Bíblia e Harpa Pentecostal: edição de promessas – Letra hipergigante

As dificuldades para a leitura da Bíblia são muitas. Basta dizer que a disciplina da hermenêutica – a ciência da interpretação – tem sua origem na tentativa de compreender os múltiplos significados da Palavra. Mas há outras dificuldades, mais imediatas, que afastam o fiel da leitura: de tempo para ler; de espaço para sentar-se e abrir o livro; e até, veja-se, de tamanho da letra de impressão.

Pensando nos interesses e necessidades desse leitor, a King’s Cross lançou “Bíblia e Harpa Pentecostal: edição de Promessas – Letra Hipergigante”. O título já informa a intenção básica da publicação: levar a tradução de João Ferreira de Almeida, a mais afamada dentre as traduções protestantes,  com o máximo de facilidade visual para o público. Além desse atrativo, a edição destaca mais de 1100 promessas, espalhadas em 71 temas ao longo do texto, trazendo mensagens de conforto espiritual para os fiéis. Tudo em um volume belamente encadernado e de fácil manuseio.

Onde encontrar:

http://www.kingscross.com.br

“Diários da Amazônia”, de Roger Casement, são publicados no Brasil

Destacado

 

O irlandês Roger Casement teve uma vida marcada pelo signo da mudança.

Nascido numa Irlanda submetida ao domínio britânico, membro da aristocracia colonial de origem inglesa, tornou-se, com muitos de sua classe, membro do serviço civil britânico: foi cônsul de Sua Majestade em vários países. Ao contrário de muitos de seus pares, contudo, tinha uma visão nada positiva dos Impérios e do Imperialismo – era, afinal de contas, um irlandês. E um irlandês conhece os efeitos do colonialismo como ninguém.

Casement foi cônsul-geral britânico no Brasil e fez duas viagens à região do Alto Amazonas, em 1910 e 1911, com o objetivo de investigar denúncias de violência e escravidão cometidas contra indígenas brasileiros, peruanos e colombianos. O relato dessas viagens, reproduzido no livro “Diários da Amazônia”, é considerado pioneiro na defesa da cultura ameríndia e dos direitos humanos.

O livro da Edusp é a primeira tradução para o português da obra de Casement. Ele foi organizado pela professora Laura Izarra, coordenadora da Cátedra de Estudos Irlandeses W. B. Yeats da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e pela pesquisadora Mariana Bolfarine, daquela cátedra. A tradução é de Mariana Bolfarine, Maria Rita Drumond Viana e Mail Marques Azevedo.

 

 

 

 

 

 

 

O Quixote de Will Eisner

 

300671

Sobre “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, já se debruçaram cineastas, pintores, desenhistas, músicos e muito mais. No campo dos quadrinhos, coube a Will Eisner, autor do clássico personagem “The Spirit”, elaborar a versão em arte sequencial – para muitos, a versão definitiva em arte sequencial – da história do Cavaleiro da Triste Figura. Falamos aqui de “O Último cavaleiro andante” (Editora Companhia das Letras, tradução de Carlos Sussekind).

Publicada em 1999, “O Último cavaleiro andante” tem 27 páginas e inscreve-se entre as últimas produções de Eisner, nascido em 1917, em Nova York, e morto em 2005, na mesma cidade. Àquela altura, o autor já havia publicado algumas de suas mais celebradas obras, como “Um Contrato com Deus”, que muitos consideram a primeira graphic novel de todos os tempos. Já era, portanto, um conhecido e admirado quadrinista “sério” – alguém capaz de adaptar um clássico da literatura para o formato das HQs.

No entanto, uma primeira mirada nos daria a impressão de que Eisner não tinha tanta confiança na autonomia de sua obra em relação ao clássico. O título original de “O último cavaleiro andante”, de Will Eisner, é revelador das intenções que seu autor tinha ao escrevê-lo: “An introduction to Don Quixote by Miguel de Cervantes”. Uma introdução, portanto, ao texto original, que deveria ser devidamente lido após o fruir da história em quadrinhos. Eisner parecia preocupado em preparar o terreno para o leitor jovem encarar o grosso volume de Cervantes, e nada além disso. Conforme veremos, há uma boa razão para crer que as coisas não são bem assim.

A narrativa da obra fica a cargo por Sancho Pança, o fiel escudeiro do Cavaleiro da Triste Figura, na altura já velho e contando histórias do seu tempo de juventude. O início coincide com o da obra original: em algum lugar de La Mancha vive um fidalgo chamado Alonso Quijana que é particularmente afeiçoado aos livros de cavalaria. De tanto lê-los, Alonso acaba acreditando nos ideais dos cavaleiros ali descritos e resolve por bem armar-se em um: toma uma armadura de seu bisavô, uma lança, um cavalo – ao qual batiza de Rocinante – e sai pelo mundo em busca de aventuras, lutando em prol dos necessitados, dos desvalidos, das donzelas e da honra.

A partir daí surgem algumas divergências entre a obra de Eisner e a original: para compor a HQ, foram escolhidos episódios particularmente rocambolescos da obra original, aqueles que mais deixam explícita a distância entre o sonho de Alonso Quijano e o mundo real: o capítulo da taverna que Quixote considera ser um castelo; o do menino açoitado, que ele pensa ter libertado; o da libertação dos presos, que “agradecem” agredindo-o; o da luta contra os moinhos de vento, que ele imagina serem gigantes; e assim por diante, até o fim da narrativa.

Lá pelas tantas, um diálogo entre Quixote e Sancho explicita as convicções do cavaleiro. O escudeiro pergunta-lhe o que são os ideais da cavalaria e como poderia explicá-los. Quixote afirma que o importante de tudo é acreditar: ele, Alonso Quijana, acredita que é um cavaleiro; logo é um cavaleiro, o grande Dom Quixote de La Mancha. De início, Sancho, o representante do bom senso e da sabedoria prática, acha aquilo sem sentido. Aos poucos, contudo, passará a participar do sonho do cavaleiro.

A narrativa, focada nos episódios que apontamos anteriormente, segue até o momento em que Alonso Quijana volta a si. É o momento em que deixa de ser Dom Quixote e transforma-se, novamente, no velho Alonso Quijano. Dá-se conta de que viveu um delírio – e nem os pedidos de Sancho Pança ao pé de sua cama para que volte a sonhar o fazem mudar de ideia.

No final da obra, uma inovação: surge o escritor Miguel de Cervantes com uma espada na mão e proclama: “eu o armo Dom Quixote para sempre!” E a história termina. Esta cena não consta na obra original: no último capítulo do “Dom Quixote” de Cervantes, a morte de Quijana serve para o autor tecer uma consideração crítica sobre a leitura das obras de cavalaria e dos delírios que ela acarretaria em seus aficcionados, que tenderiam a enlouquecer tal como o Quixote. A amargura cervantina, a ironia usada para descrever as ações e o fim de Dom Quixote, a crítica aos livros de cavalaria, aqui se transforma numa celebração ao sonho: em vez de ver no Quixote um homem adoentado pela leitura de obras fantasiosas e delirantes, Eisner o coloca como um mestre dos sonhadores de todos os tempos, digno de ser celebrado pela memória coletiva (na boca de Sancho, homem simples e rude do povo) e pela cultura “letrada” (representada por Cervantes), que imortalizarão o sonho e a utopia do Cavaleiro da Triste Figura.

Por isso, não me parece correto interpretar a adaptação de Eisner como mera “introdução”. Vejo “O último cavaleiro andante” como obra plena.

A beleza do traço de Eisner, com sua incomparável capacidade de dar expressão e vida às personagens, é um ponto à parte: os sonhos quixotescos são particularmente vívidos quando retratados a partir de sua pena. Quanto à narrativa, o procedimento de reduzir episódios foi correto tendo em vista o objetivo da obra: ela ficaria demasiado grande para o formato de arte sequencial .

Importante ressaltar o ano de lançamento de “O último cavaleiro andante”: foi em 1999 – dez anos após o fim do socialismo de Estado, desapontando milhões mundo afora. Era também o auge do discurso de fim da História, do neoliberalismo, dos “órfãos das utopias”, para usar a expressão de Ernildo Stein.  Assim como o Quixote original aponta os últimos dias do romance de cavalaria, o Quixote de Eisner surge num contexto em que ninguém tem mais expectativas quanto ao futuro. Nos dois casos, o cavaleiro da Triste Figura percorre caminhos que já ninguém quer percorrer.

“Monsieur Pain”, de Roberto Bolaño

“Monsieur Pain” é um dos primeiros romances do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Escrito no começo dos anos 1980, intitulava-se inicialmente “A trilha dos elefantes” e acabou por receber o nome do seu protagonista, Pierre Pain, um francês que vive na Paris pré-Segunda Guerra e dedica-se à prática do mesmerismo – nome dado às técnicas de cura magnética criadas pelo médico alemão Franz Anton Mesmer, as quais, apesar de desacreditadas pela medicina tradicional, tornaram-se extremamente populares no século XIX. Pain é contratado para tentar curar um poeta sul-americano (que, supõe-se, trata-se do poeta peruano Cesar Vallejo) de uma enfermidade inusitada: uma crise de soluços. Aceita-a, sem imaginar que aquilo que de início parecia uma simples (e curiosa) oportunidade profissional acabaria por mostrar-se uma trama complexa envolvendo perseguições, segredos e alucinações.

Como é freqüente nos livros de Bolãno, várias são as referências ao universo da literatura em “Monsieur Pain”, com destaque para Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe, este último presente já na epígrafe do livro. Bolaño é magistral em recriar o ambiente da Paris dos anos 30, com poetas do mundo inteiro, artistas de vanguarda, sociedades secretas e uma legião de aficcionados por novas (e antigas) doutrinas. A criação de atmosferas densas e peculiares é outra de suas características presente já neste ótimo romance e desenvolvida em suas obras posteriores, como “2666” e “Os Detetives Selvagens”, que o consagraram como um dos maiores da literatura latino-americana das últimas décadas.

 

“Uma pipa de breve sentimento”, de Paulo Ritter

Sem título

 

Conheci Paulo Ritter em fins de 2009. Era uma tarde quente de verão metropolitano e eu havia sido designado para entrevistá-lo em seu gabinete no Conjunto Comercial, onde ele comandava a secretaria de Educação de Canoas. Fui anunciado pela secretária e entrei, munido de algumas perguntas prontas e o indispensável bloco de anotações. O ar condicionado, felizmente, estava ligado. Ritter me recebeu atrás de sua mesa, recém-finalizando uma ligação telefônica e arrumando papéis. Enquanto me cumprimentava, dava orientações à secretária, pedindo que fizesse algumas ligações importantes, confirmasse um ou outro ponto e nos trouxesse um café. Não parava um minuto. Pensei: com um interlocutor tão ocupado, essa entrevista será curtíssima..

O instante seguinte já provaria que eu estava errado. Com o café servido e o convidado devidamente acomodado, Paulo Ritter falou que conhecia minha família  – pais, tios e avós – havia muito tempo, desde quando frequentavam, nos anos 70, um armazém localizado no Bairro Mathias Velho comandado por um senhor de origem alemã muito sério, conservador e trabalhador, que levantava antes do sol nascer e tinha preocupações quanto às preferências políticas dos filhos naqueles duros tempos. Este senhor era seu pai.

A entrevista começou, e vieram outras lembranças: da vivência na Canoas em que cresceu e fez carreira política, dos seus lugares, personagens e memórias.

No fim, o bloco de anotações nem foi necessário. A entrevista planejada transformou-se numa produtiva e interessante conversa. E longa: fiquei ali por ali mais de duas horas, aproveitando o café e o ar condicionado do secretário.

Lembro deste momento particular depois de terminar a leitura de “Uma pipa de breve sentimento”, livro que Paulo Ritter lançou há poucos dias. São trinta e um capítulos de crônicas, artigos e poemas elaborados, sobretudo, a partir da memória do autor – memória de cidadão, de político, de ex-aluno lassalista, de morador de bairro, de sociólogo. Memória individual e social. As reflexões que Ritter propõe ultrapassam fronteiras e dizem respeito ao humano. Mas o canoense – em especial o canoense que mora há muito tempo na cidade – saberá reconhecer os lugares, as sensações, as imagens, os sons e as lembranças contidas nestas páginas como inequivocamente suas.

“Das Booty”, de Simon Pringle

capa_frente_das-booty255

A biografia do poeta Bruno Tolentino é, ainda hoje, um mistério para muita gente. Desde o seu retorno ao Brasil, em 1995, muito se especulou sobre as razões que o fizeram abandonar o país, nos anos 60, e quais atividades desempenhou na Europa. Apesar de reclamar da recorrência do tópico, ele próprio não parecia surpreso com o fenômeno: segundo ele mesmo, sua biografia era “interessante, meio cinematográfica”.  E completava: “Eu sou meio apalhaçado mesmo”.

Muitos devem ter se perguntado o que ele quis dizer com aquilo. E a resposta – ou parte dela – parece estar nas páginas de “Das Booty”, do inglês Simon Pringle . Definida por seu autor como uma “recriação imaginativa de fatos reais”, a narrativa centra-se no mirabolante plano de um grupo de sujeitos de Londres a fim de levar uma carga de drogas do Marrocos para a Grã-Bretanha; entre eles estão Bruno – chamado de “Lúcio” no romance, em referência ao seu segundo nome – e o próprio Pringle, que então mantinha um relacionamento com o brasileiro. A ideia era alugar um barco, navegar até o Marrocos comprar haxixe e vender na Inglaterra, onde moravam. O que parecia um plano ousado revelou-se apenas uma aventura de um bando de patetas inexperientes e quase levou ao afundamento do navio. A trama, que bem merece os adjetivos de cinematográfica, diverte e prende o leitor – e, mesmo com as recriações imaginativas de que fala Pringle, dá a conhecer algo daquele período da vida deste grande poeta brasileiro.

*           *            *              *

Obra: Das Booty

Autor: Simon Pringle

Editora: É Realizações

Preço: R$ 49,90

Onde encontrar: http://www.erealizacoes.com.br

*           *            *              *

“Lúcio tinha o estranho dom de ler seus leitores. Isso queria dizer que à primeira vista ele conseguia intuir o que uma pessoa poderia desejar dele e, igualmente, qual uso ele próprio poderia fazer dela. Era um dom mágico, quase metafísico, essa capacidade de enxergar “os ossos atrás dos ossso”, como ele dizia. Você pode chamá-lo do que quiser: médium, vigarista, psicopata catalítico, mentalista, gênio, ele conseguia manejar qualquer pessoa segundo sua vontade, tamanha era sua força. Um Orfeu das profundezas sempre contra a parede e nunca olhando para trás. Um flautista que tinha conduzido muitos ratos de renome em estratagemas folgazões , muitas vezes sem que estes percebessem. Tudo isto reunido num pacote de bronze juvenil, graça e charme que tinha uma semelhança impressionante com Rimbaud, sem os piolhos mas com todo o veneno e o mesmo talento. Exu,Eleguá. Você o amava ou odiava, mas o mais comum era amar e odiar, e subestimava-o por sua conta e risco.”

 

Lançamentos de Direito Previdenciário

ArquivoExibir

Os temas de Direito Previdenciário vêm despertando cada vez mais o interesse dos estudantes de Direito. É natural: a transformação da pirâmide etária brasileira vem aumentando as demandas na área e, com elas, também as possibilidades profissionais. O problema é que nem sempre as faculdades do país acompanham essa tendência, faltando em muitas delas até mesmo uma disciplina específica sobre o assunto. Para o aluno interessado, e mesmo para o advogado recém-formado que queira atuar na área, a solução acaba sendo aprender por conta própria.

Dois recentes lançamentos da Editora LTR parecem feitos sob medida para este público. O primeiro é “Processo Administrativo Previdenciário”, de Theodoro Vicente Agostinho e Michel Oliveira Gouveia. Publicada em fins do ano passado, a obra inicia com uma passada de olhos sobre os princípios do Direito Administrativo para, em seguida, passar ao estudo do seu tema central. Merecem destaque as partes dedicadas aos requerimentos e aos recursos previdenciários, enriquecidas com as mais recentes portarias e decisões. No final, há uma série de modelos de requerimentos e recursos.

A segunda é “Previdência Social: Benefícios previdenciários”, de Alexandre Bernabé e Leny Xavier de Brito e Souza. Escrito por dois técnicos da Previdência Social, apresenta um tom mais prático do que o anterior: seu objetivo é auxiliar o leitor a preparar encaminhamentos ao INSS. São ali abordados temas como o fator previdenciário, o funcionamento do CNIS, vários tipos de salários e benefícios e muito mais. A obra está em sua segunda edição. 

*            *           *             *

Onde encontrar: www.ltr.com.br

“As vantagens do pessimismo”, de Roger Scruton

As-Vantagens-do-Pessimismo

O sentido normalmente empregue da palavra “otimismo” dificilmente gerará oposição: quem, afinal de contas, pode ser contra encarar as dificuldades da vida de uma maneira positiva, esperando que tudo corra da melhor forma possível? Ninguém, por certo. O problema é que este não é o único tipo de otimista na praça: além destes sujeitos que limitam-se a viver bem dispostos e a confiar em si mesmos, há aqueles que, não contentes com isso, confiam que é possível mudar tudo – tudo mesmo. Confiam que é possível transformar a própria realidade.

Este tipo de otimista é aquele Roger Scruton descreve, em “As vantagens do pessimismo”, como um tipo particularmente perigoso. Scruton está plenamente ciente dos múltiplos sentidos que a palavra leva consigo, e por isso diferencia o otimista “escrupuloso” do “inescrupuloso”: o primeiro acredita na sua capacidade para promover melhorias num espaço limitado ao seu redor, ciente das falhas inerentes a todo ser humano; o segundo, por sua vez, acha que não só estas falhas são plenamente superáveis como podem, num futuro imaginário, desaparecer por completo da face da terra. Contra este último Scruton direciona seus ataques neste livro, apontando as falácias inerentes aos discursos progressistas e alertando para suas perigosas consequências, que o século XX não cansou de nos mostrar. A saída, aponta ele, é uma dose de pessimismo – e aqui ele também faz uma distinção importante, diferenciando o pessimista completo (ao qual ele se opõe) do pessimista judicioso (que ele defende): o primeiro fundamenta suas ações numa recusa à alegria de viver, enquanto o segundo mantém uma desconfiança de quem apresenta soluções gerais para todos os problemas do mundo. O pessimismo advogado por Scruton é, em suma, muito parecido com a prudência de que falam os cristãos – e ancorado em outra virtude, também típica dos cristãos: o bom senso.

O lado em que Scruton se posiciona é, claramente, o dos pessimistas. E é natural que assim seja: como figura destacada do conservadorismo britânico de hoje, nutre forte desconfiança por qualquer discurso progressista. Independentemente de ser adepto ou não deste tipo de discurso, o leitor que levar a sério as advertências de Scruton sobre as diversas consequências do otimismo verá que a dose de pessimismo – ou, se se quiser, de prudência – que ele prescreve pode ser muito benéfica. Para todos.

*           *            *              *

Obra: As vantagens do pessimismo

Autor: Roger Scruton.

Editora: É Realizações

Preço: R$ 59,00

Onde encontrar: http://www.erealizacoes.com.br

*           *            *              *

“O pior tipo de otimismo é aquele que animava Lênin e os bolcheviques, que fazia com acreditassem que haviam colocado a humanidade na trilha da solução dos problemas residuais da história, e que fez com que também destruíssem todas as instituições e todos os procedimentos pelos quais os erros podem ser corrigidos. A máquina resultante, desprovida de qualquer mecanismo de feedback com relação ao seu funcionamento, continuou a operar, é verdade, por outros setenta anos. Porém, quando ela ruiu, sessenta milhões de pessoas haviam morrido como resultado da insensatez e da perversidade que foram programadas nela, e a sociedade que sobreviveu a esse desastre foi (e é) indubitavelmente a mais desmoralizada que o mundo jamais conheceu”

“A Imaginação Liberal”, de Lionel Trilling

A-Imaginação-Liberal

 

Para bem falarmos sobre “A Imaginação Liberal”, do crítico literário americano Lionel Trilling, devemos sublinhar o que o autor quis dizer com “liberal” – afinal, como se sabe, a expressão tem um sentido bem particular no vocabulário político dos EUA. Por isso, nada melhor do que dar voz a um liberal autêntico: o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt. Segundo ele, liberais são aqueles que querem dar “ao cidadão médio o direito de ter a sua própria vida política e econômica, a liberdade e a busca da felicidade”. Ou seja, são aquilo que nós, no Brasil, denominamos “progressistas”.

É este o sentido que Lionel Trilling emprega nesta seleção de dezesseis ensaios, publicados ao longo da década de 40 em várias revistas de cultura dos EUA e reunidos neste livro em 1950. O próprio Trilling era um liberal: integrava a “Partisan Review”, importante revista cultural da esquerda nova-iorquina, ao lado de nomes como Hannah Arendt e George Orwell. Mas era um liberal atento: assim como Arendt e Orwell, percebeu logo as limitações do discurso que professava. E descobriu nele uma tendência a simplificar os desejos e motivações humanas, pondo no centro de suas preocupações aquela concepção bastante redutora – e, em geral, materialista – de “felicidade” de que falava o velho Roosevelt, para a qual todos os esforços sociais, políticos, culturais e artísticos deveriam concorrer. O antídoto contra esta simplificação, aponta Trilling, está na literatura – em especial aquela que resiste às classificações políticas.

Trilling é um ensaísta brilhante e tudo o que escreveu merece ser aproveitado. É preciso, contudo, termos em mente que viveu numa época em que a crença no progresso da história e nas utopias daí decorrentes era muito comum. Por isso, muito do que ele aponta neste livro soará hoje como truísmo: nosso mundo já não aceita as utopias da época de Trilling. Mas ainda temos as nossas – e temos, principalmente, a necessidade de uma crítica capaz de refletir sobre temas sociais e culturais do momento.

*       *        *        *         *           *

Título: A Imaginação Liberal

Autor: Lionel Trilling

Nº de páginas: 352

Tradutor: Cecília Prada

Onde encontrar: http://www.erealizacoes.com.br

“Seis meses em 1945”, de Michael Dobbs

91z0lXxqwzL_SL720

A imagem de Josef Stalin, Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill reunidos no pátio do Palácio Livadia, na cidade de Yalta, numa tarde fria de fevereiro de 1945, é parte do quadro de honra da inconografia da Segunda Guerra Mundial. E não é sem razão: ali, no popular balneário soviético situado às margens do Mar Negro, os três líderes das potências aliadas, chamados “Três Grandes”, começaram a esboçar o desenho de um novo mundo, erguido sobre os escombros do nazi-fascismo impiedosamente derrotado.  O desenho levaria seis meses para ficar pronto, e a marca disto seria a detonação, em agosto, da bomba atômica em Hiroshima. Era o fim da aliança entre soviéticos, americanos e britânicos – e o começo da Guerra Fria. .

“Seis meses em 1945”, de Michael Dobbs, debruça-se sobre este período decisivo. Correspondente internacional do “Washington Post” no Leste Europeu durante anos, Dobbs enfoca os encontros (e desencontros) dos representantes das potências vencedoras, as negociações duríssimas, as disputas por território, poder e influência e o processo rápido de degradação das relações entre a dupla Churchill-Roosevelt (após a morte deste, Churchill-Harry Truman) e Josef Stalin, passando de aliados quase inseparáveis a rivais plenos em poucos dias. Além dos “Três Grandes”, Dobbs valoriza a atuação de diplomatas, generais e assessores, muitos dos quais desempenharam papel quase tão importante no desenrolar dos acontecimentos quanto seus líderes.

A envolvente narrativa de Dobbs não chega a trazer novidades, mas é muito bem amparada por uma farta documentação militar e pessoal que incluiu cartas e anotações pessoais. A partir delas foi possível reconstruir – e isto Dobbs faz com muita competência – muito das ações e pensamentos dos “Três Grandes”. Assim, assistimos a um Churchill com seus velhos preconceitos coloniais, angustiado ante a óbvia decadência do Império Britânico e recusando-se a aceitar o novo mundo que se descortinava diante de seus olhos; um Roosevelt já doente e frágil, mas ainda firme em suas convicções de que uma paz justa entre os vencedores da guerra era possível; um Truman, que sucedera a Roosevelt e se sentia constrangido em ficar ao lado de gigantes como Stalin e Churchill, armado com a sabedoria prática de comerciante do Missouri para negociar com homens mil vezes mais experientes; e um Stalin com moral elevada pela espetacular vitória de seus homens em Stalingrado e outras batalhas no front oriental.

*         *            *            *

“Os três governantes (…) haviam concordado com uma foto do grupo no jardim do palácio antes do início da sessão plenária, marcada para as onze. As cadeiras de vime tinham sido colocadas no gramado banhado pelo sol de maneira que ficassem exatamente a um pé de distância uma da outra. Por estar presidindo a conferência, Truman sentou-se na cadeira do centro, a uma distância igual dos dois outros líderes. Stalin, resplandecente em seu casaco de generalíssimo de cor creme, instalou-se na cadeira à esquerda do presidente. Churchill, trajando sua farda de coronel, não gostou do arranjo das cadeiras. Virando o rosto para os fotógrafos, agarrou furtivamente a cadeira, que àquela altura estava atrás de si, e puxou-a para a esquerda. Agora, os líderes das duas democracias estavam visualmente – e simbolicamente – unidos, enquanto o ditador soviético estava isolado, a um pé de distância”. 

*         *            *            *

“Seis meses em 1945”, de Michael Dobbs

EDITORA: Companhia das Letras

TRADUÇÃO: Jairo Arco e Flexa

Nº DE PÁGINAS: 496

PREÇO: R$ 67,00

ONDE ENCONTRARwww.companhiadasletras.com.br

Inimigos da política

zoom_politicidio_1000

Se tomarmos o período entre 1945 e 1989 – isto é, os anos seguintes ao fim da Segunda Guerra – será difícil encontrar outro país que tenha produzido tantos pensadores influentes como a França. Uma mera passagem de olhos pelos nomes que apareceram nesta época o demonstra claramente: Sartre, Camus, Merleau-Ponty, Foucault, Althusser. Foi uma verdadeira produção em série.

Ao debruçar-se sobre estes nomes, o filósofo holandês Luuk van Middelaar descobriu, no meio de muitas divergências, um ponto comum a todos eles: uma negação – ou melhor: uma tentativa de negação – da política de bases democráticas. Curiosamente, aquilo que lhes permitia escrever e pensar num mundo então dominado por várias formas de ditaduras.

Esta constatação é o ponto de partida para a reflexão que o autor propõe em “Politicídio”, sua obra de estreia, agora publicada em português pela É Realizações.

De onde veio esta atitude? Middelaar lança uma hipótese: da figura magnetizadora de Alexandre Kojéve, filósofo russo residente em Paris, cuja série de palestas sobre Hegel, realizadas entre 1933 e 1939, atraiu nomes como Maurice Merleau-Ponty, Jacques Lacan, Raymond Aron, Eric Weil e André Breton, entre muitos outros. Admirador de Josef Stalin e crítico das formas de se fazer política no Ocidente, Kojéve propunha uma leitura de Hegel à luz de Marx, Heidegger e Nietzsche, em particular da noção de “fim da história”.

Para Middelaar, a influência de Kojéve fez-se sentir por meio século: do existencialismo sartreano ao marxismo particularíssimo de Louis Althusser, passando por Foucault, Henri-Levy e tantos outros, todos levaram consigo as lições do filósofo russo. E em todos eles sobressaía o desdém pela política democrática e pela própria política. Foi uma geração, segundo Middelaar, que não sabia responder à pergunta decisiva: “o que o senhor faria no lugar do ministro”?

Middelaar é um notável expositor de ideias e um escritor de talento, e “Politicídio” é um livro hábil em reproduzir uma época e um estado de espírito. A avaliação de Middelaar é dura e deve-se admirar a sua coragem em enfrentar os titãs do pensamento francês com tanta propriedade, muitos dos quais são até hoje lidos com entusiasmo e fazem parte de toda ementa de disciplina universitária. E, ao enfrentá-los neste ponto em que falharam, Middelaar faz também uma defesa autorizada e convincente da democracia liberal, que eles tanto desprezavam – apesar de dela se servirem.

*              *              *              *              *

Título: “Politicídio – o assassinato da política na filosofia francesa)

Autor: Luuk van Middelaar

Nº de páginas: 272

Tradutor: Ramon Alex Gerrits

Onde encontrar: http://www.erealizacoes.com.br

Reflexões sobre o ódio

foto-2015-05-25-01-35-57-325750037562102-Batecabeca

 

Do ódio”, de Gabriel Liiceanu, é uma leitura especialmente importante para este início de 2016.

Explico: 2015 foi um ano marcado pelo ódio no Brasil. E não falo aqui da quantidade de pessoas que se odiaram umas às outras no país, o que não se pode medir, e sim de quão discutido foi o tema por aqui. Falou-se e debateu-se longamente acerca daqueles que odeiam na política, nas redes sociais, nas relações humanas; também falou-se daqueles que odeiam os estrangeiros, as minorias, o diferente e o próximo; e buscou-se armar estratégias para combater o ódio, mitigá-lo ou mesmo de eliminá-lo, apostando na possibilidade de moldar a natureza humana à imagem do que dela querem fazer as utopias. E, ao que tudo indica, continuaremos a discutir o ódio em 2016. Por isso, vale dedicar um tempo às 136 páginas deste pequeno ensaio do filósofo romeno, uma das mais destacadas figuras da intelectualidade de seu país.

Liiceanu concentra seu estudo num tipo particular de ódio, próprio do mundo moderno e desconhecido do mundo antigo: o ódio instrumentalizado a serviço das ideologias. Para isso, parte da análise de Julien Benda em um seu clássico “A traição dos intelectuais”, para quem o século XX se caracterizou pela organização intelectual dos ódios. Para Liiceanu, trata-se de um fenômeno novo na História. O ódio antigo, o ódio bíblico de Caim, é pessoal: direciona-se a Abel, seu irmão objeto de sua inveja, e se satisfaz com o crime cometido – o assassinato – e recebe a reprimenda moral de Deus. Já o ódio moderno, o ódio a serviço das ideologias, é por natureza impessoal: aquele que é odiado, o é por ser parte de uma categoria, grupo ou coletividade que a ideologia fundamentadora do ódio entende como inimiga. É um ódio organizado; e quem o organiza é o intelectual, o traidor de que falava Benda, que recusou-se a assumir a sua missão em busca do bem e da verdade e empregou seus talentos para servir às contingências políticas. Diante do ódio moderno, o ódio cainita é insignificante.

As reflexões de Liiceanu tomam a realidade romena como base e suas conclusões são, sobretudo, direcionadas ao destino de seu país. Mas não é preciso pensar muito para perceber que muito do que ele aponta serve para o Brasil. Em especial para o Brasil deste ano que agora inicia.

*         *         *         *        

DO ÓDIO, de Gabriel Liiceanu

EDITORA: Vide Editorial

TRADUÇÃO: Elpídio Mário Dantas Fonseca

Nº de PÁGINAS: 136

ONDE ENCONTRAR: http://www.videeditorial.com.br

Estudo de uma tensão

perseguicao

O filósofo romeno Constantin Noica dizia que a filosofia só era possível na cidade, espaço do convívio com as pessoas nas ruas, no mercado, no vai-e-vem da experiência humana. Será difícil discordar deste ponto de vista. O problema é que a cidade, que cria as condições para o filósofo existir, não costuma simpatizar muito com ele. A gloriosa Atenas da Antiguidade, que gerou um Sócrates, foi a mesma que acabou por matá-lo, dando início a uma tensão que permanecerá no interior da cultura ocidental: o filósofo precisa viver na cidade; mas a cidade, desde Sócrates, condena os filósofos à morte. E a história demonstrará que o perigo para o homem de pensamento está não apenas na cidade,  mas em toda e qualquer comunidade. 

É desta tensão, de suas consequências e da maneira como os filósofos a enfrentaram que emerge o tema para os ensaios de “Perseguição e a Arte de Escrever”, de Leo Strauss. E emerge como tentativa de resposta a uma pergunta: como um homem que ama a verdade pode comunicar o que sabe num ambiente hostil?

No primeiro dos quatro ensaios que compõem esta obra, publicada originalmente em 1952, Strauss elabora as primeiras linhas para esta resposta. Ao filósofo que vive neste ambiente não é dada a chance de escrever de maneira ingênua e tranquila: deve se tornar, segundo Strauss, “um mestre da arte de revelar sem revelar e da arte de não revelar revelando” (p.62); deve desenvolver

uma técnica peculiar, e, com ela, também a um tipo de literatura peculiar, na qual a verdade sobre todas as coisas cruciais é apresentada exclusivamente nas entrelinhas. Essa literatura não é destinada a todos os leitores, mas somente aos leitores confiáveis e inteligentes. Ela possui todas as desvantagens da comunicação privada sem padecer, porém, de sua grande desvantagem, isto é, do fato de só alcançar os conhecidos do autor. Ela possui também todas as desvantagens da comunicação pública subtraídas de sua grande desvantagem: a pena de morte ao autor” (p.36).

O texto deste filósofo perseguido terá , obrigatoriamente, duas camadas: uma exotérica, destinada ao público em geral, que funciona como uma espécie de armadura para o autor; e uma esotérica, acessível apenas a um grupo especial de leitores, que possuem as chaves para abrir e conhecer o interior da armadura.

Esta armadura será forjada por vários tipos de subterfúgios discursivos: interpolações, omissões, erros propositais, repetições cuidadosamente calculadas. Os três ensaios seguintes, dedicados a Maimônides, Judah Halevi e Baruch de Spinoza, partem desse pressuposto de interpretação e aplicam-no às obras de cada um deles, revelando que todos , mesmo vivendo em contextos distintos e por razões distintas, fizeram a mesma coisa.  E não só eles: segundo Strauss, esta atitude é a constante no mundo antigo, islâmico e judaico, perdendo força apenas no século XIX, quando o nosso mundo – o mundo do liberalismo e do Iluminismo, onde pratica-se a livre-discussão e o livre debate – começa a dar seus primeiros passos.

Podemos discutir se a tensão entre o filósofo e a comunidade teve fim ou não, ou apenas mudou de forma: esta será apenas uma das discussões que os ensaios de “Perseguição e a Arte de Escrever” suscitarão no leitor. E, como se sabe, suscitar discussões e abrir frentes é o principal desiderato de um ensaísta.

*                  *                 *                *

Título: Perseguição e a Arte de escrever – e outros ensaios de filosofia política

Autor: Leo Strauss

Tradutor: Hugo Langone

Preço: R$ 49,90

Número de páginas:  208

Onde encontrar: http://www.erealizacoes.com.br

“Canadá”, de Richard Ford

1438009737

Richard Ford é um dos mais celebrados romancistas norte-americanos da atualidade. Nascido no Mississipi, em 1944, um dos estados mais pobres do país, corroído pela violenta história de discriminação racial , Ford não tem – ao contrário de outros filhos da região – maior interesse pelo que se chama de “temática sulista” na literatura: ao descrever os anos de infância e juventude no local onde nasceu, ele nos fala de um lugar “carola, preconceituoso e provinciano”. E completa: “Quando chegou a hora em que pude sair de lá, eu saí”. E saiu. Foi um adeus para sempre.

Longe dos pântanos, das fazendas e dos preconceitos de sua terra natal, Ford tornou-se escritor. Publicou oito romances, dos quais se destacam a tetralogia “O cronista esportivo”, “Independência”, “O sal da terra” e “Let Me Be Frank with You” (ainda sem edição nacional), série protagonizada pelo seu personagem mais conhecido, Frank Bascombe, um ex-jornalista que trabalha com venda de imóveis em Nova Jersey. Em 2012, foi publicado “Canadá”, que agora chega às livrarias brasileiras pela editora Estação Liberdade.

A narrativa é conduzida por Dell Parsons, professor universitário que, já sexagenário, conta a história da derrocada de sua família a partir do momento em que seus pais resolvem roubar um banco. As primeiras linhas do romance já nos deixam a par deste momento decisivo: “Para começar, vou contar o assalto que meus pais cometeram. Em seguida, os assassinatos que aconteceram mais tarde. O assalto é a parte mais importante, já que serviu para mudar o rumo da minha vida e o da minha irmã. Nada faria sentido, se eu não o contasse desde o início”. 

O pai de Dell, Bev Parsons, é um ex-militar da Força Aérea, um sulista branco, alegre, bem disposto e positivo, filho de comerciantes de madeira; sua mãe, Neeva, amante da leitura e da escrita, solitária e pouco comunicativa, vem de uma família de imigrantes judeus askhenazi que não aprovou o seu casamento com um “Wasp” do Alabama. Mas Bev não é um típíco redneck da região: deplora o racismo, os preconceitos locais e gosta de se ver como um sujeito com opiniões “modernas” (a expressão é de Dell) e mente arejada. Um sulista não tão sulista assim.

Essa diferença de personalidade entre os dois, somada às dificuldades financeiras, engendra uma relação familiar extremamente frágil e delicada, prestes a ser atingida por qualquer distúrbio. E a vida de Dell e de sua família é marcada sobretudo pela fragilidade e pela transitoriedade: mudam constantemente de cidade graças ao emprego do pai, pouco interagem com as populações locais, a mãe sente-se totalmente apartada e prefere dedicar-se ao seu diário, Dell e sua irmã não fazem amigos – é, em suma, uma vida solitária e sem raízes.

Dell tem 15 anos quando seus pais são presos. Sem lugar para onde ir, acaba por emigrar ao Canadá pela mão de uma amiga da família. A chegada ao vizinho nortenho é simbólica: “Ele pisou fundo e mergulhávamos na escuridão. Era no Canadá que me encontrava agora”. As vastidões geladas da planície canadense abrem caminho para a entrada de Parsons na idade adulta. E é um caminho difícil. Diante da fragilidade, de todas as mudanças, de toda a transitoriedade e falta de referências, destaca-se a voz inquiridora de Parsons, que tenta racionalizar e buscar sentido para o caminho tortuoso que tem de trilhar.

*         *            *            *

“O mundo em geral não pensa que os assaltantes de banco podem ter filhos – embora um bocado deles os tenha. Mas a história dos filhos – que é a minha e da minha irmã – cabe a nós ponderar, partilhar e julgar tal como a vemos. Anos depois, na faculdade, li que o grande crítico Ruskin escreveu que a composição é a harmonia de coisas desiguais. Isso significa que cabe ao compositor determinar o que é igual a quê, o que é mais importante e o que pode ser posto de lado para deixar passar o fluxo avassalador da vida ” 

*         *            *            *

Canadá, de Richard Ford

EDITORA: Estação Liberdade

TRADUÇÃO: Mauro Pinheiro

Nº DE PÁGINAS: 456

PREÇO: R$ 59,00

ONDE ENCONTRARwww.estacaoliberdade.com.br

Viagem através da estepe

85137_gg

Quando Tchékhov publicou a novela “A Estepe”, sua então incipiente obra consistia apenas em alguns contos curtos publicados em revistas literárias, elaborados nos intervalos do exercício de sua profissão, a medicina. Era, portanto, a sua primeira narrativa mais longa. E ele não a poupou daquela mirada irônica tão característica sua, que fizeram-lhe a fama como contista de primeira ordem: “minha ‘Estepe’ não parece uma novela, mas uma enciclopédia da estepe”, disse ele em carta a um amigo.

O tom era levemente jocoso, mas o julgamento do autor tinha sua razão de ser: nas 144 páginas desta recém-publicada edição brasileira de “A Estepe” traduzida por Rubens Figueiredo destaca-se o espaço em que a história se passa, a estepe russa, a vastíssima planície da Eurásia que sempre provocou nos povos que a habitam aquela sensação de horizonte infinito e de tempo dilatado que convida a caminhar sem rumo.  E os artistas russos – escritores, pintores, cineastas – sempre souberam responder a esse convite, transformando-a em matéria para a criação. 

Neste ambiente dá-se a viagem do garoto Iegorutchka de sua terranatal até a escola particular, situada numa cidade longínqua. Está acompanhado de seu tio e de um padre, que passam o tempo inteiro discutindo sobre os mais variados temas, enquanto a mente infantil do menino percebe e processa pequenos e significativos acontecimentos. Tchekhov atua aí como um paisagista da trajetória do menino pela estepe, onde desfilam os tipos humanos da região e da época: o camponês, o judeu, o mujique, o comerciante, o vagabundo. Mas sobretudo desfila o menino Iegorutchka e sua visão ainda ingênua dos homens e do mundo, que aos poucos se transforma conforme a viagem avança. Nesta relação entre ele, aqueles homens e aquele mundo constitui-se a narrativa de “A Estepe”, pontuada pelo detalhe, a nuance e tudo o que a mirada apressada não capta. Podemos pedir licença para discordar um pouco de Tchékhov: ” A Estepe” é uma pequena obra-prima. 

*         *            *            *

“Nas tardes e noites de julho, as codornas e os sisões já não piam, os rouxinóis já não cantam nas ravinas cobertas de florestas, as flores não exalam perfume, mas toda a estepe continua linda e cheia de vida. Mal o sol vai embora, a neblina envolve a terra e a tristeza do dia é esquecida, tudo é perdoado e a estepe suspira de leve, com seu peito largo. ” 

*         *            *            *

A ESTEPE, de Anton Tchékhov

EDITORA: Companhia das Letras

TRADUÇÃO: Rubens Figueiredo

Nº DE PÁGINAS: 144

PREÇO: R$ 24,90

ONDE ENCONTRARwww.companhiadasletras.com.br

Para entender o conservadorismo

7d1ccfc9-2638-4ab2-8baf-a7f60f9a40a2

O pensamento conservador vem conquistando cada vez mais espaço no mercado editorial brasileiro. Hoje é possível encontrar nas livrarias, em edições novas e muito bem preparadas, autores das mais variadas tendências do pensamento de direita, de Oswald Spengler a Eric Voegelin, de Michael Oakeshott a Alexander Dugin, de Carl Schmitt a Christopher Dawson.

Esta notícia deve ser motivo de comemoração para os dois lados da disputa política: os direitistas, por se verem representados editorialmente; e os esquerdistas por terem a chance de conhecer melhor o seu inimigo. Todos saem ganhando.

Um dos autores que mais vêm ganhando leitores no Brasil nos últimos tempos é o filósofo inglês Roger Scruton. Autor de mais de 30 livros e professor em várias instituições britânicas e americanas, é uma das mais importantes figuras do pensamento conservador em seu país.

Seu “O que é ser conservador” foi lançado há pouco no Brasil pela É Realizações (328 páginas).

A obra foi publicada originalmente em 1980 na Inglaterra, mesmo ano em que o Partido Conservador chegou ao poder com uma plataforma que mesclava o discurso de defesa do indivíduo, de liberdade econômica e uma vaga referência a valores comunitários, consubstanciada na frase de Margareth Thatcher: “Não existe sociedade, apenas indivíduos e suas famílias”. Esta visão, Scruton aponta logo no começo do livro, não tem muito a ver com o que os conservadores costumavam defender. Daí a necessidade de estabelecer um discurso mais coerente.

Por isso, “O que é conservadorismo” é um livro explicitamente, para usar uma expressão do próprio Scruton, “dogmático”: pretende, antes de tudo, expor as bases em que se estrutura uma doutrina. É uma lacuna antiga dos conservadores, que, segundo Scruton, jamais se empenharam em formular um pensamento ordenado, em parte por boas razões.

O conservadorismo, segundo Scruton, diz respeito, antes de tudo, à autoridade e às maneiras com as quais se dá a sua perpetuação em épocas de mudanças históricas. Para ele, esta autoridade, fundada na história, na tradição e na continuidade, é o que garante a unidade do organismo social. No decorrer da obra Scruton discute as concepções conservadoras sobre temas como lei, tradição, propriedade e religião e, no fim, há um apêndice onde liberalismo e conservadorismo são postos lado a lado e são ressaltadas as diferenças essenciais entre os dois, resolvendo assim uma confusão bastante frequente dentro da nova direita do Ocidente e da brasileira em particular. Temos prova desta confusão quando assistimos a autodenominados conservadores marcharem ao lado de liberais clássicos e tradicionalistas católicos e serem chamados de fascistas por diversos setores da esquerda.

“O que é conservadorismo” vem prestar um auxílio importante ao nosso debate público, da mesma forma que prestou quando foi publicada pela primeira vez no Reino Unido. Ajuda a esclarecer o que é de fato o conservadorismo para quem quer defendê-lo e a ele aderir – assim como para quem quiser atacá-lo.

“A política externa norte-americana e seus teóricos”, de Perry Anderson

“A política externa norte-americana e seus teóricos” (Boitempo, 199 páginas, tradução de Georges Kormikiaris) é o mais recente livro do historiador britânico Perry Anderson. Trata-se de uma coleção de artigos publicados na “New Left Review” sobre a história da política externa dos EUA através dos homens que a forjaram – isto é, os pensadores e os líderes políticos – desde o período de Independência até os nossos dias.

O livro divide-se em duas partes: na primeira, “Império”, Anderson nos oferece um longo panorama sobre a evolução da política externa americana, entendendo-a como um fluxo contínuo que inicia nos primeiros anos de vida independente do país e estende-se até os dias de hoje. Este fluxo é impulsionado por várias condições particulares, em particular aquelas que Anderson denomina “subjetivas”: a ideia de que os EUA eram uma nação privilegiada, “escolhida” por Deus, e a de que seu sistema político era uma realização perfeita, a ser imitada por todos os povos que aspirassem à liberdade. Estas condições subjetivas estão presentes, de uma forma ou de outra, modificadas aqui ou ali, em todos os atores analisados por Anderson nesta obra, estejam eles à esquerda ou à direita. Com isto posto, ele passa então a fazer uma análise da estratégia americana a partir do momento em que o país, já formado, começa a atuar na arena internacional.

Na segunda parte, “Conselho”, Anderson passa às leituras dos pensadores que vêm embasando as mais recentes ações do governo norte-americano. Esta parte tem momentos particularmente inspirados: Anderson empresta o seu olhar de excelente leitor ao trabalho de autores como Walter Russell Mead, John Ikenberry e Zbigniew Brzezinski, entre muitos outros. Destaca-se aqui a análise da obra de Robert Kagan, teórico neoconservative muito distante de Anderson no plano intelectual mas que merece-lhe respeito e admiração em muitos pontos (bem mais, diga-se,  do que dedica aos teóricos “de esquerda” ou liberals, no peculiar jargão político americano). Ao fim desta parte há um apêndice do autor sobre a obra de Francis Fukuyama, à qual Anderson já dedicou um livro, infelizmente ainda não publicado no Brasil.

Saímos da leitura com uma visão muito clara de quem é e o que pretende esta elite intelectual e política que comanda os destinos dos EUA : é uma elite plenamente autoconfiante, detentora de todas as respostas para todas as perguntas e com um plano de governo mundial que resiste a todo tipo de oposição interna ou externa. Uma elite que não ouve ninguém e crê ter Deus ao seu lado. E que sabe se fazer ouvir e realizar o que quer.

O cristianismo, segundo Kautsky

Confesso: quando tomei A Origem do Cristianismo, de Karl Kaustky (Editora Civilização Brasileira, 560 páginas) nas mãos pela primeira vez, pensei estar diante de um descendente direto dos mais velhos e requentados clichês marxistas acerca da religião. Esperava, já conformado, alguma palavra de ordem, algum reducionismo, algum discurso batido. Meu preconceito tinha como alvo o autor: tratava-se de Karl Kautsky, um dos maiores nomes do pensamento marxista do século XX, homem, segundo dizem, capaz de citar qualquer passagem de Marx de memória, amigo de Engels e combatente feroz de tudo o que julgava ser heterodoxia, do leninismo à social-democracia. Um verdadeiro soldado da causa operária – e, como todos os melhores soldados, inteiramente devotado ao ideal que defende.

Enganei-me. A Origem do Cristianismo é um excelente exemplo daquilo que Marco Lucchesi denominou certa vez de “alto marxismo”, aquele oposto às simplificações grosseiras – o “marxismo vulgar” de que falava Lukács – que, desde a época do próprio Marx, têm-se verificado entre seus seguidores. Kautsky procede como bom marxista: analisa das condições sociais e econômicas da Palestina do século I, de onde emergiu o cristianismo com força cultural e civilizatória, e apresenta Jesus como um revolucionário, levantando a tese de que Pilatos talvez o tivesse considerado um zelote (grupo revolucionário anti-dominação romana na Palestina). Kautsky lança ainda outras hipóteses, como a de que Jesus teria sido influenciado pelos essênios, idéia que ganharia força décadas depois da edição do livro, com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. Uma obra que ultrapassa convicções ideológicas, partidos políticos e preconceitos – como os deste articulista.

Onde encontrar:

www.record.com.br

(21) 2585 2000

Nova edição de “Monções”, de Sérgio Buarque de Holanda

13522_gg

“Monções” marca um momento de transição na carreira intelectual de Sérgio Buarque de Holanda. Publicado em 1945 – nove anos após o clássico “Raízes do Brasil”- , ali o jovem ensaísta, jornalista e crítico literário dos anos 20, 30 e começo dos 40 começa a dar lugar ao historiador e acadêmico, autor de obras como “Caminhos e Fronteiras”, de 1957, e o seu favorito “Visão do Paraíso”, de 1959, e se consolidará como um dos principais nomes da intelectualidade brasileira no século XX.

E um historiador com formação vasta e variada: no processo de elaboração de “Monções” Sérgio Buarque ingressou nos domínios da etnologia, da antropologia e de outras disciplinas vizinhas, a fim de estudar o tema da mobilidade dos paulistas pelas bacias fluviais do centro e Sul da América – as “monções” – sob o ponto de vista da cultura material. Realizadas em rudes canoas e enfrentando obstáculos de todo tipo, as monções foram um elemento essencial para integrar as regiões interiores do território brasileiro aos principais centros de civilização mais próximos à costa.

Em lembrança pelos 70 anos do lançamento da obra, a Companhia das Letras patrocinou um notável trabalho de republicação sob o comando de Laura de Mello e Souza e André Sekkel Cerqueira. Uma edição especial para um livro especial, que seu autor submeteu a um longo processo de reescritura e releitura.

Para compreender como se deu este trabalho, devemos primeiro lançar um olhar sobre as edições anteriores de “Monções”. A segunda edição, de 1976, é idêntica à primeira e traz um prefácio onde Sérgio Buarque já apontava que caminhos seguia em seus estudos sobre a mobilidade paulista no ciclo aurífero. A esta edição seguiu-se uma terceira, de 1990, publicada após a morte do autor, que incluía, além do livro original, um apêndice com três capítulos reescritos e aumentados.

Esta quarta edição que agora se publica vem numa caixa contendo dois livros. O primeiro é o original, “Monções”, tal como foi publicado pela primeira vez. O segundo é “Capítulos da Expansão Paulista” –  título explicitamente baseado na obra de Capistrano de Abreu, “Capítulos de História Colonial” – e é composto pela reunião de dois trabalhos: um é “O Extremo Oeste” ,livro póstumo de 1986 que retoma o tema da expansão paulista pelo interior do país e reaproveita boa parte dos estudos que geraram “Monções” (incluindo aí passagens da obra); e o outro são os capítulos reescritos publicados na edição de 1990.

Este material reunido é testemunho da grande aventura intelectual de Sérgio Buarque pelos sertões do oeste brasileiro, cujos resultados estão presentes em vários de seus escritos. E que ainda podem animar novos estudos.

Deixamos aqui um trecho da obra:

“Vencida porém a escabrosidade da Serra do Mar, sobretudo na região de Piratininga, a paisagem colonial já toma um colorido diferente. Não existe aqui a coesão externa, o equilíbrio aparente, embora muitas vezes fictício, dos núcleos formados no litoral nordestino, nas terras do massapê gordo, onde a riqueza agrária pode exprimir-se na sólida habitação do senhor do engenho. A sociedade, constituída no planalto da capitania de Martim Afonso, mantém-se, por longo tempo ainda, numa situação de instabilidade ou de imaturidade, que deixa margem ao maior intercurso dos adventícios com a população nativa. Sua vocação estaria no caminho, que convida ao movimento; não na grande propriedade rural, que cria indivíduos sedentários.”

*               *               *               *

MONÇÕES, de Sérgio Buarque de Holanda 

EDITORA: Companhia das Letras

Nº DE PÁGINAS: 194 (“Monções”) e 396 (“Capítulos da Expansão Paulista”)

PREÇO: R$ 92,00

ONDE ENCONTRAR: http://www.companhiadasletras.com.br

Morte e imortalidade

O problema da morte parece ausente da filosofia contemporânea – ao menos da filosofia que enche as salas de aula das faculdades, as páginas dos manuais nos capítulos de “filosofia contemporânea” e os cadernos de cultura dos jornais mais prestigiados. Não é o único: estão também ausentes temas como Deus, a eternidade e, às vezes, o próprio homem. E não parece ser coincidência que estes temas ausentes estejam, de alguma forma, interligados.

Alheio a isto, o filósofo italiano Michele Federico Sciacca preferiu dedicar-se à questão em seu Morte e Imortalidade, de Michele Federico Sciacca (É Realizações, 287 páginas, tradução de Valdemar Munaro), publicado originalmente nos anos 60. E o fez justamente porque, diz ele, uma vida sem a reflexão da morte é inautêntica e falsa. Não podemos expulsa-la de nós, nem a morte e nem a reflexão sobre ela, embora possamos tentar fugir das duas. E Sciacca as encara de frente. Divide o estudo em três grandes partes – A Morte, A Imortalidade e O Suicídio -, dialogando com as posições presentes na tradição filosófica ocidental, em especial com Espinosa, Nietzsche, Hegel e a escolástica. Merece destaque a terceira e última parte, onde tipifica o suicídio e o analisa do ponto de vista moral e metafísico.

 Onde encontrar:

 www.erealizacoes.com.br

 (11) 5572 5363

Cinco séculos de Santa Teresa D’Ávila

No seu ensaio “Defesa do teólogo frente ao místico”, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset diferenciava os dois da seguinte maneira: enquanto a função do teólogo era falar sobre Deus, a do místico era calar-se sobre o mesmo assunto. Vem daí a dificuldade em compreender muitos dos escritos dos grandes mestres da mística: extasiados diante da presença iluminada do Absoluto, têm grandes dificuldades em traduzir suas divinas impressões na língua dos homens. Ela, como os prisioneiros da caverna de Platão, nem sempre pode suportar tanta luz.

O interessante é que uma objeção muito pertinente à definição de Ortega pode ser encontrada justamente em sua terra natal:  é Santa Teresa D´Avila. Ninguém ignora que se trata de um dos maiores nomes da mística cristã, e, ao mesmo tempo, ninguém negará o seu posto privilegiado dentro da literatura espanhola, capaz de discorrer sobre problemas internos do convento das carmelitas descalças com a mesma clareza e sensibilidade com que discorria sobre o Divino.

Neste 2015 celebramos os cinco séculos de seu nascimento, em Gotarrendura, nas proximidades de Ávila, na meseta castelhana. Excelente momento, portanto, para esta nova edição em português de As moradas do castelo interior (É Realizações, 256 páginas), o livro mais importante de Santa Teresa. Aqui ela divide a alma humana em sete moradas: nas três primeiras, as almas ainda estão impregnadas do espírito de mundo. Na quarta, a mundanidade dá lugar à ascese, e, na quinta, a união com a divindade começa a se completar. Na sexta morada, os sentidos já não respodem, e, na sétima, inicia-se o matrimônio espiritual, o “êxtase doloroso” que a alma sente ao unir-se com o Criador. Tudo isso elaborado em uma das mais belas prosas do barroco espanhol, que a tradução de Antonio Fernando Borges – talentoso romancista carioca, autor dos ótimos “Memorial de Buenos Aires” e “Que fim levou Brodie?” – mantém plenamente.

 Onde encontrar:

http://www.erealizacoes.com.br

“O Túnel”, de Ernesto Sábato

O TUNEL

Quando saíram os primeiros necrológios lembrando os quatro anos do falecimento de Ernesto Sábato, ocorrido em 30 de abril último, falou-se da lamentável perda do “romancista argentino Ernesto Sábato”. A julgar pelo volume de produção do autor, poderíamos concluir que o argentino de Rojas nascido em 1911 foi, antes de tudo, um ensaísta: em seus 99 anos, Sábato de vida publicou duas dezenas de livros de ensaios, incluindo a sua estréia nas letras, em 1945, com El Uno y el Universo. Por outro lado, deixou-nos apenas três romances, sendo O Túnel (Companhia das Letras, 152 páginas, tradução de Sérgio Molina) o primeiro deles. Parece muito pouco para chama-lo de romancista.

Ou talvez não. Sábato pertence à linhagem de romancistas animados pelo pensamento, como Musil, Mann ou Camus – todos eles, aliás, também ensaístas de destaque. O Túnel é um legítimo exemplar desta vertente. Há quem considere esta pequena novela como um prólogo de Sobre Heróis e Tumbas, tido como a obra-prima de Sábato e um dos maiores romances latino-americanos do século XX. É uma maneira, involuntária ou não, de avaliar injustamente a importância deste pequeno livro. Afinal, a história do pintor Juan Pablo Castell assassino confesso de uma mulher pela qual é obcecado, recebeu elogios de Camus e Thomas Mann quando de seu lançamento e permanece como referência de novela, mais de meio século depois de ter sido escrita. Ali estão as reflexões sobre a solidão e a desumanização no mundo contemporâneo que Sábato irá desenvolver, dentro de outros contornos, em seus dois outros romances. Uma pequena obra-prima.

Onde encontrar:

www.ciadasletras.com.br

Fone: (11) 3707 3500

“A montanha que devemos conquistar”, de István Mészàros

Acaba de ser publicado no Brasil o mais recente livro de István Mészáros, “A montanha que devemos conquistar”. É um título que chama a atenção na livraria. Não é comum encontrar obras com um tom convocatório tão otimista e encorajador, exceto, talvez na prateleira de auto-ajuda, onde Mészáros não gostaria que suas obras fossem colocadas. E é natural; afinal, trata-se de um pensador de grande calibre, um dos nomes mais relevantes do pensamento progressista contemporâneo e, sendo discípulo e amigo de Lukács, marxista ortodoxo numa época em que eles não são mais comuns. O lugar de Mészaros é, portanto, na prateleira de ciências humanas.

Cumpre perguntar que montanha é esta que Mészáros tão entusiasticamente nos convida a conquistar. E ele nos responde logo nas primeiras páginas: “O Estado se afirma e se impõe como uma montanha que devemos escalar e conquistar”. Trata-se aqui, portanto, do Estado, que será, ao longo de sete capítulos, alvo de uma crítica radical sob o ponto de vista marxista. Fazendo o Estado, segundo ele, parte do mesmo sistema do capital e do trabalho e um dos elementos que o protegem, legitimam e reforçam, deverá sofrer o mesmo processo de “fenecimento” (termo usado nesta tradução) e ser, definitivamente, ultrapassado, dando espaço a novas formas de sociabilidade.

Podemos, é claro, impugnar o entendimento de Mészáros em vários pontos. Faremos mal, contudo, em deixar de apreciar os diálogos que estabelece com autores como Hobbes e, principalmente, com Hegel, pensador que ele conhece a fundo e por quem guarda grande estima. O percurso de Mészaros até a montanha a ser conquistada é, portanto, interessante mesmo para aqueles que não querem chegar até ela.

As pouco mais de cem páginas da obra (sucedidas por um longo apêndice e por uma entrevista com o autor) deixam muitas questões em aberto. Meszáros parece estar bem ciente disso: logo na introdução, anuncia a preparação de um novo livro, chamado “A Crítica do Estado”, que incorporará parte de “A Montanha que devemos conquistar”. Aguardemos, portanto. Enquanto isso, os apontamentos, leituras, alertas e provocações de Mészáros neste caminho até a montanha permanecem conosco.

Cartas de J.R.R Tolkien

capacartas600

Toda edição de obras completas de um escritor famoso traz um volume dedicado à sua correspondência. É natural. Tantas são as interpretações, boas e más, a que um clássico está sujeito – é clássico justamente por isso, porque permite interpretações – que, no meio delas, é importante ouvir a voz do autor para coibir certos excessos imaginativos da crítica.

No caso de um escritor como J.R.R Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, esse procedimento é especialmente importante. Sendo Tolkien o criador não apenas de uma história , com personagens, enredo, temática e sentido, mas de um universo inteiro, povoado por humanos e seres fantásticos, com histórias e línguas próprias, a distância que o separa da  moderna ficção ocidental é considerável. Consequentemente, também é grande a quantidade de interpretações derivadas do estranhamento , além de muitas dúvidas sobre outros aspectos da obra. As Cartas de J.R.R Tolkien traduzidas para o português pelo estudante gaúcho Gabriel Brum, servem para cobrir essa lacuna e ajudar a entender melhor a singular obra do autor inglês. Nessas cartas, endereças a amigos, familiares, editores e outros escritores, descobrimos que Tolkien detestava a ficção contemporânea, era grande apreciador de épicos e sentia-se mais influenciado por eles do que pelos grandes nomes da literatura inglesa, como Dickens, Shakespeare ou Sterne, e também pelo cristianismo, fruto de sua formação católica.

Ler Tintim hoje

tintim_completo_02A fama de Tintim entre os anos 40 e 60 – isto é, no auge de sua popularidade – , fez com que o presidente Charles de Gaulle fosse obrigado a admitir que, no estrangeiro, ele era o único francófono capaz de rivalizar com ele. Talvez fosse um excesso do presidente francês: Tintim era muito mais conhecido do que De Gaulle e provavelmente muito mais admirado. São nada menos do que 200 milhões de álbuns vendidos desde que o cartunista belga Hergé publicou a primeira história  no “Petit Vingtième”, suplemento do jornal belga “Le Vingtième Siécle” destinado aos jovens: “As Aventuras de Tintim no País dos Sovietes”.

O título já diz tudo: o repórter belga Tintim vai à então recém-criada União Soviética para fazer uma reportagem sobre aquele novo país que contava apenas doze anos de existência. Enfrenta tudo o que um visitante da União Soviética tem direito: a repressão da polícia, o olhar atento dos vigilantes a qualquer estrangeiro (ainda mais, Ocidental), o aparelho estatal atento a tudo e, enfim, a falta da liberdade com a qual está acostumado. O roteiro não parece próprio para jovens – ou, pelo menos, para os jovens de hoje – mas o livro ajudou a catapultar Tintim para o sucesso, vendendo dezenas de milhões de cópias e se tornando um dos mais conhecidos de toda a  sua bibliografia.

Uma pequena passada pelas suas páginas nos mostra as características principais da obra de Tintim, como o traço ligne claire (“linha clara”, em francês), marcante e forte, sem distinguir figuras que estão no plano de fundo ou em primeiro plano. Mas, principalmente, o que nos chama a atenção no livro é que ele parece datado, por uma série de razões: é em preto e branco; o traço clear line talvez não seja tão aceito hoje; a própria referência a um país que já não existe , e a maneira como esta referência é feita – enfim, tudo dificulta a nossa aproximação do texto. A leitura destas Aventuras de Tintim no País dos Sovietes têm, para nós, um efeito semelhante ao da leitura daqueles relatos fantásticos de exploradores europeus nas Américas ou de Marco Polo na China. E não só delas. Todas as obras de Tintim nos dão essa mesma impressão.

É uma sensação estranha. Em 1929, quando este livro foi publicado, pouca gente sabia como era a vida na União Soviética. Tintim era um stranger in a strange land, e nós, ocidentais como ele, o considerávamos um emissário nosso nestas terras. Sua visão dos soviéticos era a nossa, assim como a sua visão dos chineses, dos australianos e de todos os povos do mundo correspondia mais ou menos à nossa visão deles. Não por acaso, Tintim no Congo é, hoje considerado um livro racista pela maneira como retrata os africanos sem qualquer preocupação com o politicamente correto, que não existia em 1929, em 1939, em 1949 e até mesmo em 1959.  Da mesma forma, em 1929 fazer uma viagem destas para os confins do mundo civilizado era algo raríssimo: ninguém, ou quase ninguém, ia a Macchu Picchu falar em aimará com os nativos. Hoje, visita-se não só Macchu Picchu mas qualquer vila minuscula em volta e pede-se uma Coca-Cola em inglês sem problemas. Qualquer um faz o caminho de Santiago, visita a Muralha da China, faz mochilões por qualquer canto desconhecido do mundo ou, muito simplesmente abre o Google Earth e tem uma idéia de como é o mundo para além das nossas fronteiras. Um Tintim não precisa nos emprestar sua visão do mundo eurocêntrica para que possamos conhecer o planeta. Ele não é necessário e também não é interessante. Boa parte do roteiro de suas histórias e de suas aventuras calca-se no choque civilizacional entre ele,habitante de um dos centros da cultura européia, e a perifeira ou além-periferia que ele visita. Claro que são aventuras inteligentes, que os personagens são ótimos – o capitão Haddock é simplesmente espetacular – mas esse confronto, essa aventura que aparece em todos os títulos de suas histórias já não fazem muito sentido para nós. O mundo século XXI é um mundo sem grandes aventuras, sem grandes lugares para descobrir. Tintim é muito menos popular hoje por isso. É pena. Talvez uma das melhores razões para lê-lo seria a possibilidade de recordar de um mundo – nem tão distante do atual – em que visitar o outro lado do Globo envolvia muito mais do que simplesmente clicar um mouse.

O humanista Edward Said

“Humanismo e crítica democrática” foi o último livro concluído pelo crítico e ensaísta palestino Edward Said antes de sua morte, em 2003. Não fosse o seu tamanho relativamente diminuto (apenas 183 páginas) e o fato de ser uma coletânea de ensaios e palestras, poderíamos dizer, sem receio, que é a obra mais representativa dos fundamentos filosóficos sobre os quais se assentam os demais trabalhos de Said, como “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”, livros freqüentemente mal entendidos tanto pelos seus críticos quanto pelos seus admiradores.

Lidos à luz deste, os demais livros de Said mostram-se não como aquelas denúncias raivosas contra a opressão e a exploração colonial travestidas de “scholarship” que os seus adversários mal intencionados tentaram (e tentam) fazer crer que são, mas sim como alertas contra o fechamento progressivo da mente dos países ocidentais. O antídoto, Said aponta, é recuperar a velha noção de humanismo, propondo que a aventura intelectual de cada um não seja limitada por preconceitos e barreiras inventadas. Emerge, assim, da leitura destes cinco ensaios – dos quais pelo menos dois, “O regresso à filologia” e “Introdução a ‘Mimesis’, de Erich Auerbach”, merecem o título de magistrais – um Said que mais parece um Julien Benda (que foi alvo de suas críticas) do que um Homi Babbha (que é um discípulo confesso seu), um “homme de lettres” apologista do universalismo, crente na dignidade e no valor essencial de todos os seres humanos, inimigo dos extremismos e exclusivismos e movido por uma quase comovente confiança no conhecimento, na cultura e no homem.

Almoços com C.S. Lewis

Quem abre Conversando com C.S. Lewis (editora Pórtico, tradução de Sandra Martha Dolinsky) pensando que irá encontrar, como o título sugere, uma longa entrevista com o autor de Crônicas de Nárnia sairá decepcionado: nas 223 páginas que compõem o volume a voz de Lewis aparece poucas vezes e sempre entre aspas em trechos cuidadosamente escolhidos pelo autor, Alistar McGrath, professor de teologia em Cambridge. E digo decepcionado em mais de um sentido. Em geral, quem busca obras compostas por longas entrevistas com um autor, artista ou cineasta é o aficcionado ou admirador de longa data, desejoso de descobrir novidades de sua vida pessoal ou da elaboração dos livros, obras de arte ou filmes que só podem sair da boca do admirado, após serem devidamente provocadas por um repórter inteligente. Não são livros, portanto, de introdução. E, no entanto, é exatamente isto que Conversando com C..S Lewis é: um livro para introduzir o leitor à obra de Lewis.

Porque, então, fala-se em “conversa” com C.S. Lewis? Na introdução, McGrath afirma que pretende organizar oito “almoços” imaginários, cada um com um tema específico, onde C.S. Lewis “aparece” através de suas ideias e obras. A conversa é, portanto, menos com o próprio Lewis do que com aquilo que ele disse e pensava. Nas palavras do próprio McGrath, o objetivo é “oferecer resumos precisos das ideias de Lewis, temperados com algumas de suas melhores frases e citações , para esboçar aos leitores sua maneira de pensar. Vamos explorar suas ideias, ver como podem funcionar e descobrir como podemos usá-las”. Ou seja, importa não apenas a obra ficcional e ensaística de Lewis, mas o uso prático de suas ideias na condução da vida das pessoas.

Assim, nos oito “almoços” organizados por McGrath verifica-se um evidente tom cristão. É natural: McGrath é um clérigo anglicano e C.S. Lewis, embora seja mais conhecido como autor de ficção, foi um dos maiores apologistas cristãos do mundo de língua inglesa no século XX, a par somente de G.K. Chesterton (de quem era, aliás, admirador) e seus livros com esta tônica, como “Cristianismo Puro e Simples” e “Reflexões sobre os Salmos”, são de vasta circulação entre cristãos de todas as denominações.

O foco do livro, no entanto, é Lewis e sua obra, que McGrath apresenta aos iniciantes com um tom de aula informal muito habilmente mantido em toda a obra, mesmo nos momentos em que aborda questões conceituais mais complexas. E, nesse interim, lança luz sobre pontos importantes da vida do autor que certamente agradarão ao público mais familiarizado com sua obra, como o Inklings (grupo de intelectuais britânicos com particular afeição pelas tradições inglesas e nórdicas), os detalhes de sua conversão ao cristianismo e a amizade com J.R.R Tolkien, a quem – descobrimos com a leitura – ele propôs para o Nobel de Literatura de 1961. No fim, um enriquecedor apêndice com uma biografia de Lewis e uma lista de indicações de leitura sobre cada um dos temas abordados nos “almoços” muito bem organizados e servidos por McGrath.

A Joana D’Arc de Bernanos

“Joana, relapsa e santa” dá prosseguimento à iniciativa da É Realizações em publicar a obra de Georges Bernanos no Brasil. Mais conhecido pelos seus romances, como “Sob o Sol de Satã” e “Diário de um Pároco de Aldeia”, o escritor francês aparece aqui como o polemista que fustigava com igual fervor aos comunistas e aos capitalistas, aos conservadores e aos progressistas, aos franceses e aos estrangeiros, e também aos anticatólicos e aos católicos – sendo ele um fiel de primeira hora e primeira fileira da Igreja.

Neste livro, ele ataca a instituição Igreja – a Igreja que, com seus grandes teólogos, seus mestres da lógica, da dialética e da jurisprudência, condenou uma santa à fogueira. Poucos católicos foram tão incisiva e duramente críticos do catolicismo quanto Bernanos. No entanto, se sua crítica dirige-se à Igreja institucional, o faz sem cair no batidíssimo confronto entre esta e a “fé interior”: não é um autor que se preste a tais simplificações. O ataque de Bernanos aos erros dentro do catolicismo que levaram à condenação de Joana semelha ao que disse Chesterton sobre o homem moderno: é preciso pôr uma arma na sua cabeça, não para matá-lo, mas para trazê-lo á vida.

De santos e sábios

Os dois tipos básicos de leitor que acompanha os lançamentos literários – o acadêmico especializado e o competente aficcionado que Borges qualificou certa vez, falando de si mesmo, de “hedonista” – podem divergir em pontos fundamentais de sua atitude perante o texto, mas provavelmente concordarão sobre a relevância e a qualidade de uma obra como “De santos e sábios” (Iluminuras, 328 páginas). Afinal, é a primeira vez que os ensaios, conferências, artigos de jornal, entrevistas, reportagens, anotações, cartas e escritos de juventude do autor de “Ulysses”, produzidos ao longo de quatro décadas de incessante trabalho, são publicados em língua portuguesa num só volume.

E concordarão porque, fundamentalmente,  os integrantes destes dois grupos – sendo desnecessário dizer que uma mesma pessoa pode, em momentos e circunstâncias diferentes, fazer parte de um e de outro – são plenamente atendidos por ele:  o primeiro grupo – o dos acadêmicos especializados – encontrará o primeiro texto de Joyce que se conhece – “Não se deve confiar nas aparências” – resenhas, notas e comentários de livros publicados em jornais irlandeses e até uma entrevista com um automobilista francês, conduzida pelo escritor quando foi repórter do “Irish Times”. O segundo grupo – o do leitor aficcionado, o “hedonista” –  terá o prazer de ler páginas como “Irlanda, ilha dos santos e sábios”, uma belíssima introdução à cultura e à história de seu país (e que, como se vê, dá título ao livro), artigos sobre seus companheiros de panteão Wilde, Shaw e Blake e textos sobre a conturbada história política irlandesa, suas relações com a Inglaterra e com o restante do Ocidente. Tudo entremeado por comentários e notas e seguido de ensaios – todos excelentes – dos responsáveis pela edição. Uma obra importantíssima.

Onde encontrar:

http://www.iluminuras.com.br

Rumo à Estação Finlândia

Imagem

Um trem vindo da Alemanha chegou à estação Finlândia, na cidade russa de São Petersburgo, no dia 3 de abril de 1917. Entre os seus passageiros encontrava-se Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido pelo nome de Lênin. Naquela altura, o líder bolchevique já não se via como o indivíduo Vladimir Ilitch Ulianov, com desejos, fraquezas e problemas particulares, mas sim como um verdadeiro agente da história, disposto a tudo para construir um mundo melhor para a humanidade do futuro. A chegada à dita estação marcaria o culminar de uma corrente de pensamento, à época já contando quase dois séculos, caracterizada pelo culto ao progresso e pela crença nas forças históricas, no aperfeiçoamento do homem e na busca por um mundo melhor: a esquerda.

Está, assim, explicado o título de “Rumo à Estação Finlândia”, uma das mais celebradas obras do crítico e escritor americano Edmund Wilson (Editora Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Brito). É um livro difícil de definir. Publicado em 1940, até hoje resiste às tentativas de catalogação. É História? Filosofia? Jornalismo? É provável que cada leitor de “Rumo à Estação Finlândia” tenha a sua própria definição do que é a obra. Quanto a mim, entendo que é um grande e abrangente ensaio – o gênero por excelência das obras “indefinidas”,  que arriscam conexões de saberes e novas interpretações sem seguirem um método rígido. Nele, Wilson mapeia o trajeto intelectual que levou Lênin a tomar o trem para a Estação Finlândia, partindo de Michelet, passando por Saint Simon, Marx, Bakunin, Trotski e chegando ao próprio líder soviético. A obra agradou, e segue agradando, tanto ao leitor comum quanto ao especializado, que, mesmo podendo fazer um ou outro apontamento às leituras de Wilson sobre certos personagens – em especial Marx, Lênin e Trotski, sobre os quais não se sabia muito quando ela foi escrita – não lhe pode deixar de admirar a erudição, a capacidade de síntese, a elegância do estilo e a capacidade de perceber e conectar as múltiplas vozes do pensamento progressista.

O verdadeiro Ratzinger

Imagem

Lançado em 1968, Introdução ao cristianismo é um dos títulos mais lidos e influentes da teologia da segunda metade do século XX. Não depende, portanto, de uma circunstância favorável – um “gancho” – para ser lembrado e indicado por este blog.

No entanto, devemos admitir que esta indicação é, sim, animada pelo momento – e o momento, como se sabe, é o da retirada de Bento XVI e o da escolha Francisco I como papa. Fazemo-la por vários motivos, mas, sobretudo, para que Joseph Ratzinger, o dito “Rottweiler de Deus”, o “Panzercardinal”, o reacionário que olha feio para o mundo de hoje e o de amanhã, receba do público os qualificativos que lhe são devidos. E estes qualificativos, como a leitura de Introdução ao Cristianismo mostrará, não incluem nem aqueles insultos baratos que comumente se lhe atiram à cara e nem aquele adjetivo que, não sendo insulto barato, é, entretanto, usado com frequência de modo pejorativo:  o de “conservador”. Os primeiros – os insultos baratos – são obra de quem não tem a mínima noção do que Ratzinger pensa e disse; já o segundo – o adjetivo “conservador” – é obra de quem não tem a mínima noção do que é ser um conservador no sentido católico, como se a oposição ao aborto e ao casamento homossexual não fossem comuns a todas as vertentes do catolicismo romano, das mais liberais às mais tradicionais.

Assim, o Ratzinger que destas páginas emerge não é apenas o teólogo refinado e aberto, mas também o homem profundamente conectado com os problemas do mundo contemporâneo, sensível às questões sociais e políticas e, mesmo apontando os excessos da Teologia da Libertação, nelas reconhecendo “um grande número de percepções dignas de consideração”. Situado para além dos clichês e da propaganda, este Ratzinger pode não agradar a todos, nem aos inimigos de primeira hora e nem a muitos de seus admiradores. Talvez por ser o verdadeiro Ratzinger.

Junger, guerreiro e artista

 Imagem

Ex-militar condecorado pela sua participação na 1ª. Guerra Mundial e escritor premiadíssimo, o alemão Ernst Junger (1896-1999) teve uma obra e uma existência marcadas pelo oscilar entre a atitude contemplativa de esteta e artista e o engajamento destemido de guerreiro. Demonstram-no suas duas maiores obras, “Tempestades de Aço”, relato de suas experiências na Primeira Guerra e elogio à vida militar e do confronto bélico, e este “Nos penhascos de mármore”, publicado pela Cosac e Naify.

A história se passa em terras imaginárias: do alto de um penhasco, onde vivem uma vida de meditação e estudo, dois irmãos contemplam a cidade de Marina e suas regiões circundantes, ameaçadas por uma horda de bárbaros. Inicialmente, crêem que o mero poder da palavra e da linguagem poderá converter os invasores à civilização. Acabam, no entanto, por unir-se à luta física contra os invasores, aliando-se a um príncipe e um militar. Embora “Nos penhascos de mármore” seja frequentemente considerada um exemplo de um dos lados – o esteta – de Junger, é exemplo acabado de síntese do guerreiro e do artista que havia na obra e na personalidade do grande escritor alemão.

A vida intelectual

Publicado pela primeira vez em 1921, “A Vida Intelectual”, de A. D. Sertillanges é uma das mais conhecidas obras de introdução aos estudos superiores já escritas. Sucesso nos EUA e na Europa, o livro (no original francês) teve boa circulação nos meios católicos brasileiros décadas atrás e ainda pode ser encontrado em antigas bibliotecas. Felizmente, graças à iniciativa da É Realizações, a obra ganhou uma edição brasileira em 2010 e, agora, uma reimpressão.

A base para o estudo de A.D. Sertillanges é a carta “Dezesseis preceitos para adquirir o Tesouro da Ciência”, de Santo Tomás de Aquino. Às lições do Aquinate o padre Sertillanges agrega a força estilística, formada na velha escola da retórica eclesiástica (a mesma que nos deu um Padre Vieira, para ficarmos num exemplo próximo) que nada perdeu na feliz tradução de Lilia Ledon da Silva para o nosso idioma. Em lições curtas, o sacerdote explica ao jovem iniciante as técnicas de leitura, estudo e organização da vida de um postulante a intelectual. Que ninguém, no entanto, se engane com o padre Sertillanges: “A Vida Intelectual” não conclama ninguém a abandonar a agitação do mundo e a refugiar-se no claustro. Trata-se de um livro para o homem de ação, para o estudante cheio de trabalhos e premido pelas provas, para o profissional atarefado, para, enfim, quem luta pela vida e enfrenta tempo e condições adversas. No mínimo, será uma leitura muitíssimo produtiva para qualquer estudante sério.

Onde encontrar:

http://www.erealizacoes.com.br

“O Hobbit” em quadrinhos

Imagem

Adaptações de obras para outras mídias têm o condão de, salvo em alguns poucos casos, desagradar aos fãs. O fenômeno é geral, e um exemplo particular temos em “O Hobbit”, de J.R.R Tolkien, transposto recentemente para o cinema, que provocou desagrado em grande parte dos aficcionados pela obra do escritor inglês. Os motivos elencados são vários, mas centram-se num excesso de liberdade artística por parte dos realizadores, oriunda das interpolações narrativas presentes no filme que constituem, na visão dos fãs, um pecado imperdoável.

Pois bem: se há algo de que o fã não poderá reclama nesta adaptação de “O Hobbit” para os quadrinhos é de falta de fidelidade à história original. A adaptação de Charles Dixon, ex-roteirista de Batman, segue pari passu o texto de Tolkien, moldando-o de acordo com as exigências de imagem e enredo das HQs. Cabe destacar, ainda, as ilustrações em aquarela da lavra de David Wenzel.

Onde encontrar:

http://www.devir.com.br

Nova tradução de “Dom Quixote”

Imagem

“Dom Quixote” é um dos livros mais traduzidos e adaptados do mundo. A primeira edição em português data de 1794: dentre as recentes, destaca-se a de Carlos Nougué e José Luiz Sanchez, que logrou reproduzir, muito competentemente, o sabor da prosa original.  Este é, aliás, o desafio a ser enfrentado por todo tradutor do Quixote para a língua portuguesa: procurar ser fiel ao original ou adaptar o texto para uma linguagem mais moderna?

O tradutor gaúcho Ernani Ssó preferiu o segundo caminho. Nesta edição de bolso publicada recentemente pela Companhia das Letras, Ssó preferiu usar o vocabulário moderno até onde fosse possível, incluindo aí os muitos provérbios e ditados presentes nos livros. Embora o resultado possa não ser especialmente atrativo para os cervantinos mais fanáticos, que preferem o contato mais direto possível com a obra original, esta tradução sem dúvida aproxima o Quixote do leitor iniciante e, especialmente, do jovem. E é para este leitor que foi feita.

Onde encontrar:

 www.companhiadasletras.com.br

Foucault e o Irã

 

 

“Foucault e a revolução iraniana” (É Realizações, 480 páginas) é um livro que irá surpreender (e decepcionar) muita gente nos bancos acadêmicos do país. O propósito de seus autores –  a historiadora iraniana Janet Afary e o cientista político americano Kevin B. Anderson – é analisar um evento muito pouco conhecido da biografia de Michel Foucault: a sua viagem ao Irã, no final dos anos 70, como correspondente do “Corriere della Sera” e do “Noveau Observateur”, para uma série de artigos sobre o processo revolucionário que levou Aiatolá Khomeini ao poder. Não seria fato para merecer maiores atenções não fosse por um detalhe: ao contrário do que se poderia imaginar, Foucault não foi propriamente um crítico do regime de Khomeini, havendo até mesmo fortes indicações de que tenha sido o oposto disto.

Como pôde Foucault – homossexual, ateu, estudioso (e denunciante) do discurso de poder na modernidade e das diversas modalidades de repressão – tratar assim a um regime que, na melhor das hipóteses, não lhe seria nem um pouco simpático? Em princípio, parece um erro circunstancial de avaliação por parte de Foucault, sem qualquer relação com o resto de sua obra e de seu pensamento. Não é, contudo, o que Afary e Anderson defendem – e de maneira muito convincente – em “Foucault e a revolução iraniana”. Dando especial destaque para questões referentes a relações de gênero e sexualidade, os autores demonstram que, longe de ser um acidente de percurso, a aproximação de Foucault com o regime de Khomeini encontra surpreendente – e inquietante – fundamento em seu pensamento.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

Teoria da argumentação jurídica

 

O Brasil é um país carente de boas traduções. Muito da produção científica dos principais centros culturais do mundo demora muito tempo para cá chegar. Em muitos casos simplesmente não chega, obrigado o pesquisador e o estudante a importá-la. Por essa razão, a publicação de Teoria da argumentação jurídica, de Robert Alexy (Forense, 350 páginas, tradução de Zilda Hutchinson Schild Silva),  uma das mais influentes obras de Filosofia do Direito das últimas décadas, é uma excelente notícia para estudantes, advogados, magistrados e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão envolvidos com o Direito no Brasil.

Nesta obra, Alexy parte da necessidade de se fundamentar racionalmente o discurso das decisões jurídicas. É da opinião de que esta fundamentação não só é possível como é desejável, desde que baseie em regras específicas. Após uma excelente introdução às teorias argumentativas que lhe antecedem, o autor apresente, na segunda e na terceira parte do livro (especialmente nesta última) quais são estas regras específicas como se as deve aplicar na prática.

Onde encontrar:

www.grupogen.com.br

Telefone: (21) 3543 0770

Um livro de professor

Um dos meus momentos preferidos da obra de José Ortega y Gasset é o trecho de “A Rebelião das Massas” em que ele descreve as principais características dos acadêmicos de nosso tempo: “O especialista sabe muito bem seu íntimo rincão do universo, mas ignora basicamente todo o resto”. Passadas oito décadas da publicação do clássico ensaio do filósofo espanhol, esta definição só tem ganho atualidade. As universidades, em todo o mundo, tornaram-se reduto de “especialistas” semelhantes a burocratas que executam sua função sem nem olhar o que o colega ao lado está fazendo. Lamentavelmente, esta é, cada vez mais, a regra – e as exceções, como se costuma dizer, estão aí para confirmá-la.

O jurista português Jorge Miranda mostrou que é uma destas felizes exceções. Autos de vários títulos em Direito Constitucional, Teoria Geral do Estado e assuntos correlatos, publicou o professor catedrático da Universidade de Lisboa este Curso de Direito Internacional Público (Editora Forense, 321 páginas) com a advertência, já na primeira frase que abre o livro, de que não era um especialista na matéria, quase desculpando-se pela ousadia de aventurar-se por seara alheia. Pois quiséramos nós, estudantes, que o professor Miranda cometesse outras ousadias como esta: elaborado com base nas aulas ministradas pelo autor, o Curso traz o dinamismo, a clareza e a sistematicidade das aulas bem dadas, preparadas por professores que realmente querem que seus alunos aprendam. Prova-o, além de tudo, a extensa bibliografia, disposta não ao fim do livro, como é costume, mas sim nos rodapés das páginas, prontas para servirem de apoio para o estudante que quer aprofundamento nos temas introduzidos pelo livro. O livro de Jorge Miranda pode não ser obra de especialita. Mas é , sem dúvida, um livro de um verdadeiro professor.

 

Onde encontrar:

http://www.grupogen.com.br

O Brasil Holandês

Estudar o período em que os holandeses estiveram no Nordeste sempre deu margem aquela velha indagação que todo brasileiro já se fez ao menos uma vez: teria sido melhor se o Brasil não tivesse sido colonizado pelos portugueses? A razão para a dúvida está na idéia de que, sob o governo de Maurício de Nassau, o Nordeste e, especificamente, Pernambuco, alcançaram um grau de desenvolvimento que nunca antes haviam atingido e nunca mais atingiriam depois que ele e seus patrícios deixaram a região. Não é preciso dizer que há simplificações e lugares-comuns nesse tipo de raciocínio, fruto de leituras apressadas e preconceitos enraizados. Para evitá-los é que existem livros como este O Brasil Holandês, de Evaldo  Cabral de Melo (Editora Companhia das Letras, 512 páginas).

 

A primeira consideração a ser feita sobre o livro é que ele traz uma informação equivocada na capa. Ali está escrito que o grande historiador Evaldo Cabral de Melo, autor de Um Imenso Portugal e A outra Independência e um dos maiores especialistas vivos no assunto, é o organizador do volume. Fica-se com a impressão de que o trabalho de Evaldo consistiu apenas em copiar trechos relativos ao Brasil dos relatos dos holandeses que aqui estiveram e organizá-los com um breve comentário aqui e ali. O que O Brasil Holandês nos traz é justamente o contrário: um livro onde os trechos selecionados são companheiros de caminho e não o caminho em si, sendo, assim, muito mais do que uma seleta ou livro de comentários, mas sim uma obra no pleno sentido da palavra. Obra, aliás, muito original e difícil de classificar em critérios estanques, além de escrita em linguagem clara e concisa.

 

Onde encontrar:

 

www.companhiadasletras.com.br

(11) 3707 3500

Ensinando a ler

Como Ler Livros, o clássico guia de leitura do educador americano Mortimer Adler (1902-2001) e de seu colega Charles Van Duren acaba de ganhar uma nova edição brasileira através da iniciativa da É Realizações, que vem promovendo a publicação em solo pátrio, muitas vezes de forma pioneira, de livros dedicados à alta cultura. A primeira edição americana da obra data de 1940, quando um guia como este talvez não fosse tão necessário. Muitos os conselhos presentes no livro de Adler faziam parte do conhecimento comum de todos os bons estudantes e eram conditio sine qua non para quem quisesse seguir estudos universitários a sério. Hoje, muitos deles talvez sejam novidade até mesmo para quem tem o hábito da leitura.

Adler distingue quatro níveis de leitura, indo do mais básico ao mais complexo: elementar, inspecional, analítico e sintópico. Os dois primeiros não demandam muito tempo e servem como uma preparação para o terceiro, o analítico, que corresponde à leitura propriamente dita e ao patamar que, Adler espera, o seu leitor alcançará ao terminar o livro. O quarto nível – a leitura sintópica – é o mais complexo e adequado às exigências do Ensino Superior. É a leitura comparativa, que busca extrair o máximo de vários livros sobre um mesmo assunto. Em princípio, este capítulo foi escrito como guia para quem faz da leitura aprofundada a sua atividade principal, como estudantes universitários ou até mesmo professores. Dado o atual estado de coisas, o livro de Adler acaba sendo, hoje, todo ele, essencial para um graduando – até mesmo a parte da leitura elementar.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 55725363

O homem certo, no lugar certo, na hora certa

O Prêmio Nobel merece todas as críticas que se lhe fazem. Dizem que seus critérios são escusos, que não premia sempre os melhores, que atende a interesses outros que não os puramente literários. Dizem também que está sujeito a ventos que vêm da política, da economia e até da psicologia, quando os julgadores (europeus, na maioria) são acometidos por súbito sentimento de condescendência para com os certos países, mormente os de Terceiro Mundo, ou os irrelevantes em termos culturais, ou os dois. Dizem de tudo – e não é sem razão aquilo que dizem. De fato, premia-se por vários motivos discutíveis: para sanar “dívidas históricas”, para dar reconhecimento a determinadas literaturas, para atender a demandas de bastidores. O resultado é a vitória de representantes de minorias perseguidas (seja por etnia, idioma, religião ou sexo) e da periferia econômica, social e política do mundo, muitas vezes no lugar de nomes que freqüentam os principais centros de cultura do Ocidente.

Por outro lado, há a ação da propaganda. E ninguém faz propaganda melhor do que a esquerda, em especial os comunistas, solo de onde, aliás, brotou o termo agitprop. A propaganda fez Jorge Amado ser considerado um gênio, colocou Gorki no mesmo patamar de Dostoievski, transformou Brecht num grande dramaturgo e Jean Paul Sartre num ícone de uma geração, mais citado do que lido e mais imitado do que citado. Borges foi um dos primeiros a apontar essa particularidade do Nobel quando disse que Neruda, além de ser péssimo poeta, só saiu vencedor devido às suas posições políticas. O exagero do mestre argentino, embora exagero, demonstra que esta particularidade do prêmio não é nova.  Gente de quarta categoria já foi premiada. Gente que defende determinada bandeira, linha ideológica, pensamento. Gente que não deveria ter vencido. Por outro lado, Joyce, Pessoa, Drummond e Borges nunca ganharam um Nobel; Dario Fo, Elfriede Jellinek e Toni Morrison, sim. O Nobel, por si só, não quer dizer muita coisa – ao menos, não quer dizer tanto quanto alguns ainda crêem.

José Saramago preencheu plenamente os dois pré-requisitos para ser conduzido, com todas as honras, à escadaria do Conservatório Real de Estocolmo. Em primeiro lugar, é comunista. Não é “de esquerda”, “liberal no sentido americano” ou “social-democrata”: é comunista. Nunca deixou de sê-lo, apesar de seu recente (e bastante atrasado) rompimento com Fidel Castro. É materialista: há crítica, implícita ou explícita, à religião em seus livros. É marxista: removendo os véus da ideologia, procura desnudar a crua realidade em constante mutação e apontar-lhe o fundamento material que dá origem a toda forma de opressão. Por último, é intransigente. Não atenuou nunca a sua opção ideológica e até a justificou biologicamente: “sou um comunista hormonal, no meu corpo há hormônios que me fazem crescer a barba e outros que me fizeram ser comunista. Não quero me transformar em outra pessoa”. Um hormônio, que, aliás – algum leitor mais bem-humorado notará – parece estar intrinsecamente ligado ao outro. Não no caso de Saramago, que se mantém cuidadosa e inteligentemente longe da caricatura.

Por outro lado, sendo português, Saramago é da periferia. Apesar de ser Europa, Portugal é periferia em todos os sentidos que o termo “periferia” pode assumir, do político-econômico ao artístico. Sua literatura é praticamente desconhecida fora do seu pequeno território: é pouco conhecida (excetuando o próprio Saramago e um ou outro clássico mais óbvio) até mesmo dos brasileiros. É menos relevante para a cultura do século XX do que a de alguns países latino-americanos, como a Argentina. O idioma de Saramago é menos importante, em termos europeus, do que o russo ou o holandês. Ao mesmo tempo, é uma língua de matriz européia, falada em todos os continentes e com uma literatura de oitocentos anos de idade. Nunca havia sido concedido um prêmio para os lusófonos. Era preciso reparar este defeito – e o melhor, naquele momento, era José Saramago. Um legítimo caso de homem certo na hora certa.

Homem certo? Poderá ser chamado de “homem certo” quem ganha um prêmio alavancado pelas suas convicções ideológicas e com a complacência dada pela sua condição periférica? Num certo sentido – que tem a ver com aquilo que influencia decisivamente a escolha do prêmio -, sim. Noutro sentido – que tem a ver com a justiça propriamente dita -, não. Quem ganha a notoriedade que um prêmio como o Nobel confere ao premiado deveria, em tese, merecê-la por méritos próprios. É a questão que se colocou à época e ainda se coloca nestes momentos que seguem a sua morte, quando uma parcela dos que sobre ela escreveram apontaram estes dois fatores como determinantes para a fama do autor. Não foram apenas dois ou três que colocaram sobre os ombros da propaganda política e da condição periférica de Saramago o leitmotiv de sua premiação e de sua fama mundial. Não foram apenas dois ou três, também, que fizeram questão de diminuir sua obra com bases nestes predicados. Segundo esta corrente, Saramago não apenas foi catapultado pela sua opção ideológica como, por essa mesma opção, não merecia ganhar e não merece a importância que lhe deram. Foi chamado de antissemita pelas suas opiniões contrárias à ação de Israel na Palestina, de propagandista barato pela suas defesas dos regimes de esquerda, de anti-cristão pelas suas declarações sobre a Igreja e, naturalmente, de comunista, por todo o resto. Para muitos, Saramago morreu como um verdadeiro criminoso.

Deste último crime – o de ser comunista – Saramago é réu confesso. E, como muitos deles, fechou os olhos para certas coisas que diante das quais não se deve fechar. Até o fim da vida, defendeu um regime totalitário que matou centenas de milhões de pessoas em um século, ganhando de todas as guerras e epidemias que já castigaram a terra. Silenciou durante muito tempo sobre Cuba, sobre a Coréia do Norte, sobre tudo o que o comunismo disseminou. Tudo isso é verdade. As críticas que se faz ao comunista Saramago são as mesmas que se pode fazer a praticamente qualquer comunista. Estendê-las à sua obra é, porém, um grave e óbvio equívoco. A obra de Saramago, em seus melhores momentos – aqueles que, de fato, o fizeram ser premiado – nada tem de comunista. Aliás, Ensaio sobre a cegueira é o tipo de livro que poderia perfeitamente ter sido escrito por um anti-comunista, nascido em país sob este regime, exilado por razões políticas e desejoso de atrair a atenção internacional e incitar seus concidadãos a tentar a libertação à maneira dos cegos da narrativa. Este mesmo livro é exemplo claro de que ser periférico não é o mesmo que ser provinciano: não fala apenas a seus concidadãos ou a todos aqueles que, por algum tipo de curiosidade momentânea, estão interessados nas coisas de Portugal. Mesmo quando seu pequeno país é tema de obra – veja-se o caso de História do Cerco de Lisboa, O ano da morte de Ricardo Reis ou A Jangada de Pedra – os temas ali tratados são absolutamente universais e podem ser transpostos, com pouca perda, para qualquer outra realidade. A opinião de um Harold Bloom é definitiva: “Saramago é o maior escritor contemporâneo”. E Harold Bloom pode ser criticado por muitas coisas, mas não por desconsiderar a importância da universalidade de um escritor ao avaliá-lo.

A crítica de fundo ideológico não pode ser levada a sério – a própria esquerda faz isso com freqüência, sem ser levada a sério por quem não é da própria esquerda. Criticar Saramago por ser esquerdista é como desconsiderar Bernanos ou T.S. Eliot por serem de direita. Os motivos que o levaram a ganhar o prêmio estão em sua obra. O que comprova, mais uma vez, que Saramago era mesmo o homem certo na hora certa: preencheu os critérios estabelecidos e os aliou à qualidade de uma obra atemporal. Os motivos menos respeitáveis que lhe garantiram o prêmio, esses podemos esquecê-los. Fiquemos com os respeitáveis. Estes sobreviverão ao próprio escritor, suas opiniões pessoais, suas convicções íntimas, seus erros e acertos.

Surpresas de Vieira

Ao lermos um destes Sermões de Padre Antonio Vieira que a Loyola vem publicando em edição especial há mais ou menos um ano, somos surpreendidos de modo especial não pela brilhante oratória do jesuíta luso-brasileiro, nem pela originalidade de suas idéias ou pelos jogos retóricos de que faz uso. Estas são coisas que já esperamos ali encontrar. O que nos surpreende em Vieira é a familiaridade. Ao lermos qualquer dos seus sermões presentes neste volume, sentimos uma proximidade em diversos níveis com o nosso português brasileiro de hoje. Esta familiaridade não a sentimos com praticamente nenhum outro escritor português. Nem Camões, nem Eça, nem Pessoa, nem mesmo Saramago – só para ficar em alguns dos poucos nomes das letras lusitanas que gozam de algum prestígio por aqui – estão tão próximos de nossa fala e do nosso escrever quanto Vieira, que viveu e escreveu no século XVII. Nele reconhecemos um ritmo, uma sintaxe, uma semântica, um vocabulário tão parecido com o nosso que a distância temporal parece apenas uma ficção de historiador, como freqüentemente ocorre quando se trata de obras de arte.

E isto porque Vieira é um autor nosso – plenamente nosso. É parte integrante e essencial de nossa cultura, de nosso agir e de nosso pensar. O idioma é a parte mais visível desta pertença, mas há mais, muito mais. Quem quiser descobri-lo, se já não o descobriu, por favor acesse o link e o telefone abaixo relacionados.

Onde encontrar:

http://www.loyola.com.br
(11) 2914-1922

O sonho de Will Eisner

capa_250.jpg

Parece que as editoras brasileiras estão redescobrindo Will Eisner. Nos últimos dois anos, várias de suas graphis novels foram republicadas em edições grandes e luxuosas: Um Contrato com Deus, Fagin, O Complô, Pequenos Milagres, Avenida Dropsie e até o tratado Narrativas Gráficas estão de volta à praça, fazendo a alegria do fã de quadrinhos que, assim como este articulista, considera Eisner o melhor quadrinista de todos os tempos.

O Sonhador (Devir Livraria, 55 páginas, tradução de Marquito Maia) é a última novidade dessa enxurrada. O cenário é a Nova York pós-Grande Depressão dos anos 30. Ali vive um jovem desenhista, Billy Eyron, que sonha em se entrar para o concorridíssimo mundo das histórias em quadrinhos americanas. Verdadeiro boom de público (mas não de crítica), os quadrinhos eram, naquela época, a bola da vez para quem insistia em ser artista numa época de pobreza e desemprego. Bastava baixar um pouco as expectativas, se adaptar às exigências do mercado e trabalhar muito. É o que acontece ao jovem idealista Eyron: logo ele se defronta com a crueza de um mundo cheio de competição, inveja, corrupção e mentira, algo muito diferente do que esperava encontrar. Mesmo assim ele segue em frente, com a típica esperança dos sonhadores.

O livro é claramente autobiográfico: Eisner começou a escrever na mesma época e lugar e enfrentou sérias dificuldades para sobreviver no início de sua carreira. Por isso ele avisa, no prefácio a O Sonhador, que imaginava escrever um livro de ficção mas acabou fazendo um relato histórico a partir do “armário desordenado onde se guardam os fantasmas do passado e das lembranças amareladas da experiência”. Se isso é verdade, o sonhador Bill Eyron, que, com seus desenhos debaixo do braço,  desviava das poças d´água das ruas de Nova York com a mesma dificuldade que driblava as durezas da vida, pode descansar em paz: seu sonho foi realizado.

Lucian Blaga

                             lucian_blaga.jpg

               

              

A palavra “Romênia” não diz muito aos brasileiros. No máximo, chama a atenção pela raiz “Rom”, indicativo de uma ligação ancestral com o Império Romano e, conseqüentemente, com a cultura latina da qual também descendemos. Uma olhada no mapa nos mostra que é também o único de sua região, os Bálcãs, a falar um idioma neolatino e, ao consultar o almanaque, nos chama a atenção o fato de que a Romênia foi invadida por todos os seus vizinhos. É curioso; mas, como toda curiosidade calcada em superficialidades, ela tende a esmorecer. Assim, deixamos de lado a Romênia com suas curiosidades, sua língua e, também, seus grandes valores.

      E são muitos, os valores deste país latino encravado entre eslavos, germânicos e turcos. Se no Brasil conhecemos pouco a Emil Cioran ou Eugene Ionesco ou se praticamente ignoramos Constantin Noica e Virghil Gheorgiu, quem perde somos nós. A obra de Lucian Blaga (1899-1961), por exemplo, está entre as mais importantes da poesia européia no século passado e, até agora, nunca havia sido publicada por aqui, carência que a coletânea A Grande Travessia, editada pela Universidade de Brasília (112 páginas, R$ 16,50) vem suprir. Filósofo e diplomata, Blaga cultivou praticamente todos os gêneros literários e destacou-se na poesia, onde aliou vasta erudição com as formas da poesia popular romena. Seus temas principais estão ligados ao conflito entre a razão e o misticismo, entre a filosofia e a mentalidade religiosa de sua pátria. 

A seguir, o poema que dá título ao livro:  

NA GRANDE TRAVESSIA
O sol no zênite sustém a balança do dia.
O céu se concede às águas embaixo.
Com olhos ajuizados as bestas na travessia
Observam sem medo suas sombras no leito.
A folhagem se arca profundamente
na direção de toda uma lenda. Nada, do que é, tenta ser diferente.
Somente meu sangue grita pelos campos
atrás de sua infância longínqua,
como um velho cervo
atrás de sua corça perdida na morte.Talvez tenha perecido sob os rochedos.
Talvez tenha mergulhado na terra.
Em vão espero notícias suas,
somente ressoam as cavernas,
riachos buscam as profundezas.Sangue sem resposta,
ah, houvesse silêncio, quão bem se ouviria
a corça calcando a morte.Ainda mais longe cambaleio pela trilha —
e, como um assassino que sela com um lenço
uma boca vencida,
fecho com o punho todas as fontes.
Que se calem para sempre
para sempre.  

Onde encontrar:

http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=4608&tipo=2&isbn=8523009078