PERSPECTIVA

Post para elurófilos II

maio 28, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Lição sobre tradição e progresso

“Com efeito, o tradicionalismo conservador, ou passadismo, não cultiva a árvore, já que mais que a vitalidade desta ele é premido a colocar os próprios interesses e a própria preguiça no lugar de folhas e ramos secos. O revolucionarismo futurista, por sua vez, julga pela aparência, elimina a árvore: o primeiro é inimigo oculto da tradição e declarado do progresso, o outro, inimigo declarado da tradição e oculto do progresso (….) Com efeito, o primeiro conserva as opiniões ultrapassadas produzidas pela verdade e apega-se a elas, verdadeira ànsia pelo caduco, que é expulsa no seguimento da memória a fim de não ouvir a ordem que exige a queda das folhas e a poda do que está seco para que o novo, todo premente, brote e floresça da árvore revigorada; o outro, justamente porque é movido pelo revolucionarismo, nega qualquer verdade que não seja produto dos tempos e possa ser usada ao longo do dia: ao mesmo tempo, incita que se dê um novo “salto para a frente”, de modo que o caos se instale mediante a desordem das opiniões que se seguem e se devoram. A ambos faltam ideias e autênticos ideais; ambos são dogmaticamente críticos, até a grosseria e a estupidez, cegos pela ausência de verdades e pela comum recusa do presente que é substituído pelo futuro ou pelo passado: dois péssimos agricultores que se recusam a lançar-se ao trabalho, pois julgam mais fácil desfrutar da árvore até extinguir-lhe toda manifestação da vida, ou , então, arrancá-la de vez, lançando mão de um falso atestado de morte. Portanto, restam sempre o ódio pela verdade e a violenta constrição do logos, em lugar da sua livre reproposição, crítica e construtiva. Eis porque estamos diante de um liberticídio. “

Michele Federico Sciacca em Filosofia e Antifilosofia (É Realizações, tradução de Valdemar A. Munaro).

maio 28, 2011 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

O motoboy e a kombi estragada

No meio  desta mormacenta tarde de terça-feira transitava eu de automóvel pela Bento Martins em Porto Alegre quando assisti uma cena que me alegrou o dia. Um rapaz empurrava ladeira acima uma velha kombi e deixou o triângulo sinalizador na via. Naturalmente, à medida que a kombi subia a ladeira, o triângulo ficava mais distante. Foi então que surgiu uma motocicleta . Seu condutor apanhou o triangulo e o colocou na posição atrás da kombi, mantendo-o sempre próximo do veículo, poupando o esbaforido “empurrador” de voltar para buscá-lo e liberar a via .

Impossível não lembrar do velho dito popular: “só o  povo ajuda o povo”.

maio 24, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Paternalismo linguístico

O paternalismo é uma das características mais perniciosas e destrutivas da cultura brasileira. E não falo apenas do paternalismo estatal – aquele que dá presentinhos ocasionais ao cidadão enquanto lhe tira a chance de estudar, de ter um emprego decente, de ter, enfim, uma vida digna de ser vivida. Falo de todo e qualquer paternalismo.  Falo do patrão que nega direitos básicos à empregada doméstica mas, de vez em quando, até lhe dá um dinheirinho para comprar uma boneca de R$ 1,99 para a filha, dizendo-se, , por isso, homem de bom coração. Falo do marido que trai a esposa e envergonha a família, mas chega em casa e presenteia a esposa com um belo buquê e as crianças com novos brinquedos. E falo até mesmo do paternalismo do filho, do mau filho, que nunca visita a mãe, esquece-a, despreza-a e cobre-a de beijos no Dia das Mães para depois abandona-la novamente. Falo de muitos, de todos – de nós. É um sentimento que está firmemente incrustrado em nossa forma de viver e de ver o mundo e os nossos semelhantes. Faz parte do nosso ser. Todos o praticamos. Digo mais: gostamos secretamente dele até mesmo quando o atacamos em discursos públicos. E gostamos justamente porque somos assim.

De onde ele vem? Difícil dizer. O paternalismo é, em parte, fruto de uma sociedade desigual, onde o outro raramente está no mesmo patamar nosso e, quando está, frequentemente é um inimigo; e é, em parte, fruto de certos aspectos culturais que a prudência e o espaço não nos permitem aqui adentrar. Convive com o patrimonialismo, dando-lhe o substrato cultural que fundamenta e garante a sua permanência. O dirigismo estatal da economia, o passar a mão na cabecinha do eleitor, a leniência com o criminoso, o fechar os olhos para o corrupto, tudo isso corresponde perfeitamente ao dirigismo, ao passar a mão, à leniência e ao fechar os olhos que tantas vezes assistimos no plano privado. Os dois ajudam-se mutuamente, cada um atuando em sua própria esfera, prolongando indefinidamente a doença até o definhar e a morte do corpo. E não precisamos aqui dizer o que é o corpo. 

A saga do patrimonialismo em nossas terras já foi escrita: é Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, que fica maior e mais atual conforme o tempo passa. A do paternalismo ainda não tem autor nem obra, mas já tem um novo capítulo: é a recente querela acerca da distribuição pelo MEC do livro Por uma vida melhor.

Ao contrário do que o título sugere, não se trata de livro de auto-ajuda. É uma obra didática de língua portuguesa  e foi preparada para ser utilizada nas aulas de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Não seria, em princípio, livro para chamar a atenção da opinião pública nacional. Isto, claro, não fosse o trecho que reproduzimos abaixo:

A reação foi a esperada: de um lado, os defensores da obra argumentaram que é preciso levar em consideração a variante popular do idioma, que os idiomas mudam, que a escola deve aproximar-se do aluno e os demais discursos de costume. De outro, pessoas como estas aqui. Pessoas como a doméstica Maria Erlaine Mendes, que diz: “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo”. Que é o que outros alunos, pobres como ela, dizem. Que é, basicamente, o mesmo que Evanildo Bechara diz. “Sempre se vai para a escola para se ascender a posição melhor. A própria palavra educar, que é formada pelo prefixo latino edu, quer dizer conduzir. O papel da educação é justamente tirar a pessoa do ambiente estreito em que vive para alcançar uma situação melhor na sociedade”.

Os defensores do livro contra-atacam. A Associação Brasileira de Linguistica, a ONG Ação Educativa e o próprio ministro Fernando Haddad  dizem que ele não ensina erros e que se limita, apenas, a registrar a importância da variação linguistica. E, claro, não se poderia deixar de fora o mentor intelectual da coisa toda: Marcos Bagno, professor da USP, que difundiu o termo “preconceito linguistico” através de sua obra Preconceito Linguistico – o que é, como se faz, bibliografia básica para calouros de qualquer faculdade de letras, afirma que não precisamos nos preocupar, pois a idéia de variação linguistica “Não é coisa de petista” (como se alguém tivesse afirmado tal coisa) e que ” Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana.”

Diante de tantas opiniões contrárias e favoráveis, de tanta discussão fundamentada ou não, de tanto bate-boca, é importante dar voz a quem elaborou o livro. Helena Ramos, uma das autoras, está irritada. Muito irritada. “Não somos irresponsáveis”, diz ela. ““Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação”. E ela não pára aí: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”.  Afinal de contas, segundo ela, “esse assunto é complexo, é para especialistas”.

É preciso que reconhecer que a sra. Helena Ramos tem muita razão no que diz. De fato, ao contrário do que seus críticos apontam, o livro não ensina a falar erradamente. Deixa, aliás, muito claro que a norma culta é importante para o aluno e deve ser ensinada nas escolas. Deste pecado o livro da sra. Ramos não pode ser acusado. E está corretíssima a sra. Ramos quando afirma que o assunto é complexo. E está correta também quanto diz que muitos dos que criticam o livro não o leram. Há muita gente que não leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Há muita gente que leu o livro e opina sem conhecimento de causa. Como consequência, as discussões sobre o livro da Sra. Ramos foram e estão sendo mal conduzidas. Tudo isto é verdade.

O problema, o grande problema, é que nenhuma discussão foi tão mal conduzida quanto a que a sra. Ramos propôs em seu livro. À página 12  está escrito que “as classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder –, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular”. Vai além: “muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever.”A sra. Heloísa Ramos é linguista e professora do idioma. Está, portanto, mais do que qualificada para saber que afirmações como “a língua é um instrumento de poder” automaticamente abrem o espaço para uma longa discussão sobre política de língua, que inclui até mesmo a veracidade e a aplicabilidade da idéia de que a língua é ou não um instrumento de poder. Se queremos colocar este tipo de discussão para o aluno, então que se entre nela como se deve entrar – com o propósito de ir a fundo. Qualquer coisa diferente disso é simplificar um “assunto complexo, para especialistas”. Tais simplificações constituem atitude típica de discursos políticos: vulgariza-se um conceito complicado, dá-se o tom desejado e pronto. Tem-se uma defesa de uma causa, de uma ideologia, de um partido.

O conceito de “preconceito lingüístico”, questões de política de língua, “norma culta versus variante popular” e outros assuntos são temas que um estudante de Letras é obrigado a enfrentar logo no primeiro semestre de curso. Lê-se Bagno ao lado de muitos outros autores, contra ou a favor dele. Discute-se muito em aula, às vezes acaloradamente,  sobre o que ele diz. Coteja-se seu conteúdo com o de outros: lê-se Houaiss, Luft e muitos mais. Esta discussão, que toma um bom tempo da vida acadêmica do estudante, a sra. Ramos simplifica em duas ou três frases e joga na cara de alunos de meia-idade como verdade absoluta. E um dos perigos da simplificação está aqui: “Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”. Não é “muita gente” que diz “o que se deve e o que não se deve falar e escrever“: é toda a gente. É o Estado brasileiro, nos concursos; são as empresas, ao admitirem os empregados; é a própria professora, nas provas. São as próprias pessoas que falam com erros (ou “inadequações”, como prefere a professora – outro termo que exigiria uma discussão que não ocorre) que o reconhecem.

A questão da diglossia* é um tema sempre candente para quem estuda linguistica no Brasil. Ela existe, assim como existe em muitos outros países. Mas é objeto de profundo e acalorado debate. Algo deste debate pode ser levado para a sala de aula, para alunos de ensino médio, talvez mesmo de ensino fundamental? Pode. Mas com a condição de ser apropriadamente discutida. Em Uma vida melhor ela sequer é discutida. E pior: com toda a simplificação conceitual, com toda a ligeireza no trato de assuntos nada simples, o que se vê é o surgimento de um abismo entre a norma culta e o uso popular como se fossem duas coisas completamente distintas, sem qualquer comunicação entre si . Ocorre, assim, um engessamento da variante popular da língua e da sua relação com a variante culta ,  como se não houvesse convivência, aproximação e influência mútua entre eles. Isto é um breve resumo do que se deveria propor para debate caso se quisesse entrar nestas questões a sério. E nada disto é, nem de perto nem de longe, colocado no texto. 

E pergunta a sra. Helena: “Por que, em educação, todo mundo acha que conhece os assuntos e pode falar com propriedade?”. Pelo mesmo motivo que as pessoas falam sobre saúde, economia, política – porque lhes afeta. Assim é que funciona numa democracia. A sra. Heloísa não quer que haja discussão? Que não inicie uma discussão como fez no trecho de seu livro. E pior: inicia a discussão para abafá-la logo em seguida. Diz o que quer e, quando surge a interrogação na cabeça de todos,  encerra o debate e vai em frente. Eis aí, mais uma vez,  nosso paternalismo desenhado em cores vivas: para a elite iluminada dos educadores, o assunto discutido “com propriedade”.  Para o resto – os alunos – a simplificação conceitual transformada em discurso rasteiro.

A sra. Ramos se defende: “não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade”. A justificativa é simplesmente falsa. Falsa porque é completamente desnecessária. Não é preciso dizer ao aluno que ele pode usar, em determinados contextos, a variante popular, o “falar-como-prefere”. Isso todos sabem: é uma característica de todos os idiomas e todo falante nativo tem consciência disto. Da mesma forma, o aluno está perfeitamente ciente de que há variantes mais prestigiadas que outras. Ele não precisa que alguém lhe diga: “fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Ele não precisa que lhe digam o que fazer e como se deve sentir. Ele não precisa, enfim de mais paternalismo. 

Diante deste festival de equívocos permeado pelo nosso velho e conhecido problema nacional, a declaração da doméstica – “Não tenho vergonha de ser corrigida. É obrigação do professor ensinar o certo” -  soa como uma esperança. Uma esperança de que o Brasil tem, sim, condições de pôr um fim nesta chaga que nos corrói. Que a esperança venha de onde vem – isto é, do povo – não nos deve surpreender. Aqueles que mais conhecem os resultados da chaga do paternalismo sabem bem que ele precisa , e com urgência,  ser extirpado de nosso país.

*Diglossia: fenômeno linguistico em que dois dialetos ou línguas são usados pela mesma comunidade linguistica.

maio 23, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Literatura, Política | 2 Comentários

Ernesto Sábato

Quando saíram os primeiros necrológios sobre o falecimento de Ernesto Sábato, ocorrido em 30 de abril último, falou-se da lamentável perda do “romancista argentino Ernesto Sábato”. A julgar pelo volume de produção do autor, poderíamos concluir que o argentino de Rojas nascido em 1911 foi, antes de tudo, um ensaísta. Em seus 99 anos, Sábato de vida publicou duas dezenas de livros de ensaios, incluindo a sua estréia nas letras, em 1945, com El Uno y el Universo. Por outro lado, deixou-nos apenas três romances, sendo O Túnel (Companhia das Letras, 152 páginas, tradução de Sérgio Molina) o primeiro deles. Parece muito pouco para chama-lo de romancista.

Ou talvez não. Sábato pertence à linhagem de romancistas animados pelo pensamento, como Musil, Mann ou Camus – todos eles, aliás, também ensaístas de destaque. O Túnel é um legítimo exemplar desta vertente. Há quem considere esta pequena novela como um prólogo de Sobre Heróis e Tumbas, tido como a obra-prima de Sábato e um dos maiores romances latino-americanos do século XX. É uma maneira, involuntária ou não, de avaliar injustamente a importância deste pequeno livro. Afinal, a história do pintor Juan Pablo Castell assassino confesso de uma mulher pela qual é obcecado, recebeu elogios de Camus e Thomas Mann quando de seu lançamento e permanece como referência de novela, mais de meio século depois de ter sido escrita. Ali estão as reflexões sobre a solidão e a desumanização no mundo contemporâneo que Sábato irá desenvolver, dentro de outros contornos, em seus dois outros romances. Uma pequena obra-prima.

Onde encontrar:

www.ciadasletras.com.br

Fone: (11) 3707 3500

maio 10, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Emile Zola, por Getúlio Vargas

Em 1906, a revista estudantil Panthum, da faculdade de Direito de Porto Alegre, recebeu um artigo assinado por um jovem estudante sobre de um dos escritores mais populares na província: Emile Zola. No Brasil das primeiras décadas do século XX, o escritor morto em 1902 ainda era famoso e influente nos nossos círculos literários, naturalmente afrancesados e um tanto atrasados em relação às novidades culturais do Velho Continente, que já ensaiava o modernismo enquanto ainda líamos os naturalistas e realistas. Tais círculos eram sobretudo compostos por estudantes e graduados em Direito. O curso então congregava todos os jovens com inclinações humanísticas, ainda que não necessariamente jurídicas. Muitos deles, se vivessem hoje, talvez não optassem pelo Direito: seriam estudantes de Filosofia, de Letras, de História, de Jornalismo, de alguma outra faculdade na área de ciências humanas. Entre estes jovens encontrava-se o autor do ensaio: Getúlio Dorneles Vargas.

Quando digo “estes jovens”, refiro-me especificamente a estes que, sendo estudantes de Direito, não eram necessariamente juristas natos. Segundo o testemunho dos que foram  colegas de Getúlio, como João Neves da Fontoura e outros, ele se destacava menos pelo desempenho acadêmico do que pela cultura geral, principalmente literária, e pela habilidade oratória, que faziam dele um estudante extremamente popular entre seus pares.

Transposto para o tamanho ofício, “Zola e a crítica” conta cinco páginas e impressiona pela desenvoltura. Getúlio não está lá como diletante, como jovem fã de literatura de 24 anos que resolve falar de seus poetas preferidos para outros jovens fãs de literatura de 24 anos. Está lá como quem quer escrever um artigo a sério.  Dialoga com estudiosos como um De Sanctis, um Silvio Romero, um José Veríssimo e um Alcides Maya, demonstrando conhecer, e bem, a a fortuna crítica sobre seu objeto de análise;  compara a recepção à obra de Zola em sua França natal e no resto do mundo; analisa o clima social, cultural e político do país e relaciona-o à obra; tece comentários sobre o artista e defende-o de seus detratores, citados um a um; e tenta, enfim, reabilitar a escola Naturalista, que já era alvo de ataques no momento em que Getúlio escrevia. É um verdadeiro ensaio de crítica. Mas um ensaio diferente do que estamos acostumados a ler.

Em “Zola e a crítica”, Getúlio nada fala do estilista Zola ou do narrador Zola: nem sequer cita-lhe trechos para análise. Em vez disso, prefere exaltar a capacidade do escritor em perceber o momento histórico: “Ninguém melhor tinha o sentimento da conflagração das massas, e sabia objetivar no romance o movimento das multidões. O arrojo coletivo desses operários individualmente humildes, educados na passividade cega da obediencia,como desagregam de si parcelas de energia, formando essa resultante uniforme, assustadora e irresistível, que se despenha como uma avalanche levando em seu seio uma ameaça de explosão.” Elogia, e muito, o Zola reformador social e artístico – “A França já se não satisfazia mais com o canto dos rouxinóis. Era preciso um reformador, para quebrar a estagnação planimétrica em que se atufara a Arte, talhando novos moldes para a idealização da vida. Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época”.

O leitor mais atento notará que esta última frase – Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época – ficaria muito bem na boca de qualquer partidário de Getúlio. Era isso que Getúlio apresentava ao povo e é isso que seus defensores vêem nele até hoje: o reformador e o crente. Mas um tipo bem peculiar de crente, que não só convivia harmonicamente com o reformador como inclusive lhe dava suporte. A fé do crente Getúlio era a mesma de Zola e de muitos outros de seu tempo: o positivismo. Sob esta pedra Getúlio ergueu sua própria Igreja, adaptando-a às necessidades históricas.

O ensaio completo de Getúlio está aqui.

maio 9, 2011 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Chuta pro gol!

Olímpico, onze da manhã de sábado, dia 7 de maio. Nesta agradável manhã de outono, aproximadamente 500 pessoas acompanhavam o treino do Grêmio com vistas ao Gre-Nal de amanhã. Torcedores de todas as idades, raças, credos e procedências criam um ambiente de tranquilidade e apoio ao time.

Terminado o treino, saem os jogadores, sob aplausos, e permanecem no campo apenas Paulo Odone e Renato Portaluppi, conversando. De repente, da social levanta um rapaz e grita, a plenos pulmões, as seguintes palavras:

- Chuta pro gol!

Grita uma, duas, três, dez vezes. Talvez mais. Grita até ficar sem ar. Pára um pouco, toma um pouco mais de ar e continuar a gritar: Chuta pro gol! Chuta pro gol!

A torcida fica atônita. As crianças páram de brincar de pega-pega nas escadas da social. Os senhores param de preparar o chimarrão. Os funcionários param de limpar. Os geraldinos param de discutir a melhor tática para o jogo de amanhã. Os cachorros páram de brigar entre si. Os pombos param de voar e postam-se em fila indiana próximos à linha lateral do campo.

Tudo pára. Todos olham para o rapaz ,como se quisessem perguntar: “Para que isso, tchê?”.

Como se tivesse ouvido a pergunta, o rapaz responde, também aos gritos:

- O Jonas não era nenhum gênio! Ele só chutava pro gol! Eu moro em São Paulo, sofro a mil quilômetros daqui e vim para cá só para dizer isso! CHUTA PRO GOL!

A paralisia gera dura mais uns trinta segundos, tempo suficiente para a massa receber e processar a informação. O próximo passo é a resposta. E a resposta vem logo depois, da boca de dezenas ali presentes.

- CHUTA PRO GOL! CHUTA PRO GOL!

Aos gritos. A plenos pulmões.

O rapaz vindo de São Paulo talvez não tenha imaginado – ou talvez tenha – mas conseguiu canalizar, em três palavras , o que a torcida espera que os atacantes façam amanhã.

P.S.: Um registro importante: Paulo Odone saiu pelo Portão do Largo dos Campeões, pela frente, conduzindo seu  carro. No trajeto, foi cumprimentado por vários torcedores do Grêmio. Uma demonstração de comprometimento e confiança no comportamento civilizado de sua torcida.

maio 7, 2011 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

Ernesto Sábato (1911-2011)

“Viver consiste em construir recordações futuras”

maio 1, 2011 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

Entrevista com Ernesto Sábato

abril 30, 2011 Posted by | Literatura, Livros | Deixe um comentário

O convidado mais importante do casamento real inglês

   Larry, com quatro anos de idade foi adotado por  David Cameron e mora na residência oficial do primeiro-ministro  britânico, no número 10 da Downing Street, em Londres. Na verdade Larry foi contratado para combater os ratos do local. Antes que vivia no Battersea Dogs and Cats Home, em Londres, um abrigo. Substituiu a gata Sybil, que foi viver ali com o ministro das Finanças Alistair Darling, em 2007. Antes dela o gato Humphrey que morou vário anos na casa  e foi mandado para um abrigo em 1997 por Tony Blair a pedidos da mulher, Cherie.
Que “querida” pessoa deve ser essa Cherie.

Humphrey e a “querida” Cherie Blair

abril 28, 2011 Posted by | Geral | 1 comentário

Entrevista: Cedenir Almeida Machado, ex-jogador de futebol “O futebol de hoje perdeu muito no aspecto técnico”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Cedenir Almeida Machado foi um dos zagueiros mais conhecidos do interior gaúcho em sua época. Começou no Internacional em 1971, transferiu-se para o Botafogo do Rio em 1975 e para o Caxias no ano seguinte, onde, ao lado de Luiz Felipe Scolari, Bebeto “Canhão da Serra”, Bagatini, Jorge Tabajara e outros, formou um dos esquadrões mais conhecidos e fortes do interior do RS, participante destacado da série A do campeonato brasileiro e bicampeão do interior do Estado em 1977 e 1978. Na época, Cedenir fazia dupla de zaga com ninguém menos do que Luis Felipe Scolari – aliás,  rejeita o rótulo de jogador limitado que deram ao amigo: “ele era um bom zagueiro e não dava balão por qualquer motivo, como dizem que dava”. Hoje, é treinador das categorias de base do Cruzeiro de Porto Alegre.

 

 

O Timoneiro: É natural de Canoas?

Cedenir Almeida Machado: Não, sou de São Jerônimo. Nasci em 1954 e vim para Canoas em 1969. Meu pai veio trabalhar aqui, como muitos faziam naquela época, e fomos morar na Igara.

OT: Onde começou a jogar?

CAM:  Comecei  em  Esteio, com o  seu Adão Pereira. Ele  foi um dos grandes técnicos aqui de Canoas.

OT: Canoas era um celeiro de jogadores naquela altura.

 

CAM: Sim, era. Muitos foram formados aqui: eu, o Manuel, o Djair, o Luisinho Mochila, treinador do Canoas, que era dali da Mathias. Também tinha o Miguelzinho, o Joãozinho e muitos outros, que foram todos para o Inter. Isso para não falar de Falcão, Claudiomiro, Batista, Paulo César e muitos mais outros. Lembro do clube São Cristóvão, ali na Igara, onde o Luis Felipe Scolari começou.

OT: Hoje o futebol de várzea praticamente acabou. Em vez de mandar olheiros para os jogos, os clubes montam escolinhas e preparam o jogador desde a infância.  Esse fim teve alguma conseqüência para o rumo que o futebol acabou tomando?  

CAM: A diferença é que o jogador que eles vêm olhar na várzea  vai para lá porque ele já tem a capacidade técnica. Se ele está jogando num time de várzea, é sinal que ele sabe jogar. Por outro lado, na escolinha, o cara entra com 8, 9 anos e ali vai crescendo e se formando como um jogador. Ali eles prevêem como ele será, até que altura poderá crescer, o peso certo, enfim, ele formam praticamente um jogador-robô. O talentoso mesmo é muito difícil surgir dali. Às vezes surge um Neymar, um Ganso, um Pato,mas é muito difícil pegar de oito, dez meninos e sair um com capacidade técnica apurada. Nesse sentido acho que houve uma perda.

 

OT:  O senhor é descoberto quando?

CAM: Eu fui levado para o Inter em 1970. Descoberto, eu acho que fui pelo seu Adão, que foi quem me levou para o Lansul,  onde joguei bem e fui visto pelo pessoal do Inter, mais precisamente pelo falecido Sr. Marcos Eugênio, que me levou para jogar lá.

OT: Já jogava como zagueiro?

CAM:  Jogava já de zagueiro, como sempre joguei. Só quando me mandaram jogar de lateral, porque era mais baixo e diziam que zagueiro não podia ter a minha altura. Mas eu sempre dizia que não, que era a minha posição e que não jogaria ali a não ser quando era para quebrar  galho. Eu me sentia autorizado a dizer isso porque tinha vindo de uma seleção amadora, a que hoje chama sub20, tri-campeã em Cannes, e o capitão da seleção era eu, e jogando de zagueiro. Era uma seleção muito boa, lá jogaram comigo o Vanderlei Luxemburgo, o Joãozinho do Cruzeiro e outros. No Inter, na minha posição tinha o Figueroa como zagueiro, que era um titular incontestável, mas eu podia jogar com ele. Só que o Rubens Minelli, que estava chegando para treinar o Inter vindo do América de Rio Preto, achou por bem não mudar nada. Jogavam Figueroa e Pontes e o Pontes era um cara grandão, forte, que corria muito, e ele não quis modificar nada. Antes dele o treinador era o Dino Sani, um grande revelador de jogadores e foi quem me mandou subir. Até que me emprestaram para o Botafogo em 1975, onde disputei campeonato brasileiro daquele ano e eles queriam me comprar, porque joguei muito bem.

OT: Notou alguma diferença entre  o futebol de lá e o de cá?

CAM: Olha, lá no Rio o meu treinador foi o Zagalo. O Rio de Janeiro tinha muito treino de toque de bola. Os caras vinham jogar contra Grêmio e Inter e tinham muito cuidado, porque diziam que nós, gaúchos, tínhamos muito preparo físico e muita força. Só que lá valorizavam muito jogadores técnicos como eu, que tinham boa saída de bola, boa saída de jogo. E aí eu me dei bem.O problema que eu tive no Inter foi a altura. O Minelli dizia era que eu era baixo e que o jogador tinha que ser alto e forte. E essa é uma mentalidade que existe muito no futebol de hoje, de que jogador tem que ser alto e forte. Eu discordo. Eu acho que tem é que saber jogar.

OT: O aspecto técnico caiu?

CAM:  Muito. O futebol de hoje perdeu muito no aspecto técnico. Hoje,  que prevalece é força. Muitos jogadores não têm os fundamentos básicos. Sou técnico e o critério técnico para mim é o principal. O cara tem que saber dominar e passar, que são os dois fundamentos básicos do futebol. Se não souber fazer isso, não pode jogar futebol e tem de ir buscar outro emprego. Eu acho que a parte física precisa ser desenvolvida e acho que é importante, mas não pode ser apenas isso. No RJ, eu fui titular no Botafogo. Lá se valoriza mais a técnica e a habilidade, aqui é a força. A prova de que isso é bobagem é que o Beckenbauer não era um jogador alto. O Passarela tinha 1m76, o Mauro Galvão media a também isso e eram excepcionais zagueiros.

OT: Em que zagueiros que tu te inspiravas quando começaste a jogar?

CAM:  Não acho que eu tivesse bem uma inspiração . Eu tive alguém que me ensinou muito, que foi o Figueroa, porque ele me via jogar nos juniores e via os defeitos que eu tinha e onde podia aprimorar. Figueroa foi um mestre.

OT: Depois do Botafogo, foste para onde?

CAM: Fiquei no Botafogo o ano inteiro de 1975. Depois eu voltei para o inter , porque sabiam que eu ia estourar e tinham a  esperança que eu isso acontecesse no Inter. Aí disseram que o Figueroa ia sair, eu fiquei, mas ele não saiu e então eu é que quis sair e fui para o Caxias. Sou muito lembrado aqui no RS pela época de Caxias e muito pouco pela de Inter. Joguei com Luiz Felipe Scolari na zaga, era minha dupla. Joguei com Jorge Tabajara, Bagatini no gol, que depois jogou no inter, Clovis, Osmar e Paulo Cesar Tatu no meio campo e no ataque Bebeto Canhão da Serra. O Felipão é meu amigo, meu padrinho de casamento. Mas eu discordo quando dizem que ele era grosso. Ele aprendeu muito com o tempo, sabia dar o primeiro passe, não era tão grosso quanto dizem hoje. O time todo era muito bom tecnicamente, tanto que chegava a  complicar para a dupla Grenal. O Caxias disputava campeonato brasileiro da série A, para termos uma idéia. . Em 1077 fui vendido para o São Paulo. O treinador era o Poy e o Samuel, zagueiro do SP, já ia encerrar carreira, e então me contrataram e eu tive azar, contrataram o Rubens Minelli e ele não me quis de novo porque eu era muito baixo.

OT: Além do Inter e do Botafogo, onde jogou?

CAM: Joguei oito anos no Juventus da Mocca. A torcida deles é muito apaixonada, mas não muito grande. Um clube de italianos, é um clube social enorme. Uma torcida muito fiel. Depois de parar, fiquei um tempo afastado do futebol e depois retornei como treinador. Hoje sou treinador das categorias de base do Cruzeiro de Porto Alegre.

 Entrevista publicada no jornal O Timoneiro

abril 28, 2011 Posted by | Esportes | 7 Comentários

Rui Biriva – Força Azul

O Rio Grande amanheceu de luto.Faleceu na noite desta segunda-feira, aos 53 anos, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o cantor e compositor  Rui Biriva. Biriva era  Cônsul Itinerante do Grêmio.

Fonte:Grêmio Net

Homenageamos Rui Biriva com o vídeo abaixo.

abril 26, 2011 Posted by | Sem categoria | 1 comentário

Tolkien e a Ressurreição

(….) Cunhei a palavra eucatástrofe : [significa] a repentina mudança feliz em uma história que o atinge com uma alegria que os leva às lágrimas (….) A Ressurreição foi a maior eucatástrofe possível no maior Conto de Fadas – e produz aquela emoção essencial: a alegria cristã que produz lágrimas por ela ser qualitativamente tão parecida com o pesar, pois vem daqueles lugares onde a Alegria e o Pesar são um só, reconciliados, assim como o egoísimo e o altruísmo se perdem no amor.

É claro que não quero dizer que os Evangelhos contam apenas um conto de fadas; o que quero dizer é que eles realmente contam um conto de fadas: o maior”.

Carta de J.R.R. Tolkien para seu filho, Christopher Tolkien

abril 24, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Quando a Páscoa chega ao Sul

O monge anglo-saxão Beda, o Venerável (672-735) , foi talvez o primeiro ancestral da imagem clássica do jesuíta perdido entre antropófagos. Homem cultíssimo, conhecedor do latim, do grego e do hebraico,  intérprete aprofundado das Escrituras, interessado em temas tão díspares quanto astronomia, retórica e história, vivia numa terra que muito pouco tinha a ver com seu espírito refinado. Guardava nisso semelhanças com outros homens de letras da Igreja que, por circunstâncias da vocação que escolheram, tiveram de abandonar os altos círculos intelectuais e embrenhar-se em matas e montanhas a fim de levar a palavra do Senhor àqueles que não a conheciam.  A diferença é que, quando via aqueles homens primitivos, adoradores de divindades da natureza, vivendo nas matas em quase comunhão com os bichos e as árvores,  Beda via não homens nus do outro lado do oceano que ele tinha vindo civilizar e que com ele nada tinham a ver. Via o seu próprio povo, os anglo-saxões, habitantes de um país atrasado, pobre e esquecido do Norte da Europa chamadoAnglelande –  um país que, hoje, atende pelo nome de Inglaterra.

Para qualquer outro na mesma condição seria fácil passar a vida a lamentar da sorte. Afinal, embora Beda nunca tivesse saído da sua ilha fria cercada de brumas em toda a sua vida, seu mundo pessoal era, definitivamente, outro. Embora tivesse os mesmos cabelos louros, olhos azuis e força física de seus ancestrais, seu coração estava nas margens do Mediterrâneo, o mesmo que banhou as areias da Grécia de Aristóteles e Platão, da Itália de Virgílio e Cícero e da Palestina de Jesus Cristo. Mas aos homens do cristianismo antigo não eram dados os confortos da lamúria e da queixa. Imbuído do melhor espírito beneditino do ora et labora, dedicou-se ao estudo – inclusive ao estudo dos costumes e das religiões daquele povo que era, a um tempo, o seu povo e o povo que deveria converter.

Um dos interesses centrais de Beda era a Páscoa. Esta foi uma das obsessões da Igreja durante a Idade Média, motivando debates árduos onde o próprio Beda tomou parte. Prova disso é o logo livro dedicado ao assunto chamado é De temporum ratione, “A contagem do tempo”. Lá pelas tantas, Beda descreve a Eosturmonath , o mês dedicado Eóster, deusa anglo-saxônica ligada à fertilidade e ao nascer do sol, que iniciava durante os começos da primavera do Hemisfério do Norte.  Ela inicia em 21 de março e é particularmente importante no Norte da Europa, onde as durezas do clima condicionam fortemente a vida dos homens. Durante o inverno, a comida é escassa, as noites são longas, o sol pouco aparece e a neve cobre os campos, matando o gado, as plantas, enfim, tudo o que vive, inclusive os homens. A primavera chega e a vida recomeça: o sol aparece por mais tempo, a água já não é gelo e já não é preciso estocar alimentos: basta colher. Tudo o que estava morto revive: ressuscita.

A imagem de Eóster – também conhecida em outros povos germânicos, chamada por uns de Ostara, por outros de Auster – é representada  a de uma mulher com um ovo em sua mão e um coelho, símbolo da fertilidade, em sua volta. E os anglo-saxões logo perceberam que o Jesus Cristo que lhes era apresentado ressuscitou na mesma época. Perceberam também que ele, assim como Eóster, trazia alegria onde chegava, os mortos retornavam à vida, da água fazia o vinho e multiplicava pães: era a “luz do mundo”. O próprio Beda, observador sempre arguto, o percebeu em seu relato: “Agora, os ingleses designam a época de Páscoa pelo seu nome, chamando às alegrias do novo rito com o nome consagrado pelas velhas crenças”. As velhas crenças seriam substituídas pela Boa Nova – o “Evangelion” – e a velha Eóster, pelo filho de Deus. Mas seu nome, como disse Beda, permaneceu. Assim como os ovos que carregava consigo e o coelho que corria à sua volta, devidamente abençoados pelo cajado dos antigos padres da Igreja. E a ressurreição do Senhor passou a ser, para os primeiros ingleses, o mesmo que a ressurreição de toda a vida. E até hoje é assim.

Para quem vive no lado Sul do mundo talvez isso não faça tanto sentido. Para começar, a palavra “Páscoa” tem outra origem: é o hebraico “Pessach”, que significa “passagem”, e está ligada originalmente à libertação dos judeus no Egito. Durante a Páscoa judaica ocorreu a ressurreição de Jesus e as correlações simbólicas entre os dois eventos são bastante óbvias. Além disso, no lado Sul do mundo, a Páscoa não coincide com a chegada da primavera. Comemora, isso sim, o começo do outono, que é o começo das noites, do frio, do fim da vida. Isto, em tese, é correto. Mas, neste canto específico do Sul que carrega o Sul no próprio nome, o tempo de provação não é o outono e nem o inverno: é praticamente todo o ano. Quem vive no Rio Grande do Sul trava batalhas contra a natureza que ofuscam todas as batalhas que já se travaram nestes campos. Quem vive no Sul sabe, como nenhum outro, o que é o verão abrasador, a umidade maldosamente unida ao calor, a falta de chuvas ou o excesso delas, as plantações destruídas. E a própria primavera aqui não é tempo de florir e de viver, e sim de moléstias, doenças, dias que começam congelantes e terminam quentes, de inconstância, de dificuldades. É isto o que antecede o tempo da Páscoa. Quando Março chega, já suspiramos de alívio por termos passado – sobrevivido! – mais um verão. Em breve, a fúria do tempo cessará. As chuvas aumentam a frequência e diminuem a intensidade, tornando-se agradáveis presentes do céu e não tormentosas desgraças. Ao mesmo tempo, ainda não começaram as rajadas de vento que atravessam a Patagônia e nos atingem, sem dó nem piedade, cobrindo os campos de geada, os picos de neve e a vida dos pobres e desvalidos de durezas. Se, para T.S. Eliot – homem do Norte – abril era o mais cruel dos meses, para o homem deste Sul este é único mês que não é cruel. A Páscoa no Sul é o tempo em que, talvez pela única vez no ano, podemos realmente experimentar a alegria de viver. Nós o aprendemos desde pequenos. Nossas memórias infantis da Páscoa são as das primeiras manhãs de ar fresco, quando, em criança, corremos para o quintal e encontramos os ovos com que passamos o dia, ao ar livre, aproveitando a amenidade do tempo, a beleza do dia, a alegria de viver. E, pela primeira vez, compreendemos, da mesma forma que os anglo-saxões de Beda, que o mundo regenera, que nem tudo é dor e dificuldade, que é possível reviver e que, desde Aquele que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia, a vida vale a pena ser vivida.

abril 24, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Homilia da Solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor

Reproduzimos o texto publicado na Rádio do Vaticano.

Bento XVI presidiu a Solene Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, na tarde desta Sexta-Feira Santa.

A homilia da liturgia de hoje, foi composta e proferida pelo Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa. O sacerdote ressaltou, citando a 1ª Carta de Paulo a Timóteo, que na sua Paixão, Jesus Cristo deu seu testemunho diante de Pilatos, numa bela profissão de fé.

Nós nos perguntamos, testemunho de quê? Não da verdade de sua vida e de sua causa. Muitos morreram, e ainda hoje morrem, por uma causa equivocada, acreditando que seja justa. “A ressurreição, esta sim testemunha a verdade de Cristo: Deus deu a todos prova garantida sobre Jesus, ressuscitando-o dos mortos”, disse São Paulo Apóstolo em seu discurso no Areópago de Atenas.

“A morte não testemunha a verdade, mas o amor de Cristo”, que deu sua vida não só pelos amigos, mas também pelos seus inimigos. “Jesus morreu pelos ímpios” – escreve São Paulo aos Romanos. “A rigor, alguém morreria por um justo, por uma pessoa muito boa talvez alguém se anime a morrer, mas eis aqui uma prova brilhante do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Amou-nos quando éramos inimigos, para poder nos tornar amigos” – frisou Frei Cantalamessa.

A cruz não é só juízo de Deus sobre o mundo, refutação de sua sabedoria e revelação de seu pecado, mas o seu SIM de amor. “A injustiça, o mal como realidade não pode ser simplesmente ignorado, deixado como está. Deve ser eliminado, vencido. Apenas esta é a verdadeira misericórdia” – disse ainda o frade capuchinho.

“Como ter a coragem de falar do amor de Deus, enquanto temos diante dos olhos tantas tragédias humanas, como a catástrofe que se abateu sobre o Japão, ou as mortes no mar Mediterrâneo nas últimas semanas” – perguntou ainda o sacerdote.

“Permanecer em completo silêncio seria trair a fé e ignorar o significado do mistério que celebramos” – frisou Frei Cantalamessa, recordando que o mundo cristão volta a ser visitado pela prova do martírio. “Não podemos silenciar perante este testemunho. Os primeiros cristãos honravam seus mártires. Os atos de seus martírios eram lidos e distribuídos nas igrejas com grande respeito”.

“O mundo se inclina diante dos testemunhos modernos da fé” – ressaltou o frade capuchinho recordando o ministro paquistanês, Shahbaz Bhatti, assassinado recentemente por causa da fé. “O seu testamento é deixado também para nós, seus irmãos na fé, e seria ingratidão deixá-lo cair no esquecimento” – frisou ele.

Falando ainda sobre o recente terremoto e tsunami que abalaram o povo japonês e da solidariedade manifestada por todo o mundo, Frei Cantalamessa ressaltou que “globalização tem ao menos este efeito positivo: a dor de um povo se torna a dor de todos, suscita a solidariedade de todos. Dá-nos a chance de descobrir que somos uma família humana, ligada no bem e no mal, e nos ajuda a superar as barreiras de raça, cor e religião”.

O sacerdote lembrou que também houve um terremoto no momento da morte de Cristo, mas houve outro ainda maior no momento de sua ressurreição: “E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela (Mt 28, 2)”. “Assim será sempre” – concluiu o frade capuchinho – “a cada terremoto de morte sucederá um terremoto de ressurreição de vida”.

abril 23, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

São Jorge, padroeiro dos guerreiros

“São Jorge matando o Dragão”, relevo em mármore de Donatello, Museu del Bargello, Florença-Itália

São Jorge é um dos santos mais populares da Igreja e, talvez por isso, um dos mais requisitados para o cargo de padroeiro. O guerreiro nascido na Capadócia (região da atual Turquia ) é escolhido como padroeiro de clubes de futebol , a Catalunha, a Inglaterra, a Lituânia, a Geórgia, Moscou, Gênova, várias ordens milares e instituições do mundo inteiro. Mas será que é apenas o grande número de fiéis que dá a São Jorge toda essa importância, digamos, institucional?

Primeiro, cabe perguntar o que um clube de futebol, nações, cidades e exércitos têm em comum. Resposta: a luta. Seja no campo de jogo ou no campo de batalha, jogadores e soldados recebem o nome de “guerreiros” por aqueles que torcem pelo seu sucesso. E São Jorge é o santo guerreiro por excelência, aquele que, mesmo nos piores momentos, jamais perde a fé na vitória. Não lhe faltou chance para provar isso. Soldado romano, erguido à condição de membro da corte numa época de violenta perseguição contra cristãos, Jorge fez defesa apaixonada do cristianismo diante dos seus próprios pares. Perguntado sobre o que era o cristianismo, Jorge respondeu: “É crer na Verdade”. Ao que um cônsul perguntou: “E o que é a verdade?”. E ele respondeu: “A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e Nele confiado me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade.”

Não é preciso dizer que, naquela época, quem fizesse semelhante defesa apaixonada do cristianismo era imediatamente morto. Não foi o caso de Jorge: primeiro, o imperador pediu que ele fizesse uma retratação pública. Não a fez. Depois, mandou torturá-lo de várias maneiras. Também não obteve sucesso. Aliás, conforme o processo de “persuasão” avançava, Jorge ganhou cada vez mais notoriedade e respeito por parte da população, – incluindo aí a própria mulher do imperador, que se converteu ao cristianismo. Quando enfim foi degolado, no dia 23 de abril de 303, já era uma figura célebre pela sua resistência e fé incomuns.

A imagem clássica de São Jorge lutando contra o Dragão dá bem a noção da mensagem que São Jorge passou para a humanidade. Mesmo contra um adversário muito maior e armado apenas de uma lança, Jorge joga-se sobre ele com a confiança daqueles que nada temem porque têm ao seu lado um aliado indestrutível que jamais os abandona mesmo depois da morte. Como os georgianos, que homenagearam o santo dando-lhe o nome da pátria. Como os soldados ingleses nas cruzadas, que morreram com a cruz estampada na bandeira. Como todos, enfim, que buscam um espelho de força e garra para as lutas que o homem é obrigado a enfrentar diariamente.

Oração de São Jorge

abril 23, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

Uma noite de Libertadores

O estádio era pequeno. O campo, esburacado. A polícia local, inexistente. O adversário, catimbeiro, violento e apoiado por uma torcida enlouquecida. Era preciso vencer por dois gols de diferença e esperar por resultados paralelos para classificar. Diziam os matemáticos que as chances estavam em apenas 8%. Matemáticos lidam apenas com números. Lidassem com outros aspectos da realidade, levariam em conta as recentes insinuações sobre a presença de roedores na sede do clube, a evidente falta de experiência de um interino com cara de professor de Educação Física de colégio particular e inevitavelmente baixariam ainda mais as estimativas. Exceto por um milagre, era um jogo para cumprir tabela.

Assim entrou o Fluminense em campo contra o Argentinos Juniors nesta noite de quarta-feira. Contava com o comovente apoio de sua torcida, crente de que seus clamores papais haveriam de fazer efeito junto ao Altíssimo. Contava com algumas declarações dos jogadores sobre a importância de lutar até o fim. Declarações aparentemente protocolares, meramente respeitosas, frases vazias decoradas no vestiário antes da entrevista. Declarações que soam como doces melodias para os ouvidos de qualquer adversário.

O problema, meus caros, começa quando os jogadores que dizem estas frases feitas acreditam mesmo no que estão dizendo. O problema começa quando Fred acredita mesmo que nem tudo está perdido. O problema começa quando Rafael Moura diz que não vai aguentar ficar na reserva num jogo decisivo desses. O problema começa quando Conca diz que os matemáticos estão errados, que era bom aluno de Matemática no colégio, que fez seus próprios cálculos e que as chances são bem maiores do que supõem estes senhores pouco afeitos ao convívio con la pelota.  O problema é quando aquele que tem apenas 8% de chances, treina com os ratos e olha para o banco e vê um professor de handebol com o abrigo do clube, acredita que nada disso significa que sua tarefa é impossível.

É assim que o problema começa. E, quando se tem jogadores da fibra de Fred, Rafael Moura, Conca, Diguinho, Edinho, então está-se, sim, diante de um verdadeiro e acabado problema. E quando se tem um treinador como Enderson Moreira –  cujos óculos escondem um homem de invulgar fibra e personalidade dos imbecis acostumados a julgamentos rápidos – está-se diante de um problema grave. E quando se tem uma torcida que acorre ás centenas para um acanhado estádio de periferia , então, está-se diante de qualquer coisa neste mundo – menos de um time que joga para cumprir tabela antes da hora.

O Fluminense venceu o Argentinos Juniors por 4 a 2, com autoridade, com força, com dois centroavantes de área, com os dentes rangendo, com bola aérea, com o banco de reservas mandando os jogadores lesionados (do próprio Fluminense!) levantarem de uma vez, com pedras voando sob suas cabeças, com briga generalizada no campo, com conivência da polícia, com tudo, tudo, rigorosamente tudo o que se poderia esperar de um jogo da Libertadores da América.

Para nós, que ficamos alheios (por enquanto) ao que se passa com o clube das Laranjeiras, a noite desta quarta-feira ficou e ficará marcada como uma legítima noite de Libertadores da América.

abril 21, 2011 Posted by | Esportes | 1 comentário

70 anos de Roberto Carlos

O Progresso


Eu queria poder afagar uma fera terrível
Eu queria poder transformar tanta coisa impossível
Eu queria dizer tanta coisa
Que pudesse fazer eu ficar bem comigo
Eu queria poder abraçar meu maior inimigo
Eu queria não ver tantas nuvens escuras nos ares
Navegar sem achar tantas manchas de óleo nos mares
E as baleias desaparecendo
Por falta de escrúpulos comercias
Eu queria ser civilizado como os animais

Eu queria ser civilizado como os animais

Eu queria não ver todo o verde da terra morrendo
E das águas dos rios os peixes desaparecendo
Eu queria gritar que esse tal de ouro negro
Não passa de um negro veneno
E sabemos que por tudo isso vivemos bem menos

Eu não posso aceitar certas coisas que eu não entendo
O comércio das armas de guerra da morte vivendo
Eu queria falar de alegria
Ao invés de tristeza mas não sou capaz
Eu queria ser civilizado como os animais
Eu queria ser civilizado como os animais
Eu queria ser civilizado como os animais

Não sou contra o progresso
Mas apelo pro bom senso
Um erro não conserta o outro
Isso é o que eu penso

Eu não sou contra o progresso
Mas apelo pro bom senso
Um erro não conserta o outro
Isso é o que eu penso

abril 19, 2011 Posted by | Sem categoria | 1 comentário

Homenagem aos 40 anos da AGAPAN


Fundada em 27 de abril de 1971, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) foi a primeira entidade ecológica do Brasil, tendo sido criada antes mesmo do Greenpeace. Desde então, sempre esteve envolvida nas principais lutas ambientais do Estado e do País.

 Em homenagem a seus 40 anos, o vereador Beto Moesch (PP) propôs uma distinção especial à associação na sessão plenária da próxima segunda-feira (25/4), às 14h. Um representante da entidade falará na tribuna sobre a história da instituição, e os parlamentares também terão apartes. A esse espaço chama-se Período de Comunicações.

Compareça e prestigie a AGAPAN, essa entidade que tanto contribui para nossos avanços socioambientais!

Serviço:

Período de Comunicações da AGAPAN

Quando: Segunda-feira (25/4)

Horário: às 14h

Local: Plenário Otávio Rocha da Câmara Municipal (Av. Loureiro da Silva, 255)

 

Fonte: Beto  Moesch 

abril 19, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Dez anos sem Ernst Gombrich

 

Contamos em 2011 dez anos do falecimento do historiador da arte Ernst Gombrich. Austríaco de nascimento, filho de família judia, formou-se no sofisticadíssimo ambiente intelectual da Viena de começos do século XX, de onde saíram Sigmund Freud, Franz Kafka, Gustav Mahler, Carl Gustav Jung e muitos outros. Forçado a emigrar devido à perseguição nazista, estabeleceu-se na Inglaterra, onde construiu carreira acadêmica na Universidade de Londres e deixou vasta obra sobre seu tema preferido: a arte. A mais conhecida delas é História da Arte (LTC Editora, 688 páginas), publicada pela primeira vez em 1950 e contando 16 edições desde então.

Tomando A História da Arte hoje em mãos, custamos a crer que Gombrich o tenha planejado como um manual de introdução para jovens estudantes. Afinal, trata-se de um livro que faz parte da bibliografia básica de qualquer curso universitário sobre o tema. Podemos dizer que isto é um sintoma da decadência do gosto moderno, da infantilização do mundo, da queda do nível de exigência para o estudante universitário de hoje e, diante disto tudo,  um prenúncio do próprio fim da civilização ocidental. Ou podemos simplesmente reconhecer que Gombrich escreve com a clareza e a elegância que poucos conseguem imitar, fazendo-se entendido por todos, do scholar mais exigente ao estudante mais iniciante. Eu escolho a segunda opção.

Onde encontrar:

www.grupogen.com.br

(11) 4506 4880

abril 17, 2011 Posted by | Arte, Literatura | 1 comentário

Pensamento islâmico

 

A visão dos historiadores acerca do papel do pensamento islâmico na história da filosofia é variada. Para alguns, trata-se apenas de uma releitura do pensamento grego, sem jamais ultrapassá-lo ou modificá-lo na essência; para outros, embora tributários do legado helênico (assim como grande parte da humanidade, diga-se), os filósofos islâmicos devem ser tratados de forma autônoma. A esta segunda vertente alinha-se o professor Massimo Campanini, da Universidade de Nápoles, em Introdução à filosofia islâmica (Estação Liberdade, 234 páginas, R$ 42,00, tradução de Plínio Freire Gomes).

A obra de Campanini divide-se em duas partes. Primeiro, apresenta, de forma muito resumida, um quadro histórico com os principais pensadores do universo cultural do Islã, estudando-lhes as principais influências e as modernas interpretações sobre eles. Na segunda parte, analisa alguns dos principais temas tratados pelos pensadores da primeira parte e dá especial atenção ao conceito de tawhid , a unicidade divina, do qual partem todos os demais conceitos presentes nos filósofos estudados. Uma obra que surpreende pela capacidade de condensar tantas informações num número tão pequeno de páginas e, ainda assim, manter o rigor analítico, incluindo aí discussão de pontos polêmicos com outros autores da mesma área.

Onde encontrar:

www.estacaoliberdade.com.br

(11) 3661 2881

abril 17, 2011 Posted by | Literatura | 1 comentário

Entrevista: Jairo Luís Cândido- “Só há possibilidade de mudança social a partir da educação”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

 


Começo esta entrevista com uma informação pessoal: meu entrevistado desta semana, meu amigo Jairo Luis Cândido, foi um dos professores mais importantes para a minha formação. E personalizo porque estou certo de que falo por centenas, talvez milhares de outros alunos que com ele tiveram aula ao longo dos anos e partilham desta opinião. Conheci-o no primeiro ano do Ensino Médio do Colégio La Salle, quando iniciava o preparo para o vestibular e o ingresso na vida universitária, com todas as incertezas e as expectativas que acompanham este importante processo. Homem de opiniões firmes sobre vários temas dentro e fora de sua disciplina de atuação – temas que, amigavelmente, tive o prazer de discutir em diversas oportunidades -, Jairo nunca tolheu, nem por um momento, aqueles que, como eu, nem sempre concordavam com ele: ao contrário, dizia sempre para desenvolvermos idéias próprias e bem fundamentadas, independentemente de quais fossem. No campo escolar propriamente dito, foi com ele que tivemos as primeiras noções do que é uma pesquisa séria e do que é estudar em nível acadêmico, independente da área que iríamos escolher. E tudo isto, importante ressaltar, ainda no Ensino Médio.

Nunca fui dos seus melhores alunos no que diz respeito às notas, apesar de nunca ter tido problemas para passar. Já na altura ficava claro que o caminho que eu escolheria teria pouco a ver com a Biologia. Jairo, legítimo vocacionado que era, felizmente nunca abandonou este caminho. Tornou-se professor do Unilasalle e hoje é coordenador do curso de Biologia daquela instituição, além de membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente, onde procura pôr em prática o que nos ensinou nas aulas do Terceiro Ano sobre biocenose, ecossistema, biosfera e outros conceitos importantes que nunca esqueci. Pensando bem, até que eu não era um aluno tão ruim assim.

O Timoneiro: Quando vieste para Canoas?

Jairo Luís Cândido: Eu nasci em em 1966, em Porto Alegre. Morávamos no Sarandi e, em seguida, nos mudamos para o Jardim do Sal. Até os 30 anos morei por ali. Aí casei, vim morar em Canoas , morei 1 ano e meio aqui, retornei a Porto Alegre e, há dois anos, voltei a morar em Canoas.

OT: Como surgiu o teu interesse pela Biologia?

JLC:  A idéia era fazer o curso técnico em eletrônica no Parobé. No final dos anos 70 e inicio dos anos 80, havia no Brasil um grande incentivo para as chamadas áreas técnicas. Lembro que existiam várias publicações de revistas para adolescentes que ensinavam a fazer bugigangas de papel reciclado, fazer um radinho, fazer um controle, pegar uma saboneteira e dois componentes e fazer um brinquedinho, e eu me encantei com aquilo. Aí fui fazer eletrônica no Parobé e, quando vi o que era realmente estudar eletrônica, me desencantei. Vi que não era a minha praia. Desencantei-me e descobri o encantamento que eu tinha com a biologia. Eu nunca estudava biologia, nunca lia nada de biologia e ia sempre muito bem nas provas, muito melhor do que as disciplinas que tinham a ver com eletrônica. Então decidi fazer vestibular para biologia. Comecei o curso em 1985 e saí em 1991.

OT: A tua geração foi a primeira geração a entrar na universidade após a democratização do país.

 

JLC:  As coisas já eram feitas às claras, mas existia uma aura pesada. Eu lembro que tinha gente com muito medo para participar do movimento estudantil, até pela influência dos pais. E uma das coisas que eu vivenciei no curso universitário, além de pesquisa, foi diretório acadêmico. Dos seis anos e meio em que eu estive lá, quatro eu estive em diretório acadêmico, uma vez como vice, outra como presidente e depois como secretário. Tive muito envolvimento com o DA da biologia, com o DCE da UFRGS e participei em reuniões da UNE. Lembro que, nos dois primeiros anos de curso, meu pai tinha muito medo. Ele dizia: “estão fotografando vocês, estão mapeando, vão pegar vocês na rua” e eu ouvia muitos comentários de colegas falando a mesma coisa, que os país alertavam para isso. A geração dos meus pais viveu isso de maneira muito forte e tinham medo. E via uma gurizada com 18 anos na faculdade dizendo que ia mudar o mundo, até cair na real que a gente primeiro muda o nosso quintal e depois começa a influenciar o quintal do vizinho. Só depois disso pode começar a pensar num mundo melhor. Todo jovem pensa que pode mudar o mundo a partir dele. A questão é que o meu mundo é diferente do dele, e aí começam os problemas (risos). Mas, dentro da universidade, a possibilidade de manifestação dava a sensação de poder fazer, mas ainda havia um pé atrás. E sempre o bafo na nuca, dizendo que algo podia acontecer.

OT: As conseqüências de uma ditadura vão para além do fim da ditadura…

JLC:  Exato. A sensação psicológica de medo continuava. Havia a sensação de liberdade , mas o percentual de pessoas que se envolviam no movimento estudantil de fato, fazendo a política estudantil, era muito pequeno. Eu não participava, só assistia o movimento: a política partidária era algo que não estava no meu mundo e, além disso, eu tinha uma influência de casa para não participar deste mundo. Quando entrei na UFRGS, tive um choque: começamos a conviver com outras pessoas, outras visões de mundo. Mas, quando estive como presidente do DA, eu mantive a idéia de que o  movimento estudantil não deveria se partidarizar, e sim criar condições para conscientizar os estudantes.

 

OT: Como assim?

 

JLC:  Do tipo: “queres ter uma linha partidiária? Tenha, mas a partir de crítica construída que não tenha o viés única exclusivamente político-partidiário. Vais escolher depois de teres construído uma crítica a situação”. Existiam tentativas de manipular e conseguir apoios políticos para os partidos. E todos os partidos – eu friso: todos – faziam isso. Eu fui vice e presidente no momento em que se estava tentando reconstruir o diretório junto aos estudantes. Na virada dos anos 80, quando surgiu o PT e começam as disputas entre as antigas e novas esquerdas, começou uma coisa de entrar partido político no diretório acadêmico. Quem não seguia era considerado pelego por esses grupos, era pró-ditadura. Isso quando eu entrei já era assim e anos antes também era. Os alunos não queriam porque participar do diretório era estar vinculado a algum partido político. A minha entrada foi, então, sem qualquer vinculação com partido. Aliás, quando entrei no diretório em final de 1985, me convidaram a entrar como vice, justamente porque eu tinha uma boa relação com todos os alunos independente de vinculação partidária. O candidato a presidente não era filiado a partido algum, era simpatizante do PT mas não queria partidarismo no diretório, e eu concordei por isso. E do outro lado, queriam partidarizar o diretório, e eles já estavam lá havia 2 ou 3 legislaturas. Isso estava esvaziando o diretório, porque virava uma discussão deles com eles mesmos. Nossa proposta era de renovar e trazer o DA para as discussões de dentro do curso. Política externa não interessava. Era para discutir o que tinha de problemas dentro do curso, como a cadeira quebrada na sala de aula. E teve guerras, porque teve chapa do PCB, da extrema esquerda do PT, a chapa apartidária, que era a nossa, e nós ganhamos de lavada. O pessoal se identificou com nosso discurso. E começamos  a trazer de novo o pessoal para dentro.

OT:A geração dos 80 tinha realmente mais engajamento?

JLC:  Olha, eu diria que aquela geração era mais engajada que as posteriores. Tinha, porém, um percentual relativamente grande de alunos que eram “alienados”, mas o percentual que se engajava era maior que o de hoje. E faziam barulho. O que acontecia tinha repercussão. Em termos de UFRGS como um todo, o movimento era bastante grande. O curso de Biologia, que eu vivenciei naqueles dois primeiros anos, o pessoal queria primeiro pensar o curso, os estudantes, o Instituto de Biociências, mas na UFRGS em geral e essas disputas das esquerdas era muito forte e marcante. Dentro da Biologia era um pouco diferente, porque todos estavam cansados de ver um discurso que não tava levando a lugar algum. Em 1985, 86, a gente começa a trazer estudantes pra volta do diretório. Lembro de gente dizer que, pela primeira vez, entrava no diretório e estava adorando, porque achava que ali não tinha nada de bom para essas pessoas. A coisa foi se espalhando, a gente começou com coisas simples e fora do contexto de discussão política e, aos poucos, trouxemos essas discussões para dentro.

 

OT: E tu ficaste na presidência do D.A. até quando?

 

JLC:  Até 1987. Depois, meio que me afastei, saí  das diretorias e entrou outro grupo, que foi oposição à chapa que eu apoiei, e me diziam que eu queria manter poder por trás. Mas, resumindo, a idéia que eu tinha era de discussão interna, sim, discussão de movimento estudantil, mas não a partidos políticos no D.A. Foco nos alunos.

OT: Saíste da faculdade em 1991. De repente, vislumbras a tua vida com a inflação explodindo, a vida sem poupança, com um país destruído economicamente. Como era conseguir emprego?

JLC:  Faltando dois meses para eu me formar, bateu a crise. Eu parei no prédio,no saguão – nunca vou esquecer a cena – na escadaria de mármore. Justamente ali, na minha primeira matricula eu conheci aquele que é um dos meus melhores amigos , José Artur Bogo Chies. Bom era época da crise, eu sentei e pensei: “o que vou fazer da minha vida?”. Formar-se é levar um tombo, é passar de elite intelectual para problema social. As escolas pagavam pouco, a inflação comia o salário, era um contexto bem complicado. Além disso, para conseguir uma boa escola precisava de experiência e contatos. Quando eu estava me formando, eu notei que havia chegado aos meus 24 anos e não tinha emprego. Comecei a entrar em pânico.  Em 10 de novembro de 1991 eu me formei. No final do novembro de 91 o José Artur, o Zeca, me procura e diz “olha, fui selecionado para fazer doutorado na França,  e tenho que ir embora no ano que vem. Preciso de alguém para assumir a escola em que estou trabalhando”. Era uma escola em Cachoeirinha. Foi lá que consegui o meu primeiro emprego. Eu fiquei pouco tempo desempregado. Tive muita, mas muita sorte, muito mais que a maioria dos meus colegas. Em fevereiro, abriu concurso para o município de Guaíba e então fiquei numa escola particular em Cachoeirinha e numa em Guaíba. Depois me exonerei do município por causa de uma bolsa de pesquisa – fui chamado de louco por isso, aliás – e então surgiu a idéia de fazer arquitetura. Fiquei 3 anos lá e a minha idéia era trabalhar com planejamento urbano e desenvolver cidades ecologicamente sustentáveis, mas na época essas discussões – que hoje são muito presentes – estavam recém-começando. Voltei para a Biologia fazer mestrado em zoologia. Comecei em 1997 e em funções de várias situações, conclui em 2001. Em 2002 comecei a dar aula aqui no Unilasalle, sendo que já dava aula no colégio havia anos.

 

OT: A perspectiva de ser professor era clara para ti, como aluno de graduação?

 

JLC:  Não. Na época não precisava optar licenciatura e bacharelado no inicio. Podíamos seguir sem opção até o final do curso. Como eu não fiz opção clara, sempre me eram ofertadas todas as disciplinas de todas as ênfases. Então, eu fiz uma daqui, outra de lá e acabei concluindo a licenciatura primeiro.Entrei querendo trabalhar com cetáceos, golfinhos, baleias e, na primeira disciplina de zoologia, descobri protozoários, esponjas e corais e me apaixonei instantaneamente. Trabalhei como monitor desta disciplina e ali comecei a dar aula, substituindo a professora algumas vezes. Ali eu comecei a pegar gosto pela sala de e não parei mais. Descobri, olha, é legal dar aula. Então fui para a licenciatura.

 

OT: Acredita em vocação para dar aula?

 

JLC:  Não sei se exatamente a palavra vocação, porque às vezes essa coisa da vocação pode dar a idéia de que tem que se dar o sangue por isso e não reclamar, mas eu sinto, sim, que dar aula não é para qualquer um. Ser professor não é para qualquer pessoa.

OT: Queria falar um pouco da educação ambiental. Atuas nessa área no Conselho Municipal de Meio Ambiente. Estamos vivendo muito recentemente a rediscussão da questão da energia nuclear, até pelo que ocorreu no Japão. É uma situação limite, mas que não começou ontem, nem ontem nem anteonem. Queria que falasses um pouco da necessidade deste momento em se investir na educação ambiental.

 

JLC:  Para mim, só há possibilidade de mudança social a partir da educação, em todos os sentidos. E a educação ambiental tem uma importância fundamental para que a sociedade acorde e para que as gerações futuras aproveitem os frutos dos esforços feitos hoje. Eu preciso enxergar o mundo com outros olhos. Não posso mais querer tudo para mim. É preciso aprender a partilhar com o outro.  Somos bombardeados todos os dias para o individualismo, para pensar que temos de pensar em nossas necessidades e o resto que se exploda. Então, não é algo simples de se fazer, e não é com uma receita de bolo que se pode fazer. Como qualquer trabalho que se faz com educação é um trabalho de longo prazo. É um trabalho que mexe com paradigmas da sociedade, é mudar visão de mundo, é mudar a maneira como eu encaro a sociedade. Essa discussão vai de coisas simples a bem complexas, da discussão da matriz energética para o meu pais até o que eu vou fazer com a sacolinha do supermercado. Pega de ponta a ponta, pega desde a sacolinha do super até discussão de política global. Há muitos setores em que podemos trabalhar, inclusive na escola. E tenho medo quando alguém diz que tem que ter uma disciplina de educação ambiental. Não, não tem.  Educação Ambiental não pode ser só na feira de ciências, no dia da árvore, e sim em todos os dias, em todas as disciplinas, de alguma maneira. A educação ambiental é necessariamente interdisciplinar. Não adianta fazer um projeto em sala de aula se a escola continua imprimindo calhamaços de folhas só dum lado ou documentos internos que poderiam ser impressos dos dois lados. Então, um dos espaços que eu vejo para trabalhar a educação ambiental é  escola. Mas , como eu disse, ela precisa deixar de ser coisa só do professor de biologia. Outros espaços são a sociedade civil organizada. Por isso, no Conselho Municipal de Meio Ambiente procuramos debater esses assuntos da maneira mais aberta possível, com a participação de toda a comunidade. Nossas reuniões são 100% abertas à comunidade, todos podem e devem assisti-las. Só assim, com participação, é que poderemos fazer alguma diferença.

abril 17, 2011 Posted by | Ciência & Saúde | Deixe um comentário

Domingo de Ramos – começa a Semana Santa

Desenho elaborado por  Madame Y ,  baseado na obra

A entrada triunfal em Jerusalém

deBernhardPlockhorst

Museu de Syracuse- New York

Início da Semana Santa. Chamado de Domingo de Ramos porque é recordada, com a benção e procissão de ramos nas igrejas cristãs, a entrada  de Nosso Senhor Jesus Cristo em Jerusalém como está descrito na Bíblia Sagrada em Mt 21, 1-11; Mc 11, 1-11; Lc 19,29-40 e Jo 12,12-19. Simboliza a esperança.

O motivo da visita à cidade era para celebrar a páscoa judaica , isto é, a comemoração da libertação do povo judeu da escravidão em que viviam no Egito. O  povo de Israel comemorava tres grandes festas de peregrinação naquela época: Páscoa, Pentecostes e Tendas. A Páscoa era celebrada com o sacrifício de um animal novo. Celebrada na primeira luz cheia da primavera.

Ingressou na cidade montado em um jumentinho, mostrando ser humilde e manso de coração, no entanto foi aclamado como rei “Bendito aquele que vem em nome do Senhor”(Mt 21,9). Gritavam “Hosana”, um grito de júbilo que era utilizado para saudar a Deus ou ao rei e significa ” salva, ajuda por favor!”Era usado nas festas judaicas como a da Páscoa.

Com esta entrada estava se cumprindo a profecia de Zacarias: “: “Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo  filha de Jerusalem: eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso, ele é simples e vem montado num jumento, no  potro de uma jumenta”.

Imagine-se o que deve ter passado pela cabeça da elite sacerdotal. Verdadeiro horror daquele que entrava como rei na cidade, exatamente como a profecia antecipara. E além disso, como primeira providência promove uma verdadeira limpeza no templo, expulsando os que utilizavam aquele local para negócios, certamente com apoio dos sacerdotes.

A procissão de ramos tem origem no século IV em Jerusalém.Os  ramos que   são abençoados  no domingo de Ramos e que  temos o costume de colocar junto ao crucifixo em casa,  serão incinerados e utilizados na quarta-feira de cinzas do ano posterior. Eles são a origem das cinzas que são usadas na Benção das Cinzas.

Qual tipo de ramo deve ser utilizado? A dúvida é bastante comum, talvez derivada da antífona : “pueri hebraeorum, portantes ramos olivarum …”

Os primeiros cristãos recordavam a entrada de Jesus em Jerusalém com uma celebração no Monte das Oliveiras. Depois, com palmas e ramos de oliveira dirigiam-se à cidade cantando hinos de louvor. Utilizavam ramos da vegetação abundante em sua região, e nós mantendo a tradição, usaremos ramos abundantes em nossa região, não necessariamente oliveiras.

Para ouvir: clique na cifra

link  relacionado:

Quarta-feira de cinzas- Quaresma

Tríduo Pascal

Fonte: Algumas das informações deste post foram retiradas do livro Significação dos símbolos cristãos – Urbano Zilles -Edipucrs

Publicada no dia 16 de março de 2008

abril 17, 2011 Posted by | Geral | 1 comentário

A revista Veja e a falta da direita no Brasil

Há alguns anos, o então primeiro ministro da Itália, Massimo D’Alema, esteve no Rio Grande do Sul para uma visita às regiões de colonização italiana de nosso Estado. Entrevistado pelo jornal Zero Hora, perguntaram-lhe como via o panorama político brasileiro. Sua resposta foi uma constatação  “Aqui parece não haver direita”.

A declaração passou desapercebida, mas é altamente relevante tendo em vista de onde ela vem. Massimo D’Alema, cumpre lembrar, é um dos mais conhecidos nomes da esquerda italiana e européia e, como esquerdista italiano e europeu que é, sabe muito bem o que é direita. Em seu país, está acostumado a lidar com os Berlusconis e as Ligas do Norte da vida; fora dele, ajuda seus companheiros austríacos, franceses e belgas a combater Joerg Haider, Jean Marie Le Pen e Filip Dewinter. Trata-se, portanto, de um tipo calejado pelas batalhas: conhece seu inimigo e sabe reconhecê-lo onde quer que esteja. Aqui, visitou uma das regiões mais conservadoras e culturalmente mais semelhantes à Europa – e, de modo especial, à sua Itália natal – de todo o território brasileiro: a Serra Gaúcha. Mesmo assim, D’Alema não sentiu a presença do adversário. Caminhou livre, leve e solto, assoviando a tarantella junto a seus companheiros de ideologia e etnia.

D’Alema descobriu isso há anos, em breve passagem pelo país. A revista Veja está no Brasil desde 1968. Vive e respira o nosso ar desde a época em que o sr. D’Alema lia Mao Tsé-Tung e acreditava em comunismo albanês. Conhece nossas manias, nossos problemas, nossos complexos e nossas qualidades muito melhor do que qualquer primeiro-ministro estrangeiro que por cá aporte. Sabe, portanto, e  há já algum tempo, como e quais são os partidos políticos brasileiros.

Pois bem. Esta revista que tão bem nos conhece trouxe há alguns dias uma matéria sobre o pitoresco caso de um país que não tem partidos de direita.  A matéria, assinada por Fernanda Nascimento e Gabriel Castro, está muito bem feita. Afirma, corretamente, que “expressões como ‘livre iniciativa’, ‘responsabilidade individual’ e ‘valores morais’ raramente são ouvidas pelos corredores do Congresso ou do Palácio do Planalto”, e aponta, por outro lado, que “as palavras ‘social’, ‘trabalhista’ e ‘socialista’ aparecem na maioria dos nomes das legendas”. Relaciona, corretamente, este vácuo ideológico  à tradicional ligação que as pessoas, justa ou injustamente, fazem da so-called direita brasileira (dos conservadores, dos liberais , dos dois ou de nenhum deles) com a defesa da escravidão, a monarquia e a Arena. Por fim, faz justiça ao dar a palavra a um dos poucos , senão o único, pensador que há mais de uma década vem apontando este e outros aspectos da política brasileira : Olavo de Carvalho. Erra apenas ao interpretar a declaração de Álvaro Dias, que não apontou nenhuma irmandade ideológica entre petistas e tucanos, como a revista deu a entender, e sim antes a falta de idéias práticas do PT e a postura “mais promíscua (palavras dele) do partido em relação ao Legislativo, o que não é propriamente um estender de mãos. Um erro que fica pequeno diante de uma reportagem acertada em seu propósito e em sua execução.

Mesmo assim, mesmo sendo uma matéria cheia de grandes acertos, uma questão igualmente grande se impõe: porque só agora, quando um deputado é acusado de fazer comentários de ordem racista e homofóbica, a revista Veja resolveu fazer uma matéria dizendo aquilo que o senhor D’Alema percebeu há anos?  Foi preciso que o sr. Bolsonaro dissesse uma bobagem no ar – independentemente de ser declaração racista ou homofóbica, ela é, por destemperada, por descuidada, por destrambelhada, uma bobagem,e como bobagem deve ser tratada- para que se despertasse para um fato que, embora dito por poucos, era conhecido por muitos (até pelo sr. D’Alema) e certamente muito bem conhecido pelos editores de Veja. Esta reportagem caberia muito bem durante as eleições de 2006. Ou de 2002. Ou de 2010. Ou de 2008. Ou em qualquer momento em que uma reflexão sobre a política nacional exigisse debate. O país não tem partidos conservadores, liberais ou como quer que se lhe chame há anos. Há décadas. Se tomarmos a melhor acepção que as palavras “liberalismo” e “conservadorismo” assumem, talvez nunca os tenha tido. Porque Veja lembrou disto somente quando Bolsonaro disse o que disse?

A existência de um país sem direita não é tão incrível assim. Incrível é ninguém ter se dado conta disto até este momento. Esperemos que tenha sido por mero esquecimento.

abril 16, 2011 Posted by | Política | 1 comentário

Dia internacional do café

Nós, assumidos cafemaníacos homenageamos os Dia Internacional do Café com o vídeo abaixo:

http://wp.me/s6yds-cafe

abril 14, 2011 Posted by | Geral | Deixe um comentário

O “caso Realengo” e o desserviço prestado pela imprensa

Gera preocupação a postura da imprensa brasileira em relação ao terrível fato ocorrido na escola do Bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, semana passada. Muito embora as próprias matérias veiculadas enfatizem a busca por notoriedade dos assassinos em casos análogos, mesmo assim, as revistas, os jornais, enfim, os órgãos de imprensa em geral estampam, geralmente na primeira página, o rosto do assassino, com absoluto destaque.

A preocupação advém, justamente, da ciência que os órgãos de comunicação têm acerca da busca por fama póstuma. O destaque dado ao homicida nada mais é do que alimento para futuros casos semelhantes, afinal o objetivo máximo foi alcançado: fama, análise de sua personalidade, fotos, etc. O assassino é premiado por sua ação com a notoriedade que tanto buscou. Ou seja: seu objetivo foi amplamente alcançado, não apenas pelas mortes ocasionadas como, também, pela premiação póstuma, concedida pela imprensa brasileira.

A atitude  correta a ser tomada pela imprensa responsável seria, por exemplo, dar destaque nas capas dos jornais e revistas ao sargento Márcio Alexandre Alves que, corajosamente, evitou que o massacre adquirisse maiores dimensões.

Qual a necessidade que o rosto do assassino se torne propagandeado? Qual o objetivo, senão a exploração da tragédia para a venda de exemplares?

Sargento Márcio Alexandre Alves – o herói de Realengo

abril 13, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

Homenagem a Eisner

 

 

No meio acadêmico, o termo Festschrift (“publicação celebratória”, em alemão)designa um livro dedicado a homenagear um pensador ou estudioso de grande renome. Normalmente, um Festschrift e composto de trabalhos que, direta ou indiretamente, têm algo a ver com a obra do homenageado, seja tratando do mesmo tema que ele abordou em sua vida acadêmica, seja comentando a sua obra. Nesse sentido,podemos interpretar um livro The Spirit: as novas aventuras (Devir, 128 páginas) como sendo uma espécie de Festschrift para Will Eisner e seu conhecido personagem, The Spirit. Afinal de contas, uma reunião de nomes do porte de Alan Moore, Dave Gibbons, Neil Gaiman, Eddie Campbell, Mike Allred e muitos outros para criar novas histórias do Spirit só pode servir para celebrar a memória de qualquer um, ainda mais deste que é tido e havido como um dos maiores – se não o maior – quadrinistas de todos os tempos.

 

No entanto, é importante ressaltar que o objetivo inicial dos organizadores de As Novas Aventuras não era apenas homenagear Eisner. O que se queria, em princípio, era apresentar o personagem, um ícone dos quadrinhos dos anos 40 e 50, ao leitor jovem moderno. Para isso, foram escolhidos a dedo os maiores nomes da área na atualidade, cada um dos quais imprimindo um pouco de seu estilo pessoal na consecução do projeto. Ainda que nenhuma das histórias selecionadas supere  o trabalho original (o que é mais do que esperado), é interessante ver abordagem individual da temática deste personagem que já foi definido como o Cidadão Kane dos quadrinhos. Vale pela experiência e por alguns belos resultados.

 

Onde encontrar:

 

www.devir.com.br

(11) 2127-8757

 

abril 9, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Astronomia para todos

Ombro de Gigantes (Devir Livraria) repete em seu título um trecho da famosa declaração de Isaac Newton sobre a posição que ocupava na história da ciência: “Eu vi mais longe do que os outros, mas porque estou sentado sob o ombro de gigantes”. Reconhecendo, sem nenhuma falsa modéstia, o alto lugar que ocupa, Newton prestou também um tributo àqueles que o precederam, sem os quais admite jamais teria sido possível chegar a todas as descobertas que fez na matemática, na física e em outras áreas. É este o sentido geral deste livro: mostrar como a astronomia se desenvolveu, desde os gregos e os povos da antiguidade, até os dias de hoje. E o faz de uma maneira bem pouco usual: através de quadrinhos.

 

O uso da arte seqüencial para fins didáticos não é novo. Até mesmo “O Capital”, de Karl Marx, uma leitura notoriamente difícil, já foi adaptada com sucesso para a linguagem quadrinística a fim de divulgar suas idéias para um público maior. No caso de “Ombros de Gigantes”, a tarefa de Annibal Hetem Junior e Jane Gregorio-Hetem, com arte de Marlon Tenório, é facilitada por se tratar da astronomia, disciplina que atrai interesse também pela beleza das imagens que pode proporcionar. Aliás, tais imagens poderiam ter sido melhor aproveitadas nesta obra, fazendo uso de cores – o livro é preto e branco – para realçar a beleza do material apresentado (que também poderia incluir mais imagens do cosmo a fim de ilustrar as descobertas dos grande astrônomos). Apesar disso, o resultado geral do livro é positivo para o leitor não-iniciado e é capaz de divertir e fazer rir (no bom sentido) até ao já iniciado na área.

 

 

 

Onde encontrar:

 

www.devir.com.br

(11) 2127-8757

abril 9, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Una ‘torcida’ que nunca calla

Aqui

abril 8, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Entrevista: Aírton Pavilhão-“É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz”



O ano é 1962. Os jogadores da Seleção Brasileira convocados para a Copa do Mundo do Chile estão treinando em Campos do Jordão, região serrana do Estado de São Paulo, escolhida a dedo para acostumar os jogadores do “escrete” ao clima e à altitude dos Andes. O zagueiro Aírton Pavilhão, do Grêmio (o único convocado de fora do eixo Rio-São Paulo)  recebe uma bola na frente da área e dirige-se até a bandeirinha de escanteio, no que é acompanhado pelo adversário do treino. Chegando lá, Aírton parecia encurralado: atrás de si, o atacante; à frente, o final do campo. De repente, para surpresa de todos, ele gira o imenso corpo de 1m89cm e posicionando a bola do lado de fora do pé esquerdo, chuta-a com o peito do pé direito fazendo um lançamento para o goleiro Gilmar, a alguns metros dali. A isto antigamente chamava-se “dar de Charles” (hoje, chamaríamos “dar de letra”), e era uma jogada muito utilizada por atacantes habilidosos. Eu disse atacantes – nunca um zagueiro comum faria uma coisa dessas. Eu disse um zagueiro comum – não Aírton Ferreira da Silva. Todos ficaram boquiabertos com o lance, inclusive o treinador, Aymoré Moreira, que nunca vira nada parecido. E como nunca vira nada parecido, achou melhor dispensar Aírton do grupo que iria ao Mundial, com medo que ele repetisse e errasse a jogada durante o torneio. A verdade é que o único errado nesta história era o próprio Aimoré Moreira: Aírton nunca errou aquela jogada. Com isso, o Brasil perdeu a chance de ter tido o primeiro zagueiro, desde Domingos da Guia, a rivalizar em talento com os nossos melhores atacantes e a chamar a atenção do resto do mundo. A seleção de 1962 ficou mais pobre sem ele.

 


Mas Aírton era muito mais do que uma jogada de efeito. Era, para dizer tudo de maneira simples e direta, um zagueiro tecnicamente perfeito: excelente na saída de jogo, sem rival na bola aérea, habilidoso como um ponta-direita, forte como um halterofilista e, ao mesmo tempo, absolutamente leal em todas as disputas de bola, a ponto de receber elogios públicos de Pelé numa época em que os zagueiros de todo o mundo apelavam para os safanões quando enfrentavam o Rei do Futebol.

Ao procurar Aírton para esta entrevista, não lidamos com assessores de imprensa, não precisamos marcar horário na agenda e não esperamos horas ao telefone para falar com um intermediário. Dirigimo-nos ao estádio Olímpico numa tarde de sexta-feira e, a alguns poucos metros dele, batemos palmas em frente a uma casa (não por acaso) azul e, após passarmos três longas e inesquecíveis horas na companhia de Aírton, o nosso Aírton, o maior zagueiro da História do Rio Grande do Sul,  ainda fomos convidados para, no dia do próximo jogo do Grêmio, passarmos ali para conversar um pouco mais. Enquanto isso, deixamos aos leitores o resultado da conversa daquela tarde.

 

 

O senhor começou no Força e Luz, um time que era conhecido por revelar jogadores para a dupla, e ali ficou de 1949 a 1954. Naqueles tempos, o clube chegava a complicar para a dupla Gre-Nal?

 

Não chegava a tanto. Quem complicava mesmo era o Cruzeiro, que tinha um excelente time.  Mas o Força e Luz revelava, sim, muitos jogadores bons, que atraíam a atenção da Dupla. Foi o que aconteceu comigo. Em 1954 eu fui para o Grêmio, em troca de um pavilhão do antigo estádio da Baixada, mais 50 mil cruzeiros.

 

E daí veio o apelido…

 

Exatamente. O Grêmio estava tentando montar um time forte para enfrentar o Inter, que ganhava tudo naquela época e tinha jogadores como Larry, Bodinho, Chinesinho, Oreco e outros. O nosso  treinador na época era o seu Osvaldo Rolla, o Foguinho, que  me tirou da posição de centromédio, onde eu comecei, e me pôs na de zagueiro. Esse meu período como centromédio do Força e Luz foi muito bom, porque quem joga nessa posição precisa desenvolver o passe, o posicionamento e a visão de jogo, e foi o que aconteceu comigo. Estes fundamentos foram muito úteis quando eu comecei a jogar de zagueiro. Na época, o titular era o Ênio Rodrigues, e o seu Rolla, pra eu entrar, pôs ele para o lado do campo.

 

Na época, quem eram as principais forças do futebol gaúcho?


Além de Grêmio e Inter, tínhamos o Renner, Cruzeiro, Aimoré, Pelotas, o Brasil de Pelotas e vários outros. Naquela época, o Campeonato gaúcho era muito forte. Se perdesse um ponto, perdia o campeonato. Não podia perder a linha de jeito nenhum. Para mim, era mais difícil que o campeonato brasileiro de hoje. Hoje todos os craques vão embora e antes não era assim, todos ficavam por aqui.

 

O senhor cresceu numa época em que o Inter era mais poderoso do que o Grêmio, não?

 

Sim, o Inter não perdia para ninguém. Era o time do Tesourinha! Mas eu, felizmente, nunca joguei contra ele. Quando ele estava no Inter eu ainda era muito guri, e quando ele veio para o Grêmio eu estava começando e ele prestes a encerrar a carreira, então nunca nos enfrentamos.

 

Antigamente, a diferenciação entre as duas torcidas era maior do que hoje, não?

 

Sim, era mais clara. O Inter era mais povão e o Grêmio era mais elitista.

 

Quando começou a disputar jogos contra equipes de fora?

 

Quando o Grêmio começou a ganhar títulos estaduais, começamos a jogar contra o Santos, o Botafogo e outros clubes do centro do país pela antiga Taça Brasil, que reunia os campeões estaduais. O Grêmio começou a jogar fora,  jogamos no Rio, São Paulo e em outros lugares. Depois, passamos a fazer excursões, que era uma coisa que os clubes brasileiros faziam muito na época. Fomos pra Europa e o time começou a plantar uma sementinha para ser famoso. Ganhamos de todo mundo na Grécia, jogamos na Rússia, Alemanha…..

 

Numa das excursões que o Grêmio fez pela Europa, jogou contra o Real Madrid. Como foi marcar Puskas?

Quando entrei em campo  e eu vi aquele baixinho pegar com o pé esquerdo de um jeito diferente e eu disse, “bah, esse canhoto é bom”. Não deu outra: ele acabou com o jogo e perdemos para eles. O Real Madrid naquela época era quase imbatível. Perdemos também para a seleção da Rússia lá e eu não me conformei. Solicitei que o Grêmio trouxesse os russos para cá, para a revanche, e aí ganhamos deles.

Em 1959, o Grêmio foi o primeiro clube estrangeiro a vencer o Boca em La Bombonera. O senhor estava lá. Como foi aquele jogo?

 

Bom, primeiro é importante falar que o Boca era uma equipe excepcional. Eles tinham o Rattin, um centromédio espetacular, um dos melhores jogadores do mundo na época. Na entrada do estádio era uma festa , papel picado, eles cantando “Boca, Boca”……..era a primeira vez que eu via uma festa daquelas. Eu saí do jogo surdo, o ouvido ficava zumbindo! Era um terror. Não estava acostumado com aquilo, porque o jogo aqui no Brasil era calmo. Quem venceu o jogo para nós foi o Gessi, que tinha passado no vestibular para odontologia e chegou para o jogo meio “alto” (risos). Mas ele jogava muito, muito!

 

Como se sente sendo reconhecido nas ruas?

O que me emociona é ver alguém dizer que o pai falava muito de mim, ou um homem, já adulto, me agradecendo por ter feito o pai dele tão feliz. A minha auto-estima vai lá em cima. É maravilhoso saber que eu fiz tanta gente feliz. Esses dias, eu estava sentado e de repente passa um guri de 10 anos e grita “E aí, Pavilhão?” (risos). Um guri de dez anos! Apesar disso, eu acho que o Rio Grande do Sul é um estado que não tem memória. O único jogador que entrevistam sou eu. Eu fico louco com isso.  Alcindo, Florindo, Alberto, onde estão? Não dão o devido valor pros jogadores antigos. Tu paras de jogar e pronto, morreu. O único que lembram sou eu e isso me faz sentir mal. O Alcindo jogou Copa do Mundo, o Alberto foi convocado para a seleção….foram tantos. Mas felizmente eu sempre sou reconhecido, o que gera também situações engraçadas.Às vezes o Grêmio perde e eles passam ali brabos, e eu estou ali quieto. Eles dizem “tu também és culpado” e eu digo “Eu? Eu parei há quarenta anos! (risos).

 

Como foi enfrentar o Pelé?

 

Olha, marcar o “negrão” no mano a mano era brabo. Mas ele nos respeitava muito. Agora, quando o Inter foi campeão da Libertadores, ele disse que eles conheciam mais o Grêmio, por causa dos jogos na Taça Brasil. Uma característica do Pelé é que ele era forte e objetivo, não era tipo  o Ronaldinho que fica driblando para lá e para cá. Ele pega a bola e partia para cima, não ficava dando driblezinho à toa. O Ronaldinho….(risos) Eu queria marcar o Ronaldinho!

 

Porque?

Porque ele dribla muito. É muito mais fácil de marcar o Ronaldinho que o Pelé.  Esses dribles para o lado que ele fica fazendo dão oportunidade do defensor tirar a bola dele. Só toma drible do Ronaldinho quem é bobo. Eu gostava de jogar com aquele jogador que driblava na minha frente, pois esse é mais fácil. O complicado é quem é forte e vai direto pro gol. Esses são os mais dificeis. Já o Garrincha era diferente, era driblador mas também era objetivo e, diga-se de passagem, muito gente fina, estive com ele na Seleção.Nunca joguei contra ele, mas era mais fácil que o Pelé, com certeza. É que nem a cobra e o sapo. A cobra não ataca. Quem tenta fugir é o sapo. Era isso que eu tentava fazer.

O senhor estudava seus adversários?

Sempre que podia, eu assistia a jogos para saber como é que os caras jogavam. Esse cara do Inter, D´Alessandro, por exemplo, ele é canhoto e entra pela direta. Se eu assistisse os jogos dele, saberia que o melhor era esperar ele tocar a bola. Assim, ele nunca passaria por mim.

Acha que os zagueiros cometem hoje erros que não cometiam na sua época?

 

Claro. Cometem erros bobos. Por exemplo, os gols de cabeça os zagueiros de hoje tomam a todo momento. E sabe porque? Porque ficam empurrando o cara. Quem entra pro gol? A bola. Eles não marcam a bola. Eu não quero saber do jogador, eu quero a bola. E eu fiz sempre isso. O Grêmio, na minha época, não tomava gol de cabeça. O segredo é olhar para a bola, é só seguir em direção a ela. Eu falo isso na TV e eles ficam loucos. Eu queria fazer uma entrevista assim: eu no meio e todos os ‘entendidos’ fazendo perguntas. Não precisa ser jogador para ser treinador, mas é como o pessoal fala, só manda quem sabe fazer. Se não teve a prática, não tem como. E eu tive. Sempre quis fazer o melhor e ser diferente dos outros. Uma vez joguei contra o Pelé e sem querer trombei nele –  ou melhor, ele trombou no meu corpo –  e aí quem ganhou fui eu, que era mais alto e forte. Ele caiu, e eu disse “tudo bem, negrão”?. E ele “tudo, Airton, não se preocupe porque eu sei que você não precisa disso”. Quase me arrepio quando lembro disso!

 

 

Que homenagem!

 

Uma senhora homenagem. Como eu disse,  sempre fiz questão de ser um jogador diferente dos outros. Os treinadores às vezes me  mandavam bater, mas eu sempre desobedecia. Tu, por exemplo, se fores ser advogado, não podes ser qualquer um, tens de ser o melhor advogado. Eu pensava: se eu tenho a chave da porta, porque vou arrombar? Se eu machucasse algum jogador eu ficava com vergonha, porque significava que eu não podia com ele. Eu sempre quis fazer o melhor de mim e ser o melhor de todos, e isso valia para o Grêmio também. Se na minha equipe um  amigo meu errasse eu dizia “sinto muito, gosto de ti, mas tu vai sair do time” e eu dizia pro treinador, esse aí não dá. Para teres uma idéia, eu fiz 125 gols na minha carreira. E olha que a gente jogava quase sempre só no domingo e muito pouco na quarta. Senão ia fazer muito mais gols. Todo ano eu era o melhor jogador do campeonato. Aí parei de disputar, porque era sempre o melhor.  Aí fui me convencendo que eu era realmente o melhor. E que era bom mesmo.

 

Depois de alguns confrontos com Pelé, chegou a ser pretendido pelo Santos, não é?

Sim. Joguei 3 meses emprestado para o Santos. Só que acabei querendo voltar, porque tinha medo de avião e o Santos viajava muito pelo mundo. A linha deles era Durval, Coutinho, Pelé e Pepe. Não tinha como perder com esses aí. E ainda tinha o resto do time, que também era excepcional.

 

Sem contar a famosa jogada que o senhor fazia, levando a bola para a linha de escanteio e, de “Charles”, atrasando-a para o goleiro…

 

Sim, e pior é que tinha centroavante que ficava brabo comigo por causa da jogada, queriam dar em mim! O centroavante Almir Pernambuquinho era um deles. Por isso, eu queria marcar o Edmundo, Ronaldinho e esses que são mais debochados. Esses aí, eu levava lá no cantinho e fazia a jogada! (risos)

 

Quem foi o maior treinador que o senhor teve ?

 

Osvaldo Rolla. Esse sabia de tudo. Ele foi fantástico. Conhecia muito de tática. O seu Rolla  gostava muito do time da Hungria em 1954 e aplicava o mesmo no Grêmio. Colocou só zagueiro grandão lá atrás e fez todos participarem do jogo. Mas eu também jogava o meu jogo independente dos treinadores. Se o treinador me dissesse para fazer isso ou aquilo, eu ouvia e dizia “sim senhor” – e não fazia. Ia jogar o meu jogo. Se ele dizia “ Airton , não vai cabecear”,  eu dizia “sim senhor”,e eu ia. E s e fizesse o gol, ele não tinha do que reclamar! (risos)

Como foi a sua passagem pela seleção?

 

A primeira foi no Panamericano de 1956, quando fomos campeões. Depois, cheguei a ser convocado para ir à Copa de 62.

Airton na Seleção Brasileira 1962- último à direita na fila de cima

 

Foi o único jogador de um clube de fora do eixo Rio-São Paulo a ser convocado.

 

Sim, isso mesmo. O problema é que, num treino, fiz a jogada de “Charles” e o Aimoré Moreira, treinador do Brasil naquele ano, ficou com medo, não gostou e eu fui cortado. Além disso, o jogador gaúcho nunca conseguia espaço. Muito raramente nos davam chance.

 

Acha que se tivesse jogado no centro do país teria tido mais visibilidade?

 

Sem duvida. Hoje eu penso que deveria ter ido para fora. Acho que comigo aconteceu como naquela história do barco, em que o cara está se afogando, pede ajuda para Deus, passam vários barcos, ele continua pedindo ajuda e, de repente, ele morre e Deus diz “rapaz, eu te ajudei, te mandei vários barcos e não aproveitaste nenhum!”. Foi o que aconteceu comigo. Ele me disse, vai lá para ser o melhor do mundo e eu fiquei no Rio Grande do Sul. Não por causa do dinheiro. O resto queria me ver e não me viu. Aí eu não posso culpar Deus, pois eu é que não aproveitei. Quando eu vejo um  jovem me agradecer por eu ter feito o pai dele tão feliz, eu penso sempre que eu tinha mais coisa para dar. Eu podia ter dado mais de mim. Eu poderia ter feito mais gente feliz.

 

O senhor acha que os centroavantes hoje são muito supervalorizados?

 

Acho, pelo menos os que jogam aqui. Antes, todos os bons jogavam aqui. Hoje, os jogos me enjoam. Assisto meio tempo e me enjoa. Eles só jogam para o lado, e eu quero jogo para a frente. Viu o jogo do Gremio ontem? O único que põe o time para a frente é o Rochemback. Eu fazia como ele, era o homem surpresa. O Grêmio é interessante, joga bem um jogo, joga mal um mês. Aquele time anos 60 jogava bem quase todo jogo. A gente quando errava ficava louco. Joãozinho, Volmir, Alcindo, era incrível o que aquele time fazia. E nós éramos bem balanceados, tínhamos um ataque muito bom e uma defesa muito bem organizada. É como se diz: um ataque ganha jogo, mas uma boa defesa ganha campeonato.

 

As condições eram piores na sua época?

 

Muito piores. A bola era mais pesada, o campo era pior, e a torcida queria te matar. Quando a gente jogava no interior,os torcedores rivais queriam acabar com a gente! A gente comia pó para chegar em Bagé, porque não era asfaltado. Tudo era mais difícil.

 

Como avalia os zagueiros de hoje?

 

Olha, o Lucio é o melhor, mas, como eu disse, os zagueiros de hoje não têm o mesmo nível da minha época. Hoje todos jogam com líbero, com volantes, com jogadores fazendo cobertura. Na minha época não era assim. Zagueiro que é bom para mim, é o bom no mano a mano. É raro encontrar um assim. Nunca gostei de jogar com libero. Era vergonha para mim. É uma maneira de eu dizer que eu não tenho condições.

 

 

Dos zagueiros que jogaram em sua época, com quem o senhor gostaria de ter feito dupla?

Ah, tem vários. No Inter tinha o Florindo, que era um jogador fora de série. O pessoal da  minha época era incrível. Nilton Santos era incrível, Djalma Santos era melhor ainda. O Bellini era diferente, era mais durão. Eram vários.

 

O senhor mora em frente ao Olímpico, jogou toda a vida no Grêmio, tornou-se um símbolo do clube……já pensou em como vai ser quando ele for destruído?

 

Olha, nem quero pensar (risos). Nem sei como vai ser. Vou ficar muito, mas muito triste. Todos os campos em que eu joguei acabaram.  Aquele campinho do Força e Luz, onde eu comecei,  foi desmanchado; o do Cruzeiro, a mesma coisa; o Eucaliptos, do Inter, onde joguei tantas vezes, também. O Olimpico era último estádio desses antigos que tinha sobrado. Todos foram embora. Todos terminaram. O seu Hélio Dourado não queria que o estádio fosse destruído. Aliás, eu mesmo, nos anos 70, ajudei o Sr. Dourado e fazer a campanha para buscar tijolo, para a torcida construir o estádio, porque a verdade é que o Olímpico foi construído pela torcida do Grêmio. E hoje querem construir um novo…..tanta coisa por um ou dois jogos da Copa……

 

Tinha boa relação com o pessoal do Inter?

 

Tinha. E eles tinham uma relação de amor e ódio comigo. Vou lhe contar uma emoção que eu senti. Era um Grenal , jogo duro, e eu estou lá atrás como zagueiro e nós estamos atacando lá na frente, na área deles. De repente, olho para a torcida e eles começam a me vaiar, e eu disse “o jogo está lá, olhem para o jogo!”. Naquele momento, eu pensei, “deixaram de ver o jogo para prestar atenção em mim. Eles realmente me amam”.

 

A diferença de salário era muito grande do Santos para o Grêmio?

 

Ah, pagavam muito mais. O Santos pagava muito melhor. Mas não era pelo salário que eu quis ir para lá, e sim para me tornar mais conhecido, para me apresentar para mais gente, para que mais pessoas me vissem. Era muito difícil se tornar conhecido jogando aqui, naquela época. E o nosso jogador, aqui do Rio Grande do Sul,  para aparecer é brabo.O Gremio quando é campeão do mundo dizem que foi sem querer, e o Flamengo, quando ganha, fazem um carnaval. O Everaldo foi para a seleção para ser reserva. Era melhor que o Marco Antonio. Mas vou dizer: nenhum dos dois era melhor que o Ortunho.

A relação que os senhores tinham com o clube antigamente era diferente da que se vê hoje?

 

Eu acho que o jogador tem que ter dois amigos para entrar em campo, o juiz e torcida. Se ela gostar de ti, tudo bem. Hoje é tudo diferente, porque o salário é outro, os valores são outros……..e, como eu disse, eu pessoalmente nunca liguei tanto para dinheiro. Sabe do que eu tenho raiva? De homem velho, político, que quer cada vez mais dinheiro. O que dá depois? Briga de família. Tenho nojo de político ladrão. Se eu ganhar 5 mil, ganhar um bom carro, boa casa ,um bom emprego, já me chega. Se eu quiser mais, já me começa a incomodação. Nunca sabe se quem se aproxima, se aproxima por amizade ou por interesse. Então, eu vejo essa diferença, os jogadores de hoje ganham milhões e têm uma vida muito diferente da que a gente tinha, e isso reflete na relação com a torcida. Mas tem uma coisa que eu noto de diferente na torcida.  Hoje as pessoas saem do jogo e não estão rindo, estão apreensivas, nervosas, irritadas. Antes, as pessoas saíam rindo do jogo.

 

Entrevista publicada no jornal O Timoneiro

 

abril 8, 2011 Posted by | Esportes | 2 Comentários

Família McGhee do estado de Ohio,EUA

l Rozonno e Mia McGhee e seus seis filhos recém nascidos.

abril 5, 2011 Posted by | Sem categoria | 1 comentário

Agente X-9

 

 

 

A gíria “X-9” tem,em certos círculos, o mesmo significado que “dedo duro” para a população em geral. Cabe perguntar: de onde veio a palavra? Ao contrário da sua homóloga mais conhecida, que traz logo à mente uma imagem bem clara de um delator fazendo um gesto característico, esta expressão aparentemente nada significa. Constituída apenas de uma letra e um número, parece ficar bem como codinome. E de fato fica – porque é, realmente, um codinome. Assim era chamado o agente Phil Corrigan entre os seus companheiros de trabalho nas tiras em quadrinhos Secret Agent X-9, publicada nos jornais americanos entre 1934 e 1996. Com tantos anos de divulgação e sucesso, fica fácil entender porque o nome pegou.

As tiras do agente X-9 também foram publicadas em jornais brasileiros e chegaram a ganhar revistas próprias. A estas vem se juntar a coletânea Agente Secreto X-9 , publicada pela Devir Livraria no fim do ano passado. Composta por 570 tiras, ela cobre um período entre janeiro de 1934 e novembro de 1935, mostrando o começo da história e a gênese do personagem. Nestes dois anos as tiras ainda eram responsabilidade de seus criadores originais, o famoso escritor policial Dashiel Hammet e o lendário desenhista Alex Raymond, autor de Flash Gordon. A dupla havia sido contratada pela King Features para criar um personagem capaz de fazer frente a Dick Tracy, que naquela época dominava o setor de quadrinhos policiais americanos. O resultado está aí: seis décadas de sucesso nos jornais, uma bela reedição e uma palavra incorporada à língua portuguesa.

 

Onde encontrar:

 

www.devir.com.br

(11) 2127 8787

 

 

 

abril 5, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Relendo Huntington

O Choque de Civilizações está completando 15 anos de sua primeira edição em livro. Publicado inicialmente como um artigo na prestigiada revista Foreign Affairs , o trabalho mais conhecido de Samuel Huntington causou imensa polêmica entre os estudiosos de relações internacionais e chegou a ser definido por ninguém menos do que Henry Kissinger como uma das obras mais importantes lançadas desde o fim da Guerra Fria.

Huntington é da opinião que no mundo pós-Guerra Fria, as distinções entre os povos já não são de ordem política ou ideológica, mas sim cultural, e são estas distinções que podem nos levar a conflitos étnicos e religiosos em escala mundial. A partir daí, Huntington faz um traçado das civilizações hoje existentes – oito ao todo – e aponta os principais pontos de conflito existentes entre elas, com especial destaque para a islâmica, a ocidental e a chinesa, os quais, segundo ele, representarão os maiores desafios para a política externa do século XXI.

Há muito que apontar em O Choque de Civilizações. A maneira como descreve as civilizações as faz parecer entidades monolíticas, Quando Huntington fala – e fala pouco – da América Latina mostra um desconhecimento da história cultural da região simplesmente inacreditável para quem quer fazer uma análise internacional séria. Isto posto (e muito mais poderia ser apontado), a leitura de O Choque de Civilizações é, por todas as mentes que influenciou, pelo impacto que causou e pela mirada corajosa em direção à cultura, ainda proveitosa e importante.

 

Onde encontrar:

 

www.objetiva.com.br

(11) 2199-7825

 

abril 5, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Espetáculo musical Berry – Canção Francesa Contemporânea



abril 1, 2011 Posted by | Música | Deixe um comentário

Ozzy – Atitude Rock’n Roll

Ozzy Osbourne mostrou que realmente tem compromisso com tudo que o Rock’n Roll representa.

Em plena casa do clube da Beira Rio, com jogo da Copa Libertadores acontecendo ao lado, desfralda uma bandeira do Grêmio.

Fonte

março 31, 2011 Posted by | Música | Deixe um comentário

SARAU EM LÍNGUA INGLESA NA LIVRARIA CULTURA- “Um tributo à amizade e aos livros!”


DATA: 9 DE ABRIL DE 2011 (SÁBADO)

LOCAL: AUDITÓRIO DA LIVRARIA CULTURA, SHOPPING BOURBON COUNTRY. Av. Túlio de Rose, nº 100.

HORÁRIO: 16 -17:30

ENTRADA FRANCA

COORDENAÇÃO: MARIA DA GRAÇA GOMES PAIVA (PROFA. APOSENTADA DA UFRGS) e KLEBER SCHENK (UFRGS)

ATIVIDADE DE EXTENSÃO (PROREXT/UFRGS)

Tema: Um tributo à amizade e aos livros!

 

O próximo Sarau em Língua Inglesa na Cultura, edição 2011, abordará um tema tão em voga quanto relevante desde o início da civilização: a amizade e sua importância nas nossas vidas; amigos que vão e vem, que se perdem e que se ganham; que estão perto e que estão longe; que estão conosco nos momentos de alegria e nos momentos de dificuldade e que deixam marcas em nossa trajetória de vida. Neste mês de abril relembraremos grandes personalidades do dia 23, que é o dia de São Jorge, padroeiro da Inglaterra, deus da guerra no Brasil e deus do amor na Catalunha; e também o Dia Internacional do Livro, celebrado nesta data em função do aniversário da morte de dois grandes autores: William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Também trataremos, por meio de citações, vídeos, pequenos poemas e de um fórum interativo, os assuntos sugeridos pelo público, tais como: Ray Charles, Páscoa, Joseph Campbell, entre outros. O Sarau na Cultura sempre acontece em um clima descontraído e animado com o intuito de desenvolver aautoexpressão em língua inglesa, em um lugar extremamente agradável e aconchegante cujo nome já diz tudo: cultura. Traga seus amigos e venha compartilhar seus conhecimentos e experiências conosco!

 

março 30, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

The Animals tocando John Lee Hooker

The Animals em 1966

 

 

Como bem notou o amigo Carlos Vinicius Sá, baterista de várias bandas do cenário rock metropolitano, Eric Burdon cumprimenta o público com um ‘Good Morning’, mostrando que os festivais de rock naquela época começavam muito cedo, antes mesmo do meio-dia.


março 30, 2011 Posted by | Música | 2 Comentários

José Alencar e a falta de respeito da Globo

O ex-presidente José Alencar conseguiu conquistar a simpatia do povo brasileiro através de uma vida digna e pela sua luta heróica no enfrentamento da doença que o acometeu. Não conheço ninguém que não gostasse de José Alencar e a notícia do final de sua luta gerou uma onda de manifestações pesarosas nas redes sociais. Todos lamentamos e muitos de nós dedicamos alguns instantes para orar por ele. Esse foi o clima que o Brasil todo sentiu.

No entanto, as redes jornalísticas nem sempre têm a sensibilidade de perceber o que o povo sente. A Rede Globo, no portal Globo. com, noticiou a morte de José Alencar da maneira como está registrado abaixo. Convenhamos é até uma falta de respeito a notícia da morte do ex-vice-presidente da República estar acompanhada de fotos sobre brindes  festivos no Big Brother Brasil.

março 29, 2011 Posted by | Geral | 1 comentário

Comissão da Secretaria de Cultura de Canoas e o mau uso da língua pátria

 

“Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?”
(Napoleão Mendes de Almeida)

Como todos sabemos, o uso da língua portuguesa no dia-a-dia é variável. Varia de acordo com a classe social, com o nível de estudo, com a região, com o local, com o interlocutor. Há momentos em que os desvios à norma são toleráveis e há momentos em que estes mesmos desvios são, digamos, pouco recomendáveis. Há momentos para o uso da gíria e há momentos para um cuidado mais apurado no uso do idioma. E isto não ocorre apenas no Brasil: o inglês pode ser usado da maneira mais informal possível no East End londrino, terra natal do proverbial dialeto cockney e, a poucos quilômetros dali, receber o mais pomposo e cuidadoso tratamento da família real inglesa, no Palácio de Buckingham, de onde a expressão “king’s english” vem e é utilizada no sentido de conferir pureza e bom uso ao idioma de Shakespeare. As palavras do eminente gramático Evanildo Bechara não parecem deixar espaço para qualquer dúvida:

“Como, de manhã, a pessoa abre o seu guarda-roupa para escolher a roupa adequada aos momentos sociais que ela vai enfrentar durante o dia, assim também, deve existir, na educação lingüística, um guarda-roupa lingüístico, em que o aluno saiba escolher as modalidades adequadas a falar com gíria, a falar popularmente, a saber entender um colega que veio do Norte ou que veio do Sul, com os seus falares locais, e que saiba também, nos momentos solenes, usar essa língua exemplar (…).”

Poucas vezes as palavras dos renomados  gramáticos  fizeram tanto sentido quanto no caso que passaremos a relatar.

Um dos integrantes deste blog inscreveu-se junto à Secretaria Municipal de Cultura de Canoas no Programa de Incentivo a Cultura, visando publicação de obra literária. A obra em questão tratava-se de um livro com entrevistas de canoenses atuantes nas mais diversas áreas. A introdução da obra trazia a justificativa para sua publicação.

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.

Ao lado da introdução, foi entregue à Comissão encarregada da seleção  o teor completo da obra a ser publicada, isto é, o texto das entrevistas realizadas. Entrevistas que, repetimos, incluíam pessoas dos mais diversos segmentos da cidade, de atletas ao secretário municipal de educação, de vereadores a ex-deputado, de artistas a cineasta. Canoenses de todos os setores, enfim.

Passados alguns meses, o autor do projeto compareceu à Secretaria Municipal de Cultura  e foi informado de que a Comissão de Analise de Projetos Culturais havia opinado contrariamente à sua pretensão de ser contemplado com verba do PIC para publicação.  Recebeu três documentos com timbre da Secretaria Municipal de Cultura onde constam as razões expostas pelas integrantes da  Comissão. E o conteúdo destes documentos oficiais é de causar constrangimento a todo aquele que tenha um mínimo de apreço pela cidade de Canoas e pelo idioma nela falado. Nesses documentos oriundos da Secretaria de Cultura de Canoas,  o que se viu não foi o mau uso das “roupas” linguisticas de que falou Evanildo Bechara.  Foi muito pior: foi a ausência completa de trajes. Um verdadeiro atentado ao pudor idiomático. E pior, um atentado com consequências que vão muito além de muito simplesmente maltratar o idioma: eles chegam a maltratar a justiça.

A cópia dos documentos segue abaixo :


I

O proponente resolveu recorrer da decisão. As razões do recurso que foi protocolado no dia 10 de março de 2011 na Prefeitura Municipal de Canoas,a serão aqui reproduzidas com a  finalidade de levar a conhecimento público a maneira desrespeitosa com que é feita avaliação de projetos culturais em Canoas.

 


PRELIMINARES

I-Quanto à tempestividade


O signatário, acreditando no propósito do Município de Canoas de promover apoio a projetos culturais, inscreveu-se no PIC com obra expressamente destinada a registrar a  memória viva da cidade através de depoimentos de seus moradores.Este propósito consta da introdução da obra, que foi, juntamente com a totalidade do texto, anexada ao projeto, também expresso no formulário de apresentação. Após a inscrição, adotou o hábito de semanalmente realizar ligações telefônicas para a Secretaria da Cultura, a fim de inteirar-se da data da seleção dos trabalhos. Tal prática perdurou até o início do mês de fevereiro de  2011, quando lhe foi informado por funcionário da Secretaria de Cultura que não haveria decisão antes do mês de março e que tal se daria através de evento público amplamente divulgado, com  prévio aviso aos inscritos.

Tranquilizou-se, então, o atarefado signatário. Aguardaria o mês de março para então retomar a rotina de averiguar qual teria sido a decisão daquela que considerava, até então, como qualificada comissão julgadora.

Qual não foi sua surpresa quando, ao comparecer à Secretaria de Cultura no dia 4 de março, foi-lhe informado que o resultado havia sido noticiado no dia 22 de fevereiro do corrente ano.

A notícia, constante no site da Prefeitura, assim relata:

“A Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Diretoria de Economia da Cultura, divulgou no início desta semana os nomes dos contemplados no Programa de Incentivo a Cutlura 2010.(…)”

Ou seja, trata-se de uma notícia comunicando acerca da divulgação ocorrida no início daquela semana. Não se trata, absolutamente, da própria divulgação do resultado e sim de mera notícia, cuja única finalidade é, simplesmente, informar ao público que a divulgação já havia ocorrido. Logo, não há como a municipalidade pretender que a data da notícia seja o termo inicial para fluência de prazo recursal. Isso seria dizer que uma mera notícia, constante no rol de inúmeras notícias da página da prefeitura sem qualquer destaque especial, cumpriria a função de intimar os concorrentes, assumindo a função de tornar publicado o resultado no sentido do artigo 10.2 do edital 015/10, que assim dispõe:

“9.1. A Secretaria Municipal de Cultura, por meio de publicação no site da Prefeitura Municipal de Canoas (http://www.canoas.rs.gov.br) e no mural oficial no Gabinete do Prefeito de Canoas, disponibilizará a lista de todas as propostas ganhadoras, assim como a relação, por ordem alfabética, dos projetos suplentes.

9.3. O resultado final dos contemplados por este Edital será publicado no site da Prefeitura Municipal de Canoas (http://www.canoas.rs.gov.br) e no mural oficial no Gabinete do Prefeito de Canoas.

10.2 Da decisão da Comissão de Análise  de Projetos Culturais, caberá recurso administrativo em 05 (cinco) dias úteis,  a contar da publicação do resultado, no Protocolo Geral do Município, mesmo local das inscrições. O recurso apresentado será julgado no prazo máximo de 05 (cinco) dias úteis, prorrogável por um mesmo período.”

Outrossim, a lei  8666/93 estabelece que :

Art. 109.  Dos atos da Administração decorrentes da aplicação desta Lei cabem:

I – recurso, no prazo de 5 (cinco) dias úteis a contar da intimação do ato ou da lavratura da ata, nos casos de:

(…)b) julgamento das propostas;

(…)

§ 1o A intimação dos atos referidos no inciso I, alíneas “a”, “b”, “c” e “e”, deste artigo, excluídos os relativos à advertência e multa de mora, e no inciso III, será feita mediante publicação na imprensa oficial, salvo para os casos previstos nas alíneas “a” e “b”, se presentes os prepostos dos licitantes no ato em que foi adotada a decisão, quando poderá ser feita por comunicação direta aos interessados e lavrada em ata.

A notícia veiculada no site, conforme já frisado, informa que já ocorreu a divulgação dos resultados. Assim, é inclusive desnecessário ressaltar ser inadmissível que se considere simples notícia como  publicação oficial,  considerando-se que existe no Brasil o império da lei. Publicação oficial não prescinde de divulgação em órgão oficial e mera notícia não substitui esta forma de publicação.

O edital informa que os resultados seriam publicados no site da Prefeitura. Em que pese  tenham sido eles noticiados (sem qualquer destaque, frise-se), não se pode considerar, como acima dissemos, em hipótese alguma, que simples notícia cumpra a função de publicação mencionada tanto no edital quanto na Lei 8666/93.

O signatário foi, de fato, intimado do resultado de seu pedido de no dia 04 de março de 2011. Afinal, foi nesta data que tomou conhecimento de que, em algum lugar incerto e não sabido – pelo menos aos não aquinhoados com informações privilegiadas…. – , ocorreu a publicação dos resultados. Sim, pois é isso que informa a notícia veiculada no site da Prefeitura: que a Secretaria Municipal de Cultura divulgou a lista de aprovados. Em lugar algum há menção de onde ocorreu esta divulgação, o que leva a crer que ainda não foi publicada em órgão oficial.

Então, muito embora ainda espere a publicação oficial, considera-se o recorrente intimado a partir da ciência inequívoca, face recebimento dos documentos de avaliação em data de 04 de março de 2011. E, a partir dessa data inicia a fluir o prazo recursal de cinco dias,  sendo desnecessário salientar que 09 de março de 2011 é o primeiro dia útil após a ciência do ocorrido.


II-Quanto à comissão


Primeiramente, cumpre ressaltar a absurda falta de conhecimento básico da língua portuguesa por parte de membros da Comissão de Análise de Projetos Culturais – CAPC , composta por Leila da Silveira, Camila Mousquer Buralde e Lígia B. Fensterseifer. Tal desconhecimento inclui a incapacidade de formular frases compreensíveis, o que evidencia despreparo para julgar trabalho alheio.

Vejamos, apenas a título de exemplo, o resumo da avaliação da parecerista Leila da Silveira:

“Resumo da avaliação: O presente projeto apresenta um custo de acordo com a realidade, não clareza nos objetivos, tem que explorar mais este lado criativo, o porponente esta hábito a aplicar este projeto, será descentralizado.”grifo nosso

Ininteligível. O resumo da avaliação da parecerista trata-se de um acúmulo palavras (algumas sequer existentes na língua portuguesa), ali dispostas na  infrutífera intenção de construção de uma frase.

O que significaria a expressão”o porponente(sic)esta(sic) hábito(sic) a aplicar este projeto, será descentralizado”?.

Dificulta, inclusive, a tentativa de oposição ao que supostamente está sendo colocado. Para que haja oposição é preciso conhecer aquilo ao que se irá opor; isto, como se vê, afigura-se uma tarefa complicada, dada a extrema dificuldade para se entender o conteúdo da  frase final de um parecer que determina se irá o Município de Canoas patrocinar ou não um projeto literário. Defende-se o recorrente do que imagina seja uma crítica ao seu trabalho.

“Pessoa hábita a fazer este trabalho” – O que seria uma pessoa “hábita”, segundo Leila Silveira?

A palavra, inexistente na língua portuguesa com sentido diverso de habitar (e sem acento), está inserida na frase aparentemente com o sentido de substituir a palavra “apta”. Pois bem, se assim for o requerente seria pessoa APTA a realizar o trabalho. Sendo assim, porque recebeu nota  5? Se é apta, deveria forçosamente receber nota 10, como lhe foi atribuída pela integrante Camila Mousquer Buralde. Por outro lado, a parecerista Lígia B. Fensterseifer preferiu ignorar que o edital expressamente prevê a contrapartida obrigatória de 10% das obras e assim conferiu-lhe a nota 5.

Mas retornemos a Leila Silveira, que, considerando ser o proponente pessoa “habita”, sem restrições, conferiu-lhe nota 5. Por que? Seria a palavra habita um código que promove demérito à pessoa assim denonimada? Misteriosa forma de aquilatar trabalho alheio, utilizando palavra inexistente na língua portuguesa.

Mas vai além Leila Silveira em seu estranho afã em agredir sistematicamente a língua pátria. A parecerista, integrante de comissão ligada à Secretaria de Cultura de Canoas, formula frases como a que é reproduzida a seguir:

“Criatividade. O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho.Apenas, entrevistas. A pergunta é: O que pretende com estas entrevistas.  Qual será os critérios para selecionar os entrevistados? Falta de titulo.”

A questão de mérito não será enfocada neste momento. Detenhamo-nos apenas na continuidade da agressão à língua portuguesa perpetrada por Leila da Silveira. A senhora avaliadora aparenta desconhecer a concordância do verbo “ser”: na frase em questão, estando o substantivo “critério” no plural seria imperativo que o verbo fosse conjugado no plural. A frase deveria ser assim formulada: “Quais serão os critérios”, ou se entendesse que o proponente deveria utilizar apenas um critério, aí então permaneceria o verbo ser no singular juntamente com critério. Nunca, jamais se utiliza “qual será os critérios” No entanto, o citado erro no uso do idioma, embora fira a gramática, não ataca a lógica elementar. Com algum esforço foi possível compreender o que a parecerista aparentemente pretendia dizer.

O mesmo lamentavelmente não se pode dizer da seguinte frase:

“O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho.Apenas, entrevistas”.

Ou então esta:

“O presente projeto apresenta um custo de acordo com a realidade, não clareza nos objetivos, tem que explorar mais este lado criativo, o porponente esta hábito a aplicar este projeto, será descentralizado.”

A parecerista Camila afirma que “O projeto carece de criatividade, haja vista que não serão realizadas entrevistas para compor a obra, mas serão utilizadas  entrevistas já elaboradas e publicadas não apresentado nenhuma novidade, tão pouco criatividade”

No resumo de Camila:

“ O projeto não atende aos critérios de avaliação. Não foi apresentada contrapartida . As modificações que devem ser procedidas estão diretamente ligadas com o objeto, tal remendo não é aconselhável. Para tanto,não recomendo o projeto.”

Inicialmente detenhamo-nos no uso da expressão  “tão pouco criatividade“. Em vista das demais agressões ao idioma apontados anteriormente este poderia ser até considerado de menor potencial  ofensivo. Afinal, trata-se “apenas” da substituição da palavra tampouco pela expressão tão pouco. A falta de familiaridade com a língua gera esses problemas. Como existem semelhanças fonéticas, aqueles despreparados para o manuseio do português cometem esses erros.

Da mesma forma a substituição de “portanto” por “para tanto”, como fez a parecerista Camila no mesmo resumo.

O proponente é acadêmico de Letras. Está, portanto, habituado ao estudo das peculiaridades do uso da língua mãe, inclusive por parte de pessoas menos habituadas ao convívio com as letras. Mesmo assim, revelou-se incapaz de compreender o que a parecerista Leila pretendeu dizer nas frases supracitadas. Pensou, inclusive, em solicitar auxílio aos seus professores de lingüística e sintaxe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lamentavelmente, as férias letivas impossibilitaram que pedisse  ajuda aos mestres. Tão logo inicie o ano letivo, entretanto, levará ao conhecimento dos mesmos os pareceres para que sejam alvo de cuidadosa análise por parte daqueles que prezam a língua e a literatura, como exemplo a não seguir.

Isto posto, cumpre ressaltar o seguinte: todos estamos sujeitos a cometer erros idiomáticos . O cidadão comum os comete diariamente, sem maiores prejuízos tanto a si quantos aos outros. Entretanto, em se tratando daqueles que exercem função pública de avaliação de projeto literário, é imperativo que tenham conhecimento esmerado da língua, pois suas responsabilidades são incomparavelmente mais pesadas.  Quem não maneja bem a língua talvez não a compreenda bem e assim não terá alcance para julgar obras. Mas em Canoas julgaram, e a análise da avaliação de mérito indicará que julgaram de forma inaceitável.

II – a

Descumprimento por parte da comissão do que prevê o edital 015-10

O artigo 8.1 do edital 015-10 estabelece que a comissão deverá pautar-se nos seguintes requisitos para análise e avaliação dos projetos culturais:

a) aspectos orçamentários do projeto, pela relação custo-benefício;

b) retorno de interesse público; – ignorado pela comissão

c) clareza e coerência nos objetivos;

d) criatividade;

e) Importância para o Município;    – ignorado pela comissão

f) descentralização cultural;

g) valorização da memória histórica da cidade;   – ignorado pela comissão

h) princípio de equidade entre as diversas áreas culturais possíveis de serem incentivadas; - ignorado pela comissão

i) princípio de não aceitação de pluralidade de projetos; – ignorado pela comissão

j) capacidade executiva do proponente  a ser aferido na análise de seu currículo.

O artigo 8.1, frise-se, é imperativo.

Desconhecemos as razões pelas quais um projeto que tem, como uma de suas maiores justificativas de realização, a valorização da memória histórica da cidade, como está bem expresso nos objetivos e na introdução da obra ,não tenha esse requisito sido avaliado, bem como outros ali presentes.


ANÁLISE DAS AVALIAÇÕES DE  MÉRITO


Vejamos, então, um a um, o constante nos pareceres de Leila da Silveira, Camila Mousquer Buralde e Lígia B. Fensterseifer, que integram a comissão de avaliação. Salientamos que os mesmos serão reproduzidos exatamente como foram escritos, sendo que as eventuais incorreções gramaticais são de responsabilidade de seus signatários.

a) ASPECTOS ORÇAMENTARIOS

-Leila Silveira

 

“O presente projeto custode  acordo com realidade do mercado. Nota 6”

Por que nota 6? A frase (extremamente mal elaborada) da avaliadora leva a supor que entendeu ter o projeto uma relação positiva de custo-benefício, estando de acordo com o valor praticado no mercado. Mas, apesar disso, confere a Celso Augusto Uequed Pitol a nota 6. Ou seja, entendeu que merecia desconto de 4 pontos na nota o projeto que, segundo entendimento da própria parecerista, estava de acordo com a realidade do mercado. O motivo do desconto é obscuro, o que leva a crer que foi realizado sem observância de nenhum critério objetivo, sendo expressa apenas a vontade livre e com oculta motivação da avaliadora.

 

-Camila Mousquer Buralde

“Analisando o valor unitário entende-se como plausíveis com os valores de mercado. Nota 10”

A avaliação de Camila Mousquer Buralde evidencia que os critérios não são objetivos. Para ela, estando o projeto de acordo com os valores de mercado, a nota é 10. Para Leila, isso leva a conferir nota 6. As notas não têm compromisso com a fundamentação.

 

-Lígia B. Fensterseifer

“O valor unitário dos livros está de acordo como valor praticado no mercado- – Nota 8”

Já a parecerista  Lígia, seguindo a linha de incoerência no critério de avaliação, muito embora tenha, assim como as duas pareceristas anteriormente mencionadas, considerado que o projeto está de acordo com o valor praticado no mercado, retirou dois pontos do signatário, deixando-o com nota 8. Por quê? O que motiva a discrepância de notas ante exatamente a mesma observância, qual seja, o projeto ter valores condizentes com a realidade de mercado? Gera a dúvida sobre o que seria necessário para que as pareceristas Leila e Lígia confiram a nota máxima nesse quesito. Motivações ocultas, eis que a nota conferida ao recorrente não condiz com o que está expresso.

 

b) CLAREZA E COERÊNCIA DOS OBJETIVOS

 

Leila Silveira

“O presente projeto não tem com clareza os seus objetivo.  Nota 1.”

Bastaria ler o projeto para que qualquer pessoa que conheça medianamente a língua portuguesa entendesse seus objetivos. Afinal, no formulário da inscrição firmado pelo recorrente consta:

“Como objetivos do projeto:

Traçar um perfil de uma cidade a partir da vivência de seus habitantes.

Como justificativa do projeto:

A importância de termos o registro da passagem  e da opinião dos entrevistados sobre a cidade, que são, a um tempo, testemunhas de seu desenvolvimento e importantes atores deste mesmo desenvolvimento.”

“Como resultado previsto do projeto:

Através do registro das entrevistas, compor um painel da cidade através das muitas vozes que dela fazem parte, representadas pelos entrevistados.“

E mais, no texto de introdução da obra, que acompanhou a seleção de entrevistas, lemos o seguinte:

“Para quem não é canoense, este trecho do romance “Clarissa”, de Érico Veríssimo talvez nem chame a atenção:

“Clarissa saia todas as manhãs às sete para tomar o ônibus que a levava a Canoas. Já começava a gostar dos alunos. Canoas era bonita, com suas vivendas no meio de jardins verdes e floridos. Ouvia-se o canto dos passarinhos. Um silêncio fresco envolvia as casas, árvores e as criaturas.”

Para nós, porém, não pode deixar de chamar. Ao lermos a bela descrição do maior romancista gaúcho, ainda mais num momento em que Canoas nem sequer poderia ser chamada de cidade – o livro data de 1932, e a emancipação de Canoas, de 1939 – temos bons motivos para sentir orgulho.

O orgulho vem, porém, acompanhado de uma indagação: que cidade é esta? Onde estão os prédios, as ruas, o asfalto, o trem, as máquinas, os trabalhadores apressados? Onde está a poluição? Onde está a cidade que vemos, sentimos e enfrentamos todos os dias,  quase como uma inimiga que nos encara  assim que pomos os pés para fora de casa? Fica difícil reconhece-la. Ao fecharmos o livro e irmos à janela de nossas casas, procuramos em vão as “vivendas no meio de jardins verdes e floridos” e dificilmente ouviremos “o canto dos passarinhos” no meio da buzina dos automóveis, dos gritos dos vendedores, do clangor do trem ao chegar à estação.

Nós não a reconhecemos. Ao contrário do Érico Veríssimo de 1932, não vemos Canoas como uma cidade bonita.

E não somos só nos. Todos os nossos visitantes parecem ter idéia semelhante. É freqüente ouvi-los opinar sobre a pujança econômica da cidade, a sua vocação empreendedora, a força industrial e comercial do segundo maior PIB do Estado. Fazem, ocasionalmente, algum comentário sobre a falta de certos serviços, certas, opções, mas nem isso é especialmente marcante : a verdade é que, via de regra, quando falam de Canoas, até que falam bem. Mas também é verdade que ninguém diz que é bonita ou agradável. Não falam das nossas praças, do nosso verde, das nossas águas, das “vivendas no meio de jardins verdes” e do “canto dos passarinhos”. E não falam de seus habitantes. Não falam de nós. Ninguém fala de nós. Não há poeta nem cantor para os canoenses. Existimos apenas para, dia a dia, mês a mês, ano a ano, trabalhar incessantemente em nossas fábricas, em nossas casas de comércio, em nossas repartições públicas, em nossos escritórios,  em nossas praças, ruas e avenidas, para o bem da economia municipal,estadual e nacional. Canoas merece, como poucas cidades neste mundo, o título de cidade de trabalho, com todos os prós e contras que este título traz consigo.

Quem passa pela Praça da Emancipação, no centro da cidade, encontra uma enorme escultura de concreto. Ali vemos uma canoa e três homens: um deles tem um remo nas mãos, é alto e robusto; o outro, de cabeça baixa, segura uma espécie de pergaminho; e outro, atrás dos dois, aponta para a frente. Não é difícil reconhecer, ali, o trabalhador braçal, o intelectual e o líder. São, todos eles, canoenses.

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.

Impossível maior clareza de objetivos. A afirmativa de expressar que o projeto não tem clareza em seus objetivos é quase ofensiva ao recorrente.

 

- Camila Mousquer Buralde

“Analisando o Plano de Trabalho verifica-se que o mesmo não é claro e apresenta incoerências, dentre elas: critérios de escolha das entrevistas que serão inseridas na obra; proporcionalidade entre as mesmas;pertinência do conteúdo.Nota:2”

O parecer supracitado causa revolta. Inicialmente, pelo que parece, busca implementar uma forma de censura prévia, uma vez que critica o critério de escolha das entrevistas. Voltamos a 1968 e este recorrente não percebeu?

Ora, o critério de escolha é claro: pessoas que auxiliaram e auxiliam na construção da história da cidade. Da mesma forma, a proporcionalidade, mencionada pela parecerista, deve ser enxergada de forma relativa. Afinal, o tamanho da entrevista é proporcional ao que o entrevistado tem para contar.As estradas da vida são diferentes e de diferentes tamanhos; logo, o que as pessoas têm para contar têm, também, diferentes tamanhos.Mas os censores sempre foram assim. Vilipendiam obras com critérios obscuros e suprema arrogância.

Ao final, conclui a parecerista que as histórias de uma cidade, narradas por seu próprio povo quando conta sua própria história , não formam um conteúdo pertinente. Questiona, portanto, o recorrente:  o que seria um conteúdo pertinente?

Mesmo que eventualmente não compartilhasse a parecerista da escolha de algum dos entrevistados, mesmo que preferisse que alguns deles fossem relegados ao esquecimento, como muitas vezes os autoritários de plantão costumam fazer, isso não tira a pertinência do conteúdo. A história, meus amigos, se conta não apenas pela facção que eventualmente detém o poder. Ela ocorre com todos e deve ser registrada. A parecerista detém o poder  de barrar patrocínio a uma obra, e o exerce pretendendo promover a volta da censura.

 

- Lígia B. Fensterseifer

“Traçar o perfil da cidade, proposto no objetivo do projeto, é duvidoso, pois a escolha dos entrevistados e suas opiniões representa que parcela da população? As perguntas aos entrevistados não são direcionadas a questões específicas do município de Canoas”      -Nota 2

O parecer acima transcrito evidencia que faltou à parecerista alcance de análise da proposta do recorrente. Ao que tudo indica, imaginou, ao ler que um dos objetivos do projeto seria “traçar o perfil da cidade”, que o recorrente faria algo similar a uma pesquisa, para fins de estatística. Isso resta claro na observação acerca da parcela da população correspondente aos entrevistados, bem como no que diz respeito às perguntas que, segundo a  parecerista, não são direcionadas a questões específicas do Município.

Trata-se, claramente, de falha de interpretação. Nunca foi objetivo do projeto fazer pesquisa com a população, para fins estatísticos, acerca de questões do Município.

Não ousa o recorrente imaginar quer a parecerista pretendesse que o livro retratasse “guetos”, o que um desavisado leitor de seu parecer poderia imaginar. A população não está dividida em “parcelas” na obra. Os canoenses foram  entrevistados sem esse critério discriminatório. Na apresentação do projeto, o recorrente deixou claro que seriam entrevistadas pessoas de diversas áreas de atuação, o que significa dizer-se que não haveria exclusão por diferenças ideológicas, classe social, raça, sexo,ou qualquer outra. Apenas canoenses, contando através de suas histórias, a História de sua cidade, sem que alguns sejam considerados “mais iguais do que os outros”.

Mesmo que eventualmente não compartilhasse da escolha de algum dos entrevistados, mesmo que preferisse que alguns deles fossem relegados ao esquecimento, como muita vezes os autoritários de plantão costumam fazer, isso não é aceito no Brasil de hoje, com a  democracia que este recorrente tem a sorte de usufruir pela luta dos que a conquistaram.  Como dissemos antes: a História se conta não apenas pela facção que eventualmente detém o poder. Ela ocorre com todos e deve ser registrada. A parecerista detém  o poder  de barrar patrocínio a uma obra e exerce este poder pretendendo promover a volta da censura.

 

c) CRIATIVIDADE

 

Leila da Silveira

“O presente projeto apresenta não tem criatividade em seu trabalho. Apenas, entrevistas. A pergunta é: O que pretende com estas entrevistas? Qual será os critérios para selecionar os entrevistados? Falta de título.”

Foi com esforço hercúleo que o recorrente leu o parecer.

A vontade de que a volta da censura ocorra no Brasil é manifesta novamente. Além disso, cumpre indagar-se o que entende a parecerista por criatividade. Escolher entrevistados, elaborar perguntas pertinentes para cada um deles e fazer a relação deles com a cidade implica em criatividade. Importante ressaltar que o edital não exigia dos participantes que apresentassem obra de ficção. Se o fato de o  projeto conter “apenas, entrevistas” lhe tira a criatividade, isso leva a crer que, para que ela exista,  no mesmo deveria conter relatos ficcionais, restringindo enormemente o cabedal de projetos a serem estimulados pelo Município de Canoas. Ficariam de fora na análise da Comissão, apenas para exemplificar, obras como o “Poder do Mito”, de Joseph Campbell , eis que ali constam “apenas” entrevistas.

O que pretende está claramente expresso nos objetivos como explicado acima, mas repetido novamente neste momento:

Anexo I do formulário de inscrição:

“Como objetivos do projeto:

Traçar um perfil de uma cidade a partir da vivência de seus habitantes.

Como justificativa do projeto:

A importância de termos o registro da passagem  e da opinião dos entrevistados sobre a cidade, que são, a um tempo, testemunhas de seu desenvolvimento e importantes atores deste mesmo desenvolvimento.

Como resultado previsto do projeto:

Através do registro das entrevistas, compor um painel da cidade através das muitas vozes que dela fazem parte, representadas pelos entrevistados.  “

E mais, no texto de introdução que acompanhou a seleção de entrevistas é afirmado:

O nosso livro tem como objetivo dar a conhecer todos estes homens e, ao mesmo tempo, dar a conhecer Canoas por inteiro, na sua totalidade, para além dos estereótipos das primeiras vistas. Canoas é, sim, a cidade das máquinas, do comércio pujante, do barulho dos trens, do andar apressado, do trabalhador duro e rude e do empresário ainda mais duro e rude. É tudo isso.

Mas é, também, a cidade onde foram tomadas importantes decisões para a consecução do movimento das Diretas Já; é a cidade de conjuntos musicais conhecidos em todo o país; é a cidade onde escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e muitos outros encontram seu pouso e sua inspiração; é a cidade de esportistas que fazem jus a seu apelido de outrora, “Capital do Esporte”; e é a cidade, também, do trabalhador duro e rude que, nos horários curtos e rápidos de folga do labor cansativo, consegue ainda arranjar forças para pensar na comunidade, no próximo, no amigo, no irmão, no conterrâneo, em todos, em nós.

Todos os nossos entrevistados são, sem exceção, figuras destacadas em suas respectivas atividades e tornaram-se conhecidas pela importância do trabalho que desenvolveram. Ocuparam espaço em jornais, no rádio, na televisão, em tribunas e em palcos. Mas nem por isso deixam aquela atitude do trabalhador diário da escultura, seja no uso dos músculos, do cérebro ou da voz. E esta atitude, transposta para as mais diferentes atividades, nos mais diversos campos, é o que há de mais bonito nesta nossa terra rude e bruta, de comércio, de indústria, de ferro, madeira e fuligem.  Terra de trabalhadores. De canoenses.

A eles dedicamos este livro.”

O esquecimento da  falta de título seria facilmente sanável.

 

-Camila Mousquer Buralde- nota zero

“O projeto carece de criatividade, haja vista que  não serão realizada entrevistas para compor a obra,mas serão utilizadas entrevistas já elaboradas e publicadas, não apresentando nenhuma novidade, tão pouco criatividade.Nota:zero”

O que entende a parecerista por criatividade? Busquemos um conceito no mestre Aurélio Buarque de Holanda, de um dos ramos mais estreitamente ligados á cultura nesse país e parente da atual ministra da Cultura, figura, portanto, altamente qualificada para nos auxiliar na busca do sentido da palavra:

Segundo o mestre, “criatividade”, significa capacidade criadora; engenho, inventividade.

Justifica Camila Mousquer Buralde que o fato das entrevistas constantes do projeto terem sido anteriormente publicadas, como de fato foram, no semanário O Timoneiro, tira caráter de criatividade do projeto. Não é demais ressaltar que as entrevistas foram realizadas pelo recorrente e não por outra pessoa, como a afirmativa constante da decisão de Camila pode levar a crer. As entrevistas são elaboradas pelo recorrente e foram selecionadas dentre as publicadas no espaço que o jornal O Timoneiro lhe disponibilizou.

Talvez Camila confunda ineditismo com criatividade. No entanto o edital não impede que entrevistas sejam objeto de um livro. E o fato de terem sido publicadas anteriormente não torna o projeto menos criativo.

 

- Lígia B. Fensterseifer

“O proponente atua como entrevistador no jornal onde trabalha, não diferenciando seu trabalho da proposta do livro, que busca fazer uma coletânea de entrevistas. Nota 4”

Talvez a parecerista devesse explicar de que maneira o fato de o recorrente exercer a função de entrevistador no jornal O Timoneiro retira de seu trabalho o caráter de criatividade. Ignora ou demonstra ignorar que a realização de uma entrevista exige prévia escolha de temas, habilidade na condução, timing, capacidade de extrair o máximo do entrevistado e outras características que poderiam perfeitamente entrar no conceito de criatividade.

Também deveria explicar o que há de desabonatório no trabalho do proponente, que macula de maneira indelével seu projeto. O que importa que publique entrevistas em O Timoneiro e pretenda fazer uma coletânea?

 

d) CAPACIDADE EXECUTIVA DO PROPONENTE

 

-Leila Silveira

“O presente projeto apresenta o proponente sendo uma pessoa hábita a fazer este trabalho. Nota 5

A inquiração do sentido da palavra “habita” foi realizada em tópico anterior. Não voltaremos ao  assunto, verdadeiramente constrangedor para a cultura da cidade. Porém, não resistimos a  indagar se a palavra “habita” tem mesmo algum significado negativo, pois somente isso justificaria a nota cinco atribuída ao ora proponente pela parecerista. Afinal se “habita” significa “apta” a nota deveria ser 10. No entanto, como lhe foi conferida nota 5, imagina que talvez “habita” tenha outro significado e, diante disso, solicita que lhe seja elucidada a dúvida.

 

-Camila Mousquer Buralde

“Pelas informações prestadas, o proponente apresenta capacidade executiva.Nota 10”

Afirmativa positiva leva a nota máxima. Tem capacidade, recebe nota 10.Talvez hábita realmente tenha um significado negativo que este reles formando em Letras não conheça.

 

-Lígia B. Fensterseifer

“O proponente apresenta condições de executar o projeto, caso seja contemplado, embora não tenha nenhuma proposta de contrapartida prevista em seu projeto.”Nota 5

Não é demais ressaltar que o item 8.1 do edital 015/10 em sua alínea “j” preceitua que “A Comissão de Análise de Projetos Culturais – CAPC observará as condições estipuladas neste Edital devendo pautar-se, para análise e avaliação dos projetos culturais, nos seguintes requisitos:

j) capacidade executiva do proponente  a ser aferido na análise de seu currículo.  “

Se o currículo do proponente indica que ele tem capacidade executiva, e isto é expresso pela parecerista, a nota terá de ser 10. Qualquer outra nota indicaria intenção de afetar a reputação do proponente. Esse requisito não prevê análise de contrapartida e sim aferição do currículo do proponente. Quem recebe nota cinco pelo seu currículo tem abalo em sua reputação.

No entanto, não evitará enfrentar o tema da contrapartida. O edital 015/10 expressa em seu artigo 13.1

A contrapartida referida na Lei 5012/005 deverá ser realizada através de cota social. No caso do projeto de incentivo resultar em obra de arte de caráter permanente, como CD’s, livros, filmes,  vídeos ou outros, o retorno mencionado consistirá em doação de parcela de edição de um percentual  de 10% ao acervo municipal para uso público.

Ora, ao firmar o requerimento, o proponente aceitou os termos do edital e, portanto, comprometeu-se a entregar 10% da obra ao  acervo municipal. Por isso, desnecessário que reiterasse o compromisso ao preencher o formulário. A contrapartida já estava assegurada quando firmou sua inscrição. Não era questão de proposta, como colocado pela parecerista, e sim obrigação derivada da aceitação dos termos do edital 015/10, conforme o previsto em seu artigo 14.2.

A inscrição do candidato implicará na aceitação das normas e condições estabelecidas neste Edital, em relação às quais não  poderá alegar desconhecimento.

 

e) DESCENTRALIZAÇÃO CULTURAL

 

-Leila Silveira

“O presente projeto terá como foco público alvo geral”. Nota 6

Não focaremos a evidente falta de sentido da frase.

Tentaremos interpretar o parecer. Parece-nos que a senhora Leila entende, ao fazer uma constatação não valorativa, que isso deprecia o projeto. Constata que o projeto terá como foco o público em geral e atribui a nota 6. Significa dizer que ousar apresentar um projeto tendo como foco a população como um todo é um demérito para a comissão da Secretaria de Cultura do Município de Canoas. Devemos entender que o projeto deveria ser direcionado a guetos culturais ou de outra natureza?

 

-Camila Mousquer Buralde

“Este tópico não é contemplado pelo projeto apresentado.”. Nota zero

 

- Lígia Fensterseifer

“Não contempla este critério” – nota zero

Tendo em vista o zero retumbante, escrito em gordas letras, que segue uma seca e direta afirmativa de que o tópico simplesmente não é contemplado no projeto, não podemos nos esquivar a indagar o que seria, ao fim e ao cabo, a descentralização cultural. Afinal, este tópico, segundo Camila Mousquer Buralde não está presente no projeto apresentado. Por outro lado, como vimos acima, Leila da Silveira entendeu que o projeto é descentralizado, enfatizando este dado no resumo da avaliação (“será descentralizado”).

Se por descentralização cultural entendem as avaliadoras Camila e Lígia como sendo a presença, dentro do projeto, dos mais diferentes estratos da sociedade canoense, não podemos ver como não esteja este tópico contemplado . Afinal de contas, estão ali pessoas de todas as classes sociais da cidade e de todos os cantos do município. Estão ali desde esportistas, estudantes, músicos até políticos, escritores, jornalistas, enfim, todos os estratos da sociedade canoense. Não é, de modo algum, um projeto “centralizado” no que quer que seja. Aliás, poderíamos dizer que é difícil imaginar um projeto tão descentralizado quanto este.

Assim sendo requer REVISÃO da avaliação de mérito, que decidiu pela não-contemplação de seu projeto no Programa de Incentivo a Cultura 2010, eis que as razões expostas evidenciam de forma cabal o equívoco da decisão.

Termos em que,

Pede e espera deferimento

Canoas, 10 de março de 2011

Celso Augusto Uequed Pitol

Não termina aí a história

. Esperou pacientemente o julgamento de seu recurso. No dia 21 de março,  através de contato telefônico para a Secretaria Municipal de Cultura  foi informado de que a Comissão  mantivera sua posição contrária ao seu projeto sob fundamento em que o recurso fora intempestivo. Para cientificar-lhe da decisão, foi-lhe entregue uma folha de papel A4, sem timbre,  com um texto digitado e três rubricas.

 

 

O título do texto é significativo do descaso para com o cidadão que ousou apresentar um projeto literário.

“Parecer da Comissão sobre o recurso apresentado…………..”

Qual Comissão? Sequer constam os nomes de seus integrantes naquele pedaço de papel, que também não identifica sua procedência. Poderia ter sido digitado em qualquer lugar, por qualquer pessoa, pois nada o vincula com a Secretaria de Cultura de Canoas.

E prossegue nos seguintes termos:

“Esta Comissão deixa de analisar o mérito do presente recurso, haja vista o mesmo ser intempestivo, pois a publicação do resultado final dos contemplados, conforme estabelecido no item 9.3 do referido Edital, foi publicado no site eletrônico da Prefeitura Municipal (www.canoas.rs.gov.br)”

Ignoremos o óbvio problema de concordância (irrelevante, diante da torrente de outros problemas gramaticais existentes) e sigamos em frente.

O recurso já havia tratado longamente do tema “tempestividade”, invocado como argumento central para a “Comissão” não recebê-lo. Não trataremos disso agora porque não é foco desta postagem discutir interpretação de texto legal. O foco dessa postagem é tratar do absurdo que é uma comissão para avaliar projetos culturais ser  constituída por pessoas com pouco ou nenhum domínio daquilo que mais identifica uma cultura, isto é, o idioma. Não se concebe, em hipótese alguma, que alguém possa se dizer habilitado a julgar uma produção literária, por exemplo, sem conhecer, e bem, o idioma em que ela foi escrita. Não se exige, naturalmente, que a comissão seja constituída de filólogos renomados, estudiosos profundos da língua e de seu uso. O que se exige aqui é simplesmente o básico: que as pessoas saibam escrever minimamente bem. Não como um grande estilista do idioma ou como um candidato ao Nobel: minimamente bem. Com capacidades mínimas de organização mental e respeito à normas gramaticais. E a resposta ao recurso, sem nenhuma observância de requisitos mínimos que deve conter um documento oficial é apenas consequência da falta de respeito já demonstrada quando da análise do trabalho.

O cidadão é desrespeitado duas vezes: em primeiro lugar, vê um trabalho realizado com esmero ser avaliado por quem visivelmente não está apto a fazê-lo. Em segundo lugar, quando, inconformado com esta decisão, elabora cuidadosamente recurso bem fundamentado e recebe como resposta um parecer a rigor anônimo, de uma vaga “Comissão” que parece não querer ousar dizer seu nome.

Foi, e continua sendo, uma tarefa hercúlea trabalhar com cultura em Canoas. Torna-se difícil tentar apagar um estereótipo  quando o próprio poder público, através dos órgãos aos quais delega a função de cuidar da cultura, faz de tudo para que se perpetue.

 

 

março 29, 2011 Posted by | Geral | 4 Comentários

Post privativo para elurófilos

Fonte

março 27, 2011 Posted by | Geral | 1 comentário

Hora do planeta – 26/03/2011, 20:30 às 21: 30

 

No sábado, 26 de março, entre 20h30 e 21h30 (hora de Brasília), o Brasil participa oficialmente da Hora do Planeta.  O objetivo é mostrar aos líderes mundiais a preocupação com o aquecimento global.

A Hora do Planeta começou em 2007, em Sidney, na Austrália. Em 2008, 371 cidades aderiram. No ano passado, quando o Brasil participou pela primeira vez, centenas de milhões de pessoas em mais de 4 mil cidades de 88 países apagaram as luzes. Monumentos e locais simbólicos, como a Torre Eiffel, em Paris, o Coliseu, em Roma, a Times Square, em Nova York, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e o Congresso Nacional, em Brasília, ficaram uma hora no escuro.

Porto Alegre irá comemorar seus 239 anos integrando-se a uma ação ambiental de repercussão mundial. Às 20h30 do próximo sábado, 26, dia do Baile da Cidade, as luzes do Monumento ao Expedicionário, no Parque Farroupilha, serão desligadas.

Comojá se sabe, a Hora do Planeta é um ato simbólico, promovido no mundo todo pela Rede WWF, no qual governos, empresas e a população demonstram a sua preocupação com o aquecimento global, apagando as suas luzes durante sessenta minutos.

O próximo passo é espalhar a mensagem da Hora do Planeta para o maior número possível de pessoas. Convide familiares, amigos, colegas e membros da sua comunidade para participarem também!

 

 

http://www.horadoplaneta.org.br/

março 26, 2011 Posted by | Ecologia | Deixe um comentário

Parabéns Porto Alegre! 239 anos!

O vídeo abaixo, mais uma bem sucedida campanha publicitária da Companhia Zaffari de Supermercados, expressa com perfeição o amor que os componentes deste blog têm pela nossa Capital.

Porto Alegre realmente é demais  e com certeza é a cidade que tem a música mais bonita em sua homenagem.

março 26, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

Descanse em paz, Liz Taylor

Faleceu hoje, 23/03/2011, a lendária atriz Elizabeth Taylor. A estrela estava internada há 6 semanas no hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, e a causa do falecimento ainda não foi divulgada.

Seria repetitivo fazer um breve relato bibliográfico de Liz Taylor, falando de seus casamentos e sua vida pessoal. Nós do blog Perspectiva, fãs ardorosos da atriz, preferimos prestar aqui nossa homenagem, montando, para tanto, nosso Top 3 Liz Taylor:

3. Um lugar ao sol -


O filme engana no início, parece que se transformará em um romance comum. Porém, a medida em que evolui, ganha em tensão e dramaticidade. Montgomery Clift, no auge, contracenou com Liz Taylor nesta obra prima.
2.Gata em teto de zinco quente -


Paul Newman e Elizabeth Taylor, cada um em sua melhor forma, nesse filme fantástico baseado em peça de Tennessee Williams.
1. Assim caminha a humanidade -


O nosso favorito. O filme conta com mais de três horas de duração e nunca se torna cansativo, o que não é surpresa a partir do momento em que o elenco contava com  Elizabeth Taylor, James Dean e Rock Hudson.

Descanse em paz, Liz Taylor.

março 23, 2011 Posted by | Arte, Cinema | Deixe um comentário

Projeto de vereador de Porto Alegre visa evitar constrangimento a clientes de bancos

O vereador Bernardino Vendruscolo  ingressou com projeto de lei a fim de obrigar as instituições bancárias de Porto Alegre a destinarem armários guarda-volumes com chaves individualizadas para utilização do público, antes da porta giratória detectora de metal.

Pela relevância da iniciativa, visto ser altamente constrangedor ter de submeter-se a revista de bolsas nas portas giratórias , reproduzimos aqui o texto do projeto.

EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

O presente projeto de lei tem como objeto disponibilizar armários guarda-volumes com chaves individualizadas para os usuários de serviços bancários nas agências localizadas no município de Porto Alegre.

Esta é uma matéria de relevante interesse da coletividade, pois no dia-a-dia observa-se que as portas detectoras de metais localizadas nas agências bancárias, as quais foram ali colocadas para garantir a segurança dos funcionários, dos usuários e do patrimônio, seguidamente são causas de inconvenientes e constrangimentos às pessoas que são obrigadas a esvaziar bolsos, bolsas e sacolas de todo o seu conteúdo. Motivo pelo qual é comum presenciarmos discussões entre clientes e seguranças, decorrentes dos tais incidentes.

Para evitar a ocorrência cotidiana de cenas que constrangem os usuários de serviços bancários, estamos propondo o presente projeto de lei para obrigar as agências bancárias a colocarem a disposição do público freqüentador armários guarda-volumes com chaves individualizadas de modo a permitir que o cliente possa adentrar a agência, sem os transtornos provocados pelos sensores da porta eletrônica e também para garantir a privacidade de cidadãos e cidadãs, os quais, querendo, não precisarão mais depositar seus pertences pessoais em caixas coletoras coletivas.

Esses equipamentos deverão estar instalados antes da porta giratória para que possam acomodar valises de toda espécie e outros volumes, como por exemplo, o capacete dos motoqueiros, antes de passar pela porta giratória e detectora de metais, bem como a mulher que, especialmente tem o incomodo de ter que esvaziar suas bolsas por carregarem um grande numero de objetos.

O projeto de lei em tela não pretende abolir as portas detectoras de metais, bem ao contrário, reconhecemos sua importância para a segurança de funcionários e usuários. Todavia, não se pode deixar de reconhecer que as mesmas são causadoras de constrangimento aos usuários das agências e, por conseguinte aos agentes de segurança. Nesse sentido, o presente projeto de lei oportunizará ao usuário a opção de adentrar a agência bancária sem precisar expor seus objetos pessoais.


março 21, 2011 Posted by | Política | Deixe um comentário

Déjà vu

2011


O Brasil era o país do futuro. Agora, o futuro chegou.

 

Anos 60

 

 

Propaganda do governo militar na década de 60

Fonte: Nosso Século

 

 

março 21, 2011 Posted by | Política | Deixe um comentário

Weber economista

 

 

A série de conferências “Linhas gerais de História Social e Econômica do Mundo foi o último curso que Max Weber pôde ministrar do início ao fim. A Gripe Espanhola, o grande flagelo daqueles dias, viria a matá-lo pouco tempo depois do fim das aulas, em 1920, interrompendo aos 56 anos uma brilhante carreira de intelectual e líder político. Segundo dizem, Weber deu aquele curso sob insistência de seus estudantes: não se considerava um especialista em história econômica e teria até mesmo proibido sua esposa, Marianne, de publicar qualquer trabalho seu sobre o tema, pois os julgava cheios de erros e carentes do devido rigor científico. Se esta história é verdadeira, então podemos agradecer a Marianne por ter desobedecido ao marido e coligido as notas de aula dos alunos de Weber, as quais, organizadas e acrescidas de algumas anotações do próprio Weber, deram origem a História Geral da Economia (Centauro Editora, 336 páginas, tradução de Klaus Von Puschen).

Se analisarmos a obra com o rigor que Weber gostaria de ver empregue, seremos obrigados a dar-lhe certa razão. Há mesmo um ou outro ponto em História Geral da Economia que chamará a atenção de especialistas, como o uso do termo “feudal” para definir o processo de colonização da América Latina, algo sobremaneira discutível quando se tem em mente que mundo ibérico não conheceu o feudalismo. Contudo, a grandeza deste pequeno livro não está nos detalhes, e sim na abordagem generalista que o próprio titulo sugere: como bom representante do historicismo alemão, Weber vê a economia dentro do quadro geral da cultura, não como um “eflúvio, uma simples função daquela”, mas sim como “uma subestrutura, sem cujo conhecimento não se pode imaginar, certamente, uma investigação fecunda de qualquer dos grandes ramos da cultura”. Evita, assim, o determinismo e o monocausalismo, verdadeiras doenças intelectuais que já existiam em sua época e contra as quais sempre se opôs.

 

Onde encontrar:

www.centauroeditora.com.br

(11) 39762399

 

 

março 20, 2011 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Até quando, Renato?

- Até quando a escalação de Gílson (mais conhecido como HORROR)?
– Até quando a crença de que Jr. Viçosa e Clementino têm condições de vestir a camiseta do Grêmio?
– Até quando a substituição de “qualquer um menos Gílson” por Bruno Collaço, com a única finalidade de ajudar o furo do time (Gílson)? Sim, o Grêmio é a única equipe no mundo que, ao invés de tirar o furo do time de campo, substitui outro, para colocar alguém que ajude o furo do time.

Ontem o Grêmio contou com nada menos do que TRÊS laterais-esquerdo de origem durante a partida e, pasmem, mesmo assim os ataques do perigosíssimo León ocorriam, ora vejam, pelo lado esquerdo da defesa do Grêmio, curiosamente o lado de Gílson, o lateral que não ataca e nem defende, que chega na linha de fundo e cruza para as arquibancadas, que não consegue ganhar uma sequer contra o ataque adversário.

E digo mais, não é louvável coisa nenhuma fazer substituições aos 15, aos 20 minutos de jogo em todas as partidas, sob a desculpa do “estou sendo corajoso e mudo mesmo, não espero o intervalo”. Quem, todo jogo, muda antes mesmo da metade da etapa inicial, o faz porque vem escalando mal, e só por isso.

Está beirando ao insuportável assistir aos jogos do Grêmio.

março 18, 2011 Posted by | Sem categoria | 1 comentário

BBC anuncia a morte de Hitler

Destaque para o badalar dos sinos de Westminster no início do programa e a chamada “This is London Calling”, que abria os programas da BBC para fora do Reino Unido.

março 18, 2011 Posted by | Mundo pop | Deixe um comentário

Carnaval em Artigas/Uruguai

 


Rafael Cardozo  nasceu  no Uruguai, mais especificamente em Artigas, mora em Canoas/RS  e contribui por sua vinculação com  ações que visem o bem comum com a amizade entre os dois povos vizinhos. Este Uruguaio/brasileiro nos enviou uma notícia sobre a presença de um grupo de brasileiros no carnaval de Artigas que temos imenso prazer em  disponibilizar aos nossos leitores. 

*O texto é de autoria de sua filha Valéria Cardozo França.

Para quem pensa que carnaval é coisa de brasileiro está enganado. As cidades vizinhas ao nosso país com o passar dos anos estão aprendendo um pouco mais do nosso samba no pé. O que é o caso de Artigas, cidade uruguaia que faz fronteira com Quaraí. O carnaval de lá começa com a tradicional festa a fantasia e termina com o desfile das quatro melhores escolas de samba na Avenida principal.

O sucesso do carnaval da cidade de Artigas é tão grande que alguns canoenses aproveitaram os dias de folias no carnaval deste ano.




Bruno Barcelos, Diego Fernandes, Lilián França, Luciano Klein, Rafael Cardozo e Valeria Cardozo França garantem que voltam no próximo ano porque lá a folia é garantida.

 

 

março 16, 2011 Posted by | Sem categoria | 3 Comentários

A obra de Max Weber, por Otto Maria Carpeaux

No Instituto de Sociologia da Universidade de Munique acaba de ser inaugurado o Arquivo Max Weber, em que, além de documentos e manuscritos, serão conservados os livros e estudos que se escreveram sobre o grande erudito: até agora, aproximadamente, 3.500. Um orgão tão responsavel e tão insular como o “Times Literary Supplement” chamou-o, há pouco, de “a maior figura da sociologia do seculo XX”. Raymond Aron e Lorenzo Giusso dedicaram-lhe livros. O Fundo de Cultura Economica divulgou-lhe as obras no mundo de linguas ibericas. No Brasil, toda pessoa medianamente culta conhece o nome de Max Weber, pelo menos aqueles estudos que fundaram uma nova disciplina cientifica: estudando a influencia da ética protestante ou, mais exatamente, da ética calvinista sobre a formação da mentalidade capitalista, essa tese, embora muito discutida, é sua maior gloria e é o grande desmentido contra a idolatria da especialização: pois nunca teria nascido, se o economista e sociologo Weber, no ambiente estreito de uma cidadezinha universitaria alemã, não tivesse frequentado seus colegas da Faculdade de Teologia que ensinavam e estudavam a historia moderna da Igreja.

Mas tudo que Weber escreveu, continha germes e sugestões para outros estudos, de importancia muito grande, sempre maior do que aparentavam ser os assuntos. Seu primeiro trabalho, de 1891, sobre a historia da estrutura agraria do antigo Imperio Romano, esclareceu o papel historico do latifundio. Conquistou a catedra em Friburg com um estudo sobre a situação dos trabalhadores rurais na Alemanha oriental, então dominada pelos “junkers” prussianos. Combinou, em 1903, os dois assuntos, escrevendo um famoso verbete de enciclopedia sobre “Estrutura agraria na Antiguidade”, responsabilizando o latifundio pelo declinio e pela catastrofe da civilização antiga, terminando com uma sombria perspectiva para o futuro da Prussia latifundiaria de 1908. Também foi Weber o unico sociologo ocidental que se dignou de estudar a revolução russa de 1905: todo o mundo considerava-a então como a derrota de uma revolução socialista; mas o professor de Freiburg explicou-a como o fracasso de uma revolução burguesa, acreditando que esse fracasso causaria a transição direta da Russia, do feudalismo ao socialismo, sem fase burguesa.

Durante a primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, estendeu Weber seus estudos sobre sociologia da religião ao mundo não-cristão. Escreveu sobre religião e sociologia do Islão, da China e do judaismo; mas, sobretudo, os famosos artigos sobre Amos, Hosea, Isaías, Jeremias, os profetas do judaismo antigo. Até então, esses profetas eram considerados como individualistas religiosos, que libertaram o judaismo do monopolio dos sacerdotes do Templo, preparando a transformação da religião nacional dos hebreus em religião nacional dos hebreus em religião universal. Mas Weber demonstrou que os profetas não pensavam na salvação individual das almas, e, sim, na salvação da nação ameaçada. Lutaram contra a burocracia do templo e contra a monarquia, já de prestigio decadente, para que a nação sobrevivesse às suas instituições obsoletas. – Foram estas as ultimas pedras para o grandioso monumento científico que Weber deixou. Depois da catastrofe de 1918, já professor em Munique, dedicou-se, episodicamente, a atividades politicas, contribuindo para o estabelecimento do parlamentarismo na Republica de Weimar. A morte prematura, em 1920, poupou-lhe amargas decepções.

Ainda não se aludiu, nestas linhas, à idéia determinante de Weber, quase um princípio de filosofia da história moderna: esta é caracterizada pela progressiva racionalização de todos os setores da vida. O Estado e o pensamento politico, a Administração e a Justiça, o Direito e as teorias e praticas economicas libertam-se, há 5 ou mesmo 6 seculos, cada vez mais, de mitologias, filosofemas, tabus de toda a especie, para reconhecer como supremo criterio só a eficiencia: é a racionalização da vida ocidental. O mesmo “trend” verifica-se na evolução das ciencias, pela exclusão gradual dos julgamentos de valor, oriundos de preconceitos tradicionais ou de fonte emocional. O testamento de Weber são as duas grandes conferencias muniquenses de 1920, “Politica e profissão” e “Ciencia como profissão”, nas quais proclamou a objetividade total da ciencia e, portanto, sua independencia da politica que, por difinição, nunca pôde ser objetiva. Os valores, sendo elementos subjetivos, não devem entrar no estudo cientifico de problemas nem nos seus resultados. Mas Weber sabe que os valores subjetivos aceitos pelo estudioso têm determinada função psicologica: são eles que inspiram ao pesquisador a escolha dos seus temas. Têm função seletiva. Essa tese autoriza a pergunta seguinte: – quais foram os valores subjetivos que determinaram, para Max Weber, a seleção dos seus temas de estudo? Em toda a imensa bibliografia sobre o sociologo, só duas vezes – por Christoph Steding (1832) e por Wolfgang Mommsen (1959) – foi levantada aquela pergunta. Responderam, partindo de pontos de vista muito diferentes, chegando no entanto ao mesmo resultado: foram valores da vida politica; daquela politica que Weber quis tão radicalmente excluir da ciencia objetiva.

Filho da burguesia capitalista e industrial da Renania, e dedicando-se, como especialista, ao estado de problemas economicos, seria de supor-se que estes monopolizassem a atenção de Weber. Mas não aconteceu assim. Na mocidade recusou os mais vantajosos convites para entrar na direção de grandes trustes; mais, dos estudos especificamente economicos.

A inedita relação que Weber conseguiu estabelecer entre os ensinamentos morais do protestantismo calvinista e o estilo de vida do capitalismo, manda pensar em inspiração religiosa, talvez subconsciente; pois Weber era livre-pensador, descrente, mas filho de gerações de burgueses calvinistas. Mas a analise das suas reações revela logo que a inspiração não era de natureza religiosa e, sim, politica.

A burguesia calvinista renana, que tinha construido a grande industria da Alemanha ocidental é pequena minoria num país meio luterano e meio catolico. Seu destino foi o caso extremo do destino da burguesia alemã do seculo XIX em geral: ficou com liberdade para fazer seus grandes negocios, mas também ficou excluida da direção politica do país, confiada no rei da Prussia, quase absoluto, aos seus aristocratas prussianos, aos seus oficiais aristocraticos, à sua burocracia de juristas. Não foi possível organizar uma oposição eficiente. Os catolicos alemães, no seculo XIX, fecharam-se num “ghetto”, não querendo participar de uma civilização predominantemente protestante. O luteranismo retirou-se para a pequena burguesia e para o Leste agrario, pois a etica luterana paternalista, é incompativel com a grande industria e com a comercialização; o estudo da diferença essencial entre essa etica e a do calvinismo é mesmo um dos meritos de Weber e do seu amigo Troeltsch. O proletariado? Como filho da grande burguesia industrial, Weber se preocupa mais com os sofrimentos dos trabalhadores rurais do que com as esperanças dos trabalhadores urbanos. Seu grande trabalho sobre a influencia da etica calvinista na mentalidade capitalista é vigoroso desmentido ao materialismo historico que explicara, ao contrario, pelo capitalismo as mudanças da mentalidade religiosa; o proprio Weber definiu esse seu trabalho como exemplo de “antimarxismo positivo”; naturalmente num outro nivel do que a antimarxismo barato e ignorante dos maccarthystas de hoje. Weber só quis demonstrar que “o espirito é mais poderoso que a natureza” (inclusive as forças inconscientes da economia). Nesse sentido, o trabalho de Weber sobre etica calvinista e mentalidade capitalista é o ato pelo qual a burguesia alemã conquistou a consciencia das suas origens e do seu destino. Mas essa classe, rica, culta e consciente, estava excluida do poder pelo imperador Guilherme II e seus aristocratas e burocratas e os latifundiarios da Alemanha oriental.

Eis os “valores seletivos” que inspiraram a Max Weber seus temas de estudo. Seus trabalhos sobre o operariado rural da Alemanha oriental atingem diretamente o inimigo agrario, o “junker” prussiano. Os estudos, aparentemente historicos, sobre o declinio da civilização antiga e a derrota do Imperio Romano pela força autodestruidora do latifundio predizem desastre semelhante ao Imperio da aristocracia latifundiaria prussiana; são de natureza complementar os artigos sobre o fracasso da revolução russa de 1905. Enfim, a guerra de 1914 e a direção incompetente dessa guerra pelas classes dominantes da Alemanha confirmaram as previsões do sociologo.

Fiel à sua convicção de que “a ciencia (social) tem a função de fazer compreender fatos incomodos”, Weber começou a fazer oposição ao Kaiser. A censura não conseguiu impedir essa oposição. Nenhum evasionismo obrigou o sociologo a entrincheirar-se atrás de estudos historicos, cheios de alusões à atualidade. De sua livre vontade escolheu, durante os anos de guerra, o estudo dos profetas do judaismo antigo. Esses profetas lutaram contra uma monarquia impotente e contra os sacerdotes profissionais, especie de burocracia do Templo; assim como Weber lutou contra o imperador Guilherme II e sua burocracia administrativa e militar. Os profetas, conforme Weber, não se preocupavam com a salvação das almas individuais, mas da nação ameaçada. O sociologo também se preocupou, naqueles anos, só com o futuro da nação alemã em face da derrota iminente. Ao monarquismo decadente opôs a perspectiva de lideres saidos do povo e legitimados pela sua vocação, o “charisma”; e à burocracia opôs a reivindicação do regime parlamentarista, o regime proprio da burguesia, o triunfo da racionalização enfim também na politica.

Pela derrota de 1918, a monarquia foi abolida. A Republica de Weimar iniciou a experiencia parlamentarista. Weber morreu logo depois, em 1920. Não viveu, para assistir ao espectaculo de forças irracionalistas se apoderarem das suas esperanças. A preocupação exclusiva pelo futuro da nação virou nacionalismo fanatico. A substituição da monarquia pela liderança, “charismatica” degenerou em culto ao “Fuehrer”. O fim eram as ruinas da Alemanha destruida e depois, sua reconstrução meramente economica.

Mas – “o espirito é mais poderoso que a natureza”. Depois de tudo, a lição de Weber sobre a objetividade da ciencia venceu. Em meio das ruinas materiais do nazismo e das ruinas espirituais do “milagre economico” fica em pé o monumento de Max Weber: sua Obra.

 

Artigo publicado no “Suplemento Literário” em 14 de Abril de 1962 e reproduzido a partir daqui.

março 15, 2011 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

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