece, “em meio à terrível planície interminável e próxima ao Brasil”. Como o verso vai crescendo, não? Como vai se ampliando.

MVLL. Principalmente da maneira em que o senhor diz.

JLB. Não, mas… “Eu nasci em Melo, cidade de coloniais casa” não é nada; “em meio à terrível planície interminável e próxima ao Brasil”, e já vê um império no final do verso. É lindíssima. Emilio Oribe.

MVLL. É muito bonito. Diga-me, Borges, quero lhe perguntar uma coisa há muitos anos. Eu escrevo romances, e sempre me senti magoado por uma frase sua belíssima, mas muito ofensiva a um romancista, uma frase que é mais ou menos a seguinte: “Desvario empobrecedor o de querer escrever romances, o de querer explicar em quinhentas páginas algo que pode ser formulado em uma só frase”.

JLB. Sim, mas é um erro, um erro inventado por mim. A indolência, não? A incompetência.

MVLL. Mas o senhor foi um grande leitor de romances e um maravilhoso tradutor de romances.

JLB. Não, não. Eu li muito poucos romances.

MVLL. Os romances, entretanto, aparecem em sua obra, são mencionados e até inventados.

JLB. Sim, mas fui derrotado por Thackeray. Por outro lado, gosto muito de Dickens.

MVLL. Achou Vanity Fair (A Feira das Vaidades) muito maçante.

JLB. Pendennis eu consegui ler, fazendo um esforço, com Vanity Fair não, não pude.

Joseph Conrad em 1919.
Joseph Conrad em 1919.

MVLL. Conrad, por exemplo, que é um autor que o senhor admira, não se importa com os romances de Conrad?

JLB. Mas claro que sim, por isso lhe digo que com escassas exceções. Por exemplo, o caso de Henry James, que era um grande contista e um romancista, digamos, de outro calibre.

MVLL. Mas, entre os autores mais importantes para o senhor, não há nenhum romancista?

JLB. …

MVLL. Mencionaria algum romancista entre os autores que considera mais importantes ou são principalmente poetas e ensaístas?

JLB. E contistas.

MVLL. E contistas.

JLB. Porque não acho que As Mil e Uma Noites seja um romance, não? Uma infinita antologia.

MVLL. A vantagem do romance é que tudo pode ser romance. Acho que é um gênero canibal, que traga todos os gêneros.

JLB. A propósito de “canibal”, o senhor conhece a origem da palavra?

MVLL. Não, não conheço, qual é?

JLB. Muito linda. Caribe, que deu caribal, e canibal.

MVLL. Ou seja, é uma palavra de origem latino-americana.

JLB. Bom, sem “latino”. Eram uma tribo de índios, os caribes, uma palavra indígena, e daí surgiu canibal e Caliban, de Shakespeare.

MVLL. Curiosa contribuição da América ao vocabulário universal.

JLB. Há tantas. Chocolate, que era xocoatl, creio, não? O tl se perdeu, infelizmente. Papa (batata), também.

MVLL. Qual foi a melhor contribuição da América ao campo da literatura em sua opinião? De toda a América: América espanhola, portuguesa… Algum autor, algum livro, algum tema?

JLB. Eu diria que o modernismo em geral. Era obra da literatura em língua castelhana, e isso surge deste lado, como demonstra Max Henríquez Ureña. Falei com Juan Ramón Jiménez e ele me disse da emoção com que recebeu um exemplar de Las Montañas del Oro (As Montanhas de Ouro), ano 1897. E seu influxo em grandes poetas na Espanha. Mas isso surge deste lado. E curiosamente, aqui estamos — não geograficamente— muito mais perto da França do que os espanhóis. Eu me dei conta na Espanha que podia elogiar a Inglaterra, elogiar a Itália, elogiar a Alemanha, elogiar até mesmo a América do Norte, mas se falava da França sentiam-se incomodados.

MVLL. O nacionalismo é algo muito difícil de erradicar em qualquer parte.

JLB. Um dos grandes males de nossa época.

MVLL. Gostaria de falar um pouco disso, Borges, porque… Posso lhe falar com toda a franqueza, suponho.

JLB. Sim, e quero lhe dizer que é um mal que corresponde à direita e à esquerda.

MVL. Algumas declarações políticas suas me desconcertaram, mas há um aspecto que quando o senhor fala merece toda a minha admiração e todo meu respeito, e é o assunto do nacionalismo. Acho que o senhor sempre falou com grande lucidez sobre esse tema ou, melhor dizendo, contra o nacionalismo.

JLB. E, entretanto, eu caí nele.

MVLL. Mas agora, nesses últimos…

JLB. O fato de ter falado das margens de Buenos Aires, o fato de ter conhecido payadores (na Argentina, cantor popular que, com o violão e geralmente acompanhado por outro, faz improvisos), de ter conhecido cuchilleros (espécie de bandoleiros urbanos da Argentina), de tê-los usado em minha literatura. Eu escrevi milongas (contos, histórias)… Tudo é digno da literatura, por que não também os temas vernáculos?

MVLL. Eu me referia ao nacionalismo político.

JLB. Isso é um erro, porque se alguém gosta de uma coisa em detrimento de outra é porque não gosta dela realmente. Por exemplo, se eu amo a Inglaterra em detrimento da França é um erro, preciso amar os dois países, dentro de minhas possibilidades.

MVLL. O senhor fez muitas declarações contra toda a possível ruptura de hostilidades entre a Argentina e o Chile.

JLB. Ainda mais. Eu atualmente, apesar de ser neto e bisneto de militares e mais remotamente de conquistadores, que não me interessam, sou pacifista. Acho que toda guerra é um crime. Além disso, se admitem-se guerras justas, que sem dúvida existiram —a guerra dos Seis Dias, por exemplo—, se admitimos uma guerra justa, só uma, isso já abre as portas a qualquer guerra e nunca faltarão razões para justificá-la, principalmente se são inventadas e prendem como traidores os que pensam de outro modo. De antemão, eu não havia percebido que Bertrand Russell e Gandhi e Alberdi e Romain Rolland tinham razão ao se opor à guerra, e talvez seja preciso mais coragem agora para se opor à guerra do que para defendê-la e até participar dela.

MVLL. Aí concordo com o senhor. Acho que é muito exato o que diz. Qual é o regime político ideal para o senhor, Borges? O que gostaria para seu país e a América Latina? Qual regime lhe parece o mais adequado para nós?

JLB. Eu sou um velho anarquista spenceriano e acho que o Estado é um mal, mas por enquanto é um mal necessário. Se eu fosse ditador renunciaria a meu cargo e voltaria a minha modestíssima literatura, porque não tenho nenhuma solução a oferecer. Eu sou uma pessoa desconcertada, acovardada, como todos os meus conterrâneos.

MVLL. Mas o senhor se considera um anarquista, basicamente um homem que defende a soberania individual contra o Estado.

JLB. Sim, mas não sei se somos dignos. Em todo caso, não acho que este país seja digno da democracia e da anarquia. Talvez em outros países possa existir, no Japão e nos países escandinavos. Aqui evidentemente as eleições seriam maléficas, nos trariam outro Frondizi e outros…, etc.

MVLL. Esse ceticismo não está em desacordo com algumas declarações suas otimistas que faz sobre a paz, justamente contra a guerra, ultimamente contra as torturas e toda forma de repressão.

JLB. Sim, eu sei. Mas não sei se isso pode ser útil. Fiz essas declarações por motivos éticos, mas não acho que sejam prestativas, não acho que possam ajudar alguém. Podem me ajudar a tranquilizar minha consciência, nada mais. Mas se eu fosse governo, não sei o que faria, estamos em um beco sem saída.

MVLL. Eu lhe entrevistei há quase um quarto de século em Paris e uma das coisas que lhe perguntei…

JLB. Quarto de século… Pare. Que tristeza se vamos falar de quarto de século…

MVLL. …uma coisa que lhe perguntei foi o que opina da política, e o senhor sabe o que me respondeu? “É uma das formas do tédio”.

JLB. Ah, bom, está bem.

MVLL. É uma bonita resposta e não sei se a repetiria agora: continua pensando que é uma das formas do tédio?

JLB. Bom, eu diria que a palavra tédio é um pouco dócil. Em todo caso chateação, digamos. Tédio é muito… É um understatement (eufemismo)…

MVLL. Há algum político contemporâneo que o senhor admira, que respeita?

JLB. Eu não sei se é possível admirar políticos, pessoas que se dedicam a concordar, a subornar, a sorrir, a se fazer retratar e, os senhores me desculpem, a ser populares…

Jorge Luis Borges em sua casa de Buenos Aires, em 1983.
Jorge Luis Borges em sua casa de Buenos Aires, em 1983.CHRISTOPHER PILLITZ / GETTY IMAGES 

MVLL. Quais tipos de humanos o senhor admira, Borges? Aventureiros…

JLB. Sim, os admirei muito, mas agora não sei. Precisam ser aventureiros individuais.

MVLL. Qual, por exemplo. Lembra de algum aventureiro que gostaria de ser?

JLB. Não, eu não gostaria de ser outra pessoa.

MVLL. O senhor está contente com o destino de Borges.

JLB. Não, não estou contente, mas sei que com outro destino seria outra pessoa. E como diz Spinoza, “cada coisa requer a solidão de seu ser”. Eu insisto em ser Borges, não sei por quê.

MVLL. Lembro de uma frase sua: “Muitas coisas li e poucas vivi”, que por um lado é muito bonita e por outro parece nostálgica…

JLB. Muito triste.

MVLL. Parece que o senhor a deplora.

JLB. Eu escrevi isso quando tinha trinta anos e não me dava conta de que ler também é uma forma de viver.

MVLL. Mas não há uma nostalgia no senhor de coisas não feitas por ter dedicado tanto tempo à vida puramente intelectual?

JLB. Acho que não. Creio que ao longo do tempo se vive essencialmente todas as coisas e o importante não são as experiências, e sim o que se faz com elas.

MVLL. Suponho que isso lhe deu um grande desprendimento pelas coisas materiais. Isso se vê ao chegar em sua casa. O senhor vive praticamente como um monge, sua casa é de uma enorme austeridade, seu quarto parece a cela de um trapista, realmente é de uma sobriedade extraordinária.

JLB. O luxo me parece uma vulgaridade.

MVLL. O que o dinheiro significou em sua vida, Borges?

JLB. A possibilidade de livros e de viagens e de elaborá-los.

MVLL. Mas o dinheiro nunca lhe interessou, o senhor nunca trabalhou para ganhar dinheiro?

JLB. Bom, se o fiz parece que não consegui. Evidentemente a prosperidade é melhor, superior à indigência, principalmente em um local pobre, em que se é obrigado a pensar em dinheiro o tempo todo. Uma pessoa rica pode pensar em outra coisa. Eu nunca fui rico. Meus pais foram, tivemos fazendas e as perdemos, foram confiscadas, enfim, não acho que isso tenha maior importância.

MVLL. O senhor sabe que boa parte dos países dessa terra hoje em dia vivem em função do dinheiro, a prosperidade material é seu estímulo.

JLB. É natural que seja assim, sobretudo se há essa pobreza. Em que outra coisa pode pensar um mendigo a não ser em dinheiro e comida. Se você é muito pobre precisa pensar em dinheiro. Uma pessoa rica pode pensar em outra coisa, mas um pobre, não. Da mesma forma que um doente só pode pensar na saúde. A pessoa pensa no que lhe falta, não no que tem. Quando eu tinha vista não pensava que isso era um privilégio, por outro lado daria qualquer coisa para recobrar minha vista e não sairia dessa casa.

MVLL. Borges, uma coisa que me surpreendeu na modesta casa em que o senhor mora, principalmente em seu austeríssimo quarto, é ver que um dos poucos objetos que existem no quarto é a condecoração da Ordem do Sol que o Governo peruano lhe deu.

JLB. Essa condecoração voltou à família após quatro gerações.

MVLL. Como assim, Borges?

JLB. Meu bisavô a obteve, o coronel Suárez, que liderou uma carga de cavalaria peruana em Junín, obteve essa Ordem e foi promovido de capitão a coronel por Bolívar. Depois essa Ordem se perdeu na guerra civil. Ainda que minha família fosse unitária e eu sou parente distante de Rosas —bom, todos somos parentes nesse país quase desabitado—. Voltou após quatro gerações, por razões literárias, e eu fui com minha mãe a Lima e ela chorou porque lembrava de ter visto essa condecoração nos retratos de meu bisavô e agora a tinha nas mãos e era para seu filho. Estava muito, muito emocionada.

MVLL. Ou seja, a relação do senhor com o Peru se remonta a muitas gerações.

JLB. Sim, a quatro gerações. Não, é anterior, vou lhe dizer, eu estive… Ah, não, não, espere… Sim, eu estive em Cuzco e vi uma casa com um escudo com cabeça de cabra, e daí saiu Jerónimo Luis de Cabrera há quatrocentos anos para fundar uma cidade que se chama Ica, que não sei onde fica, e a cidade de Córdoba, na República Argentina. Ou seja, é uma velha relação.

MVLL. Então o senhor, de alguma maneira, também é peruano.

JLB. Sim, claro que sim.

MVLL. Que ideia fazia do Peru antes de ir a Lima?

JLB. Uma ideia muito vaga que acho que estava baseada principalmente em Prescott.

MVLL. Na História da Conquista do Peru de Prescott. Quando leu essa história?

JLB. Devia ter sete ou oito anos, talvez. O primeiro livro de história que eu li em minha vida. Depois li História da República Argentina de Vicente Fidel López, e depois as histórias romanas e gregas. Mas o primeiro livro que eu li, throughout, ou seja, do começo ao fim, foi esse.

MVLL. E que ideia fazia do Peru, a de um país talvez mítico?

JLB. Um pouco mítico, sim. E depois eu fiquei muito amigo de um escritor esquecido entre vocês, o peruano Alberto Hidalgo, de Arequipa.

MVLL. Que viveu muito tempo na Argentina, não é verdade?

JLB. Sim, e ele me mostrou um poeta de quem eu sabia muitas composições de memória.

MVLL. Que poeta, Borges?

JLB. Eguren.

MVLL. José María Eguren.

JLB. Sim, exatamente. O livro se chamava “La niña de la lámpara azul (A menina da lanterna azul)”, não?

MVLL. É um poema, um dos poemas mais conhecidos de Eguren.

JLB. Sim. E havia outro… Tenho uma vaga imagem de um barco e de um capitão morto que viaja com o barco. Não me lembro dos versos.

MVLL. É um poeta simbolista de uma grande ingenuidade e delicadeza.

JLB. Uma grande delicadeza. Não sei se ingenuidade. Eu acho que era deliberadamente ingênuo.

MVLL. Digo ingenuidade não no sentido pejorativo.

JLB. Não, não. A ingenuidade é um mérito, claro.

MVLL. Nunca saiu do Peru e acho que nunca de Lima e escreveu boa parte de sua obra sobre um mundo nórdico, de fadas escandinavas e temas especialmente exóticos para ele.

JLB. É que a nostalgia é muito importante.

MVLL. Talvez isso estabeleça alguma afinidade entre vocês dois, entre Eguren e o senhor.

JLB. Sim. É verdade que eu estou pensando em países que não conheço e que conheci muito depois. Gostaria tanto de conhecer a China e a Índia…, ainda que literariamente conheça muita coisa.

MVLL. Qual país gostou mais de conhecer, Borges?

JLB. Eu não sei, diria que o Japão, a Inglaterra e…

MVLL. A Islândia, por exemplo?

JLB. A Islândia, certamente, porque eu estou estudando o idioma nórdico, que é a língua mãe do sueco, do norueguês, do dinamarquês e parcialmente do inglês também.

MVLL. É um idioma que não é mais falado há quantos séculos?

JLB. Não, não, é falado contemporaneamente na Islândia. Eu tenho edições dos clássicos, obras do século XIII, essas edições, que me foram presenteadas e comprei em Reykjavík, não têm glossário, prólogo e notas.

MVLL. Ou seja, é um idioma que não evoluiu, que continua sendo o mesmo ao longo de oito séculos.

JLB. É que eu suspeito que a pronúncia mudou. Eles podem ler seus clássicos como um inglês pode ler por exemplo Dunbar, Chaucer, e como nós podemos ler, não sei, o Cantar de Mio Cid e os franceses La Chanson de Roland.

MVLL. E os gregos a Homero.

JLB. Sim, exatamente. Eles podem ler seus clássicos em edições sem notas, sem glossários, pronunciando-os sem dúvida de maneira diferente. Mas, por exemplo, a pronúncia inglesa também mudou muito. Nós dizemos To be or not to be e parece que Shakespeare no século XVII ainda dizia, conservado as vogais abertas saxãs: “Tou be or nat tou be”. Isso é muito mais sonoro, completamente diferente, e é quase cômico hoje.

MVLL. Borges, essa curiosidade e, mais do que curiosidade, esse seu fascínio pelas literaturas exóticas…

JLB. Não sei se são exóticas…

MVLL. Me refiro a seu interesse pela literatura nórdica e anglo-saxã.

JLB. Bom, a anglo-saxã é a antiga literatura inglesa.

MVLL. …o senhor acha que tem algo a ver com…

JLB. Com a nostalgia?

MVLL. Com a Argentina, com o fato de que a Argentina é um país totalmente moderno, quase sem passado.

JLB. Eu acho que sim, e que talvez uma de nossas riquezas seja a nostalgia. A nostalgia da Europa, sobretudo, que um europeu não pode sentir porque um europeu não se sente europeu e sim, digamos, inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, russo…

Buenos Aires, junho de 1981.

‘Medio siglo con Borges’. Mario Vargas LLosa. Alfaguara, 2020. 112 páginas. 17,90 euros (101 reais) (edição impressa) / 8,99 (51 reais) (digital). Será publicado em 18 de junho.

PUBLICIDADE

119 anos de Murilo Mendes

No dia 13 de maio de 1901, em Juiz de Fora (MG), nascia o poeta Murilo Mendes.

Filho de um funcionário público, Murilo mudou-se para o Rio de Janeiro ainda na juventude. Ali exerceu diversas atividades: foi auxiliar de contabilidade, telegrafista, funcionário de cartório e inspetor de ensino. Mais tarde viveu em Roma, onde foi professor de literatura brasileira. Seu primeiro livro, “Poemas”, data de 1930, e nele predomina a influência do Movimento Modernista de 1922. Converteu-se ao catolicismo em 1934. A partir de “Tempo e Eternidade”, de 1935, sua obra trará a marca da mística cristã presente em autores como Bernanos e León Bloy.

A poesia de Murilo Mendes revela uma ânsia pela totalidade em um mundo destroçado, que ele, o poeta, busca reconciliar e regenerar através da arte – uma arte sob o manto da Graça cristã. Nas palavras de Alfredo Bosi, Murilo é o “poeta de aderência ao ser, poeta cósmico e social que aceita a fruição dos valores primordiais”.

No dia do aniversário de Murilo, convido todos à fruição daquilo que faz de alguém um poeta: a sua própria poesia.

Deixamos uma de nossas preferidas, “Exilado”, de 1952.

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.

Bernanos: “São os democratas que fazem as Democracias”

“O erro clássico do povo inglês foi sempre o de acreditar que as instituições o tornaram livre, ao passo que foi o próprio povo inglês que, outrora, no tempo de sua juventude, marcou as instituições com o sinal da liberdade como se o fizesse com ferro quente. São os democratas que fazem as Democracias, é o cidadão que faz a República. Uma Democracia sem democratas, uma República sem cidadãos já é uma ditadura, é a ditadura da intriga e da corrupção”.

Georges Bernanos (“A França contra os robôs”, página 29).

                                                                               PUBLICIDADE

Rubem Fonseca (1920-2015)

Escritor Rubem Fonseca morre, aos 94 anos, no Rio de Janeiro

Hoje, dia 15 de abril, o Brasil perdeu Rubem Fonseca, morto aos 94 anos após sofrer um infarto.

Autor de obras referenciais como “Feliz Ano Novo” (1976), “Agosto” (1990) e “Bufo e Spallanzani” (1986), foi um dos mais inovadores contistas brasileiros. Ex-delegado de polícia, inseriu suas experiências com o submundo do crime carioca na ficção brasileira, tratando dos personagens desse submundo com rara humanidade.

Rubem Fonseca venceu o Prêmio Camões em 2003, o maior galardão da língua portuguesa.

50 anos sem Manuel Bandeira

19 de abril de 1886 – 13 de outubro de 1968

 

 Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

“Barriga de aluguel” é tema de livro de jurista brasileira

Livro Bruna

A expressão “barriga de aluguel” é bem conhecida do público brasileiro: já foi mesmo tema de telenovela nos anos 90, quando ganhou certa notoridade a prática de uma mulher emprestar seu útero para gestar o bebê de outra pessoa. Bem menos famoso, contudo, é o seu nome técnico, “gestação de substituição”.

Sua prática toca em complicadas questões biológicas, éticas, jurídicas e políticas. Essas questões, e muitas outras, são abordadas por Bruna Kern Graziuso em “Úteros e fronteiras – gestação de substituição no Brasil e nos Estados Unidos”. A obra propõe um estudo comparado das legislações brasileira e norte-americana sobre o assunto e lança a hipótese de uma legislação internacional.

Para adquirir o livro e obter mais informações, acesse aqui.

Lembrança de Massaud Moisés

Resultado de imagem para massaud moisés

Na última quarta-feira, dia 11 de abril,  o mundo literário brasileiro perdeu o professor Massaud Moisés.

Filho de imigrantes libaneses, o professor Moisés foi titular da cadeira de Literatura Portuguesa da USP por décadas, sendo responsável por vários estudos pioneiros sobre autores lusitanos no Brasil.

Seu nome foi especialmente conhecido dos acadêmicos de Letras, que tinham em obras como “Dicionário de Termos Literários”, “Análise Literária” e “A Criação Literária” um amparo fundamental para seus estudos nas disciplinas de Teoria Literária, Crítica Literária e História da Literatura. Merecem também destaque os volumes de ensaios “Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge”, “Machado de Assis: Ficção e Utopia” e “Literatura: mundo e forma” –  sem esquecer jamais de “A Literatura Portuguesa”, manual dedicado ao estudo da literatura que tanto amava.

Vítima de um AVC, o professor Moisés havia completado 90 anos dois dias antes de seu falecimento. Como sofria de problemas cardíacos, já não assistia aos jogos do seu time, o Corinthians, do qual era fanático, por medo do pior. Deixa três filhos e dois netos.

129 anos de John Reed

Hoje, o jornalista norte-americano  John Reed completaria 129 anos.

Em 1999, a prestigiada Faculdade de Jornalismo da Universidade de Nova York elaborou uma lista das 100 melhores livros de jornalismo de todos os tempos. Na sétima posição, à frente de Truman Capote, Hannah Arendt, Tom Wolfe, H.L. Mencken e Norman Mailer, estava John Reed e seu Dez dias que abalaram o mundo. 

Sua escolha foi cercada por controvérsias: no meio de vários conservadores, centro-esquerdistas, liberais e apolíticos – isto é, tudo o que é aceitável dentro do espectro político das democracias ocidentais -, Reed era o único abertamente comunista. Houve quem sugerisse que a colocação de Reed em posição tão elevada fosse uma manobra da propaganda esquerdista: ele só estaria lá por causa de suas posições políticas, e não de sua excelência literária e jornalística.

Respeitosamente, somos obrigados a discordar. E discordamos com a tranqüilidade de quem não está de acordo com as posições políticas de Reed. Não é preciso fechar os olhos para o que foi a Revolução Russa e para as atrocidades do comunismo dentro e fora do Leste Europeu para admirarmos seu trabalho. Não é preciso ser comunista para ler Dez dias que abalaram o mundo. Mas, para escrevê-lo, foi preciso que Reed tivesse sido o comunista que foi. Seu grande mérito foi ter usado a sua proximidade com a causa socialista como instrumento para conseguir pintar um quadro mais elaborado e profundo do que o jornalista comum poderia fazer. E se há alguma dúvida sobre o valor de seu trabalho podemos lembrar que o diplomata americano George Kennan, um dos maiores adversários do comunismo durante a Guerra Fria, considerava a obra de Reed o maior relato sobre a Revolução Russa já escrito; e podemos, também, lembrar que Josef Stalin, presidente da URSS, proibiu-a de circular. O que é mais um atestado de como a análise aniversariante de hoje sobrevive às disputas ideológicas.

Dois anos sem João Ubaldo Ribeiro

Há dois anos a literatura brasileira perdia um dos seus mais originais e inventivos romancistas: o baiano João Ubaldo Ribeiro.

De sua extensa obra, talvez os livros mais conhecidos e admirados sejam “Sargento Getúlio” e “Viva o Povo Brasileiro”, que merecem leitura e releitura constantes.

Foi agraciado com o Prêmio Camões em 2008 e com o Jabuti em 1972 e 1984.

 

 

 

Yang Jiang(1911-2016)

1464165862661_977

Os chineses devem muito a esta senhora da foto. Trata-se de Yang Jiang, responsável pela primeira tradução de “Dom Quixote” para o chinês.

Educada em Oxford, casada com o romancista Qian Zhongshu, Jian aprendeu castelhano aos 48 anos (já falava inglês e francês fluentemente). Logo depois, foi enviada para uma temporada em campos de trabalho forçado no interior da China – que viraram matéria para um romance, “Batismo”, ainda inédito em português. Ela, o marido e outros milhares de intelectuais chineses tiveram de ser “reeducados” para – segundo os líderes comunistas – melhor compreenderem o mundo proletário de seu país.

Em 1978, aos 67 anos, publicou a sua tradução completa da obra-prima de Cervantes. A tradução tornou-se extremamente popular e é, até hoje, a mais conhecida e autorizada para a língua chinesa.

Jiang faleceu no último dia 25 de maio, aos 104 anos de idade.

Agradecemos à estudante de Letras Nathalia Hecz pela notícia que inspirou este post. 

A biblioteca de Fernando Pessoa

A Casa Fernando Fernando disponibiliza, desde o fim do ano passado, a biblioteca pessoal do poeta português para consulta online. Devidamente cadastrados por autor, data, título e estante, os livros foram todos convertidos para o formado PDF e podem ser acessados a qualquer momento.

Ali estão, é claro, os clássicos portugueses e os de todas as épocas e lugares (sobretudo os de língua inglesa, especialidade do poeta), o que seria de se esperar em se tratando de um escritor. Há também uma coleção respeitável de G.K. Chesterton (seis volumes), vários filósofos da época (Bertrand Russel, Alfred North Whitehead e outros) e autores ligados ao esoterismo, como Madame Blavatsky e Aleister Crowley.

Chama a atenção a presença de tantos livros de direito e ciência política, inclusive alguns que – ao menos no Brasil – somente passam pelas mãos de especialistas na área. É o caso de Otto Gierke e suas “Political theories of the Middle ages”, Walter Bagehot e sua “The English Constitution”, León Duguit e seu ” Le droit social, le droit individuel et la transformation de l’État” – leituras que ficariam bem na prateleira de qualquer aluno de Direito das primeiras décadas do século XX. Ideologicamente, há espaço para tudo, do socialista Ramsay Macdonald, político do Partido Trabalhista inglês, aos ultraconservadores Charles Maurras e Heinrich Von Trietschke, passando por textos anarquistas e de pensadores nacionalistas de Portugal; há espaço, inclusive, para um livro sobre o velho ditador português António de Oliveira Salazar, que chegara ao poder pouco antes da morte de Pessoa.

Merece também destaque a seção dedicada às anotações que o poeta fazia durante as leituras. 

Segundo dia do curso “Dom Quixote e suas andanças” (PUCRS)

Ontem, dia 9, teve prosseguimento o curso “Dom Quixote e suas andanças”, realizado na Faculdade de Letras da PUCRS. Foi o segundo dos quatro encontros programados para abordar a obra imortal de Miguel de Cervantes Saavedra.

O evento se estenderá por todo o mês de abril, sempre aos sábados, e se encerrará no dia 23, data em que se completa 400 anos da morte de Cervantes.

O curso é ministrado por Celso Augusto Uequed Pitol, Michele Savaris e Tiago Pedruzzi e tem a coordenação das professoras Heloisa Orsi Koch Delgado e Janaina De Azevedo Baladão De Aguiar.

Junto ao evento, ocorre exposição da história em quadrinhos “O nascimento de um cavaleiro”, baseada na narrativa cervantina, de autoria de Yassmine Uequed Pitol.

12953018_1004886559585367_1166160516_o

Abaixo algumas fotos do evento deste sábado:

 

Arte do cartaz: Lucas Pedruzzi

Anotações da foto de capa de Denise Spanemberg Biavatti.

Encontrados dois poemas de J.R.R. Tolkien

Os dois poemas foram publicados em 1936 na revista da Our Lady School, em Abington, condado de Oxfordshire.

A descoberta foi possível graças ao trabalho conjunto de Wayne Hammond, reputado especialista na obra de Tolkien, e o diretor da escola, Stephen Oliver.

Hammond soube da existência dos dois poemas através de uma lista de trabalhos de Tolkien e entrou em contato com Oliver para tentar obter uma cópia da revista. Ao vasculhar a biblioteca da escola, o diretor não encontrou a publicação e encaminhou Hammond para a sede da ordem religiosa à qual a instituição pertence, em Londres, para tentar uma busca nos arquivos de lá.

No entanto, enquanto organizava um evento para ex-alunos, Oliver encontrou uma cópia da revista onde estavam os dois poemas.

“Sou um grande fã de Tolkien e fiquei emocionado por descobrir a conexão com a escola”, disse ele. “Como escritor, me sinto privilegiado por ter feito parte da descoberta destes trabalhos perdidos”.

Our-Lady´s-Abingdon-Schoolb

Intitulados “Noel” e “The Shadow Man”, os dois poemas trazem características que qualquer fã de “O Senhor dos Anéis” irá reconhecer facilmente.

No caso deste último, a referência é imediata: trata-se uma primeira versão do poema “The Shadow Bride”, publicado em 1962 no livro “As aventuras de Tom Bombadil” com algumas alterações.

Quanto a “Noel”, é um poema marcadamente cristão, com alguns aspectos que lembram o universo da Terra Média, como as menções à natureza, os jogos de claro e escuro e a própria estrutura rítmica ABAB, característica dos poemas do livro e da poesia inglesa medieval, que Tolkien tanto amava.

Eis os poemas:

NOEL
Grim was the world and grey last night:
The moon and stars were fled,
The hall was dark without song or light,
The fires were fallen dead.
The wind in the trees was like to the sea,
And over the mountains’ teeth
It whistled bitter-cold and free,
As a sword leapt from its sheath.
The lord of snows upreared his head ;
His mantle long and pale
Upon the bitter blast was spread
And hung o’er hill and dale.
The world was blind, the boughs were bent,
All ways and paths were wild :
Then the veil of cloud apart was rent,
And here was born a Child.
The ancient dome of heaven sheer
Was pricked with distant light ;
A star came shining white and clear
Alone above the night.
In the dale of dark in that hour of birth
One voice on a sudden sang :
Then all the bells in Heaven and Earth
Together at midnight rang.
Mary sang in this world below :
They heard her song arise
O’er mist and over mountain snow
To the walls of Paradise,
And the tongue of many bells was stirred
In Heaven’s towers to ring
When the voice of mortal maid was heard,
That was mother of Heaven’s King.
Glad is the world and fair this night
With stars about its head,
And the hall is filled with laughter and light,
And fires are burning red.
The bells of Paradise now ring
With bells of Christendom,
And Gloria, Gloria we will sing
That God on earth is come.

 
THE SHADOW MAN

 

There was a man who dwelt alone
beneath the moon in shadow.
He sat as long as lasting stone,
and yet he had no shadow.
The owls, they perched upon his head
beneath the moon of summer:
They wiped their beaks and thought him dead,
who sat there dumb all summer.
There came a lady clad in grey
beneath the moon a-shining.
One moment did she stand and stay
her head with flowers entwining.
He woke, as had he sprung of stone,
beneath the moon in shadow,
And clasped her fast, both flesh and bone ;
and they were clad in shadow.
And never more she walked in light,
or over moonlit mountain,
But dwelt within the hill, where night
is lit but with a fountain –
Save once a year when caverns yawn,
and hills are clad in shadow,
They dance together then till dawn
and cast a single shadow.

150 anos de Rudyard Kipling

RudyardKipling

No dia 30 de dezembro de 1865, no começo do que se entende por inverno em Bombaim, na Índia, vinha ao mundo Rudyard Kipling.

Filho de ingleses emigrados na então colônia, Kipling não partilhou do sofrimento que acomete o inglês quando desembarca nos trópicos. Ao contrário: sofreu quando voltou à Grã-Bretanha, ainda criança, e teve de encarar o inverno rigoroso, a neve, os ventos, a frieza do povo. Quando pôde, voltou à terra onde nasceu e dela fez seu mundo pessoal, de onde tirou inspiração para sua carreira literária. Um mundo que ele, no entanto, sempre enxergou com olhos indiscutivelmente britânicos.

Kipling escreveu muito: contos, romances, poemas. Venceu o Nobel de Literatura em 1907. As crianças do mundo todo até hoje se deliciam com as narrativas de “O Livro da Selva” e “Kim”;  Os adultos não cansam de ler e reler o seu poema mais famoso, “Se”, que um historiador indiano denominou certa vez “a essência do Baghavad Gita transposta em poesia”

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!

Tradução de Guilherme de Almeida

O novo best-seller britânico: Karl Marx

political_books_4

A ascensão do socialista Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista britânico vem provocando um curioso fenômeno nas livrarias do país: uma súbita procura por autores de esquerda.

É o que diz esta reportagem. 

Entre os livros que vêm despertando o interesse dos leitores estão os óbvios “O Capital” e “O Manifesto Comunista”, de Karl Marx. E não apenas de acadêmicos de ciências humanas, que costumam compor o público tradicional de leitores destas obras: é o público em geral que começou a comprá-las.

Mesmo livrarias não-especializadas na área vêm registrando o mesmo fenômeno. Segundo Vivian Archer, da Newham Bookshop, “são pessoas querendo saber mais sobre a história do movimento trabalhista e sobre os movimentos sindicais”.

Um dos títulos que mais têm chamado a atenção do público é “The Corbyn Couloring Book”, uma versão dos populares livros para colorir dedicada ao novo líder trabalhista. Criação do artista James Nunn, traz Corbyn em situações como um chá das cinco com a Rainha ou numa luta de boxe com David Cameron, primeiro-ministro do Partido Conservador e seu adversário político mais ferrenho.

“Meus encontros com Kafka”, por Otto Maria Carpeaux

“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”

Esse diálogo, que certamente não é dos mais espirituosos, foi meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao ser apresentado a ele, não entendi o nome. Entendi Kauka em vez de Kafka. Foi um equívoco.

Hoje, o “Kauka” daquele distante ano de 1921 é um dos escritores mais lidos, mais estudados e – infelizmente – mais imitados do mundo. Mas só Deus sabe quantos são os equívocos que formam essa glória. O romancista de “O Processo” é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do Complexo de Édipo, etc., etc., etc. Tudo, em torno de Kafka, é equívoco. Equívoco também foi aquele meu primeiro encontro com “Kauka”.

I

Foi em 1921, em Berlim. Embora só contando os anos do século, eu já tinha passado por duras experiências de guerra e revolução. Estudante universitário, agora, que sonhava com uma carreira literária. Berlim, naqueles anos do primeiro pós-guerra, foi um centro de vanguardas: expressionismo, dadaísmo, os primeiros pintores abstracionistas, simpatizantes do comunismo e fundadores de seitas religiosas e vegetarianas, uma boêmia na qual os jovens austríacos desempenhavam papel grande e barulhento – e alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel. No Café Românico, centro da boêmia, esses homens feitos ocupavam mesas especiais, de que ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca. Olhávamos para lá com inveja, escutando para apanhar, talvez, um pedaço de conversa. Rara foi a oportunidade de um convite para as tardes de domingo, no apartamento de um ou outro daqueles escritores, no bairro boêmio, mas elegante, do Bayrischer Platz, hoje um montão de ruínas. E numa dessas tardes cheguei a conhecer pessoalmente Franz Kafka.

Conheci poucos entre os presentes. Fui sumariamente apresentado. Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. – que tinha fama de Messalina – retirei-me para um canto já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. E então se desenrolou “aquele” diálogo:

“Kauka.”
“Como é o nome?”
“KAUKA!”
“Muito prazer.”

Foi este o começo e o fim do meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao sair do apartamento, perguntei a meu amigo e introdutor: “Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?” Respondeu: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância”.

II

Meu segundo encontro com Franz Kafka, talvez cinco anos mais tarde, foi outra vez em Berlim, no escritório de uma casa editora. Antes de ir para a Itália, onde continuei os estudos universitários, tinha feito alguns trabalhos para aquela editora, chamada Die Brücke (A Ponte), mas nunca consegui receber dinheiro. Voltando para Berlim, em 1926, ouvi que a casa acabava de entrar em falência. Fui para lá. O diretor me deixou esperar na antessala, mais de meia hora. Num cantinho vi um montão de livros, todos iguais. Tirei um exemplar, abri: “O Processo”, romance de Franz Kafka. Distraído, comecei a ler sem prestar muita atenção, quando o ex-diretor da ex-Brücke me bateu nas costas.

“Pagar não posso, querido”, dizia o homem, “mas se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser, a tiragem toda. O Max Brod, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Nem vendi três exemplares. Se você quiser pode levar a tiragem toda. Não vale nada”.

Fiquei triste. Tinha esperado um pagamento de 130 marcos, e o homem me quer dar seu encalhe. Agradeci vivamente, e com certa amargura. Mas levei comigo aquele exemplar que já tinha aberto.

Foi a maior burrice de minha vida inteira. Toda aquela tiragem foi vendida como papel velho e inutilizada. Um exemplar da 1ª edição de “O Processo” é hoje uma raridade para bibliófilos. Nos Estados Unidos paga-se mil dólares por um livro desses, ou mais. Se eu tivesse aceito o presente, seria hoje milionário… Aliás, fugindo da fúria nazista, em Viena, março de 1938, perdi minha biblioteca inteira, que foi depois confiscada e dispersada. Mas cheguei, mais tarde, a receber na Bélgica um grupo de volumes que tinha, pouco antes do desastre, emprestado ao cônsul geral dos Estados Unidos em Viena e que este fez questão de devolver ao legítimo dono. Um desses livros foi aquele exemplar da 1ª edição de “O Processo” que, desse modo, fica até hoje comigo. E não me pretendo separar jamais do livro, pois foi meu segundo encontro com Kafka.

Li mesmo, naqueles dias distantes de 1926, “O Processo”; a história de um homem, de vida normalíssima, que é, certo dia, preso por esbirros de um tribunal desconhecido, interrogado em porões sinistros, denunciado por ter cometido crime do qual ignora a natureza, instruído numa catedral escura e vazia que “a culpa sempre está acima de todas as dúvidas”, condenado e executado. Li, sem compreender o alcance e significação do relato. Mas impressionou-me fundo o ambiente do romance, as ruas estreitas, as casas decaídas e sinistras, a catedral escura e vazia, a irrupção do incompreensível e irracional em nossa vida de rotina. O romance deu-me a impressão do déjà vu: quando nos encontramos, no sonho, numa paisagem onde nunca estivemos e que, no entanto, nos é estranhamente familiar, como se já a tivéssemos visto. Um pesadelo.

Deu-me a mesma impressão no segundo romance, “O Castelo”, que saiu naqueles dias, levando à beira da falência mais outra editora. A história de um homem que pretende fixar residência numa cidade tiranicamente dominada pelos senhores do imponente castelo em cima da colina. Não lhe dão permissão para ficar. Só precariamente lhe toleram a existência incerta. É uma luta desesperada, e a autorização de residir, só a alcançará o homem na agonia. Outro mau sonho, do qual custou despertar.

Nesse meu segundo encontro com Kafka despedi-me dos seus livros com a firme convicção de se tratar de visões de extrema irrealidade. Como se Kauka estivesse morto e Kafka, nunca existido.

III

Descobri a realidade de Kafka em Praga: onde nunca antes estive.

Naqueles anos, fiz várias vezes a viagem Berlim-Viena, ida e volta, passando por Praga. Mas nunca antes me ocorrera saltar do trem na Estação Presidente Wilson, situada fora da cidade, que mal vi de longe, as luzes noturnas ou então a névoa fina da madrugada.

Numa madrugada assim – parece que foi em 1930 – assaltou-me a vontade de descer do trem para ver a cidade. Não sei o tcheco, e tinham-me dado o conselho de falar francês, de preferência ao alemão, pois era tensa a atmosfera em Praga; quase todos os dias, choques violentos entre tchecos e alemães. Cheguei no centro da cidade justamente para assistir a um choque de rua, mas foi de antissemitas contra judeus, odiados pelos tchecos porque costumavam falar alemão, e odiados pelos alemães porque eram judeus. Contaram-me um pequeno diálogo entre dois judeus praguenses:

– Veja como estamos sendo perseguidos.
– Em compensação, somos o povo eleito por Deus.
– Mas eu acho que já está na hora para Deus eleger um outro povo…

Vi, na Cidade Velha de Praga, um desses judeus, à porta de sua loja, esperando fregueses, uma cara em que milênios de perseguição e de estudo talmúdico tinham inscrito mil rugas, mas a boca cheia de sarcasmo e nos olhos um ar de grande suficiência, um complexo de superioridade. Um velho assim, intolerante como o diabo por causa da intolerância diabólica dos outros, deve ter sido o severo pai de Kafka, subjugando o filho – e assim encontrei a imagem de Kafka nas ruas estreitas e entre as sinistras casas decaídas em torno da sinagoga onde, conforme velha lenda, um rabino medieval tinha construído o Golem, um homem de barro, vivificado por um pedaço de papel com o secreto nome de Deus na boca. Certamente, uma daquelas lojas tinha pertencido ao velho Kafka. Certamente, nos porões daquelas casas tinha-se reunido o misterioso tribunal que condenou à morte o inocente culpado de “O Processo”… Preferi fugir desse ambiente.

Mas Praga é Praga. É uma das cidades mais belas do mundo. Atravessando o rio, o Vltava imortalizado pelo poema sinfônico de Smetana, levantei, na ponte, os olhos e vi lá em cima na colina o enorme Hradschin, o antigo Palácio Real, muito perto e no entanto parecendo inacessível nas alturas; e reconheci o “Castelo” de Kafka. Subi. Entrei, ao lado do castelo, na catedral gótica de São Vito, escura e vazia: e reconheci a igreja na qual o condenado, n´´O Processo”, ouve a voz da Lei. Enfim, eu tinha encontrado a realidade atrás daquele sonho fantástico.

Foi este meu terceiro encontro com Franz Kafka. Tinha-o reconhecido como filho de sua cidade de Praga, que lhe foi madrasta: o homem era austríaco, alemão, tcheco e judeu ao mesmo tempo, tipo dos “displaced persons” cujo lamento enche este nosso século. Kafka antecipara o destino de milhões de judeus e alemães, italianos e franceses, holandeses, poloneses e russos, “displaced persons” todos eles. E por isso tinha ele sentido tão bem que o próprio gênero humano é uma “displaced person” no Universo. E sua obra estava destinada a tornar-se expressão simbólica da angústia do nosso tempo.

Entreato

Pouco depois, eu mesmo era “displaced person”. Vim, enfim, para o Brasil, onde escrevi, salvo engano, o primeiro artigo em língua portuguesa sobre Franz Kafka. A repercussão foi considerável. Não teria sido tão grande se não começasse, logo depois, a “onda de Kafka” nos Estados Unidos e, depois, no mundo inteiro. E tão imitado se tornou o escritor de Praga que, enfim, se chegou a confundir o original e as cópias, até nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade, secamente acertando como sempre, notar: “FRANZ KAFKA, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”.

IV

O âmbito enorme dessa glória póstuma, uma das maiores do Século XX, senti-a mais vivamente quando, em 1953, passei uns meses na Europa. Vi livros de Kafka, no original e em traduções, e estudos sobre Kafka nas livrarias da França e da Itália, da Espanha e da Bélgica, da Dinamarca e da Holanda, da Alemanha e da Iugoslávia, assim como na Inglaterra e na Suíça. Vi artigos sobre Kafka nas revistas literárias. Encontrei frases de Kafka, que há poucos anos ainda eram propriedade exclusiva de herméticas seitas literárias, citadas em artigos de fundo político. Em toda parte. E na Áustria?

Franz Kafka não foi tcheco, porque escreveu em alemão. Não foi alemão, porque se considerava judeu. Não foi judeu, porque não tinha a fé dos seus antepassados nem o sentimento nacional dos seus contemporâneos. Foi aquilo que eram todos os cidadãos de Praga, fossem tchecos, alemães ou judeus, nascidos nos anos de 1880: um austríaco. Mas ninguém é profeta em sua terra. Na Áustria de hoje Kafka ainda é, apenas, objeto de discussões entre literatos. Os outros… Bem, eu fiz a experiência; e foi meu quarto encontro com Franz Kafka.

Em Viena, o escritor nunca se tinha demorado muito. Nada, na cidade, lembra sua presença invisível. E se tivesse, os oito anos de dominação nazista teriam tido tempo suficiente para apagar os vestígios. Mas ninguém pode apagar a morte, não é? Pois em Viena, Kafka morreu.

Ou antes, perto de Viena: na pequenina cidade de Kierling. Ali existe ou existia naquele tempo uma casa de saúde para a qual o transportaram doente e onde morreu. Fiz a peregrinação para Kierling.

Foi o mesmo mês em que Kafka, em 1924, morrera: junho. A paisagem mais risonha do mundo, vinhedos em toda parte, o sol do meio-dia não é forte demais, como no Medi­terrâneo, mas basta para fazer amadurecer um vinho inebriante. Ao longe, já desapareceu a cidade de Mozart e Beethoven. O trem, bitola estreita e muita fumaça, para quase em frente à igreja. Um carregador aproxima-se. Estou sem malas. O homem me quer mostrar o caminho para o lugar onde se vende o melhor vinho.

− Onde fica a casa de saúde do Dr. Hoff­mann?
− Está fechada. O doutor morreu.
− E quem mora lá agora? A casa ainda existe?
− Lá mora o Dr. Hugo, o filho. Também é médico. Mas…

O homem não terminou a frase. Com gesto mudo, mostrou-me o caminho. Não compreende por que fiz a viagem, de Viena, onde há tantos médicos melhores, médicos famosos. Certamente, é a primeira vez que alguém veio do Brasil para consultar em Kierling o Dr. Hoffmann; quem sabe como esse homem me receberá. O gesto do carregador, na estação, não foi animador.

Encontro com facilidade a casa. Fechada. O letreiro no portão, “Dr. Hugo Hoffmann, médico, clínica geral, consultas entre 3 e 6 horas”, está meio apagado. O consultório não parece dos mais procurados. Campainha rouca. Tão rouca como foi a voz do mais famoso paciente dessa casa. Minutos de espera. É o próprio Dr. Hugo Hoffmann quem abre, gordo, pesado, careca, olhos hostis:

− Ainda não são 3 horas…
− O senhor é filho do proprietário da clínica…
− Meu pai morreu há 19 anos. A casa de saúde está fechada. Se deseja outra, encontrará o endereço de uma na lista dos assinantes de telefone.
− Perdão, doutor, não sou doente, apenas quis perguntar por um paciente de seu falecido pai… Franz Kafka.
O homem ficou vermelho: − Kafka? Kafka? Já me perguntaram, não conheço, não conheci, não sei de nada, nada, nada. E com ruído estrondoso o Dr. Hoffmann fechou a porta.

Comportamento misterioso. O homem poderia transformar sua casa em museu, pedindo ingresso pago, mostrando a cama, os instrumentos com que o mais famoso paciente da Casa de Saúde Dr. Hoffmann foi operado, etc., etc. Prefere gritar que não sabe nada, nada, nada. Não haveria lá dentro nenhuma reminiscência?

No silêncio do meio-dia de verão fiz a volta da casa fechada. Através das grades olhei para dentro do jardim. Debaixo das árvores, umas velhas cadeiras. Certamente ali repousaram os doentes. Uma janela meio aberta: um quarto pequeno, cama branca, na mesinha uma garrafa de água. Talvez ali Franz Kafka morreu em 3 de junho de 1924; ao meio-dia.

Trinta anos é muito tempo. Ninguém, em Kierling, se lembra. Mas onde foi enterrado? O vigário é um bocado mais amável que o Dr. Hoffmann Filho. Abre o livro de registros, depois vira-se para mim:

− Kafka? Kafka? Não será nome judeu? Mas então ele não consta do meu livro de óbitos. Isto é uma paróquia católica apostólica romana.
− E os registros civis?
− Ah, estes foram transportados para Viena em 1930. Já tivemos um caso assim, questão de uma herança. Não adianta, os registros perderam-se em 1944, quando a cidade foi bombardeada.

O vigário, certamente, nunca leu aquela história de Kafka na qual uma alma só encontrou a paz definitivamente quando seu nome foi apagado, por Deus, no registro dos mortos.

V

Voltei de Kierling para Viena, ignorando que ali encontraria, mais uma vez, a sombra de Franz Kafka.

Amigos explicaram-me o caso do Dr. Hoffmann: provavelmente um ex-nazista que se assusta ao ouvir nome de judeu morto, com medo de ser denunciado como assassino. Afirmaram-me que não existem mais nazistas em Viena, mas que não foi possível apagar os vestígios todos de tantos anos de dominação. As bibliotecas públicas ainda estariam mais ou menos expurgadas; falta dinheiro, não é possível comprar todos os livros que foram destruídos. Se eu quiser acreditar ou não, a administração pública austríaca é tão vagarosa como a de todos os países; na veneranda Biblioteca Nacional ainda não encontraram tempo de retirar os livros de Kafka do chamado “inferno”, onde guardam os livros obscenos, proibidos, etc.

Parecia-me, por minha vez, que um “inferno” é o melhor lugar para os livros de Franz Kafka, cujos personagens nunca chegaram a entrar no Castelo e foram condenados à morte sem culpa formada. Mas a curiosidade não me deixou em paz. A Biblioteca Nacional da Áustria é uma das mais ricas do mundo. Está abrigada num palácio barroco que é, talvez, o maior e o mais suntuoso da cidade. Quando rapaz, nunca entrei na grande sala de leitura, que antes parece salão para a coroação de um imperador, sem sentir bater o coração, no silêncio dos livros e no silêncio dos bibliotecários. Perturbar-lhes a paz, um pouco, seria obra salutar; e divertida.

Pois os bibliotecários na Europa não são como os daqui. Entre nós, são moças encantadoras que sabem tudo de catalogação e classificação, mas não entendem nada do que está nos livros. Em compensação, são bonitas. E quando o serviço as obriga a subir escadas para as estantes em cima, contribuem para ampliar nossa visão panorâmica do mundo. Nada disso nos oferece um bibliotecário europeu, que é homem de 50 anos e usa barba comprida. Em compensação, sabe o que está dentro dos livros: mas só de certos livros. São eruditos especializados em certas disciplinas que não têm muito valor econômico. São assiriólogos, peritos em astrofísica, especialistas em histórias dos impérios iranianos da Idade Média, estudiosos das línguas dos índios peruanos ou da filosofia pré-socrática ou da flora e fauna da Groenlândia. Ninguém pode viver disso, mas é preciso que alguém estude isso e para esse fim o Estado os emprega como bibliotecários. Sabem tudo, das suas ciências abstrusas. Mas qualquer pergunta fora disso nos abre panoramas da sua ignorância enciclopédica.

Fui para a Biblioteca Nacional. Nos fichários procurei em K: não achei nada. O bibliotecário encarregado dos catálogos encaminhou-me para o subdiretor, lá na poltrona. Homem velho, mal-humorado porque interrompido na leitura de um manuscrito medieval. Expliquei a necessidade urgente de verificar o texto exato de uma frase numa obra de Kafka. O erudito olhou-me por cima dos óculos, como penetrando o fundo de minha alma. Por um instante senti-me como se tivesse 15 anos, tremendo no colégio perante professor severo. Mas a resposta restabeleceu-me a serenidade – até me teria alegrado, se não se misturasse com a hilaridade uma ponta de tristeza, de tantos anos passados e de tanta vida perdida. Pois a resposta do Sr. diretor foi esta: Não conheço. Como foi o nome? KAUKA?

Retirado daqui.

29 de outubro – Dia do livro

No dia de 29 de outubro de 1810 foi inaugurada  da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro por ordem do rei D. João VI, recém-chegado ao Brasil.

Por isso nós, brasileiros, celebramos hoje o Dia Nacional do Livro: para lembrarmos do dia em que os livros chegaram de fato ao Brasil.

Além disso, é um dia para lembrarmos deste magnífico patrimônio.

IBDP e ArtMed promovem cursos de atualização jurídica

11999964_898250830222856_1943736057_n

A entrada em vigor do novo Código de Processo Civil, prevista para o ano que vem, tem motivado advogados de todo o país a procurarem cursos de atualização. A demanda, como sempre acontece nessas situações, trata de fazer crescer as opções; e algumas destas nem sempre primam pela qualidade.

Felizmente, chegou às nossas mãos um material que atende plenamente às necessidades do público da área jurídica. Trata-se dos dois primeiros volumes do material de apoio do Programa de Atualização em Direito, promovido pela ArtMed Panamericana em parceria com o Instituto Brasileiro de Direito Processual.

O primeiro livro, que já tivemos a oportunidade de conferir, é dedicado ao novo CPC. São quatro artigos de especialistas em temas processuais, com destaque para o primeiro, de autoria de Cássio Scarpinella Bueno, onde é dada uma introdução panorâmica do novo código de maneira clara e didática. Merece também menção o segundo artigo, este de Ada Pellegrini Grinover, sobre os métodos consensuais de solução de conflitos no novo CPC.

O material serve como apoio para as aulas em EAD, ministradas a partir da página do programa, neste link.

É uma boa opção para quem quer se atualizar e ampliar conhecimentos sobre um diploma legal fundamental para o exercício da advocacia.

“Pensei em em adotar uma criança para entender os jovens”

Author Jonathan Franzen gestures as he speaks at an event at BookExpo America, Wednesday, May 27, 2015, in New York. (AP Photo/Mary Altaffer)

“Quem entende os jovens de hoje?”

Conhecer as pessoas é fundamental para qualquer escritor. Mas Jonathan Franzen, o premiado romancista americano autor de “Liberdade” e “As Correções”, levou essa ideia a outro nível: considerou seriamente adotar uma criança – um órfão iraquiano – com um objetivo, digamos, pouco usual: observar um ser humano crescer desde os primeiros dias a fim de compreender as gerações mais jovens. Afinal, tem 56 anos, e já não lhe é tão fácil entender os jovens.

“Uma das coisas que me botou isso na minha cabeça” – diz ele – “foi um senso de alienação vindo da geração mais jovem. Eles não pareciam ser, politicamente, do jeito que os jovens deveriam ser nessa idade. Eu achava que as pessoas deveriam ser idealistas e raivosas. E eles pareciam meio cínicos, não muito raivosos. Ao menos, não de um jeito acessível para mim.”

A situação inusitada bem poderia ser a premissa de algum romance do próprio Franzen.

Georges Bernanos: “Nós não éramos de direita”

“Os Grandes Cemitérios sob a Lua” talvez seja o mais conhecido livro de combate do romancista francês Georges Bernanos,  autor de “Sob o Sol de Satã” e “Diário de um pároco de aldeia”. Escrito no período em que residiu na Espanha, durante a tristemente famosa Guerra Civil daquele país,  é dirigido aos seus compatriotas como um alerta sobre o estado de coisas que ali presenciou.

Seria, contudo, erro grave reduzir o livro a um relato jornalístico da guerra civil espanhola. Surge então a dificuldade em classificá-lo. Se não é um relato de guerra, o que é? Um panfleto político? Um caderno de notas? Uma confissão? Segundo seu próprio autor, trata-se de um testemunho. E um testemunho visceral, visando o combate, animado pelo momento da guerra, onde forças nacionalistas (lideradas por Francisco Franco e apoiadas pela Itália fascista e pela Alemanha nazista) e as republicanas (apoiadas pelos soviéticos) encenaram muito do que aconteceria na Europa nos anos seguintes.

Ali, nos campos secos de Castilla, onde jazem milhares de corpos à sombra das ruínas, Bernanos busca respostas para mil dúvidas sobre o futuro da França, sobre a degeneração da política europeia, sobre a cristandade e sobre ele próprio. Quanto à Guerra Civil, em grande parte do livro sequer é mencionada. Quando isso ocorre, Bernanos não escolhe lado e fustiga republicanos e falangistas com igual vigor. No entanto, católico como era, mostra-se particularmente horrorizado com as brutalidades cometidas pelo bando nacionalista apoiado pela Igreja, a sua Igreja, cujos sacerdotes ele vê ao lado de militares corrompidos, abençoando execuções criminosas. E antevê aí o que Mussolini e Hitler planejam para os anos seguintes.

Bernanos pagou caro pela coragem. A direita, que via nele seu representante, rejeitou o livro com violência; chamou-o de traidor, vendido, perturbado. A esquerda, que nunca gostou dele, saudou-o pelas críticas a Franco e aos falangistas. Como é como em situações desse tipo, os dois lados estavam errados. Como bem viu Albert Camus, admirador e leitor exemplar de sua obra, Bernanos era homem para ser entendido e apreciado por inteiro, sem tentativas de enquadrá-lo em agrupamentos de qualquer gênero. Da mesma forma, aliás, que este grande livro.

*        *            *            *

“É verdade que a cólera dos imbecis inunda o mundo todo. Podem rir, se quiserem, ela não poupará ninguém, nada, ninguém, é incapaz de perdoar. Evidentemente, os doutrinários de direita ou de esquerda, cujo ofício é esse, continuarão a classificar os imbecis, enumerarão suas espécies e gêneros, definirão cada grupo segundo as paixões e os interesses dos indivíduos que o compõem, sua ideologia particular”. 

“Nós não éramos de direita! O círculo de estudos sociais que fundamos tinha o nome de círculo Proudhon, exibia esse patronato escandaloso. Fazíamos votos para o sindicalismo nascente. Preferíamos correr os riscos de uma revolução operária a comprometer a monarquia com uma classe que permaneceu, depois de um século, estranha à tradição de seus avós, ao sentido profundo de nossa história, e cujos egoísmo, estupidez e cupidez conseguiram estabelecer uma espécie de servidão mais inumana do que aquela abolida por nossos reis.”

“Compreendíamos muito bem que um jovem Príncipe moderno trataria mais facilmente com os chefes do proletariado, mesmo que extremistas, do que com as Sociedades Anônimas e com os Bancos.(…) Na Santé, onde permanecíamos, dividíamos fraternalmente nossas provisões com os operários de pavimentação, cantávamos juntos, alternando: Vive Henri IV ou a Internacional.” 

*        *            *            *

OS GRANDES CEMITÉRIOS SOB A LUA, de Sérgio Buarque de Holanda 

EDITORA: É Realizações

Nº DE PÁGINAS: 288

PREÇO: R$ 49,90

ONDE ENCONTRAR: www.erealizacoes.com.br

Juan Carlos Onetti

No dia 30 de maio de 1994 – há vinte e um anos, portanto -, perdíamos uma das mais talentosas figuras da literatura latinoamericana do século XX:  Juan Carlos Onetti.

Uma figura talentosa e menos apreciada do que deveria. Autor a ser colocado na mesma prateleira de García Márquez, Vargas Llosa ou Alejo Carpentier, Onetti não triunfou na Europa como eles. Isto se deve, em parte, ao fato de sua obra não trazer uma das marcas mais apreciadas em um escritor deste hemisfério: o exotismo. Em Onetti, não encontramos vilarejos perdidos em florestas, índios conduzindo lhamas, pirotecnias lingüísticas, tambores e roupas coloridas. Suas histórias se passam em centros urbanos – em especial na fictícia Santa Maria -, com personagens urbanos e problemas urbanos, cenário muito pouco atrativo para um leitor do Primeiro Mundo entediado com a vida e sequioso de aventuras na selva. Assim como Kafka e Tchekhov, ele é introspectivo, descreve pouco e não gosta de colorido. Talvez os europeus o tenham achado europeu demais.

Ainda que Onetti deva importância e reconhecimento sobretudo aos seus romances – em especial O Poço e A vida breve – ele foi também um contista admirável, como podemos conferir nos Contos Completos publicados pela Companhia das Letras (tradução de Josely Vianna Baptista, 448 páginas, R$ 42). São 47 histórias por onde desfilam personagens solitários, desiludidos com a vida, perdidos em um mundo que não compreendem e para o qual só há saída na evasão e no sonho, imediatamente despedaçados quando confrontados com a dura realidade.

Cristóvão Tezza, a Galiza e o idioma galego

“O que é especialmente interessante é a atração galega pela cultura e pela língua brasileiras, com as quais a Galiza parece se identificar mais profundamente do que com a própria Espanha, de que é parte política. As razões deste deslocamento deliberado da consciência galega estão além dos limites da crônica; fico na questão linguística, que é fascinante. Afinal, o nosso português veio de lá, bem antes que o Condado Portu­­calense se estabelecesse no século 11. O berço de nossas palavras é o noroeste da Península Ibérica, em que falava-se o que hoje se classifica como “galego-português”, uma língua de sonoridades vocálicas muito mais próximas do que viria a ser a língua brasileira do que o próprio idioma consonantal em que se transformou o clássico português lusitano. Um brasileiro passeando na Galiza ouvirá uma linguagem mais familiar aos ouvidos, com surpreendentes achados “caipiras” (“bassoura”, por exemplo), do que aquele estranho dialeto que se conversa em Lisboa e que custamos a compreender quando lá estamos.”

Cristóvão Tezza, em artigo sobre a ligação que temos – e devemos fomentar – com a Galiza.

Eduardo Galeano e sua relação com “As veias abertas da América Latina”

A partir de 3:10

“Eu suponho que me passa com “As veias”  o mesmo que se passou entre Quino e “Mafalda” (…) É uma relação muito complexa e contraditória.  Por um lado é um livro do qual me orgulho, do qual não me arrependo uma virgula, que influiu, e influi bem, para muita gente, não só para o publico latinoamericano e de lingua espanhola como para outras latitudes. Por outro lado, me sinto preso a este livro, é como se tivesse me aposentado muito cedo (…) Depois escrevi outros livros, muito mais abertos à diversidade do mundo, sobre outros temas. Por sorte o mundo não termina na economia política”

Dia do livro

Hoje, 23 de abril, comemora-se o Dia do Livro.

A escolha da data não foi aleatória. No dia 23 de abril  de 1616 faleceram Cervantes, Shakespeare e o peruano Garcilaso de la Vega. Também em  23 de abril nasceram Maurice Druon, o  co-autor de   “Le chant des partisans”, o hino da Resistência Francesa na 2ª Guerra Mundial( falecido aos 91 anos, no último dia 14 em Paris), o islandês K. Laxness (Prêmio Nobel em 1955) e  Vladimir Nabokov (autor de “Lolita”). O dia também marca o falecimento do catalão Josep Pla e do colombiano Manuel Mejía Vallejo.

Em lembrança a tudo isto, deixamos ao nosso leitor uma obra de nossa integrante, Madame Y, em homenagem ao livro:

livrode.jpg

imagem4.jpg

imagem21.jpg

liys.jpg

 

 

Uma página de Bernanos

“Ó vós, que nunca conhecestes do mundo senão cores e sons sem substância, corações sensíveis, líricos lábios onde as acres verdades somem-se como bombons – pequenos corações, pequenas bocas – isto não é para vós. Vossas diabruras dão na medida de vossos nervos frágeis, de vossos preciosos crânios, e o demônios de vosso ritual não é senão a vossa própria imagem deformada, pois todo devoto do universo carnal carrega consigo o seu próprio demônio. O monstro olha para vós, rindo, sem deitar-vos mesmo a sua garra. Nem ele está em vossos livros caducos, nem em vossas blasfêmias, nem em vossas ridículas pragas. Não está em vossos olhares cúpidos, em vossas mãos pérfidas, em vossos ouvidos vazios. Não o encontrareis ainda em vossa carne irrigada de lubricidade insaciável, pois nos lábios que beijais mordendo, só há sangue aguado e corrupto. Entretanto, o demônio está….está na oração do homem só, em seus jejuns e em suas penitências, nos abismos de seus mais profundos êxtases, na calmaria de seu coração. É ele que envenena as águas lustrais ou arde na cera dos altares, mistura-se ao hálito das virgens, lacera com o cilício e a disciplina, corrompendo todos os caminhos. Ainda está nos lábios que se entreabrem no arremedo da verdade, no êxtase beatífico do justo , povoado de relâmpagos e clarões, até nos braços de Deus ele pode pairar. Dispensa-se de disputar tantos homens à terra, em que se arrastam como animais, esperando que ela os cubra amanhã. Esse rebanho obscuro vai sozinho para seu destino….Na verdade, o ódio do inferno está reservado aos santos”.

(“Sob o sol de Satã”, Editora Agir,1947, tradução de Jorge de Lima, p. 104)

Borges sobre literatura, política e meras opiniões



“Digamos que o comunismo serviu para fazer dele [Pablo Neruda] um excelente poeta, do mesmo modo que a democracia serviu a Whitman, o imperialismo a Kipling, etc. Cada poeta requer a sua inspiração. E a inspiração é distinta em cada caso. Eu, por exemplo, admiro a Whitman, me encanta, mas não acredito na democracia. Finalmente, as opiniões são simples inspiração para cada poeta, e qualquer coisa pode servir de inspiração. Para muitos, bom, não sei, a religião cristã, é um bom exemplo. Foi uma inspiração para Dante; para mim não seria porque não acredito nela. Mas isso não significa que não acredite em Dante. Não creio em sua religião, em suas opiniões, o que não significa que não acredite nele. Porque ele, Dante, é algo essencial, algo que está para além de minhas pobres opiniões. Ademais, as opiniões mudam muito; uma mesma pessoa muda muito com o tempo, e não se deveria julgar a ninguém por uma opinião. É o menos importante, o mais banal, o mais passageiro e efêmero”.

Entrevista concedida à revista Fractal. 

A última entrevista de Günter Grass

Concedida há um mês ao jornal El País e publicada ontem, por ocasião de seu falecimento.

PREGUNTA.Como ser humano, ¿qué le da la escritura diaria de poesía?

RESPUESTA. Mi primer libro salió en los años cincuenta y fue un libro de poesía con dibujos. Solo más tarde empecé a escribir la novela El tambor de hojalata. En aquella época estaba en Berlín estudiando escultura. Escribía una novela y cuando la acababa tenía que cambiar de medio. En ese momento era la poesía, porque me daba cuenta de que al identificarme con tantas figuras de las novelas me alejaba de mí mismo. Y quería volver a mí mismo, y medirme también conmigo mismo en cierto sentido.

P. Y dibujaba.

R. Cuando dibujaba mucho tiempo tenía que volver a las palabras, a la poesía. Intentaba volver a reencontrarme, y a encontrar también el lugar en el que estaba porque toda mi actividad anterior me alejaba de mí mismo.

P. ¿Qué encuentra cuando vuelve a sí mismo?

R. En los años 50 y 60 tuve que llevar gafas y escribí un poema en el que aludía al asunto En ese poema digo que todo es más preciso pero está en oblicuo, que las impurezas se ven con más exactitud. Y a lo largo de los años también me doy cuenta del proceso de envejecimiento, de que hay cierta fatiga de los materiales del cuerpo y de que hay que acudir a un taller de reparación. También adquiero la conciencia de que todo es finito.

P. ¿Siempre tuvo esa impresión, también en su juventud?

R. Para mí estuvo clarísimo muy pronto, porque filosóficamente no estaba bajo la influencia de Heidegger sino de Camus. Es decir, que vivimos ahora y tenemos la posibilidad de hacer algo ahora con nuestra vida. Es El mito de Sísifo, que conocí después de la guerra. Con el transcurso de los años me di cuenta de que tenemos la posibilidad de la autodestrucción, algo que antes no existía: se decía que la Naturaleza era la que la producía las hambrunas, las sequías, algo cuya responsabilidad estaba en otra parte. Por primera vez somos responsables, tenemos la posibilidad y la capacidad de autodestruirnos y no se hace nada para eliminar del mundo ese peligro. Al lado de la miseria social que hay por todas partes ahora tenemos el problema del cambio climático, cuyas consecuencias ni siquiera tenemos en cuenta. Hay una reunión tras otra y la problemática sigue igual: no se hace nada.

P. Y los problemas aumentan.

R. Debemos añadir a eso el problema de la superpoblación. Todo junto me hace darme cuenta de que las cosas son finitas, de que no tenemos un tiempo indefinido. Si tenemos en cuenta el tiempo de existencia de nuestro planeta, sólo nos queda reconocer que somos unos invitados que pasamos un tiempo corto y muy determinado en este mundo y que lo único que dejamos atrás es la basura atómica. Si algún día alguien quiere saber qué es lo que hemos hecho lo que nos caracterizará será la basura atómica… En los años 70 y 80 escribí dos novelas épicas, El rodaballo y La ratesa; la capacidad del hombre para autodestruirse de la que hablo está reflejada en esas novelas.

P. No hay un solo libro de prosa entre los suyos que no vaya hacia el centro de su propia vida, desdeEl tambor de hojalatahastaPelando la cebollaoA paso de cangrejo…La ficción le sirve para contar su realidad por dentro…

R. Sí, y por eso quiero decir que este nuevo libro que va a salir en otoño es de textos breves en los que quiero mostrar la relación intensa entre la prosa y la lírica. Los germanistas normalmente separan entre géneros. Yo los quiero ver juntos porque creo que tienen relación: los límites entre la prosa y la lírica para mí no están definidos, están diluidos.

P. ¿Esa combinación le permite decir mejor lo que le pasa?

R. De mi madre he heredado dos talentos: para mí nunca fue un problema seguir una cosa y abandonar la otra. Entendí que tengo dos talentos, y que con mucho trabajo tengo que desarrollarlos e intentar expresarme a mí mismo partiendo de los dos. Elegir entre una cosa u otra no ha sido una alternativa sino un enriquecimiento. Por ejemplo, si escribía durante mucho tiempo tenía la sensación de que la escultura me hacía mucho bien porque sentía que expresaba algo de todos los lados a la vez, algo que estaba dentro del espacio. Muchos poemas empiezan con un dibujo; cuando tengo la idea de una metáfora la plasmo sobre el papel y luego intento pasarla a dibujo para ver si se sostiene o no. En Hallazgos para no lectorespintaba unas acuarelas y cuando aún no estaban secas ya empezaba a escribir poesías de cuatro o cinco líneas. Este es un buen ejemplo de cómo las disciplinas (la pintura, la escritura) se mezclan y se enriquecen mutuamente.

P. Humanamente, ¿qué significa el trabajo para usted?

R. Usted ha leído mis libros y sabe, como cuento en Pelando la cebolla, que a los 16 años pude sobrevivir por mera casualidad; en el plazo de tres o cuatro semanas, en la guerra, tuve cinco o seis posibilidades de sucumbir como muchísimos de mi edad. Estoy consciente de ello hasta hoy. El hecho de que trabaje lo máximo posible me sirve para probarme a mí mismo que he sobrevivido, que existo y que sigo viviendo, que estoy vivo.

P. Antes nombró a Camus. La obra de Camus es una explicación o expiación del dolor, una busca de la supervivencia a través de la literatura. ¿A Camus lo aprecia por esa misma actitud?

R. El ensayo sobre el mito de Sísifo describe el trabajo, lo horrible que es subir la piedra sabiendo que no sirve para nada porque la piedra va a volver a caer; sin embargo, Sísifo no tiene otra posibilidad más que subirla porque si no se quedaría sin función. Camus termina este ensayo diciendo que se puede considerar que Sísifo era un hombre feliz… Esto para mí era muy importante, una nueva interpretación del mito realmente muy excitante: toda la causa en el fondo es el dolor. Cada persona tiene su propia situación y yo me di cuenta de que no sólo podía expresarme artísticamente sino que tenía que tratar unos determinados temas, el de mi juventud, el de la capitulación absoluta de Alemania, con la destrucción total de todas las casas pero también con el desmoronamiento de las personas…

P. Una historia de dolor…

R. Durante toda mi vida, y hasta hoy, esto sigue igual. Y lo increíble es que Alemania es una historia sin terminar, porque el Holocausto y el genocidio, estos horribles crímenes, constituyen una historia que no acaba nunca. Ahora lo vemos en Grecia: nos enfrentamos otra vez con el problema de los horrores causados por los soldados alemanes durante la ocupación… Esa historia nos sigue y nos sigue… Así que vuelvo otra vez al tema del dolor de Camus: el dolor es la principal causa que me hace trabajar y crear.

P. Camus tiene esta frase: “El sol que reinó sobre mi infancia me privó de todo resentimiento…” ¿Su infancia también ha sido capital para desarrollar su posterior obra literaria?

R. En Pelando la cebolla hay un obituario sobre mi madre. Murió de cáncer a los 57 años. Volví a ver a mis padres y a mi hermana dos años después de terminar la guerra. A mi madre la habían expulsado de Danzig; cuando la vi era una mujer rota y vieja… Cuando niño le contaba muchas historias que salían de mi imaginación, y la imaginación de los niños es muy fértil. Ella decía: “Mentiras de niños”. Pero en el fondo le gustaban las mentiras. Siempre le decía que cuando fuera mayor y tuviera dinero la iba a llevar a países maravillosos y todas esas cosas…, pero como murió tan pronto nunca pude demostrarle que quería hacerlo de verdad. Nunca pude hacer nada por ella… Ella sufrió cuando le dije que quería ser artista; mi padre estaba completamente en contra y ella siempre me apoyaba, pero sí sufrió por ello. Yo todavía sufro porque no pude demostrarle nada de lo que le prometí. Tengo un marcado complejo materno: nunca he ido al psiquiatra y es la fuente de toda mi creatividad.

P. Dijo antes que enPelando la cebollanarra la historia de un joven (usted) que pudo haber muerto o desaparecido. No ocurrió, está usted aquí. De algún modo, ¿aquella guerra no lo hirió para siempre, a usted y a su generación?

R. Seguramente sí, hemos sido marcados por la II Guerra Mundial. Y lo más terrible son los efectos a largo plazo, que siguen y siguen. Por lo mismo mi generación está más atenta a los problemas del presente mientras que alrededor parece ahora que nos estemos metiendo en una III Guerra Mundial sin que podamos decir cuándo empezó. La II Guerra Mundial comenzó con la entrada de Alemania en Polonia, pero en el fondo ya había empezado antes con la Guerra Civil Española. Para Alemania, Italia, la URSS y demás la Guerra Civil española fue una ocasión para probar el armamento en un caso concreto. Al terminar, en el 39, empezó la II Guerra Mundial. En el 36 Japón empezó a meterse en Manchuria, y de allí a China, con aquella horrible matanza; o sea que también había otro foco de guerra en Asia… Ahora tenemos por un lado a Ucrania, cuya situación no mejora nada; en Israel y en Palestina es cada vez peor; el desastre que los americanos nos dejaron en Irak, las atrocidades del Ejército islámico y el problema de Siria, donde la gente se sigue matando pero casi ha desaparecido de los informativos… Hay guerra por todas partes; corremos el peligro de volver a cometer los mismos errores que antes; así que sin darnos cuenta nos podemos meter en una guerra mundial como si anduviéramos sonámbulos…

P. EscribióMi siglo,sobre el siglo XX y las maldades del mismo. Este siglo XXI ha prolongado la maldad y el lugar común es el fanatismo. ¿Es esa la maldad humana del siglo XXI?

R. Lo pongo en duda. Nunca digo que esto es bueno y aquello es malo, sería simplificar demasiado las cosas. Bush fue un problema… Bush hablaba de la maldad y eso no ayudaba a encontrar una solución: llevaba al maniqueísmo, al blanco y el negro… Lo que hay que hacer es recordar los principios de esta historia. Por ejemplo, ¿qué pasó después de la I Guerra Mundial? Cae el Imperio Otomano, se reparten los Balcanes y el petróleo se convierte en un elemento muy importante. Irak no existía antes, fue una invención de los poderes coloniales victoriosos de esa guerra mundial… Palestina era un protectorado inglés, del mismo modo que Siria lo era francés… Y el Holocausto generó el problema de Palestina. En el fondo todo eran anexiones de tierra y hasta hoy la causa del problema ha sido la actitud de los victoriosos de la I Guerra Mundial.

P. ¿Tenemos esperanza de que el hombre sea mejor en el siglo XXI? ¿Regresa al pasado y usted al predecir la III Guerra Mundial ve el futuro lo ve con pesimismo?

R. No es pesimismo. Me baso en la experiencia y en los fallos que hemos cometido, algo que se puede comprobar históricamente, así que tengo dudas de que el hombre vaya a mejorar. Otra cosa es si el hombre es capaz de aprender de los errores del pasado. Por ejemplo, miremos el conflicto con Rusia. Desde el desmoronamiento de la URSS, que ha sido un desastre, llegaron Yeltsin y Putin; ¡y luego vinieron Putin y Putin! Lo que intenta Putin es volver a reconstruir ese país que es Rusia… Putin ve en el 88 y 90, cuando todo se desmorona, que, a pesar de todas las promesas occidentales, la OTAN se acerca cada vez más. Y hay traumas rusos, desde Napoleón, desde la II Guerra Mundial, con 27 millones de muertos cuando llegaron los alemanes…, y ahora les vuelve el miedo a estar circundados por el enemigo. No digo que se justifique lo que han hecho en Crimea, es injustificable, pero hay que entenderlo y es lo que hemos de hacer, entender a Rusia.

P. Y no la entendemos.

R. Hemos perdido la capacidad de entender los errores que hemos cometido nosotros después de 1989. Después del desmoronamiento de la URSS se disolvió el Pacto de Varsovia, pero la OTAN ha seguido tan pancha. No ha habido serias tentativas de crear una nueva alianza de seguridad incluyendo a Rusia, y eso son fallos tremendos. Se promete a Ucrania que formará parte de la Unión Europea y luego de la OTAN, y es lógico que un país como Rusia reaccione nervioso. Todas esas reacciones de Putin tienen sus causas, y a pesar de que en Europa estamos acostumbrados a colaborar en lo económico y financiero no hemos conseguido crear una política exterior común; todavía dependemos demasiado de los deseos de los americanos y Estados Unidos está muy lejos de nosotros y de lo que tendremos que hacer. Si los republicanos llegan al poder tendremos un nuevo rearme y de repente habrá una potencia militar enfrente de Rusia.

P. Ha creado muchas metáforas. La que más ha calado es la Óscar Matzenrath. Daría la impresión de que ese personaje que no quería crecer ni mezclarse con el mundo adulto hoy tampoco querría crecer…

R. La diferencia entre el siglo XX y el XXI es que el XX estaba caracterizado por las ideologías, y no sólo por el fascismo italiano, el nacionalsocialismo alemán o el comunismo, sino también por elamerican way of life y por el capitalismo dominante. Lo único que ha quedado de todas estas ideologías es el capitalismo y el capitalismo es capaz de cambiar. Pero el capitalismo está autodestruyéndose; todas esas cantidades irracionales de dinero que pasan por el mundo entero ya no tienen nada que ver con la economía real. Esta irracionalidad no estaba tan marcada en el siglo XX… Óscar sería hoy una persona distinta, tendría que luchar contra resistencias distintas, y asimismo se movería en ambientes completamente diferentes. En el siglo XX provenía de un ambiente proletario y pequeñoburgués y tenía que reaccionar. Ahora sería un computer freak, un hacker o algo así, y tendría que vencer otras resistencias.

P. ¿Usted fue Óscar Matzenrath?

R. ¡No he conseguido parar mi crecimiento!

P. ¿Le habría gustado?

R. No, en el fondo no… No soy idéntico a Óscar, lo que ocurre es que la figura de Matzenrath tiene su raíz en la picaresca, representa una especie de espejo que tiene una lupa capaz de provocar un incendio, capaz por otra parte de expresar el infantilismo del siglo XX, del que no quería participar ni defenderme.

P. Trabaja bajo figuras de Goya. ¿Qué le da Goya?

R. Trabajo, en efecto, bajo una serie de grabados de Goya. Cada vez que celebro un cumpleaños importante, de los que contienen 0 o 5, mi mujer me regala alguno que todavía se vende en el mercado… Para mí es como la medida del artista, el criterio de verdad. ¡Es de una imaginación impresionante, cómo ilustra la demencia de este mundo! Tengo varios grabados de Los caprichos en los que nos muestra que está contra la Inquisición, con la demencia de la Iglesia católica por un lado y con la vida tal como es por otro… Goya es el gran ejemplo para mí, lo que me da la medida de si algo es bueno o es malo.