PERSPECTIVA

Ralph Nader: Corporate socialism runs US government

agosto 26, 2012 Posted by | Política | Deixe um comentário

“Seu Carmo”: o Tradicionalismo busca espaço na política

Em homenagem à Semana  Farroupilha  publicamos em Setembro de 2011 uma postagem sobre um cidadão canoense que zela pela valorização dos fundamentos tradicionalistas gaúchos.

https://perspectivabr.wordpress.com/2011/09/19/%E2%80%9Cnos-gauchos-ainda-temos-muito-o-que-construir-no-que-diz-respeito-a-tradicao-%E2%80%9D/

Carmo Francisco de Souza tem como característica esse apreço pela cultura gaúcha e demonstra isso em suas atitudes cotidianas.

Por isso ficamos satisfeitos em passando pela rua Caramuru, quase esquina 15 de Janeiro, em Canoas (RS) nos deparamos com o desenho que ornamenta a fachada de um prédio ali situado. Impossível confundir-se ante o vasto bigode que caracteriza nosso amigo. Era ele mesmo ali retratado e oferecendo à comunidade canoense sua capacidade, honestidade, sensibilidade social e todos atributos que o fazem ser alvo de grande apreciação por todos quantos o conhecem, como candidato a vereador pelo PPS.

Como se diz em um  conhecido site de vendas na Internet quando se conhece o trabalho de alguém: “recomendo para todos”.


agosto 25, 2012 Posted by | Geral | 1 comentário

Emile Zola, por Getúlio Vargas

Em 1906, a revista estudantil Panthum, da faculdade de Direito de Porto Alegre, recebeu um artigo assinado por um jovem estudante sobre um dos escritores mais populares na província: Emile Zola. No Brasil das primeiras décadas do século XX, o escritor morto em 1902 ainda era famoso e influente nos nossos círculos literários, naturalmente afrancesados e um tanto atrasados em relação às novidades culturais do Velho Continente, que já ensaiava o modernismo enquanto ainda líamos os naturalistas e realistas. Tais círculos eram sobretudo compostos por estudantes e graduados em Direito. O curso então congregava todos os jovens com inclinações humanísticas, ainda que não necessariamente jurídicas. Muitos deles, se vivessem hoje, talvez não optassem pelo Direito: seriam estudantes de Filosofia, de Letras, de História, de Jornalismo ou de algum outro curso da área. Entre estes jovens encontrava-se o autor do ensaio: Getúlio Dorneles Vargas.

Quando digo “estes jovens”, refiro-me especificamente a estes que, sendo estudantes de Direito, não eram necessariamente juristas natos. Segundo o testemunho dos que foram  colegas de Getúlio, como João Neves da Fontoura e outros, ele se destacava menos pelo desempenho acadêmico do que pela cultura geral, principalmente literária, e pela habilidade oratória, que faziam dele um estudante extremamente popular entre seus pares.

Transposto para o papel tamanho ofício, “Zola e a crítica” conta cinco páginas e impressiona pela desenvoltura. Getúlio não está lá como diletante, como jovem fã de literatura de 24 anos que resolve falar de seus poetas preferidos para outros jovens fãs de literatura de 24 anos. Está lá como quem quer escrever um artigo a sério.  Dialoga com estudiosos como um De Sanctis, um Silvio Romero, um José Veríssimo e um Alcides Maya, demonstrando conhecer, e bem, a fortuna crítica sobre seu objeto de análise;  compara a recepção à obra de Zola em sua França natal e no resto do mundo; analisa o clima social, cultural e político do país e relaciona-o à obra; tece comentários sobre o artista e defende-o de seus detratores, citados um a um; e tenta, enfim, reabilitar a escola Naturalista, que já era alvo de ataques no momento em que Getúlio escrevia. É um verdadeiro ensaio de crítica. Mas um ensaio diferente do que estamos acostumados a ler.

Em “Zola e a crítica”, Getúlio nada fala do estilista Zola ou do narrador Zola: nem sequer cita-lhe trechos para análise. Em vez disso, prefere exaltar a capacidade do escritor em perceber o momento histórico: “Ninguém melhor tinha o sentimento da conflagração das massas, e sabia objetivar no romance o movimento das multidões. O arrojo coletivo desses operários individualmente humildes, educados na passividade cega da obediencia,como desagregam de si parcelas de energia, formando essa resultante uniforme, assustadora e irresistível, que se despenha como uma avalanche levando em seu seio uma ameaça de explosão.” Elogia, e muito, o Zola reformador social e artístico – “A França já se não satisfazia mais com o canto dos rouxinóis. Era preciso um reformador, para quebrar a estagnação planimétrica em que se atufara a Arte, talhando novos moldes para a idealização da vida. Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época”.

O leitor mais atento notará que esta última frase – Um reformador e um crente, que tivessea inabalável convicção do mérito da sua obra, e algum tanto da rudeza nativa do povo, que fosse a ressonância da voz dos oprimidos e a vibração poderosa do descontentamento da época – ficaria muito bem na boca de qualquer partidário de Getúlio. Era isso que Getúlio apresentava ao povo e é isso que seus defensores vêem nele até hoje: o reformador e o crente. Mas um tipo bem peculiar de crente, que não só convivia harmonicamente com o reformador como inclusive lhe dava suporte. A fé do crente Getúlio era a mesma de Zola e de muitos outros de seu tempo: o positivismo. Sob esta pedra Getúlio ergueu sua própria Igreja, adaptando-a às necessidades históricas.

O ensaio completo de Getúlio está aqui.

agosto 24, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Buffet de sopas em prol dos animais em Canoas/ RS

agosto 19, 2012 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Abertura das Olimpíadas de Londres – dois momentos

 

 

agosto 4, 2012 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

Entrevista: Thomaz Santos, professor de Direito Internacional do UniRitter

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“O professor é um transmissor, um canal de comunicação entre o ´mundo lá fora´ e a cabeça do aluno”

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

 

 Há algo de cruel na mente de quem faz os currículos dos cursos de Direito no Brasil. Na maioria deles, a disciplina de Direito Internacional é deixada para o final do curso, quando as preocupações com o trabalho de conclusão, a prova da OAB, a formatura e as angústias normais de quem está prestes a entrar no mercado de trabalho prejudicam fortemente o aproveitamento dos estudantes, mais interessados nas questões do aqui e do agora do que nos grandes debates dos assuntos mundiais que a cadeira suscita. Ademais, a disciplina não costuma figurar em muitas questões da prova da OAB ou de concursos em geral – o que não é propriamente um fator de atração a mais para o aluno. O professor da UniRitter, Thomaz Santos, sabe disso. É provável que todos os professores de Direito Internacional do país saibam disso. No entanto, ele faz questão de deixar clara a importância que a matéria tem para a instituição canoense (a UniRitter é uma das poucas instituições a participar de eventos mundiais da área, como o Jessup) e quando perguntado sobre a vida acadêmica, demonstra inequívoco entusiasmo e ressalta não só a importância da disciplina que leciona como a da própria atividade de professor, citando o poema “What Teachers Make”, cujo final resume bem o que ele, Thomaz, com a segurança e o vigor dos vocacionados, pensa ser a sua missão por aqui: “Eu faço a diferença, e vocês?”.

 

 

O Timoneiro: Onde nasceu e estudou?

Thomaz Santos: Nasci em Porto Alegre, em 9 de setembro de 1980. Em 1984 a minha mãe, médica e professora (hoje aposentada da UFRGS e atualmente professora na Ulbra/Canoas) foi fazer a pesquisa do doutorado dela no King’s College, em Londres, e como seria, no mínimo, 1 ano, acabou levando a família toda junto: eu, meus dois irmão, meu pai e uma empregada que já está com a ela há mais de 40 anos. Acabou que ficamos por 16 meses, salvo engano meu, morando na cidade de Sevenoaks, relativamente próxima a Londres, e, além de comemorar dois aniversários, acabei sendo alfabetizado em inglês antes mesmo que em português. De certa maneira, acho que foi a partir daí que eu comecei a cultivar um certo “internacionalismo”, ainda que involuntário. Cheguei a estudar numa escola tida como muito boa, Lady Boswell’s, anglicana: http://www.ladyboswells.kent.sch.uk. Não tenho lembranças muito claras, mas é curioso que, por um bom tempo, a primeira imagem que me vinha à cabeça quanto via a letra “A” era uma maçã, por que aprendíamos o alfabeto assim: “a” is for apple, “b” is for bee, “c” is for car, etc. Voltamos ao Brasil no final de 1985. No ano seguinte, fiz o jardim de infância. Em 1987, iniciei o Primeiro Grau no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, em Porto Alegre, e fiquei lá até a 8a Série. Enfim, o meu Primeiro Grau foi, então, em um colégio católico, depois de mais de um ano em uma escola anglicana. Na verdade, não foi tanto uma escolha religiosa: à época, meus pais achavam que o Bom Conselho seria uma boa escola, e um dos meus irmãos também estudava lá. No final de 1994, para minha surpresa, fui informado pelos meus pais de que eles queriam que eu fizesse meu Segundo Grau em uma nova escola, tida como de ótima qualidade, com uma formação boa em humana e exatas. Era o Colégio Leonardo da Vinci (Alfa), dos mesmos donos do Unificado, e que contava com alguns professores do cursinho em seu quadro.

OT:Porquê a escolha pelo Direito?

TS: Bom, no Leonardo tínhamos aulas de Filosofia e Latim, nos dois primeiros anos, e, de uma certa forma, eu me via orientado para as Humanas, sequer cogitando a Medicina, por exemplo, um desejo da minha mãe – que ela nunca impôs aos filhos, é bom frisar. Como eu gostava de ler e escrever (alguns intervalos de recreio no Bom Conselho eram passados na biblioteca, lendo Luis Fernando Veríssimo), tinha certa facilidade para o raciocínio abstrato (meu “paper” de filosofia do Segundo Ano no Leonardo da Vinci, sobre “O Príncipe, de Maquiavel, foi escolhido pelo professor de filosofia entre alguns para uma micro-premiação, em que ganhei um livro do Nietschze). Isso tudo, além do fato de um dos meus irmãos cursar à época Direito na UFRGS, acabou me orientando a estudar para o vestibular no Direito.

OT: E a escolha pelo Direito Internacional? Deveu-se a que?

 

TS: Depois que eu entrei para o grupo de pesquisa da Professora Cláudia Lima Marques, “Mercosul e Direito do Consumidor”, encontrei diversos colegas com vocação internacionalista, quando, à época, estava mais interessado em filosofia do direito. Acabamos montando uma equipe para, em 2001, participarmos do Phillip C. Jessup International Law Moot Court Competition, uma simulação de um caso perante a Corte Internacional de Justiça da ONU, entre equipes de diversas universidade brasileiras.Na nossa primeira tentativa, vencemos a etapa nacional e em abril de 2001 fomos representar o Brasil na etapa internacional, em Washington. Em julho do mesmo ano, formamos mais um grupo, dessa vez para participar de uma simulação da ONU organizada pela Universidade de Brasília, o AMUN, ou America’s Model United Nations, em que deveríamos representar diplomatas de determinadas nações. Nesse AMUN, representei o Canadá na Comissão de Direitos Humanos da ONU, e, aí, já estava fisgado: o tema dos Direitos Humanos me arrebatou de uma forma incrível, a ponto de, em 2002, e um colega participarmos de uma outra simulação, em Washington, dessa vez simulando um caso perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Sim, em 2002, no meu terceiro ano de faculdade, em já havia me definido pelo Direito Internacional Público, participando dessas diversas competições e simulações, com uma ênfase grande nos Direitos Humanos, especialmente depois de descobrir a obra do Antônio Augusto Cançado Trindade, que, para minha sorte e honra, veio a ser meu orientador no mestrado na UnB.

 

OT: A idéia desde o começo foi seguir a vida acadêmica? Ou pensou em advogar?

TS: Cheguei a estagiar em dois escritórios, durante a faculdade, mas a vocação acadêmica era justamente isso: uma vocação, um chamado, até. Meus pais eram professores (minha mãe na Medicina, meu pai na Administração e depois no Direito da UFRGS), um dos meus irmãos, antes de tornar-se diplomata, foi professor de Relações Internacionais em Brasília. E, desde o colóegio, gostava de primeiro entender as coisas e, depois, tentar explicá-las, para mim e para os outros. Claro, nem sempre os outros gostavam, mas a vocação acadêmica sempre foi a grande tônica na minha formação jurídica.. Fiz o meu mestrado na UnB, em Relações Internacionais. Queria aquele programa por dois motivos: sempre me interessei por questões internacionais “meta-jurídicas”, por assim dizer, e, acima de tudo, queria que o Professor Cançado Trindade fosse o meu orientador. Foi um trabalho sobre o regime de reparações às vítimas de crimes internacionais criado com o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, especialmente o Fundo Fiduciário em Benfício das Vítimas e Seus Familiares. Publiquei a minha dissertação em 2011 pela Sérgio Antonio Fabris Editor, mas não consegui fazer um lançamento adequado por já estar envolvido com a minha tese de doutorado, além das diversas aulas que já estava lecionando. Quanto ao meu doutorado, que terminei agora, mais uma vez sobre um tema do chamado Direito Internacional Penal: a definição do crime de agressão e questão da complementaridade entre os regimes de responsabilidade internacional do Estado e do indivíduo por tal crime. O crime de agressão é o que foi chamado dem Nuremberg de “crime contra a paz”, ou seja, é do crime da guerra, o uso da força armada por um Estado contra outro.

OT: Baseou-se em algum caso concreto, ou em casos concretos de agressão internacional?

TS: Meu trabalho tratou mais da evolução histórica da regulamentação do uso da força armada, em um primeiro momento, e da definição adotada por uma conferência de revisão do Estatuto de Roma ocorrida em 2010, em Kampala, capital da Uganda. Ou seja, pode-se dizer que é uma tese histórico-jurídica. Claro que alguns casos foram mencionados, mas não houve uma análise especifica. Talvez o melhor estudo de caso dos últimos 10 anos seria a invasão do Iraque em 2003.  O caso iraquiano contém diversos elementos, assim como outros casos históricos envolvendo os EUA, como as atividades militares e paramilitares contra (e na) Nicarágua, no auge da luta do governo Reagan para conter avanços da esquerda na América Latina

 

OT: O Direito Internacional é uma disciplina que dialoga com muitas outras áreas das ciências humanas ,não é? Acha necessário o conhecimento delas, ou uma boa formação nelas, para ser um bom internacionalista?

TS: Sem dúvida: História, Filosofia, Sociologia, Ciência Política Relações Internacionais (que, por sua vez, é uma “disciplina multidisciplinar”), enfim, quase todas as áreas e disciplinas das Ciências Humanas são importantes para um conhecimento adequado do Direito Internacional. Na verdade, do ponto de vista acadêmico, foi sempre isso que me atraiu na matéria, a sua multiplicidade e riqueza intelectuais. Hoje, o bom internacionalista que estuda “apenas” Direito (como se fosse pouco) pega apenas uma parte do fenômeno jurídico internacional. Da minha parte, gostaria de me aprofundar mais nas Ciências Econômicas, pois entendo que são a parte mais fraca da minha formação. E, hoje em dia, o Direito do Comércio Internacional é um dos ramos do Direito Internacional que mais tem crescido, tanto do ponto de vista acadêmico quanto prático.

OT:Acha que as faculdades de Direito fornecem isso para o estudante?

TS: No caso do Brasil, um Estado que tem se internacionalizado cada vez mais (“para dentro” e “para fora”), a formação jurídica tradicional poderia ser melhorada, disponibilizando aos estudantes maiores oportunidades de conhecer o Direito Internacional e a realidade a que ele se aplica.

OT: Acha que a carga horária da disciplina nas faculdades é satisfatória, tendo em vista as necessidades existentes?

TS: A UniRitter, por exemplo, estimula muito a participação de seus estudantes no Jessup, tendo já enviado duas equipes para a etapa internacional, por exemplo. Além disso, é uma das poucas instituições que possui uma disciplina de Direitos Humanos no curso de Direito, matéria essa que surge, na prática, do Direito Internacional, com a Declaração Universal de Direitos Humano de 1948, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948. Aliás, é por isso que 10 de dezembro é considarado o Dia Internacional dos Direitos Humanos.A carga horária nunca será suficiente para as necessidade cada matéria, mas creio que o Direito Internacional, por ser muitas vezes visto como um “não-direito”, sofre um pouco mais. Em alguns lugares, a disciplina é empurrada para o final do curso, quando os formandos têm que se preocupar com as duas siglas famigeradas: OAB e TCC.

 

OT: Falando um pouco da sua área, especificamente: qual é a região do mundo (e os países envolvidos) que representam maior, por assim dizer, “volatilidade” para o surgimento de um conflito internacional de grandes proporções? Falo mais de possibilidades do que de situações concretas já existentes. Mais de perigo de acontecer do que de qualquer outra coisa.

TS: Bom, não há como não pensar na região do Oriente Médio, com diversas possibilidade de conflito: uma intervenção humanitária na Síria, que, provavelmente, seria mais intensa que a ocorrida na Líbia, especialmente por parte da UE; e, como sempre, algo envolvendo a Israel, com qualquer um de seus vizinhos. Na América Latina, não creio haver possibilidade de conflito militar, apenas político, vide a situação recente envolvendo o Paraguai. Na Ásia, a Coreia do Norte é uma “aposta”, mas ela tem consciência que qualquer ação sua sofreria uma resposta imediata, mesmo contando com a “condescendênscia” chinesa.

OT: Uma pergunta sobre um tema do momento: a situação na Síria. Qual a tua avaliação?

TS: Há indícios claros de que o regime do Bashar al-Assad estava cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra civis e rebeldes na Síria. Isso, por si só, justificaria uma ação do Conselho de Segurança da ONU de acordo com o Capítulo VII da Carta da ONU. O problema, acima de tudo, é político: Rússia e China, dois grandes aliados do regime sírio desde os tempos da Guerra Fria, não tem interesse na saída do Assad por questões internacionais e internas. Ou seja, como fazer valer a norma jurídica (dever-ser) em uma realidade política pouco propícia (ser)? Esse é o desafio cotidiano do Direito Internacional, aliás, de todo o Direito. A diferença é que, no Direito Internacional, vê-se de forma mais clara a profunda relação do Direito e da Política, em que um nunca anula completamente o outro, mas sempre tenta conquistar seu espaço diminuindo o do outro. Enfim, no caso da Síria, a saída do Assad vai ocorrer, mas provavelmente mais de acordo com os interesses sino-russos: sem abertura imediata e, dificilmente, com um julgamento das atrocidade cometidas pelo seu regime.

OT: E por último, só pra terminar mesmo: a vida acadêmica vale a pena?

TS: A vida acadêmica vale muito a pena, porque poucas coisas recompensam tanto um professor quanto perceber os momentos em que os alunos têm sua atenção despertada e sua curiosidade atiçada por fatos, teorias, conceitos, enfim, por tudo aquilo que um professor pode e deve transmitir. Por que, no fim das contas, o professor é isso, um transmissor, um canal de comunicação entre o “mundo lá fora” e a cabeça do aluno, até mesmo um catalisador, pois no caso dos melhores alunos ele pode até mesmo acelerar o processo de aprendizado. Enfim, recomendo ler e ver o poema “What Teachers Make”, disponível no YouTube, por exemplo. O verso final, do poeta e professor Taylor Mali: “eu faço a diferença, e vocês?”

agosto 3, 2012 Posted by | Entrevistas | 1 comentário

C.E. Brock

C.E.Brock é um dos dos maiores ilustradores das obras de Jane Austen. Reproduzimos abaixo algumas de suas ilustrações, incluindo capas de edições antigas das principais obras da autora.

Sugestão da leitora Ana Ramgrab.

 

julho 30, 2012 Posted by | Arte, Literatura | Deixe um comentário

Um grande livro equivocado

O liberal Raymond Aron tinha uma opinião definitiva sobre o marxismo: “Creio não haver doutrina tão grandiosa no equívoco, e tão equívoca na grandeza. Foi por isso que a ela dediquei tantas horas”. Após termos dedicado algumas horas à leitura das 477 páginas de “Em defesa das causas perdidas”, de Slavoj Zizek (Boitempo Editorial, tradução de Maria Beatriz de Medina), podemos dizer dele algo parecido: trata-se de um livro grandioso no equívoco e equívoco na grandeza.

São vários os méritos de Zizek: suas opiniões sobre cinema, arte e literatura (sua crítica cultural, enfim) costumam ser argutas e profundas, seu texto é quase sempre bem humorado e muito bem servido no que respeita à pura informação – Zizek é um pesquisador infatigável e rara é a página sua que não tem citações. Além disso, o livro traz intuições poderosas e análises acertadíssimas sobre o capitalismo, a sociedade pós-moderna, Heidegger e Foucault que passam por cima das preferências políticas do autor ou do leitor.

Estes são os pontos positivos do livro. Embora notáveis, eles enfrentam um pequeno probleminha: o que Zizek ao fim e ao cabo defende é, muito simplesmente e sem grandes delongas (outro grande mérito do livro), o retorno da ditadura do proletariado como alternativa política válida. Várias idéias o impulsionam nesse sentido e o hegelianismo – mais do que o marxismo – combinado com a psicanálise de Jacques Lacan estão no centro de todas elas.  Zizek é hegeliano e lacaniano to the core e, como tudo aquilo que é assim, acaba por ser, às vezes, um pouco cansativo. Cansam também as suas loas ao totalitarismo e ao lado “negro” de alguns pensadores, desde o começo proferidas com naturalidade que ignora o absurdo. Não podemos concordar com a proposta de Zizek. Ainda assim, vale a pena dedicar algumas horas a este grande livro equivocado.

Onde encontrar:

Fone: (11) 3875 7250

www.boitempoeditorial.com.br

julho 26, 2012 Posted by | Ciências Humanas | Deixe um comentário

Os burocratas e a literatura

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drummond-2

*Desenho por Madame Y

O farmacêutico mineiro Carlos Drummond de Andrade entrou para o serviço público em 1934. Estava cansado da carreira que escolhera na juventude (por imposição paterna) e sobrevivia de bicos como professor de História e redator de jornais, que também não lhe agradavam e roubavam-lhe tempo precioso de seus prazeres pessoais. Tinha 32 anos. Aposentou-se em 1962, aos 60 anos, com três décadas de diligente serviço prestado, condecorações e reconhecimeno. Foi um funcionário exemplar durante todo este tempo. Seria caso do sr. Drummond de Andrade recolher-se à vida privada e, calmamente, sentado em sua cadeira de balanço, acompanhado de um bom chá e da edição mais recente do Correio da Manhã, esperar a inefável chegada da morte. Em vez disso, este senhor nascido na pequena Itabira, típica cidadezinha mineira encravada no meio das montanhas, resolveu dedicar seus dias a um singelo prazer: escrever. Cometeu alguns poemas e chegou até a publicar livros, o senhor Drummond. E um destes poemas dizia respeito justamente à sua atividade profissional e ao que o sr. Drummond sentia por ela:

Escravo de Papelópolis

Oh burocratas, que ódio vos tenho
e se fosse apenas ódio
é ainda o sentimento da vida
que perdi sendo um dos vossos.

O ódio de Drummond aparenta ter sentido. Como um artista pode ser devedor da burocracia? Afinal, nada parece ser mais tolhedor de talentos individuais do que o ambiente de uma repartição pública, onde homens e mulheres enfadados e enfadonhos repetem mecanicamente gestos ensaiados à Chaplin em “Os Tempos Modernos”, trocando apenas a chave de fenda pelo carimbo e a peça de metal pelo documento autenticado. Ali não há espaço para a paixão, para a criação, para a mudança de rumos, de paradigmas, de vidas – para o gênio. Dito isto, fica claro um bom escritor não pode ser burocrata e um bom burocrata, definitivamente, não pode ser escritor. Eis a verdade, nada mais que a verdade. A raiva de Drummond para com o seu ganha-pão fica, assim, plenamente justificada.

Ganhar o pão é sempre um problema para um escritor. Seus livros normalmente vendem pouco e o lucro das vendas escoa por tantos canais intermediários que somente um percentual muito pequeno de tudo chega, de fato, ao seu bolso. A mesquinhez da vida cotidiana fere sua rica e fina sensibilidade: o choro do filho recém-nascido, os puxões de cabelo da filha mais velha no filho mais novo, os queixumes da esposa na hora do jantar, as contas que não páram de chegar, a caspa que teima em cair do cabelo, tudo isso são problemas que demandam aporte financeiro para ser solucionado. Nem todos os escritores são como o peregrino do absoluto León Bloy, para quem a pobreza não significava rigorosamente nada, ou para o flanêur Baudelaire, que transformou as imundas ruelas parisienses onde dormia em matéria de poesia. Alguns escolhem trabalhar e enfrentar o mundo da melhor maneira que podem. Drummond foi corajoso e enfrentou o mundo: escolheu ser burocrata. Assim como seu conterrâneo Murilo Mendes, auxiliar de guarda-livros. Ou do compatriota Machado de Assis. Ou o companheiro de língua Fernando Pessoa. Ou seus contemporâneos Franz Kafka e Georges Bernanos. Ou o velho George Bernard Shaw, de uma geração anterior. Ou Borges. Ou ainda Camilo José Cela, nada menos do que censurador oficial do regime franquista.

A lista de escritores-burocratas se prolongaria ad infinitum e, por isso, nos faz pensar que, talvez, a idéia de que um escritor não possa ser burocrata não seja tão verdadeira assim – ou, se é verdadeira, que o seja de uma maneira um tanto diferente da que inicialmente imaginamos. É uma lista feita quase que só de nomes do século XIX e XX, quase todos da Europa Ocidental e das partes mais evoluídas das Américas. Parece estranho, porque a burocracia, como sabemos, não é um fenômeno nada novo. Já os antigos romanos e egípcios tinham os seus escribas, os seus censores e os seus funcionários públicos de carreira, todos burocratas no melhor sentido do termo. Nenhum deles, contudo,  tinha qualquer das garantias dadas Machado de Assis pela Secretaria de Agricultura, a Kafka pela companhia de seguros ou a Drummond, pelo Ministério da Educação. Não eram submetidos a estatutos, não entravam na carreira por concurso, não tinham horário fixo de trabalho, muitas vezes não eram sequer remunerados e eram demitidos, expulsos do país ou até mesmo mortos ao bel prazer do governante por qualquer simples demonstração de incompetência, como um erro gramatical. O burocrata que hoje conhecemos e imaginamos é produto da sociedade racionalizada do século XIX regida pela “dominação legal”, na tipologia de Max Weber, isto é, baseada em um estatuto sancionado e cumprido, onde pouco importa quem está lá mas sim o que faz. O verdadeiro burocrata não pode fazer uso de todos os seus dotes pessoais para fazer um serviço fora de série. O sistema é impessoal e exige o total e absoluto descomprometimento do funcionário para todas as matérias que não são da sua imediata obrigação. Cumprir a sua obrigação sine ira et studio – sem paixão nem entusiasmo – é o seu objetivo máximo.

Weber dizia que a escolha definitiva dos tempos modernos era entre a “burocratização” e o “diletantismo” na administração pública, sendo que a primeira era a claramente mais indicada para as necessidades das sociedades modernas. O diletante – de “dileto”, amado, querido, desejado – deveria ficar de fora, ou dedicar outro horário para as atividades às quais dedicaria todas as suas forças físicas e mentais. Ora, é exatamente aí que entram os escritores-burocratas. Todas as suas preocupações profissionais esgotam-se nas oito horas regulamentares e toda a sua mente está voltada para a execução de trabalhos que lhe exigem o mínimo de imaginação e interesse. Fora disso tudo, está tão livre quanto Pã nos campos da Arcádia. A atividade superior do espírito é equiparada, na sociedade moderna, a mera diversão das horas vagas, como assistir a uma corrida de automóveis, a um jogo de futebol ou à novela das oito, e é assim para a imensa maioria dos romancistas e poetas nascidos a partir do século XIX. O estereótipo do escritor alienado do mundo é, na verdade, muito falso: não se verifica a não ser em casos muito específicos. Figuras caricaturais (mas não autores de caricaturas) como um Rilke, incapaz de se encaixar em qualquer serviço por mais simples que fosse, são raridade absoluta e despertam até mesmo o desprezo dos demais escritores.

O crítico inglês Matthew Arnold (que era inspetor escolar – logo, também um burocrata) dizia que a grande arte cumpriria em nosso tempo o mesmo papel que as religiões cumpriram em outras épocas. O artista “antena da raça” de Pound tornar-se-ia espécie de sacerdote, guia espiritual leigo para um mundo abandonado por todos os deuses nesta época que – novamente segundo Weber – era a primeira desde o alvorecer da humanidade em que a religião havia deixado de ser um tema público para restringir-se somente ao mundo privado de cada um. Hoje já podemos dizer o mesmo da arte, transformada pela primeira vez em diversão de momentos fastidiosos. Talvez seja mais pensando em tudo isso, na condição que o mundo reservara para si, e não tanto no acabrunhante emprego que desempenhava, que Drummond disse que sentia haver perdido sua vida para a burocracia. Uma vida desperdiçada? Nem tanto. Drummond foi bem injusto com as oito horas diárias passadas entre papéis, clips, máquinas de escrever, grampeadores, furadores, livros-caixa, arquivos mortos e vivos e colegas de trabalho. Por mais enjoadas que fossem, foram estas oito horas diárias que lhe permitiram escrever seus poeminhas e deixar sair o artista excepcional que jazia por baixo do funcionário competente. Talvez, encalacrado em outra atividade, seu talento fosse empregado para ser um brilhante advogado, um grande jornalista, um professor de sucesso, um renomado médico ou engenheiro. Estas oito horas o inscreveram na história, dando inclusive sentido a brincadeiras como esta do primeiro parágrafo deste artigo. Drummond deve e muito à burocracia. É a maneira com que o estado escolheu para ser mecenas: dar um emprego público para o escritor comer e dormir e, nas horas vagas, cumprir a sua nobilíssima função de antena da raça, sob as frias garantias de que nem ele, nem o seu colega ao lado fanático por futebol, serão importunados. Até amanhã, na hora em que o expediente recomeça.

julho 25, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Um herdeiro indigno

Se quisermos falar hoje da Magna Carta inglesa de 1215 somos obrigados a qualificá-la para evitarmos confusões  Não podemos, simplesmente, dizer “Magna Carta”: é preciso especificar que se trata do documento, assinado pelo rei João Sem Terra, limitando-lhe os poderes de monarca e dando, assim, início ao constitucionalismo tal como hoje o conhecemos. A explicação é necessária – afinal, para nós, em 2012, Magna Carta é o nome dado a toda e qualquer Carta que recebe o nome de Constituição. Passam-se os anos, novas constituições são promulgadas – o Brasil, por exemplo, já teve meia dúzia delas em menos de dois séculos – e, não interessando se são sintéticas ou analíticas, formais ou materiais, dogmáticas ou históricas, promulgadas, outorgadas ou pactuadas,  rígidas, semi-rígidas ou flexíveis, elas sempre serão as “Magna Cartas”, ou “Cartas Magnas” da época  e do lugar em que aparecem. Comprovam-no os estudantes de Direito, juristas do futuro, que referem-se à “Magna Carta de 1988″ ou “da nossa Carta Magna” quando querem fundamentar suas respostas em provas.

Isso não quer dizer, é claro, que todo o texto original da Magna Carta seja hoje aplicável. Dos seus 63 artigos, escritos em mau latim, a maioria só possui hoje interesse histórico: é o caso do artigo 51, que prescreve o banimento de “todos os arqueiros, seus subalternos, e os seus mercenários que, estrangeiros, contra ele [o reino] lutaram com cavalos e armas.”  Há, contudo, aqueles que têm permanente atualidade.  Se confiarmos no jurista inglês Lord Denning – que, com a certeza de um inglês quando fala das suas coisas, definiu a Magna Carta como “foundation of the freedom of the individual against the arbitrary authority of the despot”, – devemos então procurar o artigo que melhor exemplifica este espírito, de resto já presente no nome original do documento, “Magna Charta Libertatum”, ou “A Grande Carta das Liberdades”.

Este artigo é o 39. Dispõe ele, em linguagem que quase poderia figurar em qualquer constituição democrática de hoje, que  “nenhum homem livre será detido nem preso, nem despojado de seus direitos nem de seus bens, nem declarado fora da lei, nem prejudicada sua posição de qualquer outra forma; tampouco procederemos com força contra ele, nem mandaremos que outrem o faça, a não ser por julgamento legal de seus pares e pela lei do país”. Nestas quatro linhas de pura defesa da liberdade individual contra arbitrariedades encontramos os começos de duas das maiores – e, talvez mesmo, as duas maiores – contribuições inglesas para o direito ocidental: o habeas corpus e o due process of law.  Este último aparece em sua forma acabada em uma lei de Eduardo III, datada de 1354, que resume o trecho final do artigo 39. Quanto ao habeas corpus, falando estritamente, data-se sua existência de 1679, quando foi publicado o Habeas Corpus Act pelo parlamento inglês. Se quisermos, podemos ir ainda mais longe e traçar-lhe as origens até o antigo Interdictum de libero homine exhibendo dos romanos. Mero exercício de erudição: foi através da Magna Carta e tradição jurídica inglesa e depois americana que ele ingressou com força no Direito do Ocidente. E quem escreveu a Carta parecia saber que ela estava destinada a tal: Portanto – diz o artigo 63, que encerra o documento – é nossa vontade e firmemente a ordenamos, que a Igreja Inglesa seja livre, e que os homens de nosso reino tenham e conservem todas aquelas liberdades, direitos e concessões, bem e pacificamente, livres e tranqüilamente, em sua plenitude e integridade, para si e para seus herdeiros, de nós e de nossos herdeiros, a todos os respeitos e em todos os lugares, para sempre. 

Os ingleses entenderam bem esta lição da Carta. Levaram-na consigo a cada légua marítima das muitas que conquistaram , legitimando inclusive (é forçoso reconhecer) colonialismos e invasões com o discurso de ensinar o que é a liberdade aos  povos da Terra. Não escapará ao leitor atento que o legislador da Magna Carta, quando escreveu “de nós e de nossos herdeiros” parecia antever que os ingleses deixariam este legado para seus diletos filhos do outro lado do Atlântico. Estes herdeiros são os americanos. Não só se encarregaram de leva-lo “a todos os lugares” como também de mantê-lo mesmo desaparecido na terra onde nasceu: hoje, o due process of law, em seu sentido original, já não existe na Inglaterra, onde é mais frequente o uso de conceitos como natural justice ou rule of law, ambos com definições muito particulares e diferentes das que normalmente se empregam fora da ilha. Mas existe nos EUA. Neste sentido, e em muitos outros mais, os EUA são – parafraseando a tradicional frase sobre a assimilação cultural dos primeiros colonos ingleses à Irlanda – “more English than the English themselves”.  Para sempre, poderiam dizê-lo, com a velha Carta.

Seja pela mão deles – dos herdeiros – seja pela dos pais ingleses, os conceitos de due process of law e o habeas corpus espalharam-se pelo mundo e, embora modificados aqui e ali, mantêm hoje a mesma essência: garantir o funcionamento da justiça e a liberdade de ir, vir e ficar. O caso do Brasil demonstra-o claramente. O “due process of law” é nosso conhecido do artigo 5º, inciso LIV, da Constituição de 1988, onde recebe o nome de “devido processo legal”, sem o qual nenhum ato de autoridade pode ser considerado válido. Já o habeas corpus é nosso conhecido há muito mais tempo: já aparecia no Código de Processo Criminal de 1832 e foi incorporado à lei fundamental brasileira em 1891, quando da promulgação de uma nova Constituição colorida por várias influências norte-americanas – visíveis já no novo nome do país, chamado a partir dali de “República dos Estados Unidos do Brasil”. O instituto do habeas corpus foi uma dessas influências. Hoje, aparece no artigo 5°, inciso LXVIII da nossa Carta Magna, descrito da maneira mais clara possível:  “conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. Tão claro quanto o artigo 648 do Código de Processo Penal, que elenca os casos passíveis de concessão. 

Claro e simples: tudo no habeas corpus deve ser desta forma. É natural, tendo em vista que está aí para proteger o direito fundamental da liberdade do cidadão. Tanto é assim que, no Brasil, qualquer um – advogado ou não – pode impetrá-lo, e não é necessária sequer a observância de formalidades: pode ser feito até mesmo à mão. Não deve haver nenhum entrave para quem quiser fazer uso deste remédio, desde que fundado em justas razões. Afinal, é, repetimos, da liberdade que se fala – do valor maior que a Magna Carta deixou para o mundo.

Diante disto, impressiona (e, em igual medida, preocupa), a atitude do governo americano em sancionar o conteúdo do National Defense Authorization Act (NDAA) em 31 de dezembro último – e impressiona e preocupa mais pela atitude do que pelos resultados efetivos desta implantação.

Em si, o NDAA não é nada de novo. Trata-se simplesmente das diretrizes gerais do Departamento de Defesa do governo americano. Normalmente é aprovado nos últimos dias do ano fiscal anterior à sua vigência ou nos primeiros dias do ano vigente e já conta meio século de existência, sem nenhum escândalo público ou indignação nacional contra sua existência. Este, no entanto, traz alguns pontos que suscitaram um e outro na imprensa norte-americana (e que têm sido  inexplicavelmente ignorados pela nossa, salvo raríssimas e pontuais exceções).

Primeiro, e antes de tudo, chama à atenção a data em que foi aprovado. Tendo sido escolhido o último dia do ano, onde dá-se mais importância midiática ao Reveillon da Times Square do que às notícias políticas do momento, ficou a impressão de ser um ato  feito na calada da noite, às escuras, para não atrair a atenção do público. Dos últimos NDAAs sancionados, todos foram aprovados ou no começo ou no final do ano, mas nenhum justamente no dia 31 de dezembro. Esta informação, em si, não seria capaz de atrair maiores preocupações . O problema está na coordenação dela com o conteúdo da lei.

A íntegra do NDAA de 2012 está disponível aqui. O foco da discussão está no título X, subtítulo D – Counterterrorism, nas seções 1021 e 1022 (página 265 do documento).

A primeira delas dá poderes às Forças Armadas americanas, se autorizadas pela Presidência da República, para prender qualquer pessoa que tenha “planejado, cometido ou apoiado os ataques terroristas de 11 de setembro” ou que tenha “apoiado substancialmente a Al-Qaeda, o Talebã ou forças associadas a eles que estejam atacando os EUA ou seus parceiros de coalizão”, deixando a decisão de interpretar o que significa “dar apoio substancial” – o que pode ir desde conversa de botequim até organização de manifestações pró-Bin Laden – não a algum órgão do Judiciário, mas às Forças Armadas. Além disso, a lei se encarrega da esclarecer que esta prisão poderá ser “sem julgamento”. Até quando? Até o fim das hostilidades. Quais hostilidades? Não especifica, mas supõe-se que seja até o fim da ameaça dos ataques terroristas, momento incerto de um futuro desconhecido, contudo glorioso, em que o terrorismo, esta vil invenção humana, cessará de existir. Em outras palavras, o velho e bom “indefinidamente”.

A seguir, a lei estabelece que cidadãos americanos não estão sujeitos a este tipo de prisão. Apesar de pôr, na prática, qualquer estrangeiro que viva nos EUA em estado permanente de alerta, esta ressalva causará em muitos nativos um certo alívio – afinal, só americanos no estrangeiro e estrangeiros em qualquer lugar, mesmo nos EUA, estão sob o alcance da lei. Aquele fazendeiro lá do interior do Winsconsin, que só conhece o Winsconsin, só gosta do Winsconsin e não quer saber do que existe para além das fronteiras do Winsconsin, acredita que  estará a salvo. Acredita, mas está enganado. A seção 1022 estabelece que as Forças Armadas americanas – também, repetimos, se autorizadas pela Presidência da República – podem deter aqueles que são acusados de serem membros ou parte da Al Qaeda ou que tenham participado no planejamento ou consecução de ataques contra os EUA ou seus parceiros de coalizão. E estabelece ainda o seguinte:

(1) UNITED STATES CITIZENS.—The requirement to detain a person in military custody under this section does not extend to citizens of the United States.
(2) LAWFUL RESIDENT ALIENS.—The requirement to detain a person in military custody under this section does not extend to a lawful resident alien of the United States on the basis of conduct taking place within the United States, except to the extent permitted by the Constitution of the United State”

Em outras palavras: a EXIGÊNCIA (“requirement”) para os militares deterem alguém não se estende para os cidadãos americanos (does not extend to citizens of the United States). Veja-se bem: a EXIGÊNCIA. Isto não impede definitivamente ninguém de ser detido de acordo com este artigo – apenas afasta a exigência, mas não a OPÇÃO de fazê-lo. Os militares continuam a ter a opção de realizá-la. E basta para isso a suspeita, consubstanciada na acusação. A única diferença entre o cidadão americano e o estrangeiro neste caso, é que, para este último, a prisão é uma exigência, e para aquele, uma opção das autoridades. A arbitrariedade é a mesma e a ofensa àqueles dois princípios que sempre estiveram no coração do ordenamento jurídico dos Estados Unidos – o due process of law e o habeas corpus -, herdados da Magna Carta e da tradição que ela inaugurou, é claríssima.

Caberia então perguntar em qual altar estes dois princípios basilares são sacrificados. Quem responde é o senador Lindsey Graham, republicano de velha cepa da Carolina do Sul. “We’re facing an enemy, not a common criminal organisation, who will do anything and everything possible to destroy our way of life”. Logo, segundo ele, “It is not unfair to make an American citizen account for the fact that they decided to help Al Qaeda to kill us all and hold them as long as it takes to find intelligence about what may be coming next“. O senador Graham parece ser um homem decidido, de idéias firmes e respostas prontas, como convém a um bom sulista. Gosta das coisas ditas à queima roupa, à moda do velho Sul. Assim ele explica o, por assim dizer, espírito desta lei: “And when they say, ‘I want my lawyer,’ you tell them, ‘Shut up. You don’t get a lawyer”. Não restam mesmo dúvidas, e quase podemos ouvir o seu eleitor médio gritar um entusiasmado  Damn right!” em inconfundível sotaque redneck. 

Já o presidente do seu país, Barack Obama, que assinou a lei  prefere moderar o tom de voz. Para o sorridente e carismático Obama – cujo perfil este blog já traçou no longínquo 2008, aqui e aqui  – estão sendo injustos com o NDAA. Não é bem assim esta história de autoritarismo, de ataque às liberdades democráticas, de sacrifício da constituição, de desrespeito à história americana. O NDAA, segundo Obama, está aí para proteger os cidadãos e, se alguém pensa que ele, Obama, fará mau uso dele, está enganado: o presidente dos Estados Unidos da América garante que não passará por cima da Constituição e dos direitos por ela assegurados. Podem todos ficar sossegados e voltarem à vida normal.

O que causa impressão não é o fato de o senador Graham ter dito tudo isto: é o fato de que o tenha dito sem oposição. Com a notável exceção do congressista Ron Paul, que parece ser o último verdadeiro defensor das liberdades constitucionais na auto-proclamada Terra da Liberdade (e cuja campanha para a presidência chama a atenção, paradoxalmente, pela escandalosa falta de cobertura midiática que lhe dão), nenhum nome relevante do Congresso americano veio a público criticar a lei. Parte da imprensa americana, em especial a mais alternativa e menos lida, tem publicado algumas opiniões contrárias, e uma ou outra organização em defesa dos direitos civis publicou um ou outro manifesto. Também causa impressão o fato de ninguém ter se dado conta que o sr. Obama ao afirmar, mui calmamente, que usaria de forma sábia o disposto no NDAA, tenha agido não como um verdadeiro defensor da democracia, mas sim como um déspota esclarecido assegurando a seu povo, com condescendência gritantemente paternalista, não pretender fazer uso dos imensos poderes que tem em mãos.

Felizmente, recentes decisões da Suprema Corte limitaram consideravelmente o poder de alcance desta lei, percebendo a óbvia inconstitucionalidade ali presente e demonstrando que, ao menos por enquanto, ainda há um Judiciário atuante no país. Infelizmente, contudo, outras movimentações recentes da presidência, como a tentativa de controlar diretamente todas os meios de comunicação do país, apenas confirmam a intenção do governo Obama em rasgar tudo o que, desde a Magna Carta, ingleses, americanos e demais tributários desta tradição vêm recebendo e mantendo, contra vento e maré, intacto e indevassável.  A simples existência desta intenção já é suficiente razão de preocupação. Ela deixa claro que bastará um motivo considerado razoável – qualquer um -, um piscar de olhos da oposição, uma guarda baixa, uma desatenção qualquer, para que a intenção se transforme em alguma ação governamental concreta.

Quando Obama, no começo de 2009, pôs a mão sobre a Bíblia e jurou proteger a Constituição norte-americana, inscreveu-se na tradição que criou esta Constituição e pôs-se , como todo presidente de sua nação, na condição de herdeiro desta mesma tradição. Ser herdeiro exige responsabilidades. Em nosso Direito Civil, o faltar a estas responsabilidades é motivo de exclusão da herança, recebendo o faltoso um altissonante e desonroso epíteto consagrado pela nossa doutrina há mais de um século: o de herdeiro indigno. Assim como o mau filho, o mau neto, o mau descendente, o sr. Obama, ao faltar com a tradição que o pôs na Casa Branca, revelou-se um herdeiro indigno no pleno sentido da palavra – e que não haja nos EUA forças políticas a lhe apontar a indignidade  mostra que, para azar dos norte-americanos,  ele não é o único em seu país qualificado para receber este triste título.

julho 22, 2012 Posted by | Política | 1 comentário

Entrevista: Guilherme ‘Floco’ Mendicelli, músico

Entrevista: Guilherme Floco Mendicelli, músico

“As pessoas não entendem que música não é atitude. É som. É ar se mexendo”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

 

 

Despir a música de toda roupagem ideológica, exterior ao som: eis, muito simplesmente, o objetivo de Guilherme “Floco” Mendicelli. Segundo ele, música não é ideologia e nem discurso, e o grande mal do mundo musical de hoje é tentar reduzi-la a seu aspecto exterior, a uma moda, um corte de cabelo, um punho levantado – uma ideologia.

De certa forma, podemos dizer que “Floco” age sozinho em sua luta: seu Projeto Floco – quem quiser conhecê-lo pode acessar o site da Trama: http://tramavirtual.uol.com.br/o_projeto_floco – é um “one-man project”, irrepetível ao vivo, onde ele compõe e toca todos os instrumentos. Nesta entrevista, ele falará um pouco do cenário artístico da região, de suas idéias sobre música e dos seus próximos planos.

 

O Timoneiro: Como vês o cenário musical da região?

Guilherme Mendicelli: Vou falar dele com um exemplo. Temos aqui (ou tinhamos) uma banda chamada “Procura-se quem fez isso”. A banda tinha um lance que os caras estavam sempre mascarados e não revelavam as suas identidades. Tocavam com uns chapéus de pedreiro, com lâmpadas ou com cartolas, também, eu acho.  De qualquer forma, parece que eu já descrevi a banda, mas em nenhum momento eu mencionei algo sobre o som que os caras fazem.

O Timoneiro: Exatamente. Só falou do aspecto exterior

Guilherme Mendicelli: Esse é um dos grandes problemas da música popular moderna. As pessoas não entendem que música não é atitude. É som. É ar se mexendo. Isso é o importante.

OT: É um fenômeno universal?

GM: Isso é meio forte no mundo inteiro, e aqui também. É incrível ver gente que não consegue entender quando eu digo que, por exemplo, eu gosto de “Fugidinha”. Porque não julgam a música, julgam a cara do Michel Teló. É mais ou menos como não conseguir entender que um cara que só toma leite integral esteja comprando um semi-desnatado. É leite. E eu adoro leite. De todas as formas

OT: Para ti, é importante para o músico ouvir de tudo?

GM: Nem tanto. O importante é deixar de pôr aspectos externos ao sonoros em prioriade.

OT:  O revestimento, em vez do âmago.

GM:  É. Mas existem coisas que parecem tocar o sonoro, mas não tocam.

OT: Como por exemplo?

GM: Como, por exemplo, a escolha de um “estilo musical”. Isso parece estar intrinsecamente ligado ao som. Mas nem sempre. Existem duas possibilidades nesta escolha: 1- o artista ou banda vai aderir a uma fórmula, um método de criação artística, como por exemplo, no blues (que segue regras pré-definidas de harmonia), no reggae (que segue regras pré-definidas de arranjo), ou no jazz (que segue regras pré-definidas de estrutura (este ponto pode ser polêmico, pois o jazz já não pode ser definido como tema-improvisação-tema, que seria esta “fórmula estrutural)). 2- o artista ou banda vai fazer uma escolha meramente ideológica, como no rock e seus derivados. A única coisa que deve passar pela cabeça de um músico trabalhando é “de que forma quero fazer o ar se mexer agora?”

OT:Porque consideras o rock e seus derivados uma escolha meramente ideológica?

GM: Porque são impossíveis de definir sonoramente. Uma coisa só pode ser classificada como rock se tem uma intenção definida, e não se tem uma sonoridade definida. Quem diz que há padrão sonoro no rock é porque não o escutou bastante.Parece clichê, mas rock é rebeldia. E os derivados do rock são opções de corte de cabelo, e não de música. Que fique bem claro que eu adoro o rock.

OT: Mas não te parece que isso é decorrência do desenvolvimento centrífugo do rock? Da sua difusão generalizada? Porque o rock, no começo, nas duas primeiras décadas, ao menos, e em boa parte das duas posteriores tinha uma regra relativamente definida de harmonia e arranjo, não? Baseada, inclusive, no blues.

GM: Não. Não se pode confundir rock, com “rock n’ roll”. O rock a que eu me refiro é o espírito. Belchior é rock. E ele mesmo falou que um tango argentino lhe cai bem melhor que um blues.

OT: É o que une, sob um mesmo nome, The Who, Guns´N Roses, Nirvana, The Clash, Mutantes e Captain beefhart

GM: Sim, o blues une esses elementos. Mas eles estão (com exceção do Guns) na mesma época e (com exceção dos Mutantes) no mesmo lugar. São todos cantores do amor e sofrimento. O blues já era rock antes do rock nascer. Como eu disse, rock independe da música. É uma opção ideológica. Como eu disse, não deve ser prioridade na “poiése” sonora. Eu acho que isso pode ser bem ilustrado pela minha obra. Eu sou um artista que optou por não fazer rock. É simplesmente a busca pelo desprendimento total de questões externas ao som. O dilema da impossibilidade de se chegar ao ars gratia artis. Hoje em dia ninguém escuta música e diz “nossa, que legal o jeito que esse cara desenvolveu essa idéia”. As pessoas pensam “parece com tal coisa”,  “aposto que ele se veste de tal maneira”. Parece que toda a conversa sobre música é sobre os fatores exteriores ao som.

OT: Tu falas “hoje em dia”. Te parece algo mto característico só da nossa época?

GM: Não. Posso dizer que é característico da época em que se admite a existência do rock.

OT: De onde vem a tua opção de fazer algo desprendido de roupagens

GM: É que quando a pessoa vai iniciar um projeto musical, de qualquer estatura, passa por essa reflexão antes. Exige um pouco de planejamento. Se eu tivesse a chance, não faria opção nenhuma. Não faria nem música.

OT: Se não tivesse a chance? Não tem?

GM: Claro que não. Eu faço música porque não tenho escolha. Ninguém me pede pra fazer.

OT: Tal como Dostoievski ao escrever? “Escrevo para libertar demônios?”

GM: Eu realmente não sei se é possível afirmar porque um artista faz arte. Mas a julgar pela literatura dele, posso dizer que os motivos dele são muito parecidos com os meus.

OT:  A tua escolha por fazer um projeto solo foi também por esse motivo? Uma necessidade imperiosa?

GM: Isso vem um pouco do lado de tomar o mínimo de decisões ideológicas possíveis. Porque a comunicação entre dois ou mais fazedores implicaria em verbalização, que basicamente seriam idéias autênticas e perfeitamente aproveitáveis na minha prática, só que carregadas de ideologia.

OT: Um marxista (e eu não sou) te dirá que o teu esforço é em vão.

GM: Tenho pra mim bem claro que praticamente não há produção sem ideologia, dependendo do ponto de vista. Isto torna minha busca, de certa maneira, meio inútil. Mas acho que buscar o inalcançável é, no mínimo, nobre. e vai que um dia eu consigo? Pelo menos penso estar trazendo progresso a um meio tão estagnado quanto a música.

OT: Fica dificil pra ti falar em influencias pra tua musica?

GM:  Nem tanto. Na verdade, influências eu sempre achei uma palavra meio ruim. teoricamente tudo o que eu consumo me influencia, e no mundo de hoje tem coisas que não temos opções senão consumir. Normalmente eu cito como artistas similares a mim caras tidos como “experimentais”. Tipo Frank Zappa, Eric Dolphy, Ornette Coleman, Kraftwerk. E também é inevitável olhar pra caras que também fazem sozinhos, tipo o Cornelius ou Of Montreal, Brian Eno…

OT: És estudante, quase formando, em Letras, habilitação latim. Porque o latim?

GM: Supus que seria o conhecimento mais útil dentre as línguas

OT: Por ter sido matriz de muitas outras?

GM: É, mais ou menos. É a que emprestou mais coisas para as outras.

OT: E confirma a tua suposição agora, prestes a te formares?

GM: Ah, sim. Não ajuda tanto quanto se espera quando se é iniciante, mas é muito útil e abre muitas portas. Ajuda muito no ofício de tradutor e professor também. é uma ferramenta que para mim hoje é indispensável.

OT: O latim já fez parte do nosso ensino escolar. Tu és a favor do retorno dele?

GM: Com certeza, não. Já se ensina muita coisa na qual os adolescentes de hoje não têm o mínimo interesse. Com certeza o latim seria mais útil do que muitos outros conhecimentos do ensino médio, mas mesmo assim seria apenas mais uma coisa para os jovens decorarem e esquecerem após a prova. A volta do latim seria só mais uma coisa para atrapalhar o futebol.

OT : Floco, eu só ouvi as tuas musicas pela internet. Elas existem em CD?

GM: Houve um disco, chamado “Obras Incompletas”. É de 2004. Além desse tem um disco que eu quase terminei em 2009, mas não cheguei a terminar. Era um disco só de reggae dub.

OT:  Quais teus proximos projetos?

GM: Bom, estou gravando um disco novo. Vai ter voz e vai ser mais “acessível”. Vai ser tipo uma ópera-funk sobre um dia na minha vida.

julho 13, 2012 Posted by | Entrevistas | Deixe um comentário

90 anos de Ulysses, de James Joyce

Nos 90 anos do clássico de James Joyce, apresentamos ao leitor de nosso blog uma adaptação da obra para o cinema.

junho 17, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

“Loucos ilustres loucos”, novo livro de Nélsinês

maio 26, 2012 Posted by | Literatura, Livros | 1 comentário

Entrevista: Antonio Prestes, professor do Uniritter “O advogado precisa encarar o Direito como uma religião”


Por Celso Augusto Uequed Pitol

 

 

 

A carreira do professor Antônio Prestes dentro da Uniritter de Canoas traz um detalhe curioso. Advogado criminalista formado na PUC, assumiu a cadeira de Prática Penal, sem nunca ter dado uma só aula em sua vida. Imaginava ele que não iria durar mais do que um semestre. Pois bem: em junho, o professor Prestes – como é conhecido na faculdade – completará 20 anos de cátedra dentro da Uniritter, tornando-se um dos mais antigos integrantes da instituição canoense e um dos professores mais populares entre os alunos – segundo ele mesmo, desde que ingressou na Ritter, nunca deixou de ser escolhido como paraninfo de uma turma sua. Nesta entrevista que segue, professor Prestes fala de sua escolha pelas carreiras de advogado e professor, das particularidades da disciplina que ministra – o Direito Penal – e do prazer em dar aulas e advogar.

O Timoneiro: Onde nasceu? Quando veio para a Região Metropolitana?

Antônio Prestes: Nasci em Jaguari, no interior do Rio Grande do Sul. Perdi minha mãe quando eu tinha 9 meses e fui criado por um casal que residia no Capão do Cipó, na época segundo Distrito de Santiago e hoje município. Aos 18 anos, fui servir ao Exército, onde fui promovido a Cabo. Depois fiz o Curso de Sargento no Rio de Janeiro em 1970 e fui classificadoem Bento Gonçalves (RS), onde permaneci por 5 anos e, em 1975, vim para Porto Alegre, onde estou até hoje. Em 1976 iniciei o curso de Direito na PUC, formei-me em 1981 – havia-me reformado no Exército – abandonei a carreira e segui o Direito.

 

OT: Como e porque escolheu a carreira jurídica?

 

AP: Escolhi o Direito por ser uma ciência social, dinâmica, elástica, onde o operador do Direito pode expor suas ideias e lutar pelo maior bem do ser humano: a Liberdade. Dizem que é a vida o maior bem, mas pergunto: de que adianta a vida, sem liberdade? Além disso, alguns amigos meus me aconselharam a carreira jurídica, achavam que eu levava jeito e que eu, sendo advogado, poderia ser mais útil, uma vez que eu sempre estava questionando os porquês desta sociedade injusta e desigual.

OT: Como se deu a escolha pelo Direito Penal?

AP: A escolha pelo Direito Penal foi uma espécie de “amor à primeira vista”. Eu tinha um colega de aula que era Agente Penitenciário e disse que havia muita gente sem condições de pagar advogados. Vi, ali, uma maneira de auxiliar  os menos favorecidos. Fiz mais de 400 júris gratuitamente, nomeado pelo Juiz para defender réus pobres, o que faço até hoje. Quanto mais atuava no Tribunal do Júri mais eu acreditava que era ali  o lugar para expor minhas ideias, sustentar minhas teses e, por muitas e muitas vezes, sair vencedor. Aquilo se foi tornando uma paixão. A cada julgamento eu sentia o prazer do dever cumprido. Para mim, a defesa era – e continua sendo – algo ilimitado. Com a Constituição de 88, trazendo em seu artigo 5º, Inciso XXXVIII, letra ‘d’, o princípio da plenitude de defesa, aí sim, percebi que estava no caminho certo e pude gritar nos Tribunais da capital, interior e fora do Estado  o que significa  o termo “inocência”, “justiça” e “liberdade”.

 

OT: É grande o número de alunos que se apaixona pela disciplina de Direito Penal. Qual é, em sua opinião, a razão para isso?

 

AP: O aluno quando ingressa na Faculdade de Direito  imediatamente apaixona-se pelo Direito Penal. Depois, com o passar do tempo, passa a gostar mais de Direito Civil e acaba ‘casando’ com Direito do Trabalho e outros ramos do Direito. Infelizmente as Faculdades não dedicam maiores espaços à área criminal. Em Canoas, onde leciono desde 1992, fui o primeiro professor a levar o Júri Popular para dentro de uma Faculdade (Ritter dos Reis). Era um sonho do Fundador da Instituição, o prof. Dr. Romeu Ritter dos Reis. Realizamos vários julgamentos enquanto eu era Orientador no SAJUIR (Serviço de Assistência Judiciária Gratuita do Uniritter). Isso incentivava os alunos. Hoje, orgulho-me de ver atuando na área criminal, vários pupilos meus e que dizem que eu fui o incentivador. Isso não tem preço. Tenho juízes, promotores, delegados, defensores públicos que foram meus alunos. Fico extremamente feliz com isso.

 

OT: Como tornou-se professor?

 

AP: Em 1992, um professor da Ritter pediu demissão. Precisavam de um substituto. O coordenador Paulo Simões pediu-me que desse umas aulas até arranjar outro. Respondi que não tinha a menor queda para lecionar. Ele insistiu e fui ter uma entrevista com o Dr. Romeu. Lá, uma colega que lecionava na Ritter, ao ver-me,começou a falar sobre meus júris e que adorava meu trabalho. Relatou três ou quatro casos e o Dr. Romeu, que pacientemente escutava, perguntou a soma de anos de prisão. A minha colega disse que todos haviam sido absolvidos. Ele levantou, apanhou a pasta no escaninho e disse que não precisava entrevista e que no outro dia eu assumisse a cadeira de prática processual penal. No próximo dia 6 de junho completarei 20 anos na Ritter.

 

OT: Já pensava em ser professor antes de ter sido contratado pela Ritter?

 

AP: Jamais imaginei que um dia fosse professor. Imaginava que fosse difícil convencer uma turma de alunos e, ademais, não possuía didática, nunca freqüentei uma aula de pedagogia, por isso nem pensava em ser professor. Mas hoje amo minha profissão. Hoje, dou palestras nas Faculdades do interior e, em março, fui convidado para a Aula Magna na Faculdade Anhanguera de Pelotas, onde fui aplaudido de pé, pela segunda vez, então isso me fortalece e faz-me ver que tudo é possível quando desenvolvemos uma profissão com denodo e muito amor.

 

OT: Nesses 20 anos de carreira, percebe algum tipo de mudança no perfil dos alunos?

 

AP: Claro que os alunos de hoje são mais atilados, apreendem com mais facilidades, têm a ajuda da Internet onde tudo fica fácil, a pesquisa, os conceitos, as transformações que o Direito sofre no dia-a-dia, etc. Mas por outro lado, em razão da violência, é bem mais difícil convencê-los da inocência de um acusado. E mais, temos apenas 3 semestres de Direito Penal, muito pouco para trazê-los à realidade. Mesmo assim, ao final do meu semestre eles vêem o Direito Penal com “melhores olhos”, como se diz.

 

OT: O senhor é muito frequentemente convidado para ser paraninfo de turmas. Poderia comentar um pouco este fato, por favor?

 

AP: Olha desde 1992, quando ingressei na Ritter, já no primeiro semestre fui homenageado e, graças a Deus, continuo sendo. Ontem (dia 30 de abril), fui chamado à Ritter para uma reunião, ao chegar lá, era um ‘apitaço’, para comunicar os professores homenageados e eu era um deles. E veja que leciono no oitavo semestre, o que quer dizer que no décimo poderiam nem lembrar mais de mim. Mas, felizmente, acho que deixo alguma marca, alguma recordação boa. Digo a eles que eu não ensino apenas o Direito, mas outras leis muito importantes: a lei da vida, a lei do retorno, a lei da causa e efeito e outras. Há alunos que no oitavo semestre não sabem o que é ser solidário. Daí, convoco-os a conhecerem e ajudarem as Instituições, para que, quando forem Juízes, Promotores, Delegados, saibam que muitos acusados saem de um meio onde o Estado fez-se ausento todo o tempo e que, agora, após um episódio, este mesmo Estado omisso, quer cobrar dele o que a ele não ofereceu.

 

OT: Para finalizar, que dicas daria para um recém-formado que deseja seguir a carreira de advogado?

 

AP: Eu diria que seguissem os Dez Mandamentos do Advogado, de Edward John Couture. E mais, que encarem a advocacia como uma religião. O advogado precisa encarar o Direito como uma religião. Agindo com responsabilidade, como se médicos fossem. Na Medicina, o paciente chega, recebe a anestesia e, dali para a frente, sua vida depende, exclusivamente, do trabalho do profissional. No Direito, o cliente chega, conta sua história, assina a procuração e, doravante, sua liberdade depende exclusivamente da astúcia, da responsabilidade, do trabalho sério do advogado. Aconselho ser leal (que é um dos Mandamentos do Advogado) e jamais mentir ao cliente ou dizer que a causa é fácil. Não existem causas fáceis. Acima de tudo, o advogado deve amar a profissão – o Décimo Mandamento do Advogado nos comanda a fazer isso, a ponto de, se um dia, seu filho pedir uma orientação a qual profissão seguir, considere uma honra aconselhá-lo que seja advogado.

 

 

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maio 19, 2012 Posted by | Entrevistas | 2 Comentários

Stuart Pearce completa 50 anos

Quem acompanhava futebol nos anos 90 vai lembrar desse ótimo lateral-esquerdo inglês.

No seu auge, Stuart Pearce chegou a ser considerado um dos melhores laterais esquerdos do mundo, junto com o alemão Andreas Brehme (esse provavelmente era o melhor do mundo até a chegada do Roberto Carlos) e Paolo Maldini. Os outros dois tiveram carreiras muito mais exitosas por terem jogados em clubes mais fortes e em seleções mais competitivas: fora a ótima Inglaterra da copa de 90, Pearce nunca tomou parte em times com chance real de disputar titulos. Jogou por 13 anos seguidos no seu querido Nottingham Forest num momento em que o campeonato inglês era considerado um torneio de segunda linha na Europa e os principais jogadores do país acabavam por migrar para mercados mais atrativos. Apesar das numerosas ofertas (em especial após a Copa de 1990, onde foi escolhido um dos melhores do torneio em sua posição), Pearce nunca deixou seu país e seu clube. Aliás, não chegou a jogar na badalada Premier League que hoje conhecemos: a Liga Inglesa em sua época era disputada em campos esburacados, gramados mal cuidados e estádios acanhados e perigosíssimos, onde os grandes da Europa continental  tinham medo de ir jogar.

Seu estilo de jogo era uma espécie de símbolo da época e do lugar de onde veio. À semelhança do nosso Branco (outro dos grandes laterais daquela época),  era um excelente marcador, ia à frente em velocidade, tinha um cruzamento perfeito e um chute muito forte de perna esquerda. Outra característica sua era a dedicação em campo: jogava com tanta garra e empenho que ganhou o apelido de “Psycho” dos torcedores ingleses, que podem perdoar a falta de qualidade técnica de seus jogadores (na maior parte das vezes, não têm muita a saída a não ser perdoar…) mas nunca a falta de vontade de ganhar.

Hoje treinador da seleção de futebol inglesa, Stuart Pearce foi um dos últimos remanescentes, junto com uns poucos outros, do futebol pré-moderno. Sua lembrança neste blog é, também, a lembrança de um outro tempo dentro do futebol – e não só.

maio 5, 2012 Posted by | Esportes | 1 comentário

Duas entrevistas de Otto Maria Carpeaux, o livre atirador

A página Tiro de Letra prestou um grande serviço ao leitor brasileiro ao disponibilizar online duas antigas entrevistas de Otto Maria Carpeaux. A primeira, de 1949, foi originalmente publicada na “Revista do Globo”, do Rio de Janeiro, e a segunda, de 1976, saiu na revista “José”, também do Rio de Janeiro. Nelas, Carpeaux fala de sua formação intelectual, da Viena de sua juventude, da crítica brasileira e estrangeira, de vários autores, de seus primeiros livros (publicados ainda na Europa), do fascismo e do nazismo e de muitos outros assuntos. Chega a fazer graça com algumas impertinências dos condutores da segunda entrevista, sem, entretanto, nunca perder a elegância e o bom humor característicos.

Fizemos abaixo uma pequena seleção de trechos das duas, que poderia ser muito maior e, mesmo assim, jamais dispensaria a leitura integral de ambas. São trechos que, datando de muitas décadas, revelam surpreendente interesse e atualidade para o Brasil de hoje. Há, entretanto, um momento que, mais do que qualquer outro, deve chamar a atenção daqueles que conhecem e admiram a obra de Carpeaux:

“Não sou crítico profissional, antes livre atirador, sem obrigação alguma de escrever sobre tudo.”

Se Carpeaux tiver razão – e, a nosso ver, não tem – cabe uma pergunta: o que sobra para o resto?

————————

 Que diferença sentiu ao chegar (ao Brasil)? Digo, de consciência política?

Diferença? No Brasil quase não encontrei gente de direita. Na Europa havia, então uma grande maioria de intelectuais direitistas.

 (…) Carpeaux, você já escreveu que sente uma diferença, não na criação, mas na crítica, entre a década de sessenta e o ambiente que encontrou ao chegar aqui em 1939.

Nisso, a diferença é enorme. Entre o Rio de 1945 e o de hoje, a diferença de compreensão crítica é quase incomensurável, no sentido de uma elevação de nível. Mas não quanto à manifestação literária. Nesse ponto, o Brasil de hoje é inferior ao de 45. Pense no Estado Novo: a literatura brasileira era a de Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Graciliano e outros. E hoje? A diferença é grande. Naquela época havia uma literatura brasileira. Hoje há talvez um número maior de poetas, ficcionistas e ensaístas de bastante talento. Mas não existe uma literatura, um corpus, neste momento.

(…)

Além desse aspecto que chamo de método poético…

Diga métodos, no plural. Quando escrevo sobre Zola, por exemplo, não falo de aspectos psicológicos, que inexistem nele.

Evidente. Quando você fala de Shakespeare…

Aí, é diferente. Há um método específico para cada obra de Shakespeare!

Há um antiprofissionalismo crítico na sua obra muito peculiar. É um aspecto documental que deve estar ligado à sua atividade de jornalista. Que diz disso?

Você falou de minha atividade de ensaísta, crítico, etc. E agora fala do jornalista. Para mim, minha atividade literária engloba-se na atividade de jornalista. O que sou, no fundo, é só isso. Não ignoro que a qualificação de jornalista não é das mais bem vistas. Quando se diz de alguém “Esse é jornalista”, a impressão é sempre de que isso é uma atividade inferior, etc. Mas me considero, globalmente, em primeira linha,um jornalista. Meus ensaios e artigos são parte da minha atividade jornalística.

No sentido de Leopoldo Alas,”Clarín”, por exemplo?

Clarín, não. Fora seus extraordinários romances, ele era uma espécie de palhaço. Divertir os leitores não me interessa

Você citaria que exemplos?

Citaria outros nomes. Mas receio que digam: “Vejam só com quem ele se compara!”. Só quero dizer que jornalistas no meu sentido foram também René Chateaubriand, Lutero, os profetas do Velho Testamento. Do novo Testamento há talvez o maior jornalista da história, o apóstolo São Paulo. Ninguém entre nós pode se comparar a eles. Mas isso é um exemplo do que é jornalismo no meu sentido.

Sendo assim, Carpeaux, quer dizer que, nesse sentido, o jornalismo acabou quando apareceu o jornal?

Não acabou. Porque jornalismo não é só o que se redige para o jornal. É qualquer atividade dirigida aos outros e tomando como ponto de partida a atualidade. Isso é o verdadeiro jornalismo.

abril 28, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Segundo programa de Julian Assange no Russia Today: Slavoj Zizek e David Horowitz

abril 27, 2012 Posted by | Política | Deixe um comentário

Sala de Albert Einstein

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Foto da sala de Albert Einstein na Universidade de Princeton tirada no dia de sua morte – 18 de abril de 1955

abril 19, 2012 Posted by | Fotografia | 1 comentário

Assange na TV

Fonte: Terra.

O novo programa de entrevistas do fundador do WikiLeaks Julian Assange, The World Tomorrow, estreará na próxima terça-feira na rede de televisão russa pró-Kremlim RT e na internet, anunciou nesta sexta-feira o site especializado em vazamento de informações.

Assange, 40 anos, gravou durante os dois últimos meses 12 episódios de 26 minutos deste programa na Inglaterra, onde vive praticamente recluso há 500 dias à espera de uma decisão sobre sua extradição à Suécia, país que o requer para interrogá-lo por quatro supostos crimes sexuais.

O WikiLeaks não informou quais serão os convidados de “The World Tomorrow”, mas afirmou que o ex-hacker australiano entrevistou “algumas das pessoas mais interessantes e polêmicas da atualidade, entre elas “políticos, revolucionários, intelectuais, artistas e visionários”.

Assange afirmou que a força do programa reside em seu “tom franco e irreverente”. “Meu próprio trabalho com o WikiLeaks não se pode dizer que tenha facilitado minha vida”, disse no comunicado, “mas nos forneceu uma plataforma para divulgar ideias para mudar o mundo”.

O programa, que terá uma periodicidade semanal, será divulgado na RT, uma rede multilíngue lançada pela Rússia em 2005, em inglês, espanhol e árabe a partir de terça-feira às 10h GMT (07h de Brasília). As entrevistas também estarão disponíveis na internet.

Primeiro programa:

 

abril 17, 2012 Posted by | Política, Reportagem | Deixe um comentário

Quando a Páscoa chega ao Sul

O monge anglo-saxão Beda, o Venerável (672-735) , talvez tenha sido o primeiro representante daquela figura, hoje clássica, do jesuíta perdido entre antropófagos. Homem cultíssimo, versado em latim, grego e hebraico,  intérprete aprofundado das Escrituras e interessado em temas tão díspares quanto astronomia, retórica e história, vivia numa terra que muito pouco tinha a ver com seu espírito refinado. Guardava nisso semelhanças com outros homens de letras da Igreja que, por circunstâncias da vocação que escolheram, tiveram de abandonar os altos círculos intelectuais e embrenhar-se em matas e montanhas a fim de levar a Palavra aos que não A conheciam.  A diferença era que, quando via aqueles seres primitivos, adoradores de divindades da natureza, vivendo nas matas em quase comunhão com os bichos e as árvores,  Beda via não homens nus do outro lado do oceano que ele tinha vindo civilizar e que com ele nada tinham a ver. Via o seu próprio povo, os anglo-saxões, habitantes de um país atrasado e esquecido do Norte da Europa chamado Anglelande –  um país que, hoje, atende pelo nome de Inglaterra.

Para qualquer outro na mesma condição seria fácil lamentar da sorte. Beda nunca saiu da sua ilha fria cercada de brumas, mas é inegável seu mundo pessoal era outro. Ainda que tivesse os mesmos cabelos louros, olhos azuis e força física de seus compatriotas, seu coração estava nas margens do Mediterrâneo, o mesmo mar que banhou as areias da Grécia de Aristóteles e Platão, da Itália de Virgílio e Cícero e da Palestina de Jesus Cristo. Mas aos homens do cristianismo antigo não eram dados os confortos da lamúria e da queixa. Imbuído do melhor espírito beneditino do ora et labora, dedicou-se ao estudo dos costumes e das religiões daquele povo que era, a um tempo, o seu povo e o povo que deveria converter.

Um dos interesses centrais de Beda era a Páscoa. Esta foi uma das obsessões da Igreja durante a Idade Média, dando vazão a debates duríssimos onde ele próprio tomou parte com o tratado De temporum ratione, “A contagem do tempo”. Ali Beda descreve a Eosturmonath , o mês dedicado Eóster, deusa anglo-saxônica ligada à fertilidade e ao nascer do sol, que iniciava durante os começos da primavera do Hemisfério do Norte.  Ela inicia em 21 de março e é particularmente importante no Norte da Europa, onde as durezas do clima condicionam fortemente a vida dos homens. Durante o inverno, a comida é escassa, as noites são longas, o sol pouco aparece e a neve cobre os campos, matando o gado, as plantas e tudo o mais que vive, inclusive os homens. A primavera chega e a vida recomeça: o sol aparece por mais tempo, a água já não é gelo e já não é preciso estocar alimentos: basta colher. Tudo o que estava morto revive: ressuscita.

A imagem de Eóster – também conhecida em outros povos germânicos, chamada por uns de Ostara, por outros de Auster – é representada  por uma mulher com um ovo em sua mão e um coelho, símbolo da fertilidade, em sua volta. E os anglo-saxões logo perceberam que aquele Jesus Cristo que lhes era apresentado ressuscitou na mesma época. Perceberam também que ele, assim como Eóster, trazia alegria onde chegava, os mortos retornavam à vida, da água fazia o vinho e multiplicava pães: era a “luz do mundo”. A identificação foi imediata. Observador atento, Beda anotou: “Agora, os ingleses designam a época de Páscoa pelo seu nome, chamando às alegrias do novo rito com o nome consagrado pelas velhas crenças”. As velhas crenças seriam substituídas pela Boa Nova – o “Evangelion”, em grego – e a velha Eóster, pelo filho de Deus. Mas seu nome, como disse Beda, permaneceu, como os ovos que carregava consigo e o coelho que corria à sua volta, devidamente abençoados pelo cajado dos antigos padres da Igreja. Assim, a ressurreição do Senhor passou a ser, para os primeiros ingleses, o mesmo que a ressurreição de toda a vida.

Deusa Eastra

Para quem vive no lado Sul do mundo talvez isso não faça tanto sentido. Para começar, em nossos idiomas latinos o nome desta época do ano tem outra origem: é o hebraico “Pessach”, que significa “passagem”, e está ligada originalmente à libertação dos israelitas no Egito. Durante a Páscoa ocorreu a ressurreição de Jesus e as correlações simbólicas entre os dois eventos são bastante óbvias. Além disso, no lado Sul do mundo, a Páscoa não coincide com a chegada da primavera. Comemora, isso sim, o começo do outono, que é o começo das noites, do frio, do fim da vida. Isto, em tese, é correto. Mas, neste canto específico do Sul que carrega o Sul no próprio nome, o tempo de provação não é o outono e nem o inverno: é praticamente todo o ano. Quem vive no Rio Grande do Sul trava batalhas contra a natureza que ofuscam todas as batalhas que já se travaram nestes campos. Quem vive no Sul sabe, como nenhum outro, o que é o verão abrasador, a umidade maldosamente unida ao calor, a falta de chuvas ou o excesso delas, as plantações destruídas, as casas destelhadas. Aqui, a própria primavera não é tempo de florir e de viver, e sim de moléstias, doenças, dias que começam congelantes e terminam quentes, de inconstância, de dificuldades. É isto o que antecede o tempo da Páscoa. Quando Março chega, já suspiramos de alívio por termos passado – sobrevivido! – mais um verão. Em breve, a fúria do tempo cessará. As chuvas aumentam a frequência e diminuem a intensidade, tornando-se agradáveis presentes do céu e não tormentosas causas de desgraças. Ao mesmo tempo, ainda não começaram as rajadas de vento que atravessam a Patagônia e nos atingem, sem dó nem piedade, cobrindo os campos de geada, os picos de neve e a vida dos pobres e desvalidos de durezas. Se, para T.S. Eliot – em todos os sentidos, um homem do Norte – abril era o mais cruel dos meses, para o homem deste Sul este é único mês que não é cruel. A Páscoa no Sul é o tempo em que, talvez pela única vez no ano, podemos realmente experimentar a alegria de viver. É o que aprendemos desde pequenos. Nossas memórias infantis da Páscoa são as das primeiras manhãs de ar fresco, quando, em crianças, corremos para o quintal e encontramos os ovos com que passamos o dia, ao ar livre, aproveitando a amenidade do tempo, a beleza do dia, a grama mais verde do ano, o fruir de tudo. E, pela primeira vez, compreendemos, da mesma forma que os anglo-saxões de Beda, que o mundo regenera, que nem tudo é dor e dificuldade, que é possível reviver e que, desde Aquele que morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia, a vida vale a pena ser vivida.

abril 9, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Religião | Deixe um comentário

“O homem de hoje não tem um centro ordenador.”

Entrevista: Vitor Hugo Couto Triska, psicanalista

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Conheço Vitor Hugo Couto Triska há nada menos do que 23 anos. É muito tempo – e torna-se mais tempo ainda quando se tem em mente que eu e ele temos 28 anos. E é com a proximidade de quem tem a mesma idade, estudou no mesmo colégio (aliás, na mesma turma) e que partilha lembranças, sentimentos e visão de mundo forjada em laços de amizade familiar – nossas mães são amigas desde antes de pensarmos em nascer -, que posso dispor-me, a qualquer momento, a falar do meu amigo Vitor Hugo, do menino que ia para a aula com uma máscara remendada do herói japonês Jaspion – provavelmente destruída em batalhas imaginárias -, que destacava-se como ótimo aluno, que levantou esperanças e expectativas e que as vem cumprindo integralmente desde que, na virada do milênio, deixamos aquilo que T.S. Eliot chamou de “a praia que todos conhecemos” – o colégio, o nosso colégio, o La Salle, de onde partimos para o Mar Tenebroso camoniano que chamamos vida adulta. Não é, entretanto, o que fiz nesta entrevista. Aqui, falei apenas das tais expectativas que se vêm cumprindo: o Vitor é, para além de meu amigo, um bem-sucedido psicanalista, cuja tese de doutorado – muito bem intitulada “Cultura e estrutura em psicanálise” – aborda um tema que, se não posso chamar de próximo, ao menos não me é estranho por estar presente em nossas conversas: o das respostas que a psicanálise pode dar para entender a cultura contemporânea. Esta entrevista que segue é, assim, um convite ao leitor para que participe destas conversas, onde – já aviso, falando a partir de experiência própria – valerá mais escutar do que falar.

 

 

 

O Timoneiro: Começando pelo começo: porque a escolha pela Psicologia?

Vitor Hugo: Bem, primeiro é preciso dizer que eu não fiz teste vocacional. Quero dizer,  fiz um meio forçado na época do colégio, mas não levei a sério.  O resultado, claro, enfatizou as matérias em que eu ia melhor , que eram Matemática, Física e Química. Mas aí que fica mais curiosa a maneira como eu fui parar na Psicologia. Acredito que tenha a influência da família. Minha mãe já estudava Psicologia ,  havia estudado Filosofia e Direito e acho que foi também influência dela o interesse na área das Ciências Humanas, já que, como eu disse, eu tinha uma cabeça muito voltada para as exatas. Acho que é por aí. Além disso, no colégio eu era muito observador do comportamento das pessoas . Eu não tenho como dizer que foi uma escolha baseada em “tal e tal” critério. Na época foi o que me pareceu mais certo de acordo com os critério que eu poderia ter quando era adolescente. Mas para mim, desde cedo, ficou claro que eu iria trabalhar com clínica. Sempre o que me chamou mais a atenção foi a clínica.

 

OT: Isso desde o começo da faculdade ou antes mesmo de entrar na faculdade?

 

VH:  Antes de começar a faculdade.

 

OT: O interesse era de clinicar mesmo, não apenas só estudar a Psicologia.

VH: Exatamente. Eu não tinha nenhuma leitura sobre Psicologia – aliás, nem mesmo uma leitura suficiente boa para vestibular de Literatura. Como eu disse, o meu interesse sempre foi mais das Ciências Exatas. Até que me apareceu , lá pelo terceiro ano de curso, a Psicanálise.

OT: Só no terceiro ano?

 

VH: Sim. Antes tinha Psicanálise, mas como uma parte das cadeiras de teoria da personalidade. A gente via a psicanálise como uma teoria desligada da prática, da história da filosofia e do momento da ciência moderna e tal. Ao mesmo tempo, eu comecei a me interessar mais por literatura e, por via disso, me interessar mais pela psicologia teórica. O curioso é que até meus conceitos que eram B e C passaram para A ao longo do curso, ao contrário do que acontece com muitos (risos). E também, através de Lacan, acabei encontrando influencia da matemática. Foi uma espécie de reencontro com o meu interesse antigo pelas ciências exatas.

OT: Um reencontro com as tuas antigas aptidões do colégio.

 

VH: É , digamos assim.

 

OT: Mas hoje a tua pesquisa vai por outro caminho, não é?

 

VH: Está indo por outro caminho. Meu doutorado é uma investigação acerca das leituras que a psicanálise pode fazer da cultura contemporânea. Isso é antigo na psicanálise, desde pelo menos o “Mal estar na civilização”, do Freud….

OT:  ……..que, talvez, seja o livro do Freud mais lido por quem não é psicólogo…

VH: Sem dúvida. Esse livro é muito conhecido e objeto de estudo em todas as áreas das ciências humanas. É um livro básico para quem estuda a civilização ocidental dos últimos 100 anos.

 

OT: Um dos sentidos que se pode interpretar o trabalho do Freud é o de que estamos mal por estarmos civilizados, por termos deixado o estado de natureza e assim por diante . O teu trabalho é uma leitura cultural baseada na psicanálise. Tu subscreves essa análise do Freud?

 

VH: Acho que sim. E esse tipo de análise torna-se ainda mais importante numa época chamada de “individualista”. Temos de estudar e compreender que tipos de laços sociais se estabelecem nesta época onde aparentemente  – é o que diz a crítica mais comum – é que não se estabelecem  laços sociais, onde há individualismo e assim por diante. Meu trabalho é uma contra-crítica à crítica que a  psicanálise mais comum faz da cultura.É quase o mesmo que ocorre quando tu escutas os pais dizerem “na minha época não era assim” , “Os filhos hoje não têm limites”- quase como estivessem ressentidos . Mas o que eles não se dão conta é que, no momento que eles exaltam os valores de tradição, eles também estão exaltando sistemas de opressão e modelos que hoje não funcionam mais da mesma maneira.

 

OT: Sempre me vem à mente, quando me falam da substituições dos modelos, uma leitura que era muito comum décadas atrás, que são as vidas de santos. Cada santo era um exemplo a ser seguido pelo leitor. Católico, evidentemente . Como tu entende a passagem desse processo de substituição de modelos , nos últimos 50, 60 anos?

VH: Eu me questiono se é uma passagem. Na época de Freud, era mais fácil e mais possível reconhecer um discurso mais hegemônico. Hoje, isto é difícil.  O que eu questiono é se hoje há , como havia antigamente, um código social mais hegemônico ou se hoje é permitida uma maior pluralidade. Hoje é muito fácil dizer que se seguem os artistas e os jogadores de futebol, por exemplo, em vez dessas vidas de santos ou de outros modelos que tu citaste. Claro, por uma questão de mídia e de exposição muita gente pode ter essa impressão de que a massa é o que prevalece, que esses fenômenos são mais comuns, de consumo em larga escala. Mas não é necessariamente assim.

OT: Mas tu achas que esses fenômenos não chegam a modificar a noção de modelo que muitas pessoas têm?  

 

VH: Eu acho que eles modificam, a questão é que eles não podem ser considerados como universais. A generalização nesse sentido não serve para nada.

 

OT: Disse Sartre que o homem está condenado a ser livre. Obviamente esse “condenados” implica que o homem livre tem um fardo a carregar, uma dificuldade de se orientar no mundo , porque ele não tem mais aquele tutelador tradicional, a tradição serve para tutelar também. O  cidadão que está dentro da tradição é tutelado, ele se sente dentro de um caminho. O homem que é totalmente livre , que está fora disso, está sozinho na estrada.

VH: Claro e ultimamente temos visto muitos filmes que demonstram essa situação. Agora saiu o “Shame” , que mostra um cara completamente isolado, com dificuldades de se relacionar com a irmã, que é a única referência de família que ele tem ,  e se dedicada basicamente ao trabalho e a consumir sexo via internet ou em festas, enfim. O que é uma caricatura, uma imagem , dessa pessoa desligada totalmente das tradições e mais “à deriva”, digamos assim. Nesse sentido  também podemos dizer que sim, as pessoas estão mais livres para escolherem caminhos e ao mesmo tempo muitos autores relacionam isso com a predominância da depressão. O homem de hoje não tem um centro ordenador.

 

OT: Que é, mais ou menos, uma das conclusões de Gilles Lipovetski em “A Era do Vazio”…..

 

VH: Exatamente. É a era da ansiedade, da depressão, que é justamente a sensação de “não pertença” . Quem  escreveu sobre isso  ,e que me chamou muito a atenção, que foi o Albert Camus no “O mito de sísifo”. Eu acho que atualmente predomina entre os psicanalistas uma leitura rasa da cultura , porque eles fazem essa leitura a partir de conceitos consagrados da psicanálise, mas esses conceitos dependem do contexto no qual eles foram criados que seria, digamos , a cultura freudiana , que é pré-segunda guerra mundial.

OT: Então tu acha que esses conceitos deveriam ser relativizados para a época atual ou eles têm de ser relidos?

VH: Eles têm de ser relidos. Precisamos estabelecer conceitos novos , porque isso é muito claro na antropologia . Tu tens uma certa linguagem pré estabelecida  para entender tal cultura , tal cultura e tal cultura. É muito suspeito tu achares coisas comuns entre elas e ficar usando o mesmo mecanismo de compreensão. Então, é o teu mecanismo que está embutindo coisas porque tal e tal  cultura não é um fenômeno naturalem si. A cultura é um conceito da antropologia  para abordar certos fenômenos e tentar fazer uma compreensão. No momento que tu vais lá entender “Édipo” , “A função paterna” e etc, porquê tu ainda vais usar termos  que fazem essa relação ao pai se hoje o lugar do pai na família não é necessariamente um lugar privilegiado?  É e não é, depende da família. Não é mais uma questão universalizada. Não é mais “eu sou o pai, essa é a regra  porque eu sou o pai”. A resposta do filho vai ser “Porque? O cara que eu vi na TV disse tal coisa diferente”.

OT: O que , obviamente, não era assim na época do Freud.

 

VH: Claro, então me parece um certa nostalgia de quando os conceitos clássicos da psicanálise  serviam para interpretar uma certa cultura.

OT:  Uma das críticas que fazem ao Freud diz respeito ao seu pouco conhecimento de filosofia ocidental, apesar de ele conhecer arte e literatura a fundo. Isso confere?

 

VH: Olha , eu não conheço muito os detalhes da vida do Freud , mas isso confere, sim. Freud era um médico, com um grande conhecimento de arte e literatura, sim, mas essencialmente um cientista. O foco do trabalho dele não era filosófico. O que, evidentemente, não impede que um filósofo, pensador, cientista social ou antropólogo possa usa-lo. É o que eu pretendo fazer, e o que defendo que se faça – sempre relendo de acordo com a situação que se vive hoje, para os problemas que temos hoje.

março 30, 2012 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 2 Comentários

Little Drummer Boy

Por ocasião do Dia de São Patrício, e com a participação insuspeita (porém nada fora de lugar) de Shane McGowan.

Happy St. Patrick’s Day!

março 17, 2012 Posted by | Música | Deixe um comentário

“Aos melhores lhes falta toda a convicção….”: sobre crucifixos e vingança

Ana Naiara Malavolta, da Liga Brasileira de Lésbicas – grupo que ingressou com a petição que culminou com a retirada dos crucifixos das dependências do Tribunal de Justiça do RGS -, afirma  que o pedido é uma resposta dos gays ao que consideram “perseguições sistemáticas movidas por fundamentalistas religiosos” em várias partes do Brasil.

– Muitos gays e lésbicas são impedidos de entrar em templos. Então, por que o símbolo de uma religião tem de predominar nos prédios da Justiça, se o lugar é frequentado por outros fieis e por ateus? – pondera Naiara.

Não pude disfarçar a estranheza quando tomei conhecimento do pedido formulado pela Liga. Afinal, qual a razão pela qual um grupo pretensamente criado para congregar pessoas com específica orientação sexual atentaria contra a presença da cruz nas dependencias dos tribunais?

No entanto, ao ler a declaração de Ana Naiara Malavolta compreendi que realmente o crucifixo deve lhe  provocar horror. Afinal, digam o que disserem, a mensagem da cruz é a antítese da idéia de vingança e a  declaração acima referida demonstra claramente que a motivação da liga é precisamente esta: vingança. Vingam-se de uma suposta vedação a entrada em templos (muito embora nunca tenha visto, em templos religiosos, fiscais perguntando sobre orientação sexual de quem quer que seja). Mas, na hipótese de ter havido  alguma forma de discriminação em algum templo, o caminho não seria reagir  contra o símbolo religioso e sim contra quem praticou o ato atentatório. No entanto, o objeto de toda ira é a cruz de Cristo.

E lembrei então de William Butler Yeats, cujas palavras do poema “A segunda vinda” parecem descrever com perfeição o tempo em que vivemos:

Aos melhores lhes falta toda a convicção enquanto os piores estão plenos de intensidade apaixonada.

março 16, 2012 Posted by | Política | Deixe um comentário

“Tempos apocalípticos” – Paulo Brossard sobre a retirada dos crucifixos nos tribunais


Minha filha Magda me advertiu de que estamos a viver tempos do Apocalipse sem nos darmos conta; semana passada, certifiquei-me do acerto da sua observação, ao ler a notícia de que o douto Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Estado, atendendo postulação de ONG representante de opção sexual minoritária, em decisão administrativa, unânime, resolvera determinar a retirada de crucifixos porventura existentes em prédios do Poder Judiciário estadual, decisão essa que seria homologada pelo Tribunal. Seria este “o caminho que responde aos princípios constitucionais republicanos de Estado laico” e da separação entre Igreja e Estado.

Tenho para mim tratar-se de um equívoco, pois desde a adoção da República o Estado é laico e a separação entre Igreja e Estado não é novidade da Constituição de 1988, data de 7 de janeiro de 1890, Decreto 119-A, da lavra do ministro Rui Barbosa, que, de longa data, se batia pela liberdade dos cultos. Desde então, sem solução de continuidade, todas as Constituições, inclusive as bastardas, têm reiterado o princípio hoje centenário, o que não impediu que o histórico defensor da liberdade dos cultos e da separação entre Igreja e Estado sustentasse que “a nossa lei constitucional não é antirreligiosa, nem irreligiosa”.

É hora de voltar ao assunto. Disse há pouco que estava a ocorrer um engano. A meu juízo, os crucifixos existentes nas salas de julgamento do Tribunal lá não se encontram em reverência a uma das pessoas da Santíssima Trindade, segundo a teologia cristã, mas a alguém que foi acusado, processado, julgado, condenado e executado, enfim justiçado até sua crucificação, com ofensa às regras legais históricas, e, por fim, ainda vítima de pusilanimidade de Pilatos, que tendo consciência da inocência do perseguido, preferiu lavar as mãos, e com isso passar à História.

Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes no templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou. No seu artigo “O justo e a justiça política”, publicado na Sexta-feira Santa de 1899, Rui Barbosa salienta que “por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz”… e, adiante, “não há tribunais, que bastem, para abrigar o direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados”.   Em todas as fases do processo, ocorreu sempre a preterição das formalidades legais. Em outras palavras, o processo, do início ao fim, infringiu o que em linguagem atual se denomina o devido processo legal. O crucifixo está nos tribunais não porque Jesus fosse uma divindade, mas porque foi vítima da maior das falsidades de justiça pervertida.

Não é tudo. Pilatos ficou na história como o protótipo do juiz covarde. É deste modo que, há mais de cem anos, Rui concluiu seu artigo, “como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”.

Faz mais de 60 anos que frequento o Tribunal gaúcho, dele recebi a distinção de fazer-me uma vez seu advogado perante o STF, e em seu seio encontrei juízes notáveis. Um deles chamava-se Isaac Soibelman Melzer. Não era cristão e, ao que sei, o crucifixo não o impediu de ser o modelar juiz que foi e que me apraz lembrar em homenagem à sua memória. Outrossim, não sei se a retirada do crucifixo vai melhorar o quilate de algum dos menos bons.

Por derradeiro, confesso que me surpreende a circunstância de ter sido uma ONG de lésbicas que tenha obtido a escarninha medida em causa. A propósito, alguém lembrou se a mesma entidade não iria propor a retirada de “Deus” do preâmbulo da Constituição nem a demolição do Cristo que domina os céus do Rio de Janeiro durante os dias e todas as noites.

Fonte: Zero Hora

março 16, 2012 Posted by | Política | 2 Comentários

Antropofagia hoje

Em 2012 comemora-se os noventa anos da Semana da Arte Moderna. Pouco relevante na época, o evento ganharia proporções gigânticas com o passar do tempo, mobilizando algumas das maiores forças intelectuais do Brasil e deixando uma marca profunda em toda a cultura brasileira, em especial nas artes e na literatura. Entre os temas direta ou indiretamente a ela ligados que serão objeto de discussão estará, sem dúvida, um dos conceitos mais conhecidos e repetidos deste período: o de “antropofagia”, elaborado por Oswald de Andrade em seu “Manifesto Antropofágico”.

Nesse sentido, a publicação de “Antropofagia Hoje?” (É Realizações, 687 páginas, organizado por João Cezar de Castro Rocha e Jorge Ruffinelli) é uma maneira de dar início ao debate sobre o impacto e a relevância atual das idéias dos modernistas de 22. E o faz com qualidade: um volume onde figuram nomes como Sérgio Rouanert, Daniel Piza, Raul Antelo, Jorge Schwartz, Luiz Costa Lima, Benedito Nunes, Hans Ulrich Gumbrecht (este, em um texto particularmente inspirado), Eugenio Bucci e os próprios Castro Rocha e Ruffinelli põe a discussão sobre o valor, o impacto e a permanência da antropofagia (e do próprio Oswald de Andrade) num patamar e com uma abrangência difícil de serem encontrados no país.

Onde encontrar:

www.erealizacoes.com.br

(11) 5572 5363

março 12, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Escritora canoense Nélsines lança novo livro

fevereiro 16, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

Documentário sobre o crítico literário Wilson Martins

 

Um dos maiores nomes da crítica literária brasileira, o paranaense Wilson Martins, autor da monumental História da Inteligência Brasileira e falecido no ano passado, ganha agora um documentário em sua homenagem. Justíssima, alias.

O Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), em Curitiba, promove nesta sexta-feira (10), às 20h, a estreia nacional do filme “Wilson Martins – a consciência da crítica”, dirigido por Douglas Machado. A exibição ocorre no auditório Poty Lazzarotto – espaço do Museu Oscar Niemeyer – e a entrada é franca.

O documentário tem como base uma longa entrevista, gravada em 2002, com o crítico literário Wilson Martins (1921-2010). Nos anos seguintes a esta entrevista, novos encontros e novas conversas em Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Nova Iorque completaram um tecido de memórias alinhavado por escritores como Miguel Sanches Neto, Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Affonso Romano de Sant’Anna e com um dos ex-alunos de Wilson Martins na New York University: Kenneth Krabbenhoft.

Autor de diversas obras, Wilson Martins destacou-se por “História da Inteligência Brasileira”, com inúmeros volumes. Igualmente fundamental é a “Crítica Literária no Brasil”, história da atividade crítica no País. Com suas obras, Martins ganhou alguns dos principais prêmios literários nacionais, como o Jabuti e o Prêmio Machado de Assis.

Após a sessão haverá debate sobre o filme com a presença do diretor, da produtora Gardênia Cury, do crítico de cinema Marden Machado e do escritor e crítico literário Miguel Sanches Neto.

Fonte: O Diário, de Londrina (PR).

 

fevereiro 7, 2012 Posted by | Literatura | Deixe um comentário

“Só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa”

Por ocasião da Colação de Grau da Turma CNA 2011/2 do Centro Universitário Ritter dos Reis (Canoas/RS) que realizou-se no dia 19 de janeiro de 2012 no Centro de Eventos da FIERGS, em Porto Alegre, o integrante deste blog,  Celso Augusto Uequed Pitol, escolhido orador de sua turma, proferiu o seguinte discurso que aqui será reproduzido na íntegra a pedido dos novos bacharéis, perfeitamente cônscios do sentido do “presente precioso” referido pelo paraninfo, Prof.Andrio Portuguez Fonseca.

Ilustríssimos componentes da mesa, queridos colegas formandos, senhoras e senhores.

No último dia do ano letivo de 1905 um estudante de 17 anos foi chamado ao púlpito do auditório da Academia Smith, nos EUA ,para fazer o discurso de formatura. Seu nome era Thomas Stearn Eliot. Ele era então um jovem promissor, e decerto seus colegas e professores esperavam muito dele. O que talvez ninguém imaginasse era que o jovem Thomas viria, passados alguns anos,  a ser considerado como um dos maiores poetas do século XX, figurando na história da literatura sob o nome de T. S. Eliot. Naquele momento, entretanto, era apenas o jovem Eliot – um garoto que dava seus primeiros passos no caminho da vida.

E foi com a decisão de quem dá um passo largo porém firme e animado por uma profunda convicção em si que o então jovem Eliot disse as seguintes palavras:

“De pé junto à praia que todos conhecemos

Hesitamos em dúvida por um momento

Depois, com uma canção nos lábios, velejamos

Pelos baixios da enseada – sem mapa para indicar

Sem luz para iluminar as rochas do fundo

Mas concedei ainda que nos aventuremos.

Como colonos que embarcam no cais

Em busca de fortuna numa praia distante

Bem sabem que perdem aquele tempo

Que jamais haverão de resgatar,

E quando partem compreendem cabalmente

Que, ainda que revejam sua terra natal

Não mais ali serão como cidadãos

Embora a senda seja lenta e tortuosa

Embora se crispe diante de mil temores

Ao olho crédulo da juventude ela parece

Uma vereda onde florescem o pilriteiro e  a rosa.

Esperamos que assim seja; pudéssemos sabe-lo!

Pudéssemos contemplar os anos vindouros.

Temos aí uma convocação. Eliot compara seus colegas de academia a colonos prestes a embarcar rumo ao mar desconhecido que se lhes abre à frente. Pede que sejam corajosos, que agüentem a senda “lenta e tortuosa” sem mapa nem guia ou sequer luz para lhes iluminar o caminho.

Não há promessas de se chegar ao destino desejado: a falha é um elemento presente, e por isso diz: “hesitamos em dúvida por um momento”. Mas isso é passageiro. Embarcam “com uma canção nos lábios”,  sem medo do que lhes aguarda. E mesmo sem promessas ou perspectivas definidas, o jovem Eliot projeta:

“Daqui a muitos anos, quando já formos

Velhos e grisalhos, qualquer que seja a nossa sorte,

Desejaremos contemplar ainda o sítio que,

Pouco importa o que sejamos ou o que houvermos feito,

Ou em que terras distantes possamos ter estado,

Nunca esquecemos depois de todos estes anos”.

Eliot está certo de que a viagem terá volta: está certo de que os “colonos que embarcam no cais” a ele retornarão. Está, em uma palavra, confiante.

O poema declamado não ficou esquecido numa gaveta, junto a fotos antigas, bilhetes que nunca encontraram destino e cadernos dos tempos de colégio. Considerou seu autor que mereciam a recompensa suprema da permanência: afinal, só importa aquilo que permanece, e permanece aquilo que importa.  Juntou-o a outros escritos da mesma época num só volume e deu-lhe singelo e revelador titulo: “Poemas escritos na primeira juventude”.

Ali encontramos o frescor, a vontade de enfrentar o novo, a celebração da vida tudo o que se pode esperar da primeira juventude. Mais do que tudo isso, entretanto, encontramos confiança: confiança do jovem no futuro, no sucesso, em si mesmo, no que é e no que poderá ser. Ousamos dize-lo: se há uma palavra que transparece na leitura deste poema – e usar apenas uma palavra para resumir Eliot é, no mínimo , ousadia – , esta palavra é “confiança”.

O tempo passou. Eliot já não está entre nós. Suas palavras, no entanto, permanecem vivas: afinal, só importa o que permanece, e permanece o que importa. Tal como ele e seus colegas, portamo-nos de pé “junto à praia que todos conhecemos”, à espera da “senda lenta e tortuosa”. E se nos é permitido pensar, em mais um arroubo de extrema ousadia – pois é, repetimos, momento de sermos ousados – , que podemos ter algo em comum com o autor deste poema, que seja num só aspecto de sua genial personalidade: o da confiança. É assim que desejamos portar-nos agora: confiantes no caminho que vamos percorrer.

A confiança nos será uma companheira valiosa. Se caminho aberto diante de Eliot se avizinhava lento e tortuoso, não o será menos o nosso. Ousemos novamente – pois, mais uma vez, é momento de sermos ousados – e digamos logo: nossa senda é ainda mais tortuosa e mais difícil do que a dele. Eliot e seus colegas vislumbravam o mundo pronto que diante deles se abria, o mundo com suas cores, sons, silêncios, fúrias, alegrias tristezas, vibrações – um mundo para ser visto, saboreado, conhecido, contemplado com olhos de menino admirado e assustado ante o novo. Diante de nós abre-se outro caminho: o mundo que encontramos não está aí apenas para ser contemplado com os olhos de meninos assustados. Já não estamos na primeira juventude. Não, o mundo que encontramos agora nos impõe uma tarefa – uma missão. Recebemo-la desde o momento em que entramos pela primeira vez no portão da faculdade como alunos de Direito. Ali, começamos a nos preparar para este momento de partida para o mundo – e foi um longo preparo.

Começamos investigando os fundamentos da ciência jurídica, do Estado e da Constituição, a fim de assentarmos a base sobre a qual erguer-se-ia o monumental edifício; depois, empreendemos o estudo da sociologia, do Direito Civil e dos Direitos Fundamentais, diretrizes-mestras para os homens viverem em harmonia: até este momento somos primeiranistas e o Direito se nos parece uma lindíssima discussão entre alguns dos maiores nomes do pensamento humano; a seguir, como que para coroar nossa entrada no mundo mais duro dos adultos, vemos os contratos e as obrigações – o que só é facultado aos adultos – e os primeiros passos de processo civil. Assim seguimos no estudo das relações familiares, que é coisa de adultos mas exige que entendamos um pouco aqueles que ainda não são adultos; entra o terceiro ano de faculdade e adentramos com força nos domínios da propriedade, do capital e do trabalho: estudamos a empresa, os títulos de crédito, o direito das coisas  e o direito trabalhista. No quarto ano, já somos suficientemente grandes para confrontarmos o Direito Penal e descermos aos subterrâneos da espécie humana guiados por nossos professores, como Dante guiado por Virgílio pelos subterrâneos do mundo. No último e derradeiro ano somos levados para o alto, para longe destas profundezas – estudamos as impessoalidades do Direito Administrativo, do Direito Econômico, do Direito Tributário, Societário e Internacional. Nestas alturas terminamos nossos anos de formação – tudo mediado e facilitado pela amizade e pela convivência com os colegas que se tornaram nossos amigos nestes anos todos. Antes, falávamos por nós e agíamos por nós. Hoje, falamos por nós e por todos aqueles que desde a aurora dos tempos ajudaram a fazer do Direito não apenas uma ciência mas uma realidade concreta, e do estudante de Direito e do jurista promotores desta ciência e desta realidade. É esta régua pela qual seremos medidos daqui para frente. Nada mais, nada menos.

Ser medido por esta régua é difícil. É difícil também mantermo-nos dentro de seus limites. O mar que se nos abre à frente é cheio de perigos. Suas águas revoltas não perdoarão marinheiros mal preparados e navios mal construídos, e sua imensidão guarda terras ignotas, perigosas e viciadas. Camões parecia saber disto ao exortar seus compatriotas a dilatar a fé e o Império em sua obra maior, “Os Lusíadas”: também nós, a cada metro que vencermos em alto mar, estaremos dilatando o Império do qual nos fizemos súditos e da fé em que fomos batizados durante nestes anos de formação: a fé na Justiça e o Império da lei.

É claro que esta empresa não se conseguirá  por espasmos de grandiosidade, e não fincará solo pelas simples palavras. Serão os nossos atos cotidianos, pacientes, aparentemente simples que levarão a termo a tarefa que recebemos. As vicissitudes da vida nos levarão para trajetórias diversas. Se hoje, aqui sentados, estamos um ao lado do outro, sabemos no fundo que, no futuro, não será mais assim: sabemos, no fundo, que chegará o momento em que, perdidos em alto mar, cercados de perigos, olharemos para o lado e não mais veremos a face amiga de nossos companheiros de fé. Chegará, sim, o momento em que nos sentiremos solitários em alto mar. Pareceremos então sozinhos, desconectados um do outro. Apenas pareceremos. Estar junto nada mais é do crer nas mesmas coisas. E nós, daqui para diante, se agirmos conforme a fé que recebemos e dilatarmos o Império que habitamos, mesmo que não vejamos uns aos outros, estaremos juntos para sempre. Mas é preciso que, contra vento e maré, dilatemos a fé e o Império.

Eis a missão que nos é dada hoje, nesta noite.

É então chegada a hora da partida. Da praia que todos conhecemos avistamos o mar revolto que iremos enfrentar. Estamos munidos da graça concedida, da fé que professamos, do aprendizado que recebemos, do estandarte do Direito a ser carregado por onde estivermos e fincado onde ele não imperar. Já é ousadia suficiente. Mas o momento, repetimos, é dos ousados. E por isso, ousamos pela terceira vez. E ousamos agora fazer um pedido – um longo pedido Àquele que, acreditamos – ao menos aqueles que acreditam – , será capaz de atendê-lo. Pedimos que a travessia que fizermos, conquanto longa, seja repleta de todo o melhor que uma travessia pode trazer; que ela sirva para pôr em prática o que aprendemos, e para que aprendamos ainda mais; que o passar do tempo não nos transforme no futuro em simples ex-colegas de faculdade; que as tempestades que enfrentarmos não nos impeçam, e que as dificuldades não nos endureçam – que permaneça entre nós um pouco deste nosso olhar de meninos assustados e admirados diante da vida, um pouco do que nos resta da primeira juventude; e que, ao reunirmo-nos de novo nesta praia, restem apenas as melhores lembranças da longa travessia. E que nunca, nunca, deixemos de confiar – no que aprendemos nestes anos de formação, no que aprenderemos no caminho que escolhermos e, principalmente, e ao fim de tudo, no que somos. Pois só o que importa é o que permanece e só permanece o que importa.

Muito obrigado.

janeiro 26, 2012 Posted by | Geral | 6 Comentários

Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista

Entrevista: Astier Basílio, poeta e jornalista

“Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar”

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Astier Basilio é um homem dedicado à palavra. Poeta, filho de repentista, pode, como poucos, entoar o que escreveu José Hernandez em “Martin Fierro”  sem soar falso: Cantando me he de morir/ cantando me han de enterrar / y cantando he de llegar / al pie del Eterno Padre / Dende el vientre de mi madre / vine a este mundo a cantar. Jornalista há quase duas décadas, contista há mais ou menos o mesmo tempo, nunca trabalhou até hoje em nada que não estivesse direta ou indiretamente ligado às letras. Com 9 livros publicados e preparando mais um, nada indica que as coisas irão mudar. Nesta entrevista –  conduzida, numa curiosa coincidência, no dia 20 de outubro, o dia do poeta – o tema não pode ser outro que não a palavra, seja na forma da poesia, da música, do romance, seja a dos outros, seja a sua própria. A palavra que, como disse Georg Steiner, está em crise.

 

A poesia te acompanha desde quando?

Astier Basilio: Olha, sou filho de repentista. Meu pai e meu tio não só improvisavam ao som da viola, como escreviam folhetos de cordel. A poesia chegou pra mim pela vertente popular. Eu sabia que minha vida estaria ligada a isso. Então, comecei a escrever aos 14 anos. E como a poesia popular era, e é, muito ligada à métrica, à rima, comecei a escrever muito atrelado às escolas tradicionais como o simbolismo, o parnasianismo e o romantismo. Aos 14, publiquei meu primeiro poema; aos 18, meu primeiro livro.

 

Não posso deixar de lembrar do velho Gerardo Mello Mourão, que dizia ser o repentista o aedo do sertão, no sentido de captar aquele sopro ‘homérico’, que é o sopro da grande poesia popular de todos os lugares. Diante disso, pergunto: acredita na separação radical entre poesia e música?

AB: Eu só sou poeta porque eu não consegui ser cantador. Tive resistências em casa, da minha mãe. Ela queria que eu estudasse. Aos 23 anos, já formado, com alguns livros publicados, comecei a cantar, algo que faço até hoje, mas de maneira amadora e por diversão. De modo que há uma referência muito forte da tradição oral, desde algo mais direto, como o ritmo e a musicalidade, até num via mais complementar, como é o caso da investigação que venho fazendo da rima toante. Mas te respondendo e parafraseando Nietzsche: não acredito em um poema que não saiba cantar.

 

Qual a sua formação acadêmica?

AB: Cursei, ao mesmo tempo, jornalismo e letras. Estudei literatura o tempo todo na minha graduação, mas peguei o diploma de jornalismo.  A base da minha formação veio de Letras, isso do ponto de vista teórico, mas foi o ambiente do curso, com o que há de pior, de politicagem, que me afastou de prosseguir na vida acadêmica… por outro lado, comecei no jornalismo pela opinião. Antes de ir para redação, onde ainda hoje atuo, comecei fazendo crítica literária, então, a minha base em Letras serviu de porta de entrada para o jornalismo

 

Onde trabalhou com crítica literária?

AB: Comecei escrevendo no suplemento Painel, do jornal da paraíba – isso em 2000 – depois, colaborei em quase todos os jornais da Paraíba – A União, no suplemento Idéias, no Correio das Artes, e no Diário da Borborema. Sempre fazendo crítica literária

 

 Fala um pouco disso – fazer crítica literária num país como o Brasil. Onde, depois da morte de Wilson Martins, fica difícil encontrar – ao menos na chamada “grande imprensa” – um verdadeiro crítico.

AB: É algo que te coloca no mundo literário, sem dúvidas. Estabelece uma ligação com quem está produzindo no país todo e, o que é muito importante, cumpre um papel social, público, de apresentação da literatura contemporânea. Há uma espécie de fraternidade secreta, sobretudo, entre os poetas e os que escrevem sobre. Uma brigada de resistência. Poetas não ganham dinheiro com seus livros. Então, é algo maior que conecta todas estas vozes. Há muita beleza nisso. Creio que, o lugar da crítica fica quase como uma militância exercida pela própria poesia: a de continuar, a de resistir num mundo que tem banido cada vez mais a reflexão

 

Nesse sentido, tu acreditas na crise da palavra, de que nos fala o George Steiner?

 AB: Não só a palavra, mas tudo está em crise, em crise permanente. Hoje, na redação, curiosamente, uma colega me leu, em um site, a notícia de um pastor que proclama o fim do mundo para esta próxima sexta. Conjecturei que, de alguma forma, desde o Éden se prenuncia esse fim. Como na verdade veio. O mundo do paraíso acabou. O mundo pós paraíso também, com o dilúvio. Enfim, a todo instante o mundo está começando e a acabando.

 

E a poesia ajuda nesse processo de refundação, por assim dizer? É um dos papéis dela?

AB: Acredito que sim. Haver poesia no mundo desentorta a crueldade que está no ar. Ainda hoje, alguém se colocar no mundo como poeta – isso do ponto de vista sociológico, vou nem falar estético, por aí é outro discurso, é um milagre.

 

Entendo. Mas também á uma responsabilidade, não é? Para apresentar-se como poeta é preciso sê-lo de fato. Isso não ajuda a restringir o uso da palavra “poeta’ para definir a atividade pública de alguém?

AB: Eu vejo a coisa até do modo mais simples. Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda. Não sei se temos, já impregnado, a noção hierárquica de Pound, em sua classificação de ‘inventor’, ‘mestre’, ‘diluidor’… Temos uma certa aristocracia, uma postura elitista – que eu acho importante do ponto de vista estético.  Sim, há poetas e poetas, uns melhores ue os outros. Mas o contexto a que me refiro é o contexto de inserção do ser poeta dentro uma sociedade, acredito que, aí, o parâmetro é outro

 

Só queria umas palavras a mais acerca disso – “Até um poeta ruim, fraco, fajuto, é importante, nessa conjuntura toda”

AB: Num mundo hoje em que jovens estão se acabando em drogas, sem perspectiva de vida, numa sociedade cada vez mais brutalizada e tal, alguém que diante do mundo se afirme como poeta, mesmo que escreva ruim, mesmo que seja alguém que esteticamente esteja bem aquém do que a linguagem poética conquista, esse alguém, no lugar em que ele estiver, na circunstância em que ele estiver agindo, vai ser um agente poderoso. Neste sentido, eu que acredito na aristocracia da estética, na hierarquização, mesmo subordinada e assentada em valores muito subjetivos, mesmo assim, eu não tenho a postura excludente e negativa em relação a quem se diz poeta no mundo de hoje. É sob este olhar que eu celebro a poesia, mesmo a ruim. Aliás, poetas ruins, poemas ruins, são regra, a poesia poesia é sempre exceção. Mas não só com a poesia funciona isso, com a arte de um modo geral. A boa peça, a boa música, o bom romance, são figuras de exceção numa horizonte de mediocridade. Os medíocres venceram. Eles são muito mais competentes do que quaisquer outros. Não só venceram como se adaptam bem em qualquer lugar. Mas o tempo é o mais cruel dos críticos. Por mais que os medíocres se deem bem, o esquecimento é algo que lhes espera.

 

Nesse sentido, a pergunta se impõe: o Brasil é um lugar onde o medíocre se adapta melhor? Ou a nossa mediocridade não é melhor nem pior do que a mediocridade alheia?

AB: Tenho pra mim que a mediocridade é universal. Salieri sempre vai ser o músico oficial da coorte. É difícil dar uma visada tão ampla, mas me lembro de uma entrevista que li há muito tempo, ainda havia guerra fria, em que um escritor, talvez o márcio souza, questionou a qualidade literária do presidente da associação dos escritores da União Soviética, então, o russo devolveu de modo cruel: “e aí no Brasil? CArlos Drummond dirige a UBE?” – então, por outro lado, os Carlos Drummond vão estar sempre compromissados com algo que vai além do temporal, as coisas do agora, ficam com os medíocres. Mas, por outro lado, e eu vejo isso mais em ficção do que em poesia, é possível se fazer muito barulho, muito festa em torno de autores com qualidade muito limitada, mas, de certa forma, tem de se ver a época em que estes autores estão escrevendo, não é? Veja, no cinema por exemplo, um cara como um Tarantino, que é considerado, e é, um grande cineasta, se tivesse nascido nos anos 60, morreria de fome… Já imaginou, no mesmo ano você ter obras-primas de caras como Godard, Bergman, Fellini… então, depende muito do contexto e do tempo histórico que a gente está falando

 

Quais poetas brasileiros vivos destacarias?

AB: Há autores que têm uma ligação com a tradição da lírica ocidental que eu destacaria: Ivan Junqueira, Alexei Bueno, Antonio Carlos Secchin, Marco Lucchesi,  isso sem falar em Ferreira Gullar, Adélia Prado, apesar das repetições, Manoel de Barros. gosto também da poesia dos grandes autores nordestinos, de Alberto da Cunha Melo, único falecido que eu acrescentaria à lista, além de Nauro Machado, José Chagas, no Maranhão, Francisco Carvalho, Sânzio Azevedo, os irmãos Virgílio Maia e Luciano Maia

 

Vários destes nomes que tu citaste são relativamente mais jovens, como Alexei Bueno e Marco Lucchesi, e devotos da tradição. Não são os únicos. Dá para dizer que existe uma corrente de poetas brasileiros na casa dos 40 anos que defende esse retorno?

AB: Acredito que sim. Mas, veja só, mesmo Haroldo de Campos, atendo-se aos últimos trabalhos dele, como “crisantempo” e “a máquina do mundo repensada” esse retorno se efetiva e mesmo Augusto de Campos também experimenta o verso, as potencialidades dele. Agora, Deus criou o mundo, o diabo as cercas… então, há uma série de contingenciamentos, de demarcações e isso em poesia é muito evidente que criam facções, estabelecem dissensões, o que não me interessa por completo. Mas, respondendo objetivamente, há, sim, autores experimentando as potencialidades e todo o arsenal técnico da tradição. João Cabral é o melhor exemplo ocorre que ele, como Machado, foi sequestrado – Machado pela esquerda universitária João Cabral pelos concretos, mas, tanto um como o outro estão para além disso e dos grupos que os prenderam para si.

 

Acha que isso acontece com outros autores?

AB: Sim. Guimarães Rosa, Glauber rocha, conseguem ser o herói de tribos rivais, o que é prova de gênio. Nestes casos, há superfície e profundidade, e em geral, uns ficam em uma parte da obra. Faz tempo que sai da academia, mas era a impressão que eu tinha. Acredito que é mais visível com machado. Da mesma forma como o embranqueceram no começo do século, agora, puseram-lhe a camisa do ‘Che’ o punho erguido e o slogan: “a luta continua”. Se o velho Bruxo pudesse ver isso, estaria a mangar do periferia do seu cinismo.

 

Apesar desses nomes todos, Não temos vivos um Drummond, um Bandeira, um Cabral de Melo Neto, certo?

AB: Não, não temos

 

E já tivemos. Os três, vivos. Nos anos 50, 60.

AB: E nem no romance, não temos ninguém como Guimarães Rosa, José Lins, Jorge Amado

 

Sim, nem esses no romance. Eu não saberia dizer que é o grande romancista brasileiro hoje.

AB: Há duas grandes expressões da prosa: Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que há décadas escrevem o mesmo livro – o mesmo bom livro, mas o mesmo livro. E o Milton Hatoum é bom-moço demais para mim.

 

Entao, estamos autorizados a falar em queda de qualidade?

AB: Olha, eu não iria a tanto. Há, potencialmente, escritores muito bons que eu acredito ainda renderão o seu melhor. Penso em Michel Laub, Marçal Aquino, Ronaldo Correia de Brito, Diter Stein, Ricardo Lísias,  há um potencial. Agora, acho que não sei se vamos reviver um fênomeno como o romance de 30, por exemplo. por que nós falamos do romance de 30 com os olhos de hoje, não com os daquela época. mas houve uma série de autores menores que disputavam espaço e que apostavam a permanência deles. gente que sumiu na poeria do tempo. eu sempre me recuso a olhar o passado com candura, e, de algum modo, por mais que eu reconheça as precariedades do nosso tempo, não me sinto à vontade com esse discurso não. é preciso tempo, formar-se uma espécie de caldo cultural.

 

E quanto à poesia popular? Acha que um poeta deve aproximar-se dela, pelo menos como forma de conhecimento das variantes da linguagem poética?

AB: É difícil para mim dar esse tipo de depoimento porque eu não consigo me ver como alguém de fora. eu sempre pertenci a este mundo. Mas acho que, na medida em que for verdadeiro para o poeta, para sua história, sim. Pra mim, como tu disseste, ela foi um grande ensinamento. Tive a sorte, a felicidade, de me encontrar com ela, de em muitos momentos da minha vida ter a poesia popular muito próximo, mas acho que, de uma maneira ou de outra, a poesia tem de se sujar de vida. De verdade. Eu vejo muitos poemas por aí que fedem a limpo, a laboratório. Parecem sem sangue, sem carne, sem história. Acredito na poesia que tenha, sim, uma expressão de experiência. A gente cita muito o verso de cecília “poesia é grito, mas grito transfigurado”.olhando muito pro “transfigurado”. Mas não dá pra esquecer q poesia é, sim, primeiramente, grito. E a expressão desse grito tem de ser muito peculiar, muito particular. Ah, nisso, acredito que sim, há um universo muito rico de possibilidades. E penso, sobretudo, em grandes expressões da literatura no mundo que se valeram do repositório popular como Shakespeare, Lorca, etc

janeiro 24, 2012 Posted by | Entrevistas | 1 comentário

Recife frio

Excelente curta dirigido por Kleber Mendonça Filho.

dezembro 30, 2011 Posted by | Cinema | Deixe um comentário

A Jornada dos Magos

Basílica de Sant’Apollinare Nuovo, Ravenna, Itália

T.S. Eliot escreveu “A Jornada dos Magos” em 1927, para uma série de cartões ilustrados da editora Faber and Gwyer (atual Faber and Faber) intitulada “Poemas de Ariel”. Escreveu-o pouco depois de ter se convertido ao cristianismo, a portas fechadas e sem alarde, para, dizem, não ferir as suscetibilidades do meio literário. A conversão acabou com seu casamento e trouxe-lhe a pecha de poeta cristão, altamente negativa em certos círculos: deixou-nos, no entanto, esta página e muitas outras: escrito sob o ponto de vista de um dos três Reis Magos a testemunhar o nascimento de Jesus, “A Jornada dos Magos” é, até certo ponto, testemunha do momento vivido pelo próprio Eliot – momento que, creio, é o mesmo para todos os convertidos.

Aqui está uma leitura do poema feita por Eliot, precedida de uma breve explicação.

A tradução é de Ivan Junqueira.

 

*                  *                    *                        *                    *                    *                      *                   *

 

“Foi um frio que nos colheu

Na pior quadra do ano

Para uma viagem, e longa era a viagem:

Os caminhos enlameados e o tempo adverso

Em pleno coração de inverno.”

E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,

Jaziam em meio à neve derretida.

Foram momentos em que recordamos

Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,

As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.

E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam

E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.

E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,

As cidades hostis, as vilas inóspitas,

As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.

Foi uma rude quadra para nós.

Ao fim preferimos viajar à noite

Dormindo entre uma e outra vigília,

Com vozes que cantavam em nossos ouvidos, dizendo

Que aquilo tudo era uma loucura.

E eis alcançamos pela aurora um vale ameno,

Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,

Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,

E três árvores recortadas contra o céu baixo,

E um velho cavalo branco a galope pelo prado.

E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;

Seis mãos se viam pela porta entreaberta

A disputar peças de prata com seus dados,

E pés que golpeavam os odres já vazios

Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos

Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,

E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.

Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,

E outra vez o farei, mas considerai

Isto considerai

Isto: percorremos toda aquela estrada

Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,

Tinhamos prova, não resta dúvida: um nascimento e morte contemplei,

Mas os pensara diferentes; tal nascimento era, para nós,

Amarga e áspera agonia, como a Morte, a nossa morte.

Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,

Porém aqui não mais à vontade, de acordo com a antiga ordem divina,

Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.

Uma outra morte me será bem vinda.

dezembro 24, 2011 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Le Théâtre du Soleil em Canoas -Inesquecível

Não faz  muito tempo, assistia distraída à programação da televisão quando uma espécie de documentário me chamou atenção, me fez parar de apertar os botões do controle remoto. Relatava as experiências de um grupo de teatro francês e mostrava o local onde estava se instalou, qual seja o Bosque de Vincennes, na Cartoucherie – antiga fábrica de munição perto de Paris. Fiquei assistindo encantada ao relato do grupo e, ao final, o programa mostrou os artistas embarcando em uma van rumo ao aeroporto para viajar para o Brasil.  Lembro-me de ter ficado com uma pontinha de inveja, eis que imaginava que as apresentações seriam apenas no Rio ou São Paulo.

Quando ouvi a notícia de que o Théâtre du Soleil iria se apresentar em Canoas fiquei surpresa. Afinal, anos de baixa auto estima deixam sequelas. Imagina, Canoas receber um espetáculo desse nível. Com uma nova mentalidade, uma nova forma de encarar a cidade e seus habitantes, Canoas recebeu o Théâtre du Soleil e foi um sucesso.

Hoje à noite, Miss LouLou e eu, de posse dos dois preciosos ingressos conseguidos de última hora nos dirigimos ao Parque Eduardo Gomes para assistir ao que seria um inesquecível espetáculo teatral. E saímos dali quase quatro horas depois, com uma incrível vontade de assistir novamente aos Naúfragos do Louca Esperança. E ficaremos esperando ansiosamente pelo retorno do maravilhoso  Théâtre du Soleil.

O espetáculo é diferente de tudo o que se pode imaginar. É impossível descrevê-lo em palavras. Engana-se quem pensa que os vídeos postados no youtube são capazes de refletir a magia vivenciada por quem o assiste ao vivo. Não traduzem sequer uma pálida parte do que significa a experiência. Todos sobre o palco são, ao mesmo tempo, atores, assistentes de palco, iluminadores, músicos, acrobatas, em suma: multifuncionais. A neve provém de uma imensa peneira, erguida por dos cabos de aço e balançada quando a cena do filme produzido por Jean, um dos personagens principais, exige efeitos de tempestade. O vento é proporcionado por um ventilador, manuseado por um dos atores da peça, e seu efeito é potencializado por fios presos às vestimentas dos personagens e puxados, em ritmo de vento, por outros atores. A música, a iluminação, a legenda (em português) projetada sobre o cenário, tudo tecnicamente perfeito. Inexiste improviso. Cada parte, cada cena, mostra-se meticulosamente ensaiada, com sincronia perfeita entre as frases proferidas em francês e as legendas, em português, projetadas sobre o cenário.

Todavia, a técnica não se sobrepõe à magia. Por mais absolutamente ensaiado e sem nenhum reparo, “Os Náufragos do Boa Esperança”, ainda assim, consegue se destacar, principalmente, por seu despojamento, pela sensação de liberdade e magia que proporciona ao espectador. Definitivamente inesquecível.

 Atores se preparando à vista do público

Personagem parado na entrada do publico parecendo um recepcionista.Sensacional

Inesquecíveis personagens

Ariane Mnouchkine entre os atores recebendo o reconhecimento do público

dezembro 12, 2011 Posted by | Arte | Deixe um comentário

Natal na praça

Chegamos para assistir as apresentações programadas para abertura do Natal da Transformação em Canoas/RS quando a primeira atração começava seu número nas escadarias do Paço Municipal. Os Trovadores do Natal, do Grupo teatral de Pernas pro Ar, proporcionaram momentos alegres e divertidos para os que estavam na praça em frente ao prédio da prefeitura.

Na Ipiranga foi montado o palco principal e foi ali que ocorreram as apresentações seguintes, iniciando com a Orquestra de Câmara Teatro São Pedro juntamente com o Coral de Canoas, Coro Porto Alegre e a soprano Gabriela Di Laccio.  Belos momentos.

Assistir Kleiton e Kledir é sinônimo de diversão e alegria. Para mim, ouvir a dupla cantar Vento Negro me faz voltar no tempo nos idos de minha  adolescência, passada no Colégio Maria Auxiliadora, quando era considerado perigoso cantá-la.  Mas cantávamos e cantei ontem.  Logicamente, “Deu pra Ti” foi pedida e cantada em uníssono, bem como Vento Negro e “Vira Virou”, esta com a participação especial do Coral das Artesãs.

O ambiente estava perfeito, o que se percebia nas expressões das pessoas em nossa volta. Aliás, maravilhoso reencontrar pessoas amigas e queridas que a vida atribulada da Canoas frenética não nos permite ver com frequência, mas são reafirmação de que quando os laços são verdadeiros tempo e distância não são capazes de os romper.  Bom humor e gentileza que inclusive permitiram que quando um de nossos integrantes sentiu dificuldade em permanecer de pé,face problema no joelho, fosse prontamente acolhido dentro do prédio da prefeitura por uma solícita  vigilante que, certamente, foi contagiada pelo espírito natalino. E lá ficou ele bem instalado em uma das poltronas do saguão, enquanto assistíamos ao restante do show.

O prefeito Jairo Jorge subiu ao palco confessando que sempre gostou do Natal e sempre quis ser prefeito de Canoas e, por isso, sentia especial prazer naquele momento. Homenageou os trabalhadores  do Natal da Transformação, anunciou a chegada do Papai Noel e…acenderam-se as luzes ao som de Noite Feliz. Lindo ver a praça iluminada, bem como a XV de Janeiro e o prédio da prefeitura.

Voltei para casa feliz como é característico de quando se vivencia bons momentos . E pretendo, munida de minha câmera, sair hoje à noite para fotografar as luzes que enfeitam o Natal de Canoas.

Praça em frente ao Paço Municipal

Créditos: Ireno Jardim

PS: fotografamos e filmamos como se pode constatar abaixo.

 Praça do Avião

Créditos: Blog Perspectiva

Praça da Emancipação

dezembro 6, 2011 Posted by | Geral | 2 Comentários

PPS propõe implantação de um sistema transporte fluvial em Canoas.

O PPS Canoas propôs ao prefeito Jairo Jorge a implantação de um sistema de transporte fluvial em Canoas.

Leia abaixo a proposição

Transporte Fluvial

novembro 23, 2011 Posted by | Sem categoria | Deixe um comentário

Bo Diddley

.

novembro 11, 2011 Posted by | Música | Deixe um comentário

Читать не вредно. Вредно не читать ou Ler não é ruim. Ruim é não ler

 

 

A editora russa   EKSMO realizou um concurso sob o título Ler não é ruim. Ruim é não ler. O vencedor foi o trabalho Читать не вредно de Anastasia Gorbunova.

novembro 10, 2011 Posted by | Arte, Literatura, Livros | Deixe um comentário

Narração imparcial de Grêmio 4 x 2 Flamengo

outubro 31, 2011 Posted by | Esportes | Deixe um comentário

O melhor jogador dos últimos 20 anos

Aproveitando o ensejo do momento, que confirma e sustenta a nossa escolha, o Blog Perspectiva gostaria de homenagear o maior jogador de futebol dos últimos 20 anos – ao lado de Zidane e Romário, mas merecedor de menção especial por ter brilhado em clubes muito pequenos e ter jogado numa seleção muito menos prestigiada.

Levou o pequeno Steaua Bucaresti, da paupérrima Romênia,  a ser campeão europeu em 1986, semifinalista em 1987 e vice campeão em 1988, numa era dominada por clubes como Milan, Juventus e outros do mesmo calibre. Pelo Galatasaray, anos depois, foi campeão da Copa da UEFA, levando o clube turco ao seu primeiro grande título.

Dele disse Luis Fernandez, ex-jogador francês: “Hagi é como o vinho, fica melhor a cada ano que passa”.

Provavelmente por isso retirou-se em 2001, aos 36 anos: percebendo que ficaria demasiadamente acima de seus adversários, achou a comparação injusta e deixou o futebol moderno para aqueles que o merecem.

outubro 30, 2011 Posted by | Esportes | 2 Comentários

A Igrejinha de São Damiao

De cada riso e dor
De cada espinho e flor
Construo a casa do meu senhor
Com o que o mundo abandonou
De cada pedra do chão
Construo o templo do coração
A cada dia que vem
A cada dia que vai
Ergo em mim a casa de meu Pai

Site oficial

outubro 30, 2011 Posted by | Música | 1 comentário

Zona Azul em Canoas

A escassez de  vagas para estacionamento no centro de Canoas fazia com que um grande número de canoenses somente comparecessem ao local quando estritamente obrigados. Este era o meu caso: somente ia ao centro quando não era possível deixar de fazê-lo. Preferia fazer compras em   Porto Alegre quando os estabelecimentos do Shopping não satisfaziam minhas necessidades.  O centro de Canoas era uma alternativa utilizada apenas em casos específicos e nessas situações me sujeitava a pagar estacionamento em torno de R$ 4,00 por hora.

Os primeiros dias de funcionamento da Zona Azul já mostram um perfil diferente das vagas de estacionamento no centro da cidade. Os lugares vagos deixam claro que é muito melhor pagar R$2,50 por duas horas e encontrar vagas do  que sujeitar-se aos R$4,00 por hora cobrados por locais destinados a estacionamento, nem sempre perto de onde pretendemos ir. Sempre lembrando que invariavelmente se circulava em torno das ruas centrais procurando vagas antes de sujeitar-se aos estacionamentos lotados e mal projetados. Gasto de tempo e gasolina.

Gostei do sistema implantado em Canoas.Democratizou o espaço e contribui para que o centro volte a ser para todos canoenses.

Informações sobre a Zona Azul

outubro 28, 2011 Posted by | Geral | 8 Comentários

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

Entrevista: Cleusa Graebin, historiadora

 

Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença”.

 

Por Celso Augusto Uequed Pitol

Quase todo lassalista que completou o Ensino Médio (então segundo grau) durante os anos 90 teve aulas ou ao menos ouviu falar da professora Cleusa Graebin. Para o aluno que estava se formando e preparando-se para a batalha do vestibular, a figura da professora Cleusa, com sua reconhecida qualificação, sua atuação acadêmica e sua rica titulação (iniciava o doutorado no ano em que eu saí) era inspiradora para quem,como nós, encaminhava-se  para o Ensino Superior.

Afastada do Ensino Médio, hoje ela concentra suas forças na graduação e no mestrado em história do Unilasalle, onde desenvolve pesquisas e orientações na área de Memória e Identidade.

 

O Timoneiro: Como e quando surgiu a opção de fazer uma carreira em História?

Cleusa Graebin: Foi uma opção que fiz já aos 9 anos. Sempre fui apaixonada por História. Em criança, fui uma leitora assídua da Bíblia e até hoje sou, até mesmo pela minha ligação religiosa (sou evangélica e congrego na Igreja do Mover) . A historia de Israel me emocionava muito. Depois tive contato com o Julio Verne, um autor maravilhoso, do qual li tudo  e que me ajudou muito na minha formação como leitora. . Na escola onde estudei,em Rio Grande, no Colégio Estadual Lemos Junior, nós éramos muito incentivados à leitura. Eu praticamente me alimentava de livros e continuava sendo uma leitora compulsiva. A minha carreira foi se delineando dessa forma. Quando pensei em fazer um curso superior, com 17 anos, só podia pensar em História e tinha planos de estudar História Antiga. Comecei o curso na FURG, na minha cidade natal ,Rio Grande, e, com a nossa vinda para Canoas, acabei noLa Salle. Aqui fiz uma especialização em Metodologia do Ensino de História e Geografia e, depois, fiz Mestrado e Doutorado em História na Unisinos, sendo o mestrado na área de Estudos Ibero e Latinoamericanos e o doutorado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul.

OT: Como foi essa passagem da História Antiga para a história do Rio Grande do Sul.

CG: Como todo estudante de história, eu tinha aquele fascínio por Grécia, Egito e Roma. No entanto, a orientação que eu tive no Unilasalle era de nos voltarmos para o espaço onde a gente vive, até pela facilidade de fontes e documentos. Aí comecei a me interessar por coisas próximas e uma das oportunidades que eu tive no Unilasalle foi de participar do projeto “Canoas – para lembrar quem somos”, com a profa. Rejane Pena. Ali comecei a minha iniciação na pesquisa. Como resultado, virei uma apaixonada pela História de Canoas e, em 2007, quando a professora se aposentou, passei a coordena-lo.

OT: A idéia é mapear toda a cidade?

CG: Sim, toda a cidade. Já estamos no décimo segundo bairro. É um projeto, essencialmente, de história cultural.

OT: Quando a senhora fez sua graduação, nos anos 80, o curso ainda se chamava Estudos Sociais, com a divisão entre OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica), não?

CG: Sim, ainda tínhamos essa divisão. Só que a minha turma era formada por um pessoal muito combativo e fomos até a direção do CELES (Centro Educacional La Salle de Ensino Superior, embrião da atual Unilasalle) para extinguirmos o curso de Estudos Sociais e promover a criação do curso de História. A ditadura militar incentivou a criação destes cursos  de estudos sociais e fim de substituir os de História, Geografia e Filosofia, que eram onde mais se produzia um pensamento crítico da realidade.  Fizemos um movimento e em 1990 o CELES conseguiu a aprovação no Ministério da Educação para a transformação do curso de Estudos Sociaisem História. Depois de ter feito a especialização e começado o Mestrado na Unisinos, fui fazer essas disciplinas que faltavam para me formarem Historia. Foi uma sensação engraçada, a de estar num momento na graduação, entre meus colegas, e logo depois no mestrado, sendo professora deles (risos). Isso foi em 1996. Existia um certo receio, mas a instituição apostou e continuo até hoje.

OT: Quais disciplinas ministrou?

CG: História da America, em função do próprio mestrado que eu recém havia terminado.

OT: Hoje, filia-se a alguma linha específica de pesquisa?

CG: Filio-me ao campo da História Cultural, da História do Cotidiano e mais recentemente à chamada História das Sensibilidades. Este campo aborda tudo o que tem a ver com os sentimentos dos outros: crenças, religiosidades, cotidiano, representações sociais, dentro do campo da história cultura, tudo o que sensibiliza o ser humano. Um exemplo seria a história das práticas alimentares.

OT: Gilberto Freyre não se encaixaria nesta linha?

CG: Em parte, sim. Tanto ele quanto o Sérgio são grandes nomes da História cultural. Foram muito lidos na Europa, particularmente na França, graças à divulgação que o Braudel e outros que deram aula na USP quando da sua fundação realizaram por lá. Tem um texto do Freyre chamado “Açúcar” que é pura história da sensibilidade, do que se cozinha, do que se pensa quando se cozinha, trabalhando com cartas e festas, tudo para compor a história do sensível. Hoje temos trabalhos acadêmicos na área aqui no Unilasalle, eu e a profa. Nadia Weber que estamos trabalhando nisso. Nós, no mestrado, temos duas linhas de pesquisa, com Memória e Identidade, à qual eu me filio, e Memória e Linguagens Culturais. Além disso, estamos com um grupo de trabalhoem microhistoria. Lançamos ali um desafio aos alunos: estudarem, como detetives, a historia duma mulher de 1821 que apanhou do marido por não querer ir à Festa do Espírito Santo. Apanhou, esfaqueou o marido,  foi condenada e foi para a prisão.   Estamos fazendo um trabalho para irmos em busca desses dados e descobrir o que pudermos sobre eles. O Raul, nosso colega, vai trabalhar nisso também.

OT: Há quem diga que a historia foi a ciência que mais avançou nos últimos dois séculos, tanto por causa do refinamento dos paradigmas metodológicos quando pelas descobertas arqueológicas. Concorda?

CG: Concordo e cada vez mais é assim, porque nós vamos descobrindo outras maneiras de trabalhar fontes. É o caso da micro-historia onde juntamos todas as partes de um quebra cabeça onde podemos conhecer algo de alguém e a partir daí usar como indicio de que algo semelhante possa acontecer. Isso não é generalizar, não é fazer uma história total, que é impossível , não temos condições de fazer isso. É impossível apreender o todo de uma época. É melhor e mais seguro trabalhar numa escala reduzida de observação. Se aquilo lá aconteceu em 1821, o que mais aconteceu? Aconteceu com outras mulheres? Que rupturas isso teve para o tempo presente? Como é a questão da violência? Como isso tem se dado? E mais, além de toda essa contribuição da nova história francesa, a gente tem os estudos do Foucault, que são importantíssimos e que nos levam a pensar de onde vêm os discursos. Como se constrói o discurso sobre determinados personagens? Como se cria esse fato histórico? O Foucault trabalhava com as questões das redes de poder, Os últimos estudos do Foucault trabalham com toda a questão da subjetivação, como eu me construo enquanto sujeito. Que discursos ao longo dos tempos vêm sendo construídos sobre os professores? Como o professor vê a si mesmo? Como esses discursos são criados sobre ele? Isso faz avançar os estudos históricos, ao se tratar criticamente o nosso discurso.

OT: Voltando aos seus anos de formação. Muito se falou que a historiografia brasileira nos anos 80 era muito ligada ao marxismo, que exercia um verdadeiro monopólio teórico nas universidades. É verdade?

CG: Sim, e pior, um marxismo stalinista, partidarizado, com imposição didática de sucessões de modos de produção, que o aproximava de um positivismo ao estilo de Comte. Isso até entende-se como reação à ditadura militar, como resistência, mas a verdade é que deixamos de fazer leituras importantes de autores que não entravam nesse esquema. Até mesmo esquerdistas da nova esquerda inglesa como E.P. Thompson, Eric Hobsbawn, Maurice Dobb e outros, menos ortodoxos, chegaram muito atrasados ao Brasil, dos anos 80, 90 para frente, em virtude desse fechamento metodológico. O problema é que o marxismo entende tudo do ponto de vista da classe. Isso faz com que as minorias se escondam. Não aparece a mulher, o negro, o imigrante, nenhum destes grupos tem voz porque estão todos dentro da classe social.

OT: E não são vozes iguais.

CG: Não são iguais, são muito diferentes. E o que é classe? É um dado a priori, mas não se realiza da mesma forma e o seu conceito desconsidera as imensas diferenças existentes entre a economia de um lugar e de outro. Astecas e maias têm um modo de produção como o asiático, por exemplo? Claro que não.

OT: Fala-se que o brasileiro não tem memória, que o aluno brasileiro não lê e não está interessado nas ciências humanas. Isso é verdade?

CG: Acho que não é verdade. É uma generalização. Nas escolas, a gente vê professores fazendo trabalhos maravilhosos, dando aulas interessantes, convidativas, que despertam e muito interesse do aluno. Agora, se na periferia do meu bairro, Rio Branco, as necessidades básicas dos meus alunos não têm nada a ver com história, não adianta. Se eu não conseguir tornar aquele ensino, aquela aprendizagem, uma coisa significativa para os alunos, não adianta. Eu pergunto: porque o aluno tem que ficar preso na leitura de um livro didático? Isso é um crime, um aprisionamento mental. Eu tenho de partir de aquilo que é interesse do aluno. Hoje em dia,  mesmo aquele aluno que tem poucas condições financeiras tem acesso às redes sociais, à Internet. Então, temos que conhecer o aluno, saber quem ele é e mostrar que o mundo do bairro dele é parte de algo maior. Isso a História é capaz de fazer com o aluno: mostrar que ele pode ser agente de mudança. E também há aquele preconceito que existe sobre os alunos da periferia, de que eles não vão poder evoluir, que não precisam saber de nada, que não vão nunca sair de lá e que, portanto, não precisam saber de nada do que lhes é ensinado. Felizmente, esse tipo de caso não é freqüente. A maioria age de outra forma, felizmente. Mas a minoria pode fazer um belo estrago numa sala de aula. Assim como há pessoas que querem fazer a diferença há aqueles que passaram a faculdade fazendo o mínimo e farão o mínimo como professores.

OT: A senhora parece ainda muito ligada ao aspecto prático da educação…

CG: Sem dúvida. É nosso dever estarmos sempre concatenados com a realidade de sala de aula. Afinal, estamos formando professores.

OT: Agora vem a pergunta que sempre surge quando o assunto é sala de aula: ser professor é vocação?

CG: No meu caso é. Eu gosto de dar aula. Gosto de fazer pesquisa, gosto de transformar, socializar, de formar professores e eu penso que o trabalho dum professor é duma importância muito grande. Olhando hoje para toda a minha trajetória, eu digo que não faria outra coisa. Não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Acho que há, sim,  muito de vocação. É muito bom encontrar alunos e perceber que aqueles que às vezes a gente dizia “Meu Deus, o que eu faço com esse guri” hoje estão em bons trabalhos, com um futuro belo encaminhado. Então ,é vocação. Por isso, eu não sou trabalhadora da educação, não sou operária da educação, eu sou professora, sou educadora. É assim que eu me sinto. Acho que nós, professores de História, podemos ajudar a fazer a diferença.

outubro 21, 2011 Posted by | Ciências Humanas, Entrevistas | 3 Comentários

Oficina de Criação de Textos

Meu amigo Daniel Mello me informa que está ministrando uma Oficina de Criação de Textos. Destinada a  estudantes, profissionais de qualquer ramo de atuação e apreciadores da escrita, a oficina contará com grupos de até seis pessoas, de modo a dar um atendimento individualizado e eficaz para todos os participantes.

Serão quatro encontros, todos às terças-feiras – entre 19h20min e 21h50min- a partir do dia 25/10, exceto dia 15/11 – feriado. Turma aos sábados com início no dia 29/10 – sempre entre 11h e 13h30min, também quatro encontros exceto no dia 12/11 – feriadão.

As aulas serão na sede da GoMarket – Rua General Câmara, 432 – Sala 302 – Porto Alegre/RS.

O valor do curso é de R$ 380,00 para as 10h de aula em grupo e mais 2h de aula individualizada.

Reserva de vagas pelo fone (51) 3224-0046 ou pelo e-mail gomarket@gomarket.com.br.

Mais informações pelo blog do Daniel.

outubro 14, 2011 Posted by | Geral, Home | Deixe um comentário

Dica para Rafinha Bastos

Para quem quer aprender a fazer humor “politicamente incorreto” de verdade.

outubro 12, 2011 Posted by | Mundo pop | Deixe um comentário

Entrevista: Deise Cristina Padilha “A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão”

A Jornada Mundial da Juventude foi realizada em Madrid, Espanha, entre 16 e 21 de agosto deste ano e reuniu em torno de 2 milhões de jovens de 182 paises diferentes. Uma delas foi a arquiteta canoense Deise Cristina Padilha. Participante de movimentos de jovens da Igreja Católica desde os 13 anos, tendo desempenhado a função de catequista na Paróquia São Luiz, em Canoas, Deise faz parte de uma nova geração de jovens católicos caracterizada pela tendência missionária, seguindo o conselho do papa Bento XVI de “ levar a fé a outras terras e países onde há multidões de jovens que aspiram a coisas maiores, vislumbrando nos seus corações a possibilidade de valores mais autênticos, e sem deixar-se seduzir pelas falsas promessas de um estilo de vida sem Deus”. Na entrevista a seguir, Deise falará da sua experiência na Jornada, da relevância deste evento para os católicos do mundo todo e do que a Igreja tem a dizer aos jovens cristãos.

 Em primeiro lugar, Deise, queria que falasses um pouco da tua participação dentro da Igreja Católica. É algo que sempre te acompanhou?

Deise Padilha: Sim, sempre participei com meus pais e desde muito nova tomo parte de grupos de jovens. É algo que sempre fez parte da minha vida.

 Como tu vês a inserção de um jovem que aceita e proclama os valores ligados à Igreja em uma sociedade que, muitas vezes, não está de acordo com eles?

DP: A inserção nem sempre é automática e nem sempre é fácil. Também por isso a Jornada Mundial da Juventude é importante. Tu vês pessoas com valores iguais aos teus e que afirmam esses valores em algo e bom som. Às vezes, as pessoas têm os valores, são cristãs, mas não afirmam, porque parece que estão sozinhas. A partir do momento em que tu vês pessoas que vivem os valores da Igreja e vibra pelas coisas da Igreja e pelo papa tu te sentes, de certa forma, revigorado.

 Isso entra um pouco já na questão dos objetivos que a jornada tem. Fala um pouco deles.

DP: A jornada tinha por tema “Arraigados em Cristo e firmes na Fé , o que , de certa forma, já explica qual é o objetivo dela. Como disse o papa, é trazer um novo ar, uma nova confiança para o jovem cristão atuar no mundo.

 A Jornada Mundial da Juventude não é uma iniciativa nova, não é?

DP: Não. Ela existe desde 1985. Foi iniciativa do papa João Paulo II, que sempre marcou o pontificado dele por uma ligação próxima aos jovens. Inclusive chegaram a pensar que o Bento XVI, quando assumiu, não fosse ter a mesma ligação com a juventude, mas não tem sido assim.

 Quais as principais atividades realizadas na Jornada?

DP: Muitas coisas. Madrid ficou toda preparada para esperar os visitantes, foi uma mobilização muito grande da cidade. Museus, palácio, todas as igrejas, enfim, tudo ficou aberto para receber os jovens da jornada, para visitação e para os peregrinos. Visitei muitas igrejas. Um dos locais que mais me chamaram a atenção foi a festa do perdão, que tinha como objetivo principal chamar os jovens para um reencontro com Deus. Havia confessionários destinados a pessoas em várias línguas, com um sacerdote escolhido para falantes de cada idioma. Tomamos partem em várias atividades,mas era tudo cronometrado também por causa dos encontros com o papa, que eram muito freqüentados e exigiam que sempre chegássemos cedo. Tivemos vários encontros,vários eventos e palestras .

 Qual era a reação dos jovens de outros paises quando tu falavas que eras do Brasil?

DP:Era uma reação muito positiva, inclusive porque a próxima Jornada, em 2013, será aqui,no Rio de Janeiro. Quando eu andava com a bandeira do Brasil sempre havia alguém pedindo para trocarmos as bandeiras. Eram muito simpáticos a nós e havia sempre uma palavra a dizer sobre a alegria dos brasileiros.

A convivência com eles era próxima?

DP: A convivência mais próxima era com brasileiros, mas também tivemos uma grande interação com gente de outros países, conversando, trocando idéias e materiais daqui com eles. Foi muito bom ver a cultura dos outros, a característica de cada um, como todos são diferentes entre si e, ao mesmo tempo, se parecem em tantos aspectos. Os italianos, por exemplo, são bem alegres, estão sempre cantando. Tivemos gente de Israel, Cuba, da China e de vários outros lugares – aliás, no caso de Cuba e China é importante ressaltar que são paises onde as religiões não são bem vistas pelos seus regimes políticos e que, mesmo assim, os representantes desses países fizeram questão de vir. Encontramos uma menina de Cuba e perguntamos se ela viria ao Brasil em 2013 e ela disse que gostaria, mas que precisaria esperar para saber, pois sair do país era muito difícil. Só por aí já dá para termos uma noção de como era grande o empenho de muitos para ir ao evento.

 Mas o contato mais próximo foi com brasileiros?

DP: Sim, foi mais com eles.

 Te parece que a realização no Brasil de um evento desses pode ajudar a revigorar a presença da Igreja nas Sociedade Brasileira?

DP: Acho que sim. Um evento como a Jornada é algo muito impactante. São literalmente milhões de jovens de todo o mundo que escolhem o teu pais para passar uma semana e isso inclui, naturalmente, jovens do próprio país. Essa jornada será também uma oportunidade para jovens brasileiros de todos os cantos do país. Acho que a Igreja terá uma grande oportunidade de expandir-se no Brasil. É impossível não chamar a atenção e não provocar mudanças em quem participa. A Jornada é um grande momento para qualquer jovem cristão.

 Como avalias a experiência?

DP: Maravilhosa. Acho que é uma experiência que vale muito para qualquer jovem.

 A jornada fala de jovens cristãos – não apenas de católicos.

DP: Sim, porque os compromissos de que fala a jornada não dizem respeito apenas aos católicos. Não é algo exclusivista. Os valores que são defendidos ali são os de Cristo e eles servem para todos aqueles que O vêm como Salvador.

 Tiveste algum choque cultural?

DP: Bom, sempre tem coisas que a gente não acha que são tão naturais e que, para eles, são. Eu posso dizer que fui muito bem tratada e a minha relação com o pessoal da organização e com os outros jovens foi sempre muito positiva. O único senão que poderia apontar foram algumas manifestações que vimos contra a jornada em Madrid.

 Tens algum plano de levar a experiência da jornada ao conhecimento de outros jovens?

DP: Sim, pretendo. O nosso objetivo é mostrar um pouco para os jovens o que foi essa jornada para entusiasma-los para a próxima. Ao mesmo tempo, é importante levarmos para os jovens daqui aquilo que vimos por lá em termos de dedicação e espiritualidade. São experiências como a que vimos daquela jovem de Cuba que servem para nós, que não temos essa mesma dificuldade, tomarmos consciência daquilo que os outros fazem para poderem participar. A Jornada também serve para mostrar que o jovem católico não está, por assim dizer, sozinho naquilo que acredita. O convívio com semelhantes, com pessoas com uma maneira de ver as coisas semelhantes à tua, é sempre bom e revigorante. E a jornada mostra jovens alegres, que estudam ou já têm uma profissão, como é o meu caso, gostam de se divertir e aproveitam cada momento da vida. Jovens normais,mas que têm um direcionamento especial para suas vidas, fundado no cristianismo.

setembro 23, 2011 Posted by | Entrevistas | 1 comentário

As dez regras para ser um bom escritor, segundo Jonathan Franzen*

1- The reader is a friend, not an adversary, not a spectator.

2- Fiction that isn’t an author’s personal adventure into the frightening or the unknown isn’t worth writing for anything but money.

3- Never use the word “then” as a ­conjunction – we have “and” for this purpose. Substituting “then” is the lazy or tone-deaf writer’s non-solution to the problem of too many “ands” on the page.

4- Write in the third person unless a ­really distinctive first-person voice ­offers itself irresistibly.

5- When information becomes free and universally accessible, voluminous research for a novel is devalued along with it.

6- The most purely autobiographical ­fiction requires pure invention. Nobody ever wrote a more auto­biographical story than “The Metamorphosis”.

7- You see more sitting still than chasing after.

8- It’s doubtful that anyone with an internet connection at his workplace is writing good fiction (the TIME magazine cover story detailed how Franzen physically disables the Net portal on his writing laptop).

9- Interesting verbs are seldom very interesting.

10- You have to love before you can be relentless.

*Escritor americano, autor de, entre outros, As Correções e Liberdade, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

setembro 23, 2011 Posted by | Literatura | 2 Comentários

Minha querência (Leopoldo Rassier)

Nossa singela lembrança do 20 de setembro.

setembro 19, 2011 Posted by | Geral, Música | 2 Comentários

“Nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição.”

A entrevista foi publicada no jornal canoense O Timoneiro

A entrevista que segue talvez traga alguma surpresa até mesmo àqueles pertencem ao feliz círculo de amigos de Carmo Francisco de Souza. Dentre os vários assuntos nela abordados, está a informação de que um dos maiores nomes do meio tradicionalista desta cidade, presidente da Associação de Entidades Tradicionalistas de Canoas,(ETC) ativo colaborador do MTG, músico e vencedor de mais de 250 troféus, foi, até a entrada na idade adulta, qualquer coisa menos um tradicionalista. Se algum de nós vasculhar os LPs mais antigos de Carmo provavelmente encontrará não discos de música gauchesca, mas sim do melhor rock´n roll dos anos 60 – Beatles, Rolling Stones, Roberto & Erasmo; da mesma forma, se vasculhar as fotos antigas não encontrará um pequeno Carmo pilchado, ou um jovem se preparando para tocar acordeão numa festa típica: encontrará, muito provavelmente, um típico magro cabeludo, com calça boca-de-sino e uma guitarra – elétrica – na mão. Sim, senhores: o jovem Carmo Francisco de Souza estava muito mais para Mick Jagger do que para Teixeirinha. O que não lhe tira nada, apenas lhe acrescenta. E valoriza ainda mais o seu trabalho e a sua atuação, como são mais valorosos aqueles que fazem parte de algo não por atavismo, mas por opção consciente.

Nesta entrevista, este leopoldense nascido em 1950 – “dia 13 de maio, da abolição da escravatura”, faz questão de lembrar – e morador de Canoas há 38 anos, nos conta como se deu essa transformação curiosíssima e, é forçoso dizer, extremamente benéfica para o futuro do tradicionalismo gaúcho em Canoas. Não que o roqueiro Carmo fosse mau. A questão é que, para ser tão bom quanto o Carmo tradicionalista, teria de alcançar o patamar daqueles seus ídolos de juventude. Ttambém nos dá uma verdadeira aula sobre a formação do RS, a importância do tradicionalismo e as peculiaridades que fazem do gaúcho um tipo histórico e cultural único dentre os pertencentes ao Brasil e ao resto das Américas.


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OTimoneiro: O senhor é natural de São Leopoldo. Qual impressão teve de Canoas quando aqui chegou?

Carmo Francisco de Souza: Cheguei em 1972 e a cidade era bem diferente da de hoje. Era muito mais calma. Era vista como uma cidade-dormitório. Ainda havia muitas estâncias aqui, tamos de leite, tinha uma área rural e aos poucos essas áreas foram sendo urbanizadas, loteadas. Tudo isso culminou com o que temos hoje, praticamente uma extensão da metrópole, com quase 400 mil habitantes.

OT: Antes de vir para cá já era interessado pela cultura gaúcha?

CFS: Muito boa pergunta. Esse interesse pela tradição foi despertado em Canoas. Antes não tinha esse interesse. Fui musico profissional dos 17 aos 22 anos, primeiro de igreja e depois roqueiro. Tocava Beatles, Rolling Stones, Roberto e Erasmo, a Jovem Guarda, enfim. Ao chegar a Canoas, influenciado pela minha esposa, eu comecei a me interessar pela cultura gaúcha, pois ela tinha uma ligação com o tradicionalismo. Tanto é que casamos no CTG Brazão Do Rio Grande. Comecei a participar ali. Posteriormente fundei o CCN ( Centro de Cultura Nativista) Nova Raça. Nessa época fundamos também o CTG Cheiro da Terra. Só que aí nós tivemos uma divergência no CCN Nova Raça e fomos para a Sociedade Cultural Beneficente Estância Velha, a sociedade mais antiga de Canoas, fundada em 1953, se não me falha a memória. Ali fundamos o DTG Estância Gaúcha em 1994 (DTG é um Departamento de Tradições Gauchas, porque é dentro de uma sociedade). Naquela época saímos da Sociedade Estância Velha e fundamos o CTG Estância Gaucha, que é o CTG do meu coração. Como sou presidente da ETC, eu cuido de 43 entidades hoje, mas, nessa seqüência da fundação do Estância Gaucha, eu fui vice-coordenador regional dos municípios de São Leopoldo, Sapucaia Esteio Canoas e Nova Santa Rita. No ano seguinte, o então coordenador, João Carlos de Moura, me preparou para que eu assumisse em 1995, em Dom Pedrito, como coordenador regional. Nos dois anos seguintes eu fui presidente da junta fiscal do MTG. Quando eu saí da 12ª. região eu já virei conselheiro e essa função vigora sempre, os ex-coordenadores se tornam conselheiros.

OT: Qual é a função do conselheiro?

CFS: É quando o coordenador regional tem um problema que ele, sozinho, não pode resolver ele convoca o conselho. Nesse período eu continuei praticando a minha tradição. Eu toco violão , sou interprete vocal. Tenho músicas em casa. Nesse período nosso filho Solano dançava muita chula, e nós inclusive participávamos de muitos rodeios, tanto o rodeio artístico quanto campeiro, sempre representando uma entidade daqui de Canoas nos nossos rodeios. Essa atividade durou aproximadamente em torno de 8 anos. Nós, o e o Solano a Vanessa e eu, conquistamos 250 troféus. Esses troféus foram doados para o CTG estância gaucha.

OT: O nome Solano foi dado em homenagem a Solano Lopez (ditador paraguaio)?

CFS: Sim, eu pensei nele. Solano era um grande campeiro, comprei uma égua crioula para ele. E ele foi preparado pelo Toninho Campeiro, conhecido também como Toninho Cabeludo. É uma pessoa a quem eu devo muito e que nos, a nossa família, aprendemos muito na área campeira, a Dina, esposa dele. Depois disso, o que aconteceu? Eu tive um período complicado e de doença e sempre envolvido com a tradição, mas nunca abandonei. A gente às vezes dá um tempo, mas nunca perde o fio. Então eu fui convidado para concorrer a presidente da Associação Entidades Tradicionalistas de Canoas. Fui eleito por uma boa margem de votos. E estamos fazendo esse trabalho de 2009 a 2010. Tivemos um período complicado antes disso, o crédito estava complicado, estamos tratando dessas questões ainda hoje. Na Semana Farroupilha de 2008, por exemplo, foi feito um convenio da diretoria anterior com a prefeitura por 400 mil reais. E no ano passado foi feito um convenio de 42.240 reais, ou seja, menos de 10%. A entidade fez uma negociação com a prefeitura que assumiu uma parceria. Fizemos uma excelente Semana Farroupilha, pois para os tradicionalistas a maior data é o dia 20 de setembro.

OT: E para este ano?

CFS: Esse ano estamos com a seguinte programação: não pretendemos fazer convênio, pretendemos diminuir ainda mais os custos da prefeitura, já nos cadastramos na LIC, a ETC está apta como personalidade jurídica e nós pretendemos fazer, por intermédio da LIC, o Evento Campeiro e a 4ª. Canoa do Canto Nativo. Nesse ano fizemos, atendendo ao pedido do nosso prefeito, estamos tentando movimentar a área artística do parque Eduardo Gomes, não transformá-la num elefante branco. Fizemos uma extensa, vasta programação. Fundamos o restaurante crioulo do parque. A área campeira também está funcionando, toda noite tem alguma entidade fazendo alguma coisa. Estamos levando o pessoal para conhecer a tradição. Tivemos uma coisa fantástica que foi a primeira biblioteca tradicionalista do estado lá no parque municipal Eduardo Gomes, no galpão da ETC. Tem 1030 volumes, sendo 660 sobre tradicionalismo.

OT: A ETC é ligada ao MTG, não é? Qual a força do tradicionalismo em Canoas hoje?

CFS: O Estado é dividido em trinta regiões. Fora Porto Alegre, que é a primeira região, Canoas é, com muito respeito às demais regiões, a segunda colocada. A Semana Farroupilha de Canoas, por exemplo, fora Porto Alegre, é a maior da região. Ano passado circularam na semana farroupilha 120 mil pessoas. Tivemos baile com 8 mil pessoas, não houve condição de dançar.

OT: Isso não teria a ver com o fato de que Canoas tenha uma grande população oriunda da Fronteira Oeste, da Campanha e de outras regiões de cultura gaúcha mais tradicional?

CFS: Ajuda, com certeza. Eu tenho conhecidos de Dom Pedrito, Santana do Livraimento, Uruguaiana…..e tenho um que eu nunca vi sem pilcha. Ele anda pilchado em todos os lugares. Vai ao banco, à farmácia pratica o tradicionalismo e sempre pilchado. Ele é de Uruguaiana. E isso é comum naquela região. A pessoa entra em lojas e os vendedores usam a bombacha.

OT: O MTG tem um trabalho de pesquisa da história das tradições, definindo o que é tradição e o que não é. E existe o nativismo. Qual é a diferença entre tadicionalismo e nativismo?

CFS: O tradicionalismo como a palavra diz, está ligado à tradição. São as coisas que o homem do campo trouxe para a cidade. O nativismo é a coisa mais já aqui da cidade e tem outras influencias. Teixeirinha seria tradicionalista e C. Passarinho seria nativista. As letras são diferentes. Eles usam outro linguajar. Junto com o nativismo veio o Tche Music. Criaram um movimento e  tentaram inserir a música do nordeste na nossa musica. Mas muitos grupos populares são tradicionalistas. Cito dois tipos: Monarcas e Serranos. São tradicionalistas. Edson Dutra é uma figura espetacular. Gildo de Freitas também. Gaucho da Fronteira também é tradicionalista.

OT: Então a diferença é a de o tradicionalismo tem regras mais estritas e o nativismo aceita outras influencias, não apenas do RS.

Sim, e não só isso. As músicas têm letras diferentes. Os nativistas usam mais expressões castelhanas, dentre outras coisas.

OT: Há alguns dias, tivemos uma notícia sobre a instalação de rodeios country no RS, que são copias de rodeios que existem no interior de SP. Qual a sua opinião acerca disso?

CFS: Eu não sou contra, mas eu acho que nós, gaúchos, ainda temos muito o que construir no que diz respeito à tradição. O rodeio country eu acho que poderá entrar, mas acho que não vai ficar. Será assistido por aqueles que desconhecem a tradição. É bonito de se ver, a abertura é espetacular, 30 mil pessoas, tu vais ao interior de SP e vês a beleza que é. Mas não acho que vá continuar.

OT: A música caipira do interior de SP e MG tem elementos semelhantes ao nosso, não é?

CFS: Sim, muitos. Usam muito a viola. É um instrumento de dez cordas. O caipira é muito respeitável. Tonico e Tinoco, por exemplo. São pessoas que tem a história comprovada, assim como nosso Texieirinha.

OT: O Teixeirinha é um caso interessante. Ele era nos anos 60 e 70 era visto de lado por algumas pessoas e hoje ele é objeto de tese de doutorado, inclusive de uma ex-professora minha, a Miriam Rossini.

CFS: O ser humano tem um grave defeito: homenageia personalidades depois que morrem. Nós, no nosso movimento, procuramos homenagear as pessoas em vida. Eu, por exemplo, furei lona de circo pra assistir Mary Terezinha e Teixeirinha (risos).

OT: Surge outra questão: a figura do gaúcho. O gaúcho é um fenômeno somente do RS ou é também do Uruguai, Argentina e Paraguai ? Há quem diga que é diferente. Carlos Reverbel, por exemplo. Alguns defendem a tese da pampa transnacional, um espaço geográfico e cultural que se estenderia por todo o pampa, com o mesmo elemento básico, que é o gaúcho ou gaucho. Qual a sua opinião acerca disto?

CFS: Aí vou defender a minha terra. O gaúcho é diferente dos gauchos. Estes existem até no Paraguai, mas o nosso gaúcho é diferente. Por exemplo: vou te citar um gaúcho que eu conheci. Conheci um peão com 24 anos que nunca tinha saído da porteira da fazenda. Um cara com extrema competência na lida do campo e montava em pêlo. Isso em Dom Pedrto. Quando o vi, ele me olhava à distancia, desconfiado, meio cabreiro, e depois ele se aproximou junto ao fogo de chão enquanto eu estava tocando. Era um cara meio tipo índio. Esse é o perfil do nosso gaúcho. É um cara da lida campeira. Nós aqui tentamos conservar esse cara lá de dentro da fazenda.

OT: Mas o gaúcho do RS se diferencia do gaucho platino?

CFS: Sim. Por exemplo. Em vez de usarem a guaiaca eles usam a faixa porque, em lugares mais frios, pros lados da Patagônia, no sul da argentina, precisam proteger o corpo. Quando enxergares uma faixa, pode ter certeza que tem ligação com a Argentina.

OT: O gaucho daqui então é um tipo específico do Brasil, como o caipira, o pantaneiro, o tropeiro e outros?

CFS: Sim, exato. O pantaneiro por exemplo, só existe no Pantanal. E o nosso gaúcho só existe aqui mesmo. Um típico pantaneiro tu reconheces logo que ele chega na rodoviária. Usando o berrante. Ele utiliza como instrumento de trabalho. Aqui nós usamos o sinuelo.

OT: Fala-se que o RS teria uma ligação histórica com os países do prata. É algo que já virou até lugar-comum. Por outro lado, Dante de Laytano fala que havia a influencia do espanhol deste lado e do português do outro. Há inclusive a tese de que o chamamé seria originário da chimarrita açoriana….

CFS: Há que se respeitar, porque o ritmo é parecido. Mas eu falaria também da imigração alemã e italiana. Na culinária, por exemplo, ela é forte, com a polenta, a massa campeira, salsichão,  carne de porco. E isso é aceito pelo tradicionalismo.

OT: O tradicionalismo tem um lado político?

CFS: Bom, nos somos políticos por natureza, nos , como seres humanos. Mas nas entidades, nos eventos, não costumamos falar. Até porque o MTG veda falar de política dentro das reuniões. Por isso procuramos nos preservar um pouco dessa área.

OT: Nosso tradicionalismo é o mais forte do país?

CFS: É, sim. Temos no Brasil e fora dele, até em Nova York temos CTG, na Europa, Canadá. É o maior movimento cultural do país. Algumas pessoas não reconhecem isso porque querem defender a sua terra ou por desconhecimento. Mas nós estamos espalhados por todo o país.

OT: No exterior, a comida associada ao Brasil é o churrasco, não como comida especialmente gaúcha, mas sim brasileira. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo. É o país do carnaval, do futebol e do churrasco.

CFS: Exato. E eu tenho experiência de ver isso na Bahia, em Macaé, no interior do RJ, onde eu fiquei três meses e comi muito churrasco e ensinei muita gente. Aqueles que participaram saíram fazendo, de acordo com o que eu ensinei.

OT: Que livros o senhor indicaria para quem quer começar a estudar a cultura gaúcha?

CFS: Bom, nós temos uma farta literatura. Na nossa própria biblioteca do parque Eduardo Gomes temos 660 livros. Para começar, Barbosa Lessa e Paixão Cortes. O Paixão está lançando um novo agora, inclusive. Para os canoenses, eu diria, visite a BiblioParque onde vai encontrar muita coisa, inclusive a história de fios, tecidos, indumentária.

OT: Onde fica a sede da ETC?

CFS: Fica dentro da ASMC da prefeitura. Nosso endereço é rua Nerci Pereira Flores, número 179, Harmonia. CEP 92310-150.

Leia também: “Seu carmo”, o tradicionalismo busca espaço na política

 

setembro 19, 2011 Posted by | Entrevistas, Geral | 4 Comentários

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